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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Cláusula de Liberdade

Escrita porNyx
Editada por Lelen

CAPÍTULO 1 • A ROTINA QUE ENGOLIA

Tempo estimado de leitura: 37 minutos

  Por %Theo% %Montenegro%

  O despertador tocou às 6h30 em ponto.
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  Não era um som agressivo. Nunca foi. %Helena% escolheu um alarme instrumental suave quando começamos a morar juntos, argumentando que começar o dia no susto alterava o humor e bagunçava o raciocínio. Ela tinha lido isso em algum lugar, provavelmente salvou o link numa pasta organizada por tema.
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  Eu nunca questionei.
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  Quase nada nela precisava ser questionado.
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  Quando abri os olhos, o quarto já estava aceso pelo abajur e pela claridade tímida da manhã entrando pelas frestas da cortina. %Helena% estava sentada na cama, coluna ereta, pernas dobradas sob o edredom, o Vade Mecum aberto sobre as coxas.
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  Ela sublinhava um trecho com aquela concentração que sempre me impressionava, testa levemente franzida, o lábio inferior preso entre os dentes, como se estivesse disputando uma partida silenciosa contra o próprio conteúdo.
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  Ela acordava pronta.
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  Eu acordava tentando acompanhar.
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  — Penal de novo? — murmurei, a voz ainda pesada de sono.
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  Ela não respondeu de imediato. Terminou o parágrafo, releu a última linha, colocou o marcador com cuidado quase cerimonial. Só então virou o rosto para mim.
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  — Concurso de crimes. Se eu errar isso na prova, eu surto.
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  Dei um meio sorriso, %Helena% nunca surtava, ela reorganizava.
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  Levantei devagar, sentindo o chão frio sob os pés, e calcei o chinelo antes de seguir para a cozinha. O apartamento ainda estava silencioso, aquele silêncio breve antes do dia oficialmente começar. A cidade lá fora despertava num ritmo próprio, distante.
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  Coloquei o pó no filtro quase no automático. Duas xícaras. Uma com açúcar, outra sem. Sempre assim.
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  O cheiro do café começou a se espalhar pelo ambiente antes mesmo que meus pensamentos se organizassem direito. Era um cheiro constante na nossa rotina. Familiar. Seguro.
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  Quando voltei para o quarto com as canecas, ela já estava de pé, andando de um lado para o outro, as pastas espalhadas sobre a cama como peças de um quebra-cabeça que só ela sabia montar.
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  — Meu Deus, tá tarde? — perguntou, sem respirar direito, enquanto desbloqueava o celular.
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  — São seis e cinquenta e cinco.
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  Ela arregalou os olhos como se eu tivesse anunciado uma catástrofe.
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  Em segundos, começou a organizar tudo. Pastas empilhadas por cor. Canetas alinhadas dentro do estojo. O Vade Mecum fechado com cuidado e encaixado na bolsa como se fosse um objeto sagrado.
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  %Helena% tinha essa urgência silenciosa quando sentia que o tempo escapava. Como se perder cinco minutos fosse o primeiro passo para perder o controle do mundo. Entreguei a xícara.
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  — Obrigada — disse, já distraída, passando o dedo pela agenda digital.
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  O beijo aconteceu no meio do caminho. Ela passou por mim, parou por um segundo, segurou meu rosto com naturalidade e encostou os lábios nos meus. Rápido. Quente. Familiar.
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  Era o tipo de beijo que não perguntava nada. Não prometia nada. Só confirmava.
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  — Bom dia — ela disse, já se afastando.
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  — Bom dia.
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  Automático.
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  Ela tomou um gole do café e fez uma pequena careta.
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  — Você colocou pouco açúcar.
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  Peguei a xícara da mão dela sem reclamar. Mexi mais uma colher, observando o líquido girar. Entreguei de volta.
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  — Agora tá certo.
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  Ela sorriu daquele jeito pequeno, satisfeito. Um sorriso de aprovação. E, naquele instante, pensei o quanto eu gostava de acertar coisas simples.
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  A gente funcionava. Não havia atrasos dramáticos, discussões por toalha molhada na cama, não havia silêncios pesados na mesa do café.
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  Ela revisava Direito Penal, eu preparava café. Ela organizava as pastas, eu conferia o horário das minhas aulas de cirurgia. Era como se a rotina tivesse sido ensaiada.
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  Perfeito demais.
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  Enquanto ela terminava de se arrumar no banheiro, eu encostei no balcão da cozinha e deixei o olhar percorrer o apartamento ainda envolto pela luz pálida da manhã.
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  O sofá onde assistimos a série na noite anterior. O controle remoto perfeitamente alinhado sobre a mesa. O casaco dela dobrado na cadeira — dobrado demais para alguém que tinha chegado cansada. Meus livros de anatomia empilhados em ordem crescente de tamanho.
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  Nada fora do lugar.
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  A cafeteira ainda soltava um fio fino de vapor, quase invisível.
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  %Helena% passou por mim apressada, prendendo o cabelo de novo num coque que já estava perfeito, mas que ela insistia em ajustar. Conferiu o horário no celular. Pegou a bolsa. Ajustou a alça no ombro.
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  Voltou dois passos, pegou a chave que tinha esquecido sobre o aparador. Eu já sabia que ela esqueceria, ela já sabia que eu teria deixado ali. Era assim, pequenos gestos que se repetiam até virarem previsíveis, conforto. Até virarem… inevitáveis. Sem grandes surpresas ou falhas.
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  Quando finalmente se aproximou da porta, me lançou um último olhar rápido — aquele olhar que era quase um check-list emocional.
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  — A gente se vê mais tarde? — Não era uma pergunta sobre o horário. Era sobre constância.
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  — Sempre — respondi.
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  E era verdade.
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  A porta se fechou com o mesmo som de todos os dias. Um clique seco. Definitivo. Rotineiro.
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  Fiquei alguns segundos parado no meio da cozinha, segurando a xícara ainda quente entre as mãos. O calor subia pela palma, mas eu quase não sentia.
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  O apartamento parecia maior quando ela saía, mais silencioso, organizado. A gente funcionava e, naquela manhã, isso parecia suficiente. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu me perguntei se funcionar era a mesma coisa que viver.
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⭐⭐⭐

  O cheiro de antisséptico já não me incomodava mais.
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  No primeiro semestre, eu quase passei mal na primeira aula de laboratório. A mistura de álcool, plástico estéril e algo metálico que parecia grudar na garganta me fez questionar, por alguns minutos constrangedores, se eu realmente tinha escolhido o curso certo.
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  No terceiro ano, o cheiro fazia parte da rotina como o café da manhã.
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  Era automático. Familiar. Necessário.
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  O laboratório exigia concentração absoluta. Luz branca demais refletindo no aço inoxidável, bandejas organizadas milimetricamente, instrumentos alinhados como se também estivessem prestando atenção. O som das instruções ecoava nas paredes frias, sem espaço para distração.
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  O professor Almeida tinha mãos firmes como bisturi. Não elevava a voz. Não precisava. Falava enquanto demonstrava, como se cada gesto fosse parte de uma coreografia meticulosamente ensaiada.
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  — Observem a incisão. Cirurgia não é força. É controle.
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  Eu observava atento, cada movimento calculado, pressão medida e respiração coordenada com o corte. Havia algo profundamente fascinante na maneira como o corpo humano respondia ao toque certo, no lugar certo. Medicina era isso: precisão, decisão, consequência.
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  Não havia espaço para dúvida em uma mesa cirúrgica, ou você cortava, ou não cortava.Ou você decidia, ou alguém decidia por você.
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  O professor terminou a explicação, retirou as luvas com um movimento limpo e consultou o relógio.
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  — Dez minutos de intervalo. Não desapareçam.
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  O grupo se dispersou quase imediatamente. O barulho contido explodiu em conversas paralelas, risadas nervosas e o som de mochilas sendo abertas. Alguns foram direto para o café no corredor, outros se jogaram nas cadeiras como se tivessem acabado de sair de uma maratona.
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  O cheiro de álcool ainda pairava no ar. Encostei na bancada fria e peguei o celular. Nenhuma mensagem nova. Não que eu estivesse esperando alguma, mas olhei mesmo assim.
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  — %Montenegro% — Isadora surgiu ao meu lado, puxando a máscara para baixo e prendendo o cabelo num coque improvisado com elástico frouxo. — Você vai naquela festa sexta?
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  — Qual delas? — perguntei, sem tirar os olhos da tela. Ela riu.
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  — A do pessoal do quinto ano. Vai estar todo mundo lá. Inclusive o Pedro… e a ex dele. Aquilo vai render entretenimento ao vivo.
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  — Eu passo.
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  — Você sempre passa. — Ela pegou a garrafa d’água da mochila e deu um gole demorado antes de me encarar.
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  — Sério, como você consegue sobreviver à faculdade de medicina sem um surto alcoólico coletivo de vez em quando?
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  — Eu tenho outros métodos. — Ela arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo.
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  — Ah, é? Tipo qual? Dormir às dez com a namoradinha? — Revirei os olhos.
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  — Não começa.
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  — Eu não tô zoando — disse, inclinando levemente a cabeça. — Eu acho curioso mesmo. Todo mundo aqui já teve pelo menos um caos amoroso. Você não. Você já chegou pronto.
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  — Pronto? — repeti, sentindo a palavra pesar mais do que deveria.
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  — Namorada fixa. História de infância. Final de filme da Sessão da Tarde. — Ela fez um gesto dramático com a mão. — Desde quando você tá com ela?
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  — Desde os quinze. — Isadora ficou em silêncio por um segundo.
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  — Você tá brincando.
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  — Não. — Ela piscou duas vezes, processando a informação.
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  — Então você nunca… — fez um gesto vago no ar — explorou o mercado? — Soltei uma risada curta.
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  — Não.
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  — Nunca teve vontade?
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  — Não.
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  Ela me encarou, buscando qualquer microexpressão de hesitação. Um desvio de olhar. Um atraso na resposta.
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  — Ela foi sua primeira em tudo?
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  — Foi.
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  Respondi com naturalidade.
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  Porque era natural.
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  %Helena% tinha sido minha primeira mão dada, meu primeiro beijo, minha primeira discussão séria, minha primeira reconciliação, meu primeiro “eu te amo” dito com medo e convicção ao mesmo tempo.
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  Isadora soltou um assobio baixo.
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  — Cara… eu já teria morrido se tivesse experimentado uma boca só na vida. Ou um pinto só.
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  Ela riu, completamente confortável com a própria falta de filtro.
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  Balancei a cabeça.
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  — Você é exagerada.
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  — Não é exagero. É viver. — Ela deu de ombros. — Eu gosto de saber que escolho. Gosto de descobrir o que eu gosto. Gosto de comparar.
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  Comparar.
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  A palavra ficou no ar como um instrumento cirúrgico não esterilizado.
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  — Você nunca teve curiosidade de saber como é com outra pessoa? Nem um pouquinho?
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  A pergunta veio leve, quase casual, mas ficou. Passei a mão na nuca e deixei o olhar escapar para o corredor movimentado. Gente passando, risadas, alguém discutindo diagnóstico diferencial como se fosse futebol.
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  %Helena%.
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  %Helena% revisando Penal às seis da manhã, reclamando do açúcar do café, me beijando antes de sair, como se fosse parte de um ritual invisível.
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  Eu nunca precisei escolher %Helena%, ela sempre esteve ali. A pergunta não era sobre desejo, era sobre possibilidade.
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  — Não — respondi, por fim. — Eu gosto do que eu tenho.
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  E eu gostava. Gostava da estabilidade, de saber o que esperar, da ausência de caos.
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  Isadora inclinou a cabeça, avaliando.
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  — Então você é muito seguro… ou muito acostumado.
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  A palavra veio suave.
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  Acostumado.
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  — Eu prefiro fiel — retruquei. Ela levantou as mãos em rendição.
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  — Tá bom, doutor tradição. Só espero que você não acorde com cinquenta anos se perguntando o que deixou de experimentar.
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  Antes que eu respondesse, o professor voltou para a sala. As conversas cessaram, as luvas voltaram às mãos. A lâmina brilhou sob a luz branca, impecável.
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  A aula recomeçou.
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  Eu voltei a observar a incisão sobre a pele sintética, a precisão do corte, a linha perfeita que dividia sem hesitação. Mas, pela primeira vez, minha mente não estava completamente ali. Não era desejo, não era insatisfação, era apenas uma pergunta pequena demais para ser alarmante.
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  E grande demais para ser ignorada.
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  E eu ainda não sabia o que fazer com ela.
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⭐⭐⭐

  O intervalo terminou e a aula seguiu até o meio-dia, com a mesma precisão cirúrgica da primeira hora. Quando finalmente saímos do laboratório, arrancando máscaras e soltando os ombros tensos, a luz do corredor pareceu mais quente do que a da sala cirúrgica.
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  Quase acolhedora.
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  O cheiro de antisséptico foi ficando para trás à medida que caminhávamos, substituído pelo aroma distante de café e papel recém-impresso.
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  — Café? — Isadora perguntou, já afrouxando o jaleco.
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  — Biblioteca primeiro — respondi. — Preciso pegar um livro que deixei reservado.
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  Ela fez uma careta teatral, como se eu tivesse acabado de recusar um pedido de casamento.
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  — Você é a definição ambulante de responsabilidade.
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  Talvez eu fosse.
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  Descemos as escadas juntos, o barulho dos passos ecoando nos degraus de granito. O prédio de Direito ficava ao lado do nosso, conectado por um corredor envidraçado que sempre me dava a sensação de atravessar uma fronteira invisível.
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  Era impossível passar por ali sem lembrar que %Helena% estava a poucos metros de distância quase todos os dias.
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  Às vezes a gente se encontrava no meio do caminho. Às vezes não. Mas a possibilidade sempre estava ali.
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  Quando entramos na biblioteca, o silêncio veio como um acordo implícito. O ar-condicionado soprava constante, páginas eram viradas com cuidado, passos eram absorvidos pelo carpete espesso.
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  Era um tipo diferente de concentração, menos clínica, mais intelectual. Isadora tocou meu braço de leve.
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  — Olha lá. — Segui o olhar dela.
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  %Helena% estava sentada em uma das mesas maiores, cercada por três colegas. O Vade Mecum aberto diante dela como um território dominado. Folhas espalhadas em ordem quase geométrica. Marca-textos alinhados ao lado da mão direita, tampas fechadas, cores organizadas.
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  Ela falava.
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  Não alto, mas com firmeza suficiente para que ninguém precisasse pedir que repetisse. Gesticulava pouco — %Helena% nunca foi exagerada — mas o bastante para sustentar o argumento. Um dos colegas tentou interromper; ela levantou a mão, pediu a palavra com educação quase protocolar e continuou.
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  Segura.
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  Brilhante.
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  Ela inclinou levemente o corpo para frente, citou um artigo específico, explicou uma divergência doutrinária com clareza didática e finalizou com um sorriso pequeno, quase satisfeito.
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  Não era arrogância.
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  Era domínio.
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  Os outros dois assentiram, visivelmente convencidos.
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  — Ela é boa — Isadora murmurou.
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  — Eu sei.
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  E eu sabia mesmo. Sentir orgulho dela era automático. Sempre foi. %Helena% nunca fez nada pela metade. Nem amizade, nem estudo ou amor.
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  — Vai lá — Isadora cutucou, divertida. — Interrompe o tribunal e dá um beijo nela.
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  Eu continuei observando por alguns segundos a mais.
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  %Helena% riu de algo que alguém disse. O riso dela ainda era o mesmo, leve, contido, com aquele brilho discreto no canto dos olhos que surgia quando estava genuinamente interessada em algo.
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  Eu conhecia aquele riso. Conhecia a inclinação do queixo quando ela defendia um ponto, o jeito como pressionava a ponta do marca-texto contra o papel quando queria enfatizar uma ideia… conhecia tudo.
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  E, ainda assim, hesitei.
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  Não porque não quisesse me aproximar, mas porque, de repente, parecia que eu estava olhando uma cena da qual não fazia exatamente parte. %Helena% estava ali inteira.
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  Imersa.
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  Autônoma.
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  Vivendo um momento que não precisava de mim para acontecer.
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  — Depois — respondi.
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  Isadora me lançou um olhar curioso, quase avaliativo, mas não insistiu. Fiquei ali mais um instante. %Helena% não me viu, ou talvez estivesse concentrada demais para notar qualquer coisa além da discussão.
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  Eu já a tinha visto assim centenas de vezes.
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  Sempre admirei essa versão dela. Sempre senti orgulho ao perceber que ela brilhava em qualquer ambiente que entrasse. E ainda assim, enquanto a observava do outro lado da biblioteca, um pensamento atravessou, rápido, incômodo, quase involuntário: a gente ainda se olhava do mesmo jeito?
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  Não era dúvida sobre ela.
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  Era sobre nós.
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  Sobre quando foi a última vez que eu a observei não como parte da minha rotina… mas como descoberta. Quando foi a última vez que algo nela me surpreendeu?
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  A pergunta não vinha carregada de acusação.
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  Vinha carregada de silêncio.
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  Isadora começou a caminhar em direção às estantes, já entediada com a própria função de espectadora.
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  — Vem, doutor tradição — sussurrou.
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  Eu fui atrás, mas, por alguns segundos, %Helena% continuou ali — debatendo, segura, brilhante — e eu tive a sensação estranha de estar assistindo algo que sempre esteve na minha vida.
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  Familiar demais.
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  Estável demais.
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  E, talvez por isso, silenciosamente distante do frio na barriga que um dia já existiu.
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  Quando voltei para casa naquela noite, %Helena% já estava na cozinha.
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  A porta fechou atrás de mim com o clique conhecido, e antes mesmo de vê-la, eu senti o cheiro de alho refogado se espalhando pelo apartamento. Quente. Confortável. Familiar.
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  Era o tipo de cheiro que dizia: você está em casa.
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  Ela usava uma das minhas camisetas antigas — aquela cinza da época do cursinho — como se fosse dela. Larga demais nos ombros, caindo até metade das coxas. As mangas dobradas até os cotovelos deixavam os braços à mostra, e o cabelo estava preso num coque improvisado, alguns fios escapando na nuca.
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  — Você demorou — comentou, sem tirar os olhos da panela.
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  Não era acusação, era constatação.
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  — A aula estendeu.
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  Deixei a mochila no sofá e segui direto para a pia do banheiro para lavar as mãos. Era automático. Eu entrava, ela mexia a comida, eu pegava os pratos. Nenhuma instrução precisava ser dada.
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  A rotina tinha aprendido por nós. Voltei para a cozinha, enxugando as mãos na calça.
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  — Como foi Penal? — perguntei, abrindo o armário.
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  — Exaustivo. O professor resolveu revisar tudo que já vimos desde o início do semestre.
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  Ela mexia a panela com movimentos circulares constantes, concentrados, como se estivesse conduzindo algo delicado.
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  — Clássico. — Ela riu pelo nariz, aquele som curto que fazia quando concordava sem entusiasmo.
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  — E você? Cortou alguém hoje?
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  — Só plástico. — Ela virou o rosto por um segundo e me lançou um olhar rápido, divertido.
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  — Que pena.
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  Eu ri.
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  A gente tinha essas pequenas piadas internas que não exigiam esforço.
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  Começamos a montar o jantar lado a lado. Ela mexia a panela; eu cortava o pão em fatias regulares demais. O som da faca contra a tábua preenchia o espaço entre nós.
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  Em determinado momento, ela pegou o sal, provou primeiro, sempre provava antes, ficava alguns segundos com a expressão neutra, avaliando, como se estivesse prestes a emitir um parecer técnico. Depois acrescentava uma pitada pequena, mexia, provava outra vez.
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  Eu sabia exatamente quanto ela colocaria antes mesmo que o fizesse.
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  — Tá bom? — perguntei.
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  — Tá.
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  Desligou o fogo, sentamos à mesa, a televisão ficou ligada ao fundo, mais como preenchimento do que como interesse real. Algum programa de notícias comentava algo irrelevante com urgência exagerada.
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  Conversamos sobre prazos, sobre a prova prática que eu teria na semana seguinte, sobre o estágio dela no fórum e a petição que estava revisando. Nada pesado, nada leve demais, era uma conversa eficiente.
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  Em algum momento, o assunto simplesmente terminou, não abruptamente ou com constrangimento. Só… acabou.
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  Ela pegou o celular primeiro. Respondeu alguma mensagem no grupo da faculdade. O brilho da tela iluminou o rosto dela por baixo. Eu fiz o mesmo. Os talheres bateram contra o prato, o som da TV murmurava ao fundo. A luz da cozinha era amarelada demais, criando sombras suaves nas paredes.
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  %Helena% prendeu o cabelo de novo, como sempre fazia depois de comer. Um gesto rápido. Elástico no pulso. Movimento preciso. Eu conhecia aquele gesto, o jeito que ela inclinava a cabeça quando lia algo no celular, a expressão que fazia quando discordava de uma mensagem — leve contração entre as sobrancelhas. Conhecia o silêncio dela quando estava pensando em algo sério.
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  Eu sabia cada detalhe.
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  Sabia como ela tomava café, como organizava as pastas por prioridade. Sabia que nunca dormia sem ajustar o despertador duas vezes, mesmo que tivesse certeza do horário.
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  Sabia.
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  E, sentado ali, observando-a mexer distraidamente na tela do telefone, senti algo pequeno se deslocar dentro de mim.
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  Não era incômodo.
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  Era… percepção.
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  Quando foi a última vez que eu descobri algo novo sobre ela?
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  Não sobre a rotina dela, sobre os prazos. Algo novo mesmo, inesperado.
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  %Helena% levantou os olhos de repente, talvez sentindo o peso do meu olhar.
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  — O que foi? — Balancei a cabeça.
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  — Nada.
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  E talvez não fosse mesmo.
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  Ou talvez fosse só mais uma dessas coisas pequenas demais para virar conversa.
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  Pequenas demais para justificar inquietação. Grandes o suficiente para não desaparecerem sozinhas.
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  Ela voltou para o celular. Eu terminei de mastigar em silêncio. A televisão continuou falando com a sala vazia.
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  A gente funcionava.
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  Depois do jantar, a rotina seguiu como sempre seguia. %Helena% foi primeiro para o banheiro. Eu ouvi o som da torneira abrindo, a escova batendo no copo, o gargarejo baixo que ela sempre fazia antes de cuspir a pasta.
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  Quando entrei, ela já estava enxugando o rosto.
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  — Você vai demorar? — perguntou, passando por mim.
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  — Não.
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  Escovei os dentes olhando meu próprio reflexo no espelho. Círculos sob os olhos, cansaço acumulado, nada fora do normal. Quando voltei para o quarto, ela já estava deitada de lado, luz do abajur apagada, só a claridade fraca da rua atravessando a cortina.
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  Deitei ao lado dela.
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  Por alguns segundos, só o som do ar-condicionado preenchia o espaço. Ela se mexeu levemente, ajeitando o travesseiro.
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  — Boa noite — murmurou.
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  — Boa noite.
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  Ela virou o rosto para o outro lado, como sempre fazia quando estava prestes a dormir. E eu fiquei olhando para o teto.
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  O dia tinha sido comum, sem brigas, surpresas, sem nada que justificasse inquietação. Ainda assim, alguma coisa dentro de mim estava desperta demais.
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  Estendi a mão e toquei o ombro dela. %Helena% virou o rosto de volta, sonolenta, mas sem estranhar. Eu a puxei para mais perto. O beijo começou lento.
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  Quente.
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  Familiar.
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  Ela suspirou contra minha boca, os dedos subindo pela minha nuca como já tinham feito tantas vezes antes. O corpo dela se encaixou no meu com a naturalidade de quem já conhecia cada espaço disponível.
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  Era bom.
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  Sempre era bom.
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  O beijo aprofundou. A respiração mudou. O ritmo também. Eu sabia exatamente como ela reagiria se eu deslizasse a mão pela cintura. Sabia onde tocar, quanto tempo levar e o que viria depois.
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  O quarto ficaria mais silencioso. As roupas seriam deixadas no mesmo lugar. O depois seria o mesmo de sempre.
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  E foi nesse momento que algo dentro de mim hesitou, não era falta de desejo. Eu a queria. Ali. Naquele instante.
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  Mas, enquanto minha boca ainda estava na dela, eu percebi que sabia o roteiro inteiro de cor. Cada passo. Cada pausa. Cada final.
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  %Helena% puxou meu lábio inferior entre os dentes, impaciente, querendo mais. Eu continuei. Porque era o que a gente fazia, mas, pela primeira vez, a previsibilidade não trouxe conforto.
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  Trouxe consciência.
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  E isso me assustou.
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  Não porque fosse errado, mas porque era exato demais. Como se a gente estivesse repetindo uma cena que sempre dava certo, e nunca mudava.
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  O corpo dela se movia comigo com a familiaridade de quem já sabia cada passo. Não havia hesitação, dúvida ou descoberta.
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  Era bom, intenso.
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  Era nosso.
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  E, quando tudo terminou, %Helena% pousou a testa no meu peito por alguns segundos, respirando devagar.
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  — Eu te amo — murmurou, quase sonolenta.
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  — Eu também.
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  Ela sempre adormecia rápido depois.
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  Não demorou mais que alguns minutos até que a respiração dela ficasse profunda e regular. Um braço ainda descansava sobre minha cintura, como se tivesse medo de que eu fosse embora durante a noite.
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  Eu fiquei acordado.
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  O teto parecia mais alto no escuro.
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  O silêncio mais pesado.
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  Observei %Helena% dormindo ao meu lado. O cabelo espalhado no travesseiro. A boca levemente entreaberta. A marca quase invisível do travesseiro na bochecha. Eu conhecia aquela versão dela melhor do que qualquer outra pessoa no mundo.
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  Conhecia o ritmo da respiração. O jeito que ela se mexia quando sonhava. A maneira como procurava meu corpo mesmo dormindo. Estendi a mão e afastei uma mecha do rosto dela.
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  Ela não acordou.
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  E foi ali, naquela quietude, que o pensamento veio mais claro do que antes. E se eu nunca souber como é escolher você?
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  Não como consequência, ou como continuidade, mas como decisão. E se eu só estiver aqui porque sempre estive?
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  A pergunta não tinha veneno. Não era sobre querer outra pessoa. Eu não queria outra pessoa. Eu queria certeza, mas ainda não sabia disso.
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  Fechei os olhos.
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  E, pela primeira vez em muito tempo, o sono demorou a vir.
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⭐⭐⭐

  A manhã chegou cedo demais.
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  Eu tinha dormido pouco. Não o suficiente para justificar o peso atrás dos olhos, mas o bastante para fingir normalidade. O tipo de cansaço que não aparece nas olheiras, mas na forma como o pensamento demorava meio segundo a mais para se organizar.
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  Fiquei alguns instantes sentado na beira da cama antes de levantar. O apartamento já estava desperto. O cheiro de café vinha da cozinha, igual ao dia anterior, igual a quase todos os dias. Quente. Constante. Seguro demais.
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  %Helena% já estava à mesa quando saí do quarto.
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  O Vade Mecum aberto ao lado da xícara. Os cabelos presos no mesmo coque prático de sempre. A caneta posicionada paralela à borda do livro. A agenda levemente deslocada à direita.
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  Tudo no lugar.
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  Tudo como deveria ser.
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  — Você acordou tarde — comentou, sem levantar os olhos.
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  Não era cobrança, era registro.
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  — Dormi mal. — Ela levantou o olhar dessa vez. Não com curiosidade, mas com leitura.
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  — Eu percebi.
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  Minha mão ainda estava na maçaneta da porta da cozinha. Não tinha avançado nem recuado. Fiquei ali, como se o ambiente tivesse mudado de temperatura.
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  — Percebeu o quê?
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  %Helena% fechou o livro devagar, mas não de forma dramática, e sim de forma consciente. Como quem decidia que a atenção precisa mudar de foco.
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  — Que você estava estranho ontem.
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  A palavra não veio carregada.
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  Veio precisa.
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  Fiquei em silêncio por um segundo longo demais.
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  — Estranho como? — Ela inclinou levemente a cabeça. Avaliando.
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  — Distante.
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  O sol entrava pela janela e iluminava metade do rosto dela, desenhando uma linha clara sobre a pele. O outro lado permanecia na sombra.
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  — Você ficou quieto depois… — ela completou. — E não era cansaço.
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  Tentei sorrir.
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  Um sorriso funcional.
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  — Eu tava cansado sim, só isso.
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  %Helena% sustentou meu olhar por alguns segundos a mais do que o habitual. Era sutil, mas eu conhecia o tempo exato que ela costumava levar antes de voltar ao que estava fazendo.
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  Ela ainda não tinha voltado.
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  %Helena% sempre entendia antes que eu explicasse.
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  — Ansiedade? — perguntou.
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  Não soou como um palpite, soou como diagnóstico.
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  Eu respirei fundo.
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  — Talvez.
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  Ela fez um som baixo de compreensão. Não julgou. Não pressionou imediatamente, mas também não abriu o livro de novo.
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  O silêncio entre nós não era comum naquele horário do dia. O sol continuava atravessando a janela. A cidade já estava acordada lá fora. Um carro buzinou ao longe.
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  Ela me observava.
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  Eu também observava.
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  A maneira como ela segurava a xícara com as duas mãos. O jeito que franzia levemente a testa quando algo não fazia sentido. O movimento automático de ajustar a alça da bolsa pendurada na cadeira, mesmo que não estivesse escorregando.
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  %Helena% não era do tipo que ignorava pequenas mudanças.Ela percebia microdeslocamentos.
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  Respirei fundo de novo.
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  O ar pareceu mais pesado do que deveria.
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  — %Theo% — ela chamou, mais baixo.
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  Levantei os olhos, não havia acusação na voz dela.
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  — O que está acontecendo?
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  Era só uma pergunta, mas não era pequena.
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  Eu senti a respiração prender no meio do peito. Não era uma briga. Não era uma crise explícita. Era só uma conversa. E, ainda assim, parecia maior do que qualquer discussão que já tivéssemos tido.
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  Porque não era sobre algo que aconteceu, era sobre algo que eu ainda nem sabia nomear direito.
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  — %Helena%…
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  Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
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  As mãos dela repousaram sobre a mesa e o corpo estava levemente inclinado para frente.
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  Esperando.
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  Disponível.
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  Confiante.
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  — A gente precisa conversar.
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  As palavras ficaram suspensas no ar por um segundo inteiro, não houve grito, dramatização, mas o silêncio que veio depois não era confortável.
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  %Helena% não desviou o olhar. E, pela primeira vez, eu tive a sensação clara de que ela já sabia. Não sabia o conteúdo, mas sabia a gravidade. Porque aquela frase nunca era sobre provas, estágio, cansaço… era sobre nós.
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  E, naquela manhã que tinha começado igual a todas as outras, alguma coisa tinha finalmente saído do lugar.
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CAPÍTULO 1
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