5 • Restrição
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- %Annia%
Demeter e eu permanecemos mais algum tempo no jardim de inverno, conversando sobre sua nova vida em Seattle e seu desejo de montar a tão sonhada oficina mecânica. Eu ainda não entendia essa paixão dele por carros velhos e antigos, que de acordo com ele, eram clássicos. Cassie adentrou o lugar anunciando que os diretores já estavam à nossa espera no escritório da adega. Claro que eu levaria o caçula herdeiro comigo para mostrar que minha gestão jamais deveria ser contestada por eles. Eu troquei alguns olhares com %Dimitri% assim que saímos do jardim, em sua face eu percebi a preocupação constante. Contudo, eu jamais faria algo sem pensar, já estava escolhendo as palavras em minha mente.
Nos dirigimos em direção ao escritório, os irmãos Baker na companhia de %Dimitri%. Ao entrar, já estavam todos sentados em nas poltronas da adega, a nossa espera, o olhar deles passou de Demeter para mim em uma rapidez impressionante. Aquilo parecia mais um julgamento. Eu odiava quando seus olhares faziam parecer isso. Dei alguns passos me aproximando mais e fiz uma breve reverência, debochada.
— Pensei que quisessem se divertir mais, senhores. — disse olhando de relance para o lado direito, vendo %Dimitri% se posicionar ao meu lado, de frente para mim com seus olhos fixos nos meus.
Demeter permaneceu pouco mais atrás, encostado na parede e de braços cruzados me observando.
— Por mais que o baile esteja sendo um sucesso, alguns de nós viajará amanhã bem cedo. — disse James, o diretor mais observador, ele tinha uma certa obsessão em avaliar todas as minhas expressões faciais, meus gestos e passos.
— Vamos ao que interessa. — disse Marcellus me olhando sério e atento. — Estamos aqui mais uma vez por causa de seus atos, feitos sem permissão.
— Especifique. — mantive minha postura correta e a superioridade em meu olhar.
— A morte se Sanches, este caso deveria ter passado pelo conselho. — Davis, o desleal dos diretores, me olhou com certa intensidade. — Matar um homem não é justiça, o herdeiro sabe sobre isso?
O olhar dele foi para Demeter.
— Não se incomodem com minha presença. — disse meu irmão firme. — Tudo que %Annia% fizer, tem meu apoio.
— Como sempre, nada passa despercebido pelo conselho. — me pronunciei olhando fixamente para Davis, depois olhei para meu irmão. — No entanto, devo acreditar que o que eu fiz não infringe as leis imposta pelo código da família Baker, dei o final merecido a um traidor. E se eu estiver errada, que a Continuum venha me julgar.
Soltei uma gargalhada alta e maldosa.
— Ah, me lembrei, até mesmo a Continuum tem seus cadáveres mantidos no armário. — mantive o olhar debochado para Davis.
Ansiava pelo dia em que lhe… Melhor não pensar nisso agora.
— Não importa se ele era um traidor ou não, não deveria ter tomado essa decisão, Sanches sabia muito e poderia ter dito o nome dos envolvidos em troca de perdão. — frisou Xavier, o silencioso dos diretores.
— Perdão? — ri novamente. — Não era preciso para um pessoa corrupta que já havia sido perdoada antes pelos Sollary, o código declara que para toda traição a sentença é o desligamento total. — eu olhei para Marsellus. — Diante disso, consultar a diretoria não era necessário, além do mais, eu não havia ido com a intenção de fazer o que fiz, só queria um relatório, porém fui ensinada pela própria Allison Baker a não dar segunda chance. — eu desviei meu olhar para Davis. — E sigo à risca este ensinamento.
— %Annia% — Klaus se levantou — abaixe seu olhar e demonstre respeito pela diretoria.
— Eu tenho. — sorri de canto meio debochadamente. — Se me dão licença, vou me retirar, tenho que me despedir dos meus convidados, afinal, fui obrigada a participar de uma reunião sem objetivos concretos, espero que tenham uma boa viagem. — eu me virei.
— Jamais dê as costas e saia sem nossa permissão. — ouvi a voz de Marcellus se alterar.
— Permissão? — eu ri baixo, senti a mão de %Dimitri% tocar em meu braço, aquilo era sinal de perigo, me parecia, me virei e olhei para Marsellus sem medo. — Acho que não preciso de permissão para sair de algo que nunca deveria ter entrado, espero que da próxima vocês me convoquem para algo que realmente valha a pena. — eu olhei para Klaus. — Vocês se enchem de orgulho quando dizem que sempre sabem de tudo antes de mim, estou muito curiosa para saber o porquê durante três longos anos, Sanches desviou o CN de nossos laboratórios e vocês não souberam de nada.
— O que é isso? Está insinuando que alguém da diretoria está envolvido? — Klaus deu um passo para frente seus olhos enfurecidos.
— Longe de mim insinuar algo. — disse com ironia. — Não é mesmo, Davis?
Eu olhei para Davis, não era de se esperar que o desleal entre eles estaria envolvido, eu havia descoberto isso, só não tinha como provar. Isso me deixava irritada e revoltada, pois não poderia fazer nada, já que as provas somente denunciavam Sanches.
— O que quer dizer com isso? — Marcellus olhou para Davis.
— Irei me retirar agora, espero que voltem em segurança. — me virei e saí do escritório, sendo seguida por %Dimitri% e Demeter.
Quando cheguei no hall de entrada da mansão me despedi de alguns convidados que ainda estavam na grande sala, em minutos já estava tudo vazio. Meu irmão se aproximou de sua convidada e a levou para fora da casa, certamente sua noite seria longa longe daqui. Cassie ordenou para que o local fosse limpo de imediato. Eu me afastei de tudo aquilo e caminhei até o jardim de inverno. Permaneci parada olhando o pequeno lago que havia lá, me mantive em silêncio ao sentir a presença de %Dimitri%.
— Pensei que não iria se controlar. — disse ele.
— Eu também, mas felizmente você estava lá. — eu o olhei. — Tive mesmo que me conter, olhar para Davis sabendo o que ele fez para me prejudicar e ainda engolir as arrogâncias dos outros...
— Você precisa ser mais cautelosa, %Annia%.
— Eu serei, mas não vou abaixar para eles. — eu dei dois passos em direção a porta. — Sei muito bem que foi uma armação de Davis que fez com que Allison matasse sua assistente pessoal, não vou deixar que ele faça o mesmo comigo só porque não ando conforme seus interesses.
— Você não é uma assistente, você é filha da Allison. — %Dimitri% frisou bem meu lugar. — E o que pretende fazer?
— Ele cairá antes que possa tramar outra coisa contra mim. — eu saí do jardim retornando para o interior da mansão.
Faltava duas horas para o sol nascer e os empregados ainda limpavam tudo, subi as escadas tranquilamente em direção ao meu quarto, abrindo a porta me deparei com uma surpresa.
— Vidal? — eu o olhei sem entender, já entendendo.
— Soube que estava reunião e resolvi esperar um pouco mais para me despedir. — ele sorriu de canto.
Jared tinha um ar um tanto sedutor.
— Imagino. — eu caminhei até ele sabendo de suas intenções. — Foi uma honra ter um Vidal em minha festa. — eu passei por ele indo em direção a janela.
Ele segurou firme em meu braço e me beijou de repente.
— Mais do que ter um Dominos? — insinuou ele.
— Sendo da Continuum, é sempre honrável para mim. — disse me mantendo parcial.
Ele me beijou novamente. Eu já esperava por isso, uma investida dele. Mas não com tanta intensidade, eu já havia me acostumado com os olhares de Jared. O filho herdeiro da família Vidal, membro que mais marcava presença em minhas festas e recepções. Seu beijo era intenso e profundo, porém seu toque macio e suave às vezes conseguia me sentir um tanto desnorteada. Não costumava passar a noite com qualquer pessoa, pois no meio de tudo sempre me lembrava de %Cedric% e isso me irritava às vezes. Porém Jared conseguiu deixar minha mente vazia e meus instintos ainda mais aflorados.
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Eu havia tido uma noite um tanto divertida com o Vidal. Ele se foi pouco antes do amanhecer. Permaneci no meu quarto até que %Dimitri% surgiu, ele estava com uma taça em suas mãos, se aproximando de minha cama me entregou a taça.
— Suco de laranja logo cedo? — perguntei pegando a taça.
— Como todos os dias. — assentiu ele desviando seu olhar para a janela. — Você precisa cuidar mais da sua saúde.
— Não se preocupe com minha saúde, estou bem fisicamente. Algo mais que queira comentar? — perguntei degustando do meu suco.
— Você e o Vidal no final da noite. — ele olhou em volta vendo que meu quarto estava um tanto desarrumado. — Foi intenso? Fiquei surpreso por isso.
— Surpreso pelo quê? — perguntei.
— Pensei que estivesse sozinha até este momento, por causa da sua obsessão...
— %Cedric%. — conclui. — Não posso parar minha vida enquanto ele não volta para mim, ele não parou a dele. Na realidade dos fatos, é raro eu encontrar um homem que me desperte interesse.
— %Annia%. — ele me olhou sério.
— Não se preocupe %Dimitri%, jamais vou confiar em um Vidal, ele é aliado dos Tenebrae. — eu me levantei da cama. — E esta noite jamais irá se repetir, a milady Baker de NY só realiza este desejo uma vez, não vou mais dormir com o inimigo.
Brinquei com a frase final.
— Que cruel de sua parte. — brincou ele me fazendo rir.
— E por falar em crueldade, já instaurou a ordem de restrição como eu mandei?
— Sim. — ele se virou em direção à porta. — %Cedric%, acha mesmo que ele irá preferir a morte?
— Ele me fez uma promessa quando me deixou, ando inclinada a querer vê-lo cumprir, segundo suas palavras, ele prefere morrer a fazer um novo acordo comigo.
— E conseguirá conviver com a morte dele? — %Dimitri% me olhou novamente. — Está certa de sua decisão?
— Estou certa de que no final ele voltará para mim, custe o que custar, %Cedric% aceitará o óbvio, ele pertence a mim e a mais ninguém. — caminhei em direção ao meu closet.
- %Cedric%:
Assim que amanheceu, Rose acordou se espreguiçando na cama. Eu estava de pé encostado na parede como de costume a olhando e pensando na noite anterior. Pensando naquele olhar que me matava e agora me tornava ainda mais vivo, o olhar da milady Baker de New York.
— Bom dia, amor. — disse ela dando um sorriso meigo. — Conseguiu dormir?
— Consegui. Felizmente acordei mais tranquilo, sempre fico ao seu lado. — sorri de canto para ela.
— Isso é bom. — ela se levantou e caminhou até o banheiro.
Eu continuei onde estava, ouvindo os movimentos dela vindos do banheiro, estava tomando uma ducha. Quando saiu já trajando sua roupa de trabalho veio em minha direção e me deu um beijo de leve.
— Vou te achar aqui quando voltar? — perguntou ela.
— Não sei, preciso resolver alguns assuntos, mas não vou demorar a voltar.
— Tudo bem, se quiser posso me encontrar com você no almoço, agora que ela sabe que está aqui, não precisamos mais nos esconder.
— Talvez tenha razão. — eu beijei sua testa de leve.
Rose saiu após tomar seu café. Pouco antes do almoço, liguei para o tio de Rose e expliquei que me atrasaria ao chegar na oficina. Para minha surpresa, ele disse que não precisava, pois eu não poderia mais trabalhar ali. Fiquei intrigado com sua palavras e troquei de roupa rapidamente, segui em minha moto velha até lá.
— Senhor Philip, como assim eu não poderei mais trabalhar aqui? — perguntei confuso pela situação.
— Meu jovem, minha oficina foi comprada, e o novo dono não o quer como funcionário. — explicou ele.
— Eu posso conhecê-lo pelo menos? — perguntei.
— %Cedric%. — a voz de %Dimitri% vindo de trás de mim me fez entender tudo.
— Quer falar com o novo dono? Estou aqui. — o olhar tranquilo dele me dava mais raiva ainda.
— Eu deveria imaginar que tinha algo por trás disso. — disse fechando meus punhos no automático.
A raiva era grande dentro de mim.
— Bem, agora que já sabe, gostaria de dizer que você ficará restrito por tempo indeterminado. — revelou ele. — Espero que consiga sobreviver nesta cidade.
— Ela acha que fazendo isso vai me forçar a voltar? — retruquei. — %Annia% nunca me terá de volta, não serei mais seu cachorrinho.
— Bem, boa sorte então. — %Dimitri% se virou serenamente e seguiu para seu carro.
Respirei fundo ainda raivoso.
— Eu lamento, meu filho, não tive como recusar a oferta deste senhor. — explicou Philip.
— Não se preocupe, não é culpa sua, só peço que não conte nada a Rose, por favor. — pedi a ele.
— Não contarei. — garantiu.
Subi em minha moto e dei a partida. Não podia voltar para casa desnorteado, então minha próxima parada seria Obviously Pub, um dos poucos lugares da cidade que me ajudava a relaxar quando estava de cabeça quente. Eu sabia que pertencia a uma família Continuum que era alheia aos mandados de %Annia%. Um ponto positivo.
Quando entrei, me lembrei imediatamente do dia em que deixei %Annia%. O pub foi o último lugar que passei naquela cidade, antes de ir para o Kansas, e eu estava ali novamente. Notei alguns rostos conhecidos e outros um pouco diferentes, logo um conhecido do passado como segurança de %Annia% se aproximou de mim.
— Ei, %Cedric%? — disse Jack ao se aproximar de mim. — Quando voltou para Manhattan?
— Ah, Jack. — eu o olhei, muita coincidência o encontrar ali. — Voltei há dois meses.
— Suponho que milady Baker já esteja sabendo do seu retorno. — ele se sentou na banqueta ao meu lado e olhou para o barman. — Vou querer um
joystick. — disse ao homem, pedindo a bebida de martini misturada com gim e frutas vermelhas.
— Sim, ela já sabe. — eu desviei meu olhar para a pista de dança vendo algumas pessoas se divertindo. — Ela sempre sabe de tudo, não é novidade.
— Bem, verdade. — ele riu sendo servido. — A única novidade que ninguém sabe, mas terei o prazer em dizer em primeira mão a você, é que milady Baker em breve se casará.
— O quê? — eu o olhei sem entender.
— Mantenha isso em sigilo, não é oficial, mas dizem que Allison quer que ela se case. — continuou detalhando a informação. — Ao que tudo indica, com alguém da diretoria, Davis talvez.
— Tem certeza? — mantive meu olhar intrigado.
— É o que estou dizendo. — ele pegou seu copo e saiu em direção a escada que dava para o espaço vip no segundo andar.
Jack fez muitos contatos na época que trabalhava para Allison Baker, segundo %Annia%, ele era um dos amantes da mãe. Então, se ele havia dito aquilo, é porque tinha fundamentos. Eu fiquei olhando para a bancada sem reação, não conseguia imaginar %Annia% se casando com nenhum homem. Davis era tida como uma pessoa fria e desleal, que sempre fez de tudo para derrubá-la. Era impossível visualizar a união deles, mesmo que isso fosse uma ordem da própria Allison.
Eu não queria me preocupar com tudo aquilo. A vida de %Annia% não era mais da minha conta, ou pelo menos eu tentava pensar assim. Me virei para o barman e esperei ele terminar de servir a mulher que sentou ao meu lado.
— Pode me dar uma Heineken por favor. — pedi a ele.
— Me desculpe senhor, mas não poderei. — respondeu meio sem jeito.
— Como assim? — estranhei aquilo tudo.
— Em todos os ponto foi dada a nova lista de restrições, sua foto está nela. — explicou o homem.
Lista de restrições. Deveria ter imaginado de imediato. Mas estava intrigado por aquele lugar ter aceitado a lista. Sempre que %Annia% queria eliminar alguém, ou controlar essa pessoa, colocava sua foto na lista de restrições, e a pessoa estaria proibida de fazer qualquer coisa na cidade. Trabalhar, se alimentar, morar, praticamente viver.
— Não acredito. — sussurrei para mim mesmo.
Saí do pub, eu não iria jogar o jogo dela. Se %Annia% estava fazendo aquilo para que eu desistisse de Rose e cedesse a sua pressão, eu não iria fazer isso. Passei o resto da tarde e boa parte da noite vagando pelas ruas. Voltei para casa muitos antes do amanhecer, estava me sentindo fraco, abatido e com fome, mas iria ser forte e resistir a tudo aquilo.
Quando entre no apartamento, Rose estava acordada. Ela me olhou preocupada e confusa, eu não tinha forças para dizer nada.
— Meu tio de contou que vendeu a oficina e teve que te demitir. — disse ela assim que me preparou um lanche e colocou em cima da mesa de centro. — Sei que não queria que eu soubesse, mas %Cedric%, esconder de mim não vai melhorar.
— Me desculpe. — a olhei com ternura por seus cuidados comigo. — Não queria te preocupar.
— Foi ela, não foi? — indagou.
— Sim. — suspirei fraco caminhando para perto da janela. — Mas vai ficar tudo bem, vou sobreviver a isso.
— Se quiser, podemos ir embora novamente, voltar para o Kansas. — sugeriu ela.
— Ordens de restrições correm Rose, a Continuum está em toda parte, %Annia% pode pedir apoio deles. — conclui. — Não há para onde fugir.
— Podemos sair do país. — insistiu.
— Não se preocupe comigo. — sorri de leve.
— Só não quero que isso nos afaste um do outro. — disse ela com um olhar amedrontado. — Sabemos do que %Annia% é capaz.
— Ela não vai te machucar. — assegurei.
— Não a mim, mas é claro que ela quer machucar você. — concluiu ela com precisão ao se aproximar de mim. — Não vou suportar.
— Obrigado. — sussurrei para ela.
Senti sua mão tocando meu rosto de leve. Ela sorriu para mim de forma reconfortante. Senti o calor de seu corpo próximo ao meu. Sorri de volta e olhei para janela, meus olhos percorreram a rua até que pararam no terraço do prédio da frente do outro lado da rua. Mesmo no escuro algo dentro de mim me confirmava, era ela a nos vigiar. %Annia%, ao seu lado certamente %Dimitri%. Foquei meu olhar ainda mais e pude ver que ele estava segurando firme em seu pulso. Havia alguns momentos cruciais que %Dimitri% a continha e aquele era um deles.
- %Annia%:
Engoli seco sentindo minha garganta queimar como se uma brasa estivesse nela, olhando aquela cena. Em minha mente só imaginava o que poderiam estar conversando. De certo que eu era o assunto. Mesmo %Dimitri% me segurando sem motivos, eu não iria fazer nada. Tinha curiosidades para ver até onde iria aquela segurança toda da insignificante Rose. E quando %Cedric% admitiria que morreria sem mim.
— Satisfeita com o que viu? — perguntou %Dimitri% num tom irônico, quebrando o silêncio que continha entre meus olhares para %Cedric%.
— Sabe que não. — admiti.
— Esta cena é o suficiente por hoje, %Annia%. — disse ele ao se virar de costas para o apartamento da frente. — Vamos seguir para casa.
Assenti com a cabeça e nós descemos para o estacionamento do prédio. Entramos no carro. Permaneci em silêncio todo o caminho, não queria dar a oportunidade para %Dimitri% me repreender ainda mais ou dar seus conselhos preocupados de um pai. Quando cheguei na minha cobertura no Central Park, fui direto para o quarto, sentia tanta raiva que nem chocolate me acalmaria. Eu seria capaz de destruir toda aquela cidade em poucos minutos de tanta fúria reunida em mim.
Um semana se passou e até mesmo as compras de alimento foram cortadas para eles. Não me contive em todas as noites ir naquele prédio para observá-lo. Estava curiosa para saber até quando duraria o estoque de sobrevivência de ambos. Até mesmo a tal Rose havia sido demitida do emprego, estavam a um passo de perderem o aluguel do apartamento deles. Meu desejo de ver %Cedric% rendido a mim estava me consumindo por dentro, passava horas do dia pensando nele e em como ele estava. Isso atrapalhava um pouco minha concentração nos negócios, tinha que me manter focada para articular a queda de Davis e do resto dos diretores.
— Você ainda não mencionou sobre a mensagem da Allison. — comentou %Dimitri% enquanto permanecemos dentro do carro debaixo da chuva em frente ao prédio de %Cedric%.
— Sobre me casar com o traidor desleal? — perguntei. — Não farei isso.
— Prometi a Allison não decepcioná-la, mas não me casarei com Davis, nem sob tortura, nem se a vida de %Cedric% dependesse disso. — afirmei com segurança.
— Não acho que Allison queira te chantagear para se unir a Davis. — %Dimitri% riu com sarcasmo. — Mas, é uma boa ideia.
— %Dimitri%, você deseja minha ruína?
— Claro que não %Annia%, você é como uma filha para mim.
— Hum… — respirei fundo. — Allison acha que este casamento será uma forma de controlar aquele traidor, mas no fundo eu quero é exterminar ele.
— Se você se concentrasse nisso, já teria pensado em como. —
aquilo foi um tom de repreensão? — Se está falando sobre o caso %Cedric%, não se preocupe, eu não perdi o foco. — assegurei. — Mas tenho minha vida privada longe dos assuntos da empresa.
— Assim espero. — disse ele.
Ficamos em silêncio por mim tempo. Em um impulso repentino, peguei as sacolas de alimentos que tinha preparado para levar e saí de carro. Sem que %Dimitri% pudesse questionar, segui até o apartamento de %Cedric%. Assim que parei em frente a porta, me peguei em profunda indecisão. Já não sabia mais se bateria ou não na porta, assim que ergui a mão direita, a porta se abriu. Meus olhos encontraram os de %Cedric% de imediato, senti uma brisa fresca e estranha passar pelo meu corpo.
Seu olhar parecia cansado, seu rosto um pouco abatido, com olheiras nos olhos, certamente de preocupação. Um pequeno corte na boca podia ser notado também. O que eu havia feito com ele? Eu sabia de boatos que algumas pessoas para quem Rose devia tinham ido lhe cobrar, e %Cedric% quem recebeu a cobrança em forma de surra. Eu havia me esquecido que ela pagava caro as contas da casa de repouso onde a mãe com Alzheimer permanecia.
— Veio conferir se ainda estou vivo? — ele sorriu de canto meio debochadamente, havia aprendido aquilo comigo, sorrir para seu inimigo em meio a visualização da possível derrota.
— Não. — eu não sabia o que dizer, eu sempre perdia as palavras quando estava adiante dele e sem %Dimitri% perto, era ainda pior. — Quer dizer, não sei.
Desviei meu olhar para a soleira da porta, senti uma movimentação se aproximando, virei meu rosto para o lado, era ela.
— Você. — disse ela surpresa, ela desviou seu olhar de mim para ele. — %Cedric%! — ela se aproximou e apoiou o braço dele em seu ombro, ele ainda estava se recuperando da cobrança pela dívida.
Fiquei sem reação ao ver aquela cena. %Cedric% desabando diante de mim. Estava pensando o que faria com aquilo, se realmente o deixaria morrer ou não. Rose fechou a porta e provavelmente o colocou na cama ou no sofá, ouvi as vozes de ambos. Permaneci onde estava com meu pensamento, tentando imaginar como seria o mundo sem %Cedric%. Se eu estava pronta para perdê-lo para morte, se realmente era isso que eu queria. As palavras de %Dimitri% ainda ecoavam em minha mente, eu viveria bem se %Cedric% morresse? Essa era uma questão delicada naquele momento.
Finalmente me posicionei firme como uma Baker e bati na porta, demorou alguns instantes até que Rose abriu. Ela saiu para fora e me olhou com raiva.
— Ele ainda está vivo se é isso que quer saber.
— Não foi para isso, %Cedric% é um homem forte, sei que não será um acerto de contas que vai derrubá-lo. — estiquei a sacola entregando a ela. — Isto é para vocês.
— O quê? — ela se mostrou indignada. — Acha mesmo que vamos aceitar suas migalhas?
— Se ele prefere morrer, eu já entendi que sim, mas eu não vou deixar. — eu não iria me rebaixar ou admitir as palavras dela. — Agora você vai aceitar em silêncio, ou então sua querida mãe pagará por sua arrogância.
— Se ousar… — ela começou.
— Cale-se e nem ouse me enfrentar. — a interrompi com firmeza. — Nem tudo sobre mim, %Cedric% lhe contou, e não vai querer conhecer todos os meus lados.
Minha ameaça foi mais forte. Ela engoliu seco e pegou as sacolas. Sorri audaciosamente para ela e antes pudesse dizer mais alguma coisa, me retirei. Quando cheguei na rua, %Dimitri% estava parado ao lado do carro me olhando. Sua expressão séria e seu olhar frio, mas tinha uma ponta de curiosidade ali. Em sua face deixou transparecer um sorriso de canto, entendi que tinha aprovado minha atitude.
- %Cedric%:
— %Cedric%. — disse Rose ao entrar pela porta.
Meu corpo estava totalmente dolorido. Tomei alguns analségicos e mantive o olhar nela. Estava com várias sacolas em suas mãos. Não entendi a princípio, mas depois imaginei que fosse coisa da %Annia%.
Suspirei fraco, cansado de lutar contra a Baker que afundou a minha vida.
Nos mandar alimento era a resposta que eu queria. %Annia% não teria forças para me ver morto. Ela ainda me amava, mesmo que do jeito louco, sufocante e obsessivo dela. O pior de tudo é que eu também ainda a amava. Meu corpo inteiro se arrepiava quando ela se aproximava de mim.
Vindo ao meu apartamento era a confirmação que %Annia% não conseguiria ir adiante com aquela sentença. E eu daria meu próximo passo. Para isso, eu teria que abrir mão de Rose, da vida tranquila que eu conquistei. Mas se isso significaria minha possível liberdade no futuro, então era isso que eu faria. Terminaria de uma vez com Rose, para que ela não se ferisse por minha causa.
Então… Eu não iria mais jogar o jogo de %Annia%, era ela quem iria jogar meu jogo.
Desta vez eu seria o controlador de tudo.
Eu não queria acabar com sua vida,
Eu sei que isso não é certo,
Eu não consigo nem dormir à noite,
Não consigo tirar isso da minha mente.
- Man Down / Rihanna