Aliferous


Escrita porStephanie Pacheco
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo 04 • Limerence

Tempo estimado de leitura: 48 minutos

“Sentir-se afetado por outra pessoa”.

  %Noah% observou a silhueta de %Selene% se distanciar dele tendo plena certeza do quanto suas reações estavam estampadas em seu rosto.
  Não houve como agir de forma diferente. As palavras dela fizeram seus olhos se arregalarem de imediato, seu rosto esquentou por inteiro e a boca se abriu minimamente, de repente tão seca quanto costumava ficar minutos antes dos discursos dados por ele.
  %Wessels% só se deu conta de que apertava a bancada da pia com força quando os nós de seus dedos doeram e antes que pudesse se refrear, um suspiro baixo escapou de seus lábios.
  Como era possível que uma simples frase fosse capaz de afetá-lo tanto?
  Ele sabia que não era apenas aquilo.
  Ao pousar seus olhos sobre o copo largado por ela minutos antes, %Noah% podia jurar ver o desenho perfeito dos lábios da mulher em sua borda enquanto sua mente trouxe à tona a memória recente do sorriso ladino exposto no belo rosto.
  Não, não era apenas a frase. Era a expressão do rosto dela, o tom de provocação explícito, a ousadia do caminhar lento.
  %Selene% o atiçou de propósito.
  E pensar nisso fez o homem desejar correr sedento na direção dela e revogá-la para si.
  Outro suspiro escapou dos lábios dele.
  Ou talvez aquilo tudo fosse apenas pirraça da jovem %Mikkelsen% e %Wessels% estivesse interpretando tudo errado.
  Por Deus, ela tinha um namorado e, aparentemente, estava muito bem servida com ele.
  O tique-taque do relógio despertou o homem de seus devaneios e %Noah% o encarou brevemente, apenas para constatar que passava das quatro e meia da manhã.
  — Merda.
  Teria que acordar dali a duas horas. Precisava descansar ao menos um pouco porque desmarcar um ou dois compromissos da manhã estava completamente fora de cogitação.
  Todd Phillips jamais permitiria aquilo, a menos que houvesse algum motivo de força maior.
  %Noah% voltou para seus aposentos e um peso o acompanhou quando deitou novamente em sua cama, deixando o espaço vazio ao seu lado como era de costume.
  A culpa quis sussurrar em seu ouvido novamente, julgá-lo por todas as reações que %Noah% havia tido desde o momento em que seus olhos pousaram em %Selene% %Mikkelsen%, mas o homem decidiu guardar aquilo em algum canto de sua mente, pelo menos por enquanto. O descanso era tudo o que ele queria.
  Se ele soubesse que passaria as horas de sono que lhe restavam virando de um lado para o outro, sem conseguir tirar o maldito sorriso de %Selene% de seus pensamentos, desejando causar aquela reação nela outras vezes, teria preferido a dose de culpa com toda a certeza.
  %Noah% passou o restante da madrugada inquieto, e quando o despertador o avisou da necessidade de se levantar, deixou o ar escapar de forma prolongada de seus lábios.
  A ardência em seus olhos mostrou que aquele seria um dia longo enquanto o homem seguia para o chuveiro.
  Lá dentro, procurou deixar de lado qualquer pensamento e usar a temperatura fria, o remédio para despertá-lo por completo.
  — Teve uma boa noite de sono, senhor %Wessels%? — A voz de Julieta o tirou de seus pensamentos, e o homem ergueu seu olhar, que só então percebeu estar fixo na xícara vazia.
  — Perfeita. — O tom leve de ironia se fez presente em sua voz e %Noah% se adiantou para se servir de um pouco de café, dispensando quando a governanta se ofereceu para fazer aquilo por ele.
  — Não é o que diz a sua cara. — Qualquer um poderia recriminar uma resposta como aquela, mas Julieta o conhecia desde muito jovem e %Wessels% nunca foi de exigir tratamento diferenciado de seus empregados.
  — O que eu posso dizer… — Um suspiro ecoou dos lábios do homem e ele viu um sorriso triste se formar nos lábios dela.
  — Eu entendo. Deve ser realmente difícil para o senhor.
  — Me disseram que com o tempo seria mais fácil. Ainda estou esperando isso acontecer. — Torceu as feições em uma careta. Por mais que aquilo não fosse verdadeiramente a causa de sua insônia naquela noite, não deixava de ser verdade.
  — Não desista disso. Uma hora os pontos de luz aparecem, o senhor vai ver. — Sentiu a mulher tocar um de seus ombros, em uma forma de consolo.
  %Noah% não conteve um sorriso.
  — Obrigado. A senhora sempre traz as palavras certas.
  — Que nada, eu leio essas coisas em livros de autoajuda — dispensou com um gesto, o que fez ambos rirem. — Mas me deixa voltar para a cozinha antes que o seu assessor me degole.
  %Noah% franziu o cenho ao ouvir aquilo.
  — Todd já está aqui?
  — Chegou ainda há pouco. Disse que o senhor tem uma entrevista e, assim que estiver pronto, deve encontrá-lo no escritório.
  — Certo. Muito obrigado, Julieta.
  — Não vou mais repetir que precisa de uma folga, senhor %Wessels%. — Olhou para ele de forma significativa.
  — Ah, eu bem que gostaria. — %Noah% soltou uma risada baixa e tomou um gole generoso de seu café.
  De fato, %Wessels% não lembrava da última vez que havia tirado nem que fossem algumas horas de folga, porém não importava. Ele teria tempo para isso quando fosse eleito senador dos Estados Unidos.
  Não foi surpresa alguma encontrar Todd andando de um lado para o outro dentro do escritório de %Noah%. Desde que conheceu o assessor, dava de cara com aquela cena ao menos uma vez em seu dia, fazia parte da personalidade do homem.
  Todd Phillips vivia pela carreira política de %Wessels%. Sua dedicação já havia chegado a um nível onde era difícil imaginá-lo fazendo qualquer outra coisa na vida. Na verdade, ele sequer parecia lembrar de como as coisas eram antes de começar a trabalhar para %Noah%.
  Depois de recebê-lo com um “aí está você”, Todd passou uma seleção de quais poderiam ser as perguntas da entrevistadora, e eles gastaram algumas horas ensaiando as respostas mais adequadas.
  %Noah% não gostava daquela ideia. Pensava diferente de Phillips. Algo espontâneo poderia cativar mais pessoas, porém Todd temia que as palavras erradas fossem ditas em um improviso, e em uma campanha contra Italia Whitmore aquele tipo de deslize não podia acontecer.
  %Wessels% já havia perdido as contas de quantas vezes ouviu o assessor repetir a última frase.
  Às vezes desejava que pudesse se livrar daquilo tudo e voltar ao tempo em que sua maior preocupação era levar Amélia ao baile da escola. Então %Noah% respirava fundo e se conformava com a impossibilidade de seus pensamentos se tornarem realidade.
  Naquela manhã, ele precisava vestir a máscara de que estava tudo bem e não lhe restava dúvida alguma quanto ao seu propósito.
  A entrevista da vez seria gravada para um programa televisivo local, onde o candidato a senador permitia algumas perguntas sobre sua campanha eleitoral, bem como questões de cunho pessoal que ele responderia de forma treinada para o público se identificar, porém sem revelar coisas demais sobre si. Aquilo tomaria toda a sua manhã e %Noah% apenas teria um intervalo pequeno para almoçar e depois seguir para o próximo compromisso do dia, uma visita à ala infantil do hospital.
  Já fazia alguns minutos que Phillips havia se retirado para preparar o carro que seria utilizado pelo candidato naquele dia. Eles ainda tinham quase duas horas até o início da entrevista, ainda assim, chegar adiantado sempre causava uma boa impressão.
  %Noah% estava sentado na cadeira diante de sua mesa do escritório e tentava limpar seus pensamentos naquele momento porque pensar demais antes dos eventos nunca funcionava para ele. Se manter calmo e sereno era a melhor alternativa.
  E não era surpresa alguma que Amélia o tivesse ensinado aquilo. Ela era responsável por tantas coisas sobre ele…
  %Wessels% suspirou e olhou para a janela. O céu lá fora era de um azul límpido e ele imaginou que a temperatura deveria estar agradável.
  Seria o dia perfeito para tirar uma folga e apenas aproveitar aquele clima, no entanto, aquilo não aconteceria tão cedo.
  O candidato então enterrou qualquer outro pensamento que pudesse surgir sobre o assunto quando Todd retornou ao escritório, acompanhado por Charles %Mikkelsen%.
  — Preparado para ser metralhado de perguntas, senhor %Wessels%? — o homem puxou conversa, enquanto os três seguiam para fora da casa, onde o carro já os aguardava.
  %Noah% fez uma careta.
  — Já falei do quanto soa engraçado você me chamar de senhor? — brincou com seu chefe de segurança, que acabou rindo.
  — Força do hábito. Um dia perco a mania.
  — Acredita mesmo nisso? — %Wessels% ergueu uma sobrancelha, cético, e ambos voltaram a rir.
  — Agora… Lembre-se, %Noah%… — Todd começou a falar e %Noah% sabia que não adiantava cortá-lo, então apenas deixou o assessor repetir as mesmas orientações de mais cedo.

  Vou tentar falar mais baixinho da próxima vez.

  Por algum motivo, de repente seus pensamentos vagaram para aquele momento, trazendo aquelas mesmas sensações que o atingiram na cozinha de sua casa. Porém não era hora e muito menos lugar para ter %Selene% %Mikkelsen% rondando sua mente. Afinal de contas, o pai dela estava bem ali.
  Por Deus, Charles o mataria se soubesse das coisas que %Noah% andava imaginando.
  O candidato conteve um suspiro, então focou sua atenção no assessor, determinado a realmente escutá-lo porque assim não pensaria no que não devia.

  — Hoje temos um convidado muito especial no nosso programa. Ele é um dos candidatos mais jovens pelo estado de Maryland e carrega um legado e tanto nas costas. Com vocês, %Noah% %Wessels%! — Ruth, apresentadora do programa, o anunciou, e %Noah% foi orientado a olhar para a câmera focada nele. Tinham optado por iniciar com o homem já sentado na poltrona diante da mesa da mulher, com quem trocou algumas palavras antes das gravações começarem.
  Uma música de poucos segundos seguiu as falas dela, então dessa vez lançaram um sinal a Ruth, indicando que podia voltar a falar.
  — %Noah%, seja muito bem-vindo ao nosso programa. Muito obrigada por topar vir até aqui conversar um pouco conosco. — Sorriu abertamente, e o homem se endireitou sutilmente para respondê-la.
  — Eu que agradeço a vocês pelo convite e pelas boas-vindas. É um prazer estar aqui. — Retribuiu o gesto dela de forma cordial.
  — Antes de qualquer coisa, eu preciso falar do quanto esse homem é cheiroso, pessoal. — O comentário foi lançado para descontrair e funcionou, porque %Wessels% acabou rindo baixo.
  — Oh, muito obrigado. Se quiser, eu passo pra você o nome do perfume que eu uso. — Sentiu-se à vontade o suficiente para devolver.
  A mulher conteve um pequeno suspiro.
  — Por favor, me passe. Vou fazer meu marido usar — brincou novamente, então trocou sua posição na cadeira e se inclinou um pouco na direção de %Wessels%. — Mas vamos falar um pouco mais sério agora… Ou talvez não. Você sabia que tem uma legião de fãs?
  O homem a olhou com uma expressão um tanto surpresa, então sorriu.
  — Tenho visto que as pessoas acompanham meu trabalho e têm demonstrado muito apoio à minha campanha, mas, sendo honesto, ainda não tinha ouvido falar em legião de fãs, não.
  — Jura? — a mulher acrescentou, sem acreditar que ele realmente não fazia ideia daquela informação.
  — Estou falando sério, Ruth. — Achou graça da reação dela.
  — Minhas fontes me disseram que talvez você fosse dizer isso. E por esse motivo preparei uma coisa para você, %Noah%. — Piscou na direção dele, então apontou para uma grande tela ao lado deles.
  %Wessels% não hesitou em prestar atenção ali, porque, no mesmo instante, um vídeo começou a rodar.
  Primeiro, foi feita uma introdução sobre a candidatura dele, os caminhos que o homem percorreu em sua carreira política, para então chegar ao ponto destacado por Ruth, a popularidade de %Noah%.
  Ela tinha razão, a quantidade de pessoas que o adoravam era grande, principalmente entre as mulheres, e isso fez o homem questionar como não havia percebido antes.
  Entretanto, não precisou de muito tempo para descobrir. O motivo era simples: %Noah% estava feliz demais ao lado de sua belíssima esposa e depois focado demais na campanha.
  O vídeo encerrou após algumas declarações de fãs e as câmeras se voltaram para o candidato a senador.
  — Agora você acredita? — Ruth brincou, o que o fez sorrir.
  — A única coisa que consigo responder é: uau! Agradeço mesmo o apoio e o carinho de cada um de vocês! — Sentiu-se até um tanto sem jeito.
  — Acredite, nós é que te agradecemos, viu? — O sorriso que a mulher lhe lançou tinha um tom diferente, porém %Wessels% continuou com a mesma postura educada. — Mas agora vamos mais além no assunto. Vamos falar da sua candidatura ao senado. O que te motivou a isso?
  %Wessels% não precisou pensar para responder. Primeiro porque Todd havia o instruído sobre aquela pergunta e segundo porque era mesmo instintivo dele.
  — Em resumo, porque quero ajudar as pessoas. — Foi enfático. — Sabe, Ruth, eu sei que tem a questão do legado que o meu nome carrega. É quase uma espécie de dinastia, já que meu pai foi senador e meu avô antes dele, mas não se trata disso. Eu quero ser mais do que o meu nome ou apenas um rosto bonito, entende? Eu quero ouvir o que as pessoas têm a dizer e ajudá-las a ter uma qualidade de vida melhor.
  — Excelente resposta, preciso admitir — Ruth comentou, assim que %Wessels% cessou sua fala.
  No canto do estúdio de gravação, Todd Phillips estufou seu peito de forma quase instantânea, embora o crédito daquela resposta nem fosse dele. %Noah% havia usado um discurso próprio.
  — Apenas a verdade. — %Wessels% deu de ombros, o que fez a mulher sorrir talvez pela milésima vez.
  — De fato, você tem construído uma carreira de muitas conquistas e ajuda ao próximo. O rostinho bonito é o bônus. — Mais uma vez, a mulher piscou em sua direção.
  Ruth questionou mais algumas coisas em relação à campanha de %Noah%, as quais o candidato respondeu com sinceridade, adaptando algumas instruções de Todd. Talvez o assessor não fosse ficar contente com aquilo, mas desde que funcionasse, estava tudo certo.
  — O que você tem a dizer sobre Italia Whitmore? — A pergunta chamou sua atenção e ele apenas franziu levemente o cenho antes de responder.
  — Acho ela uma forte candidata. É determinada, inteligente, e é inegável o quanto é competente.
  Mais uma vez, Ruth se surpreendeu com a resposta do candidato.
  — É isso? Nenhuma alfinetadinha? — questionou, em tom de brincadeira.
  — Eu não sou de jogar sujo, Ruth. Quero ganhar essa eleição sem precisar derrubar ninguém. — Seu tom de voz soou um pouco mais sério.
  — Vem cá, será que você vai continuar pensando assim depois que ver outra coisa que preparei pra você? — Ruth o olhou com a expressão de quem sabia de muita coisa.
  — Você só vai saber quando mostrar. — %Noah% deu de ombros.
  — Dá uma olhada então. — Apontou novamente para a tela e o candidato se virou com calma para prestar atenção no vídeo que se iniciou no mesmo instante.
  As imagens mostravam Italia sentada no mesmo lugar onde %Wessels% estava.
  — Então, Italia, o que você tem a dizer sobre %Noah% %Wessels%? — Ruth a questionou, da mesma forma que fez com o homem.
  — O que eu tenho a dizer sobre %Noah% %Wessels%… Por que você quer saber especificamente sobre ele, Ruth? — a mulher devolveu a pergunta com uma sobrancelha levemente arqueada e um sorriso esperto desenhando os lábios.
  Italia tinha uma postura invejável de quem não se deixava abalar por nada, sua determinação e garra estavam bem estampados em seu rosto e era impossível não notar o brilho em seus olhos. Ela lutava com unhas e dentes para vencer aquela eleição.
  %Noah% a admirava por isso.
  — Bom, ele é seu maior oponente nessas eleições. Qualquer outro candidato seria brincadeira de criança para você, vamos admitir. — O bom humor de Ruth parecia nunca se abalar.
  Whitmore não hesitou em sua resposta, como se já estivesse muito bem preparada para aquele questionamento.
  — Não estou preocupada com %Noah% %Wessels%, Ruth. É claro que ele tem um legado criado pelos seus antecessores, mas, no final das contas, não passa de um rapaz mimado, um rostinho bonito. E o povo quer alguém que faça a diferença, que lute por suas necessidades, não um cara bonito.
  Dizer que aquelas palavras não afetaram %Noah% seria uma tremenda mentira. %Wessels% já havia deixado claro que ser visto como um rosto bonito era a última coisa que desejava.
  Aquilo fez o lábio do homem se encrespar sutilmente, mas sua irritação não era apenas com Italia, que não o conhecia e falava como se o fizesse. A raiva de %Noah% também se dirigia a Ruth, porque estava mais do que óbvio, ela havia conduzido as duas entrevistas daquela forma de propósito, incitando as intrigas entre os oponentes.
  Típico, ele devia ter previsto.
  Ou, nesse caso, aquele era o trabalho de Todd, não era?
  — E agora, %Noah%? Você mantém a sua opinião sobre sua concorrente? — A apresentadora continha um sorriso maldoso.
  %Wessels% se recompôs rapidamente e tornou a encará-la com serenidade porque não era o suficiente para abalá-lo.
  — Mantenho, sim. Veja bem, Ruth, ela tem o direito de pensar o que quiser de mim e discutir sobre isso não vai mudar nada, não é? Continuo admirando o quanto ela é competente e inteligente.
  A expressão de choque não poderia ser maior no rosto da mulher, e %Noah% acabou sorrindo de leve.
  — Uau. Eu realmente não esperava por essa — Ruth confessou, e fez o homem rir baixo.
  — Imagino que não — deixou aquele comentário escapar.
  Embora ainda estivesse desconcertada, a apresentadora tratou de retomar às perguntas logo, explorando mais um pouco sobre a campanha de %Noah%, em quais lugares ele pretendia ir, algumas lições que tirava ao fazer seus comícios e, é claro, detalhes sobre suas promessas de campanha.
  Como já era esperado, o foco da conversa passou para o cunho pessoal. A princípio, Ruth o questionou sobre sua rotina diária, coisas que o homem gostava de fazer em suas horas vagas e se ele imaginava como seria sua vida depois da eleição.
  Todd havia o preparado para tudo aquilo, então %Wessels% respondeu sem muitas dificuldades, esqueceu a provocação quanto a Whitmore e se divertiu um pouco a uma certa altura da entrevista.
  Isso até o momento seguinte.
  — Não é segredo algum que você perdeu sua esposa há pouco tempo e sentimos muito por isso. Na verdade, muitas pessoas pensaram que você desistiria de sua campanha, mas aí está você, %Noah%, firme e forte. Você acha que foi essa perda que o tornou mais forte?
  %Wessels% não podia dizer que não estava esperando uma pergunta como aquela, no entanto, aquilo não a tornava menos invasiva e dolorosa.
  Ele engoliu a seco, desviou seu olhar de Ruth e precisou de alguns segundos de silêncio, o que preocupou a apresentadora. Ela tinha consciência de como algumas perguntas poderiam deixá-lo desconfortável, mas não queria de maneira alguma feri-lo com elas.
  — Se não quiser responder, não precisa. Nós editamos o vídeo e cortamos essa parte, senhor %Wessels%. — Diminuiu seu tom de voz e deixou de lado a pose de apresentadora por alguns instantes.
  %Noah% negou com a cabeça e voltou a encará-la.
  — Tudo bem. Não se preocupe. — Abriu um pequeno sorriso.
  Falar sobre Amélia nunca deixaria de ser doloroso.
  — Quando quiser, então. — Ela o retribuiu, ligeiramente sem graça. Desejou internamente voltar no tempo e impedir a si mesma de fazer aquela pergunta. Sabia bem que alguns limites não podiam ser ultrapassados e aquela era a pior parte de seu trabalho.
  %Wessels% precisou de alguns segundos apenas para controlar as próprias emoções. Todd havia lhe orientado sobre o que responder naquele caso também, mas %Noah% soube desde que colocou seus pés naquele lugar que não conseguiria falar sobre Amélia de outra forma que não fosse com todo o seu coração.
  — Desde a primeira vez em que eu vi Amélia, ficou claro para mim o quanto ela mudaria a minha vida. Por um tempo, eu não soube como, e algumas vezes até cheguei a cogitar que nunca a teria como esperava, mas eu a tive. Eu conheci Amy por inteiro, e ela me conheceu da mesma forma. Amélia fez o que nem eu mesmo consegui fazer por mim. Por causa dela, eu passei a acreditar em mim mesmo, a enxergar o que antes eu não enxergava. Algumas pessoas acham que eu segui a carreira política por causa do meu sobrenome, mas a verdade é que sempre foi tudo por ela. — Respirou fundo. — Não, Ruth. Não foi a perda que me fez mais forte. O luto apenas me lembra o que escapou pelos meus dedos. Quem me torna mais forte sempre foi e sempre será Amélia.
  Ao terminar sua fala, percebeu-se uma pequena falha na voz de %Noah%, e um silêncio seguiu pelo local. Silêncio esse, onde cada pessoa ali presente permaneceu encarando o candidato a senador, ainda absorvendo suas palavras e a intensidade nítida em cada uma delas.
  Não havia como negar o quanto %Wessels% amava aquela mulher.
  — Uau… — Ruth deixou escapar e respirou fundo para conter a emoção que ameaçou transbordar de seus olhos. — Isso foi… Isso foi realmente bonito de se ouvir. E é algo tão raro. Tenho certeza de que, onde quer que sua esposa esteja, a emoção chegou até ela também. — Então sorriu novamente.
  — E eu tenho certeza de que ela deve estar odiando o nó que dei na minha gravata. Ela sempre refazia quando tinha a chance — %Noah% soltou, em um tom de brincadeira, para descontrair um pouco, e aquilo funcionou perfeitamente. Logo o estúdio voltou ao clima agradável, e Ruth resolveu fazer uma chamada para o intervalo.
  %Wessels% seguiu em busca de um pouco de água e sentiu que Todd vinha em sua direção, provavelmente desejando criticá-lo por não usar o discurso combinado, e o candidato o dispensou com um olhar mais sério.
  Não demorou muito para que o último bloco da entrevista iniciasse e mais perguntas um tanto constrangedoras se seguiram. Com elegância, %Noah% respondia a todas elas.
  — Senhor %Wessels%, temos uma penúltima pergunta para o senhor, e eu vou pedir de novo para que olhe para o telão.
  Imediatamente, o homem atendeu às palavras de Ruth e conteve uma franzida no cenho ao perceber que fotos de uma balada local surgiam na tela.
  — Essas imagens tomaram conta das redes sociais hoje mais cedo. O senhor reconhece a moça que está nelas?
  Era óbvio que ele conhecia, e Ruth sabia disso muito bem.
  — Claro que conheço. É a Carter. — %Noah% precisou de bastante força de vontade para manter a boa educação.
  Aquilo não havia sido planejado.
  — Carter %Wessels%? Sua irmã mais nova? — inquiriu, ao que %Wessels% respondeu com um aceno positivo. — Ela e sua esposa eram muito próximas, certo? As duas se tratavam como irmãs e tudo. Você diria que esse tipo de comportamento da sua irmã é uma maneira dela de lidar com o luto?
  Carter estava visivelmente alterada nas fotos. Inclusive, em uma delas, havia tentado acertar um dos paparazzi. %Noah% não soube dizer se a irmã havia apenas bebido ou usado alguma droga, porém seu estado era deplorável.
  Pela primeira vez, o homem ficou sem saber o que dizer. Nada havia o preparado para aquilo e, honestamente, ele não achava que fosse possível. Quem é que responderia aquele tipo de pergunta numa boa?
  %Wessels% desviou seu olhar de Ruth e negou com a cabeça, irritado com a invasão.
  — Isso, Ruth, é algo que você teria que perguntar à própria Carter — respondeu, enquanto lutava ao máximo para manter o tom de voz controlado e, mais uma vez, notou a expressão sem graça da apresentadora quando voltou a encará-la.
  — De fato, senhor %Wessels%. — Ruth engoliu em seco. — Vamos à última pergunta então. Que mensagem você gostaria de deixar aos seus eleitores?
  %Noah% repetiu o discurso que Phillips havia o feito memorizar de uma forma automática. Não estava mais confortável naquele estúdio, sentia agonia e o quanto antes aquilo acabasse melhor.
  Ele só voltou a respirar enquanto seguia em direção ao seu carro.
  — %Noah%, eu sinto muito. Não era para perguntarem sobre Carter. A fotografia vazou antes de conseguirmos tirá-la de circulação — Todd tentou se explicar, e recebeu um olhar sério do candidato.
  — Apenas cancele o que eu tenho para o resto do dia, Todd. Preciso encontrar minha irmã.

💋

  Por mais que não tivesse dormido o tanto que gostaria, as horas restantes de sono foram agradáveis para %Selene%.
  Depois de seguir de volta para o seu quarto, com suas pernas trêmulas devido à ousadia de suas palavras, a mulher se jogou na cama, afundou a cabeça em seus travesseiros e deixou outro sorriso ladino estampar seus lábios.
  A reação de %Noah% %Wessels% havia sido realmente deliciosa aos olhos dela. %Mikkelsen% conseguiu distinguir a surpresa, acompanhada pelo que parecia ser uma parcela de interesse, mascarada com algum conflito interno.
  %Selene% se sentia completamente afetada pela ideia de o homem ter algum interesse nela, porém logo ela voltava a pensar na questão do conflito, e ela mesma tinha o seu.
  Ele atendia pelo nome Pietro Langdon e, pelo restante da noite e uma parte da manhã, não se ouviu falar no rapaz.
  Nenhuma mensagem de texto, DM no instagram, curtida, ou até mesmo um sinal de fumaça.
  Aquilo estava muito estranho e foi inevitável para %Mikkelsen% não pensar no pior.
  Talvez Pietro já tivesse enjoado daquela vida de chamadas de vídeo e não quisesse mais nada com ela. Algo que passava pela cabeça da jovem com mais frequência do que ela gostaria desde que decidiu se mudar sem Pietro.
  — Não, isso é ridículo — murmurou para si mesma.
  Faziam o quê… Três dias que estava na cidade?
  %Selene% não soube dizer se não ter encontrado %Noah% naquela manhã havia sido bom ou ruim. Por um lado, queria ver como o homem reagiria depois do que acontecera na noite passada; por outro, sentia uma pontada de decepção por não ser agraciada com a visão de alguém como ele tomando café.
  %Mikkelsen% só percebeu que estava fantasiando com %Wessels% ali, naquela mesa, quando ouviu a voz de Julieta comentar qualquer coisa com ela.
  Aquilo não podia acontecer. Ela precisava voltar a focar em Pietro e era o que faria.
  Ao voltar para o quarto, pegaria o celular e tornaria a tentar alguma comunicação. Precisava lutar pelo seu relacionamento, certo?
  Mas aquilo acabou não acontecendo. %Selene% estava chateada com o sumiço do namorado e uma parte sua também clamava pelo amor próprio, então se ele quisesse vê-la, que corresse atrás.
  Resignada, a jovem %Mikkelsen% optou por concentrar suas energias na decoração de seu quarto e usou algumas coisas que havia comprado em seu passeio pela cidade.
  Passados alguns minutos, %Selene% se sentia animada, principalmente ao ver que, aos poucos, aquele lugar parecia de verdade o seu cantinho. Sua estadia naquela casa podia até ser temporária, mas já que haviam lhe dado carta branca, ela ia aproveitar.
  Alguma música da banda Royal Blood tomava conta do ambiente e, balançando o corpo de um lado para o outro, ela seguia colocando seus pertences no lugar. Precisava tirar mais algumas coisas de uma mala e passou a cantarolar ao acompanhar o restante da playlist, enquanto se ocupava com aquilo, sem se importar com o passar das horas ou com o roncar de seu estômago ao denunciar que o horário de almoço se aproximava.
  Os pensamentos da %Mikkelsen% estavam tão perdidos naquele momento que ela só percebeu que o celular tocava quando olhou na direção do aparelho.
  — Oh, droga! — Se aproximou, acendeu o visor que havia se apagado há poucos segundos e leu ali o nome que estava desejando desde a noite anterior.
  Hesitou em atender, cogitando deixá-lo sofrer um pouco só para se vingar, porém aquela já era a quarta ligação que o rapaz fazia.
  Acabou, por fim, se rendendo e colocou a ligação no viva voz para continuar fazendo suas coisas.
  — Pietro. — Sorriu fraco, e ouviu o namorado suspirar baixo do outro lado da linha.
  — Eu sei. Me desculpe por ontem, amor. Passei super mal e não consegui te avisar.
  %Selene% continuou estranhando aquilo e seu cenho se franziu.
  — Por que não? O que houve com você? — questionou, ao engolir a dose de sarcasmo.
  — O médico falou que era intoxicação alimentar. Eu passei praticamente a noite inteira vomitando, e, quando voltei do hospital, já era tarde demais para te ligar. Essa porcaria de celular também está com a bateria viciada, você sabe. Minha bateria morreu logo na sala de espera. — As explicações não paravam, e Pietro parecia desesperado em fazer a namorada acreditar nele.
  — Intoxicação com o quê? — Foi a primeira coisa que ela indagou, ao interrompê-lo, e sem conseguir evitar sentir uma pontada de preocupação. Ainda assim, era difícil de comprar aquela história.
  — Aí é que está. Eu não faço ideia. Nós comemos uma torta de carne lá no Jeffrey, talvez tenha sido isso.
  %Mikkelsen% assentiu. Pietro não havia dito nada a ela sobre ir até a casa de Jeffrey. %Selene% não cobrava todos os passos do namorado, porém ele sempre fazia questão de dizer aonde ia.
  — E como você está se sentindo agora? — Ainda não sabia se acreditava naquilo e, pela centésima vez, odiou a distância entre os dois.
  — Um pouco melhor. — Langdon sorriu. — Ao menos eu consegui parar de vomitar.
  — Tem certeza de que foi intoxicação mesmo? — A pergunta acabou escapando.
  — Foi o que o médico disse, amor. Pode perguntar para a minha mãe. E olha, não fui só eu que passei mal, tá? O Jeff também ficou ruim, só não foi para o hospital.
  — Acredito em você. Eu só fiquei pensando que também poderia ser alguma virose por conta dos vômitos.
  — Que bom que não era, né? Logo já estarei cem por cento e nós podemos fazer outra chamada de vídeo. Ainda quero terminar o que a gente começou ontem. — Uma nota de malícia tomou conta da voz de Pietro, e aquilo arrancou um meio sorriso de %Selene%.
  Ela mordeu a boca quando voltou a pensar em um certo alguém parado a olhando e se reprimiu por aquilo.
  — Eu também quero. Agora me conta o que você foi fazer na casa do Jeffrey ontem. Me diga que vocês estão fazendo grupo de estudos e não torneio de jogos outra vez.
  Pietro riu culpado.
  — Maratona de Star Trek.
  Ela revirou os olhos.
  — A intoxicação alimentar então foi a vingança do universo. Tá vendo só? — Ele continuou a rir e aquilo a fez sorrir mais leve pela primeira vez. — Estou com saudades.
  — Eu também, amor. Muita. Me desculpe por ontem — pediu novamente, com uma voz mais branda.
  — Tudo bem. Só não me assuste assim outra vez. Eu odeio quando as pessoas tomam chá de sumiço, você sabe disso.
  — Sim, eu sei.
  Depois disso, outros assuntos vieram à tona na conversa e toda a situação foi ficando esquecida na mente de %Selene%. Não havia motivos fortes o suficiente para que insistisse naquilo.
  Ela contou sobre algumas coisas que viu na cidade, comentou o quanto estava ansiosa para as aulas que começariam no dia seguinte, e Pietro a atualizou sobre o que andava acontecendo no seu círculo de amizades.
  A uma certa altura, %Mikkelsen% até se atirou na cama, se permitindo descansar um pouco, porque não faltava muito para a arrumação terminar.
  Quando já faziam mais de duas horas que os dois conversavam, Langdon anunciou que precisava desligar porque a mãe o chamava para comer algo e a jovem assentiu e se despediu com a promessa de que mais tarde eles fariam a tal chamada de vídeo.
  %Selene% largou o aparelho com um sorriso estampado nos lábios, satisfeita pela angústia de antes ter sumido, e cogitou levantar e ir até a cozinha comer alguma coisa, já que havia dispensado o almoço quando Julieta foi chamá-la.
  Antes que pudesse de fato colocar sua ideia em prática, no entanto, a jovem %Mikkelsen% foi surpreendida pela porta de seu quarto se abrindo com urgência.
  O susto a fez levar a mão ao peito e se sentar na cama, arregalando os olhos ao notar uma figura feminina e desconhecida fechar a porta tão rápido quanto a havia aberto.
  Ela não devia ser muito mais nova que %Selene%, porém era alguns centímetros mais baixa. Seus cabelos negros eram lisos e perfeitamente cortados em um chanel tão estiloso quanto as roupas da garota, e o erguer de sobrancelha deixou claro que ela não estava se importando muito em invadir o quarto de alguém.
  — Ok, isso é inédito — a garota foi a primeira a falar, enquanto avaliava de cima a baixo uma %Selene% boquiaberta.
  — Bota inédito nisso — %Mikkelsen% retrucou, sem se deixar intimidar, e retribuiu o olhar da moça com curiosidade, que balançou a cabeça e riu.
  — Seguinte, se você deixar eu me esconder aqui só por uns minutos, eu te conto o motivo.
  — Tá me parecendo que eu não tenho a opção de não deixar — %Selene% brincou, e a garota riu mais.
  — É meu irmão pé no saco. Ele tá atrás de mim e eu não tô muito afim de ouvir ele me enchendo a paciência só porque ele precisa manter a imagem dele e blá-blá-blá. — Fez uma careta e deu língua.
  Os olhos da %Mikkelsen% se arregalaram quando ela percebeu de quem se tratava.
  — Você é irmã do %Noah%? — exclamou e acabou se xingando mentalmente quando a garota lhe encarou alarmada. — Desculpa. É que eu nem sabia que ele tinha uma irmã. Não que eu saiba muita coisa sobre ele, eu acabei de chegar aqui e tudo mais, mas…
  — Relaxa. Uma hora ou outra você ia acabar descobrindo sobre mim. Como o %Noah% é um bom moço, os paparazzi adoram me perseguir. Por isso mesmo que ele anda querendo falar comigo. Uma baladinha e eles me fazem parecer uma perdida — bufou e revirou os olhos ao se aproximar para se sentar na beirada da cama.
  — Nem imagino o quanto isso deve ser péssimo, mas acho que seu irmão deve só estar preocupado contigo, sabe? Por que não dá uma chance? Ele não me pareceu tão ruim assim, não.
  Muito menos chato, né. Na verdade, o achei delicioso.
  A irmã do cara na frente dela e %Selene% pensava aquelas coisas.
  Ela não valia nada.
  — Não é que você pode estar certa? — A outra suspirou. — Qualquer coisa eu também posso sair fora. — Deu de ombros.
  — É isso. — %Mikkelsen% assentiu e recebeu um sorriso.
  — Carter %Wessels%. — A garota estendeu a mão para ela ao parecer ter se atentado ao fato de que as duas não haviam se apresentado só naquele momento.
  — %Selene% %Mikkelsen%. — Segurou a mão de Carter e retribuiu o sorriso.
  — Ah, você é a filha do Charlie! — Os olhos dela se iluminaram. — Vamos sair qualquer dia desses. Aposto que ainda não te apresentaram a vida noturna desse lugar.
  — Não mesmo. E eu aceito. Seria ótimo.
  — Bom, eu vou parar de te incomodar e ir atrás do %Noah%. — Se levantou da cama e foi andando até a porta. — Obrigada por me esconder.
  — Sem problemas. — %Selene% piscou para ela e viu a garota sair do quarto sem nem de fato se despedir. Aquilo a fez rir.
  Carter %Wessels% era uma figura a ser estudada, aquela foi a sua conclusão.

🏛

  %Noah% estava exausto. Toda aquela situação durante a entrevista tinha o deixado chateado de verdade, e, por mais que tivessem garantido a retirada daquele trecho, as palavras de Ruth continuavam ecoando em sua mente.
  Sabia muito bem o quanto o seu luto estava atingindo as pessoas ao seu redor, mas ter aquilo jogado na cara dele daquela forma foi como arrancar os pontos de um ferimento sem ter esperado todo o processo de cicatrização.
  Pensar que Carter estava por aí, completamente perdida e agindo de forma imprudente para preencher o vazio deixado pela morte de Amy doía em sua alma.
  Era irônico para %Wessels% imaginar que sua esposa saberia exatamente como lidar com a jovem. Ela sempre teve muito mais jeito com Carter do que ele.
  Quem olhasse assim, poderia até achar que %Noah% não se dava com a irmã mais nova, porém aquilo não era verdade. Os dois sempre tiveram uma boa relação e um laço bem forte de amizade, do tipo que lhes permitia compartilharem confidências e estarem sempre prontos para defenderem um ao outro. No entanto, conforme Carter foi crescendo, os dois foram se distanciando, e quando o homem iniciou sua carreira política, foi como se tivesse nascido uma barreira entre eles. Barreira essa que apenas Amélia parecia capaz de ultrapassar.
  Como %Noah% queria reverter aquilo!
  Um suspiro cansado ecoou dos lábios do candidato assim que o carro parou diante da mansão e Todd se virou na direção de %Wessels% pela milésima vez.
  — Novamente, %Noah%, eu sinto muito. A foto da Carter vazou no twitter. Nós tentamos derrubar a conta que publicou, mas você sabe como essas coisas se espalham nas redes sociais.
  — Se você sabia que a foto tinha vazado, devia ter avisado sobre esse tipo de pergunta, Todd. Em vez disso, mesmo eu odiando esse negócio de ser treinado para responder às entrevistas, focou em coisas que sequer me perguntaram. — %Wessels% foi sincero. Phillips abriu a boca para respondê-lo, porém %Noah% o cortou, pois não queria mais estender aquela conversa. — De qualquer forma, não é com isso que estou preocupado. Vocês localizaram a Carter?
  — Sua mãe estava tentando falar com ela, mas sem sucesso. Quem sabe ela tenha voltado para a mansão?
  — Quem sabe. — %Noah% se inclinou para abrir a porta e sair do carro. — Até amanhã, Phillips.
  — Não se esqueça que amanhã você vai visitar a universidade.
  — Você nunca me deixa esquecer nada, Todd. — Sorriu.
  — É o meu trabalho. — O outro deu de ombros, então o candidato seguiu para dentro da mansão.
  Sua primeira preocupação deveria ser se livrar daquelas roupas, comer alguma coisa e relaxar um pouco, porém ele não sossegaria enquanto não conversasse com Carter, por esse motivo, todos os seus passos foram automáticos até que ele finalmente pudesse ir atrás da irmã.
  %Wessels% questionou alguns empregados sobre o paradeiro da irmã e procurou por ela em alguns cômodos da casa, sem sucesso.
  Tentou não pensar em certas lembranças assim que avistou o corredor que levava até o quarto de %Selene% %Mikkelsen% e sentiu uma palpitação engraçada ao ver porta se abrir, seguida por algo que beirava à decepção quando a pessoa que saiu por ela foi Carter e não a filha de seu chefe de segurança.
  Negou com a cabeça discretamente, confuso com a própria reação, mas não podia pensar naquilo, então focou sua atenção em Carter.
  — %Noah%! — Os olhos da garota imediatamente se arregalaram ao dar de cara com o irmão.
  — Carter. — Ele deixou uma sobrancelha arqueada em um questionamento mudo do motivo de ela estar saindo do quarto de %Selene%.
  — Por que não me disse que a filha do Charlie tinha chegado? Eu já podia ter levado ela para conhecer a verdadeira Baltimore. — Um sorrisinho travesso se formou nos lábios dela.
  — Sobre isso… Precisamos conversar.
  — Ih, lá vem. — Revirou os olhos.
  — Podemos fazer isso em outro lugar? Tenho certeza de que a senhorita %Mikkelsen% não vai se sentir muito confortável ouvindo essa conversa ali do quarto dela. Aliás, ainda estou esperando você me dizer o que estava fazendo lá. — %Noah% a guiou pelo corredor em direção à sala de televisão.
  — Eu estava conversando com a garota, relaxa. Entrei ali por engano porque queria me esconder de você, só que ela é legal demais e me convenceu a te dar uma chance.
  — Ela te convenceu? — %Wessels% arqueou uma sobrancelha.
  — Sim. Disse algo sobre você apenas estar preocupado comigo.
  Ele não sabia se ficava surpreso, ou se sorria pelo palpite correto. Resolveu que mudaria o foco de seus pensamentos, porque %Selene% %Mikkelsen% era um terreno perigoso.
  — Bom, ela está certa. Eu realmente estou preocupado contigo. — Esperou a irmã se acomodar no sofá e seguiu para a poltrona ao lado.
  — E eu estou ótima. Não precisa disso, irmãozinho.
  %Noah% suspirou.
  — Sei que não tenho sido um bom irmão, Carter. Eu ainda estou tentando me ajustar com tudo o que aconteceu, e eu sei que isso não é lá uma desculpa, mas quero que saiba que estou aqui agora. Você pode conversar comigo sempre que precisar.
  A expressão de Carter não se alterou.
  — Obrigada, %Noah%. De verdade. Mas eu estou bem, é sério. — Deu de ombros, então desviou o olhar e passou a encarar as próprias unhas.
  Ela sempre agia daquele jeito quando escondia as coisas.
  — Confio em você, minha irmã. Só queria que soubesse disso. Sei que a morte da Amy nos deixou um vazio enorme e lidar com isso é a pior das torturas, mas nós precisamos, não é? — Sorriu fraco.
  — É — Carter admitiu, sem saber mais o que dizer.
  Um silêncio desconfortável reinou entre eles.
  — Todd deve ter te enchido a paciência por causa do twitter, não é? — Ela resolveu quebrá-lo.
  — Ele me enche a paciência por qualquer coisa. — O comentário a fez rir baixinho.
  — Por que você não se livra desse assessor? Melhor, por que não desiste dessa campanha? — Era uma pergunta sincera.
  — Por ela, Carter. — %Noah% suspirou outra vez. — Quero que Amy tenha orgulho de mim de onde quer que esteja.
  Ele notou a irmã engolir em seco e respirar fundo, um gesto típico de quem tentava conter o choro.
  — Ela vai ter. A mulher era toda louca por você. — Sorriu de canto, então hesitou brevemente antes de se afastar, abrir um espaço ao lado dela e tocar no lugar, o chamando para se sentar ali. — Por que a gente não assiste algum filme de terror, como nos velhos tempos? E se enche de porcarias? Eu já sei que você desmarcou tudo por minha causa mesmo — falou convencida.
  %Noah% ponderou, mas, no fim, sabia que acabaria cedendo.
  — Eu desmarquei mesmo.

🏛

  O restante do dia havia sido mais tranquilo do que %Wessels% esperava. Ele e Carter resolveram assistir o filme mais recente da franquia Halloween e depois ficaram debatendo sobre os acontecimentos, exatamente como costumavam fazer anos atrás.
  %Noah% não era o maior fã de filmes de terror. Na verdade, ele sempre os assistia por causa de Carter, e ver o quanto a irmã parecia feliz pela companhia dele fez com que o candidato a senador se sentisse culpado. Então decidiu que dali para frente buscaria ser mais presente na vida de Carter, nem que para isso precisasse ouvir Todd Phillips lhe enchendo ainda mais a paciência.
  A irmã o fez pedir comida chinesa e depois disso se retirou para descansar um pouco, dizendo a %Noah% que ele devia fazer o mesmo, já que sua cara estava péssima.
  O comentário o fez rir, mas %Wessels% não tinha nem como discordar daquilo. Precisava de um bom banho e um bom descanso.
  O homem nem se preocupou em olhar as notificações em seu celular. Sabia bem que encontraria uma infinidade delas, e quaisquer que fossem os problemas da vez, deixaria para resolver no dia seguinte. Ele merecia aquilo.
  Assim que mergulhou a cabeça embaixo do chuveiro, uma exclamação de satisfação ecoou de seus lábios. Seus músculos relaxaram, agradecidos pela temperatura morna da água os atingindo, e %Wessels% procurou esvaziar sua mente.
  Não havia nada melhor do que um bom banho. Ao menos era o que %Noah% achava.
  Enquanto se dedicava ao ato de ensaboar seu corpo e eliminar qualquer resquício de sujeira, seus pensamentos o guiaram pelos acontecimentos mais recentes e contrariaram a ideia de não refletir sobre nada. Não se importou, já sabia que aquela era uma batalha perdida desde o início.
  Respirou fundo e sorriu mais uma vez, porque as coisas entre ele e Carter pareciam resolvidas, ao menos por hora, e não conseguiu deixar de pensar o quão curioso era a irmã ter ido parar justo no quarto de %Selene% %Mikkelsen%.
  Carter havia lhe dito que, pelo pouco que as duas conversaram, já tinha adorado a mulher e, por algum motivo, isso o fez sorrir ainda mais, porém um outro pensamento lhe ocorreu.
  Havia alguém que não gostasse de %Selene%?
  Ela era espontânea, inteligente, engraçada e linda. Estonteante, para ser honesto.
  %Noah% fechou os olhos e automaticamente o rosto da mulher surgiu em sua mente, tão nítido como se ela estivesse diante dele, sorria daquela forma jovial e dizia frases onde ele sempre via um duplo sentido e cogitava se estava ficando maluco, até notar a expressão travessa de %Mikkelsen% lhe deixar claro que não, %Wessels% não imaginava coisas.
  A insinuação feita na noite anterior voltou a povoar a mente de %Noah% e, como uma lufada de ar batendo contra o seu rosto, vieram as lembranças de %Selene% com a porta de seu quarto entreaberta, enquanto dizia todas as coisas que desejava.

  Eu quero você dentro de mim.

  %Wessels% sentiu sua respiração falhar de leve, então pressionou um lábio no outro e mergulhou a cabeça na água mais uma vez, numa tentativa mal sucedida de espantar aqueles pensamentos.
  De repente, imaginou o que teria visto se a porta estivesse um pouco mais aberta, ou quem sabe se, em vez de implorar pelo tal Pietro, ela implorasse por ele.

  Ah, %Noah%!

  Era como se realmente pudesse ouvir a voz de %Selene% ecoar em um gemido gostoso, então, assim como ele, %Mikkelsen% pressionaria um lábio no outro e abriria ainda mais as pernas para %Noah%, deixando exposta ali a intimidade dela, já que a única peça que cobria seu corpo era uma camiseta.
  Um grunhido tímido ecoou dos lábios do homem e ele encostou a testa contra a parede fria, mas nem aquilo foi o suficiente para fazê-lo escapar daquela fantasia.
  Percebeu então que, na verdade, ele nem queria. Precisava aliviar aquela tensão, só assim conseguiria tirar a mulher de seus pensamentos de uma vez por todas.
  Deixou sua moral de lado e, ao se entregar por fim àquela ilusão, guiou uma mão até seu pau, sentindo o princípio de ereção pulsar assim que seus dedos a tocaram. Envolvendo-o por inteiro, %Noah% deslizou a mão por toda a extensão e grunhiu de novo ao mergulhar ainda mais em seus pensamentos.

  %Selene% usava uma mão para acariciar o clitóris inchado e movimentava três dedos de forma circular, enquanto a outra apertava o seio por cima da camiseta e brincava com o mamilo duro de tesão. Sua cabeça estava inclinada para trás, os lábios entreabertos deixavam a respiração falha da mulher ecoar pelo ambiente e a cada segundo ela aumentava mais a intensidade da fricção.
  — Eu quero você me lambendo inteira, %Noah%, afundando seu rosto entre as minhas pernas, me sugando por inteira. Eu estou tão pronta pra você…

  — Porra… — a voz sôfrega do homem ecoou pelo banheiro quando ele pressionou os dedos na cabecinha de seu pau, a sentindo cada vez mais melada, e usou daquela lubrificação para espalhar por cada centímetro seu, movimentou a mão de forma lenta, aproveitou todas as sensações e imaginou que ali poderiam ser os lábios de %Selene%.

  Ele conseguia ver como ela estava excitada, a intimidade tão molhada que o líquido escorria por suas coxas e seguia um caminho perigoso que %Wessels% não hesitaria em explorar se assim ela permitisse.
  — Eu quero você, %Noah%. Se afunda em mim.

  Apoiou uma mão na parede e buscou apoio, porque suas pernas começaram a tremer enquanto os músculos de seu abdômen tensionaram em espasmos de tesão.
  — Ah, %Selene%… — Mordeu a boca ao deixar o nome dela escapar daquele jeito, a voz tão rouca denunciava exatamente o que ele fazia.
  A intensidade de seus movimentos aumentou, ele deslizava a mão com afinco, fazia uma pressão cada vez maior e impulsionava o quadril para frente e para trás, o que tornava tudo aquilo ainda mais prazeroso.

  — Eu quero você dentro de mim, %Noah%. Quero que me foda daquele jeito que só você sabe fazer.
  E, ao dizer aquilo, a mulher deslizou dois dedos para dentro de si e os afundou por inteiro, gemendo de um jeito alucinante enquanto mantinha os olhos fixos nele e um sorriso travesso em seus lábios.
  — Me fode, %Noah%. Se atola em mim assim… Por favor!

  — Caralho! Eu vou foder você todinha… — sussurrou desesperado.
  Os olhos dele se pressionaram com mais força, a respiração de %Wessels% se tornava cada vez mais falha, enquanto ele sentia um calor absurdo.
  O vapor do chuveiro parecia ter aumentado, mas aquilo não importava porque, de repente, ele se pegou imaginando como seria de fato estar dentro de %Selene%, a ouvir gemer mais o nome dele, o arranhar com suas unhas e rebolar contra seu membro pulsante.
  — %Selene%! — O nome da mulher ecoou de novo de seus lábios, o abdômen estremeceu com mais intensidade e os movimentos de sua mão eram rápidos, precisos, espalhavam o prazer por cada centímetro seu e o queimaram por inteiro.
  — Ah, porra! — Os espasmos aumentaram, o braço do homem afrouxou na parede e ele precisou se apoiar com o antebraço para não desabar.
  Ele estava perto. Tão perto!

  — Você é delicioso, %Noah% %Wessels%.

  Então %Noah% deixou um gemido mais alto e prolongado rasgar sua garganta, jogou a cabeça para trás e ofegou de um jeito absurdo enquanto tudo ao seu redor parecia girar, e piscar, e girar de novo, ao mesmo tempo. A sensação do ápice era tão intensa que seu corpo inteiro tremeu e seu membro expeliu todo o prazer de uma forma alucinante.
  — Puta que pariu… — Era tão bom poder xingar daquele jeito. Só os palavrões seriam o suficiente para expressar o quanto estava afetado.
  Fazia tempo que %Wessels% não gozava gostoso daquele jeito.
  Sua respiração demorou para ser recuperada. Ele se manteve apoiado na parede até sentir que a firmeza nas pernas havia voltado, então soltou um longo suspiro e voltou a se enfiar embaixo da água para espantar o calor absurdo que sentia.
  — Minha nossa! — Não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer.
  Ele tinha mesmo se masturbado no chuveiro feito um adolescente?
  Sim, ele tinha.
  E podia ser a própria adrenalina falando por si, mas, naquele momento, %Noah% não se importou com coisa alguma.
  As consequências que viessem depois. %Wessels% queria eliminar %Selene% %Mikkelsen% de seu sistema e sentia que acabava de sair bem sucedido.
  Mal sabia ele o quanto estava enganado.

Capítulo 04
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