4 • A Missão
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Lisboa, Portugal
Primavera de 2017
A instalação da Darko em Lisboa era bonita e mais luxuosa que na Rússia. Mas claro que ali era somente uma base estratégica de monitoramento. Eles não precisavam de nada subterrâneo, salas de treino e quartos de agentes. Após uma longa reunião com o coordenador geral dali, seguimos para o hotel em que nos hospedamos. Nenhuma novidade o capitão ter alugado somente um quarto para nós dois. Nossa primeira noite na cidade foi um breve reconhecimento de território.
E nosso disfarce? O Bellorum seria um biólogo e sua assistente atrapalhada.
Por que eu deveria fazer o papel da garota desajeitada? Não me conformava com aquilo, mas somente pensava que poderia bem de leve imitar Olga, principalmente quando estava perto do chefe.
— Vladimir Smirnov. — sussurrei ao olhar novamente para foto do homem na ficha de informações.
— O que está fazendo? — o capitão se aproximou de mim.
— Estou mantendo o foco. — respondi, voltei meu olhar para ele. — Descobriu onde nosso alvo estará?
— Sim. — ele encostou na porta que dava para a sacada, onde eu estava. — Ao que se sabe, ele está hospedado na casa de um gângster local, amanhã ele vai se encontrar com um possível comprador para o chip.
— Deixa eu presumir, você será o comprador? — me afastei da sacada entrando no quarto.
— Provavelmente, e você irá comigo, sua missão é localizar o chip e pegá-lo, enquanto isso, eu distraio eles. — respondeu.
— E como vou localizar? — deixei a pasta sobre a cama e o olhei.
— Como seus olhos, o que mais seria? — ele me sorriu. — Seu treinamento foi para saber usá-los.
— Ok. — me espreguicei e caminhei em direção ao banheiro. — Se não se importa, vou tomar um banho.
— Vou buscar nosso jantar. — o capitão se afastou da parede e seguiu para a porta de saída.
Entrei no banheiro e liguei o chuveiro enquanto retirava a roupa. Senti a água quente caindo sobre meu corpo, me fez relaxar um pouco. Não seria a primeira vez que ficamos sozinhos, na maior parte dos meus treinos, o capitão fazia questão de me isolar com ele em algum lugar da Sibéria. Terminei o banho e enrolando na toalha, voltei para o quarto.
— %Nikolai%… — sussurrei seu nome, no susto ao vê-lo de volta.
Eu deveria me acostumar a chamá-lo assim, afinal, ele me pediu que o tratasse com menos formalidade. Mas, para mim, ele sempre seria o sério capitão Bellorum que me jogava em treinamentos cruéis.
— Pensei que iria demorar mais. — disse a ele, um pouco retraída por estar de toalha.
— Vou deixá-la à vontade, preciso resolver alguns assuntos particulares. — disse ele se voltando para porta. — Coma um pouco.
— Ok. — observei-o até que saísse, então aproveitei para colocar minha roupa.
Me aproximei da mesa com o jantar preparado e comi um pouco.
Eu estava curiosa sobre os tais assuntos particulares dele. Peguei um casaco de tecido leve e saí do quarto. Por mais que eu não soubesse onde iria o Bellorum chefe, eu queria dar uma volta pela cidade. Segui pelas ruas olhando a lua tão bela e cheia no céu. Em um breve momento, senti ter visto de relance um rosto conhecido. Era de um dos capangas do homem que ordenou minha morte. Segui o capanga suspeito, até que o mesmo adentrou em uma casa noturna. Observei um pouco de longe o prédio e me aproximei.
Passar pela entrada seria impossível, notei que só entravam as pessoas que tinham um passe VIP. Respirei fundo e ativei as especialidades dos meus olhos biônicos. Examinei todo o prédio, a melhor parte dessa tecnologia da Darko, era ter o poder de ver além das paredes, porém o máximo que conseguia captar era a temperatura corporal das pessoas. Observei a estrutura do prédio e localizei um ponto de entrada pelo banheiro feminino da lateral. Segui para o ponto e, tomando impulso, subi na lixeira próxima e passei pela janela.
Fiquei surpresa com tamanha limpeza e claridade do banheiro. O prédio do lado de fora não parecia ser tão luxuoso assim do lado de dentro. Ouvi uma movimentação, e uma mulher adentrou o lugar. Fiquei escondida, até que ela usou o reservado e saiu para lavar as mãos. Aproveitei o momento para desmaiá-la e lhe roubei a roupa, deixando-a desacordada em um reservado. Respirei fundo e saí do banheiro. Passei por um corredor largo, com carpete vermelho e paredes douradas.
— A hora é agora. — sussurrei ao entrar no salão e me locomover para o bar.
Continuei observando todos os ambientes, escaneando o rosto de todas as pessoas que estavam ali, vendo ao lado as informações que os olhos baixaram dos arquivos da Darko. Até que finalmente encontrei o rosto que procurava. Era mesmo ele, Ivan Vassiliev, o chefe de segurança que meu pai tanto falava, o braço direito do meu inimigo oculto. Me afastei do bar e segui até o homem, ainda tentando me adaptar ao vestido que roubei da mulher. Parei em sua frente e sorri de leve. Quando Ivan me olhou, seus olhos se encheram de desejo. Por dentro eu estava em fúria ansiando que se lembrasse de mim, até que me lembrei do meu antigo rosto que não existia mais.
— Boa noite, cavalheiro. — disse ao abrir um sorriso singelo para ele. — Está sozinho?
— Eu nunca estou sozinho. — o homem sorriu de canto mantendo o olhar fixo em mim. — Você está aqui, não está?
— Claro, e posso me sentar ao seu lado? — perguntei.
— O prazer será meu. — eu me sentei ao seu lado e cruzei as pernas sensualmente.
Yelena Pushkin era considerada a
femme fataly da Darko, a agente mais charmosa e perigosa também. Havia tudo algumas aulas de sedução com ela, para casos de necessidade e distração. Ficamos conversando por um tempo, comigo utilizando meus olhos para avaliar todas as possibilidades, se a vida tinha me dado aquele presente, não deixaria passar. Ivan não passaria mais nenhum dia vivo.
— Senhor Vassiliev. — disse uma voz conhecida, e sim era a voz de %Nikolai% Bellorum.
O capitão travou assim que me viu sentada ao lado de Ivan, totalmente íntima do inimigo, com o mesmo com as mãos na minha perna direita. Pobre homem, já agindo como se eu fosse sua propriedade. E isso me forçava a manter o autocontrole.
— Me desculpe, Bellorum, mas pelo que está vendo, estou muito ocupado. — disse Ivan ao se levantar e me pegar pela mão, para que o seguisse.
— Estou vendo, quando podemos finalizar nossa negociação? — perguntou o capitão mantendo seu olhar em mim.
— Tenho certeza que não vou demorar muito com esta linda dama, então, te encontro em duas horas. — Ivan se afastou me conduzindo consigo.
Mantive no disfarce e seguimos para um dos quartos reservados nos andares. Assim que entramos, ele abriu uma garrafa de vinho e serviu duas taças. Me entregando uma.
— Vamos ao que interessa? — disse ele ao se aproximar de mim e tocar em minha cintura.
— Claro. — eu o olhei de baixo para cima acionando em meus olhos a capacidade de avaliar minha melhor defesa e ataque contra ele, calculando todas as possibilidades de erros e acertos.
Assim, tomei impulso para beijá-lo, porém ao pegar a garrafa de vinho atrás dele, bati contra sua cabeça ou desequilibrando. Aproveitei a deixa para lançar minha perna sobre ele o derrubando no chão. Assim, me abaixei ficando em cima dele e distribui vários socos para não deixá-lo reagir a mim. Estava com tanta raiva por ele ter tocado novamente em meu corpo, que não pensei em mais nada. Continuei com minha fúria sobre ele.
Quando dei por mim, %Nikolai% já estava me arrastando para longe de Ivan, me imobilizando.
— O que você fez, %Nissah%? — ele me soltou.
— O que eu fiz? Você me enganou! — eu fechei meu punho com raiva e lancei contra ele, tentando acertá-lo.
%Nikolai% desviou do meu soco e pegando em meu pulso, girou meu corpo me prendendo de costas para ele, imobilizando-me novamente.
— Me solta, traidor covarde! — gritei me debatendo para me soltar. — Me fazendo trabalhar para Darko, enquanto se encontra com o meu inimigo!
— Fique calma, ou vai se machucar. — disse ele me apertando mais contra seu próprio corpo. — Você estragou nosso plano e entendeu tudo errado, Ivan era o nosso informante e a ponte até Vladimir Smirnov, fizemos um acordo com ele e assim que terminássemos a missão, eu o entregaria de bandeja para você, mas sua imprudência estragou tudo e agora não temos o contato com o alvo.
Eu parei de lutar meio estática com suas palavras naquele tom áspero.
— Achou mesmo que eu a trairia? Depois de demonstrar lealdade a mim? Depois de salvá-la e cuidar de você? — ele virou meu corpo me parando, frente a frente com ele. — Olhe para mim e diga se vê traição em meus olhos.
Eu não consegui encará-lo. Estava mais uma vez envergonhada por minha imprudência. A raiva que sentia das pessoas que me deixaram semimorta na floresta, em uma noite fria… Só conseguia sentir o desejo de matá-las da forma mais cruel possível.
— Me desculpe… — sussurrei voltando meu olhar para o chão.
— Você me decepcionou, %Nissah%. — suas palavras foram como uma adaga no meu coração.
Meu corpo se estremeceu ao olhar para seus olhos cheios de decepção.
Eu que era egoísta e só sabia de mim mesmo
Eu que era negligente e desconhecia os seus sentimentos
Eu não consigo acreditar que eu tenha mudado assim.
- Miracles in december / EXO