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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Cláusula de Liberdade

Escrita porNyx
Editada por Lelen

PRÓLOGO

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

  %Helena% %Albuquerque% e %Theo% %Montenegro% nunca souberam apontar o momento exato em que se conheceram.
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  Não havia um marco, nenhuma memória inaugural e nenhuma fotografia mental que dissesse: foi aqui.
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  Porque nunca existiu um “primeiro dia”.
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  As mães contam — sempre com o mesmo tom teatral — que foi numa sala de maternidade branca demais, iluminada por lâmpadas frias que deixavam tudo clínico e exageradamente nítido. Dois homens de terno, ainda jovens demais para a responsabilidade que carregavam nos braços, comemoravam o nascimento dos filhos como se estivessem fechando o contrato mais importante da vida.
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  Melhores amigos desde a faculdade, sócios e ambiciosos. E absolutamente convencidos de que tudo — inclusive o destino dos filhos — podia ser planejado.
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  Dizem que brindaram com café ruim de hospital e riram da própria ousadia.
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  — Olha aí o futuro casal.
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  A piada atravessou aniversários, festas de fim de ano, churrascos de domingo e fotografias emolduradas nas salas das duas famílias. Cresceram ouvindo aquilo como quem escuta uma música de fundo constante demais para ser questionada.
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  Mas na infância, eles eram apenas isso: duas crianças que dividiam o mesmo quintal. Brincaram de esconde-esconde entre as árvores do jardim. Inventaram campeonatos imaginários com bolas murchas. Dividiram lanche em festas de escola quando um esquecia o próprio. Fizeram trabalhos em dupla porque era automático, ninguém precisava sugerir.
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  Aprenderam a andar de bicicleta na mesma tarde. %Theo% corria atrás, segurando o banco enquanto %Helena% pedalava com o queixo erguido, determinada demais para alguém de sete anos. Quando ela finalmente conseguiu se equilibrar sozinha, foi ele quem comemorou mais alto.
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  E quando alguém zombava dele nas aulas de matemática, era %Helena% quem cruzava os braços e encarava o ofensor como se estivesse prestes a iniciar um julgamento formal.
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  Eles nunca precisaram se esforçar para serem próximos. A amizade veio antes dos rótulos, antes das expectativas adultas, e de entenderem por que os pais trocavam olhares satisfeitos quando os dois sentavam lado a lado.
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  Era simples. Natural. Seguro.
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  E talvez tenha sido justamente por isso que, naquela noite, tudo pareceu tão silenciosamente significativo.
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  Eles eram apenas dois adolescentes tentando sobreviver a mais uma festa entediante organizada pelos pais.
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  O salão estava iluminado por luzes amareladas demais, refletindo no mármore impecável da casa dos %Montenegro%. Risadas altas ecoavam pelo espaço, acompanhadas de conversas sobre investimentos, fusões, oportunidades de mercado, como se aquilo fosse, de fato, emocionante.
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  O ar estava pesado com perfume caro, vinho encorpado e o cheiro doce demais de sobremesas que nenhum dos dois queria provar.
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  %Helena% odiava aquelas festas.
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  %Theo% também.
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  Era por isso que escapavam.
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  Sempre.
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  Naquela noite, estavam sentados no degrau frio da escada de mármore, afastados da música ambiente e das conversas infladas. O corrimão de ferro trabalhado refletia a luz do salão lá embaixo. Ela girava o copo de refrigerante entre os dedos, observando as bolhas subirem e estourarem como se aquilo fosse mais interessante que qualquer adulto presente. Ele chutava o ar distraidamente, as costas apoiadas na parede, tentando parecer indiferente.
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  — Você acha que algum dia isso fica divertido? — ela perguntou, o olhar preso no salão cheio.
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  %Theo% inclinou a cabeça, analisando os adultos como se estivesse estudando uma espécie exótica.
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  — Ficar adulto? — fez uma careta sincera. — Espero que não.
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  Ela riu.
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  Era fácil rir com ele. Sempre foi.
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  O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era compartilhado. Eles observavam o mundo como dois cúmplices silenciosos.
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  Foi então que %Helena% notou um casal de adolescentes mais velhos perto do jardim, quase escondidos pela sombra das árvores. Estavam próximos demais. O tipo de proximidade que não parecia inocente. Ela inclinou a cabeça, curiosa.
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  — Você já beijou alguém? — %Theo% quase se engasgou com o próprio ar.
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  — O quê? Não! — respondeu rápido demais, denunciando o nervosismo.
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  %Helena% arqueou a sobrancelha, satisfeita com o efeito que causara.
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  — Eu também não.
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  O assunto poderia ter morrido ali.
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  Deveria ter morrido ali.
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  Mas aos treze anos, tudo parecia definitivo demais para ser ignorado.
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  — Deve ser estranho, né? — ela comentou, fingindo desinteresse enquanto arrastava a ponta do tênis no degrau. — Beijar alguém. Ele ficou sério, como se estivesse avaliando uma hipótese científica.
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  — Acho que sim. — Uma pausa. — Mas também deve ser legal.
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  Ela encarou os próprios pés. Ele voltou a olhar para o jardim. O mundo, de repente, parecia menor. Mais silencioso.
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  — A gente vai ter que beijar alguém uma hora — %Helena% disse, com o mesmo tom prático que usaria para falar sobre uma prova difícil.
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  — É.
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  O ar ficou mais denso. Ela levantou os olhos primeiro.
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  — E se fosse menos estranho se fosse com alguém que você já conhece?
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  %Theo% piscou, demorou apenas um segundo. Ele entendeu.
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  E, pela primeira vez na vida, sentiu um tipo diferente de nervosismo ao lado dela. Não era o desconforto infantil de errar uma piada. Nem a vergonha passageira de tropeçar na frente da turma.
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  Era outro tipo.
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  Um que aquecia a pele.
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  — Você tá sugerindo…? — ele começou, a voz ligeiramente mais baixa.
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  — Eu só tô dizendo que seria mais fácil — ela rebateu, cruzando os braços como se estivesse argumentando num tribunal invisível.
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  Ele riu, mas o riso saiu trêmulo.
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  Lá embaixo, os adultos continuavam rindo alto, brindando contratos e falando de futuro. Ali, no meio da escada, o mundo era pequeno demais para conter o que estava prestes a acontecer.
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  %Theo% deu um passo à frente.
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  Devagar.
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  — Só pra ver como é — ele disse.
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  — Só pra testar — ela confirmou.
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  Eles se aproximaram com a hesitação típica de quem finge maturidade. O primeiro toque foi desajeitado. Narizes quase se chocaram. Eles erraram o ângulo.
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  Riram.
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  O riso quebrou a tensão, mas não a curiosidade.
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  Tentaram de novo.
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  E dessa vez funcionou.
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  Não houve trilha sonora, nenhum fogo de artifício interno, nenhuma revelação cinematográfica, mas houve algo que os dois reconheceram, mesmo sem saber nomear.
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  Conforto.
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  O beijo durou poucos segundos. Tempo suficiente para atravessar uma fronteira invisível. Tempo suficiente para alterar um equilíbrio que existia desde sempre.
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  Quando se afastaram, ficaram se encarando como se tivessem acabado de descobrir um segredo que o mundo ainda desconhecia.
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  — Não foi tão estranho — ela murmurou.
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  — Não foi — ele concordou, sentindo o coração bater rápido demais para algo que deveria ser apenas um teste.
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  Lá embaixo, alguém chamou seus nomes.
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  Eles se levantaram juntos.
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  Desceram as escadas lado a lado como se nada tivesse mudado.
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  Mas tinha.
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  Naquela noite, sem promessas, sem testemunhas e sem a consciência de que estavam cruzando uma linha invisível traçada anos antes pelos pais, %Helena% %Albuquerque% e %Theo% %Montenegro% deram o primeiro beijo da vida um no outro.
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  E, sem perceber, iniciaram uma história que parecia inevitável demais para ser questionada.
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