5 • A Vingança
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Lisboa, Portugal
Primavera de 2017
Ao aproximar-se do corpo de Ivan, checou seus sinais vitais. Logo o capitão retirou o celular do bolso e fez uma ligação rápida. Em minutos a equipe de limpeza da Darko apareceu e levou o corpo desacordado. %Nikolai% se manteve o tempo todo em silêncio, procurando alguma pista nas coisas de Ivan. Me sentindo culpada por ter estragado tudo, fiquei parada ao lado da porta o observando, até que não consegui segurar o mínimo de indignação que ainda existia dentro de mim.
— Ok, eu sei que errei e que está desapontado comigo. — disse num tom elevado, o fazendo parar suas buscas. — Mas poderia ter me dito sobre o Ivan, poderia ter entendido o meu lado, eu fui deixada quase morta em uma floresta por ele. Como acha que me senti ao vê-lo? A única coisa que queria era matá-lo também.
— Eu resgatei você. — ele me olhou com seriedade. — Não disse nada sobre o Ivan, porque temia que fizesse algo errado, como de fato você fez. Pode ser egoísmo da minha parte, mas precisava de você focada.
— Ainda vai me dizer quem foi o mandante? — perguntei.
— Ainda posso confiar em você? — voltou a pergunta para mim.
Ele não esperou para que respondesse, voltou seu olhar para a carteira de Ivan em sua mão e abriu o objeto, assim que encontrou a pista que precisava, se afastou do armário.
— Ainda temos uma missão para cumprir amanhã, vamos embora. — suas palavras frias foram as últimas que pronunciou, antes de sairmos.
Voltamos para o hotel e o silêncio perdurou. Eu já sabia todo o plano antigo, exceto a parte de Ivan. Agora, tinha certeza que seria um grande improviso. Peguei um pijama que tinha levado e troquei de roupa no banheiro, ao retornar para o quarto, %Nikolai% já havia preparado alguns cobertores no chão onde se encontrava deitado. Passei por ele para chegar até a cama, porém no trajeto tropecei em sua perna e me desequilibrando, caí em cima dele.
— Me desculpe. — disse após o impacto do meu corpo sobre o dele.
— Te peguei. — ele riu baixo, nem parecia o capitão irritado de uma hora atrás. — Quer me acompanhar no chão?
— Bem… Acho que estou acostumada com isso. — ri também, me remexendo em cima dele e virando meu corpo até o chão.
Me deitei ao seu lado e respirei fundo.
— Eu realmente lamento por ter estragado tudo. — confessei a ele.
— Nada como um dia após o outro, mantenha-se focada para sua missão. — disse ele, sua voz estava mais serena e baixa.
— Não está mais zangado? — perguntei.
%Nikolai% ergueu seu corpo e me olhou.
— Não, mas eu entendo sua fúria. — ele se inclinou mais em minha direção. — Andrei Tenebrae, este é o homem que desejou sua morte.
— Andrei Tenebrae! — sussurrei.
— Nunca ouvi esse nome, mas pelos livros que li da Darko, Tenebrae é uma família fundadora da Continuum. — eu mantive meu olhar nele. — Por que está me contando isso agora?
— Porque não é a única vítima dele. — respondeu.
— Sinto que quer me contar sobre a tal Continuum. — ergui meu corpo também, mantendo a atenção nele.
— Como sabe, eu pertenço a uma família fundadora… — ele se sentou, encostando na parede.
— Os Bellorum, eu sei. — confirmei.
— Além da minha família, existem mais quatro, Baker, Dominos, Sollary e Tenebrae. — continuou ele. — A cada dez anos uma família é eleita para ficar a frente da Continuum, e na última eleição, acontecerem muitas intrigas e boicotes, a família Dominos foi atacada e uma guerra silenciosa começou em nossa sociedade.
— E o que isso tem a ver comigo? — perguntei.
— Andrei Tenebrae não é somente o homem que ordenou sua morte, ele também encomendou o ataque à família Dominos, descobrimos isso através da cooperação do Ivan, então, se quer matá-lo, terá que entrar na fila, pois ele já é um alvo de Sebastian Dominos. — completou.
— Sebastian Dominos? — desviei meu olhar para a janela. — E conseguirei competir com alguém da Continuum?
— Não. — ele riu e erguendo sua mão, tocou minha face de leve.
Me peguei surpresa com seu gesto, e sem reação também.
— Sei que quer sua vingança, mas acha mesmo que ficará bem depois? — seu toque suave, me deixava com o coração acelerado.
Eu não sabia onde %Nikolai% pretendia chegar.
— Você prometeu, eu quero me vingar. — disse ao tocar em sua mão, retirando-a do meu rosto.
— Você vai, mas não posso te entregar Andrei. — ele foi sincero no olhar, parecia triste por meu gesto o afastando.
— Já entendi que o destino de Andrei pertence a esse tal Dominos, não me importo, mas quero a cabeça de todos os seguranças dele.
— Você já tem Ivan Vassiliev, não será difícil encontrar os outros. — assegurou ele.
— Obrigado por entender. — me movi para levantar, porém ele segurou em minha mão.
— %Nissah%. — sua voz ficou mais baixa e seu olhar profundo. — Eu…
— Se vai dizer que gosta de mim, não faça isso. — disse o interrompendo. — Eu...
%Nikolai% não deixou que eu continuasse também e, se inclinando para mim, me beijou com suavidade e doçura. Tentei resistir a princípio, mas meu coração acelerado me conduziu a aceitar o beijo e retribuir. Eu estava confusa por aquele beijo repentino, ainda com raiva por não poder tocar em Andrei Tenebrae, justo agora que sabia a verdade. Além de decepcionada comigo mesma por atrapalhar minha primeira missão.
Tantos sentimentos dentro de mim, que a única coisa que tentava não fazer é chorar. Quando me transformei em %Nissah% Petrov, jurei a mim mesma que não choraria, mas agora, sentindo a aproximação de %Nikolai% e suas mãos percorrerem em minha cintura, eu só conseguia me sentir vulnerável às lágrimas.
— Capitão. — disse ao me afastar. — Não deve…
— %Nikolai% pra você. — ele tocou em minha face novamente, me fazendo olhá-lo.
— Temos uma missão a cumprir amanhã. — eu me levantei e o olhei novamente. — E não quero me envolver emocionalmente agora.
— Não importa quanto tempo leve pra chegar até seu coração, não vou desistir de você. — assegurou ele. — %Nissah% Petrov.
Disfarcei um sorriso e deitei na cama. Respirei fundo ao me cobrir e fechei os olhos. Foi complicado conseguir dormir. Um misto de ansiedade e aflição tomou conta de mim a madrugada inteira. Na manhã seguinte, acordamos antes das sete. O encontro com Vladimir estava marcado para às oito da manhã e %Nikolai% queria repassar comigo nosso improviso.
Saímos do hotel e nos separamos, apesar de manter a mesma direção. Ele entrou pela porta da frente como convidado e mantendo o disfarce que combinou com Ivan. Já eu segui para a entrada dos fundos. Usando as habilidades dos meus olhos, avaliei a estrutura da mansão e contei quantos guardas armados tinham. Respirei fundo analisando as opções e escolhi a melhor rota. Não foi fácil passar por todos aqueles guardas e desarmá-los, mas com a ajuda dos olhos, conseguia prever seus movimentos rapidamente.
— Tem que estar aqui. — sussurrei ao chegar no quarto indicado por um dos guardas abatido, como sendo do hóspede Vladimir.
Escaneei todo o lugar procurando pelo pen drive, até visualizar um cofre atrás da parede. Não foi fácil encontrar a senha mas consegui. Assim que peguei o objeto, senti algo frio encostar em minha nuca. Era o cano de uma arma.
— Achou mesmo que iria levar isso? — uma voz feminina veio atrás de mim. — Vladimir vai gostar do que achei aqui.
Fui obrigada a acompanhá-la até a sala. Ao chegarmos, me deparei com %Nikolai% amarrado pelos pulsos e ajoelhado no chão. O que significava que alguma coisa tinha dado errado.
— Olha só, outra agente Darko. — Vladimir se levantou da poltrona e sorriu com deboche. — Serei bonzinho e te darei uma opção razoável, devolva o pendrive com o chip dentro e solto seu amigo.
— Ambos morrerão. — assegurou o inimigo.
Voltei meu olhar para %Nikolai%, já avaliando minhas possibilidades de erros e acertos. Haviam 5 homens armados na sala, a mulher atrás de mim e Vladimir, os outros seguranças se mantinham desacordados e amarrados por mim. Meu olho indicava que %Nikolai% não estava em boas condições físicas, mas poderia ter uma média boa de sucesso.
— Você ainda confia em mim? — perguntei ao capitão Bellorum.
— Nunca deixei de confiar. — disse ele ao levantar seu olhar para mim.
Sorri de canto e pisquei de leve para ele. Em um piscar de olhos, me movi com rapidez e lancei minha perna no braço da mulher a desarmando. Os seguranças se moveram também para cima de mim. A mulher tentou me bater, mas me desviei dela e soquei o rosto do primeiro segurança. Enquanto isso, %Nikolai% se remexeu para retirar as cordas dos pulsos e se jogou contra Vladimir. Eu continuei me desviando dos seguranças e socando a cara de um deles, logo peguei a arma da mulher que ainda estava no chão e atirei no primeiro.
O segundo mirou em mim, porém me esquivei e joguei o terceiro na frente que levou o tiro em meu lugar, então atirei no segundo e no quarto. O quinto tentou atirar, mas lancei novamente minha perna o desarmando, soquei sua cara e atirei em sua perna. A mulher entrou novamente contra mim, mas ao me desviar do chute dela, segurei seu cabelo e coloquei a arma em sua cabeça. Voltando meu olhar para Vladimir, o mesmo estava com a arma apontada para %Nikolai%.
— Se renda ou eu mato sua parceira. — eu disse a ele.
— Eu não me importo com ela, de onde veio, consigo mais cem, mate-a se quiser. — ele riu. — Já este agente aqui, um Bellorum não se acha todo dia.
— Ivan foi um traidor ao se fazer de agente duplo. — disse %Nikolai% com as mãos levantadas — Me mate, e terá toda a minha família na sua cola.
— Se a Darko veio me pegar vivo, é claro que tem uma família da Continuum me querendo. — Vladimir me olhou. — Ouviu, você não pode me matar.
— Não me importo com a Continuum, já matei Ivan ontem, e era para deixá-lo vivo. — eu estava meio certa, queria intimidá-lo, então engatilhei a arma.
Meu olhos me ajudaram a visualizar todo o esquema, eu precisava que ele realmente desse o primeiro tiro. E assim que Vladimir fez, atirei também fazendo minha bala atingir a dele com precisão no ponto em que meus olhos calcularam. Então atirei em sua mão, fazendo a arma cair e outro tiro em seu ombro e mais dois nos dois joelhos.
— Ai… — ele gemeu de dor ao cair no chão.
%Nikolai% pegou a arma dele rapidamente e a manteve apontada para o inimigo. Eu soltei a mulher que saiu correndo com medo, certamente havia visto que sua vida não valia nada ali.
— O que você fez? — %Nikolai% me olhou sério.
— Você disse vivo, não inteiro. — eu ri de canto. — O Vladimir é todo seu e o chip está no meu bolso.
— Bom trabalho. — ele pegou o celular do bolso e chamou a equipe de limpeza.
Em minutos, levaram Vladimir e recolheram os corpos. %Nikolai% me contou que vários daqueles homens faziam parte da gangue que meu pai trabalhava, ainda faltava um, o outro homem que ajudou Ivan a me espancar. Mas segundo ele, já havia sido capturado e me aguardava na prisão da Darko.
— Terminamos aqui? — disse ele ao esticar a mão para que lhe entregasse o pen drive.
— Sim. — entreguei o objeto para ele. — E para onde vamos agora?
Bellorum entregou o chip para um agente e me olhou com tranquilidade.
— Fomos solicitados em Seattle. — respondeu ele.
— O que faremos em Seattle? Pensei que voltaríamos à base na Rússia. — o olhei curiosa.
— Temos um encontro com meu primo. — respondeu ele ao se aproximar de mim. — E um Dominos.
— Um Dominos? — agora fiquei interessada.
— Eu disse que teria sua vingança. — ele se aproximou mais de mim com um sorriso presunçoso no rosto. — Vamos Seattle e você conhecerá outras famílias da Continuum, e terá sua vingança sobre Andrei Tenebrae.
Eu me impulsionei e o beijei com intensidade e doçura. %Nikolai% retribui de imediato, tocando em minha cintura e me aproximando para mais perto.
— Tenha isso como um obrigado. — disse ao me afastar dele — Agora, vamos para Seattle?
— Vamos! — ele sorriu de canto.
"Eu mudei depois que eu te conheci,
Eu não me assusto ou me machuco mais
Dia após dia eu vivo me antecipando,
E está tudo bem, porque é você.
- Hot times / SM The ballad
“Vingança: É um princípio básico do universo, toda ação cria uma reação igual e oposta. [Filme V de Vingança]” - by: Pâms
Fim