Capítulo 10
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Depois de uma hora e meia depois de %Aidan% sair para a academia, eu já tinha guardado as compras, tomado banho, lavado a louça e agora estava acomodada no meu sofá enorme e fofinho, rodeada de almofadas e bebericando um copo grande de chá-preto gelado com limão, enquanto lia mais alguns capítulos de
Oblíquo, que eu havia recebido naquela manhã.
Eu não cuidava somente da agenda de Kate, mas também atuava como sua primeira leitora beta e estar dentro do processo criativo dela era algo que eu fazia desde sempre e amava.
Aquele era o último livro da série que ela vinha publicando desde 2019 e estava previsto para ser lançado no próximo ano. Saber que estava acabando me dava uma sensação agridoce e às vezes me fazia economizar capítulos por não querer me despedir da série.
Kate costumava usar um pseudônimo em seus livros e isso não tinha mudado, mas antes ninguém sabia seu verdadeiro nome. Até mesmo os autógrafos de livros eram feitos na editora ou na casa dela durante a pré-venda, e os leitores passaram alguns anos sem ter noção de quem ela era, até Kate decidir largar seu emprego de enfermeira, que àquela altura era mais um hobby, e revelar sua verdadeira identidade.
Ela também era a única pessoa que eu conhecia que teria como hobby algo que envolvia pessoas em risco de morte. Eu nunca entendi isso, mas ainda era a profissão de formação dela. Só que falando por mim, se eu fosse Kate, eu nunca pisaria em um hospital se ganhasse dinheiro trabalhando em casa. E não era pouco dinheiro. Kate era uma autora
bestseller. E eu tive muita sorte de trabalhar com ela. Comecei como uma mera estagiária na editora, depois de passar meses fazendo freelancer enquanto eu procurava um emprego estável. Felizmente, o meu portfólio de freelancer interessou Andrew e ele resolveu me dar uma chance sem ao menos me conhecer pessoalmente.
Fui treinada pessoalmente por ele e fiz diversas coisas como estagiária na editora. Eu sabia um pouquinho de tudo, mas às vezes era cansativo. No entanto, o esforço valeu a pena e quando Kate decidiu revelar sua identidade e solicitou uma agente, Andrew me ofereceu a vaga.
Eu meio que surtei por um momento, mas aceitei sem pestanejar. Era de
Fleur de Colibri de quem estávamos falando. Uma autora grande, com milhares de leitores. De jeito nenhum eu ia deixar passar aquela chance, mesmo com medo de fracassar.
E foi a melhor coisa que fiz.
Kate era bem temperamental às vezes, e não era nem um pouquinho delicada quando estava fora de sua skin de enfermeira, mas nos dávamos incrivelmente bem. Andrew provavelmente percebeu que seríamos compatíveis antes mesmo de nós duas, e por isso me escolheu. Na época, minha relação com ele não era nada além de profissional e amigável como um bom chefe teria com seus funcionários. Ele e Dianna dividiam o posto de CEO e ambos eram incríveis.
Nunca conheci ninguém da editora que odiasse trabalhar lá e as poucas pessoas que vi se demitirem eram por motivos pessoais que envolviam família ou casamento. A maior parte dos funcionários era composta por mulheres e às vezes acontecia de largarem o emprego para se casar e serem sustentadas pelos seus maridos. Eu achava um tanto curioso e se o relacionamento era saudável, então devia ser legal, mas nunca me imaginei fazendo nada do tipo. Eu amava meu trabalho e era muito bem paga, obrigada.
%Cami% e eu passamos alguns períodos apertados fazendo bicos e tentando juntar um pé de meia para emergências. Não tínhamos plano de saúde e ainda havia os empréstimos estudantis da faculdade.
Nunca passamos nenhuma necessidade durante esse tempo, mas também não podíamos nos dar ao luxo de fazer muitas coisas. Felizmente, isso melhorou um pouco depois que %Cami% arrumou um emprego como professora e eu consegui o estágio na editora. Nessa época, ela ainda era a provedora principal da nossa casa, mas eu tentava ajudar o máximo que podia.
Quando me tornei agente de Kate, nossa vida melhorou consideravelmente. Meu salário aumentou e frequentemente eu recebia alguns bônus. Não demorou muito para que eu conseguisse quitar meus empréstimos estudantis e ajudar %Cami% com o restante que faltava para ela. Nos mudamos para um apartamento melhor e os luxos que não podíamos ter passaram a fazer parte de nossa rotina.
O melhor de tudo era poder pedir comida ou ir a um restaurante sem se preocupar com o valor e, é claro, ter plano de saúde.
No entanto, a nossa evolução financeira não nos fez ficar irresponsáveis. Sabíamos muito bem o valor que o dinheiro tinha e como era não ter muito. Esse era um dos motivos pelo qual eu nunca pararia de trabalhar. Nem mesmo se %Aidan% %Callahan% me pedisse.
Quando comecei na editora, minha conta bancária tinha apenas cento e quarenta dólares que eu estava tentando fazer render enquanto não conseguia nenhum outro trabalho como freelancer. Esse número se transformou em alguns milhares de dólares depois de alguns meses como estagiária, e algumas centenas de milhares quando comecei a trabalhar com Kate.
Eu sempre seria grata a Andy por ter me escolhido. E era bom saber que ele acreditou na minha capacidade quando nem eu tinha certeza dela.
Acabamos nos aproximando um pouco mais desde então. Kate era muito próxima dele e de Dianna, e os três se encontravam com frequência. Como sua agente, eu precisava estar a par de tudo, então eu a seguia a cada compromisso de trabalho.
Andy me ajudou com dúvidas e a resolver coisas que eu ainda não tinha muita experiência. De chefe e funcionária, nos tornamos amigos. Meses depois, ele me convidou para sair, e uma coisa levou à outra. Namoramos por um ano e meio, até que tudo ficou morno.
Fui eu que terminei nosso relacionamento, porque eu sabia que Andrew não teria coragem. Ele não queria me magoar, mas eu era rápida em pegar os sinais. Passamos cerca de dois meses empurrando o nosso relacionamento com a barriga, até que eu percebi que um de nós precisava agir, e tinha que ser eu.
Não foi um término triste e não nos magoou. Tínhamos passado dezoito meses juntos, mas nossa amizade era mesmo mais forte que isso. Nunca nos tratamos com indiferença, e a única coisa que mudou foi a linha de limite imaginária que estabelecemos automaticamente entre nós.
Como não ir a encontros sozinhos e não nos beijarmos mais. Já abraços eram permitidos. Afinal, ainda tínhamos um carinho enorme um pelo outro. Ele tinha sido o cara com quem perdi minha virgindade e era um cavalheiro. De todo modo, Andy e eu éramos pessoas que também funcionavam muito bem sozinhas, sem a necessidade de estar sempre em um relacionamento. Ele estava solteiro desde então e eu... Bem, aparentemente conheci %Aidan% seis meses após nosso término.
E fui amarrada por ele desde a tal noite do meu flashback, noite essa que eu mal podia esperar para lembrar e saber como tinha sido conhecer o amor da minha vida. Porque era isso que %Aidan% era, como eu o intitulava desde que era apenas uma fã — o que para mim foi até poucos dias atrás.
No entanto, como fã, eu não ousava sonhar com algo real. Claro que eu tinha meus momentos
delulu porque era divertido e aparentemente saudável, e toda fã tem. Mas na realidade mesmo, eu era bem pé no chão. No máximo, queria encontrá-lo pessoalmente para tirar uma foto e pegar um autógrafo. Mas meu peito se enchia de felicidade por saber que tínhamos ido bem mais longe que isso.
Terminei de beber meu chá com um barulho no canudo de metal no exato instante em que %Aidan% abriu a porta, já se livrando da camisa. Ele estava completamente suado e por mais que eu odiasse suor, aquela era uma visão e tanto.
— O que você tá bebendo? — Ele perguntou, enchendo um copo de água antes de colocar uma dose de whey protein e sacudir.
— Chá-preto com limão. Quer que eu prepare pra você? — ofereci, mesmo vendo ele beber aquela nojeira.
%Aidan% negou com a cabeça.
— Talvez mais tarde. Você quer? — ele me ofereceu o shake. Coloquei um dedo na boca e fiz barulho de vômito. %Aidan% riu e rolou os olhos. — Não é tão ruim assim depois que você se acostuma.
— Tirando o fato de que nunca me acostumei. Me arranje um whey que não tenha gosto de nada e aí a gente conversa.
Ele riu de novo e então terminou de tomar A Nojeira de uma vez.
— Vou tomar banho — disse, já se afastando. — John mandou oi e falou pra você se preparar psicologicamente.
— Ei! Você disse que ia pedir pra ele pegar leve.
— E pedi. Mas eu não disse que ele ia concordar com isso. — Ele sorriu com malícia.
Fiz uma careta e mostrei o dedo do meio para ele.
— Só se você vier também, amor — ele retrucou, com a resposta na ponta da língua.
Rolei os olhos, o ignorando, e voltei a ler. Vinte minutos mais tarde, eu estava fatiando vegetais e a panela de arroz já funcionava a todo vapor, enquanto eu me ocupava com os preparativos de
bibimbap. Senti uma súbita vontade de comer aquilo e não avisei %Aidan%. Eu nem sabia se ele gostava, mas se a culinária asiática era comum entre nós, então havia uma grande chance dele já ter comido.
Além disso, era muito prático. Eu só tinha que refogar vegetais, preparar um pouco de carne, e depois montar tudo em duas tigelas grandes. A versão clássica levava um ovo frito em cima também e molho agridoce feito com pimenta, ketchup e mel como base. Era possível acrescentar alguns temperos, mas a versão básica já era muito boa.
%Aidan% apareceu alguns minutos depois, quando eu estava refogando a cebola.
— Hm, que cheiro bom. O que é?
Bibimbap? — Ele espiou a tigela de legumes ao meu lado.
— Sim, eu não sabia se você gostava, mas senti vontade de comer. De todo jeito, tô fazendo o suficiente pra nós dois.
— Eu amo
bibimbap, amor — %Aidan% respondeu, dando um beijinho na minha têmpora. Sorri de lado, satisfeita. — Quer que eu ajude em algo?
— Você pode preparar o molho? Vou usar a mesma panela pra refogar tudo. Basta colocar no micro-ondas uma mistura de...
— Eu sei como é, %Lexi%. Relaxa, a gente já fez isso um zilhão de vezes.
— Ah, é? — O encarei, interessada.
— Pois é. Mas geralmente você me faz fatiar os legumes.
— Vou lembrar disso da próxima vez. — Sorri, voltando a atenção para a panela.
Uma vez que as tigelas ficaram prontas, nós as colocamos na bancada e %Aidan% tirou uma foto para postar nos stories do Instagram. Ele não me marcou, sabendo que eu ainda estava evitando redes sociais, mas posicionou um emoji de coração entre as tigelas.
Durante a tarde, passamos algum tempo deitados no sofá assistindo a um drama aleatório da Netflix, mas em algum momento acabei pegando no sono.
Estava chovendo e tinha esfriado um pouco. %Aidan% era quentinho e macio como um bom travesseiro, e eu estava deitada com a cabeça em seu peito, entre ele e o encosto do sofá.
Meus olhos pesaram depois da metade do segundo episódio e adormeci. Quando acordei, %Aidan% ainda estava lá e também dormia, mas a TV havia sido desligada. A chuva ainda caía lá fora e eu o observei por alguns minutos até decidir voltar a dormir.
À noite, depois do jantar, ele se trancou no estúdio e só saiu quase uma da manhã. Eu já estava deitada e tentando dormir há algum tempo, e ouvi ele andar pelo corredor abrindo e fechando portas. Me virei na cama outra vez, encarando o teto, até que decidi sair dali.
Peguei um travesseiro e um cobertor e fiz um montinho com eles em meus braços, antes de deixar o quarto de hóspedes e seguir até o quarto de %Aidan%. %Cami% havia até mesmo dito que eu dormia melhor com ele, então por que não?
Bati na porta e esperei até que ele abrisse, mas tive que levantar o olhar rapidamente quando notei que ele usava apenas uma cueca. Não me importei, é claro. Por que eu me importaria com uma visão daquelas?
O universo estava me agraciando.
— %Lexi%? — Ele chamou, encarando a pilha em meus braços.
— Vim dormir aqui — anunciei, entrando no quarto sem pedir permissão. Aquele lugar era meu também. — Tô com dificuldade pra dormir sozinha e aparentemente você é como uma pílula gigante de melatonina.
Me arrastei para a grande cama em nosso quarto e me acomodei no lado não mexido da cama. Afofei os travesseiros e me deitei, só então olhando para %Aidan%, que ainda estava parado na porta.
Bati do lado dele da cama, o chamando silenciosamente, e então ele se moveu.
— Acho que você não devia passar tanto tempo no estúdio. Você fica meio lerdo quando tá muito cansado — comentei, quando ele se sentou na cama.
— Tem certeza de que tá tudo bem? — %Aidan% perguntou.
Ele era tão certinho que era de dar dó. E eu achando que ele era temperamental que nem eu.
— Depois daquela declaração toda hoje de manhã, você ainda tá com dúvida? — brinquei. Um sorrisinho apareceu no canto de seus lábios. — Vem logo, %Aidan%. Eu quero dormir e você também precisa.
Os olhos dele estavam até meio inchados de cansaço, provavelmente por encarar a tela do computador por muito tempo. Eu conhecia aquela sensação e sabia que dormir era o melhor remédio.
%Aidan% desligou as luzes com um controle remoto, se acomodou ao meu lado e ficamos deitados de lado, olhando um para o outro. Uma mecha de cabelo dele estava sobre a testa e eu a afastei cuidadosamente.
— Boa noite, amor — ele murmurou, já de olhos fechados.
— Boa noite — respondi, recolhendo a mão.
Fechei os olhos e não precisei mais me revirar na cama até me sentir confortável para dormir. Estar com ele era suficiente. %Cami% tinha razão.
Alguns minutos depois, caí no sono.