Capítulo 7
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Pouco depois das três da tarde, como prometido, Kate e Andrew apareceram.
Eu tinha tomado banho e ficado apresentável depois de passar o dia de pijama e %Aidan% fez o mesmo. Tínhamos maratonado alguns episódios de
Pretendente Surpresa até que percebemos que estava quase na hora da visita.
Ele estava ao meu lado quando abri a porta, sendo envolvida em um abraço de Kate no instante em que ela me viu.
— Meu Deus, que bom que você tá bem — ela murmurou. — Ainda tá sentindo dor?
— Só um pouco dolorida, mas com quase nenhum machucado — contei, enquanto ela cumprimentava %Aidan% rapidamente com um abraço.
Então foi a vez de Andy me envolver em um, me tirando do chão por um instante em seu abraço de urso. Eu ri, retribuindo, mas dois segundos depois, senti um puxão no meu short.
Era %Aidan% com o dedo enfiado no passador de cinto, não muito discretamente me puxando para ele, enquanto cumprimentava Andrew com um sorriso.
— E aí, Andrew? Venham, vou pegar algumas bebidas pra gente — %Aidan% se ofereceu, enquanto eu os levava para o sofá.
— Como você tá, %Lexi%? — Andrew perguntou, se jogando no sofá ao lado de Kate.
— Confusa. Não sei se ficaram sabendo, mas eu meio que dei uma viajada.
— Como assim? — Kate franziu o cenho.
— Eu tive um sonho enquanto tava inconsciente. Sonhei que fui parar no corpo da Ayla e tava vivendo o enredo de
Tenaz. O médico acha que foi um mecanismo de defesa.
— Sério? E como foi? — Minha amiga perguntou. Eu sabia que ela ia achar interessante, afinal, era sobre o livro dela.
— Ela tinha meu rosto e o Dean era o %Aidan%, e... Era como se fosse antes de começar a história. Eu lembro de almoçar com Karina e Tiana e esbarrar no Dean num prédio administrativo. Fiquei até pensando em como a Ayla não reparou nele, por que tipo, ele era
a cara do %Aidan%.
Andrew começou a rir e Kate o acompanhou.
— Nossa, que viagem mesmo, %Lexi% — ele comentou.
%Aidan% apareceu com uma jarra de limonada que tinha feito mais cedo e nos serviu, antes de se sentar ao meu lado.
— A gente morrendo de preocupação e você vivendo uma fanfic com seu próprio namorado — Kate disse. — Pelo menos, deve ter sido divertido.
— Mais ou menos. Acordei segundos antes do primeiro beijo.
— Olha pelo lado bom, você pode beijar seu próprio Dean a qualquer momento — ela brincou.
Senti o rosto esquentar e %Aidan% colocou uma mão em cima da minha. Olhei para ele rapidamente, antes de me voltar para os meus amigos.
— Então... Sobre isso... Eu meio que esqueci do %Aidan%.
— Esqueceu o quê? — Andy perguntou, confuso.
— Esqueci do nosso relacionamento. Eu só lembro dele como fã. Pra mim, é como se ontem fosse a primeira vez que nos encontramos.
— %Lexi%... Isso é... — Kate começou, surpresa, mas sua voz morreu.
— Uma merda — Andy completou. — Vocês moram juntos, como isso é possível?
— Sei lá. — Dei de ombros. — Mas o médico acha que é temporário.
— Você esqueceu de mais alguém ou alguma coisa? — ele quis saber. — Sua irmã, ou o trabalho?
— Não, nada. Só de %Aidan%. — Fiz uma careta. — Mas tenho certeza de que vou lembrar em breve.
— Espero que sim. Eu comecei a escrever
Oblíquo — Kate anunciou. — Eu sei que estamos de folga ainda, mas posso te enviar algo semana que vem pra você ir opinando.
— Seria ótimo. Eu meio que tô sem o que fazer.
Conversamos por quase uma hora, até que eles foram embora. Pouco tempo depois, %Camille% chegou. E pela cara dela, eu já podia imaginar seu cansaço. Mais uma vez me senti culpada por fazer minha irmã atravessar a cidade quando trabalhava tão perto do local onde morava. No trânsito caótico de Nova York, sair de Manhattan até o Brooklyn levava mais de uma hora.
%Cami% passou direto para o quarto e eu a segui. Ouvi o chuveiro ser ligado e me joguei na cama para esperar até que ela saísse. Levantei a cabeça alguns minutos depois, quando ouvi a porta do banheiro abrir e me sentei na cama.
— Como foi hoje? — perguntamos ao mesmo tempo e rimos juntas.
— Cansativo — ela respondeu, secando o cabelo com uma toalha. — Fazia tempo que eu não percorria uma distância tão longa dentro dessa cidade porque até o hospital era mais perto. E o seu dia?
— Foi bom. Um pouco estranho, mas confortável. %Aidan% e eu ficamos juntos a maior parte do tempo.
— Como você tá se sentindo em relação a ele?
— Ontem foi muito estranho, mas hoje... Me senti bem à vontade. Inclusive, era sobre isso que eu queria falar com você. Acho que não faz muito sentido você ficar percorrendo essa distância toda por minha causa.
— Ei, tá doida? Você é minha irmã. É óbvio que faz sentido. Você nem lembra do seu namorado, deve ser estranho ficar com ele.
— Na verdade... — comecei a falar.
— O quê? — %Cami% me encarou, atenta. — Aconteceu alguma coisa? Você lembrou se algo?
— Tive um flash de memória pouco antes de você sair feito um furacão. Eu perguntei a %Aidan%, sabe, pra ter certeza de que não era parte de um sonho ou algo assim, mas ele disse que foi a noite que nos conhecemos.
— No bar do Brandon aqui em Manhattan. Eu tava também, fomos nos encontrar com seus amigos, mas fui embora mais cedo. Você ficou conversando com Karol e Brandon e aconteceu alguma coisa que eu não lembro e eles te pediram pra ficar lá por uns trinta minutos porque um cliente importante tinha alugado o bar depois da meia-noite. Era o %Aidan%.
— Sério? Qual a probabilidade disso acontecer? Eu não lembro de dizer a Brandon e Karol que eu era fã do %Aidan%.
— Pois é, não disse. Foi coincidência. Acho que você deve lembrar logo. Nós não podemos te encher de informações, senão...
— Eu sei, posso ficar sobrecarregada. Aconteceu isso hoje. — Suspirei, me jogando na cama outra vez e encarei o teto branco.
— Sim, depois desse flash, visão ou sei lá o que era, eu senti uma dor de cabeça momentânea. %Aidan% surtou e pegou um remédio, depois ficou praticamente o dia todo grudado em mim. Tirando uma ligação que ele teve que atender e quando fomos tomar banho.
— Mais cadelinha, impossível. Esse cara ama você, irmã. E não deixa nem espaço pra dúvidas. Todo mundo sabe disso. Ele te adora.
Sorri como uma boboca ao ouvir.
— Por algum motivo me sinto bem perto dele, mesmo que pareça que eu conheça ele pessoalmente só há um dia. Tipo... Parece que faz mais tempo mesmo.
— Porque faz. — %Cami% rolou os olhos, se sentando na cama também. — Vocês dois sempre tiveram uma química assim. Sempre se deram bem. Mal brigam. O %Aidan% faz tudo por você. Vocês são tão doces às vezes que eu sinto minha glicemia subir só de ver. Daqui a pouco vão começar a se pegar de novo.
— Por mais que minha mente fanfiqueira fosse adorar isso, provavelmente seria melhor irmos devagar. De todo jeito, acho que posso ficar sozinha com ele.
— Se você diz... Não era como se eu fosse me opor. — Ela deu de ombros. — Se o %Aidan% fosse um idiota, talvez sim, mas ele cuida de você melhor do que eu poderia. Vou voltar pra casa amanhã. Não venha chorar se você tiver pesadelos ao dormir sozinha aqui. Acorde seu namorado ou se esgueire pra cama dele, tenho certeza de que ele não vai se incomodar.
— Eu ainda tenho Terror Noturno com frequência? — perguntei, me dando conta que daquela parte da minha vida eu também não lembrava.
— Só quando você fica estressada e sozinha. Quando %Aidan% tá em casa, você costuma ficar bem.
— Entendi. Se ele me ajuda de alguma forma com isso, mesmo que seja só fazendo companhia, então acho que faz sentido eu não lembrar.
Talvez a presença dele me acalmasse, de fato. Eu tinha episódios de terror noturno desde o divórcio de nossos pais e embora a frequência deles tenha diminuído à medida que fui crescendo, nunca desapareceu. Eu não tinha ideia como era ter esses episódios sozinha, pois até onde me lembrava, %Cami% sempre estava a uma ligação ou uma porta de distância.
Quanto a %Aidan%... Eu não conseguia me ver ligando para ele do outro lado do mundo só para obter apoio emocional por causa de um pesadelo idiota provocado por estresse.
— Além disso, tenho certeza de que %Aidan% tem outros métodos eficazes pra te fazer aliviar o estresse — %Cami% acrescentou com um sorrisinho, me tirando de meus pensamentos.
— %Cami%! — Eu ri, batendo com um travesseiro nela.
— O quê? Não é como se fosse mentira — ela brincou e se levantou, indo em direção à porta. — Vamos continuar essa conversa na cozinha, eu tô morrendo de fome.
***
Uma semana depois, eu ainda estava na estaca zero. Já fazia quase duas semanas desde o meu acidente e eu ainda não tinha lembrado de nada.
Meus últimos dias se resumiram a ler, comer e ver doramas com %Aidan%.
Embora me desse algum tempo sozinha quando se trancava no estúdio, %Aidan% fazia questão de passarmos um tempo de qualidade juntos.
Eu não estava reclamando, é claro.
Depois que %Cami% voltou para seu próprio lar, eu passei a dormir sozinha no quarto de hóspedes e felizmente não tive nenhum episódio de terror noturno. No entanto — e infelizmente —, eu também não consegui dormir direito à noite, o que acabou me fazendo tirar breves cochilos durante o dia.
Agora eu estava de um lado do sofá com meu tablet em mãos, lendo os primeiros capítulos do próximo livro de Kate, enquanto %Aidan% estava no outro, com fones de ouvido com cancelamento de ruído, encarando a tela de seu laptop.
Eu era extremamente curiosa sobre seu processo criativo e tentei dar umas espiadas ocasionalmente, mas não é como se eu fosse entender algo sem escutar nada. Ele também não me deixava ler as letras enquanto estava escrevendo músicas, o que era um porre. Então em certo momento, eu meio que desisti de tentar. Sabendo que não ia conseguir nada, sugeri que ele voltasse para o estúdio, já que provavelmente era mais confortável trabalhar lá. Eu havia visto o tanto de equipamentos que ele tinha e ficar ali no sofá só para me fazer companhia parecia não fazer muito sentido.
Não é como se eu fosse passar mal nem nada. Aconteceu só o primeiro dia, quando tive aquele flash de memória de quando nos conhecemos, mas depois nada, zero,
nadica de nada. Eu achei que iria conseguir lembrar de nós logo, e isso não ter acontecido ainda me deixava ansiosa. No entanto, tentei ao máximo transparecer tranquilidade. Eu não queria que %Aidan% se preocupasse mais ainda comigo.
Desviei o olhar da tela do tablet e o encarei discretamente enquanto ele trabalhava. Aquele arranjo entre nós, cada um trabalhando de um lado, vinha se repetindo há cerca de três dias e eu não podia evitar lembrar de Ayla e Dean.
Não retornei para o livro em nenhum momento durante meu sono, mas eu meio que sentia falta. Porque se o sonho era tão realista, então sim, eu queria viver um pouquinho na pele da protagonista. Menos nas cenas perigosas, é claro. Eu não estava interessada em ter meu celular roubado e ser agredida na rua. De jeito nenhum.
Mas seria bom viver um pouquinho de romance.
Até porque nada aconteceu entre mim e %Aidan% na última semana. Nós tínhamos uma necessidade mútua de tocar um ao outro, mas não tinha passado de nada além de abraços ou beijinhos na testa ou rosto. Nada de mais. O máximo que fizemos foi deitar juntos no sofá para assistir TV juntos.
Então comíamos juntos e à noite, cada um seguia para seu próprio quarto.
Durante aquele tempo, eu li mais de nossas mensagens trocadas e àquela altura eu já tinha lido as do ano anterior inteiro. Eu até sentia que conhecia %Aidan% mais um pouquinho, mas era como conhecer um protagonista. Nossas mensagens eram parte da nossa história e felizmente, eu não tinha deletado nenhuma.
Eu estava feliz por passar tempo com meu então namorado e até nos divertimos juntos, mas honestamente... Eu não era uma grande fã de
slow burn. Eu tinha plena consciência de que tinha planejado levar as coisas devagar enquanto eu não lembrava do nosso relacionamento, mas já estava começando a ficar impaciente. Eu tinha que me policiar para controlar os movimentos de minhas próprias mãos ou àquela altura, elas já teriam criado vida própria e se livrado de todas as roupas de %Aidan%.
Mas ninguém podia me culpar, certo?
Até onde eu sabia, casais que moram juntos eram praticamente casados. Então era normal me sentir atraída pelo meu
namorido. Eu só não sabia até quando o meu autocontrole iria durar. Ou o de %Aidan%. Porque não passou despercebido por mim que ele também tentava se controlar e às vezes forçava certa distância entre nós por causa disso.
Resumindo, éramos dois idiotas querendo se pegar, mas nenhum tomava atitude com medo do outro achar estranho ou ficar desconfortável. E eu meio que tinha certeza de que
ele não faria isso de jeito nenhum. Mas eu o queria. Queria reconhecer ele por inteiro. E só o pensamento disso enviava mais borboletas para meu estômago.
Daqui a pouco eu iria vomitar borboletas porque elas não iam mais caber.
E ele parecia tão atraente enquanto trabalhava... Era impossível não admirar a visão. Trabalho braçal? Isso era ultrapassado. Eu sempre gostei mais de
cérebros. E o de %Aidan% era bem sexy. Tínhamos passado horas conversando sobre coisas aleatórias e eu achava fascinante o jeito como ele via as coisas e como era parecido como eu mesma via. Nós éramos opostos em muitas coisas e ele era definitivamente mais sensível do que eu. Às vezes, %Aidan% viajava um pouquinho às vezes com coisas que para mim não faziam o menor sentido e eu tinha que me segurar para não revirar os olhos. Eu amava arte e música desde sempre, mas havia um limite de tolerância entre o que eu achava legal e exagerado. Sempre fui mais prática e tinha coisas que eu simplesmente nem me esforçava para gostar. Por exemplo, música indie. Nada contra, mas não era meu estilo. E %Aidan% adorava várias. Por outro lado, eu curtia punk rock e ele não.
Mas também tínhamos muito em comum. Aparentemente, eu tinha feito igual a Ayla e obriguei ele a aprender todas as músicas dos meus musicais favoritos. Isso era quase como ganhar na loteria porque era de conhecimento geral como %Aidan% %Callahan% era chatinho e seletivo. Foi uma alegria descobrir que eu o tinha convencido a fazer muita coisa. Além disso, ambos amávamos músicas mais antigas, entre os anos setenta e noventa. Algumas vezes coloquei música para tocar enquanto cozinhava algo e logo %Aidan% aparecia cantarolando comigo.
Eu me sentia uma protagonista em meu próprio livro vivendo todos as minhas fantasias de fanfiqueira.
Eu ainda não havia arrancado as roupas de %Aidan%. E de novo, eu não tinha ideia de quanto tempo eu ia aguentar antes de meter o louco e fazer isso.
Como se sentisse o rumo que meus pensamentos estavam tomando, %Aidan% resolveu me encarar naquele momento, e tirou o fone de ouvido antes de falar.
— O que foi? Tá sentindo alguma coisa?
Eu com meu bom cérebro maluco, respondi sem pensar:
— Tô sim. Vontade de morder você todo.
Eu quis bater na minha própria boca. Meu cérebro devia estar com defeito de filtragem também. Mas então %Aidan% inclinou a cabeça para o lado levemente, um sorrisinho malicioso aparecendo em seus lábios.
— Você sabe que não precisa pedir. Eu sou todo seu. É só vir, amor.
Ah, eu estava a um passo de largar o tablet e pular em cima dele. Mas algum ser celestial deve ter tocado na minha cabeça e me feito rir, como se achasse que ele estava brincando.
Eu não achava. Depois de toda a sabedoria adquirida como fã de %Aidan% e uma semana passando a maior parte do tempo com ele, eu
sabia que ele estava falando sério. Aposto que conseguiria me levar pra cama só com um olhar. Eu iria de bom grado, a qualquer momento.
E de verdade, eu merecia um prêmio por controlar meus próprios impulsos.
Me levantei com uma desculpa de preparar um lanche da tarde e aquele curto momento de tensão foi deixado de lado, assim como todos os outros que vieram antes dele.
Naquela noite de quinta, mais uma vez nos separamos para dormir e eu rolei algumas vezes na cama, tentando pegar no sono. Li por duas horas o terceiro livro da série de fantasia que eu tinha começado na semana anterior, e nem assim fiquei com sono.
Não faço ideia de que horas eram quando finalmente consegui adormecer.
Mas no dia seguinte, acordei com um barulho de despertador irritantemente familiar.
Abri os olhos e encarei o teto branco, de repente sabendo exatamente onde eu estava. Só para ter certeza, passei a mão pelo cabelo, percebendo que ele estava curto. Um sorrisinho levantou os cantos da minha boca e me sentei na cama, animada.
Eu tinha voltado para o corpo de Ayla %Danforth%.