Capítulo 13
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— Eu ainda não acredito nisso, %Aidan%. Você foi
muito cachorrão — falei de repente, no meio do nosso café da manhã, antes do meu primeiro dia (de volta) na academia.
O que também era três dias depois de quando lembrei da noite em que nos conhecemos. E saber que dormimos juntos poucas horas depois ainda não tinha saído da minha cabeça.
— %Lexi%... — Ele me encarou, tentando conter um sorriso. O idiota achava divertido porque fazia um tempão que tinha acontecido, mas pra
mim era novidade. Tipo, eu não surtei na época? — Eu já te expliquei que só aconteceu.
— Ah, é? Era assim que você conquistava meninas por aí? Isso é tão energia de
fuckboy que eu não sei porque não me ofendi. Aliás, eu sei sim. Porque eu também fui uma cadela e agarrei a oportunidade que nem uma groupie ardendo de tesão.
— Ainda bem que você fez isso. Seria vergonhoso ser rejeitado.
— Sua identidade foi a única razão pra eu não te rejeitar. Você foi o meu segundo cara...
— Eu sei. Mas por que você ainda tá pensando nisso? Aconteceu, %Lexi%. E eu já te disse que não, eu não conquisto meninas assim e foi só com você. Antes disso, fiquei com uma antiga staff e quando acabou, ela voltou com o ex, se casou três meses depois, e pediu demissão. Foi o relacionamento mais casual que já tive.
— Antes dela teve a minha ex, a que inspirou algumas músicas.
Assenti, semicerrando os olhos.
— Nunca pensei que você ficar grata por você ter sido traído, %Aidan%. Mas ainda bem que aconteceu. Rendeu muitas músicas boas. E quanto à tal staff, que bom que ela voltou com o ex e você ficou solteiro de novo. Mas quando foi isso?
— Uns três meses antes de te conhecer — ele informou.
— E eu achando que você escolhia mulheres que nem escolhia roupas...
— Óbvio que não — ele bufou. — Não sou um idiota pra sair pulando de cama em cama.
— Mas por que eu, então? — Eu quis saber. — Tipo, é meio óbvio que um monte de mulher dá em cima de você e...
— Mas você não. — Ele tomou um gole de café. Seus olhos brilharam de diversão. — Fui eu que dei em cima de você, lembra?
— O que é ainda mais estranho — confessei. — Eu nem sabia que eu fazia o seu tipo. Achei que gostasse só de modelos ou algo assim.
— Que bobagem. Eu nunca tive um tipo antes de você aparecer. Eu nem sei como tive coragem de te convidar pro meu apartamento, amor. Só aconteceu. Eu te achei linda e divertida, e você me passou uma boa energia. Eu tive vontade de te beijar desde a primeira vez que você sorriu pra mim. Acho que foi amor à primeira vista, e eu nem acreditava nisso.
— O que aconteceu depois? — Eu quis saber e %Aidan% pressionou os lábios, incerto sobre o que falar. — Ei, acho que não vou ter um treco em saber disso, relaxa. Talvez me ajude a lembrar mais.
— Eu sei o que o médico disse, %Aidan% — o cortei. — Mas eu quero que você me conte também.
%Aidan% respirou fundo, resignado, e me encarou.
— Tudo bem — ele respondeu. Sorri, satisfeita. — Nós tomamos café da manhã naquele dia e depois eu chamei um táxi pra você. Pedi seu número antes e entrei em contato no mesmo dia. Nós ficamos nos falando todos os dias enquanto eu tava fora a trabalho e quando voltei, te chamei pra sair. Pra um encontro de verdade.
— Um encontro? — Arqueei uma sobrancelha. — Em público?
— Sim. Eu meio que me apaixonei um pouquinho mais depois das nossas conversas e queria deixar claro que eu tava te levando a sério. Te pedi pra ser minha namorada naquela noite. — Ele sorriu, como estivesse lembrando. Então me encarou, alarmado. — E se a gente fizesse isso?
— Isso o quê? — perguntei, terminando de tomar meu suco.
— Reproduzir nossos encontros. Talvez isso te ajude a lembrar. Fora que a gente nem comemorou nosso aniversário ainda, %Lexi%. Podíamos aproveitar a chance.
— Tá, por mim, tudo bem. — Dei de ombros. — Mas e os paparazzi?
— Podemos passar a perna neles. Reservar restaurantes com outro nome.
— Tá, reserva com o nome de
Dean Kwon, então — o desafiei.
%Aidan% revirou os olhos, mas assentiu. Eu ri baixinho. Ele quase sempre fazia o que eu queria, era fofo. Depois de dormirmos juntos, nossa conexão pareceu se intensificar mais também. Não estávamos mais nos segurando de tocar o outro e voltamos a dividir o quarto desde então.
Eu tinha dormido muito bem, obrigada.
Era bom não ter um sono agitado ou insônia atrapalhando minha noite. Claro que, no fim, minha irmã estava certa em um ponto. %Aidan% também tinha suas
técnicas para me ajudar a relaxar e eu absolutamente as adorava.
Insira aqui o emoji de demônio roxo sorrindo. Eu havia acordado de bom humor naquela segunda-feira e por mais que eu odiasse segundas, era o dia que eu também voltaria a trabalhar oficialmente. No mais, eu estaria entrando em contato com Kate o dia todo, sempre que uma de nós precisasse, e me comunicando por e-mail com outras editoras e interessados em fazer parcerias com ela.
Por enquanto, eu resolveria tudo online até segunda ordem. Por mais que eu me lembrasse de absolutamente tudo em relação ao meu trabalho, Andy, Dianna e Kate insistiram para que eu não saísse por aí sozinha. Como meu relacionamento com %Aidan% era público, as pessoas poderiam me abordar na rua, especialmente paparazzi, o que seria meio tosco já que eu não tinha ideia de como lidar com eles. Então, caso fosse necessário algum encontro presencial, Andy ou Kate se organizariam para me acompanhar.
Eu não tinha do que reclamar. Ainda estava completamente alheia sobre as redes sociais e não recebi nenhum e-mail estranho, então achei que estava tudo bem. Às vezes, eu via %Aidan% rolando a tela do Instagram e ficava curiosa, mas ele me deixava ver apenas coisas bem específicas. Tipo o que postava nos stories. Ele era meio
low-profile, então nunca tinha muita coisa.
Na noite anterior, cheguei a pensar que voltar para o Instagram pudesse me ajudar a lembrar de algo, mas %Aidan% foi contra a ideia quando comentei com ele. Era quase como se ele soubesse de algo que não queria que eu soubesse. Frequentemente, eu achava que, se ele pudesse me guardar num potinho, ele o faria. Como se eu fosse a rosa da
Fera, que precisava ser protegida a todo custo para não se despedaçar muito rápido.
Eu não tinha ideia se havia algo que fosse me fazer despedaçar, especialmente na internet, mas entendia %Aidan% querer me proteger. Eu poderia baixar minhas redes sociais quando bem entendesse, mas escolhi deixar de lado por mais um tempo.
Depois do café da manhã, nós descemos para a academia onde John já nos aguardava e meia hora de exercícios depois, meu bom humor evaporou como vapor de água. Eu estava suada, nojenta, com o cabelo grudando na testa e queria
muito dar um soco em John e xingar até a quinta geração da família dele.
O idiota me fez pedalar cinco quilômetros em velocidade rápida como aquecimento e depois me colocou para puxar ferro feito um burro de carga.
Por um lado, eu estava impressionada com o meu condicionamento físico em aguentar tudo sem desmaiar e por outro, eu não via a hora de ir embora.
John não foi bonzinho com %Aidan% também. Meu namorado ralou um pouco na musculação e nosso personal ainda o fez cantar enquanto corria para ajudá-lo a controlar melhor o fôlego quando se apresentasse.
Acho que %Aidan% fazia muito aquilo, considerando a estabilidade que ele conseguia manter em sua voz enquanto corria na esteira. Como fã, achei incrível. Como namorada, era bom saber que ele tinha bastante resistência física.
He he. Quando o treino acabou, nós voltamos para o apartamento e me recusei a encostar em %Aidan% enquanto estivéssemos suados. Passei direto para o banheiro enquanto ele foi preparar a gororoba de whey para tomar, e me despi rapidamente antes de entrar no chuveiro.
A água fria naquele momento foi bem-vinda e fiquei parada de olhos fechados por um momento, sentindo ela cair sobre mim enquanto recuperava o fôlego.
Foi quando um flash de memória me atingiu.
%Aidan% e eu estávamos naquele mesmo banheiro, discutindo.
— Sua agência tem que fazer alguma coisa, %Aidan%. Isso não é normal. Eles não podem te negligenciar assim! — exclamei, irritada.
— Eu sei, estamos trabalhando nisso, %Lexi%...
— Estamos uma ova, %Aidan%! Você não tem que fazer porra nenhuma — reclamei. — É obrigação deles proteger sua integridade física e moral. A única coisa que você tem que fazer é dizer sim pra qualquer proposta de processar quem seja o idiota que anda te perseguindo e qualquer outro da mesma laia.
É claro.
O stalker! Aquilo foi em fevereiro desse mesmo ano, dois meses atrás, antes de %Aidan% viajar para a turnê na Ásia. Eu descobri que ele tinha um stalker de estimação e não me disse nada até o idiota começar a me mandar mensagens também.
Inclusive fotos de pau e vídeos se masturbando. Um ultraje. %Aidan% disse que com ele isso nunca aconteceu, e por mais que ele bloqueasse as contas do fulano, ele sempre aparecia com uma nova, em um aparelho de celular diferente e com uma localização diferente também. Provavelmente devia estar usando algum aplicativo para mascarar tudo.
Fazia quase um ano e meio que %Aidan% recebia declarações e mais declarações do cara, mas nunca respondeu ou sequer aceitou nenhuma solicitação de mensagem. E não acontecia apenas no Instagram, mas também no Twitter, além de eventuais ligações que ele recebia de números desconhecidos.
E ele só pensou em me contar há dois meses, o idiota. Só por que o cara começou a me assediar também. Fazia só dois dias, e eu não hesitei em contar para ele assim que tive oportunidade e lembrei. Eu estava ocupada com o lançamento do livro de Kate e achei que fosse só um Zé Ruela aleatório, até ele começar a mandar mensagens esquisitas sobre me querer longe de %Aidan%. E que poderia fazer o
sacrifício de ficar comigo ao invés disso, para que eu deixasse %Aidan% em paz. Depois vieram as mídias de pau. Nojento
pra caralho. Quase xinguei o pau dele com as piores coisas que podia pensar, mas resolvi fingir que nem vi para não dar trela. Eu também não havia aceitado a solicitação de mensagem e assim que pude, contei a %Aidan%.
Discutimos feio naquela noite. Ou melhor, eu discuti, enquanto ele ouvia e tentava me convencer de que estava tomando providências. Depois de um ano e meio! A verdade é que o pressionei e ele confessou que só ignorava a pessoa, mas que não ia deixar mais passar depois dele mexer
comigo. Idiota protetor e bonzinho, pensei enquanto lembrava de tudo. Nessas horas, eu achava que o mundo era um lugar sombrio demais para %Aidan%. Ele tinha isso de não querer prejudicar ninguém, mesmo que isso o afetasse negativamente. Só que isso me deixava puta! Porque eu era do time
tome-aqui-um-processo-já-que-você-é-o-bonzão para cada ser, homem ou mulher que tentava prejudicar Kate. E o agente de %Aidan% sabia do que estava acontecendo e não fazia nada. Um palhaço. Eu não fazia ideia se algo foi resolvido, porque só lembrei daquela discussão.
E também lembrei que tenho ranço de Jace Keller, olha só.
Até ontem eu achava que ele era um cara legal e me perguntei porque ele não tinha aparecido nenhuma vez no nosso apartamento, já que era o funcionário mais próximo de %Aidan%. Aí estava a minha resposta. Eu o odiava e não escondia minha antipatia por ele, assim %Aidan% evitava nos colocar no mesmo lugar.
Ah, que coisa. Era irritante pra caralho lembrar de trechos da minha própria vida e eu não via a hora de recuperar todas as minhas memórias.
Lavei o cabelo com agilidade enquanto tentava esfriar a cabeça que agora estava quente de irritação, e tentei relaxar um pouco. Mas aí %Aidan% apareceu no banheiro um momento depois, já sem camisa.
— Eu lembrei de uma coisa — anunciei. — Como vai Jace, o Filho da Puta? Espero que ele tenha encontrado aquele stalker maldito.
%Aidan% arregalou os olhos levemente, surpreso.
— De tudo o que você podia lembrar, foi logo que odeia Jace?
— Deve ter sido minha irritação com os exercícios que puxou mais memórias irritantes do meu cérebro — deduzi, dando de ombros. — E então? Pegaram o idiota?
— Ainda não. Mas ele não te mandou mais mensagens depois que você me contou e eu comuniquei à agência sobre o que tava acontecendo. Bem, ao menos não que eu saiba. Você não me disse nada enquanto eu tava na Ásia.
— Hm... Tomara que peguem logo, então. Se esse idiota aparecer na minha frente, eu faço questão de enfiar meu sapato na bunda dele, aquele pervertido! — ameacei, irritada e deve ter sido engraçado já que %Aidan% começou a rir, o que só fez eu me irritar mais ainda. — Do que você tá rindo?
— De você, toda ensaboada ameaçando alguém que deve ter o dobro do seu tamanho.
— Você não sabe disso, ele pode ser menor que eu. E se for maior, não vai me impedir de chutar as bolas dele.
%Aidan% riu novamente e tirou o resto das roupas antes de se juntar a mim.
— Isso tudo pra me defender? — ele perguntou, quando dei espaço para ele no chuveiro, enquanto passava creme no cabelo.
— Sim, já que você é mole demais pra isso. Com esse seu jeito, se você fosse feio, teria sofrido muito bullying na escola. Você só sabe defender os outros, %Aidan%. Eu sei que você odeia conflitos, mas às vezes eles são necessários.
— A agência tá cuidando disso, %Lexi%. É só uma questão de tempo até pegarem esse idiota.
O encarei com certa desconfiança, mas resolvi deixar o assunto de lado.
— Ainda bem que você é hétero e não bi. Imagina ter que competir com homens também...
— O quê? Do nada? — %Aidan% riu da minha brusca mudança de assunto.
— Só tô dizendo porque você é muito bonito. Eu mal consigo tirar meus olhos de você, imagine um stalker — comentei, enquanto corria os olhos por seu corpo nu, sem um pingo de vergonha.
Eu estava ficando muito mal acostumada com aquele tipo de visão todos os dias. Mas olha, era muito bom.
%Aidan% sorriu, já terminando de lavar o cabelo, enquanto eu ainda estava presa com meu cabelão todo embaraçado. O dele era curto e fácil de cuidar. Até onde eu sabia, %Aidan% podia lavar o cabelo com detergente, e ele continuaria macio como o de um bebê.
Eu tinha que fazer vários tratamentos para manter o meu no mínimo aceitável. Terminei de lavá-lo enquanto %Aidan% se enxugava com uma toalha e, alguns minutos mais tarde, estávamos decentes de novo, agora sem um pingo de suor no corpo.
Meu celular tocou em cima da cama com o alarme de início do meu expediente e eu me tranquei no escritório com meu café da manhã, e %Aidan% seguiu para o estúdio no fim do corredor.