3 • Milady Manhattan
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Mais cedo naquele mesmo dia...
- %Annia%
Abri os olhos lentamente me espreguiçando, senti um leve desconforto em minhas costas, era o controle da televisão. Havia passado toda manhã deitada em minha cama pensando nas palavras que escreveria no convite que seria entregue a %Cedric%. Me levantei e caminhei até meu closet, passei alguns minutos me decidindo o que usaria naquele dia.
Acabei colocando meu look habitual, uma camisa social feminina branca, uma calça jeans skinning preta e meu inseparável scarpin vermelho. Assim que retornei ao meu quarto, encontrei minha cama já arrumada, sorri de canto e me virei em direção à porta, meu fiel e leal conselheiro e assistente, e muito amigo nas horas vagas, %Dimitri%, se manteve parado me olhando.
— Bom dia, milady. — pronunciou ele.
— Um belo dia. — eu o olhei sentindo meus olhos brilharem automaticamente. — Um belo dia para voltar a vida de certas pessoas.
— Falando assim, já imagino de quem seja. — ele sorriu de canto. — E já se decidiu como irá se anunciar?
— Vou convidá-lo para o meu baile de máscaras, sei que está próximo e é a ocasião ideal para isso. — andei até a escrivaninha e me sentei, abri a pasta preta e retirei uma folha dourada e pegando minha caneta de ponta fina comecei a escrever. — Já até pensei nas palavras enquanto descansava esta madrugada.
— Deixe-me adivinhar, algo sutil e delicado. — concluiu ele.
— Sim, como sempre. — demorei mais alguns minutos escrevendo, quando terminei dobrei o papel e coloquei em um envelope preto e escrevi %Cedric% em dourado.
— %Annia%, está certa de que é o melhor momento?
— Sim. — eu me virei para ele, me levantei e estiquei o envelope. — Quero que embrulhe em uma de nossas embalagens especiais, alguém deverá entregar isso ao entardecer, quando sua… Quando aquela intrusa estiver retornando do emprego.
— Como quiser. — ele pegou o envelope ainda me olhando de forma séria como de costume. — Espero que desta vez funcione.
— Vai funcionar, nem que seja transbordando de raiva, ele virá. — eu sorri de canto.
%Dimitri% assentiu e se retirou fechando a porta. Passei minha mão direita em meus cabelos olhando para janela, caminhei até ela e abri as cortinas deixando o sol entrar com intensidade. Senti aquecer minha pele por um tempo e me afastei. O frescor de Manhattan me deixava animada e estimulada a dar ordens para funcionários incompetentes. Seria complicado me manter focada as minhas reais intenções quanto ao baile de máscaras, mesmo na diversão em despertar a fúria de %Cedric%, eu tinha negócios muito mais importantes.
Me sentei na poltrona ao lado da janela e peguei minha bolsa, conferi se tinha tudo que precisava, peguei o celular e olhei as horas. Me levantei e voltei para porta. Antes de sair, peguei minha taça de vinho, que %Dimitri% havia deixado na mesinha ao lado da porta. Eu ainda não havia me acostumado com esta mansão, não trocava minha cobertura de dois andares em frete ao Central Park para morar ali, mas como o baile seria na mansão, então eu passaria a semana aqui.
Caminhei pelo corredor enquanto saboreava o Chateau 1987 que me foi servido, desci as escadas tranquilamente vendo %Dimitri% já me esperando no último degrau.
— Convite enviado, %Annia%. — informou ele.
—
Good. — respondi ao me posicionar ao lado dele, entregando minha taça vazia. — Agora, vamos aos negócios, não posso perder mais tempo, já fiquei muito tempo fazendo a boa moça.
— Então está pensando em fazer um visita surpresa? — perguntou ele ao pegar a taça.
— Sim. — ajeitei minha bolsa no ombro direito. — Te espero na garagem.
— Não quer tomar o café da manhã antes de irmos? — indagou ele.
— Não, estou sem fome. — segui na frente.
Me afastei, indo em direção ao corredor leste, desci as escadas até a garagem que era subterrânea, entrei em minha Mercedes preta. Assim que %Dimitri% entrou, ele deu a partida e seguimos para nosso primeiro destino, iríamos ao
Mount Sinai Hospital. Este hospital era filiado da família Sollary, e permanecia me causando problemas a um tempo já. Confesso que nunca fui de muita paciência para os lacaios da Continuum, mas os Sollary já foram bem mais exigentes quanto a escolha de filiações.
Desde os meus dias de treinamento em minha infância e adolescência, antes de ser transformada na milady Baker de Manhattan... Comecei a traçar minhas estratégias de administração quanto aos hospitais que receberiam os medicamentos das Indústrias Baker. Neste novo mundo que eu pertencia, havia um simples detalhe, se você controla o fornecimento de remédios, controla todo o sistema de saúde de sociedade. E eu havia sido preparada para isso, para controlar a indústria farmacêutica do país.
E por mais que pareça fácil administrar uma empresa, visto externamente, não era tão fácil assim. Desde muito antes de eu ser adotada, os Baker já haviam se estabelecido com renome mundial. Os melhores químicos e cientistas trabalhavam para nós. Seguindo o código de ética e profissionalismo proposto no passado pela dra.
Dorothy Baker, a matriarca da família Baker e uma das fundadoras da Continuum.
— Está com uma aparência cansada. — comentou %Dimitri% ao me olhar pelo retrovisor.
— Impressão sua. — disse.
— Você tem trabalhado muito e descansado pouco. — retrucou ele.
— Se não fizer o que me foi proposto fazer, as hienas da diretoria me engolem viva. — expliquei.
— Só quero que seja mais atenta com sua saúde. — alertou ele. — Não a treinei para morar na praia por negligência.
— Não se preocupe, %Dimitri%, eu sei me cuidar. — assegurei.
Eu sabia que sua preocupação comigo era válida, mas não poderia me deixar abalar por cansaço físico, não agora. Alguns dos laboratórios Baker passava por uma reestruturação, após minha descoberta de fraudes e lavagem de dinheiro. Eu sabia que havia mais sujeira neste esgoto de corrupção que havia tomado as Indústrias Baker, e eu precisava resolver tudo antes da visita anual da Allison Baker. Eu sabia que poderia contar com %Dimitri% para cuidar da minha segurança, já tinha sido ameaçada várias vezes pelos diretores da empresa. Não duvidava que seriam capazes mesmo de tentar me matar.
Quando %Dimitri% estacionou, na garagem do hospital, soltei um suspiro cansado. Não queria ter que lidar com o assunto em uma manhã tão alegre como aquela.
— %Annia%. — %Dimitri% me olhou.
— Vamos organizar os negócios %Dimitri%, já está na hora, não posso mais adiar este assunto. — disse com firmeza.
Ele assentiu e nos direcionamos ao meu elevador privado, subimos diretamente até a sala do diretor geral do hospital. Quando chegamos no hall de entrada, passei direto indo até a porta, %Dimitri% lançou seu olhar intimidador para a secretária assim que ela tocou no telefone, um olhar que até eu às vezes me surpreendia com a intensidade.
Ao tocar na maçaneta, já ouvi alguns risos vindo do interior da sala, era a voz do diretor geral Sanches. Girei com cautela e abri de repente, ele deu um pulo da sua cadeira confortável ao me ver, na sala havia uma outra pessoa, usava um jaleco branco, deveria ser algum médico, lancei meu olhar para Sanches fixando ainda mais.
— Surpreso em me ver? — perguntei com um ar inocente entrando na sala.
— Bem... — ele estava com sua mão direita na altura no coração com seus olhos assustados e sua respiração presa.
— Já faz algum tempo que não lhe faço uma visita. — assim que cheguei em frente à sua mesa, percebi %Dimitri% entrando na sala.
— Senhorita Baker… — começou ele tentando não gaguejar.
— Pronuncie corretamente, Sanches. — desci meu olhar para ele, me lembrei vagamente do dia em que fomos apresentados.
— Milady, eu já estava conversando com o doutor neste instante, dizendo que o relatório que me pediu sobre o uso do soro CN nas cobaias. — explicou ele com medo demonstrado em seu olhar.
— Interessante, mas acho que já lhe dei o tempo suficiente. — entrei mais e caminhei parando em sua frente, lancei minha perna em sua direção cravando o salto do meu sapato em sua jugular. — Sabe, %Dimitri%, eu sempre tive uma curiosidade sobre os médicos.
— E qual é, %Annia% Baker? — %Dimitri% estava tranquilo parado perto da porta segurando o médico.
— Dizem que eles conseguem salvar vida. — senti meus olhos ficarem mais negros ainda, nos aproximei da janela. — Mas será que conseguem salvar a si próprio?
— Não, por favor, eu juro que não tive escolha. — suplicou ele.
— Não teve escolha, eu pensei que estivéssemos falando de um simples relatório. — disse num tom inocente.
Mas claro que eu sabia que ele estava envolvido no desvios do soro CN.
— Eu suplico, milady Baker. — ele me olhou demonstrando sofrimento, porém nenhum pouco de arrependimento.
— Não dou segunda chance. — disse com precisão.
Sem que ele pudesse reagir, movi a minha perna em seu rosto fazendo um corte em sua boca, empurrei com força sua cadeira contra a janela, o vidro se rompeu com o impacto e o seu corpo atravessou para o lado externo, em segundos já estava caído bem na entrada no hospital.
— E você, doutor? — eu me virei olhando para o médico.
— Sim. — ele me olhou com medo, pude sentir pelo seu olhar.
Eu sabia que minha força ao jogar Sanches pela janela tinha algo fora do comum, então me lembrei da taça de vinho. Certamente %Dimitri% colocou uma dose do soro CN para que meu corpo ficasse mais forte e meus sentidos mais elevados. Era a lógica para que eu conseguisse ouvir o pulsar do coração do doutor mais alto e preciso.
— Há quanto tempo trabalha no hospital? — perguntei respirando suavemente para que meus sentidos se acalmassem.
— Dois anos. — ele respondeu tentando não gaguejar.
— Suponho se seja um recém-formado. — eu caminhei até ele, logo %Dimitri% levantou seu corpo. — Estou certa?
— Sim, eu era um aluno do centro de pesquisas. — explicou ele.
— Interessante. — eu o olhei atentamente monitorando sua frequência cardíaca com minha audição. — Acho que já é o bastante, pode voltar ao trabalho.
%Dimitri% o soltou e sem demora ele saiu, eu soltei uma gargalhada um tanto sinistra, %Dimitri% sorriu de canto me olhando.
— Como é bom despertar este meu lado dama da noite. — respirei fundo desviando meu olhar para a faixa de sol que estava atingindo o chão. — Obrigada por ter colocado o CN no meu vinho sem que soubesse.
— Imaginei que precisaria. — ele abriu a porta novamente para irmos embora. — Devemos ir para o próximo compromisso?
— Sim, mas antes quero que ligue para Cassie, quero que ela faça uma inspeção geral e contate o representante dos Sollary, se tem algum membro desta família envolvido nessa corrupção toda, vai cair nem que tenha que derrubar a Continuum toda. — alertei com segurança. — Ninguém rouba da família Baker e sai vivo para desfrutar do crime.
— E antes que eu me esqueça, confirme o jantar com Sebastian Dominos, estou curiosa para descobrir sobre seu ódio pelos Tenebrae. — continuei.
Uma coisa era certa, se %Dimitri% era meu braço direito, Cassie era o meu esquerdo. Era ela quem contratava e guardava a lista de todos que trabalhavam para mim. E também cuidava para que todas as minhas ações não fossem questionadas pela diretoria, que insistiam que eu deveria andar sob comendo deles.
Antes de meus próximos compromissos, eu e %Dimitri% fizemos uma parada em uma de minhas cafeterias favoritas: a
Coffee House. Como sempre, estacionamos na garagem e entramos pela entrada secundária, alguns olhares vieram em nossa direção de imediato, e por ironia, eram todos para %Dimitri%.
Tenho que admitir que ele era sim um homem atraente e muito cavalheiro, e tinha alguns olhares que paralisam as mulheres. Felizmente no meu caso, eu era imune aos encantos dele, mas ainda assim o achava charmoso. Eu segurei o riso, e caminhei até minha mesa habitual que ficava mais ao centro do lugar, me sentei.
— Lembre-se que estamos a serviço. — disse.
— Não se preocupe, %Annia%. — ele sorriu de canto e logo ouvi alguns suspiros vindos do meu lado direito.
— Assim espero. — reforcei ao ver o garçom já trazendo dois cappuccinos, nosso pedido de sempre.
— Boa tarde, milady Baker. — ele se curvou um pouco em cumprimento, tinha traços orientais. — Aqui está, como sempre pede, seu favorito.
— Chocolate. — pronunciou %Dimitri% ao olhar para minha xícara. — Só isso para te acalmar.
— Não se envolva com meu chocolate. — completei pegando a minha taça.
Ele riu baixo.
— E a que brindaremos agora, %Annia%? — perguntou ele levantando sua xícara.
— Ao meu baile de máscaras na sexta. — sugeri erguendo a minha também.
Senti uma ponta de brilho em meus olhos.
Naquele instante, eu só conseguia pensar no momento da noite em que ficaria frente a frente com %Cedric% pela primeira vez, após dois anos de ausência.
Você pode me chamar de monstro.
- Monster / EXO