11 • Futuro
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Atualmente...
- %Dimitri%:
Eu tinha que me manter calmo e concentrado, havia poucas horas que Davis tinha fugido e eu não o deixaria escapar assim tão fácil. Liguei para Cassie e ordenei que convocasse todos os sliters dos Bakers em Manhattan, faríamos um safári em meio a selva de concreto como diria Allison. Já se aproximava da hora do almoço, devido a demora em começar as buscas teríamos que ser mais cautelosos e precisos ainda, por isso acionei a polícia de Manhattan para cobrir todas as entradas e saídas da cidades. A cabeça de Davis estava a prêmio e a pessoa que dissesse onde ele estava, ganharia uma generosa recompensa.
— %Dimitri%. — Cassie se aproximou de mim — Estão todos reunidos no estacionamento.
Cassie assentiu caminhando em minha frente, para muitas coisas ela era exemplar exceto quando tinha que ser fria e calculista. Uma das qualidades que a Baker adotiva gostou nela.
— Prestem atenção todos vocês, começaremos em imediato esta caçada, vasculhem cada canto desta cidade e principalmente as fronteiras, ao pôr do sol quero aquele traidor vivo. — olhei para cada um deles parados em minha frente — Ele tem que estar vivo, pois nossa milady é quem irá lhe dar o destino que merece.
Todos assentiram sem hesitação e saíram correndo para cumprir sua tarefa. Eu não poderia participar de tudo aquilo, por dois motivos: o primeiro, tinha que ficar o mais perto de %Annia% possível, mesmo estando com %Cedric%, eu ainda não confiava plenamente nele e segundo, tinha que encontrar uma solução para trazê-la de volta. Entrei no carro e segui direto para a biblioteca particular da matriz da Continuum. O lugar onde guardávamos livros raros sobre a sociedade, e no cofre pessoal da família Baker, as muitas descobertas científicas de seus talentosos cientistas. Havia também uma sessão reservada a documentos da família, e era nessa seção que eu precisava entrar.
A dra. Irina havia me enviado uma mensagem com o resultado dos testes feitos no vinho. Eu precisava ser rápido em minhas pesquisas. A bibliotecária ainda era Lunna, havíamos tido um relacionamento conturbado no passado e eu sentia que ela guardava ressentimentos. Contudo, não deixaria que isso fosse incômodo para que me ajudasse. Ela me levou até a seção reservada aos documentos. Algumas horas depois, entre alguns documentos antigos da adoção de %Annia%, encontrei o que tanto procurava.
— Você acha que isso pode ajudar? — perguntou Lunna sentando-se ao meu lado no sofá.
— Nem tudo tem uma resposta, mas desta vez eu tenho a solução. — respondi friamente enquanto mantinha meus olhos nos documentos em minhas mãos.
— Lamento que tenha acontecido isso com a milady Baker, espero que consiga reverter seu quadro. — ela me olhou.
— Como soube tão rápido? — perguntei mantendo minha atenção no livro.
— Cassie me ligou. — ela fez uma breve pausa — Disse que certamente viria aqui pelos documentos relacionados ao... Allison já sabe?
— Ainda não, não sei. — coloquei os documentos na pasta e fechei — Estou tentando focar em uma coisa de cada vez.
— Espero que consiga pegar Davis o mais rápido possível.
— Eu vou, nem que eu tenha que procurá-lo pessoalmente, ele pagará pelo que fez.
— Vou fazer minhas buscas também, talvez consiga saber de algo com alguns amigos. — ela me olhou — Sabe que a Continuum sempre irá ajudar em casos assim.
— Não precisa agradecer. — ela sorriu de leve — Você vai conseguir trazê-la de volta, tenho certeza.
Sorri de canto para ela e me afastei. Segui para a saída, entrei no carro e fiquei por um longo tempo pensando nos documentos e nos próximos passos que daria. Não voltaria para o apartamento enquanto não encontrasse uma forma mais sutil de resolver tudo, mas tinha que manter meus olhos focados em outras coisas como o último pedido de %Annia% para Jack. Peguei meu celular e liguei para ele.
— Jack na linha. — disse ele ao atender.
— Já completou o que se comprometeu a fazer? — me pronunciei.
— %Dimitri%, se fosse uma voz feminina diria que era a milady me fazendo essa pergunta, ambos se parecem muito. — ele riu do outro lado — E falando nela, como ela está? Soube do golpe de Davis.
Liguei pouco depois do almoço para o celular dela e %Cedric% atendeu, mas não tinha muita informação precisa.
— Não sei de seu estado, estou longe dela desde o nascer do sol. — respondi — Agora responda o que perguntei.
— Não se preocupe, tudo que pertence a Manhattan já está a caminho de Manhattan, em algumas horas será entregue no endereço que nossa milady solicitou. — garantiu ele.
— Participando da sua caçada, mesmo que não tenha me convidado. — ele riu de leve — Espero que não fique irritado.
— Não ficarei, quanto mais pessoas atrás daquele traidor, melhor. — assenti sem maiores preocupações.
— E não está preocupado por ela ficar com %Cedric%? — instigou ele.
— Conhecendo-a como a conheço, está com quem ela sempre quis estar. — desliguei o celular antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa.
Segui com meu carro até a Estação Central e fiquei mais algumas horas esperando o pôr do sol, me distrai um pouco olhando as pessoas passando. Até que um homem passou por meu carro despertando minha atenção para ele, eu o conhecia de um passado muito distante, um passado que estava voltando a minha memória naquele momento sem que eu entendesse o motivo.
— O que estou fazendo? — perguntei para mim mesmo — Se esta pessoa que acabei de ver for a resposta, Allison saberá e vai me matar.
Peguei meu celular e olhei para a tela por um momento. O que eu iria fazer acabou acontecendo primeiro por parte dela, era o número de sua mansão em Barbados.
— Allison. — disse primeiro.
— Quando pretendia me ligar? — perguntou ela de imediato.
— Assim que encontrasse uma resposta, porém elas sempre me levam a você. — respondi com honestidade.
— E qual resposta está procurando? — perguntou ela novamente.
— Se me ligou, é porque já sabe o estado de %Annia%. — disse.
— As notícias correm rápido.
— Não se preocupe, sua cidade está em ordem.
— E o culpado? — perguntou ela num tom preocupado.
— Está sendo caçado neste momento. — eu suspirei — O conselho foi corrompido, e o que aconteceu com a %Annia% só nos prova que todos eles podem se voltar contra suas vontades.
— Então que este conselho seja destruído, assim que o traidor for localizado.
— E quanto a minha resposta? — insisti, sabia que ela já teria pensado em algo.
— Orfanato Miral. — disse ela com tranquilidade — Por que pergunta, se já pegou a resposta?
Sem que eu respondesse, ela desligou o telefone. Coloquei o celular no painel e abri a pasta novamente. Eu sabia onde estava, sabia quem era e sabia como poderia ajudar %Annia%. Agora só faltava executar tudo no menor tempo possível.
— Como ela está? — disse ao entrar no quarto do Laboratório Interno, onde ela estava internada.
— Não se moveu desde o momento em que chegamos aqui. — %Cedric% estava parado perto da cama, mantendo seu olhar nela.
— Encontrei uma forma de ajudá-la. — disse cruzando meus braços e encostando na parede.
— Qual? — ele me olhou, em seus olhos pude ver que ainda mantinha a esperança dentro de si.
— Segundo Irina Baker, uma fórmula combinada à transfusão de sangue pode dar resultado, mas não seria qualquer sangue. — desviei meu olhar para o chão, escolhendo as melhores palavras.
— Precisamos de um sangue compatível com o dela, não somente no tipo sanguíneo, mas também no fator biológico. — revelei ele.
— Quando você diz fator biológico? Está falando sobre a família verdadeira de %Annia%? — seu olhar ficou temeroso e preocupado.
— Talvez, não sabemos se vai ou não dar certo, é somente uma experiência testada há anos e que pode dar certo contra este veneno utilizado, vai ajudar a rápida recuperação dela. — respondi ponderadamente.
Eu não queria deixá-lo preocupado, entretanto contar a verdade do passado seria algo delicado. Leve ironia do destino, somente Donna Fletcher sabia quem eram os verdadeiros pais de %Annia% e duvido que revelaria. Porém, havia um segredo na qual eu deveria mexer para garantir que %Annia% voltasse a vida, e o homem que eu vi passando na estação, como eu havia imaginado era a resposta.
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Segredos da Primavera de 2014…
- %Annia%
Havia passado alguns meses da minha noite com %Cedric%, eu já estava morando na casa de Allison em Londres. Apesar do meu irmão caçula ter permanecido em Manhattan, eu sabia que estava ali para completar meus estudos. Não queria desapontá-la, menos ainda %Dimitri%, por ter me concedido a oportunidade de ver %Cedric% novamente.
— Muito bem, já está acordada. — disse %Dimitri% ao aparecer na porta do meu quarto.
— Acho que meu corpo não quer se preparar mais para o meu futuro. — comentei desviando meu olhar da janela para ele, estava me sentindo cansada aquele dia.
— Esteve o dia todo distante em seus pensamentos. — observou ele — Devo presumir um nome que está dentro deles.
— Não passei o dia pensando em %Cedric%, não somente nele. — admiti.
— Durante todos estes anos, a maioria dos seus pensamentos foi nele, em se o veria novamente.
— %Dimitri%. — deixei meu olhar mais sério.
— Não negue, existe uma conexão entre vocês que eu jamais vou entender, mas admiro muito o que sentem um pelo outro. — ele me olhou de baixo para cima — Só temo que ele venha se transformar em seu ponto fraco.
— Mais ninguém além de você, e agora da Allison, conhece essa parte de mim. — eu respirei fundo — Não se preocupe, isso não irá atrapalhar os planos da minha... Mãe.
— Não me preocupo com os planos dela, Allison sempre tem uma carta a mais na manga.
— E está assim por mim? Eu serei mais forte do que já sou. — afirmei a ele.
— Não, tem algo a mais aí. — ele olhou fixamente para minha barriga — Dentro de você.
— %Dimitri%. — eu comecei a me sentir enjoada e com náuseas, não entendia o que estava acontecendo mais corri para o banheiro.
Passei alguns minutos trancada, não ouvi mais sua voz. Quando voltei para o quarto, %Dimitri% estava parado em frente a porta e Allison ao seu lado.
— Observe você mesma. — disse ele num tom frio e preocupado — Dois corações batendo.
— Oh, não. — disse ela lançando seu olhar da minha barriga para meus olhos.
— O que houve? — eu olhei assustada para %Dimitri% — O que está acontecendo? Por que me olham assim?
— Você está grávida. — respondeu ele.
— Tire esse coração de dentro dela. — disse Allison se virando para a porta.
— Não. — eu gritei colocando a mão na minha barriga, meus olhos que nunca nestes anos viram lágrimas, começaram a lacrimejar — Não, %Dimitri%, por favor.
— Allison. — disse ele — Precisamos conversar.
%Dimitri% saiu acompanhado por ela. Contive minhas lágrimas e me mantive calma, se estava mesmo grávida de %Cedric%, não deixaria que Allison fizesse algum mal ao meu bebê, nem que para isso eu tivesse que fugir. Entrei no closet e pegando uma mochila comecei a enfiar algumas peças de roupa dentro. A cada pensamento sobre como eu fugiria daquele lugar uma lágrima a mais saía dos meus olhos.
— Onde pretende chegar com essa mochila? — perguntou %Dimitri% ao aparecer encostado na porta de braços cruzados.
— Vou proteger esse coração, custe o que custar. — ajeitei a mochila no ombro e passei por ele, senti sua mão segurar em meu braço — Sempre admirei a coragem de uma mãe ao salvar um filho, mas vendo você agora protegendo apenas um coração batendo, estou ainda mais fascinado.
— %Dimitri%, por favor. — eu o olhei já em lágrimas.
— Se quer mesmo protegê-lo, não será com lágrimas, menos ainda atitudes tolas. — ele me olhou com frieza — Guarde suas roupas no armário, não precisará ir para que o coração em sua barriga continue a bater, apenas mantenha seu foco em ser a milady daqui nove meses.
— Com a condição de se manter forte e inabalável, mesmo neste estado, não deixará os estudos.
— Estou grávida, %Dimitri%. — questionei.
— Sim, e não significa que está morta, não é uma doença e seu corpo continua saudável. — ele se virou para a porta — Suas aulas voltam a partir de amanhã.
Eu já imaginava que Allison não deixaria barato. Respirei fundo e deixei minha mochila na porta do closet, tinha que manter meu ritmo de aprendizado, mas isso era realmente uma estratégia para que eu abortasse. Segurei minhas lágrimas durante toda a noite, uma coisa %Dimitri% tinha razão, eu não iria proteger aquele coração com lágrimas e sim com minha força.
O tempo passou rápido após voltarmos para Manhattan. Pensei que aqueles nove meses demorariam a passar e a cada mês que via minha barriga crescendo me sentia ainda mais feliz. Era um momento de uma vida normal que estava tendo.
— De algumas semanas para cá estou me sentindo mais pesada. — comentei me sentando no sofá.
— Existe um ser crescendo dentro de você. — ele riu.
— Passou rápido o tempo, hoje se completa oito meses, mais quatro semanas ele nasce. — eu passei a mão na minha barriga de leve — Será um lindo menino.
— %Dimitri%, o que vai acontecer assim que ele nascer? — eu o olhei — Não vou poder ficar com ele, não é?
— Não posso responder, mas só se preocupe com o hoje, amanhã resolveremos. — odiava aquelas suas respostas enigmáticas.
Eu comecei a me sentir estranha e desconfortável. Olhei para o sofá que estava molhado, comecei a negar o que parecia estar acontecendo, minha bolsa tinha estourado e as contrações estavam chegando fortes e precisas. Antes mesmo do meu primeiro grito de dor %Dimitri% já havia me pegado no colo, não podíamos sair da mansão por ordem de Allison, então os médicos foram até lá. Após horas em trabalho de parto, muita dor e lágrimas, eu vi de relance o meu filho nos braços de uma enfermeira, eu ouvi o médico dizendo que ele não estava respirando direito. Comecei a me desesperar, %Dimitri% estava ao meu lado preocupado com o tanto de sangue que eu estava perdendo, perdi minha consciência antes que pudesse ouvir o choro do meu filho.
— %Annia%. — ouvi uma voz ao longe — %Annia%.
— Hum. — abri meus olhos sentindo um certo desconforto com a claridade — Meus olhos.
— Vou fechar as cortinas. — disse a voz, demorei um pouco para reconhecer que era de %Dimitri%.
— O que aconteceu? — sussurrei, minhas vistas estavam meio embaçadas ainda.
— Está conseguindo me ver com clareza? — perguntou ele.
— Aos poucos, sim. — olhei para sua direção, notei que meu coração ficou um pouco acelerado de ansiedade talvez — %Dimitri%, preciso te perguntar uma coisa.
— Onde está meu bebê? — desviei meu olhar da taça para ele, suas expressões eram rígidas e frias.
— Não sobreviveu, seu parto foi complicado, você perdeu muito sangue e… Lamento.
Naquele momento, meu coração quase parou de vez. Engoli seco, sentindo uma ponta de amargura dentro de mim. Por mais que meu corpo latejava de dor física, e meus sentimentos à flor da pele, nem mesmo uma lágrima saiu dos meus olhos. Acho que era assim que minha mãe esperava que reagisse a notícias como a que tinha recebido. Não havia mais nenhuma parte dentro de mim que quisesse manter meu lado sensível e puro, a partir daquele momento eu seria a pessoa que Allison e %Dimitri% tanto treinaram, seria a milady de Manhattan.
“Os olhos ficam mais nítidos,
A tensão se sente como se ele pudesse cortar alguém.”
- Growl / EXO