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Outono de 2003...
%Cedric%:
Eu estava com raiva do meu pai naquela noite, tínhamos brigado mais uma vez e eu desejava fugir de casa – foi o que eu fiz inicialmente. Saí pela janela do quarto e caminhei lentamente pelo telhado até chegar na árvore do jardim, ajeitei a mochila que tinha preparado nas costas e não olhei para trás. Minha mãe já tinha nos deixado mesmo, ninguém sentiria minha falta.
Passei algumas horas vagando pelas ruas de Cliron, senti um pingo cair em meu rosto olhei para o céu, estava começando a chover. Tinha que encontrar um abrigo para mim em algum beco ou casa abandonada. Demorei um pouco até que bem ao longe ouvi uma voz gritar, corri na direção e, bem ao fundo de um beco sem saída, uma garotinha estava sendo acuada por um homem que parecia ter mais de vinte anos.
— Por favor, me deixe em paz. — disse ela se encolhendo com suas roupas já encharcadas pela chuva.
— Calma queridinha, só quero brincar um pouquinho com você. — o homem era alto se aproximou dela com um canivete nas mãos. — Vai ser uma brincadeira muito legal, eu prometo… Faz tempo que não acho garotinhas fugitivas do orfanato da cidade, hoje vou brincar muito com você.
Eu não sabia quem era a garotinha, mas não iria deixar aqueles homens machucar ela. Olhei para o lado e vi uma barra de ferro ao lado da lixeira. Eu também era só uma criança de 7 anos fugida de casa, mas tomei coragem me abaixei com cautela e peguei, deixando minha mochila no chão. O homem estava de costas se aproximando mais da garotinha. Aproveitei a distração dele, e reunindo toda a pouca força que tinha, bati com a barra de ferro na cabeça dele.
— Deixa ela em paz! — eu gritei, respirando fundo.
Ele caiu desnorteado e antes que pudesse reagir, eu bati novamente, o fazendo desmaiar. Eu soltei a barra da minha mão assustado e respirando fundo. Olhei para a garotinha e sem pensar duas vezes, peguei em sua mão e a puxei para sairmos daquele lugar. Corremos o mais rápido que conseguimos e o único lugar que eu conseguia pensar ser seguro para ela, era o lugar que eu não queria voltar. De onde havia fugido. Quando chegamos em frente minha casa, fiz sinal de silêncio para ela e entramos pelo mesmo caminho que eu saí: a janela do meu quarto.
— Aqui estará segura. — eu disse assim que entrei depois dela, já fechando a janela.
— Obrigada. — ela sussurrou tremendo de frio, seus olhos ainda assustados, demonstravam o medo que sentia.
— Eu não vou te fazer mal. — eu sorri de leve. — Qual o seu nome?
— %Annia%. — ela se encolheu um pouco.
— Oi, sou %Cedric%. — eu caminhei até meu armário e peguei uma toalha limpa e entreguei a ela. — Meu pai tem o sono pesado, você pode tomar um banho quente se quiser, assim não ficará doente.
— Obrigada. — ela pegou a toalha timidamente e me seguiu até o banheiro.
%Annia% parecia uma garotinha delicada e meiga. Tinha um olhar puro e inocente que me passava tranquilidade. Como se fosse um anjo. Eu deixei uma roupa seca minha na porta do banheiro para ela vestir, e fui para o quarto do meu pai tomar banho no banheiro dele. Eu sabia que ele não acordaria mesmo se a casa pegasse fogo. Assim que terminei e troquei de roupa, passei pelo banheiro e as roupas não estavam mais na porta. Desci as escadas e fui até a cozinha, preparei alguns sanduíches e duas xícaras de chocolate quente.
Assim que abri a porta do meu quarto e entrei, olhei para a direção da minha cama. Ela estava sentada nos pés me olhando, eu fechei a porta e tranquei para que meu pai não entrasse pela manhã.
— Trouxe, caso esteja com fome. — coloquei a bandeja em cima da cama e me sentei de frente para ela.
— Obrigada. — ela pegou a xícara lentamente.
Olhei para suas mãos e vi algumas marcas de machucado e cortes ainda recentes, ela permaneceu em silêncio enquanto assoprava o chocolate quente.
— Vive nas ruas? — perguntei, estava curioso para saber sobre ela, não parecia uma criança com um lar e família.
— Agora sim. — respondeu rapidamente pegando um sanduíche.
— Me desculpe, sou muito curioso, mas se não quiser responder... — eu peguei a outra xícara de chocolate quente.
— Eu… Tinha uma casa, mas não quero falar sobre isso, antes disso, fui abandonada no hospital onde nasci pela família da minha mãe, ela era uma grávida solteira e morreu no parto. — ela desviou seu olhar para janela. — Isso foi a única coisa que sempre ouvi da mulher que estava cuidando de mim.
— E por que está nas ruas agora?
— Tenho medo do marido dela. — ela deixou escapar uma lágrima no canto direito.
— Ele te machucou? — perguntei.
Ela assentiu com o olhar em silêncio e começou a chorar. Automaticamente e sem perceber, minha mão direita encostou em sua face de leve e secando suas lágrimas.
— Sinto muito. — sussurrei querendo confortá-la.
— Não é sua culpa. — ela me olhou. — Obrigada, por me ajudar hoje.
Eu não sabia o que dizer, então eu a abracei. Queria que ela sentisse que estava segura. Deixei ela dormir em minha cama, enquanto eu dormi no chão, ou melhor, fiquei a noite toda acordado a olhando dormir. Por alguns minutos de cochilo, quando acordei na manhã seguinte, ela já estava perto da janela se preparando para ir embora.
Eu a impedi de imediato, olhei pela janela de relance e meu pai estava voltando de carro do mercado. Precisava ser rápido e ter uma boa ideia. Olhei para o teto e vi nossa salvação, a porta para o sótão ficava no meu quarto, então…
— Tive uma ideia. — eu abri a porta e desci a escada. — Sobe.
— Não vou deixar você ir, pensamos em alguma coisa depois, algum lugar onde você possa ficar protegida, mas agora se esconda lá em cima.
Ela assentiu, mesmo demonstrando insegurança, e se escondeu. Meu pai nunca subia no sótão. Era um acordo que eu tinha feito com ele, por ser o melhor aluno da escola. Aquele era o lugar mais seguro da minha casa, assim que fechei a porta do sótão, meu pai bateu na porta do meu quarto, senti meu corpo gelar na hora.
— Bom dia, por que a porta estava trancada? — ele me olhou sério, sua voz sempre áspera.
Parecia ainda raivoso pela briga da noite anterior.
— Porque eu ia trocar de roupa agora.
— E por que sua coberta está no chão? — ele desviou seu olhar de mim para dentro do meu quarto.
— É um experimento do clube de escoteiros.
Meus pai deu uma última olhada e se virou. Eu fechei a porta respirando fundo, troquei de roupa rapidamente colocando o uniforme escolar e arrumei meu quarto. Quando desci o café já estava na mesa, me sentei naturalmente e tomei meu café. Assim que meu pai saiu para o trabalho, peguei um pacote de biscoitos no armário e o saquinho do lanche da escola que ele havia preparado e corri até meu quarto.
Subi até o sótão e dei a comida para ela. O lugar era inteiramente limpo, organizado e confortável, era meu espaço de estudos e leitura, tinha uma poltrona reclinável ao lado da estante de livros e uma janela basculante para ventilação. Ela ficaria bem temporariamente naquele lugar.
Passaram-se os dias, semanas, meses...
Eu não conseguia encontrar nenhum lugar para ela. Nem mesmo minha primeira opção, a igreja da cidade, era convincente. De certo que a mandariam de volta para sua casa de onde fugiu. A polícia estava fora de questão, pensei até mesmo em esconder ela no teatro abandonado da cidade, mas já havia sido ocupado por uma facção criminosa. Cogitei a ideia de contar ao meu pai sobre ela e delatar sobre o padrasto, mas não acreditaria em mim. Já era um fardo ser filho do diretor da escola secundária da cidade, já imaginava o que seria meu ensino médio.
Eu comecei a não conseguir ver nenhum futuro seguro para ela longe de mim, havíamos nos tornado amigos. Eu era seu primeiro amigo na vida e ela estava se tornando a primeira garota em meu coração. Meu anjo que eu tinha que proteger.
— Já está fazendo seis meses que estou aqui no seu sótão. — disse ela de pé olhando pela janela.
— Eu ainda não consegui encontrar uma solução. — eu encostei na parede a olhando. — Me desculpe.
— Por que está se desculpando, você tem me protegido todo esse tempo, nunca tentou me machucar. — ela sorriu com doçura. — Gostaria de ficar aqui por mais anos se possível, assim com maior idade, não me obrigariam a voltar para aquela casa.
Na manhã seguinte eu fui para escola naturalmente. Estava feliz por ela querer ficar perto de mim também. Logo ao final da tarde começou a chover, voltei para casa no ônibus da escola. Quando cheguei em casa estranhei o carro do meu pai estar parado em frente, ele nunca chegava antes de mim. Quando entrei, %Annia% estava parada no meio da sala com seus olhos lacrimejados sendo segurada a força pelo meu pai. Eu larguei minha mochila ao lado da porta enquanto entrava olhando aquela cena, senti medo naquele momento.
— Pai. — eu sussurrei e olhei para %Annia%.
— Você a escondeu por tempo demais.
A porta se abriu novamente e olhando para trás.
— Pai, por favor, não. — eu comecei a entrar em desespero.
Uma mulher estranha com um olhar misterioso entrou para levá-la.
— Pai…. — sussurrei começando a lacrimejar.
— Tenho certeza que esta é a garota que procura Donna Fletcher, pode levá-la. — disse meu pai.
Um homem entrou após esta mulher e a pegou %Annia% pelo braço, eu avancei nele, meu pai me segurou. %Annia% começou a gritar meu nome e eu o nome dela. Não acreditava naquilo que estava acontecendo, que ela estava sendo levada por aquelas pessoas estranhas. Assim que ela entrou no carro, olhou para mim ainda gritando do lado de dentro.
Eu ainda estava sendo segurado pelo meu pai, naquele momento senti que meu coração havia sido arrancado de mim.
- %Annia%
Eu estava com medo do que iria acontecer comigo. A imagem de %Cedric% gritando meu nome era a única coisa que doía ainda mais do que ser levada por aquelas pessoas. Assim que cheguei senti um frio passar em minha espinha. Será que aquela mulher me levaria de volta para a casa de onde fugi?
Para minha surpresa não foi isso que aconteceu. Nós entramos em um avião particular dela, seguimos para a cidade de Seattle. Meu novo lar seria o orfanato Miral. Mas não estava sozinha, comigo também tinha mais duas meninas que foram “resgatadas” por essa senhora.
— Aqui será o novo lar temporário de vocês. — disse Donna Fletcher, que se anunciou como diretora daquele lugar.
Nós assentimos e olhamos ao redor para o quarto em que nos instalou.
— Meu nome é Jenie. — disse a menina mais sorridente, assim que Donna se retirou nos deixando sozinhas.
— Meu nome é %Annia%. — sorri de volta para ela.
Olhamos para a outra que já tinha sentado em uma das camas, mantendo-se silenciosa.
— Qual o seu nome? — perguntou Jenie.
— Você também são órfãs? — indaguei indo me sentar ao lado dela.
— Aparentemente sim. — disse Jenie vindo junto. — Seus pais morreram também?
— Me disseram que minha mãe morreu quando eu nasci, fui criada por outra pessoa. — contei a elas.
— Minha mãe também morreu quando nasci, vivo de orfanato em orfanato desde que me entendo por gente. — contou Nalla, tristonha.
— Que loucura, minha mãe também morreu quando eu nasci. — Jenie nos olhos surpresa. — Será que somos trigêmeas?
Nós rimos com sua dedução.
— Seria legal ter irmãs. — continuou ela.
— Podemos ser. — sugeriu Nalla. — Como as meninas super poderosas.
— Eu amo esse desenho. — confessou Jenie.
— Eu também. — me empolguei.
— Eu sou a Lindinha! — Jenie deu um pulo de euforia.
— Eu gosto da Florzinho. — garanti.
— Eu posso ficar com a Docinho então. — Nalla sorriu de leve.
— Seremos irmãs inseparáveis. — disse Jenie em sua inocência.
Mas é claro que nossa alegria duraria pouco. As meninas superpoderosas foram separadas um ano depois de chegarmos juntas. Todas adotadas no mesmo dia.
— Aqui está a garota que está procurando. — disse Donna Fletcher a um homem parado diante de nós.
— Exatamente como nos registros? — o homem abriu uma pasta que estava em sua mão. — %Annia%, sem sobrenome desconhecido, fugida de um lar temporário.
— Sim, demoramos mais para encontrá-la, porque um garoto estava escondendo ela em casa.
Eu estava com mais medo ainda, me encolhendo um pouco. Até que o homem se aproximou de mim e acariciou minha face. Ele sorriu de canto me olhando com carinho e me pegando pela mão...
— Aquele jamais vai te machucar novamente, eu te garanto. — seu olhar passava confiança e segurança. — Vamos para sua verdadeira casa agora.
Eu não sabia se iria para um lugar melhor ou pior que o lar temporário. Mas mantinha viva minha esperança de um dia rever %Cedric%. Chegamos em um condomínio fechado, o carro parou no jardim da frente em frente à mansão. Ao sairmos, uma mulher estava parada na porta nos esperando, ela era linda, sua pele parecia porcelana e seus cabelos tinham tanto brilho, seus olhos de traços delicados e lábios com um sorriso de canto sinuoso. Vestia um vestido branco que parecia com dos tempos da Grécia antiga. Atrás dela, tinha uma criança, agarrada ao seu vestido e tão assustada quanto eu.
— Senhora Baker, aqui está a garota que lhe falei. — disse o homem.
— Bem-vinda ao lar, %Annia%. — disse a mulher, sua voz era doce com um toque de firmeza.
Eu não conseguia dizer nada. Ainda estava com medo e receio daquele lugar. O homem me levou para um dos quartos, minha primeira reação ao entrar foi ficar paralisada com tanto luxo e conforto. O quarto era enorme e parecia que cabia três quartos do %Cedric% dentro dele. Eu olhei em minha volta fascinada com tudo, me aproximei da cama e a apertei de leve, era tão macia, o tecido da colcha suave. Olhei para o homem e o medo voltou a tomar conta de mim, tudo aquilo certamente não sairia de graça.
— Não precisa ficar com medo, ninguém irá te machucar aqui. — garantiu ele novamente.
— Qual o seu nome? — eu perguntei.
— Pode me chamar de %Dimitri%. — ele sorriu de leve. — Tome um banho quente e descanse, trarei algo para você comer.
Estranhamente eu me senti aliviada pelas palavras dele. Entrei por uma porta que havia na lateral e descobri que era o closet, nunca tinha visto tanta roupa reunida em um só lugar. Mais à frente, o banheiro. Passei um tempo boquiaberta, era tão claro, limpo, espaçoso, tinha até uma banheira. Não sabia nem por onde começaria. Enchi a banheira de água e me joguei dentro, era divertido estar ali pela primeira vez. Depois que tomei meu banho voltei ao closet, fui olhando roupa por roupa e coincidentemente todas pareciam caber em mim, coloquei um conjunto simples de moletom que mais me interessou e retornei ao quarto.
%Dimitri% estava encostado na parede ao lado da porta e havia uma bandeja com sanduíche na escrivaninha ao lado da cama. Caminhei lentamente até a bandeja.
— Obrigada. — eu o olhei.
— Coma e durma um pouco, amanhã será um novo dia. — ele saiu do quarto deixando a porta entreaberta.
Eu caminhei até a porta e fiquei ouvindo ele e a mulher conversarem.
— Então, %Dimitri%, o que acha da garota? — perguntou ela.
— Será a melhor Baker que já viu.
— Fala assim porque ela tem seu...? — disse a mulher.
Hum? O fato de não ter ouvido o final da frase me intrigou.
— Também, ela parece ser mais forte do que aparenta. — ouvi a voz dele. — Será uma boa irmã para o pequeno Demeter.
Eu não sabia o que aquilo significava e porque eles me queriam, mas pelo menos por aquela noite eu dormiria tranquilamente de novo. Logo pela manhã, ao acordar, eu ouvi algumas vozes vindo do corredor e as segui até que cheguei na cozinha, fiquei admirada ao ver %Dimitri% com um avental no corpo cozinhando. A criança que vi no dia anterior estava sentado na cadeira o observando.
— Entre, %Annia%, nos faça companhia. — disse %Dimitri%.
— Bom dia. — quase em sussurro.
— %Dimitri%, quem é ela? — perguntou o menino.
— É sua irmã mais velha. — respondeu ele. — %Annia%, quero que conheça Demeter, Demeter, esta é %Annia%, aconselho que sejam bons amigos e que um proteja o outro, é o que irmãos fazem.
Eu sorri para Demeter, que sorriu de volta e arrastou uma cadeira para que eu me sentasse.
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Tudo foi um mar de rosas no início, até que completei 12 anos e Allison Baker, minha aparente mãe, me apresentou aos diretores de sua empresa, dizendo que havia me adotado para que eu ficasse em seu lugar futuramente. Ela tinha visto que Demeter não era adequado ao cargo, seu filho caçula nunca tinha se interessado pelos assuntos da empresa até o momento. Então, para quê lutar, se ela tinha a mim, a filha mais velha que poderia moldar a seu gosto. %Dimitri% ainda relutava quanto a seus planos para mim, entretanto, não me deixaria ser treinada por qualquer pessoa. Menos ainda por Donna Fletcher. Isso me deixava amedrontada, porém eu não tinha muita opção ou perspectiva de vida, então assenti sem muito esforço.
Os anos foram passando com treinos puxados e dolorosos. Eles testavam cada aspecto de mim: físico, mental, sentimental. Para Allison eu deveria me tornar implacável e sem fraquezas. Forte, fria, calculista e sem piedade, ela queria que eu me transformasse na futura e soberana milady Baker de Manhattan.
— Ai. — eu me ajoelhei com o impacto do cruzamento entre minha espada e de %Dimitri%. — Eu não aguento mais, por favor, nos deixe parar.
— Não. — respondeu Allison. — Até que ela esteja livre de erros nesta etapa, este treino irá se perpetuar por mais este longo dia. — ela se virou e entrou para dentro da mansão.
Eu me descuidei e %Dimitri% me desarmou, ele passou a lâmina de sua espada no meu braço direito.
— Ah. — eu caí, mas fui forçada a me levantar e peguei minha espada novamente. — Você me prometeu que não me machucaria.
— Eu não estou te machucando. — ele encostou a ponta da sua espada na minha garganta levantando minha face. — Eu estou te tornando mais forte.
— %Dimitri%, estamos há quase um dia inteiro assim, estou com fome, fraca e cansada.
— Então termine o que começou. — retrucou ele.
Aquilo era doloroso, mas pior que o treinamento físico com %Dimitri% para que eu aprendesse a me defender em qualquer situação, era enfrentar Allison no treinamento psicológico. Entretanto, ambos me proporcionaram uma dor inigualável. E todos os dias, sem descanso, eu passava por tudo aquilo sem poder reclamar, tudo que %Dimitri% dizia, é que estava me transformando em uma mulher mais forte a cada dia. E que eu jamais abaixaria minha face para alguém no futuro.
Finalmente havia chegado meu aniversário de 18 anos.
Estava completando a maioridade. Assim como meus treinos, os estudos também foram mantidos em casa, sob a supervisão da mamãe. Agora eu iria para Londres com %Dimitri%. Uma vaga na Universidade de Oxford me aguardava, iria estudar intensamente por mais alguns anos no curso de administração. Não seria somente uma mulher bela e habilidosa, mas também minha inteligência seria trabalhada para que pudesse dirigir bem a empresa da família.
Uma semana antes de nossa partida, a noite estava chuvosa. Após o jantar %Dimitri% me levou até o escritório, ele queria ter uma conversa séria e um pouco indiscreta comigo. Naquela altura dos anos, %Dimitri% havia se tornado meu amigo mais que leal de alguma forma estranha, quase um pai para mim. Eu contava algumas de minhas frustrações e já havia mencionado uma vez sobre %Cedric%.
— Bem, estamos aqui. — eu o olhei.
— Você está há alguns passos de se transformar em uma mulher, porém falta uma coisa, delicada e íntima.
— Do que está falando? — eu o olhei com receio.
— Allison não sabe algumas partes sobre seu passado, no futuro talvez você tenha que se casar com alguém que ela escolherá. — ele foi direto e inexpressivo. — Eu acho que isso é ir longe demais em sua privacidade, mas talvez esta seja a última chance de vê-lo.
— Ver quem? — eu me encolhi um pouco, não entendia sobre quem ele falava.
— %Cedric%. — respondeu diretamente. — Hoje é seu aniversário, e convenci Allison a te deixar escolher seu presente sem contestações, um agrado por ter se dedicado tanto até hoje.
No mesmo instante a imagem de %Cedric% veio em minha mente. Eu não sabia onde ele estava, o que estava fazendo, se tinha alguém em sua vida ou se ainda estava vivo. Mas eu ainda tinha meus sentimentos por ele vivos em meu coração.
— %Cedric%. — eu sussurrei sem perceber.
— Imaginei que quisesse vê-lo de novo. — disse num tom nem um pouco surpreso.
— Eu posso mesmo? — eu o olhei.
— Vamos para Cliron, assim poderá se despedir dele. — assegurou ele.
Não sabia como %Dimitri% possuía aquela informação, mas estava feliz que veria %Cedric% novamente depois de onze anos. Apesar do medo de pensar que ele poderia ter me esquecido. Eu iria até ele naquela noite chuvosa, a mesma chuva que fez nossos caminhos se cruzarem.
Quando você chorou, eu enxuguei todas as suas lágrimas
Quando você gritou, eu lutei contra todos os seus medos
Eu segurei a sua mão por todos esses anos
Mas você ainda tem tudo de mim.
- My immortal / Evanescence