10 • Lembranças do Natal
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- %Cedric%
— O que está acontecendo com ela? — eu estava desesperado.
Segurando %Annia% em meus braços, agonizando enquanto sangue saía de sua boca involuntariamente, não sabia o quanto ela estava sofrendo, mas conseguia sentir um pouco através das lágrimas que escorriam de seus olhos fechados.
— Davis — sussurrou %Dimitri% indo até a mesa e pegando a garrafa.
— O que ele fez? — perguntei. — O que ele deu a ela?
— %Annia% pensou que era um presente seu. — ele cheirou o líquido. — Deve ser algum tipo de veneno, precisamos levá-la para o Laboratório Interno urgente.
Ele pegou as chaves do carro e me olhou.
— O que isso significa? — senti um nó na garganta e a olhei com carinho e arrependimento, talvez se tivesse ao seu lado isso não teria acontecido. — Ela vai morrer?
— Talvez — a voz de %Dimitri% estava seca e amarga. — Não sabemos o que ele deu a ela, mas vou levar a garrafa junto para análise.
— Então ela não vai morrer — eu o olhei com esperança e levantei meu corpo com ela em meu colo. — Vamos.
O corpo de %Annia% se moveu involuntariamente pela última vez. Num suspiro que parecia ser de socorro, ela perdeu a consciência. No canto, senti meu corpo transbordar de raiva, o olhar inocente que tanto queria ver foi com ela naquele estado. Ele dirigiu o mais rápido que podia enquanto falava ao telefone com alguém do laboratório. Ao chegarmos, %Dimitri% virou para trás e me olhou sério.
— Leve ela para a dra. Irina Baker, agora, estão esperando. — disse.
— Você não vem? — perguntei.
— Vou atrás de quem fez isso, cuide dela. — respondeu com fúria na voz.
Sabia que %Dimitri% faria o possível para reverter aquela situação e trazer nossa %Annia% de volta. Peguei ela no colo novamente e segui até as pessoas que nos aguardavam. Irina Baker era prima de Allison e uma das mais brilhantes cientistas de sua geração, eu sabia que com a equipe médica que tinham ali, poderia ajudar minha %Annia%. Entreguei a garrafa de vinho para um dos funcionários e segui com eles para dentro da instalação.
Ao esperar na área de convivência qualquer notícia que seja, as palavras de %Dimitri% invadiram a minha mente. Eu era o ponto fraco de %Annia% e por minha causa ela estava naquele estado. Se não tivesse achado que o vinho envenenado era um presente meu, ela não teria tomado. Desejava naquele momento salvar ela assim como a salvei quando era uma garotinha.
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Lembranças do Natal Passado…
Los Angeles, Inverno de 2013
Sete anos se passaram desde a última vez que a vi, sempre tinha pesadelos com aquele dia, ver %Annia% sendo levada por aquela mulher misteriosa. Seu olhar triste e amedrontado, seus gritos por socorro, quando me lembro de não poder ter feito algo para mudar sinto como se estivesse em uma guilhotina. As lágrimas em seus olhos eram minha última imagem dela.
Durante todo aquele tempo não havia perdoado meu pai. Minha ideia de fugir definitivamente tinha se desfeito por um pedido da minha tia, ela me acompanhou escondido do meu pai até o orfanato para visitar %Annia% depois de muito insistir. Mas a única coisa que nos disseram, é que ela já tinha sido adotada. Minha única esperança de vê-la tinha ido embora completamente com a sua aparente adoção. Saí de casa assim que fiz dezoito anos, e não olhei para trás, minha relação com meu pai não melhorou e minha tia precisou ir para o interior devido ao tratamento de uma doença.
Precisei de muito conselho de Jenie para não me arriscar demais, então resolvi seguir para Los Angeles, onde tinha familiares. Minha amiga Fletcher sempre foi sensata, porém, assim como eu era sempre oprimida por sua mãe adotiva. E agora, depois do ensino médio e se recusar a cursar em uma universidade desconhecida, estava de malas prontas para NY University. Não era de todo uma má ideia se mudar para a movimentada NY, e talvez faria isso também no futuro. Quanto mais longe do meu pai, melhor.
— %Cedric%! — gritou uma voz vindo atrás de mim. — %Cedric%!?
— O quê? — me virei era o dono da oficina onde trabalhava.
— Está tudo bem? — notei que está mais aéreo hoje.
— Estou. — coloquei a chave de grifo na bancada e me aproximei da moto. — O carro do senhor Johnson está pronto, se não se importa vou embora mais cedo hoje.
— Vá em paz, meu jovem, é véspera de Natal, nem deveria ter vindo trabalhar hoje, e tente se manter saudável, notei que ultimamente não tem parado nem para o almoço, muito trabalho também faz mal. — advertiu ele.
O senhor Phil era um homem muito bom, e por ser amigo de um tio-avô distante, ele me deu o emprego em sua oficina e ainda conseguiu um loft para que morasse. Apesar de sua preocupação com minha saúde, meu propósito de ganhar dinheiro para sair de Cliron era mais importante.
— Obrigado pelo conselho, mas estou bem. — assegurei a ele. — Feliz natal para o senhor.
— Feliz natal, garoto. — respondeu ele com um sorriso gentil.
Natal, há muitos anos que essa data já não fazia sentido para mim.
Coloquei minha jaqueta e montei na moto, dei a partida e segui meu caminho. Me perdi em meus pensamentos enquanto seguia pela rodovia secundária, parei no semáforo e fiquei esperando. Mantive meu olhar no sinal até que o desviei por alguns instantes, uma pessoa que estava entrando em um carro me chamou a atenção, por um minuto achei que fosse ela, seus cabelos longos sendo bagunçados pelo vento. Meu corpo arrepiou involuntariamente.
No olhos de qualquer pessoa, ela era apenas uma linda garota tendo sua beleza contemplada pelo pôr do sol ao entrar em um carro. Entretanto, nos meus olhos, eu insistia que era %Annia%, mesmo mais velha, sua face era suave como a dela. O sinal abriu e tinha a escolha de seguir, mas virei a esquina e segui o carro que a garota tinha entrado, alguns quarteirões depois ele parou em uma rua escura e entrou no que parecia uma garagem subterrânea.
Estacionei minha moto do outro lado da rua e fiquei olhando por alguns minutos, então desci e caminhei até a rua. Não tinha nada de diferente ou estranho, mas conseguia sentir um clima pesado e obscuro vindo de uma porta que estava ao fundo. Caminhei lentamente e bati na porta. Um homem alto e magrelo abriu a porta, seus olhos era negros e intimidadores, passei por ele em silêncio adentrando o lugar. Parecia um pub americano com traços de cabaré francês, porém não tão iluminado como a maioria tende a ser. Aquele lugar dava uma sensação de escuridão e frieza mesmo movimentado. Não me lembrava ter um lugar assim em Los Angeles, mas a cidade sendo muito grande, com certeza poderia ter sim.
Havia mulheres dançando em um palco como uma apresentação, várias pessoas espalhadas por todo o lugar com taças de vinho na mão, a música sendo misturada nas conversas de todos. Me aproximei do bar e sentei em uma das cadeiras, fiquei por alguns instantes olhando todo o movimento ao meu redor até que uma mulher se sentou ao meu lado.
— Está sozinho? — perguntou ela.
— Por que o interesse? — eu a olhei, era uma bela moça em um belo vestido vermelho, um decote que chamava a atenção de qualquer homem.
— Pelo seu olhar. — ela depositou sua mão direita na minha perna — Você me parece perdido, se quiser, posso lhe fazer companhia.
— Não acho que seja a companhia certa para mim. — eu olhei para a mão dela — Mesmo sendo tão atraente.
— Me dê uma chance e eu te faço esquecer ela. — ela arqueou a sobrancelha direita dando um sorriso presunçoso.
— Por que acha que tem outra mulher envolvida? — perguntei curioso.
— Quando me recusam assim, é porque a mente já está ocupada, ou o coração. — explicou ela, se insinuando mais.
— Você está certa, porém, não conseguirá me fazer esquecê-la. — eu me levantei me virando para sair.
— Espera. — ela pegou em meu braço me virando — Você não entendeu, não vai sair daqui tão fácil.
— Do que está falando? — eu a olhei confuso pelas suas palavras.
— Nenhum homem nega a mim. — ela deu um sorriso de canto.
Logo senti a movimentação de dois homens próximos. Quem era aquela mulher? Ambos os homens fortes e brutos me seguraram pelos braços me arrastando para os fundos do lugar. Tentei me soltar, me debatendo sem sucesso. Descemos alguns degraus de escada até o porão, e eles me soltaram no chão. Um deles chutou meu estômago. Ouvi alguns risos da mulher, parecia se deliciar com a cena. Fechei os olhos sentindo dor, e quando os abri, a mulher de vermelho estava imóvel, com a lâmina de uma katana encostada em seu pescoço. Consegui notar seu desespero.
Senti um frio passando por mim, quando a mulher do carro me olhou séria e inexpressiva. Ficamos nos olhando por um tempo, até que ela ergueu a espada para atacar a mulher de vermelho.
— Você... — perguntei em um sussurro.
Foi tudo o que consegui dizer naqueles poucos segundos, até que senti o impacto de algo em minha nuca. Instantaneamente meu corpo desabou e perdi a consciência. Aos poucos comecei a ouvir barulhos estranhos parecendo trovões, lentamente o movimento do meu corpo começou a voltar e abri meus olhos. Os barulhos que ouvia tinham uma explicação, olhei para a janela e vi que estava chovendo naquela noite, não me lembrava de como tinha voltado para casa e me deitado, só me lembrava daquela garota com a espada.
— Não foi um pesadelo, se é isso que está pensando. — disse uma voz feminina vindo da porta — Eu sou real.
— Você... — eu a olhei, me levantei erguendo meu corpo, era ela — %Annia%.
— Então me reconhece. — ela sorriu de leve, seu sorriso continuava o mesmo, mas sua voz parecia mais firme e maliciosa.
— Como chegou aqui? Como me encontrou? — eu tentava analisar cada expressão do seu rosto, mas ela se mantinha tão inexpressiva com a face suave — Onde esteve todos esses anos?
— Muitas perguntas de uma só vez. — ela deu alguns passos em minha direção, porém parou no meu do quarto e lançou seu olhar para janela — Se lembra da primeira vez que nos vimos? Estava chovendo como hoje.
— Sim, estava. — concordei me levantando da cama — Você sempre ficou assustada com a chuva, mas te vendo agora.
— As pessoas crescem. — ela desviou seu olhar para mim — Como passou todo esse tempo?
— Sentindo sua falta, preocupado com você. — caminhei até ela e peguei em sua mão — Você é mesmo real?
— O que você acha? — respondeu ela suavizando mais ainda sua face e seu meigo olhar, aquela pequena garotinha ainda estava ali na minha frente.
— Ainda estou sonhando? — eu toquei de leve em sua face acariciando-a — Ou você está mesmo aqui?
— Sendo sonho ou não, vamos aproveitar esta noite. — ela sorriu com malícia — A propósito,
feliz natal.
Ela me beijou de surpresa, me paralisei por um momento até que meus braços se envolveram na cintura dela automaticamente. Seu beijo era doce e intenso ao mesmo tempo. Quanto mais ela se entregava, mais eu retribuía na mesma intensidade. Mesmo com a chuva do lado de fora e todo aquele frio da noite, nosso amor manteve meu quarto aquecido e em chamas. Se aquilo era realmente um sonho eu iria fazer o possível para não acordar e tê-la em meus braços por muito tempo. Havia sonhado com aquele momento por muitos anos e estava vivendo ele, sendo real ou fantasia da minha mente, nossos corpos estavam conectados naquela noite.
“Você não pode escapar de mim
Porque você é meu destino.”
- Destiny / INFINITE