Capítulo 14
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Na tarde de terça-feira, %Aidan% fez o favor de lembrar de me dizer que havia reservado o restaurante do nosso primeiro encontro para sete da noite.
Na minha cabeça, eu achava que ele tinha esquecido ou não conseguido a reserva já que não me contou nada. Até que então, em cima da hora, pouco antes de eu finalizar meu expediente no trabalho, ele resolveu me aparecer com a notícia.
— Sério, %Aidan%? Eu nem escovei meu cabelo! — reclamei, assim que ouvi. — Você devia ter avisado antes, eu teria pintado as unhas ontem à noite e escovado o cabelo e não ficar feito uma louca correndo contra o tempo! Não dá pra ficar bonita em pouco tempo.
— Bobagem, %Lexi%. Seu cabelo tá ótimo e a sua roupa eu já escolhi — anunciou. — Coloquei em cima da cama, é a mesma que você usou no nosso primeiro encontro.
— Não preciso lembrar, tem uma foto desse dia no seu Instagram que fui eu que tirei.
Ah, estava explicado, então. Eu não podia esperar que %Aidan% tivesse uma memória de milhões quando até a minha era claramente uma merda.
Assim que desocupei do trabalho, corri para tomar um banho rápido e, ainda de toalha, me sentei no chão do closet com minha escova secadora em mãos e comecei a me aprontar. Normalmente, quando eu ia sair para algum lugar eu passava a tarde toda planejando o que fazer. Felizmente, roupa não era um problema. %Aidan% já tinha feito isso por mim e descobri que usei um vestidinho bege e florido acima dos joelhos que fazia meu cabelo destacar. Eu o tinha comprado em uma promoção e tinha sido muito bom, já que ele ainda estava ali. Eu só não sabia se ainda caberia em mim.
Tentei escovar o cabelo o mais rápido que pude para deixá-lo aceitável e menos um ninho de passarinho e meia hora depois — porque eu tinha muito cabelo — terminei, finalizando apenas com um óleo. Minha franja estava crescida, então a mantive dividida.
%Aidan% escolheu aquele momento para começar a se arrumar. Eu tinha cerca de uma hora para me trocar e fazer a maquiagem.
Felizmente, na foto que %Aidan% me mostrou eu estava com algo simples e não havia nenhum penteado no meu cabelo. Nos pés, um scarpin branco de salto que encontrei em uma prateleira junto a outros sapatos.
Enquanto %Aidan% tomava banho, levei o vestido para o closet e comecei a me vestir. Escolhi uma lingerie lilás bonitinha e então fui para o grande teste. Com dez quilos a mais, eu tinha ganhado músculos na parte superior do corpo e não era mais a magricela que costumava ser. Meu quadril também estava mais largo, mas a saia do vestido não seria um problema. Talvez ficasse apenas um pouco mais curta. Enfiei os braços pelo vestido e o deslizei pelo corpo com um tiquinho de dificuldade, mas, felizmente, ele coube. Viva os elásticos nos vestidos de tamanho único.
Examinei meu reflexo no espelho e fiquei satisfeita com o que vi. A saia havia ficado um pouco mais curta e estava no meio das minhas coxas, mas o que antes era fofo, acabou se transformando em sexy. Eu definitivamente preferia essa versão do que a antiga magricela toda complexada com o próprio corpo.
Eu nunca fui de ganhar muito peso e houve uma época logo após a faculdade que eu meu peso caiu tanto a ponto de me fazer ter vergonha de mim mesma e usar apenas roupas largas para me esconder. Eu tinha provavelmente uns cinco quilos a menos de quando %Aidan% me conheceu. Felizmente, quando isso aconteceu, eu já não estava mais tão desconfortável.
Comecei a fazer a maquiagem e estava no meio dela quando %Aidan% surgiu apenas de cueca, pronto para se trocar também. Vi no exato momento em que ele parou e olhou para mim.
— O que foi? Meu cabelo tá feio? — Porque certamente o vestido não estava.
— Não, é que... Você tá mais bonita do que da primeira vez.
— Achei que isso fosse meio óbvio. Eu era muito magra.
— Você tá parecia uma fada naquele dia.
— E agora? Com que eu pareço? — Encarei o reflexo dele no espelho. %Aidan% andou até mim e colocou as duas mãos na minha cintura.
— Tá parecendo uma deusa que vai me colocar de joelhos a qualquer momento — ele respondeu, depositando um beijinho no meu pescoço, me fazendo rir.
— Você também tá bem melhor agora. — Me virei para ele, colocando uma mão em sua barriga. — Musculoso na medida certa.
— Do jeitinho que você gosta. — Ele sorriu e me dei conta de que provavelmente já tinha falado aquilo outras vezes.
%Aidan% se inclinou para me beijar, mas eu me esquivei dele.
— Nada disso. Preciso terminar a maquiagem e você tem que se vestir. Eu olhei o Google Maps e aquele restaurante fica a uns vinte minutos daqui. Não quero me atrasar.
— Tá, continua então. — %Aidan% fez uma careta e eu ri de como ele parecia um menininho que não tinha conseguido o que queria.
Quase voltei atrás.
Quase. Mas não seria seguro quando ele estava seminu ali. Provavelmente acabaríamos nos atracando contra a parede. De novo.
Franzi o cenho encarando o espaço ao lado do espelho e meu corpo se arrepiou quando uma imagem de %Aidan% e eu naquele mesmo local me veio à mente.
Eu não sabia se era real ou não. Era bem provável que sim, mas eu ainda tinha uma mente fanfiqueira e era leitora de romances escritos por mulheres. Possibilidades não faltavam para a minha imaginação fértil.
Mesmo assim, perguntei a %Aidan%.
— Você lembrou? Foi nossa última vez antes do seu acidente, pouco antes de eu ir para o aeroporto — ele contou.
Meu estômago se apertou de ansiedade e imediatamente eu quis não somente reproduzir nosso primeiro encontro, mas também nossa última transa naquela parede.
Mas... Eu tinha que ser forte.
Assim, apenas assenti e respondi vagamente que foi só um lapso de memória, antes de continuar a maquiagem.
Terminei alguns minutos depois e encontrei %Aidan% me esperando sentado na cama, enquanto digitava algo no celular.
Quando notou minha presença, ele levantou a cabeça e sorriu.
— Oi, minha deusa mais linda desse universo. Tá pronta?
Bufei e revirei os olhos ao ouvir a bajulação exagerada.
***
O restaurante que %Aidan% havia escolhido era aconchegante e convidativo. Não me veio nenhum lapso de memória quando chegamos, mas então uma moça nos levou até uma salinha privativa e, de algum modo, eu lembrei de onde havia sentado antes que %Aidan% se colocasse ao meu lado, puxando a cadeira para mim.
O encarei com uma leve surpresa, sem esperar aquele cavalheirismo todo.
Eu não me importava muito com essas coisas, mas era bom ser mimada com atos de serviço simples. Fazia eu me sentir querida. E pelo visto, %Aidan% não agia assim apenas em casa. Mas nem sei porque me surpreendi. Ele era conhecido por tratar muito bem as mulheres de sua equipe. Cabeleireiras, maquiadoras e estilistas... Todas eram um bando de sortudas.
Mas eu era a mais sortuda de todas.
Depois que nos acomodamos, %Aidan% pegou o cardápio e tentou pedir os mesmos pratos que comemos da primeira vez. Eu o admirei com a mão apoiada no queixo, como uma boba apaixonada.
Então ele começou a me dar mais detalhes sobre o nosso primeiro encontro.
— Você falou que ficou surpresa por eu te chamar pra sair, mesmo depois de passarmos semanas conversando.
— Hm, eu provavelmente achei que você tava tentando não me magoar e me dar um pouco de atenção antes de sumir devido ao trabalho.
— Sim, na verdade, você falou exatamente isso. E que nem esperava que eu fosse entrar em contato. Você achou que era só um caso de uma noite.
— Eu disse que não era. E falei que queria provar isso a você. Não menti pra você quando falei que não tinha encontros casuais. Eu sempre fui ocupado e lidar com pessoas é cansativo, especialmente quando deixo elas ultrapassarem um limite — ele disse. — Mas eu queria que não houvesse limites entre nós.
— Então você me pediu em namoro? — Sorri, achando nossa história bonitinha de um jeito bem torto.
Se fosse um enredo da Kate, eu provavelmente teria sugerido a ela levar as coisas com mais calma e em uma ordem. No entanto, por alguma razão, %Aidan% e eu parecíamos não seguir absolutamente nenhum roteiro.
Nós éramos personagens independentes, com vontade própria.
— Eu me apaixonei primeiro, feito um patinho — ele brincou.
— Que nada — retruquei. — Eu era apaixonada por você há anos.
— Você era minha fã. Isso não conta.
— Não conta, não — ele insistiu. — Você sempre me tratou com gentileza e nos demos muito bem. Nossas conversas eram tão naturais que eu não me sentia uma celebridade perto de você, apenas uma pessoa comum. Acho que você quis me deixar confortável, mas fui eu quem se apaixonou primeiro.
— Tá, se você insiste. — Dei de ombros.
Eu não podia discutir com base em achismos, mesmo imaginando que assim como %Aidan%, eu provavelmente me apaixonei por ele depois de dias conversando.
De todo modo, ele tinha um ponto. Eu sabia muita coisa sobre ele por já conhecê-lo como fã, mas para ele eu ainda era uma total estranha. Tinha sido corajoso da parte dele perseguir seus próprios sentimentos em relação a mim. Até onde sei, ele poderia cair em uma cilada se tivesse se envolvido com uma mulher aproveitadora.
— Eu sei que nós seguimos a ordem errada das coisas, mas eu estava totalmente sério com você, %Lexi%.
— É claro que estava. Você não estaria comigo há três anos, comprometido publicamente e morando comigo se não estivesse. Eu nunca duvidei disso, %Aidan%.
— Você duvidou no início. — Ele sorriu, triste. — Você sempre brincava sobre como um dia eu iria enjoar de você e terminar tudo. Eu odiava quando você falava essas coisas. Discutimos algumas vezes por isso. Mas o que mais me apavorava era ter que passar dias longe de você por causa do trabalho e ao voltar, descobrir que você tinha conhecido alguém melhor. E ainda tinha o Andrew...
— Além do óbvio? Ele te via mais que eu, é seu ex, e vocês ainda são amigos.
— E você tem tantas
green flags que é praticamente uma floresta — brinquei. — Eu nunca terminaria com você, %Aidan%.
— E nem eu com você, %Lexi%. Por motivo nenhum — ele garantiu, me encarando nos olhos com uma intensidade que fez meu coração se apertar. — Eu quero que você saiba que vou estar com você em todos os momentos bons e ruins que possamos passar. Eu sei que não temos um relacionamento fácil, por mais que a gente se dê muito bem. Sei que você odeia ficar longe de mim por muito tempo e acontece o mesmo comigo. Mas meu amor por você é maior do que qualquer empecilho ou dificuldade que possa aparecer pra gente.
Soltei o ar devagar, sentindo os olhos arderem ao ouvir aquilo. Era como se %Aidan% soubesse exatamente o que falar para reafirmar nosso relacionamento, e eu podia sentir uma sinceridade crua a cada palavra que ele dizia. Eu sentia um amor tão grande por ele que parecia não caber no peito e não fazia ideia do que eu tinha feito para merecer aquilo.
Ele era tudo o que eu queria e mais um pouco.
Segurei uma mão de %Aidan% e a trouxe aos lábios, beijando-a assim como ele fazia comigo. Ele sorriu e seus olhos refletiram a emoção dos meus.
Éramos nós contra o mundo e todas as dificuldades que pudessem aparecer.
Se na vida real existisse algo como os laços de parceria dos livros de fantasia, %Aidan% e eu com certeza teríamos um.
Quando a comida chegou, alguns minutos depois, eu me deliciei com as massas que %Aidan% escolheu e seus molhos divinos. Não tinha nada cotidiano que me deixava tão alegre quanto comer uma comida deliciosa.
Não era à toa que quando tivemos condições financeiras, eu e %Cami% sempre procurávamos novos restaurantes e cafeterias para conhecer. O restaurante que %Aidan% me levou era caro, mas era uma boa sensação saber que eu poderia pagar aquele jantar sozinha sem nenhum prejuízo na minha conta bancária, mesmo sabendo que não iria. A única coisa que %Aidan% me deixava gastar em casa era com compras no supermercado e delivery, e nem era sempre. Às vezes, eu comprava e avisava depois.
Quando o jantar acabou, %Aidan% sugeriu tirarmos as mesmas fotos que a primeira vez, também as nossas primeiras fotos como casal. Ele havia me mostrado três selfies e assim as reproduzimos.
Para a primeira, nós sorrimos para a câmera e para a segunda e terceira, demos um beijinho na bochecha um do outro. Do lado de fora do restaurante, %Aidan% colocou toda a sua habilidade de namorado fotógrafo amador fazendo posições esquisitas para pegar os melhores ângulos e tirar outra foto minha de corpo inteiro, como a que ele disse que postei no meu perfil do Instagram.
Eu ri com as tentativas e ele continuou batendo fotos mesmo assim, até que finalmente conseguimos uma muito próxima da original.
— Ficou linda, amor — ele comentou, enquanto passava as fotos na tela do celular. Em seguida, se virou e me abraçou pela cintura. — Feliz aniversário de três anos, %Lexi%. Espero que nossa data se repita por tanto tempo quanto for possível.
Eu sorri e ele encostou a testa na minha.
— Eu te amo, %Aidan% %Callahan%. E nada no mundo vai mudar isso.
Então nos beijamos e %Aidan% me apertou contra si. Me senti amada e torci para que ele também estivesse se sentindo assim também. A última coisa que ouvi depois disso foram cliques, acompanhado de flashes não muito longe.
No entanto, não nos importamos com a plateia.