Capítulo 6
Tempo estimado de leitura: 17 minutos
Não sei onde eu estava com a cabeça quando decidi começar uma série de fantasia de seis livros com bullying, harém reverso e alguns personagens odiosos, mas depois de meia madrugada e cerca de uma hora depois que me joguei no sofá para voltar a ler, eu estava quase terminando o primeiro livro.
%Aidan% ainda não tinha voltado depois de sair para atender a tal ligação de Jace, e eu fiquei entretida demais com o enredo da história. Eu nem tinha certeza se estava gostando, mas me manteve curiosa.
Deitada de bruços no sofá largo e o celular próximo do rosto, eu estava prestes a terminar o último capítulo quando um peso caiu em cima de mim e tremi de susto, um segundo antes de notar que era %Aidan%.
— Hm, que sofá confortável, acho que vou tirar uma soneca aqui — ele murmurou, fingindo que eu não estava ali.
— %Aidan%, cara... Não me leva a mal, mas você é muito pesado...
Ele riu no meu ouvido, me fazendo arrepiar, e deu um beijinho atrás da minha orelha antes de rolar para o lado.
O sofá era tão largo que cabia nós dois ali com folga. Pensei em me virar para ele, mas quis terminar o livro antes, então voltei a prestar atenção na tela do celular. Ele apoiou a cabeça em meu ombro.
— O que você tá lendo? — ele quis saber.
—
Shh… Eu tô quase acabando. — Corri os olhos rapidamente pela tela, faltavam apenas uns dois parágrafos.
Ouvi %Aidan% suspirar, mas não dei atenção. Um parágrafo, apenas alguns segundos e...
— Que porra. Terminou em
cliffhanger. Vou ter que ler o segundo livro agora... — comentei comigo mesma, já procurando a sequência para baixar, quando meu celular foi tomado de mim. — Ei, me devolve!
%Aidan% habilmente escondeu o celular entre as almofadas do sofá, rindo das minhas falhas tentativas de recuperar o aparelho. Suspirei, resignada e levemente ofegante, e me deixei cair em cima dele. Eu estava apoiada em seu peito e só então o encarei.
— Por que seu nariz e olhos estão vermelhos? Você saiu pra fumar?
— Eu parei de fumar, %Lexi%.
— Parou? E eu por que eu não lembro disso, se me lembro de você como fã?
— Porque eu nunca contei publicamente. Além disso, parei por sua causa. Você passou uns seis meses me falando como era ruim pra saúde e como o cheiro de cigarro era desagradável. Me proibiu até de te tocar depois de fumar.
—
Eeeu? — O encarei, surpresa. — Por quê?
— Porque você sempre odiou cigarro, e também porque descobrimos que você é alérgica.
— O quê? Desde quando? — Franzi o cenho.
— Você não lembra disso? — %Aidan% perguntou, mas depois pareceu entender. — Acho que deve ser porque eu tava com você. Eu te acompanhei na consulta com um alergologista.
— E como aconteceu? Tipo... Como eu nunca descobri isso antes?
— Acho que foi porque você nunca conviveu com nenhum fumante antes de mim. Mas tá tudo bem agora. No início, foi chato, mas usei alguns adesivos de nicotina por um tempo e, hoje em dia, sempre tenho chicletes no bolso pra ajudar quando dá vontade.
— Caramba... — Eu tinha provocado aquilo? Mas era bom, né? Bem mais saudável para nós dois. — E por que seus olhos estão vermelhos? Aconteceu alguma coisa?
%Aidan% sorriu levemente e passou um braço ao redor da minha cintura. Não enrijeci em surpresa dessa vez, o toque deve era confortável.
— Nada, acho que vou ficar resfriado. Deve ser a mudança de clima depois de viajar — ele explicou. — E agora eu quero atenção.
Sorri, achando engraçado.
— Por quê? Você tá carente, é?
— Você pode me culpar? Nunca ficamos tanto tempo longe desde que começamos a morar juntos.
— Nossa... Quem diria? Eu achava que você era bem mais introspectivo, mas gosta de um grude. E é mais gentil do que imaginei. Atencioso também. Você sempre me deu bom dia primeiro nas mensagens de texto. Achei fofo.
%Aidan% riu baixinho e acho que ele estava se divertindo um pouquinho comigo reconhecendo ele outra vez, por mais que nossa situação fosse deprimente.
— Você disse isso antes, quando a gente começou a namorar. E que achava que eu era meio
bad boy. — Você tem cara de
bad boy mesmo — reforcei. — Mas é como um gatinho camarada. Você vai amassar pãozinho na minha barriga também?
— Só se você quiser. Mas acho que te encher de beijinhos é mais agradável. — Ele levantou a cabeça, me roubando um selinho.
Segurei um sorriso e apoiei o queixo nas minhas mãos, ambas espalmadas no peito dele.
— Kate disse que vem me ver hoje, e Andrew vem junto.
— Andrew, é? — %Aidan% perguntou, tentando não fazer uma careta, mas seus olhos denunciavam seu desagrado.
— Você não gosta do Andy, %Aidan%?
—
Andy? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Tá chamando ele por apelido agora?
— Nunca parei de chamar. — Dei de ombros.
— Mas nunca chamou na minha frente. E não é que eu não goste dele, mas ele é seu ex, %Lexi%.
— E daí? Você parece ter ciúmes dele.
— Eu tenho ciúmes de qualquer ex seu.
— Eu só tenho dois e nem faço ideia de onde anda o outro.
— É suficiente. Além disso,
Andy foi seu primeiro relacionamento sério. Eu sei de tudo. — Ele estreitou os olhos, meio emburrado.
Achei fofo. Embora estivesse claro para mim que %Aidan% estava falando muito sério.
— Olha pelo lado bom, nós somos amigos. Você nunca terminou em bons termos com uma namorada? — perguntei sem pensar e me arrependi no mesmo instante. — Na verdade, não responda. Eu não quero saber.
— Eu também não queria saber, mas o
Andy é seu chefe — ele retrucou, sarcasticamente enfatizando o apelido de Andrew pela segunda vez. — Não posso fazer nada a não ser aceitar. E você passa mais tempo com a Kate, de qualquer forma.
— Mesmo que não passasse, não é como se eu fosse voltar pro Andrew ou algo assim.
Seria burrice. Logicamente falando, quem deixaria %Aidan% %Callahan% por qualquer outro cara normal?
Andrew era bonito também e engraçadinho, mas %Aidan% tinha o molho, um charme a mais. Além disso, quaisquer sentimentos românticos que eu tinha pelo meu ex tinham parado de existir muito antes de eu conhecer ele.
— Não vai funcionar, %Lexi%. Eu ainda vou ficar com um pé atrás.
— Você não confia em mim?
— Claro que confio, só não confio nele. Ou qualquer outro homem que chegue perto de você.
— Que ciumento — brinquei. — Mas idem. Embora eu não tenha muita escolha também. Na verdade, acho bom que você abrace muitas fãs e façam elas felizes.
— Ah, é? Que empática — ele disse, no mesmo tom de voz que eu.
— Eu já tenho você há três anos, então é mais do que justo te dividir um pouquinho, desde que em local público e com testemunhas ao redor.
— Quem é que tá com ciúmes agora?
— Eu não lembro, mas tenho certeza de que você deve ser pior que eu nesse aspecto.
—
Touché. Sou mesmo — ele admitiu. — Você é só minha. — E me apertou contra ele, me fazendo rir. — E como casamento tava fora de cogitação pra nós dois, arrumei outro jeito de te amarrar a mim, e assim acabamos morando juntos.
— Que papo é esse? — perguntei, rindo, sem saber se ele estava falando sério ou não.
Eu já tinha visto %Aidan% em programas de TV agindo completamente sério enquanto falava a coisa mais irônica ou mentirosa de todas, só para fazer graça.
Ele riu comigo e depois caímos em um silêncio confortável. Ficamos assim por alguns minutos, até eu perceber que ele tinha adormecido. Rolei para o lado, saindo de cima dele e pensei em levantar dali, mas ele me abraçou em seu sono.
Ri pelo nariz e desisti de escapulir. Meu celular ainda continuava perdido nas almofadas, então decidi aproveitar a oportunidade de me aconchegar com ele e tentar tirar uma soneca também.
Adormeci pouco tempo depois.
***
Acordei com um barulho de chuva batendo na parede de vidro da sala — havia uma ali também — e abri os olhos devagar, apenas para encontrar os de %Aidan%, me encarando com uma ternura desconcertante.
Aquele era o olhar que eu imaginava que todos os protagonistas dos romance que eu lia deviam ter quando estavam apaixonados. Eu não lembrava de ver nem mesmo Andrew com um, e nós tivemos um bom relacionamento. Mas talvez tenha sido esse o motivo dele acabar. Sentíamos atração um pelo outro, mas ainda éramos mais amigos que qualquer outra coisa.
Com %Aidan% era diferente.
Ele era um protagonista bobão e cadelinha que faria tudo por mim. Nem sei de onde tirei essa percepção, mas tinha certeza de que era assim. Ninguém nunca tinha olhado para mim com tanto cuidado e amor. Nem mesmo minha mãe.
Mas ela não era alguém que costumava fazer isso com qualquer pessoa, de toda forma. %Cami% e eu saímos de casa desde a faculdade e fomos morar juntas desde então. Minha irmã era cinco anos mais velha que eu e teve que dividir apartamentos ruins com pessoas odiosas em Nova York. Felizmente, eu a tive como colega de quarto quando foi a minha vez. Nossa mãe era divorciada de nosso pai desde que eu tinha dez anos e agora ambos tinham suas novas famílias. %Cami% e eu éramos as ovelhas negras, um lembrete do erro que foi o casamento dos dois.
Então não fiquei surpresa que minha irmã nem sequer mencionou nosso pais depois do acidente, eles provavelmente nem sabiam que eu tinha sido atropelada. Ou sabiam, já que eu sabia que tinha vazado na internet. De todo modo, não tínhamos contato. %Cami% era a única que ainda tinha o número de contato dos dois e vice-versa, mas nunca fez diferença já que não havia interesse de nenhuma das partes, incluindo nós mesmas.
Estávamos nos apoiando uma na outra há uma década e o que menos queríamos era ter que lidar com parentes que mal nos conheciam, apesar de terem nos criado, cada uma, por dezoito anos.
Então sim, ver %Aidan% me encarando daquela forma me fez sentir tão querida que meus olhos arderam com vontade de chorar.
— Oi de novo, bela adormecida. — Ele brincou. Imaginei que ele certamente devia ter acordado alguns minutos antes de mim.
Estiquei o braço para tocá-lo no rosto e saí deslizando suavemente o dedo indicador por seus traços. %Aidan% fechou os olhos com o pequeno carinho e havia o menor dos sorrisos em seus lábios.
Meu coração se apertou mais uma vez, desesperado por lembrar de nós, mas disse a mim mesma para parar de pensar naquilo. Não fazia nem vinte e quatro horas desde a minha alta do hospital. Mas ao mesmo tempo, os momentos que eu passava com ele faziam o tempo parecer lento. Era como se cada minuto fosse precioso. Era como se a cada segundo, eu conhecesse ou ficasse familiarizada com %Aidan% um pouco mais.
Naquele momento, mesmo sem lembrar de nada, eu fiquei incrivelmente confortável, o que era meio estranho. Ele podia ser %Aidan% %Callahan%, meu artista favorito, mas ainda assim era um homem com quem eu não lembrava de conviver.
Meu curto período de desconforto se resumiu a algumas horas e durou até eu descobrir um pouquinho sobre nós, mesmo por conta própria. As mensagens tinham sido o principal fator nisso, mas meu celular também estava cheio de fotos nossas. Nossa química era quase palpável.
— Há quanto tempo você tá acordado? — perguntei baixinho, desenhando rabiscos na bochecha dele com o polegar.
%Aidan% abriu os olhos para me encarar outra vez.
— Uns dez minutos. A gente dormiu por mais de uma hora. Você tá com fome? Pensei em pedir almoço.
Abri a boca para dizer que ainda não tinha fome, mas meu estômago roncou naquele momento e %Aidan% riu.
— Pelo visto, tô com fome mesmo — admiti e me levantei, dando espaço para ele.
%Aidan% se sentou e tirou meu celular de algum lugar entre as almofadas e o entregou a mim.
— Só porque você foi uma boa menina e me deu atenção.
Rolei os olhos instintivamente, com um sorriso brincando nos meus lábios.
— Tô lendo um harém reverso — comentei. — A protagonista tem cinco parceiros, um mais poderoso que o outro. É fantasia, mas no mundo moderno.
— Caramba, cinco parceiros... — %Aidan% assobiou. — Como ela faz pra administrar esse tanto de gente?
— Eis a questão. Eu ainda tô na parte em que eles tão tratando ela feito lixo. E fazendo bullying.
— O quê? Por quê? Você não disse que eles são parceiros? — Assenti. — Por que eles a tratam mal, então?
— Porque ela provocou isso. Ela fez com que a odiassem e fugiu deles por anos, recusando o laço de parceria. Mas eles conseguiram pegar ela, e um deles até implantou um chip nela que ele ameaçou explodir se ela tentar fugir de novo.
— Quê?! — %Aidan% riu, incrédulo. — Por que você tá lendo essas coisas, %Lexi%?
— Porque me mantém entretida. — Dei de ombros. — Além disso, é fantasia. É normal acontecer essas coisas nos livros. Não sei se vou ler tudo, mas fiquei curiosa. E são cinco caras, um mais bonito e poderoso que o outro. Quero só ver quando eles começarem a ficar todos protetores pra cima dela — acrescentei com uma risadinha.
%Aidan% balançou a cabeça.
— Você tem uns gostos bem peculiares, amor.
Sorri para ele, piscando os olhos repetidamente e ele riu, antes de pegar o próprio celular e abrir um aplicativo para pedir comida.
Me inclinei para espiar e minutos depois, o pedido estava feito. %Aidan% ligou a TV da sala quando acabamos e abriu a Netflix. Escolhemos ver
Pretendente Surpresa, e ali estava outra coisa que eu não lembrava: eu tinha arrastado %Aidan% para o mundo dos doramas e ele não se importava nem um pouquinho em ver comédias românticas bobas comigo.
Aparentemente, além de fã maluca e com gostos peculiares, eu também era uma mulher muito sortuda.
Parecia um sonho muito bom, mas felizmente, agora eu sabia que não era um.