Capítulo 11 • O Desenrolar das Páginas — Parte I
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A bruma da manhã ainda envolvia os jardins de Tordesilhas quando %Isabel% de Aragão surgiu à soleira da grande varanda, os olhos marejados de curiosidade. Atrás dela vinham, saltitantes, %Maria% e %Catarina%, e por fim %Joana%, de passos suaves, observando as flores como se ali encontrasse consolo para pensamentos que nem sempre sabia traduzir em palavras. A vida na corte era, desde cedo, um misto de deveres e descobertas, mas, entre as quatro irmãs, formara-se um laço de cumplicidade inquebrável.
— %Isabel%, olha só! — exclamou %Catarina% de Aragão, espetando o dedo numa pétala rosa que tremia sob a brisa.
— Perfeita como o teu vestido, %Catarina%. — Riu %Maria%, ajeitando o franzido da própria túnica.
%Joana% aproximou-se em silêncio, os cabelos negros presos em tranças finas. Fechou os olhos por um instante e murmurou:
— Às vezes fico pensando… será que ser princesa nos dá mesmo liberdade?
%Isabel% pousou a mão no ombro mais novo.
— Temos privilégios, claro. Mas a liberdade… essa construímos juntas, nas brincadeiras, nas confidências.
— E quem vencer o próximo duelo de adivinhações leva o último pedaço de torta de amêndoas!
A risada geral que se seguiu dissolveu qualquer sombra de melancolia. A amizade das quatro crescia a cada dia como as trepadeiras que enfeitavam os muros do palácio: tecida de segredos, gestos anônimos — um bilhete escondido, um colar emprestado — e de sonhos que só elas ousavam compartilhar.
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— Mãe, por que me casar com alguém que não me fará feliz? — perguntou %Joana% a mãe, %Isabel1% I de Castela. — Ele não vai me amar.
— Ele aprenderá, doce %Joana% — disse %Isabel1% I de Castela. — O importante é buscar o melhor para o reino.
— E se o melhor para o reino, não for o melhor para mim? — perguntou %Joana% insegura.
— Você saberá, minha filha — prometeu %Isabel1% I de Castela.
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— É um prazer conhece-lo, príncipe Filipe de Hasburgo — disse %Joana%.
— O prazer é todo meu — disse o príncipe de Hasburgo.
A atração foi instantânea, os dois rapidamente se viram como atrativos um ao outro. Filipe, após conquistar %Joana%, já casados, a levou para o quarto dos Hasburgo e deitou-se sobre ela, tirando sua roupa medieval, começando a beija-la e entrar a ela. Aos poucos %Joana% se rendia aos desejos do novo marido.
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1518, Palácio de Fontainebleau
O crepúsculo filtrava-se por vitrais coloridos, tingindo de púrpura os corredores silenciosos do castelo. %Claudia%, rainha de França, envolta em um simples vestido de cambraia, caminhava sem destino, os pensamentos ainda girando em torno de seus dois filhos: Carlota, de quatro anos, e o recém-nascido Francisco. Seu coração latejava de amor por eles, mas do rei — seu marido, Francisco I — apenas escutava rumores de risos e festins, palavras sussurradas sobre suas amantes, como Anne de Pisseleu d’Heilly.
Ela parou diante de uma tapeçaria bordada, retrato mítico de Diana caçando na floresta. “Quantas flechas deixou escapar em meu peito?” perguntou a si mesma. No instante seguinte, o grande portão rangeu e o rei entrou, impassível, envolto em peles cinza. Seus olhos, antes tão vibrantes durante o cortejo, agora olharam-na com a frieza própria de alguém acostumado a obter tudo.
— %Claudia% — disse ele, com voz baixa, quase mecânica —, falemos de verdade. Preciso de um terceiro filho. É dever de uma rainha.
Ela respirou fundo, segurando a ira em meio à surpresa.
— Meu senhor, dei-lhe dois filhos. Dois! E não passa de um simulacro de amor a mim.
Ele franziu a testa, um detalhe tão raro quanto precioso.
— Amor? Tenho pressa de assegurar a dinastia. Você recusará?
%Claudia% ergueu o queixo, a voz firme:
— Você sequer sabe se ama-me ainda. Sou mais que útero.
O silêncio instalou-se. O rei saiu, deixando atrás de si um rastro de vento gelado.
Horas depois, na sala de estar da rainha, as criadas arrumavam almofadas. %Claudia% sentiu o toque suave de um bilhete deslizando em suas mãos: “Encontre-me nos jardins, ao entardecer. — F.” Curiosa, vestiu-se com um manto leve e seguiu até a roseira branca onde encontraria, não o soberano autoritário, mas...
Ele surgia entre ciprestes, agora com um ramo de violetas silvestres. Aproximou-se devagar, sem pressa de rei, como se fosse um amante tímido.
— Perdoe-me — começou ele, num sussurro distinto do costumeiro tom cortês da corte. — Excedi-me hoje cedo.
%Claudia% sentiu algo diferente em seu timbre: uma intenção de convencimento, não de imposição. As flores eram singelas, mas falavam mais alto que joias ou coroas.
— Por que isso? — Sua voz soou baixa, quase temerosa.
Francisco sorriu, os olhos suavizando.
— Porque percebi que, sem você, minha vitória seria vazia. A corte ri de minha frieza. Riem, mas não me conhecem. Desejo-a por inteiro, %Claudia%. — E estendeu a mão para ela.
Ela hesitou, lembrando das tardes solitárias, dos beijos roubados no salão de baile antes da coroação. Mas algo na genuinidade do olhar dele quebrou seus muros. Aceitou-lhe a mão.
— Se for para o nosso bem — murmurou ela, quase para si.
Voltar ao palácio foi como redescobrir cada degrau. Lá dentro, velas acesas iluminavam um corredor forrado de estrelas pintadas no teto. Em cada passo, abafados, ouvia o coração sorrir pela primeira vez em muito tempo.
Quando adentraram as câmaras reais, Francisco fechou a porta e, com ternura, afastou-lhe o véu negro. %Claudia% sentiu nas mãos dele o calor antigo que quase esquecera existir. Não houve pressa, nem frieza cortesã, apenas dois corpos que se reconheciam depois do esquecimento.
Na manhã seguinte, o Castelo acordou sob um manto de orvalho. %Claudia% despertou nos braços do rei — seu rei —, ainda com as violetas descansando sobre a mesa de cabeceira. Lá fora, as primeiras carícias do sol anunciavam o futuro: talvez ele ainda fosse capaz de amar, e ela, de perdoar. Entre o frio dos corredores e o desejo que renascia, uma nova aurora despontava para a rainha e o seu rei.
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E morreu naqueles dias %Maria% de Aragão e Castela, a esposa de Manuel I e rainha de Portugal. E é aqui que começa a nossa história. Ou melhor a segunda fase...
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%Isabelle% de Portugal olhava pela janela do palácio, as brisas suaves do inverno acariciando seu rosto. A luz dourada do sol poente filtrava-se através das nuvens, criando uma atmosfera mágica que, ironicamente, não conseguia tocar seu coração. Os sinos da catedral badalavam ao fundo, anunciando a união que, por mais que desejasse, não fora voluntária. Casar-se com Carlos V, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, não era o que ela sonhara para sua vida. Mas a necessidade política superou seus anseios pessoais, e agora ali estava, vestida com um magnífico vestido de cetim bordado, pronta para um novo capítulo que não escolheu.
Ao entrar na sala, o olhar de Carlos encontrou o dela. Ele estava imponente, mas havia uma doçura em seu semblante que a surpreendeu. Vestido em roupas ricas com detalhes em ouro, ele a cumprimentou com um sorriso caloroso.
— %Isabelle%, você está deslumbrante — disse ele, a voz profunda e suave como um murmúrio de brisa.
Ela sorriu timidamente, um gesto que mal sentia surgir. As palavras estavam presas em sua garganta, mas ele não pareceu se importar. Carlos V, com sua educação e charme, fez pequenos gestos que a deixaram mais à vontade.
— Prometo que farei o meu melhor para que você se sinta em casa aqui — continuou ele, enquanto os convidados se reuniam ao redor deles para brindar.
Depois de uma série de discursos e celebrações, a música começou a tocar, e Carlos estendeu a mão para ela.
%Isabelle% hesitou, mas a sinceridade em seus olhos a encorajou. Aceitou a mão dele e, ao se aproximar, sentiu uma eletricidade no ar. O baile seguia, e, mesmo no meio da multidão, parecia que estavam sozinhos. A música os envolvia como um manto, e cada passo a fez sentir-se mais leve.
— Você não está tão nervosa quanto pensei que estaria — ele comentou, observando-a com um sorriso.
— Com certeza, isso é surpreendente — respondeu %Isabelle%, rindo nervosamente.
— Não precisa ser assim. Estamos juntos nisso, %Isabelle%. Iremos enfrentar o que vier de mãos dadas.
Ela acreditou por um momento que, talvez, aquele casamento pudesse ser mais do que uma aliança política. Podia haver espaço para compreensão e carinho.
Quando a festa chegou ao fim, Carlos a levou ao quarto onde passariam sua primeira noite como marido e mulher. A atmosfera era carregada de expectativa e nervosismo. %Isabelle% hesitou à porta, o coração batendo rápido.
— Você está bem? — Carlos perguntou, notando sua apreensão.
— Sim, só… um pouco nervosa — ela admitiu, mordendo o lábio inferior.
— É natural. Vamos apenas nos conhecer melhor, %Isabelle%. Não precisa se preocupar.
Ele entrou no quarto e, assim que a porta se fechou, uma nova realidade se instalou entre eles. O ambiente era acolhedor, iluminado por velas que projetavam sombras dançantes nas paredes. Um grande leito ornado aguardava, mas o que mais chamou a atenção de %Isabelle% foram os olhos de Carlos, cheios de sinceridade.
— Venha, vamos conversar um pouco — ele sugeriu, puxando-a gentilmente para sentar-se ao lado dele.
A conversa fluiu como um rio tranquilo, entre risos e histórias sobre suas infâncias, sonhos e medos. O gelo entre eles começou a derreter e, em um momento de vulnerabilidade, Carlos tomou a mão dela.
— %Isabelle%, quero que saiba que desejo que você seja feliz. Não estou aqui apenas por política, mas porque acredito que podemos construir algo especial juntos.
As palavras dele ressoaram profundamente em seu coração. Ela sentiu algo que não esperava: a centelha de um afeto que poderia crescer, uma conexão que poderia ser mais do que um dever.
Os dias se passaram e, com eles, a convivência se tornava cada vez mais natural. Carlos se mostrava atencioso, sempre se certificava de que ela estava confortável e feliz. Um mês se passou desde o casamento, e o que começou como uma obrigação começou a se transformar em algo mais. %Isabelle% começou a se permitir sonhar.
Certa noite, enquanto estavam à mesa, um novo assunto surgiu.
— Você gostaria de ter filhos? — Carlos perguntou, olhando diretamente nos olhos de %Isabelle%.
A pergunta a pegou desprevenida. Ela não tinha pensado nisso ainda, mas a ideia de ter uma família começou a germinar em sua mente.
— Eu… não sei. Sempre pensei que um dia gostaria, mas…
— Não precisa ter pressa. Podemos nos conhecer melhor antes disso, mas eu adoraria compartilhar isso com você, se você quiser.
Aquelas palavras tocaram o coração dela. Um sentimento profundo, algo que começou como um fardo, estava se transformando em uma escolha. E assim, as semanas passaram, e %Isabelle% percebeu que algo estava mudando dentro dela. Os sinais começaram a aparecer, e em uma manhã ensolarada, ao descobrir que estava grávida, a emoção tomou conta.
%Isabelle% estava cheia de alegria, mas também de incertezas. Ao contar a Carlos, ele a abraçou com força, a felicidade brilhando em seus olhos.
— Isso é uma bênção, %Isabelle%! — exclamou ele, seu entusiasmo contagiante. — Eu sempre esperei que um dia tivéssemos uma família.
E assim, mesmo sem querer, %Isabelle% de Portugal começou a ver a vida com novos olhos. O casamento que começou como um acontecimento imposto transformou-se em uma jornada de amor e descoberta. A cada dia, ela se apaixonava mais por Carlos, e a vida que esperava parecia finalmente se alinhar com seus desejos.
Os preparativos para a chegada do bebê tornaram-se uma nova aventura, e, aos poucos, ela percebeu que naquele palácio, ao lado de Carlos V, havia encontrado um lar. O amor inesperado florescia e, com ele, a esperança de um futuro brilhante. E assim, a história de %Isabelle% e Carlos se tornava não apenas uma aliança entre reinos, mas um verdadeiro conto de amor que superou todas as expectativas.
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Voltando a 1518.
— Que notícia maravilhosa, %Claudia% — disse Francisco I da França. — Estamos esperando mais uma criança! — disse com ternura.
— Espero que seja mais um menino — disse %Claudia%.
— Eu também espero — concordou Francisco.
E assim nasceu Henrique da França.
Continua na parte 2