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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Decay

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

🛈

CAPÍTULO 01 • THE FORSAKEN GOD

Tempo estimado de leitura: 48 minutos

Agora.

  As botas de combate com o couro desgastado pela passagem do tempo chapinhavam sem misericórdia as pequenas poças que se formavam em fissuras pelo meio fio da calçada irregular. O caminhar era marcado como uma marcha; pesado e ritmado, tal qual o de um condenado direcionando-se para sua execução. Acompanhado por inúmeros guarda-chuvas, alguns pretos, alguns coloridos que se destacavam entre o mar de pessoas apressadas para os mais variados propósitos, ele sequer se importou de ajustar o colarinho de seu casaco de trincheira para evitar o vento intenso da chuva outonal que assolava Nova York. Ao contrário, se por despeito ou por depreciação, ele não apertou seus passos quando o temporal se tornou mais intenso, as gotas mais severas, atingindo-o como um carrasco, umedeceram seus cabelos, fazendo-os grudar em suas têmporas, maçãs do rosto e em seu pescoço, escorriam por sua pele, frias, quase cortantes, como uma piada desdenhosa a si mesmo, lágrimas que ele não podia deixar-se esvair; não porque não queria, mas simplesmente porque deuses não choravam, não podiam.
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  Deuses vingavam-se; eram os mortais que se desfaleciam em soluços e tremores.
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  O inverno iria chegar mais cedo naquele ano; podia sentir em seus ossos a presença da entidade como alguém que acompanhava uma sombra pelo canto de seu olho. Estava ali, ocultada pelo canto de seu olho, ocultada pelo ponto cego, invisível, mas não intangível. Não saberia dizer, igualmente, se algo em seu cerne poderia se preocupar com isso no momento. Sua mente ainda estava presa no loop que se tornara reviver a conversar com seus irmãos; o gosto amargo ainda pairava por sua boca toda vez que recordava-se, pungente, sufocante, criava o nó em sua garganta, tentava sufocá-lo, e céus, como ele gostaria de apenas aceitar a morte iminente se assim fosse seu destino. Mas deuses eram cruéis.
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  Buscar a ajuda de seus irmãos havia sido um ato desesperado, errático e, no mínimo, estúpido. Recebera nada senão um convite vermelho escuro, de papel pesado e poroso — propositalmente caro — endereçado a si mesmo como punição. O remetente, ele não precisava de muito para adivinhar, já deveria estar esperando por sua convocação desde que, de seu nariz, um filete vermelho havia escorrido. Manchara o porcelanato encardido do banheiro de sua academia, enviara uma sensação sufocante de desorientação, e fizera seus ouvidos ficarem mudos; sangue. Mas havia um porém: deuses não sangravam. Ainda assim supusera que o sadismo e a inclinação a apreciação ao espetáculo daqueles que um dia chamara de família seria maior do que sua compaixão, estava errado. A lei era a lei, e ele a havia quebrado há muito, muito tempo. Letras curvilíneas, elegantes, eram igualmente tão afiadas quanto uma navalha contra o papel, cortava-o com uma finalidade que enviara um arrepio pelo corpo dele, pressionadas ao papel até criar-se relevo, evidenciando a força desnecessária ao escrever sua sentença, aquilo não havia sido um pedido, era uma convocação.
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  %Sean% %Broderick% podia sentir o peso invisível de sua própria condenação pairando sobre sua cabeça. Podia sentir a pressão desconfortável que se tornava maior, e mais dolorosa, desconfortável o suficiente para o fazer desejar apenas abrir seu peito até que estivesse exposto o que havia dentro, e arrancasse o que desconfortavelmente batia ali, que o atormentava. Podia sentir a tensão espalhar-se por seus músculos como cobras, rastejando por entre os músculos, fincando suas presas no tecido, causando espasmos involuntários. Ele podia quase ouvir o eco da risada deles ao fundo de sua mente; estavam assistindo porque eram cruéis tanto quanto poderosos. Porque podiam.
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  Engoliu o gosto amargo, unindo as sobrancelhas, enfiando as mãos dentro do bolso de seu casaco de trincheira pesado, ouviu meio aparte o tecido farfalhando suavemente com o movimento, estalando ao encontro do couro de suas luvas. Os olhos permaneceram fixos na calçada, como se de repente tivesse encontrado todas as respostas para suas dúvidas, como se estivesse ali o sentido de sua existência; o fazia não porque incomodava-se com a presença dos mortais ao seu redor, não porque o cheiro e a energia deles estivessem espalhados pelo espaço como manchas, suas angústias e obsessões gravadas em suas almas como uma sombra, pressionando-os para mais e mais baixo, tampouco pelo cheiro familiar que a autodestruição em andamento parecia exalar de seus poros, vibrando pelo ar como uma carícia perigosa, convidativa a ele, mas sim porque temia. Temia erguer seus olhos e deparar-se com ela. Temia virar o rosto, um gesto inesperado e instintivo, uma fração de segundos, e vê-la, com aqueles mesmos olhos marcantes que assombravam seus pensamentos, com os mesmos lábios convidativos curvados suavemente nos cantos em um sorriso discreto, às vezes até mesmo provocativo, com a mesma pele suave, e aquela mesma expressão inocente.
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  %Sean% sabia que não conseguiria impedir-se se porventura a visse, sabia que seria atraído a ela como uma maldita mariposa para as brasas de uma pira por vontade própria. Sabia que algo dentro de seu peito, aos pedaços e fragmentos, se agitaria não com a dolorosa sensação de ter sido quebrado muitos anos atrás, mas sim com a possibilidade de reconstrução. Quantas vezes não havia caído espontaneamente naquela falácia? Quantas vezes se permitiu acreditar na mentira que contava para si mesmo apenas para poder agarrar-se a efêmera possibilidade? Quantas vezes não havia sido, voluntariamente, um peão nas mãos de seus irmãos apenas para ouvir seus risos desdenhosos e desgostosos por deleitar-se em sua miséria?
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  Nunca mais, pensou, amargo.
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  Trincou os dentes com força, um pequeno músculo saltou em sua mandíbula bem pronunciada, cortante como navalha, quebrada, unindo as sobrancelhas ao virar à esquerda e observar a viela em Chinatown abrir-se para um centro pequeno comercial. Aromas variados de comida chinesa e até mesmo taiwanesas se espalharam pelo ar, o estalido contínuo e insistente do óleo quente fritando algo, os resmungos em línguas variadas murmurando acusações, especulações ou apenas pedido para que fosse trago mais algum ingrediente ou outra remessa de produtos para repor suas vitrines. Mas os olhos dele não se focaram em nenhuma barraca, apenas no restaurante com o nome “Hóng Lóng” que se projetava à direita, mais ao fundo da viela.
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  O letreiro pulsando em um vermelho neon, machucaria os olhos de qualquer mortal que o encarasse, mas em si, sentiu como uma pequena coceira, incômoda, mas facilmente ignorável. Ele podia sentir o poder que o lugar possuía; um templo, disfarçado em um utilitário humano. Não era o lugar que tornava algo sagrado, mas os mortais que depositavam suas esperanças e misérias que o tornava significativo. Era por isso que eles se moviam conforme os mortais moviam-se; todos, exceto %Sean%. O gosto amargo se tornou mais pungente em sua boca, e ele se questionou internamente onde diabos aquilo vinha, se era provindo do amargor que havia infestado seu peito ao ponto de corromper tudo o que ainda lhe restara, ou se era provinda do que quer que estivesse alterando seu corpo — lentamente, mas certamente.
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  Contas tilintaram, batendo umas nas outras quando ele empurrou a cortina que encobria a entrada do restaurante além da porta de vidro com a plaquinha de “aberto” presa precariamente. O cheiro de variados temperos, guiozas, bao e outras comidas tradicionais aqueciam o ar que pairava, estagnado, pelo lugar, misturando-se, raramente com o ventilador torto que repousava sobre o balcão de atendimento. Poucas mesas se espalhavam pelo restaurante, o piso de linóleo fosco possuía um pequeno brilho provindo da cera, e ainda estava liso, fazendo as solas desgastadas das botas de combate de %Broderick% ecoarem mais alto do que ele desejava ouvir. Toalhas claras, levemente amareladas cobriam a superfície das mesas, junto com arranjos florais discretos e os cardápios a disposição. Não havia muitas pessoas pelo local, mas as poucas que tinham ali, distraíam-se com seus celulares ou estavam entretidas demais com seus próprios interesses para se importarem com sua presença ali. Não por menos, sentia-se vigiado.
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  Prostrada atrás do balcão de atendimento, girando desinteressadamente o que parecia ser os resquícios de um bolinho da sorte, ou apenas uma de suas unhas postiças, a Dama, apenas estreitou os olhos quando o viu se aproximar. Longos cabelos meio ruivos, meio loiros deslizaram por seus ombros, pendendo ao redor de seus ombros delicados como um manto denso e encaracolado, os olhos cinzentos, quase prateados possuíam aquele círculo esbranquiçado que poderia ler a qualquer um, mesmo ele, com tamanha facilidade. Cintilavam com uma mistura de divertimento sombrio e impassividade que apenas refletia suas outras duas contrapartes. Os olhos de %Broderick% desviaram-se por uma fração de segundos para vasculhar o restaurante, as cortinas vermelhas cuidadosamente amarradas nos cantos, presos para dar vazão à luz do sol, as cadeiras de mogno desgastados, com o verniz começando a descascar nos cantos dispostas em cantos estratégicos vazias, os vasos de porcelana chinesa, originais e caros, expunham begônias vermelhas, que quase o fez sorrir, sarcástico, com a visão.
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  Elas haviam preparado o espaço para sua chegada; o aviso silencioso da escolha das flores não lhe passou despercebido, antes de voltar seu olhar para a Dama. Não disse nada a princípio, apenas a encarou. Houve uma época que apenas sua presença a teria feito se encolher, embora curiosa, ainda assim permaneceria temerosa. Houve uma época que ela, a ponta mais jovem daquela trifecta, teria lhe oferecido escárnio e desgosto por meramente entrar em seu caminho. Aquele que teria lhe roubado a juventude se assim desejasse, aquele que carregava a escuridão dentro de si como uma extensão de si, aquele que era destruição e nada mais. Mas agora? Agora olhava-o com o desdém que o fazia para com os mortais que a cercavam. %Sean% sentiu o gosto amargo pairar por sua língua, mas ignorou a reação mortal, trincando os dentes com força. Talvez com mais demasiada intensidade do que necessário, quando um pequeno músculo em sua mandíbula se moveu com o gesto. Alçou de dentro de seu casaco de trincheira pesado sua convocação, estendendo para a Dama, que, desdenhosa que só, não conseguiu conter um sorriso entretido.
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  A mais nova sempre havia sido mais impulsiva e propensa a insultar do que compreender o peso da presença das criaturas que recebia. Não era algo que o fazia de propósito, na verdade, pertencia a sua natureza, afinal, a empáfia rebelde do novo que acreditava que o mundo lhe pertencia.
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  — Apostamos se você iria aparecer aqui, Seth — murmurou a Dama com um sorrisinho discreto, quase torto, erguia-se somente em um lado de seus lábios, tornando-o mais afiado do que deveria. %Sean% não se deu ao trabalho de reagir à provocação envolta de docilidade da entidade à sua frente. Desviou seu olhar para a televisão plana que emoldurava a parede à sua direita, observando, com uma ponta de desgosto e irritação a reprise que assistiam. Observou seu próprio rosto, coberto de suor e com sangue escorrendo do nariz e canto da boca, em um ringue, sorrindo como um verdadeiro monstro, invicto. Planejado, é claro, uma demonstração de poder: aqui, quem comandava eram elas, não ele, não importava o quanto seu ego pudesse lhe corroer. — Anciã disse que você viria, mas eu e Mãe tínhamos quase certeza de que não o faria. Não posso deixar de me questionar se a motivação se dá ao desespero. Diga-me, Seth, acha que encontrará misericórdia aqui hoje?
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  %Sean% a encarou em silêncio por um longo momento. A crueldade não era explícita, mas reverberava como ondas por seus olhos prateados, observava-o como um experimento, e por uma fração de segundos, com o ego ferido e o desejo por sangue — tão familiar a si a essa altura —, considerou apenas arrancar as luvas que envolviam suas mãos e enterrá-la no peito da Dama. A traição jamais seria perdoada, era demasiado profundo interferir nos assuntos de terceiros, não somente as leis lhe proibiam, como igualmente seu próprio código de ética. Destruição não era uma linha paralela, mas uma cíclica, tendia a repetir-se, e querendo ou não, se encontraria com a Dama no mesmo ponto quando esta encontrasse seu próprio caminho com a autodestruição, tão atrativa para um espírito rebelde quanto necessária, mas mesmo que fosse parte do jogo daquele destino escrito, não significava que %Sean% tinha direito a antecedê-lo. Por mais que tudo entre si estivesse contorcendo-se para que o fizesse.
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  — Fala como se soubesse o que a palavra significa. — Sua voz áspera ecoou não menos cortante quando ele inclinou a cabeça para o lado. Sentiu ainda assim suas mãos se fecharam em punhos firmes, o tecido das luvas estalando suavemente em seus bolsos, um barulho vago quase distante para si. Seus olhos não se desviaram dos da Dama, observando-a atentamente, como quem desejava gravar até mesmo as menores alterações possíveis.
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  Sabia que havia tocado em um tópico sensível, sabia que havia acertado o ego dela, e sabia perfeitamente que não havia algo mais perigoso do que machucar o ego de um deus, mas tampouco poderia dizer que se importava. Ele não era alguém que iniciava um confronto, mas certamente era aquele que sempre terminava. Ao fundo, o eco de uma plateia inteira gritando seu nome vibrou por sua pele como ondas elétricas, a adoração vibrando por seu ser como uma droga potente, perigosa, convidativa. Em uma outra época, teria se permitido perder-se naquela sensação. Não havia algo melhor do que ser adorado; não havia algo mais perigoso, igualmente.
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  — Sabe como a lei funciona, Seth — a Dama retorquiu com um chiado baixo, endireitando-se o suficiente para abrir a convocação e verificar o selo, antes de retirá-lo com um movimento econômico de suas unhas e jogar a carta no lixo sem um segundo olhar. Deliberadamente levou o selo em direção à boca, mastigando-o com uma expressão quase entretida, se não sombria o suficiente para deixá-lo em alerta. — Você quebrou uma regra, ciente ou não, você paga. É assim que as coisas funcionam, Seth.
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  %Sean% bufou, amargo, mas não respondeu a ela.
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  — Já a encontrou desta vez? — a Dama especulou, com um tom de voz traiçoeiro, tão curioso quanto cruel.
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  O estalo foi quase imediato na cabeça dele. Em um segundo, ele estava parado, no outro, a havia agarrado pelo queixo, os dedos fincando-se contra a pele dela com mais força que o necessário. Os músculos tensionados com tamanha intensidade que pareciam ao ponto de ruptura, ao ponto de sentir o incômodo da dor se espalhar por baixo de sua pele, o tremor aumentando gradativamente, implorando-lhe para que movesse, para que acabasse com ela de uma vez. Mas mais do que isso, foi uma ponta de satisfação sombria ao observar medo enredar-se nos olhos prateados dela. Por uma fração de segundos, a Dama, em toda sua insolência juvenil, pareceu se lembrar quem ele era.
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  — Um toque. — O rosnado que escapou por entre seus dentes chocou-se como uma lufada de ar contra o rosto da Dama, e ele a observou, com uma ponta de satisfação sombria, tremer. — É tudo o que eu precisaria e você não seria nada mais do que uma memória. — Inclinou-se na direção dela, até que estivessem a poucos centímetros de distância, sua respiração, cálida, chocando-se contra o rosto dela, impassível, os olhos, obscurecidos por sua própria natureza, um prenúncio de perigo. Um convite à destruição. — Quer apostar? — ameaçou, sem importar-se com a sensação de estar sendo assistido, sem importar-se com as prováveis consequências que lhe acarretariam se ele seguisse adiante.
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  Ele a teria destruído. Ele teria feito sem um pingo de remorso em sua consciência, se não pelo ego ferido, pela mensagem que enviaria — ele comandava respeito, comandava que ao menos se lembrassem de quem ele era. Mas o pigarro projetando-se de algum ponto atrás de si, de onde a cozinha ficava, parou.
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  — Solte-a, meu senhor. — A voz melodiosa de Mãe ecoou de algum ponto vindo da cozinha, mas não menos severa quanto a carranca que %Sean% %Broderick% mantinha presa em seu rosto. Ele trincou os dentes com força, considerando suas alternativas. Não precisava ser um gênio para ter certeza do que aconteceria se ele ousasse desobedecê-la. Sabia das consequências, e embora uma parte de si, desesperada e furiosa, manchada pelo ego machucado e a cólera crescente, estivesse disposta a fazer o que desejava sem se importar com as consequências disso, uma mais sombria, experiente sabia que não valia a pena. Então ele fez como lhe foi comandado.
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  Virou-se na direção de Mãe, observando os cabelos levemente grisalhos nos cantos, os fios esporádicos criando um contraste gritante entre as mechas escuras como a noite, os olhos prateados, com aquele anel quase esbranquiçado ao redor da íris, todavia, embora severo, não era desprovido de compaixão. %Sean% estreitou os olhos; era mais desconfortável ser recebido por uma palavra gentil e uma mão estendida, do que uma provocação.
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  — Venha, ela está esperando, você já evitou o confronto a suas ações por tempo suficiente. — Mãe indicou com a cabeça, retirando o avental de sua cintura, e então caminhando de volta para a cozinha. %Sean% não voltou a encarar Dama, mesmo quando a jovem, petulante como sempre, resmungou abaixo de sua respiração alguma provocação enviesada.
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  Acompanhado pela presença quase fantasmagórica de Mãe, %Sean% atravessou o espaço da cozinha, desviando de alguns empregados atarefados, cegos demais para sequer percebê-lo ali, e por um segundo, uniu as sobrancelhas, questionando-se o que diabos havia mudado consigo desde aquela manhã. Podia sentir que algo dentro de si mesmo estava errado, algo não mais condizia com sua própria natureza, mas bem, um milênio daquela maldição o havia feito se acostumar com a sensação de que algo estava faltando. Sabia que parte disso era o chamado por ela. Sabia que era a parte de sua alma que havia se dispersado junto com ela, tentando atraí-la de volta para si, apenas para que ele a assistisse desaparecer em meros segundos por algum ato estúpido que ele pudesse tomar. Mas, naquele dia, parecia mais do que isso. Parecia que estava se desfazendo, como areia dentro de uma ampulheta, estava escorrendo, desaparecendo com uma velocidade alarmante. Desviou, ainda assim, de um garçom antes de virar à esquerda e descer as escadarias de madeira do restaurante em direção à adega do espaço.
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  As solas de suas botas de combate guincharam sobre o assoalho de madeira ao descer degrau por degrau. Olhos estreitaram-se ao inclinar sua cabeça para o lado, acompanhando a maneira com que a madeira não demorou a tornar-se terra batida, então o cheiro pungente de umidade percorreu o espaço, fazendo com que seus cabelos grudassem na lateral de suas têmporas e nuca, encaracolando levemente. A iluminação, de fundo amarelado, oscilava, ora ligada, ora apagada, iluminando um espaço maior do que o restaurante em Chinatown poderia comportar. Sabia que não estava em lugar algum, se não o próprio reino dela. Podia sentir a energia misturando-se com o poder, pairando por sua pele como um toque fantasma. E ao centro de tudo, encontrava-se a Anciã, sentada à frente de uma mesa de madeira quadrada, com algumas garrafas de vinho abertas, enquanto abria mais um jogo à sua frente.
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  Diferente da Dama e da Mãe, a Anciã era uma criatura ameaçadora. Os cabelos grisalhos, totalmente prateados, eram cuidadosamente entrelaçados para que se formasse uma coroa sobre seu crânio, algumas mechas enroscavam-se com espinhos e raízes, os olhos não eram prateados como das outras duas, mas de um tom esbranquiçado, vibrante que se destacava em sua pele, as rugas e linhas de expressão tornavam seu rosto outrora belo agora severo. Traços finos e elegantes, ainda presentes em toda sua palidez. Não havia misericórdia ali, não havia negociação, era o que era, e um arrepio percorreu pelo corpo dele, eriçando os pelos dele com a estática que pairava ao seu redor. Não o tratava como convidado, mas sim como um condenado, e talvez este prenúncio fosse autoexplicativo por si só.
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  — Você veio, como eu disse — a Anciã murmurou, voz áspera e falhada, levemente carregada em sua respiração, não era menos rígida e firme. %Sean% lançou um breve olhar ao seu redor, sentindo uma ponta de amargor atingir seus pensamentos ao absorver o espaço contemplativo. Mãe indicou para que ele se sentasse na cadeira à sua frente, mas %Broderick% não o fez. Embora elas pudessem ser as executoras da lei, ele ainda era um deus, e o fato de que elas pareciam agir como tivessem se esquecido desse fato era o suficiente não apenas para incomodá-lo, mas para enviá-lo em uma espiral de fúria controlada, pois sabia que o ato não era deliberado.
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  Questionou se seus irmãos estariam se divertindo tanto com sua presença ali quanto ele supunha que o fazia. Questionou se a ironia amarga agradava-lhes ou se era sua própria decadência o fato chave em comum.
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  — Você chamou — desdenhou com um tom afiado, recebendo um olhar em forma de alerta. Em outra época, teria ao menos evidenciado algum tipo de reverência diante daquelas entidades, passado, presente e futuro, embora fragmentadas, cada uma a sua forma, não deveriam ser provocadas. Eram severas em suas punições, e mesmo deuses deveriam lembrar-se de que sua existência era, de certo, limitada. Mas a maneira com que a Anciã lhe retornava o olhar, era o suficiente para que %Sean% não conseguisse conter sua própria essência, o clamor pela destruição, por menor que fosse.
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  — De fato, eu chamei. — Um sorriso afiado, perigoso, começou a surgir pelos cantos enrugados de seus lábios, e %Sean% não pôde deixar de questionar-se o que diabos não estava enxergando dessa vez. Podia sentir os nós e linhas que o prendiam não apenas naquela maldição, mas naquela existência como um peão. Podia sentir cordas sendo puxadas, não todas, aquilo seria em demasia previsível, mas algumas, discretas demais para que ele se desse ao trabalho de reconhecê-las, mas presentes o suficiente para colocá-lo em movimentação. Podia sentir as cordas se tensionarem e relaxarem, mas não conseguia identificar quem as segurava. — Sente-se, garoto, e justifique-se.
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  %Sean% trincou os dentes com força, encarando a Anciã. Chamá-lo de garoto era meramente uma demonstração de poder e desdém, era uma maneira de apresentá-lo como inferior, como nada mais do que um recém-nascido diante de sua sabedoria. Um erro comum a ser cometido ao considerar que tempo por vezes poderia ser um bom professor e oferecer a dádiva de sabedoria para alguém, quanto, igualmente, era um carrasco cruel que apenas enrijecia a própria burrice abalizada. Havia uma fina linha entre tornar-se sábio e apenas convencer-se de que era algo por ego; a Anciã parecia transitar por estas linhas como uma criança. Ainda assim, conquistar a fúria dela não estava em sua lista de tarefas para o dia, então, obrigou-se a engolir seu próprio ego machucado, seu egocentrismo e presunção, sentando-se contra a cadeira de madeira escura. O objeto estalou abaixo de seu peso, quando ele se recostou contra o mesmo, estreitando os olhos, observando a Anciã com atenção.
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  — Não tenho defesa, não irei me justificar. Qualquer que seja a punição, só o faça — pronunciou-se após um longo momento em silêncio, desviando os olhos do rosto inquisitório da Anciã, permitindo-se apenas encarar o vazio que aquele espaço parecia apresentar. Havia mudado com o tempo, como todos eles mudavam, independentemente de suas presenças ou não, aqueles reinos de poder, onde suas magias coexistiam em forma primária, mas alterava-se como algo vivo.
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  Por um segundo, uma fração minúscula e tentadora de tempo, seus pensamentos se extraviaram para um passado doloroso, onde ele possuía controle sobre seu próprio reino. Onde ele não havia sido expulso como nada mais do que um animal e não havia sido amaldiçoado. Quando seu nome ao menos o tornava algo a ser temido e não domesticado. Mas isso já fazia tempo o suficiente para que apenas o gosto amargo e as lembranças desfocadas, com ruídos em sua memória o assombrassem.
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  — Esteve vivendo entre os mortais a tempo suficiente para se tornar arrogante como eles? Para achar que sua importância é demasiada para ser notada? — Anciã retorquiu com um chiado entre dentes, e %Sean% trincou os dentes com tamanha força que suas têmporas começaram a latejar. Fechou as mãos em punhos firmes, sentindo o pequeno tremor espalhar-se pelos músculos tensionados, os olhos queimaram, em um silêncio crescente, fundado por ressentimento e algo mais, algo sombrio que se contorcia pelo peito do deus, sufocante e cálido, fixos no rosto da velha. Amargor pela maldição que lhe fora posta como punição, ressentimento por ser tratado não melhor do que um cachorro por aqueles que um dia o haviam servido como desejava, e algo sombrio, algo mais profundo e denso que estava enraizado em sua alma. Destruição. — Olha-me com raiva, mesmo frustração agora, mas esquece-se que foi você quem concordou com tudo isso. Acaso culpa-me agora por ter se deparado com um resultado que não lhe agradou? Como isso pode ser culpa minha, Seth?
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  — Não se esqueça de quem sou, Arianrhod. — O aviso baixo, adquirira uma nota mais perigosa do que ele tinha intenção de expor, mas não pediria desculpas por o fazer. Deuses não eram compassivos, deuses não pediam desculpas ou retornavam atrás de suas palavras. Não, a dádiva da flexibilidade era reservada aos mortais e apenas estes. — E do que ainda posso fazer.
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  — Por mais quanto tempo, Seth? — A Anciã abriu um sorriso afiado, todos os dentes afiados expostos, inclinando-se para frente, apoiou os cotovelos sobre a mesa, e o queixo nas costas das mãos enrugadas com veias azuladas expostas, os olhos cintilavam com uma promessa silenciosa de retribuição que o fez se silenciar. Percebeu, tardiamente, que as palavras dela não se referiam em si à maldição que carregava dentro de si, mas a outra coisa completamente diferente. Sua boca ficou estranhamente seca, sua respiração perdeu-se em algum lugar de sua garganta, e %Sean% levantou-se com um movimento brusco, quase selvagem. A Anciã soltou um riso baixo, nasalado, desprovido de humor. — Você está morrendo. — O sorriso afiado dela tornou-se mais cruel, decisivo. — Posso sentir mesmo agora, passou tanto tempo no mundo mortal que começou a tornar-se um deles. E ainda acredita que tem algum poder aqui? O que acha que ainda tem direito se não o esquecimento que buscou por si só?
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  Raiva queimou por suas veias, aquecendo-as quando ele se inclinou na direção de Arianrhod, seus olhos fixos nos prateados dela com intensidade. Um grito, fosse de fúria contida ou dor, acabou morrendo em sua garganta enquanto sua respiração escapava como lufadas pesadas de ar. Havia sim ódio pairando por seu cerne, mas este ódio, vermelho e cegante, acabou por misturar-se com a culpa profunda, a completa compreensão de que, de fato, em sua presunção exacerbada e atos impulsivos ele havia buscado por aquilo, a frustração e ressentimento que sentia pela a maldição distorcida que seus irmãos haviam lhe jogado sem hesitar, na armadilha que estava preso há um milênio sem ter perspectiva de escapar ao peso que carregava de suas próprias responsabilidades e então, sob tudo, em um limiar crepuscular dentro de si havia apenas o desespero. Profundo e sufocante desespero que crescia como vinha por seu peito, enroscando-se por seus músculos, fincando-se profundamente até que tivesse se tornado um só com ele, impossibilitando-o de pensar, de mover-se. Estrangulando-o lentamente, sem perspectiva de fuga. Sem mais nada. E então, ao fundo de sua mente, aquela parte sombria e traiçoeira que o acalentava, a pequena esperança, uma fagulha instável em meio a um mar escuro e putrefato, sem vida; se morrer fosse o que lhe era necessário para mantê-la a salvo de si, se perdê-la era a garantia que, desta vez, não a perderia por suas próprias mãos, era assim um final tão ruim para si? Seria assim tão desolador perceber que tudo o que havia sido, tudo o que era agora desfazia-se por entre seus dedos como um mero amontoado de areia?
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  A Anciã permitiu-se recostar contra a cadeira, observando o rosto dele com atenção, antes de exalar lentamente. Abaixou os olhos para as cartas espalhadas sobre a mesa, alçou uma, a Imperatriz, girando por entre os dedos ossudos e longos com uma expressão agora mais contemplativa do que acusatória.
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  — Não há nada que eu possa fazer que poderia ser vigente em relação a você, Seth — murmurou contemplativa, a voz cruel agora encoberta por uma tonalidade mais baixa, controlada, distante. Estava perdida em seus pensamentos, percebeu, calculando e analisando as possibilidades das punições em potencial que poderiam servir como exemplo por ele ter quebrado a única regra que eles possuíam, a única regra que ele não deveria ter quebrado. — Como posso quebrar alguém já em fragmentos? Como posso punir alguém que irá sentir alívio e não temor? Até onde quebrar alguém prova um ponto, e até onde a quebra se torna conforto? — resmungou, exalando por fim, antes de recolher as cartas sobre a mesa, e levantar-se com um movimento econômico, elegante, a saia longa marrom escuro farfalhou por entre suas pernas, enroscando-se por entre as pernas dela quando ela se aproximou de um dos barris de vinho. Sabia que não deveriam ser barris de fato, mas tinha pouco interesse em averiguar a fundo o que poderia ser. Lançou as cartas ali, com desdém, antes de retirar o que parecia ser ossos. %Sean% sentiu algo cálido espalhar-se por seu peito, e ele quase sorriu ao reconhecer os ossos. Eram os que ele havia dado a ela, há muito, muito tempo. Pela primeira vez, quando encarou a Anciã, não havia fúria contida, ressentimento corroído ou acusações, mas apenas um pesar; pelo que poderia ter sido e que jamais seria. Ainda assim, permaneceu em silêncio, observando-a com atenção. — Como posso puni-lo se não tem mais nada a perder?
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  %Sean% não respondeu; não tinha certeza se o deveria fazer. Ele ainda tinha alguém a perder ali, alguém que há anos podia sentir existindo, respirando ao fundo de sua mente, alguém que ele havia jurado nunca mais encontrar. A Anciã ainda poderia usá-la contra ele, ainda poderia ameaçá-la e até mesmo pedir sua alma como pagamento por seu débito. Não seria a primeira vez que ela o fazia, tampouco seria a última.
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  — Sabe o que irá acontecer agora, não sabe? — Anciã resmungou, por fim, após uma longa pausa. %Sean% sentiu algo melancólico envolvê-lo como um cobertor denso, desconfortável, desviou os olhos para os ossos que ela lançou sobre a superfície lisa da mesa, observando o padrão que os ossos formaram. A resposta “não” era gritante; sentiu vontade de rir, amargo com a rejeição, mas a essa altura era algo que estava familiarizado. Os olhos prateados fixaram-se no rosto dele, observando-o com atenção, parecendo buscar por quaisquer mínimas reações, pesando as possibilidades, calculando a melhor forma de aplicar a punição, mas %Sean% permaneceu inexpressivo, encarando-a em silêncio.
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  — Sei, e não vou pedir por perdão — %Sean% pronunciou-se deliberadamente, os olhos queimando o rosto da Anciã, tentando memorizar o rosto da velha mulher. Não sabia exatamente por que o tentara fazer, apenas sentiu aquele impulso, mortal, de gravá-la em sua memória. Como alguém que sabia que viria a esquecer no segundo que deixasse aquele lugar.
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  — Sempre foi o mais insolente de todos. — A Anciã estalou os lábios desaprovadora, e tão desgostosa quanto. %Sean% quase sorriu com o desdém que pairou de suas palavras, os olhos obscurecidos pelo ressentimento e pela fúria contida pareceram suavizar por uma fração de segundos quando os cantos de seus lábios se retorceram, antes de tensionar a mandíbula outra vez. O silêncio pareceu se estender entre os dois, pesado com a finalidade que carregava antes dela murmurar, imponente: — Eu, por meio desta, proíbo que Seth, Lorde da Guerra, a própria Destruição, tenha seu acesso aos reinos irmãos que outrora o acolheram, permanentemente, sob punição por ter quebrado sua palavra. Que não haja misericórdia em seu caminho. Que não haja paz àquele que agora torna-se proscrito. Que minhas palavras sejam lembradas até os fins dos tempos, que estejam marcadas não apenas em sua memória, mas em sua carne, e que quaisquer desafiantes que tentem distorcer ou revogar minhas palavras enfrentem as punições adequadas, pois eu sou a lei, e a lei jamais será quebrada.
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  Quando %Sean% fechou os olhos, sabia o que encontraria quando os abrisse, mas não pôde deixar de sentir um profundo pesar pelo que havia acabado de acontecer. As leis dos deuses eram diferentes dos mortais; eram mesquinhas, severas e irreparáveis. Uma vez ele havia, em toda sua presunção e instável natureza, desafiado seus irmãos pela empáfia de uma superioridade insolente e deslumbrada. Acreditara-se como maior e não apenas uma correlação estendida do todo, e por isso pagara ao ser amaldiçoado e relegado a viver entre os mortais. Agora, ele era nada mais do que apenas um proscrito, um pária, condenado a vagar pelo resto do tempo que ainda lhe sobrava entre as margens, um espectador distante, de um lugar que não mais poderia chamar de casa. Ele não voltaria ao seu reino, ele não veria as pessoas que um dia nutriu um certo amontoado de afeto e respeito, tampouco poderia levar aqueles que o seguiram para o mundo mortal, de volta para suas casas. Seu exílio era absoluto e total, e condenava aquela existência medíocre àqueles também que o haviam seguido por lealdade.
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  E a pior parte? Sua punição, ainda que amarga, soava mais como uma emancipação de tudo o que havia carregado. Se não fosse por ela, então ele teria encontrado a paz. Quando voltou a abrir seus olhos, não se surpreendeu em deparar-se com o letreiro familiar da academia que possuía, localizada no centro de Las Vegas, era discreta o suficiente para não chamar a atenção desnecessária, mas convidativa o suficiente para atrair as pessoas certas para o lugar. Pessoas violentas, pessoas que buscavam por sangue e destruição, fossem de outras ou de si mesmas, não importava, o convite sempre seria estendido. Empurrou a porta de vidro, estreitando os olhos, sentindo o aroma familiar de decadência espalhado pelo lugar.
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•••

  — Tô assumindo que foi horrível pela cara que você está fazendo — Maeve murmurou com uma ponta de desdém em seu tom de voz arrastado, quase preguiçoso, um sorriso torto surgiu por seus lábios tingidos de vermelho, sem se dar ao trabalho de sair da cadeira dele, ou tampouco retirar as caixas de delivery de comida italiana que ela deveria ter comido com Jack no almoço aquele dia.
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  %Sean% trincou os dentes com força, endireitando os ombros e lançando um olhar nem um pouco contente para a mulher, observando-a ter, ao menos, a decência de encará-lo com um pouco de medo. Maeve engoliu em seco, deixando suas pernas caírem da mesa que se apoiava, apertando os lábios com o batom vermelho em uma linha rígida ao unir as sobrancelhas, parecendo estar considerando com cuidado suas próximas palavras.
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  %Sean% sentiu a fúria contorcer-se ao pé de sua barriga, cálida e convidativa, o desejo de permitir-se explodir, tentador, e ele se questionou de onde nascia aquele descontrole. Questionou de onde aquele impulso havia se enraizado, e não precisou de muito para saber que não era somente ele. Exalou, entre seus dentes, unindo as sobrancelhas observando suas próprias mãos. Considerou as palavras da Anciã, considerou as palavras de seus irmãos, considerou sua própria maldição. Havia algo de errado ali, algo que havia se desfeito, uma linha que ele deveria ter atravessado sem perceber e que agora voltava para assombrá-lo.
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  — O que a Anciã disse, afinal? Foi assim tão ruim, %Sean%? — questionou, cautelosa, chamando-o por seu nome mortal como um ato de gentileza, um gesto de apaziguamento que %Broderick% não soube dizer se conseguia acreditar muito.
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  Umedeceu seus lábios secos, voltando a endireitar-se antes de lançar um olhar breve na entrada da porta, e então permitir-se desabar na cadeira à frente de sua mesa, sem importar-se com os lugares em que estavam. Se fosse ser honesto, Maeve era mais dona daquela academia do que ele, mesmo que ele fizesse parte do administrativo, mesmo que fosse a fama de seu passado que tivesse atraído lutadores e pessoas interessadas em treinar ali, mesmo que fosse de seu bolso que o dinheiro saía todos os meses, e mesmo que fosse sua palavra a final, Maeve era a pessoa que geria aquele lugar. Não só da parte da organização como ações efetivas de aquisições, coordenações. Estranhamente, até onde sua consciência lhe permitia sem censurá-lo com veemência, até poderia se dizer que ele confiava em Maeve, mas não o suficiente para lhe confessar o que vinha lhe rondando a mente.
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  — Olha, você pode até tentar engolir tudo o que você tá sentindo, mas mesmo deuses devem ter um limite, %Sean%, não dá para manter tudo dentro de si o tempo todo.
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  — Deuses não são como mortais, Maeve, eles não sentem como vocês — %Sean% retorquiu levando sua mão esquerda em direção ao seu próprio rosto, massageando as têmporas doloridas. Desde quando ele sentia dor? E por que a letargia agora o incomodava com insistência?
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  — Mas você não é mais um deles, é %Sean%? — Maeve pontuou e %Sean% deixou sua mão desabar de seu rosto, inclinando sua cabeça para a direita, recostando-se contra o encosto da cadeira, apoiando sua nuca na cabeceira, encarando a amiga de longa data com uma ponta gritante de impaciência. Era inconveniente, talvez até mesmo irritante, que ela o pudesse ler com tamanha facilidade. Estava acostumado com mortais acreditando que possuíam algum nível de empatia para compreender suas emoções, para se conectar com ele, mas Maeve era uma das poucas que em momentos como aquele, momentos em que o desespero se tornava gritante o suficiente para consumir sua mente de uma só vez, que %Sean% questionava se ela realmente não o conseguia fazer. Apertou os lábios em uma linha fina, desviando seu olhar do rosto de Maeve para o caderno de contas aberto.
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  Estreitou os olhos, encarando por uma fração de segundos o rosto cheio de ângulos e gentil de Maeve, e então repousaram sobre as folhas amareladas revelando uma caligrafia ríspida, quase abstrata, forte, que marcava as páginas com tinta vermelha — aquilo não era tinta. A princípio, o deus não havia dito nada, apenas observou atentamente a situação em mãos: a expressão preocupada e distraída de Maeve ao concentrar em seus problemas pessoais, a postura agora, repousando os braços sobre a mesa, sem perceber que cobria a parte inferior das folhas — ou talvez soubesse exatamente o que estava fazendo. A posição do caderno de contas, página 652, o que deveria ser referente a algum acordo feito entre maio a agosto com algum mortal desesperado há quase 26 anos. Tentou buscar ao fundo de sua memória quem poderia ser, os nomes reverberaram como ondas por sua mente, mas não proporcionaram nada se não uma mera familiaridade momentânea.
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  — Onde está Jack? — %Sean% perguntou, mais categórico do que interessado em saber o que exatamente um de seus funcionários estavam fazendo. Verdade seja dita, Jack era uma peça imprevisível sob seu domínio. O homem que o havia enganado para conseguir vida eterna, havia prestado sua lealdade não por respeito, mas por interesse.
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  Não era incomum que %Sean% o pudesse sentir, em algum lugar abaixo da academia, em algum espaço que %Sean% havia proibido entrada, ou nas câmaras que se interseccionavam a caminho de seu próprio reino tramando alguma coisa. Na maioria das vezes, eram apenas lutas ilegais, algo que %Sean% não era lá assim tão contrário, pois se alguém buscava sua autodestruição, certamente saberia exatamente o que estava fazendo quando entrava naquele ringue, mas algo estava estranho naquele dia. Algo insuportável que contorcia-se em suas entranhas, e projetava-se atrás de si como uma sombra, um peso com garras gélidas e afiadas que pulsava, atraindo sua atenção para um ponto invisível, mas presente, que ele ainda não havia conseguido identificar direito. E ao centro de tudo, seus irmãos, observando-o com mais interesse do que o normal. Um arrepio mortal percorreu pela pele de %Sean%, ao encarar Maeve com mais seriedade dessa vez.
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  — Qual deles você cobrou hoje, Maeve? — Sua pergunta não era aberta a hesitações ou manobras para despistá-lo, pelo contrário, sua voz projetou-se, firme e implacável pelo escritório no segundo andar de sua academia, comandando uma resposta.
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  Maeve não respondeu, engoliu em seco, fechando o caderno de contas com um movimento rápido de seu pulso, e levantou-se, graciosamente, ajustando sua saia longa. Unhas vermelhas escuras, longas e afiadas, esfregando a renda para desamassá-la. Os olhos de %Sean% a seguiram com intensidade, seu corpo pareceu tensionar-se ainda mais. Sua falta de resposta era, igualmente, uma — a pior que ele poderia esperar.
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  — O senhor não precisa se preocupar — Maeve começou a dizer, parando em frente a uma mesa de canto, igualmente de mogno, e mexendo nas garrafas de cristais com os variados tipos de bebida alcoólica que eles gostavam; %Sean% não bebia, não podia. Não tinha efeito algum nele de qualquer forma. — Eu já lidei com a cobrança, e o que tinha que ser feito, foi feito.
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  O silêncio reverberou entre os dois, carregado de eletricidade e uma ameaça velada. %Sean% colocou-se de pé, deliberadamente, os olhos fixos nas costas de Maeve, observando-a colocar uma quantidade considerável de bourbon e virar o copo de uma única vez.
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  — Perguntei o nome, Maeve, não o que você fez — cortou %Sean% mais brusco, perigoso. Esperou em silêncio, sem desviar seu olhar da mulher até que esta estivesse encarando-o de novo, agarrando-se ao copo de cristal em suas mãos. Sabia que ela deveria estar com medo de sua reação, podia sentir o medo dela como uma onda de calor ao seu redor, sabia que deveria escolher suas palavras com cuidado, e considerar que a perfeição com que exigia de si, não era equiparável com a dela que de tudo ainda continuava a ser mortal, mas o desespero que aprofundava-se por suas veias, intoxicante, amortecendo parte de sua racionalidade, estava falando maior. Porque ele sabia qual seria a resposta dela, antes mesmo que deixasse seus lábios tingidos de vermelho. Ele sabia, porque aquela era sua casa, nada que acontecia ali passava despercebido de seus olhos, nem que entrava. — Onde está Jack? — pressionou, mas não esperou pela resposta porque sabia onde o trapaceiro encontrava-se, sentia-o como uma sombra projetando-se por trás de sua cabeça; um carniceiro oportunista, é claro, e um do qual ele não havia considerado como fato imediato de atenção.
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  Esteve tão focado em seus próprios problemas e em sua própria miséria que havia se esquecido que nada acontecia em seu caminho, convidado por externos, mas pessoas próximas o suficiente para saber onde localizar os problemas necessários. Porque deuses não podiam quebrar suas promessas. Os olhos moveram-se agitados de Maeve para a porta e então para Maeve, com a terrível percepção de que, mesmo equivocada em suas ações, ela o havia traído — e não tinha sido a única. Desespero cego nublou sua racionalidade, amorteceu sua percepção de nada que não fosse apenas a linha reta que estava fazendo. Venceu a distância entre a porta do escritório e o corredor em poucos passos, ouvindo sua pulsação martelar em seus ouvidos, abafando tudo ao seu redor como se as vinhas de seu desespero que floresciam conforme o tempo passava, enredando-se mais e mais em seus músculos, finalmente o tivessem coberto por completo, e agora o puxavam para baixo. Se para dentro de um oceano obscuro ou se para uma bocarra no chão, pouco ele poderia saber identificar, mas sentia-se caindo, e desta vez, não tinha como impedir sua própria queda.
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  Empurrou para fora de seu caminho alguns funcionários que trabalhavam na academia, mortais desavisados que acabavam em sua porta, fosse pelo desespero ao dinheiro ou por não ter outro lugar para ir, e aqueles que vinham pelo único propósito de estar no mesmo lugar que %Sean% %Broderick% — não o deus, mas o antigo lutador invicto. Estava praticamente correndo quando desceu as escadarias para a parte subterrânea do prédio, onde o estacionamento deveria ficar. Dividido por sessões, não era preciso de muito para saber onde Jack planejava e escondia suas trapaças. Portas duplas grossas de metal com os dizeres “não ultrapasse” e “acesso apenas para funcionários” demarcavam uma linha invisível que muitos mortais ainda iriam especular, mas não fariam nada, assumindo que quaisquer detalhes como aqueles eram insignificantes, justificariam o mistério a sua forma sem mais perguntas. Ao menos os menos curiosos.
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  A mistura de odores espalhava-se de forma penetrante pelo ar denso e abafado do interior do espaço, suas narinas ardiam sob seu toque implacável, fazendo-o reconhecer o aroma quase de imediato, o gosto de sangue pareceu espalhar-se por sua língua como uma potente bebida, familiar como uma segunda natureza para si — embriagando-o. Suor e mofo se misturavam no ambiente com baixa iluminação e concreto queimado denso. Opressor, obscuro, e estranhamente vívido de uma maneira ameaçadora. Não havia um ringue ali, era assim que Jack funcionava, apenas uma roda de corpos suados e gritos acalorados onde alguns comandavam por golpes mais precisos e outros balançavam seus dinheiros no ar, gritando por nomes ou comemorando quando aquele lutador que apostaram finalmente conseguia acertar algum golpe preciso. Sangue manchava o chão, e os ossos eram quebrados. Podia sentir a vibração dos ruídos de ossos se partindo e da dor espalhando-se pelo lugar como uma carícia, convidativa e perigosa, percorrendo por seu corpo como eletricidade pura. Lembrou-se por uma fração de segundo de quem era, e sentiu o poder pulsar por suas veias como fogo puro.
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  Mas então seus olhos repousaram na figura ao centro do círculo, e o gelo que o consumiu aplacou tudo o que havia restado do deus que um dia havia sido, do condenado que agora era. Sua garganta se contraiu, os olhos queimaram, e o deus da destruição e da guerra pela primeira vez em muito tempo havia congelado no lugar, sem palavras, despido de todas as muralhas que havia construído para proteger-se, vulnerável como um mero mortal deparando-se com a certeza de que o ciclo ao qual estava preso voltara ao começo. Havia se reiniciado, e com isso, o riso de seus irmãos acompanhando-o, como fantasmas, assombrando-o ao fundo de sua mente.
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  Os cabelos dela estavam presos em duas tranças firmes embutidas que repousavam na altura de suas omoplatas estavam frouxas pela movimentação, uma delas parecia estar mais torta que a outra evidenciando que seu oponente a havia puxado. Mechas rebeldes pendiam por seu rosto, grudando ao redor das têmporas e das maçãs do rosto, ao redor do pescoço devido ao suor, a pouca maquiagem que usava estava borrada, manchava as maçãs do rosto altas e angulosas, e os cantos dos olhos. Sangue escorria de sua narina esquerda e o lábio inferior estava cortado, uma mancha roxa começava a surgir na lateral de sua mandíbula, e ela havia descartado a blusa em algum lugar pelo caminho, porque estava apenas envolta do sutiã esportivo, e a calça compressão justa ao corpo. Os pés descalços estavam avermelhados, manchados pelo sangue que se espalhava sob o concreto queimado, escorregadio, mas ainda assim, ela continuava em pé. Não era o mesmo que ele poderia dizer para seu oponente, agora, no chão, gemendo com dor, uma mão repousando em sua costela com força como se tivesse quebrado alguma coisa — não parecia ser apenas um osso que ele havia quebrado. As faixas de proteção que ela tinha enrolado em seus punhos estavam manchadas de vermelho, e ele podia ver onde pequenos cortes haviam surgido.
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  Um pouco atrás de onde ela estava, os olhos de %Sean% se encontraram com os castanhos claros, quase dourados, de Jack, sua expressão tornando-se mais sombria ao observar o sorriso divertido, torto que se espalhou por seu rosto repleto de cicatrizes. %Broderick% começou a mover-se, marchando na direção de Jack, mas então a última coisa que ele desejava que ocorresse, aconteceu, %Eva% o encarou. Tudo pareceu desaparecer ao seu redor quando aqueles olhos marcantes e terrivelmente familiares se prenderam em seu rosto como um feitiço convidativo, os gritos e comandos se silenciaram, mesmo sua pulsação pareceu diminuir, acompanhados somente pelo eco de seu coração — se é que possuía algum. As mãos fechadas em punhos relaxaram, pendendo ao redor de seu corpo, sem ousar se mover.
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  Essa era a pior parte.
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  Quando seus olhares se encontraram, e por uma fração de segundos ele buscaria, mesmo contra tudo que já sabia, ainda movido por aquela pequena e efêmera fagulha de esperanças que recusava-se a desvanecer-se permanentemente, se ela o reconheceria. Torceria para que desta vez houvesse misericórdia, para que desta vez fosse diferente apenas para deparar-se com aquele olhar distante, indiferente e frio de alguém que o encarava como um completo desconhecido. Os cacos amontoados em seu peito do que pudera vir ser seu cerne no passado se agitaria, fincando-se fundo, de forma dolorosa. Se arrastaria a cada respiração, até que a dor e o pesar se tornassem insuportáveis, seu primeiro impulso foi o de desviar os olhos do rosto dela, de escapar antes que pudesse se perder completamente. Mas então algo cruzaria seu rosto, mesmo que inconscientemente, estaria gravado no cerne dela, como a maldição que ele carregava.
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  Ela o iria encarar com ódio. Puro, inquestionável, latente.
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  Porque mesmo que ele a amasse há tanto tempo, ela nunca havia retribuído aquele sentimento. Nem uma única vez.
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  Nota da Autora: ksksks te peguei né? Obrigada por ter lido até aqui! E para a Calliope, pela indicação no site que você fez, ganhei meu dia viu? ♥️ (impossível escrever “pira” e não lembrar da Pyra de Greek, da Bleme, que alugou um triplex e uma mansão vitoriana na minha cabeça desde o momento que foi postada, VAI LER GREEK, JURO, VOCÊ NÃO VAI SE ARREPENDER, MELHOR HISTÓRIA QUE JÁ LI!! Eu vivo pra criar desculpas para trazer o nome dessa fic em qualquer conversa, sério, Bleme escreve bem pra caralho, e as histórias dela são uma delícia, mas Greek, essa tem todo meu carinho, recomendo demais!)

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