Capítulo 15
Tempo estimado de leitura: 17 minutos
Mais um dia de trabalho e eu estava digitando algumas anotações na minha agenda digital enquanto checava o que havia escrito no tablet.
Kate já tinha escrito cerca de um terço de
Oblíquo e estávamos na parte em que os protagonistas voltavam juntos para seu país de origem após descobrirem que o melhor amigo dele era tio dela. Havia alguns pontos a serem resolvidos naquele livro, como o último da série, e isso incluía o desenrolar do plot em torno do vilão, que havia aparecido no livro anterior, cujo protagonista era irmão do protagonista atual. Ambos os livros eram menores e interligados, diferente dos outros, que podiam ser lidos separadamente.
Eu tinha conhecido leitoras de Kate que começaram pelo livro três, outras pelo livro dois, e outras que acompanharam os lançamentos desde o início, como eu. Cada forma lida trazia uma experiência diferente. Mas para quem me perguntasse, eu recomendaria a ordem linear dos acontecimentos.
Era muito fácil se apegar aos personagens da série e eu me sentia amiga deles. Como se eu fosse encontrá-los na vida real a qualquer dia. Muito
delulu da minha parte, eu sabia, tanto que eu ainda estava transitando entre a realidade e o enredo de
Tenaz quando dormia. Não estava acontecendo sempre, mas eu havia meio que notado um padrão.
Eu ia parar em
Tenaz após lembrar alguma coisa da minha vida pessoal ou quando estava prestes a lembrar. Era meio aleatório, mas era a única explicação que eu conseguia pensar que justificasse aqueles sonhos hiper-realistas.
Na noite do meu encontro com document.write(Aidan), me encontrei no corpo de Ayla novamente depois de adormecer. Infelizmente, era uma cena em que Ayla dava aulas de desenho para crianças encapetadas, o que foi meio ruim, já que as únicas coisas que eu sabia desenhar eram um pato a partir do número dois e uma coruja entediada (eu sempre esquecia os chifrinhos/orelhas dela — e sim, eu sei que são só penas arrebitadas e que corujas não têm chifres nem orelhas, mas eu só conseguia pensar nisso com a aparência).
Felizmente, não me demorei muito na cena. Ayla já havia dado uma imagem para eles tentarem reproduzir, então eu só tive que fingir que entendia algo de técnicas de desenho antes da aula acabar, dez minutos depois.
Acordei no meio da noite ao lado de document.write(Aidan) com vontade de fazer xixi e depois disso não voltei mais para a história. Tampouco sonhei com algo que fizesse sentido.
Já fazia três dias desde então.
Era sexta-feira e eu tinha ido ver o neurologista naquela manhã. document.write(Aidan) me acompanhou e ouviu atentamente cada segundo de explicação do médico sobre como minha mente tinha criado um mecanismo de defesa devido ao trauma do acidente, me fazendo transitar entre fantasia e realidade. Eu ouvi tudo isso meio cética. Parecia real demais, como se eu realmente estivesse em outro universo, mas eu sabia que discutir não adiantaria de nada.
Gente doida nunca acha que tá doida. Segundo o médico, era provável que eu recuperasse o restante das minhas memórias em breve e, dessa vez, ele sugeriu a document.write(Aidan) aumentar os estímulos ao meu redor, já que eu não tinha passado mal outra vez. Fiquei feliz com essa parte, mas intrigada quando o médico recomendou esperar eu lembrar dos detalhes do acidente.
Eu não entendia porque tanto mistério se não tinha acontecido nada de mais comigo. Também não entendia por que eu tinha um mecanismo de defesa se não sofri nenhum ferimento sério. De todo modo, tirando essa parte, eu meio que estava livre para perguntar o que bem entendesse a document.write(Aidan).
Devido a essa consulta, eu quis fazer horário extra na noite anterior e terminei o expediente da sexta um pouquinho mais cedo. document.write(Aidan) estava fora, em uma reunião com Jace e o pessoal de sua agência para decidirem algo sobre o conceito de seu novo álbum. A produção levava meses, então era provável que ele só o lançasse no próximo ano. Como uma boa amante de spoilers, eu só podia torcer para que document.write(Aidan) fosse bonzinho e me contasse algo. Ou pensar em uma forma de convencê-lo.
Desliguei o computador e peguei o celular para enviar uma mensagem para ele perguntando o que queria para o jantar, quando meu celular vibrou com uma nova mensagem de Kate.
Kate: Você viu isso? Tem muita gente falando sobre. Havia um link de um artigo que tinha saído no dia seguinte ao nosso encontro. document.write(Aidan) me mostrou, então eu já sabia do que se tratava, embora não tivesse lido os comentários.
O título era enorme, todo em Caps Lock.
"NA SAÚDE E NA DOENÇA: document.write(Aidan) document.write(Callahan) E NAMORADA, FIRMES E FORTES APÓS ACIDENTE" Corri os olhos pelo texto, lendo alguns trechos rapidamente.
"Será que podemos esperar um casamento em breve? O casal foi visto aos beijos do lado de fora de um renomado restaurante italiano de NY após semanas reclusos depois do acidente de document.write(Alexa) document.write(Danforth), namorada de document.write(Callahan).
A srta. document.write(Danforth) foi atropelada no dia 6 de abril no estacionamento de um shopping enquanto se dirigia para o próprio carro. Testemunhas ficaram alarmadas e imediatamente chamaram uma ambulância, e soubemos por algumas fontes seguras que ela permaneceu inconsciente por quatro dias. Felizmente, não foi nada grave e até onde sabemos, document.write(Alexa) passou as últimas semanas se recuperando em casa com document.write(Aidan), que não deixou seu lado nem por um momento.
Como dizem, na saúde e na doença. O casal está junto há três anos e dividindo o mesmo apartamento em Manhattan há dois. Não há nenhum rumor sobre um possível casamento, mas todo mundo sabe que hoje em dia rótulos não são mais necessários.
Os pombinhos parecem apaixonados como sempre e cuidando um do outro. É bom saber que a srta. document.write(Danforth) se recuperou bem e desejamos tudo de bom aos dois."
Sorri ao reler o texto e desci para os comentários. A maioria me desejava melhoras e felicidades a mim e document.write(Aidan), no entanto, alguns comentários recentes chamaram minha atenção.
"Ouvi dizer que havia muito sangue ao redor dela. Mas é bom saber que ela está bem".
"Boatos de que os dois estavam distantes e não só fisicamente, mas essas fotos meio que desmentem tudo isso".
"Será que esse casal é real mesmo ou document.write(Aidan) está apenas esperando ela ficar bem pra cair fora? Não é como se faltasse opções pra ele."
Fiz uma careta para o comentário dessa pessoa mal-amada. Ela não tinha ideia de nada.
Deixei isso de lado e voltei para a janela de conversa com Kate.
document.write(Lexi): document.write(Aidan) me mostrou. Mas ninguém me disse que eu sangrei no acidente.
Kate: Onde você viu isso?
document.write(Lexi): Nos comentários. Tem gente fofocando e até teorizando que document.write(Aidan) vai me dar um pé na bunda quando eu tiver completamente recuperada.
Kate: Que besteira. Isso é só inveja, document.write(Lexi). Não ligue pra essas coisas. Todo dia surge um rumor que eu e Adrian vamos nos divorciar.
document.write(Lexi): Você poderia até tentar, mas ele nunca te deixaria ir.
Todo mundo sabia que Kate era a tal
Garota K, musa das músicas da Cave Panthers. Ele passou anos se lembrando dela e então, após uma década, se reencontraram.
Kate: document.write(Aidan) também não te deixaria ir. Eu juro que vejo até lasers saindo dos olhos dele quando Andrew toca em você. Ele é tão Dean".
document.write(Lexi): E tão talentoso quanto.
Conversamos por mais alguns minutos, e depois fui tomar banho e me deitar um pouco enquanto esperava document.write(Aidan) chegar para pedirmos delivery. Eu estava quase cochilando quando ouvi a porta da frente abrir, mas nem me movi do lugar.
A posição estava confortável demais para isso e o clima, fresquinho. Eu estava deitada com um braço embaixo do travesseiro e só abri os olhos quando ouvi document.write(Aidan) entrar.
O encontrei andando em minha direção com um sorriso no rosto e, em seguida, ele se inclinou para me dar um beijo no pescoço, uma mão indo direto para o meu quadril, sorrateiramente se enfiando embaixo da minha camisola azul-marinho.
— Essa cor fica muito bem em você — ele murmurou no meu ouvido e ri baixinho, antes de rolar na cama e abrir os braços, convidando-o para um abraço.
document.write(Aidan) se aconchegou contra mim e enterrou o rosto no meu pescoço, ficando assim por um momento antes de se afastar e tirar a jaqueta.
— O que acha de pizza hoje? — sugeri.
— Acho ótimo. Pede pizza de calabresa e quatro queijos. Vou tomar banho e já volto.
***
Cerca de uma hora mais tarde, estávamos os dois sentados na cozinha, devorando uma pizza grande com copos também grandes e cheios de Coca-Cola zero. Que John não sonhasse com essa nossa refeição. Eu ainda não tinha me recuperado dos cinco quilômetros que ele havia me obrigado a pedalar, muito menos da musculação da semana. Todo o meu corpo doía e todos os dias eu me controlava ao máximo para não dormir em cima do computador durante as tardes de trabalho.
Naquela sexta à noite, eu estava especialmente enfadada e era bom saber que eu não precisava acordar cedo no dia seguinte para me exercitar antes do trabalho. document.write(Aidan) e eu poderíamos ficar na cama até tarde, e eu mal podia esperar para me aconchegar com ele após o jantar.
Assistimos um pouco de TV e só depois das dez da noite, voltamos para o quarto. Depois de uma rápida passada no banheiro para escovarmos os dentes, document.write(Aidan) e eu finalmente fomos para a cama. Eu o abracei pela cintura, me deliciando com o cheiro de seu perfume pós-banho, e fechei os olhos.
Naquele momento, eu só queria dormir e podia dizer que document.write(Aidan) também desejava o mesmo, considerando que ele havia passado o dia inteiro fora. Demos boa noite um para o outro e então o silêncio caiu sobre nós. Esperei até que o sono me levasse para a inconsciência novamente, e não demorou muito até eu começar a cochilar.
Essa foi a última coisa de que me lembrei antes de abrir os olhos e me ver sozinha em um beco na rua, com fones de ouvido ao som de “TKO” do Justin Timberlake. Franzi o cenho e meu primeiro impulso foi passar a mão no cabelo, percebendo-o curto.
Eu estava de volta à
Tenaz e em uma cena completamente diferente das outras. Se ela estava em um beco, então eu tinha um palpite sobre que momento da história era aquele.
Comecei a andar em busca de um local mais movimentado e, discretamente, olhei para trás. Meu coração deu um pulo quando vi um homem de capuz a alguns metros de mim. Apertei o passo e tentei pensar rápido. O que Louise — e não Ayla — faria? Ayla não sabia lutar, mas Louise sim, e eu tinha lido quatro livros em que Yeong treinava as meninas. Além disso, Kate e eu fizemos algumas aulas de autodefesa quando ela estava escrevendo
Perspicaz. Nunca precisei colocar nada em prática para testar a eficiência dos golpes, mas não fazia mal tentar.
Ayla cortaria o braço no meio do ataque de dois homens e eu não estava nem um pouco a fim de apanhar e me machucar. Se minhas contas estavam corretas, àquela altura Ayla já devia estar correndo e então um segundo homem a puxaria de repente para um beco onde estava escondido.
Enfiei os fones na bolsa e diminuí um pouco o passo, fingindo atender o celular.
— Oi, Minsik. Você já tá perto? Tô naquele beco, perto do restaurante. O pessoal tá com você? Certo, vem me encontrar então.
Coloquei o celular na bolsa e apertei o passo novamente. Avistei o próximo beco e um pedaço de madeira em um canto e não pensei duas vezes antes de pegá-lo. Levantei como um bastão e corri. No mesmo instante, o segundo homem apareceu e eu o acertei em cheio na cabeça.
Surpreso, o primeiro homem parou de andar atrás de mim, observando o companheiro arquejar de dor.
— Socorro, socorro, alguém! — Comecei a gritar como uma louca. — Socorro!
Comecei a correr e o cara continuou atrás de mim. Quando me aproximei um pouco mais do restaurante mais à frente, me virei, sacudindo o pedaço de madeira. No entanto, prevendo o meu movimento, o homem conseguiu agarrá-lo e o jogou longe. Prendi a respiração, com medo, e dei alguns passos para trás.
— Socorro, socorro! — Gritei novamente, tentando correr, mas ele me agarrou pelo cabelo e tapou minha boca, enquanto tentava me arrastar.
Vamos, document.write(Lexi), pense rápido. Com um impulso, inclinei meu corpo para frente e dei uma cotovelada o mais forte que consegui em suas costelas. O homem gemeu de dor e consegui me soltar, na esperança de conseguir fugir daquela vez. No entanto, o segundo homem que ataquei anteriormente surgiu do nada e me deu um tapa tão forte no rosto que me jogou no chão.
Senti uma dor no braço, mas era só um arranhão e não um corte. O cara se aproximou, tentando pegar minha bolsa e eu levantei uma perna e o acertando com um chute nas bolas.
— Socorro, alguém! — gritei o mais alto que pude e avistei um grupo de rapazes, que pareciam estudantes.
— Ei cara, o que você tá fazendo? Deixa ela em paz! — um deles gritou, correndo até mim, junto com outro colega.
O homem que me perseguia soltou um xingamento e hesitou por um instante, encarando a bolsa que eu agarrava firmemente, até que pareceu desistir e correu com o outro. Me senti tonta, meu rosto e braço doendo e ardendo. O cara que gritou com os ladrões se abaixou perto de mim e minha skin de Ayla imediatamente começou a tremer. Ele usava um moletom e outras peças casuais.
— Eu consegui fugir, mas um deles veio atrás de mim... — falei automaticamente.
— Calma, você tá segura agora — o outro garoto falou.
— Vai ficar tudo bem. — Eu vou te levar pro hospital, tá bom? — o garoto do moletom disse e eu imaginei que ele fosse Minsik, um dos personagens da série que em breve ajudaria Dean, assim como Yeong e Zico.
Assenti e começamos a andar em direção ao carro dele. No meio disso, eu acordei. Rolei na cama, sentindo meu corpo dolorido e enfiei a mão embaixo do travesseiro para pegar o celular e ver que horas eram.
Olhei para o lado e document.write(Aidan) dormia de barriga para baixo, com o rosto virado na direção oposta à minha.
Bocejei, esfregando os olhos e fiz uma careta ao sentir o lado esquerdo do meu rosto doer e o pescoço também. Era só o que faltava, eu ter dormido de mau jeito. Com os antebraços, dei um impulso para me sentar, mas fiz uma careta ao sentir uma dor no braço direito. Franzi o cenho e levantei o braço, passando a mão levemente. Queimou um pouco, então a tirei no mesmo instante.
Mesmo com o quarto meio escuro, consegui ver o que tinha ali. Meus olhos arregalaram e palavras saíram dos meus lábios antes que eu pudesse raciocinar direito.
— Que porra é essa?! — falei alto, esquecendo de document.write(Aidan) por um instante, até vê-lo acordar assustado.
— O quê? O que foi? — ele perguntou, alarmado.
Por um instante, não respondi.
Estava ocupada, com os olhos vidrados no machucado que havia no meu braço direito.