Capítulo 5
Tempo estimado de leitura: 17 minutos
A primeira noite que passei em casa após voltar do hospital foi bem mais ou menos.
Minha cabeça estava cheia e fiquei pelo menos duas horas lendo antes de deixar o celular de lado e tentar dormir. Demorei mesmo assim. Fiquei tentada a navegar na internet, mas sabia que não era uma boa ideia. Não quando meu namorado de três anos era um astro do R&B e nosso relacionamento era público. Eu não precisava ver para saber que as pessoas provavelmente estavam fofocando sobre nós. Então decidi me contentar só com aplicativos de leitura e até excluí os de todas as redes sociais que eu tinha.
Acordei no dia seguinte por volta das sete e meia da manhã e me levantei para ir ao banheiro. Fiz minha higiene matinal, notando que o último absorvente que coloquei antes de dormir ainda estava limpo e imaginei que o sangramento já havia passado por completo. Joguei fora e então escovei os dentes e lavei o rosto, antes de deixar o quarto.
Andei pelo corredor até a cozinha enquanto amarrava meu cabelo com um nó em um coque alto e passei pela porta do quarto de %Aidan% (ou melhor, nosso), notando que ainda estava fechada; o completo silêncio ao redor me fez pensar que ele ainda estava dormindo.
Era quinta-feira e eu havia passado metade da semana inconsciente em uma cama de hospital, então talvez fosse por isso que minha necessidade de sono tinha diminuído. Já %Aidan% devia estar o contrário, coitado. Uma parte de mim se sentia um pouquinho mal por ser o motivo das noites mal dormidas dele. Mas a outra estava tipo:
ah, isso é o quanto ele se importa com você. Eu sempre acreditei que atitudes falavam mais do que palavras e não precisei de muitas horas para entender que os sentimentos que %Aidan% tinha por mim eram reais, eu só não sabia ao certo a extensão deles.
Como fã completamente
delulu das ideias, sempre me perguntei como seria estar do lado dele. %Aidan% era meu favorito há sete anos, mas por mais
delulu que eu fosse — e era divertido —, eu sabia que não passava disso. Ou pelo menos era o que eu acreditava até descobrir que somos um casal há três anos.
Dava vontade de rir de nervoso toda vez que eu lembrava disso. Eu não sabia por que minha mente havia bloqueado essa informação depois do acidente. %Aidan% e eu nem estávamos brigados nem nada e nós nem discutíamos com frequência. Além disso, se eu pudesse escolher, obviamente optaria por nunca esquecer tudo o que vivemos.
Mas tudo estava confuso pra cacete e eu nem tinha o que fazer.
Muito legal. Suspirei, resignada, e comecei a cutucar os armários da cozinha e a geladeira em busca de comida para o café da manhã. Tecnicamente, aquela era minha casa, então resolvi ficar à vontade. Não era como se %Aidan% fosse ligar, já que queria que eu ficasse confortável de novo.
Encontrei iogurte e frutas na geladeira e resolvi fazer uma salada. Havia pão também, de um massa bem macia, e não pensei duas vezes em tirar algumas fatias para fazer torradas na manteiga.
Eu estava no meio do processo quando senti braços fortes ao meu redor. Larguei a faca e enrijeci levemente, surpresa por não ter notado %Aidan% se aproximar, e minha pele arrepiou quando ele encostou o queixo no meu ombro, as pontinhas molhadas do cabelo dele fazendo cócegas no meu rosto.
Minha mão coçou com um impulso de enfiar os dedos no mar de fios negros dele, mas me contive. %Aidan% suspirou e começou a falar.
— Eu sei que você ainda não tá acostumada comigo, mas vamos ficar assim só um pouquinho — ele pediu suavemente.
— Tudo bem… — Relaxei em seu abraço.
Ele respirou fundo e eu fiz o mesmo, sentindo um cheiro diferente. Seu corpo estava levemente frio e, por um instante, achei que estivesse sentindo o cheiro de seu sabonete, mas levou apenas um segundo para saber que era sua loção pós-barba. Eu não fazia ideia de como eu sabia que era, mas tive certeza.
Um sorriso se insinuou em meu rosto e coloquei uma mão em cima das dele, ao redor de minha cintura. Me encostei em seu peito, aproveitando o contato e %Aidan% continuou a falar.
— Eu senti tanta saudade. Passei quase dois meses sem te ver pessoalmente e então descobri que você tinha sofrido um acidente antes mesmo de sair de Chicago. A viagem pareceu tão longa que achei que não fosse chegar. Eu fiquei apavorado, %Lexi% — ele confessou baixinho, mas senti o peso de cada palavra. — Tive medo de perder você, e quando o médico disse... Quando fiquei sabendo de tudo, me recusei a sair do seu lado. Mas a cada dia que passava, fiquei mais preocupado ainda, porque você não acordava. Foi assustador.
Franzi o cenho, me sentindo triste por ele. Eu nunca tinha passado por algo assim com alguém, mas não duvidava que fosse mesmo assustador. De repente, me lembrei de uma cena de
Tenaz em que Ayla vai parar no hospital e Dean fica maluco. Eu não voltei mais para o livro (ou sonhar com ele) ao adormecer, então imaginei que fosse temporário.
De todo jeito, quando ouvi %Aidan% falar, me vi confessando baixinho também.
— Foi tão real, %Aidan%. Eu sei que parece maluquice, mas juro que vivenciei mesmo a história de
Tenaz por algumas semanas enquanto fiquei desacordada. — Me virei para encará-lo. — Acordei no corpo da Ayla, mas ela tinha meu rosto. Acho que por conta do jeito como Kate narrou, sem dar muitos detalhes para as aparências. Foi como se eu tivesse ido parar naquele universo antes da história começar, sabe? Foi estranho e divertido.
%Aidan% sorriu de leve e eu coloquei uma mão no rosto dele, voltando a falar, enquanto ele me ouvia em silêncio, prestando atenção em cada palavra.
— Você também tava lá. Você era o Dean, meu par romântico. — Sorri ao lembrar. — Por isso te chamei de Dean quando acordei.
— Parece ter sido divertido mesmo, amor. — Ele beijou a palma da minha mão e eu a deixei escorregar pela tatuagem do lado esquerdo de seu pescoço.
Era tão bonita e combinava exatamente com ele. Sorri, admirando o desenho, e passei o polegar por cima de uma das flores de ameixa.
De repente, um flash de memória apareceu. Eu e %Aidan% estávamos sozinhos em um bar amplo e eu o toquei bem ali, borrando um pouco da tinta com o polegar.
— Você já retocou essa tatuagem alguma vez? — perguntei sem pensar.
%Aidan% me encarou, surpreso.
— Há três anos? Por acaso eu esbarrei nela alguma vez? Me veio uma lembrança, mas não sei se foi real ou algum sonho que tive com você. Nós estávamos em um bar...
— Um bar grande e vazio? — Eu fiz que sim, vendo esperança brilhar em seu olhar. — %Lexi%, foi a noite em que nos conhecemos. Você lembrou, amor?
— Eu... Não sei. Acho que-
Ai! — Senti uma dor repentina na cabeça e cambaleei para frente. Teria caído se não fosse %Aidan% me segurando.
— %Lexi%? O que foi, amor? Tá com dor na cabeça? — Assenti, em silêncio. — Vem, senta aqui. — Ele me guiou para um dos banquinhos da bancada. — Vou pegar o seu remédio.
E se virou em direção a um dos armários da cozinha. Um instante depois, %Aidan% me entregou um comprimido e um copo de água, e agradeci baixinho.
— Foi momentâneo. Eu tô bem agora — tentei explicar, quando me levantei para terminar de fazer o café da manhã, mas ele não deixou.
— Não, não — %Aidan% retrucou. — Fique aí e deixe que eu cuido do café.
— %Aidan%... São só torradas e salada de frutas. Eu não tô inválida, sabe...
— E daí? Por que você não me deixa te mimar um pouquinho? — ele perguntou. — Eu quero te compensar por todas as semanas que estive longe, %Lexi%. Vou te mimar até você enjoar de mim — prometeu ele, me fazendo rir.
%Aidan% sorriu também, mas ainda havia uma tristeza em seu olhar. Ele ainda estava preocupado. Cerca de dez minutos depois, nós dois estávamos sentados, comendo em silêncio, quando %Camille% apareceu feito um furacão e roubou uma das torradas de %Aidan% antes dele colocá-la na boca.
— O que houve? — A encarei, sem entender. — Tá correndo por quê?
— Tô atrasada. Hoje é minha folga, mas falei pra uma colega que ia substituir ela hoje e esqueci. Minha aula começa às dez, mas é longe daqui.
— Tá, boa sorte! — falei, no instante em que ela atravessou a porta.
%Cami% dava aulas de inglês em uma escola do Brooklyn há alguns anos. Fiz uma careta, me sentindo mal por fazê-la percorrer uma longa distância só porque estava aqui. Ela só passou uma noite comigo e já estava com a rotina toda bagunçada. Será que eu precisava mesmo fazer minha irmã passar por isso apenas porque não estava acostumada com %Aidan%?
Encarei meu namorado (ainda era estranho pensar assim) e ponderei por alguns segundos, antes de voltar a me concentrar na comida. Por que eu precisava ter companhia quando era só o %Aidan%?
Só o %Aidan% era um eufemismo, é claro, mas fazia quase vinte e quatro horas que tudo o que ele fazia era me dar espaço ou tentar me deixar confortável e à vontade perto dele e na nossa casa. Eu poderia fingir que ele era um colega de quarto.
Tá, um colega de quarto que eu conhecia muito mais intimamente do que eu imaginava e vice-versa.
De repente, lembrei da resposta dele sobre como sabia das pintinhas do meu corpo e senti o rosto esquentar.
"Como você acha que sei?" Meu estômago se apertou com ansiedade só de imaginar e eu o encarei mais uma vez.
%Aidan% era tão bonito. E era o maldito pacote completo. Boa personalidade, rosto bonito e corpo bonito — embora eu não me lembrasse muito.
Eu sabia que ele dificilmente usava camisas de mangas curtas nas apresentações, mas em casa era diferente e estava usando uma naquele momento. Preta, sem estampas, e que marcava deliciosamente seus ombros e deixava os bíceps à mostra. Estreitei os olhos um pouquinho, admirando a visão. Eu tinha um sorrisinho nos lábios e sabia lá no fundo que eu provavelmente estava dissociando enquanto o encarava, mas não me importei.
Fiquei completamente imóvel por alguns segundos, sem nem sequer piscar e quando o fiz, notei um sorrisinho malicioso no canto dos lábios dele, enquanto mexia na própria salada de frutas.
Ah, que safado. Ele sabia muito bem que eu estava secando ele e não disse nada.
Terminei de comer rapidamente e me levantei para colocar a louça na pia. Felizmente, %Aidan% não surtou quando comecei lavar o prato, tigela e talheres que usei.
— Eu tava pensando... Acho que é melhor %Cami% ficar em casa. Posso lidar com você sozinha — comentei.
— Pode, é? — ele perguntou, enquanto eu ainda estava de costas e dei uma leve surtada ao perceber como aquela frase soou.
— Você entendeu! — respondi rapidamente e ele deu uma risadinha
nada inocente. Escutei %Aidan% descer do banquinho e um instante depois, ele estava atrás de mim, colocando a louça suja na pia.
Não seria nada de mais, se ele não estivesse invadindo completamente meu espaço pessoal ao fazer isso. Senti o calor do corpo dele em minhas costas, e nós mal estávamos nos tocando. Um frio se instalou no meu estômago e minha mente fanfiqueira imaginou coisas que não deveria naquele momento.
A imagem de %Aidan% me colocando em cima da bancada após eu me virar para beijá-lo foi uma cena especificamente tentadora que me veio em mente naqueles breves segundos, e minhas mãos clamaram por tocá-lo e ser tocada mais uma vez.
Era impressão minha ou ele estava demorando de propósito?
Não sei o que deu em mim também.
Porque no instante seguinte, eu desliguei a torneira e me virei para ele, passando os braços ao redor de sua cintura. Meu rosto estava na altura do ombro dele e eu respirei fundo, inalando seu cheiro.
— Não sei porque fiz isso — confessei, no mesmo instante. — Mas por algum motivo, eu quero ficar próxima de você e sinto uma vontade constante de te tocar. Eu ainda não lembro da gente, %Aidan%. Mas eu li meses de nossas conversas e acho que me apaixonei um pouquinho por você. Foi como ler um romance da minha própria vida.
%Aidan% suspirou e me abraçou de volta, de forma acolhedora. Seu abraço era aconchegante.
— Você pode me tocar sempre que quiser, amor. Eu sou seu — ele me garantiu. — Você pode não lembrar de nada ainda, mas eu sim. Pra mim, ser tocado por você é a coisa mais natural do mundo.
— Mesmo eu sendo meio fã maluca?
— Sim, mesmo assim. Fã maluca ou não, você é minha mulher — esclareceu. Senti meu ego inflar quando ele se referiu a mim daquela forma.
— Por que você fica falando essas coisas? — perguntei, sentindo o rosto esquentar.
— Porque é verdade. Eu sempre falo assim. E você gosta.
Não neguei. Eu gostava mesmo.
De repente, minha vida real era um fanfic e aparentemente das boas.
Escutei um barulho de vibração e percebi que era o celular no bolso do short dele.
— Acho que alguém tá ligando. — Me afastei.
%Aidan% beijou minha besta e sorriu.
— Eu voltou já, deve ser Jace querendo notícias. — E saiu.
Terminei de lavar a louça e peguei meu próprio celular em cima da bancada em que comemos, notando algumas mensagens não lidas.
Kate: Andrew e eu vamos te visitar hoje à tarde. Nos aguarde depois das 15h. Havia uma mensagem de Andrew também, basicamente falando a mesma coisa. Respondi rapidamente e depois fiquei sem ter o que fazer.
Enchi um copo de água no filtro automático que havia em cima da pia e bebi, fazendo um pacto comigo mesma de me manter hidratada. Por mais que estivessem fazendo isso no hospital, eu ainda tinha acordado com muita sede. Acordei duas vezes durante a madrugada apenas para beber água. Também fiz umas visitas frequentes ao banheiro depois de tanto líquido.
Fiquei alguns minutos cutucando meu celular mais um pouco, mas honestamente, fiquei entediada.
%Aidan% ainda estava ao telefone e %Cami% tinha ido trabalhar, então por enquanto eu tinha minha própria companhia para me entreter.
Então resolvi optar pelo que eu fazia de melhor quando estava sozinha. Andei até o grande e fofo sofá da sala de estar e me joguei nele, abrindo o aplicativo de leitura um segundo depois, no arquivo do livro que eu tinha começado a ler noite passada.
E fiquei ali, mergulhada no universo de mais uma obra.