Capítulo 14 • A Irmã Mais Nova de Henrique VIII
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“
Vê, eu tenho poderes. E eu posso machucar qualquer um com meus poderes, basta eu querer”
1979, BRASIL
O apito ressoou. Assim que o jovem atravessou o trem, o mesmo parou. Ele adentrou o trem, vendo as pessoas que ali estavam. O jovem se sentou em uma das poltronas e começou a folhear as páginas de seu livro. O livro que estava lendo. Dava para ver o trem andando em meio à cidade. O jovem olhava a paisagem animado.
Assim que chegou em casa, viu o irmão assistindo TV, enquanto o outro folheava revistas e a irmã mais nova vestia seu vestido rosa e sua chupeta, da qual não largava. O jovem foi para dentro de casa, o pai estava tendo mais uma briga com a esposa. Ao entrar em seu quarto, o jovem fez suas orações matinais. Ajudou nos serviços domésticos, até encontrar um anel brilhante, um anel com a cor da vermelhidão.
— Use-me — dizia a voz vinda do anel vermelho. — Molde a realidade a seu modo.
— O que será que é isto? — se perguntou o jovem.
— Eu sou o anel vermelho. Eu sou aquele que tem poder do tempo, use-me com sabedoria e molde a história do seu jeito.
— Como? — se perguntou o jovem.
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A figura que se aproximava sorriu. Ali estava ela ou ele observando tudo. Se aproximou da jovem que tinha aspecto triste. A jovem parecia estar triste, chorando como se tivesse perdido algo que realmente era importante. As pessoas lá fora não pareciam ver além da superfície, mas Vermelhidão do Tempo sempre via.
— Por que choras, jovem? — perguntou.
— Eu... meu pai, ele morreu, meu tio também, e agora essa mulher, Margaret Beaufort, assumiu o poder junto com seu filho Henry VII. Minha mãe quer que eu me case com ele, mas eu não quero.
— Então não se case, querida. Você tem o poder de decidir se quer casar ou não — disse Vermelhidão.
— Não é tão simples assim, se eu não me casar... — começou a jovem.
— Escolhas. Sempre difíceis, minha querida — disse Vermelhidão. — Talvez eu possa ajuda-la nisso, mas há um preço. Um pequeno preço.
— Qual? Eu pago — disse a jovem ainda com lágrima nos olhos.
— Você fará tudo que eu mandar, sem hesitar — pronunciou Vermelhidão.
— Eu aceito — concordou a jovem.
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1486, INGLATERRA
— Veja, minha mãe — Henry VII aponta um bebê para a mãe —, é meu filho com Isabel de York. Um menininho. Vai se chamar Artur.
O bebê sorriu graciosamente para o pai e a avó.
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NOVEMBRO DE 1495, INGLATERRA
— Vermelhidão! — exclamou Isabel de York saudando a figura misteriosa. — Você voltou!
— Vim apenas cobrar sua dívida, pequena Isabel de York — murmurou Vermelhidão com um sorriso malicioso nos lábios. — Vim pegar o que é meu.
— O que é seu? — perguntou Isabel de York, preocupada.
— Esse bebê que você vai ter. Ele é meu pagamento. Você vai pegar uma espada, um fio, um metal, uma tesoura, um alicate, o que quer que seja, e vai cortar sua barriga de forma que a criança que está esperando não nasça. Ao menos não agora.
— Eu não vou fazer isso! — protestou Isabel.
— Que pena, criarei uma maldição que matará todos seus filhos. — Vermelhidão sorriu.
— Por favor, não — pediu Isabel.
— Me pague — ordenou Vermelhidão.
— Está bem — disse Isabel indo até certo lugar do castelo e cortando sua própria barriga, sangrando.
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18 DE MARÇO DE 1500
— Tem certeza que essa criança está segura? — perguntou Henry VII à esposa, Isabel de York.
— Sim, acredito que esta criança realmente vem — disse Isabel.
Ela começou a sentir contrações dando à luz uma menina, a qual chamou de Maria, em 1500.
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1509, PORTUGAL
— Chegaram mais cartas de Castela, mensageiro? — perguntou Manuel I de Portugal.
— Nenhuma, Vossa Majestade — respondeu o mensageiro.
— Querido — disse %Maria% de Aragão —, soube que a irmã mais nova do novo rei fez nove anos hoje!
— Dizem que ela é filha do diabo ou de um bruxo — retorquiu Manuel. — A forma como ela nasceu cinco anos depois da rainha sangrar rios não é normal.
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INGLATERRA
— Eu anuncio a vós — disse Henrique VIII — minha rainha e esposa, %Catarina% de Aragão.
— Viva a rainha! — gritou a multidão.
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Nossa, hein?
Que que é isso!
Nossa (nossa)
(Assim você me mata)
Ai (se eu te pego)
(Ai, ai, se eu te pego)
Vamo que vamo, turma!
Delícia, (delícia)
(Assim você me mata)
(Ai, se eu te pego)
Ai, ai, se eu te pego, hein! (Vai!)
Vamo comigo, turma!
Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar
Como é que é, hein?
— Pai, tu ouves? — disse a princesa de Portugal. — Lá vem João tentar travessuras novamente.
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1516, INGLATERRA
— Força, rainha — disse a parteira para %Catarina% de Aragão. — Força. Está vindo. Está vindo.
— É uma menina! — disse %Catarina% segurando a bebê nos braços. — Seu nome será Mary.
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— Verde. — Vermelhidão fez uma reverência. — Onde estava?
— Eu estava vendo as pessoas. Elas sempre parecem diferentes.
— Viu minha pupila? — perguntou Vermelhidão.
— Qual, você tem tantas — disse Verde rindo.
— Aquela... A alma mais pura que já vi.
— Aquelazinha... — Verde se inclinou.
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A jovem regava plantas. As plantas eram belas. O palácio era rico e a beleza do plantio da jovem também.
— Quem sabe um dia eu encontro meu caminho... — murmurou para si mesma.
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— Ela é diferente — disse Verde.
— Ela é especial — murmurou Vermelhidão.
— Sim, parece mesmo — concordou Verde.
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O sol da primavera repousava gentil sobre os canteiros do Jardim Real de Fontainebleau, tingindo de ouro as pétalas recém-desabrochadas. Lá estava Isabel de Valois, com as mangas de linho arregaçadas até o cotovelo, recolhendo folhas secas de lavanda. Seu rosto refletia calma e concentração; em cada gesto, revelava a serenidade e o carinho que dedicava às plantas. Para ela, aquelas fileiras de rosas, violetas e hortelã eram muito mais do que meras ornamentações: eram confidentes silenciosas, prontas a ouvir sonhos e suspiros de uma jovem prestes a descobrir que a vida raramente se inclina aos próprios planos.
— Isabel! — chamou, ao longe, uma voz firme, porém afetuosa. Henrique, rei da França e seu pai, aproximou-se com as mãos cruzadas atrás da larga capa real. Não era incomum ele encontrá-la ali, mas a expressão grave que ostentava naquela manhã exigia atenção imediata.
Ela dispensou a paz do pequeno sussurro das flores por seus olhos verdes. Ergueu o queixo, limpou as mãos num avental de linho branco e curvou-se numa reverência suave.
— Pai querido, o que vos traz tão cedo aos meus domínios? — perguntou, tentando mascarar o tremor leve na voz.
O rei silenciou por um breve instante, admirando o cuidado dela com as plantas.
— Minha filha, o tempo urge e as alianças não podem aguardar. — Ele suspirou, olhando-a com a mistura de orgulho e pesar de quem confia um fardo maior que a própria adolescência. — Tens dezesseis anos completos, e o reino da França precisa consolidar laços duradouros com Castela. Por isso, deveis tornar-vos esposa de seu príncipe, Felipe.
O mundo de Isabel pareceu ganhar contornos distintos. As flores ao redor, antes companheiras silenciosas, tornaram-se testemunhas de um anúncio tão inesperado quanto vital.
— Casar-me com o príncipe de Castela? — murmurou, sentindo o coração disparar. — Mas, pai… eu mal o conheço.
— Ele chega amanhã à corte. Tua mãe e eu esperamos que, ao encontrá-lo, possas perceber em Felipe não apenas o herdeiro de Castela, mas um jovem com quem partilharás sonhos e esperanças. — Henrique suspirou novamente. — Sei bem que não pediste essa jornada, Isabel. Contudo, como princesa da França, deverás cumprir com o destino de garantir paz e prosperidade entre nossos reinos.
Isabel ergueu a cabeça, respirou fundo e caminhou até uma roseira. Passou o indicador sobre uma pétala macia.
— Entendo, pai. Farei o possível para honrar nossa família. Mas temo partir tão longe… os jardins franceses serão apenas uma lembrança, não é mesmo?
O rei pousou a mão no ombro dela. Por um breve instante, foi apenas pai e filha, não monarca e princesa.
— Sempre haverá rosas esperando por ti, onde quer que estejas. E serás bem-vinda nos jardins de Castela, se assim o desejarem.
***
Na manhã seguinte, o céu despontou límpido, como se espantasse qualquer prenúncio de nuvens. No pátio principal do palácio, tendas pavilhonadas ondulavam ao vento para acolher convidados de alto escalão. Isabel, vestida com um vestido cor de marfim e detalhes em azul-celeste — as cores de sua casa —, aguardava atrás de um arco coberto de glicínias. Seu coração palpitava com a cada passo de Felipe II, que se aproximava em trajes castanhos e dourados, acompanhado de guardas e criados.
Quando o príncipe ergueu os olhos, encontrou-os nos de Isabel. Havia neles curiosidade e um leve nervosismo que combinava com o seu próprio. Em seguida, sorriu, inclinou o corpo em reverência e estendeu a mão branca e refinada.
— Princesa Isabel de Valois, é uma honra conhecê-la — disse com voz suave, porém confiante. — Espero que esta aliança não seja apenas política, mas também o início de uma sincera amizade.
Isabel aceitou a saudação, sentindo o calor discreto da palma dele. Surpreendeu-se com a firmeza do aperto, tão distinto de muitos nobres que conhecera.
— Príncipe Felipe, o prazer é meu. — Ao pronunciar as palavras, ela se lembrou dos conselhos de sua mãe: “Seja gentil e verdadeira. Mostre ao príncipe quem és, pois é com a honestidade que se constrói a confiança”. — Bem-vindo à França.
A comitiva castelhana acomodou-se próxima ao trono improvisado. Henrique, satisfeito pela cortesia mútua, tomou a palavra em tom solene:
— Hoje selaremos, em nome de nossos reinos, a união de Isabel de Valois e Felipe II de Castela. Que a aliança floresça tão exuberantemente quanto o jardim que vossa filha tanto ama.
A cerimônia, ainda que simples, reverberou pelo pátio em aplausos contidos. Após as formalidades, serviram-se canapés de queijo e figos, refrescos de hortelã e ceramista fina. Sob o peso dos olhares curiosos e dos comentários dos embaixadores, Isabel e Felipe retiraram-se para um pequeno bosque reservado nos fundos do jardim.
— Gosto deste lugar secreto — observou Felipe, inclinando-se para franzir a testa diante de um carvalho retorcido. — Parece guardado só para nós.
— É aqui que venho ler quando preciso pensar longe dos festejos — confidenciou Isabel. — As árvores parecem guardar segredos de outros tempos. Há um silêncio acolhedor que acalma o espírito.
Felipe contou, com surpresa, que também encontrara, em Segóvia, um recanto parecido, onde lia poemas castelhanos. Logo começaram a trocar versos de Racine e de Garcilaso de la Vega, experimentando as nuances de cada língua. A conversa fluiu com naturalidade: sonhos de juventude, receios sobre as obrigações futuras, lembranças de festas de primavera e até as pequenas confidências sobre o gosto pela música — ela tocava alaúde, ele cantava nos corredores do palácio.
— Dizem que a realeza exige sangue frio — brincou Felipe, pousando os olhos verdes nos dela. — Mas eu prefiro acreditar que um coração aberto faz um governante melhor.
Isabel sorriu, surpreendida pela sinceridade atípica de um herdeiro tão jovem.
— Quem sabe, unidos, faremos dos nossos reinos não apenas aliados, mas irmãos? — propôs ela, estendendo a mão para ele, como se oferecesse um acordo além dos tratados.
Felipe apertou os dedos dela com ternura.
— Fechado. Que nossas cortes vejam um casamento de paz. E que, entre nós, floresça uma amizade que nem o tempo apagará.
No exato momento em que suas mãos se separaram, uma brisa percorreu o bosque, espalhando pétalas de madressilva pelo ar — como um selo perfumado daquele pacto juvenil. Isabel apanhou uma delas e ajeitou-a no cabelo loiro, imaginando-se, em breve, esposa de Castela, mas — ousava crer — também companheira e amiga de um príncipe que compartilhava esperanças e sonhos semelhantes.