Capítulo 18
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Não contei nada para %Aidan% sobre o meu último sonho esquisitão, tampouco da cena repetida de
Tenaz em que fui enfiada novamente.
Não adiantaria nada jogar isso nele sabendo que não acreditaria em mim e não saberia o que fazer. Por mais que eu quisesse ter um pouquinho de apoio emocional, eu sabia que %Aidan% só iria se culpar ainda mais em relação ao acidente, achando que tudo isso era uma consequência do meu atropelamento. Meio que era mesmo, mas fui eu quem escolhi sair sozinha naquela noite ao invés de ficar em casa. Então, para não fazer meu namorado surtar mais do eu aparentemente estava, decidi ficar calada.
No domingo à tarde, logo após o almoço, %Aidan% anunciou nosso próximo encontro. Passei a tarde me planejando para aquela saída, enquanto ele ficou trancado no estúdio atendendo uma ligação de Jace.
Maldito Jace, infernizando meu namorado com trabalho em pleno domingo, na folga dele.
Ele tinha sorte por não termos nos encontrado ainda porque eu não tinha certeza se conseguiria segurar minha língua de dar algumas alfinetadas nele. Na última semana, %Aidan% foi para a cama tarde por causa do trabalho, quando eu já estava dormindo e, mesmo assim, acordou cedo para irmos para a academia juntos.
Eu sabia que ele andava cansado, então encomendei algumas caixas de suplementos vitamínicos para forçar ele a tomar o mais breve possível e estava apenas esperando chegar. %Aidan% podia até ter uma ótima resistência física, mas naquele ritmo, seu corpo reclamaria eventualmente, e eu não queria que ele adoecesse. Eu não fazia ideia se eu sabia cuidar de alguém doente, já que era uma raridade %Cami% e eu adoecermos (nosso bolso agradecia), mas sabia como tentar evitar adoecer.
Felizmente, tínhamos dinheiro suficiente para alguns suplementos e, dessa vez, até comprei para mim também, como forma de convencer %Aidan%. Àquela altura, eu já tinha notado que ele odiava remédios e tomava apenas em último caso, como quando tinha enxaqueca por trabalhar demais na frente do computador. Isso também acontecia comigo, mas era mais frequente quando eu estava próxima do meu período menstrual, o que aconteceria em breve, a qualquer momento na próxima semana.
Assim que %Aidan% voltou, eu já estava de cabelo pronto e já tinha tomado banho, coisa que ele fez rapidamente antes de me encontrar de novo no closet.
Assim como da última vez, ele se enfiou no closet e fuçou minhas roupas em busca das mesmas peças de três anos atrás, e logo me vi frente a uma saia jeans com mullet e uma blusinha rosa choque fechada com um zíper na parte de trás.
Podia até parecer um grande esforço de %Aidan%, considerando que eu tinha muita roupa guardada, mas meu closet era dividido em nichos. Então tudo o que ele teve que fazer foi encontrar o nicho de shorts e saias jeans, e depois o de blusinhas coloridas. Não deve ter levado mais que cinco minutos, mas eu apreciava o fato dele revisitar nossas lembranças para ver que roupa eu tinha usado.
— Não sei se isso cabe em mim — falei para ele, assim que vi as peças. Eu já até tinha feito a maquiagem, mas fui idiota e não provei a roupa com antecedência. — Você lembra a última vez que usei essa roupa?
— Não faço ideia — ele admitiu. — Por que você não prova?
Assenti e tirei a roupa que eu estava usando, ficando apenas de calcinha e sutiã, e tentei vestir primeiro a blusa. Pedi para %Aidan% fechar o zíper, mas as duas partes de tecido sequer se encontraram.
— Opa... Parece que essa não vai dar.
— Você ganhou massa muscular na academia, é por isso.
Concordei com a cabeça, desistindo da blusa e, sem dizer nada, tentei vestir a saia. Ela nem passou das minhas coxas. Era inacreditável pensar que eu coube naquilo um dia.
Caí na risada e %Aidan% me acompanhou. Fiz uma nota mental de fazer uma limpa no meu closet e doar o que não me servia mais.
— Parece que não vai ser dessa vez — comentei e ele encolheu os ombros. — Vou procurar alguma coisa dentro dessa paleta de cor, então.
Alguns minutos depois, encontrei uma saia jeans envelope com botões em uma lateral e uma blusa soltinha de alças brilhantes no mesmo tom de rosa da outra. Era simples, mas tudo o que eu precisava era de um salto para fazer parecer sofisticado. Escolhi um scarpin branco ao invés de usar um tênis, como da última vez. Provei tudo para ter certeza de que cabia em mim e pedi para ele opinar.
— Você ficou ainda mais linda, amor.
— Tomara que não tenha paparazzi dessa vez, mas se tiver, ao menos eu tô apresentável.
— Um funcionário vai nos receber na porta dos fundos e nos levar até a cabine reservada. Além disso, vamos no seu carro hoje, ele é mais discreto e comum. Vai se misturar melhor com os outros.
— Sim, Sr. Exibicionista Dono de um Audi. Vamos no meu humilde carrinho sem nada de especial — brinquei.
%Aidan% rolou os olhos, mas não disse nada. Ele começou a trocar de roupa rapidamente enquanto eu dei uns últimos retoques na maquiagem e passei perfume.
Assim como prometido, cerca de meia hora mais tarde, encontramos um funcionário que nos levou até nossa cabine reservada no restaurante japonês que %Aidan% tinha escolhido. O lugar era especializado em sushi e sashimi, e mesmo imaginando que era isso que iríamos comer, peguei o cardápio para ver a variedade de pratos. Havia alguns pratos de rua também, como
okonomiyaki, que era um tipo de panqueca salgada e
takoyaki no espeto, bolinhos de sabores diversos. Também tinha
guioza, os famosos pasteizinhos de carne cozidos no vapor, e eu pedi uma porção deles, numa versão com casquinha crocante.
— Você pediu isso da última vez — %Aidan% disse, assim que a garçonete se afastou.
— Sério? Por que você não disse?
— Eu queria ver se você ia lembrar de algo.
— Tive uma sensação de
déjà vu quando entramos aqui. Talvez seja algo. Nós experimentamos saquê aqui?
— Sim, mas nem você nem eu gostamos. Mas somos adeptos do soju coreano e vinho.
— Whisky também, no seu caso — comentei. Eu sabia que %Aidan% sempre bebia uma dose antes de cada show. — Nós somos clientes frequentes desse restaurante? — perguntei, em seguida.
Eu sentia como se tivesse estado ali várias vezes, mas poderia ser só coisa da minha cabeça.
— Relativamente — %Aidan% respondeu. — Faz uns quatro meses que viemos aqui, mas às vezes você pede delivery. Você fez isso algumas vezes quando eu tava viajando.
De fato, havia algumas fotos de sushi e sashimi em embalagens de isopor que eu notei que havia enviado para %Aidan%. Mas tinha sido umas duas vezes só. Eu devo ter entrado em dieta depois, porque a maioria dos pratos que eu enviava tinha alguma proteína grelhada ou eram apenas sanduíches simples.
— Então a comida deve ser boa mesmo. — Sorri.
Meu celular vibrou com uma mensagem de Andrew e eu respondi rapidamente. Era apenas algo bobo sobre o novo livro de Kate. A editora começaria a soltar spoilers em breve e ele tinha me pedido para ver algumas sugestões no meu e-mail no dia seguinte.
Como %Aidan% estava sentado ao meu lado e o meu celular entre nós dois, era meio óbvio que ele fosse ver.
— Por que esse cara tá te mandando mensagem de trabalho na sua folga? — ele perguntou, em um tom de voz levemente irritado.
— Provavelmente pelo mesmo motivo que o seu gerente teve hoje — retruquei, incomodada pelo seu tom quando ele mesmo tinha passado a tarde toda trabalhando. — Pelo menos, Andy não foi um idiota que me fez ficar trancada a tarde toda em um estúdio — acrescentei, desviando o olhar de sua direção.
Peguei o copo de água que estava na minha frente e tomei um gole. %Aidan% bufou ao meu lado e fez o mesmo.
— Mesmo assim. Você tem uma rotina fixa de trabalho, eu não — ele tentou argumentar.
— Ah, %Aidan%, por favor... — Voltei a encará-lo. — Todo mundo sabe que é porque você é um perfeccionista cismado. Você tá com raiva porque foi o Andy que me mandou mensagem. Se fosse a Kate, você teria ficado quieto.
— Kate não é seu ex-namorado.
— De novo isso? — Revirei os olhos. — Não teve nada de mais na mensagem, então dá pra parar de ser idiota? Nós namoramos há três anos!
— Pra
mim, são três anos — ele enfatizou. — Mas pra você mal faz um mês, %Lexi% — acrescentou baixinho.
Foi nesse momento que eu tive um flash de memória. Na verdade, não foi um flash, mas uma memória inteira que veio à tona.
Ainda era 2019. %Aidan% e eu discutíamos sobre Andy no apartamento onde eu morava. Estávamos sozinhos, pois %Cami% tinha saído com uma amiga.
— Não tô completamente certo de que esse cara não sente mais nada por você, %Lexi%.
— %Aidan%, para com isso. Não tem nada a ver.
— Ele não tirou os olhos de você! Passou a noite toda te encarando e sorrindo pra você, como se eu nem estivesse lá.
— Andrew é meu amigo agora. Você não confia em mim? Por acaso, acha que eu vou te trair com meu ex? Bom saber que você tem pouca fé em mim. — O encarei, me sentindo subitamente magoada. — Eu não sou que nem a sua ex, seu idiota.
Eu era uma pessoa que abominava qualquer tipo de traição. E saber que havia uma chance mínima que fosse de alguém achar que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas era doloroso e revoltante.
— Desculpa. Não foi isso que eu quis dizer. Mas é que esse cara-
— O Andy é inofensivo. Nós terminamos de comum acordo e nunca tivemos mais nada além de amizade desde então.
— E se ele se arrepender e quiser voltar com você?
— Então ele que lide com isso sozinho, porque meu coração agora é seu.
— Eu só consigo pensar nisso. Você me deixando por ele. Eu vi meu pai fazer isso com minha mãe, %Lexi%. A traiu com a amante, então voltou pra casa por um tempo, apenas pra largar minha mãe de novo — confessou.
— Eu não sou seu pai, nem sua ex, %Aidan%. Eu entendo sua insegurança com nosso relacionamento, porque às vezes me sinto assim também. Até onde sei, a qualquer momento você pode se apaixonar por outra pessoa e esquecer de mim.
— Ninguém tem controle sobre os próprios sentimentos. Todo mundo tá sujeito a isso. Mas quero que entenda que eu não tenho mais interesse no Andy. Ele até tá conhecendo uma garota nova e eu não tô nem aí — garanti. — Além disso, eu seria linchada na rua se partisse o coração de %Aidan% %Callahan%. E seria chamada de burra por largar você. Coisa que
não pretendo.
Ele me encarou com uma cara meio emburrada, mas por fim, respondeu:
— Ei, eu tô falando sério. Prometo que de jeito nenhum vou te deixar ir.
— Eu também, %Lexi%. Você só vai se livrar de mim um dia se me largar primeiro.
— Nem pensar. — Sorri, divertida, e sua expressão amenizou um pouco.
— É uma promessa então — %Aidan% disse, determinado.
Tínhamos seis meses de namoro e aquela foi a nossa primeira briga. Naquela noite, %Aidan% dormiu comigo no apartamento modesto que eu dividia com %Cami%. Comparado ao dele, parecia minúsculo, mas %Aidan% não se importava.
Era uma das coisas que eu mais gostava nele. Mesmo vindo de uma família classe média e não ter passado por nenhum perrengue para se sustentar como tinha acontecido com minha irmã e eu, %Aidan% não era um idiota arrogante.
Na verdade, ele era bem simplista e tinha os pés no chão. Às vezes, parecia até um pouco ingênuo, diferente da imagem descolada de bad boy que ele passava no palco. Quando jantava na nossa casa, até se oferecia para lavar a louça — na época, era provavelmente a única atividade doméstica que ele conseguia fazer com sucesso. Além disso, ele se dava muito bem com minha irmã e isso era extremamente importante para mim.
%Aidan% não tentava impressionar ninguém e às vezes era até engraçado pensar em como passamos uma noite casual juntos, já que em nossos primeiros encontros parecíamos adolescentes tímidos tentando se conhecer. Chegava a ser cômico como ele parecia fofo nos encontros, quando tinha me pegado de jeito na cama. Parecia que a cada dia eu conhecia uma nova faceta de sua personalidade e estava me apaixonando por cada uma.
Mas o melhor de tudo era saber que %Aidan% apreciava lealdade tanto quanto eu e talvez isso tenha nos feito dar certo. De repente, um mix de lembranças aleatórias apareceu na minha mente, mas logo me vi sentada no restaurante outra vez, a voz de %Aidan% falando meu nome.
— %Lexi%. — Ele passou a mão na frente do meu rosto, chamando minha atenção. — Você tá bem? Ficou parada olhando pro nada, de repente.
— O quê? — pisquei, confusa. — Ah, eu lembrei de uma coisa.
— Lembrou? De quê? — Ele me encarou, esperançoso.
— Várias coisas, na verdade. Acho que do ano que começamos a namorar, mas, de modo geral, foi uma briga.
— O quê? De tudo o que você podia lembrar, foi lembrar logo de uma briga?
— Ei, eu não tenho controle sobre isso. As coisas vêm do nada. Mas se quer saber, foi por causa de Andy, seu idiota ciumento.
— Por que agora você só chama ele assim? Andy isso, Andy aquilo... — ele imitou e eu coloquei uma mão na boca dele, com um sorriso.
— Cala a boca, seu besta. — Afastei a mão, em seguida. — Eu só quero você e mais ninguém.
Ele me encarou, emburrado, mas havia o menor dos sorrisos no canto de seus lábios, que ele estava tentando segurar. De repente, senti uma vontade louca de beijar aqueles lábios e tirar a expressão emburrada da cara dele. Por mais que fosse irritante e me fizesse perder a paciência às vezes, %Aidan% era uma gracinha quando estava com ciúmes.
Sem hesitar, puxei seu rosto para o meu e selei nossos lábios, um segundo antes de aprofundarmos o beijo. Então deixamos nossas línguas brincarem até a porta da cabine ser aberta de novo pela garçonete trazendo nossa comida.
Bem, o jeito era terminar aquilo em casa.