Capítulo único
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Outono de 2016
– Sorrento, Itália
Vê-la caminhar pelo longo corredor do colégio interno Mirai del Sorrento, fez o coração do recém-chegado %Stefan% Magnus acelerar. Aquela poderia ser considerada a caminhada mais elegante e atraente de %Bella% Castelatto na presença de todos os alunos pertencentes às famílias de elite italianas... A não ser por um detalhe sutil: a jovem de 16 anos estava sendo escoltada por dois policiais, um de cada lado e ainda algemada para que todos vissem.
Claro que o detetive Ortiz não deixaria essa afronta passar, já que sua família era rival antiga da família Castelatto. E mesmo que fosse proibido algemar um menor de idade, ele não ligava para esses detalhes técnicos de sua profissão. Entretanto, o sorriso singelo no canto do rosto e olhar superior de %Bella% o deixava mais raivoso ainda.
— CONFESSE! — Ortiz bateu sua mão direita na mesa da sala de interrogatório — Confesse que matou Juan Lorenzo.
— Estou admirada com sua falta de controle, detetive. — Ela ergueu os pulsos ainda algemados. — Tratar uma adolescente como eu assim? Será que a Millenium concorda com seus métodos?
— Não me importo com essa sua sociedade de merda, mudou de nome, mas continua a mesma Draconis de sempre. Agora confesse logo, Castelatto! — ele gritou mais uma vez, avançando um pouco seu corpo na direção da garota, que se manteve imóvel. — Ele era seu namorado.
— Ex-namorado — corrigiu ela.
— A culpa está nos seus olhos — insistiu Ortiz.
O olhar de deboche para o detetive a deixava ainda mais curiosa sobre o que viria a seguir.
— Você realmente tem uma forte obsessão por mim, não é? — Ela arqueou a sobrancelha direita.
— Eu não vou repetir. — A fúria nos olhos do homem era intensa.
— Acho melhor se afastar, detetive — disse uma voz mais forte vindo da porta.
O advogado da família estava ali para livrá-la do mal.
— Ah, querida. — A mãe de %Bella% adentrou a sala, já indo abraçar a filha. — Mamãe vai te tirar daqui, este senhor não a machucará.
— Eu estou bem, mamãe. — %Bella% sorriu para a mulher e voltou o olhar para o detetive.
Mesmo relutante, Ortiz se viu obrigado a liberar a garota que por ser a principal suspeita do assassinato de Juan Lorenzo, não poderia sair da cidade.
Logo na recepção da delegacia, já havia curiosos e algumas pessoas que o detetive convocou para interrogar. O aluno %Stefan% Magnus era um deles, que mentalmente já ensaiava todas as palavras que iria dizer. Ao passar pelo garoto, o olhar discreto e instigante de %Bella% se cruzou com o dele, deixando um singelo sinal de aprovação por parte dela.
Sim. O jovem Magnus era o álibi de Castelatto que deixaria Ortiz com os nervos à flor da pele com uma história passada mais de vinte vezes por ambos, para que nenhum fio solto fosse encontrado pelo detetive. %Stefan% afirmava que estivera com a suspeita durante toda a madrugada em que o crime foi cometido. E mais pessoas poderiam confirmar suas palavras, pois havia o visto com uma garota na recepção que a família dava.
— Olhando para você, não consigo acreditar em suas palavras. — Ortiz cuspiu sua indignação para %Stefan% que, assim como a suspeita, se mantinha calmo e sereno.
— Me desculpe, detetive, mas não mentirei para agradá-lo, %Bella%
Castelatto estava comigo. — Continuou afirmando o garoto. — Sei que meu pescoço está em risco, já que meus pais não gostam da família dela…
O garoto olhou para o vidro na parede ao lado, sabendo que seus pais e sua irmã gêmea estariam ali, ouvindo-o dizer tais palavras. Então, voltou seu olhar para o homem à sua frente.
— Mas esta é a verdade. Eu e %Bella% sempre fomos próximos, porém seguimos escondendo nossa amizade de nossas famílias — comentou %Stefan% a sua história ensaiada. — Quando me mudei para a Grécia, continuei a manter contato com ela e nosso amor um pelo outro só aumentou. %Bella% Castelatto somente começou a namorar Lorenzo para distrair minha irmã que a odeia e era apaixonada pela vítima.
— Está me dizendo que manteve um relacionamento com a suspeita enquanto ela namorava a vítima? — Ortiz começou a distorcer as coisas para desacreditá-lo. — Devo considerá-lo um cúmplice agora?
— Bem, se tiver um modo de uma pessoa estar em dois lugares ao mesmo tempo, pode me considerar um cúmplice. — A voz de %Stefan% soou ainda mais firme e segura. — Me considere o cúmplice de %Bella% Castelatto.
Ortiz não tinha pistas boas. Não tinha um flagrante. Apenas havia sido um ridículo por algemar uma adolescente que tinha um álibi forte a ponto de não temer afirmar que estava com a filha do inimigo. Agora o detetive passando noites em claro à base de cafeína e energéticos, mantinha seus olhos no quadro de evidências tentando considerar todos os detalhes e entender onde tinha errado. Com uma ordem judicial e a presença do advogado Han, ele finalmente pôde interrogar novamente a jovem suspeita.
— Estamos nós aqui de novo — disse ela, dando um sorriso presunçoso. — No terceiro encontro vai me pedir em casamento, detetive?
— Enquanto você brinca, eu continuo empenhado a provar que é a culpada — disse o homem convicto de suas habilidades de investigação.
— Boa sorte, então. — %Bella% manteve o sorriso no rosto. — Por onde começamos meu depoimento?
— Onde estava na noite do assassinato? — perguntou o detetive.
— Eu estava primeiro na casa da minha prima Juliette Solar, pode perguntar para ela. — Iniciou a jovem, voltando o olhar para o escrivão que começava a digitar. — Como estávamos em recesso escolar, fiz ela pedir aos meus pais para dormir em sua casa, pois era a única forma de escapar no meio da noite e me encontrar com %Stefan% Magnus.
— E você saiu da casa de sua prima que horas? — perguntou ele.
— Às dez da noite, foi o horário que marquei com %Stefan% para seguirmos para sua casa — respondeu com firmeza. — Ele estava de volta à cidade e mesmo estudando juntos, não conseguia me aproximar dele por causa da sua irmã, que não parava de segui-lo.
— E seus pais sabem dessa proximidade de ambos? — Ortiz mantinha o olhar fixo nela, em todas as expressões e palavras.
— Não. — %Bella% olhou para o mesmo espelho, sabendo que sua mãe estaria vendo, já que o pai seguia em viagem para Londres. — Como sabe, meus pais e a família Magnus são rivais há anos na Draconis, ou melhor, Millenium, assim como nos negócios, então… Sempre fui proibida de me aproximar deles.
— Mas não seguiu a regra.
— Não. — A jovem voltou o olhar para o detetive. — Eu e Magnus nos apaixonamos, mantivemos nosso relacionamento em segredo, mas ele teve que ir embora para a Grécia e decidimos ficar somente como amigos. Foi assim que comecei a namorar Lorenzo, já que eu não podia ter o irmão de Hale Magnus, ela não teria o garoto popular da escola que sempre quis ter.
— Uma pequena vingança. — Concluiu o detetive.
— Tenho 16 anos e já assisti
Mean Girls mais de dez vezes — brincou a garota, rindo baixo.
— Se você se encontrou com %Stefan%, e de fato várias pessoas o viram entrar em casa com uma garota, o que estavam fazendo na hora em que a vítima morreu? — Ortiz foi mais específico.
— E foi exatamente a que hora? — perguntou Castelatto.
— Meia-noite e meia — respondeu Ortiz.
%Bella% respirou fundo, pensando se responderia essa pergunta ou deixaria para seu álibi. Engolindo seco, ela abaixou o olhar se fazendo de inocente.
— É uma pergunta muito íntima, detetive, não sei se tenho coragem de respondê-la, não perto da minha mãe. — A jovem levantou o olhar novamente, com mais ousadia, porém, mantendo a sutileza nos olhos. — O que faria se sua filha dissesse que não é mais virgem?
Do outro lado da sala, a mãe de %Bella% desfaleceu pelas fortes emoções causadas pela filha. Castelatto suspirou fraco, deixando o assunto no ar, de forma subjetiva, forçando Ortiz a novamente interrogar Magnus com a presença de seus pais e sua irmã assistindo a conversa na sala ao lado. %Stefan% já havia enfrentado algumas discussões com os pais pelas revelações iniciais. Sua irmã não olhara em sua cara há dias, com raiva de sua amizade com o inimigo.
— Eu acabei descobrindo algo interessante com a senhorita Castelatto — começou Ortiz assim que sentou de frente para o rapaz. — Ela me contou o que fizeram na hora do assassinato de Lorenzo.
— Ele teve essa coragem? — %Stefan% se viu surpreso.
— Agora quero que você me conte a sua versão — instigou Ortiz. — Ou está com medo dos seus pais? Eles estão na sala ao lado ouvindo tudo.
— Não tenho medo deles, não mais. — A segurança de %Stefan% estava em seu olhar.
— Chegamos em minha casa às dez e meia, antes disso, %Bella% me pediu para comprar chocolate, pois queria fazer uma maratona de Chicago Fire comigo, ela gosta muito dessa série — começou ele.
— E onde compraram o chocolate? — indagou o detetive.
— Em uma loja de conveniência que estava aberta, paguei com o cartão de crédito, se te ajuda a conferir. — O jovem sorriu de canto. — Então seguimos para minha casa, eu tirei a blusa de frio e dei a ela para que colocasse o capuz, assim ninguém a veria. Quando chegamos no meu quarto, liguei o notebook e começamos a assistir a série.
— Interessante, ela não detalhou esta parte… — Ortiz fez um comentário para buscar alguma reação de instabilidade e incoerência nele.
— Ela deve ter ficado com vergonha de admitir que eu não a deixei ver, estava mais preocupado em matar a saudade da garota que amo do que ver uma simples série. — Ele riu, imaginando ser alguma estratégia do detetive para deixá-lo confuso. — Mas com certeza ela deve ter dito que… Quando foi mesmo que Lorenzo morreu?
— Meia-noite e meia — respondeu Ortiz, segurando a irritação.
— Não me lembro de ficar olhando no relógio quando estou dando prazer a uma garota, mas acho que nesta hora, estávamos na nossa terceira vez… Ou seria segunda. — Ele riu. — Mas posso te dizer que à uma da manhã minha irmã veio até meu quarto, %Bella% estava no banheiro tomando banho e eu procurando sua calcinha debaixo da cama, pode perguntar a Hale. — Um álibi perfeito demais para Ortiz acreditar e engolir.
Quanto mais o cúmplice e a suspeita davam suas versões do fato, mais Ortiz se pegava em uma teia de aranha da qual não conseguia escapar. Se a versão do casal era verdadeira, como seria possível ele ter encontrado um pedaço da unha de %Bella% grudada na jaqueta de Lorenzo?
A investigação seguiu por mais algumas semanas com o detetive fazendo as mesmas perguntas para todas as pessoas que interrogou. Até que, por ordens superiores, Ortiz foi obrigado a arquivar o caso por falta de evidências. %Bella% Castelatto foi inocentada por falta de provas e o caso arquivado, graças à ajuda de seu brilhante álibi.
Mas será que existe um crime sem culpado? – Minutos antes do assassinato
— O que você quer? — disse %Bella% ao se aproximar de Lorenzo que a esperava debaixo da cerejeira do colégio onde estudavam.
— Quanta agressividade — disse ele, num tom debochado.
— Eu estava em um lugar maravilhoso até você mandar suas ameaças para o meu celular. — Ela alterou a voz. — Quem você pensa que é?!
— Eu sou o garoto que você fez de otário achando que eu iria deixar barato — disse ele ao pegar no braço de Castelatto forma agressiva. — Achou mesmo que iria terminar comigo para ficar com seu namoradinho às escondidas? Achou que eu não iria descobrir sobre você e o Magnus?
— Me solta — disse ela assustada com a agressividade do ex-namorado, tentando empurrá-lo com a outra mão. — Está me machucando.
— Eu só vou te soltar quando tiver o que me negou todo esse tempo. — Ele tentou beijá-la à força.
Porém, %Bella% relutou ainda mais para tirá-lo de perto, sem sucesso, pois ele era bem mais forte que ela. Em plena agonia de tê-lo tentando arrancar suas roupas e rasgá-las por completo, ela começou a pedir socorro, mas quem a ouviria ali naquele lugar completamente vazio? Uma luz no fim do túnel veio quando Lorenzo a jogou no chão e se lançou em cima dela para forçá-la a beijá-lo novamente. Então, uma mão o pegou pela jaqueta e tirando-o de cima dele, socou seu rosto.
%Bella% soltou um grito de susto, porém aliviada internamente.
— Nunca mais toque nela. — O rosto de %Stefan% foi iluminado pela luz da lua.
— Olha só… O namoradinho. — Lorenzo sorriu e podia-se ver o sangue em sua boca. — Vou acabar com você e depois conferir se essa vadia é realmente virgem. — Ele se levantou e, fechando os punhos, ergueu o braço para devolver o soco que recebera.
%Stefan% foi mais rápido que Lorenzo em se defender e, se lembrando do treinamento militar que o tio lhe deu quando criança, foi desviando das investidas do rapaz e lhe socando mais e mais. Até que Lorenzo retirou um canivete do bolso para obter vantagem. Em um piscar de olhos que %Stefan% chutou sua mão, mandando o canivete para longe, Lorenzo aproveitou uma pequena distração pegando uma pedra para acertar %Stefan%.
Contudo, algo parou repentinamente sua ação, fazendo-o cair no chão, deixando a pedra rolar. O olhar de Magnus se levantou, vendo %Bella% estática com a mão ensanguentada e o olhar assustado. O jovem se levantou e a abraçou.
— Eu… %Stefan%… — sussurrou ela, ao sentir o abraço seguro. — Eu só queria afastá-lo de você.
— Está tudo bem — sussurrou Magnus de volta. — Vai ficar tudo bem, você não tem culpa.
— O que faremos agora? — Ela moveu seu olhar com suavidade para a árvore de cerejeira.
— Vamos dar um jeito nisso, apenas faça o que eu disser. — Assegurou o rapaz, deixando-a tranquilizada.
Debaixo da cerejeira
Venha um pouco mais perto, não quer ficar mais perto de mim?
Você é meu milagre
No seu coração negro, é onde você vai me encontrar
Cortando através das rachaduras do concreto
No seu coração negro, é onde você vai me encontrar
– Black Heart / Carly Rae Jepsen
“Draconis: A estrela que mais brilha, é também aquela que queima mais rápido.” – by: Pâms
Fim