Acordes e Compassos


Escrita porDébora Albino
Revisada/Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 2

POV %Débora% Quarto 402

  O silêncio do quarto de hotel era quase ensurdecedor comparado ao barulho das últimas quatro horas. O ar-condicionado zumbia baixo, mantendo o ambiente num frio artificial e estéril que %Débora%, curiosamente, adorava. Era o som da ordem sendo restabelecida.
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  Ela fechou a porta e encostou a testa na madeira fria por um segundo. O corpo ainda vibrava com a tensão residual do show, mas a mente girava em ritmo de balanço tático.
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  - Missão cumprida - murmurou para si mesma, permitindo-se um sorriso satisfeito. O único que ela daria naquela noite, longe dos olhares da equipe.
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  Ela caminhou até a poltrona de veludo cinza, chutando as botas de couro para longe com um gemido de alívio. Trabalhar com Gustavo Mioto não era apenas mais um contrato. Era o atestado de maioridade da D&R Produções Artísticas.
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  %Débora% e %Rayane% haviam construído a empresa à base de suor, planilhas de logística implacáveis e noites sem dormir. Nos bastidores, elas eram conhecidas como as "bombeiras" do mercado. Faziam trabalhos pontuais, cirúrgicos. Uma turnê desandando? Um lançamento que precisava de pulso firme? A D&R entrava, consertava a rota e saía de cena com a reputação intacta. Eram respeitadas. Temidas, às vezes.
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  Mas estar ali, comandando a engrenagem de um show do Gustavo, significava encostar no Olimpo. Significava que a Miotinho Produções - o império de Marcos Mioto, a maior inspiração de gestão de carreira para as duas - estava olhando para o trabalho delas.
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  Caminhou até o frigobar, pegou uma garrafa de água com gás e se jogou na cama king size, ainda vestida. Eram quase duas da manhã. Havia mensagens da equipe técnica, mas a notificação que ela escolheu abrir foi a do WhatsApp de "%Rayane% ♥".
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  Tocou no ícone de video chamada. %Rayane% atendeu no segundo toque, a cara amassada no travesseiro e a inseparável touca de cetim na cabeça.
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  - Eu juro por Deus, %Débora%, se você me acordou pra dizer que a carreta de som tombou, eu desligo na sua cara. - A voz de %Rayane% era arrastada, mas o sorriso no canto da boca a entregava.
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  %Débora% riu, ajeitando o travesseiro nas costas. Relaxar com %Rayane% era seu único luxo não planejado.
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  - Ninguém tombou nada. Pelo contrário. Eu botei o trem nos trilhos. O show foi impecável, %Ray%. Você precisava ver, a equipe operou como um relógio.
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  - Ah, glória! A General do sertanejo ataca novamente. - %Rayane% se sentou na cama, esfregando os olhos e despertando para a fofoca. - Mas chega de relatório técnico. Como é trabalhar de perto com o Mioto? Ele é chato? Tem chilique de estrela?
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  %Débora% revirou os olhos, mas não pôde evitar que a imagem de Gustavo no camarim invadisse sua mente. A forma calma como ele a ouviu, o olhar focado.
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  - Ele é... surpreendentemente profissional - %Débora% respondeu, o tom de voz pragmático. - Trocou a setlist na hora porque eu pedi e argumentei. Sem ego ferido. É inteligente.
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  - %Débora%... - %Rayane% semicerrou os olhos na tela. - Eu te conheço desde a época que você usava aparelho fixo e franja. Para de me dar currículo. Ele é gato ao vivo?
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  %Débora% suspirou. Tirou os brincos pesados e os jogou na mesa de cabeceira.
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  - A televisão não mostra um terço da presença dele, vou admitir. O cara tem um magnetismo absurdo no palco. Sabe prender o público. - Ela fez uma pausa, lembrando-se do momento em que ele se aproximou dela antes de subir as escadas do palco. - E ele tem um cheiro insuportavelmente bom. Madeira e alguma coisa cítrica. Quando ele passou por mim, tive que focar muito na prancheta pra não perder a postura.
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  %Rayane% soltou uma risada alta, batendo palmas baixinhas.
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  - Opa! A General notando o perfume da tropa? Milagres acontecem!
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  A expressão de %Débora% fechou em uma fração de segundo, a diversão evaporando.
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  - Palhaçada, %Rayane%. É uma observação técnica. Ele é o meu maior cliente, e a imagem dele faz parte do pacote que eu administro.
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  - Ai, amiga, qual é? Não tem problema achar o cliente bonito. O cara é solteiro, canta olhando no olho...
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  - E eu sou paga para organizar a vida dele, não para suspirar por ela - cortou %Débora%, firme, embora sem agressividade. - Você conhece a minha lei. Envolvimento com artista é o jeito mais rápido de ser tratada como fã em vez de profissional. Minha cota de dor de cabeça com homem já esgotou faz tempo. O Mioto é um projeto de trinta dias. E eu vou entregar resultados, não roteiro de novela.
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  %Rayane% riu do outro lado da linha, balançando a cabeça.
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  - Tá bom, tá bom, General. Abaixa as armas. Eu só disse que ele é bonito, não mandei você casar com o homem. Vai dormir que amanhã você tem que comandar o exército.
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  - E um almoço de alinhamento com ele, que vai exigir toda a minha paciência tática. Beijo, %Ray%. Te amo.
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  - Também te amo, chefa. Boa sorte amanhã.
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  A chamada encerrou.
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  %Débora% jogou o celular na cama e começou a tirar a roupa para o banho. Enquanto a água quente caía sobre seus ombros, lavando a poeira dos bastidores e a tensão muscular, ela repetiu mentalmente seu mantra absoluto: Profissionalismo. Foco. Autoridade.
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  Ela era a General. E Generais não se desestabilizam por sorrisos fáceis e perfumes caros.
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  Mas, ao fechar os olhos sob o chuveiro, a lembrança do olhar curioso que ele lhe lançou no camarim piscou em sua mente. Um pequeno glitch no seu sistema perfeito.
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  Ela desligou o chuveiro com mais força do que o necessário. Seriam trinta dias longos.
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POV %Débora% Restaurante do Hotel

  O restaurante do hotel era banhado por uma luz natural abundante que entrava pelas janelas do chão ao teto, revelando partículas de poeira dançando no ar e dando ao ambiente uma leveza que contrastava com a escuridão caótica dos bastidores.
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  %Débora% chegou dez minutos adiantada. Dessa vez, a "General" tinha deixado a armadura preta de lona no quarto. Optou por uma calça jeans de corte reto, tênis branco e uma camisa de linho azul-marinho com as mangas dobradas até os cotovelos. O cabelo estava preso num rabo de cavalo frouxo, e a maquiagem era mínima.
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  Escolheu uma mesa no canto, longe do fluxo de hóspedes e do buffet, e transformou o espaço em uma mini sala de controle. Abriu o notebook, alinhou o tablet ao lado com as planilhas da D&R Produções e pediu um café expresso duplo.
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  Trinta dias, repetiu mentalmente, revisando a aba de logística de transportes. Se a gente entregar uma turnê impecável, sem furos de cronograma e com o artista rendendo 100%, o relatório final vai direto para a mesa do Marcos Mioto. A D&R não pode ter falhas. A autodepreciação não fazia parte do seu vocabulário; o foco absoluto, sim.
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  - Doze e vinte e oito. Você não relaxa nem pra almoçar.
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  %Débora% levantou o olhar do monitor. Gustavo estava parado do outro lado da mesa. À luz do dia e sem o figurino impecável do palco, ele parecia... normal. Usava uma camiseta cinza básica que já tinha visto dias melhores, uma calça de moletom preta e um boné virado para trás. Segurava apenas o celular e a chave do quarto.
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  - Pontualidade e antecipação de riscos são as únicas coisas que separam uma turnê de sucesso de um desastre, Gustavo - disse ela, o tom profissional, indicando a cadeira à frente. - Bom dia. Sobreviveu à adrenalina pós-show?
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  - Bom dia. - Ele puxou a cadeira e se sentou, soltando um suspiro pesado, mas satisfeito. - Capotei. O show ontem foi intenso, mas a saída foi tão rápida que eu nem tive tempo de ficar pilhado no hotel. Ponto pra logística de vocês.
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  O garçom se aproximou. %Débora% pediu um filé de frango com salada e legumes; Gustavo, para surpresa dela, não pediu a picanha ou o hambúrguer gorduroso que noventa por cento dos artistas pediam na estrada para curar a ressaca de shows. Pediu um grelhado idêntico ao dela, apenas adicionando arroz integral.
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  Quando o garçom saiu, Gustavo apoiou os braços na mesa e deu uma olhada rápida para o arsenal tecnológico na frente de %Débora%. O olhar dele era analítico.
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  - Sabe, sem aquele rádio comunicador pendurado no pescoço e a prancheta na mão, você assusta bem menos - comentou ele, um sorriso de canto aparecendo.
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  %Débora% não riu, mas o canto dos lábios subiu ligeiramente. Ela girou a caneta entre os dedos.
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  - Eu tenho modos de operação. O "Modo Guerra" é para quando o som falha, a segurança é furada ou a equipe está perdida. O "Modo Planejamento", que é este de agora, é menos barulhento, mas igualmente rigoroso.
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  - Bom saber. - Ele recostou-se na cadeira, a postura relaxada. - A galera da técnica comentou hoje no café que estavam precisando de alguém com o seu pulso. Eles são ótimos, são como família pra mim, mas desde que o Beto precisou se afastar pra cirurgia, a coisa nos bastidores estava ficando meio solta...
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  E "solto" não sustenta o tamanho que o seu nome tem agora no mercado - %Débora% pontuou, direta, virando a tela do tablet para ele. - E é por isso que a D&R assumiu a bronca. Eu redesenhei o cronograma da semana. Dá uma olhada.
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  Gustavo se inclinou. Nos vinte minutos seguintes, enquanto a comida chegava e eles começavam a comer, o clima não foi de patrão e funcionária, mas de uma reunião de diretoria incrivelmente fluida. Gustavo não era uma marionete; ele lia as planilhas, entendia de tempo de deslocamento e sabia exatamente o que funcionava ou não para a voz dele.
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  - Espera aí... - Gustavo parou o garfo no ar, franzindo a testa para uma linha vermelha na tela do tablet. - Quinta-feira. Onde está o jantar com os contratantes da rádio local? No cronograma original que o Beto deixou antes de ir pro hospital, ele tinha marcado como obrigatório.
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  - Era. Não é mais. Eu cortei - %Débora% respondeu com naturalidade, tomando um gole de água com gás.
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  Gustavo a encarou, os olhos levemente arregalados.
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  - Você cortou o jantar com os caras que estão pagando o cachê? O Beto vai surtar se souber disso na recuperação.
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  - O Beto tem o jeito dele de fidelizar os contratantes, eu tenho o meu. Minha preocupação não é o ego da rádio local, é a máquina principal, que é você - ela explicou, a voz firme e didática. - Na quinta, você vai ter saído de uma gravação de TV de três horas, com ar-condicionado torando na sua cara e vai pegar duas horas de van. Se você for para esse jantar, vai ficar sorrindo, falando alto num restaurante barulhento e comendo fora de hora. Na sexta, você tem um show de duas horas em estádio aberto. A conta não fecha.
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  Gustavo ficou em silêncio, processando a informação.
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  - Eu vou no seu lugar - continuou %Débora%, cruzando os braços sobre a mesa. - Alinho com o produtor local, levo os kits de produtos, faço as honras da casa, digo que você está em repouso vocal estrito por ordem médica e garanto que os contratantes se sintam os reis do camarote no show de sexta. Você vai pro hotel, pede serviço de quarto e dorme.
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  O silêncio de Gustavo durou mais alguns segundos. Ele olhou para o prato, depois para %Débora% e algo mudou na expressão dele. O artista pop deu lugar ao empresário de si mesmo, genuinamente impressionado.
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  - %Débora%... você não tem noção de quantas vezes eu briguei pra tentar explicar exatamente essa matemática pra produtores antigos e a resposta era sempre "é só um jantar, faz um esforço".
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  - Eu não trabalho com "faz um esforço" que compromete a entrega do show, Gustavo. Eu sou paga para ser a chata pragmática. Meu trabalho é ser o seu escudo e a sua tesoura. O "não" sou eu quem digo. Você foca em manter a sanidade e a afinação.
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  Ele balançou a cabeça, soltando uma risada nasalada e voltou a comer.
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  - Acho que o meu pai estava certo quando disse que a D&R ia botar a casa em ordem até o Beto voltar. Vocês não brincam em serviço.
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  Ouvir que Marcos Mioto havia endossado a contratação fez uma onda de orgulho aquecer o peito de %Débora%. Ela manteve a expressão neutra, mas internamente, celebrou.
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  - A gente não gosta de perder tempo - ela resumiu.
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  O clima ficou confortável. O pacto profissional estava selado ali.
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  Quando o garçom retirou os pratos e trouxe o café expresso de %Débora%, Gustavo apoiou o queixo na mão, parecendo subitamente curioso.
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  - Tá, cronograma aprovado, crise evitada, jantar cancelado. - Ele sorriu, um sorriso contido. - O que uma General faz para desligar o cérebro quando não está coordenando a vida alheia com planilhas coloridas?
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  %Débora% fechou o notebook, o clique soando como um ponto final na reunião.
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  - Eu durmo. Sou uma pessoa muito sem graça fora do horário comercial. Assisto séries true crime ruins, arrumo minhas gavetas por cor e respondo mensagens da minha sócia em São Paulo tentando me convencer a adotar um gato.
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  - Gatos são bons. Não exigem que você crie planilhas pra eles - Gustavo brincou. - Eu jogo. É meu refúgio. Coloco o fone, entro num lobby com meus amigos que não ligam se eu sou cantor ou não, e atiro em zumbis.
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  - Você tem cara de quem gasta dinheiro com roupinha virtual de personagem - ela provocou, uma quebra rara em sua formalidade.
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  - Com certeza. Meu boneco é o mais estiloso do servidor - ele admitiu, sem um pingo de vergonha. - Qualquer dia a gente joga. Se você tiver o mesmo instinto assassino no videogame que tem pra cortar jantares, eu tô ferrado.
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  %Débora% deu uma risada baixa, balançando a cabeça.
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  - Eu não jogo, Gustavo. E se jogasse, odiaria perder. Melhor evitarmos a fadiga.
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  Ele olhou para a tela do próprio celular que acendeu sobre a mesa e fez uma careta.
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  - Tenho que subir. Entrevista por telefone para uma rádio em dez minutos.
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  Eles se levantaram juntos. Gustavo não estendeu a mão dessa vez, apenas deu um aceno respeitoso de cabeça.
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  - Obrigado pela franqueza de hoje, %Débora%. De verdade. Tira um peso enorme das minhas costas saber que tem alguém pensando no todo, e não só no palco.
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  - É pra isso que me contrataram. Nos vemos na passagem de som. Quatro da tarde, pontualmente.
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  - Sim, senhora.
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  Ele virou de costas e caminhou em direção aos elevadores, digitando no celular, os ombros visivelmente mais leves do que quando havia chegado.
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  %Débora% ficou parada por um segundo, guardando os equipamentos na bolsa de couro. Ela não sentiu o coração acelerar, não suspirou pelo perfume dele e não fantasiou com o sorriso de covinhas.
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  O que ela sentiu foi um alívio imenso. Gustavo Mioto era profissional, inteligente e acima de tudo, tratava-a como uma igual, respeitando sua autoridade.
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  Vai ser um bom mês de trabalho, ela pensou, caminhando de volta para o quarto, já sacando o celular para mandar um áudio triunfante para %Rayane% sobre o jantar cancelado e a menção ao pai dele. O contrato da vida delas estava em boas mãos.
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POV %Débora%

  O almoço tinha sido uma trégua, mas a tarde foi uma guerra silenciosa de logística. Das 14h às 18h, o quarto 402 virou o centro de comando avançado da D&R Produções.
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  %Débora% não parou. Coordenou por telefone a chegada da carreta de equipamentos na próxima cidade, discutiu com a seguradora sobre uma apólice da van e, o mais difícil: blindou Gustavo.
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  Às 16h, a recepção ligou avisando que um influenciador local, com meio milhão de seguidores, havia descoberto o hotel e estava no saguão exigindo gravar "um conteúdo rápido" com o cantor. O produtor local já estava suando frio, pronto para ceder. Gustavo, educado até demais e condicionado a nunca dizer não, estava literalmente calçando o tênis para descer.
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  %Débora% o interceptou no corredor.
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  - Tênis fora dos pés. Você não vai descer - ela ordenou, segurando a porta dele.
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  - %Débora%, é só um vídeo. Se eu disser não, o cara vai pro Instagram falar que eu sou arrogante. É a cidade dele.
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  - Deixa que eu sou a arrogante por você. Volta pro quarto e poupa a voz.
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  Ela desceu ao saguão, vestiu seu melhor sorriso diplomático - aquele que não alcançava os olhos - e abordou o rapaz. Explicou com uma firmeza irrefutável que Gustavo estava sob "repouso vocal estrito por ordens médicas", recebeu os presentes em nome da equipe, gravou ela mesma um vídeo do influenciador mandando um abraço para o cantor e o despachou. O cara saiu do hotel achando que tinha feito um ótimo negócio de networking, sem ter chegado a dez metros de Gustavo.
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  Quando %Débora% voltou para o quarto andar, encontrou Gustavo encostado no batente da porta, os braços cruzados e uma expressão que misturava alívio e incredulidade.
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  - Eu ouvi o rádio do segurança daqui- disse ele, a voz baixa. - "Repouso vocal estrito"? Eu estava cantando pagode no chuveiro agora mesmo.
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  %Débora% parou, ajeitando a prancheta sob o braço, sem perder a pose.
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  - O mundo lá fora não precisa saber dos seus shows no chuveiro. Se você descesse, ia ficar uma hora gravando dancinha de TikTok, ia esgotar a bateria social antes da entrevista de rádio das 17h e ia ficar estressado. Meu trabalho é otimizar sua energia.
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  Gustavo balançou a cabeça, soltando uma risada nasalada.
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  - Você é uma barreira de concreto, %Débora%.
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  - Eu sou eficaz. Agora entra, bebe água e se prepara pra rádio.
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  Ele obedeceu, mas antes de fechar a porta, lançou um olhar para ela que não era o de um chefe. Era o de alguém genuinamente grato por não ter sido jogado aos leões.
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  A noite caiu sobre Maringá, trazendo um vento fresco que aliviava o calor do interior paranaense. %Débora% finalmente fechou o notebook às 20h30. Seus olhos ardiam. Ela pediu um serviço de quarto simples e estava pronta para vestir o pijama de flanela, quando o celular vibrou.
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  Era uma mensagem de um número desconhecido. A foto de perfil era o personagem Naruto, o que a fez franzir a testa.
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  Número Desconhecido: A equipe pediu pizza e o Paulinho tá com o violão na área da piscina. O hotel liberou um quiosque nos fundos só pra gente. Desce aí. Prometo que não tem planilha na roda. (É o Gustavo, a propósito).
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  %Débora% encarou a tela. O instinto da "General" dizia: Fique no quarto. Misturar-se com a equipe em momentos de lazer borra as linhas de autoridade.
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  Mas a gestora da D&R sabia que o entrosamento com os músicos era fundamental. Se a banda confiasse nela, o trabalho fluiria infinitamente melhor nos próximos trinta dias.
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  Só uma hora, ela negociou consigo mesma. Para marcar presença e mostrar que não sou um robô corporativo.
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  Trocou a roupa formal por algo neutro e confortável: calça jeans reta, uma camiseta branca básica e tênis. Prendeu o cabelo num clipe e desceu.
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  A área da piscina estava iluminada por luzes amareladas. No quiosque mais afastado, cercado por palmeiras, o clima era de acampamento. Eram cerca de oito pessoas — músicos da banda, dois técnicos de som e Gustavo. Ele estava largado numa cadeira de vime, de bermuda e chinelo, com uma fatia de pizza na mão. Ao vê-la surgir, ele sorriu. Não o sorriso ensaiado de fotos, mas um sorriso aberto, de menino.
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  - Olha só! A Chefe desceu do quartel-general! - brincou Paulinho, o baterista, erguendo uma lata de refrigerante. - Escondam as cervejas que ela vai calcular o custo no borderô de amanhã!
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  A equipe riu, e %Débora% sentiu a tensão dos ombros se dissolver um pouco. Ela entrou no clima, mantendo a postura, mas suavizando o tom.
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  - Se não tiver atraso na passagem de som amanhã, o borderô perdoa as cervejas de hoje. Se alguém chegar de ressaca, a multa vem.
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  Um coro de "Aêêê!" respondeu. Gustavo puxou uma cadeira vazia para perto da mesa de centro.
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  - Senta aí - disse ele, indicando o lugar. - Sobrou calabresa e frango com catupiry.
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  Alguém lhe entregou um pedaço num guardanapo e uma lata de refrigerante gelado. Durante a próxima hora, %Débora% agiu como a ouvinte perfeita. Eles contaram histórias caóticas de estrada - o dia em que o ônibus quebrou no meio do mato no Pará, o show em que a energia da cidade inteira caiu. %Débora% riu sinceramente, fazendo perguntas pontuais. Ela percebeu rapidamente que eles eram uma engrenagem familiar muito unida, e Gustavo era apenas "um dos caras" ali no meio.
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  Aos poucos, o cansaço foi batendo e a conversa diminuiu. Gustavo, que estava mais quieto, apenas rindo e comendo, pegou o violão que estava encostado na mesa.
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  Ele começou a dedilhar acordes soltos, testando a afinação. Em seguida, engatou uma melodia suave. Não era sertanejo, não era o hit estourado das rádios. Era Gravity, do John Mayer.
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  Ele não cantou para a roda. Cantou baixo, para si mesmo, os olhos fixos nas próprias mãos. A voz rouca e aveludada se misturou ao som dos grilos e do vento nas folhas.
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  %Débora% parou de mastigar.
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  À luz fraca do quiosque, sem microfone, sem banda de apoio, sem gritaria de fãs, o talento dele era irrefutável. Era cru. Havia uma emoção genuína na forma como ele tocava, uma técnica limpa e complexa.
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  A mente de %Débora%, sempre analítica, registrou a informação: Ele não é um produto fabricado por produtores de estúdio. Ele tem o dom. É por isso que ele sustenta o sucesso. O respeito profissional dela por ele subiu dois degraus de uma vez só.
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  Quando a música acabou, não houve aplausos, apenas um murmurinho de aprovação da banda, acostumada com as jam sessions do chefe. Gustavo levantou os olhos e esbarrou no olhar atento de %Débora%.
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  - Tá avaliando minha afinação, General? - ele perguntou, meio brincando.
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  - Só constatando fatos - ela respondeu, o tom ameno, mas sincero. - Você toca muito bem. Muito além dos três acordes básicos que a rádio exige.
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  - A rádio paga as contas, mas o John Mayer salva a sanidade - ele riu soprado, apoiando o queixo no violão.
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  Os membros da equipe começaram a se levantar, recolhendo as caixas de pizza. O cansaço vencera a fome. Um a um, foram se despedindo. %Débora% se levantou junto, limpando as mãos.
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  - Eu também vou subir. O check-out amanhã é às 10h em ponto, senhores — ela avisou, assumindo rapidamente a persona da D&R.
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  - Pode deixar, chefe - Paulinho bateu continência e sumiu em direção aos elevadores.
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  %Débora% se virou para sair, mas a voz de Gustavo a segurou.
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  - %Débora%.
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  Ela parou. Ele ainda estava sentado, o violão no colo, o olhar mais sério agora.
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  - Obrigado por hoje à tarde. Com o cara do TikTok no saguão.
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  - É parte da gestão de crise, Gustavo.
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  - Eu sei. Mas a maioria dos produtores com quem já trabalhei teria me mandado descer. "Faz um esforcinho, Gustavo, é bom pro engajamento. É jogo rápido". - Ele imitou a voz de um empresário genérico, fazendo %Débora% dar um meio sorriso. - Ninguém lembra que eu tenho que cantar por duas horas no dia seguinte. Você me tratou como alguém que precisa poupar a voz, não como uma máquina de likes. Isso é raro.
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  %Débora% cruzou os braços, a postura firme, mas a voz empática. Ela conhecia aquele esgotamento. Via isso em todos os artistas que a D&R atendia.
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  - Engajamento de saguão de hotel não canta na sexta-feira à noite para trinta mil pessoas. Você canta - ela pontuou, os olhos cravados nos dele. - Você é o motor dessa engrenagem toda, Gustavo. Se você pifar porque foi legal com todo mundo, cem famílias de técnicos e músicos ficam sem trabalho. Meu papel não é ser sua amiga, é ser seu escudo.
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  Ele balançou a cabeça devagar, processando as palavras. Um sorriso de puro alívio e respeito genuíno tomou conta do rosto dele.
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  - O Marcos Mioto acertou em cheio contratando vocês. O Beto vai ter trabalho pra retomar o ritmo quando voltar.
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  A menção ao reconhecimento do pai dele foi a melhor sobremesa que %Débora% poderia ter naquela noite.
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  - A D&R agradece o elogio. Agora sobe, que esse vento úmido não é bom pra garganta e eu não vou reescrever o setlist de sexta porque você ficou resfriado tocando John Mayer na piscina.
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  Ele riu, levantando-se e guardando o violão no case.
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  - Boa noite, %Débora%.
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  - Boa noite, Gustavo.
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  Ela virou as costas e caminhou para o prédio do hotel com passos firmes. Quando entrou no elevador vazio, apertou o botão do quarto andar e soltou um longo e cansado suspiro.
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  Ele não era o clichê do astro arrogante. Era humano, talentoso, inteligente e incrivelmente decente com a própria equipe.
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  Droga, ela pensou, um sorriso pragmático surgindo no canto dos lábios. Ele é um cara legal de verdade. Isso vai deixar a turnê infinitamente mais fácil de gerenciar.
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  E, no fundo de sua mente blindada, uma constatação perigosa que ela fez questão de ignorar: e muito mais difícil de não admirar.
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Ray Dias

Tô ansiosa para saber se eu chego em algum momento, linda comminha taça de vinho dizendo: “Oi sócia, minha intuição falou que era o momento de eu vir ajudar pessoalmente, a general que saiu do personagem a poucos dias do fim, deixando entrar a fã que dormiu com o ídolo em uma noite aleatória”. E claro, eu estaria gargalhando da sua cara.

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