Acordes e Compassos


Escrita porDébora Albino
Revisada/Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 04

  %Débora% não hesitou.
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  Ela deu um passo largo, colocando-se suavemente entre a lente do celular da garota e o rosto de Gustavo. Bloqueou a câmera com a prancheta, sem encostar na fã.
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  - Pessoal, o tempo estourou! O Gustavo precisa passar o som agora para entregar o show que vocês merecem mais tarde - anunciou ela. A voz era alta, projetada e carregada de uma autoridade que não admitia réplica. - Obrigada pelo carinho de todos, a gente se vê na arena!
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  Sem esperar resposta, ela espalmou a mão nas costas de Gustavo - um toque tático, firme e de direcionamento - e o guiou para longe da grade.
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  - Foca no corredor - sussurrou ela perto do ombro dele, sentindo a tensão irradiar dos músculos sob a jaqueta. - Não olha pra trás, não dá o frame que ela quer.
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  Gustavo obedeceu, os passos longos e rápidos em direção ao concreto do pavilhão. Os gritos frustrados continuaram lá fora, mas a pergunta da garota ainda deixava um rastro tóxico no ar.
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  Eles entraram no camarim designado, uma sala fria com paredes de divisória branca, sofás de couro preto e um espelho de camarim com luzes de LED. Assim que Marcão fechou a porta, isolando o som exterior, Gustavo arrancou o boné da cabeça e o jogou no sofá.
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  Ele não gritou. Não chutou nenhuma cadeira. Ele apenas passou as mãos pelo cabelo com força e soltou um suspiro pesado, rindo com escárnio.
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  - É impressionante - disse ele, a voz carregada de uma exaustão amarga, virando-se para %Débora%. - Eu posso gravar um DVD amanhã, ganhar um Grammy, compor a melhor música da década... e no final do dia, eu ainda vou ser o "ex da Boiadeira" que alguém quer fazer de chacota na grade.
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  %Débora% ficou parada perto da porta, lendo o ambiente. Ela não viu um homem com o coração partido chorando pela ex-namorada. Ela viu um profissional absurdamente irritado por ter seu mérito reduzido a uma fofoca de página de Instagram.
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  Ela caminhou até o frigobar, pegou uma garrafa de água de vidro, abriu e estendeu para ele.
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  - Bebê. E respira - disse ela, o tom calmo, sem pena.
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  Gustavo pegou a garrafa, tomou um gole longo e se jogou no sofá.
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  - Não é dor de cotovelo, %Débora%. Eu tenho um carinho gigante pela Ana, a gente viveu uma história muito foda, e eu respeito o espaço dela. Mas essa narrativa... me esgota. - Ele gesticulou com a mão livre, a frustração transbordando. - A gente se falou mês passado, civilizadamente, para apaziguar umas coisas internas. Alguém vê a gente conversando, e a mídia já cria uma novela de que estamos voltando. Aí ela sai com um amigo, o Zé ou quem quer que seja, e eu viro o corno abandonado da internet. É ridículo!
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  %Débora% puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ele, cruzando os braços.
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  - As pessoas consomem novelas, Gustavo. E, infelizmente, a tragédia romântica ou a fofoca de traição gera mais engajamento que o lançamento do seu EP novo.
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  - Eu sei. Mas ter que engolir isso de fã, na porta do meu próprio show... irrita. Irrita pra caralho. Parece que o meu trabalho não vale nada perto do meu CPF.
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  - E é por isso que a partir de agora, o acesso ao seu CPF está bloqueado - disse %Débora%, o tom cortante de uma empresária que acabou de tomar uma decisão irrevogável.
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  Gustavo franziu a testa, prestando atenção nela.
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  - O que quer dizer com isso?
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  - Quero dizer que a D&R assume a narrativa de crise a partir de hoje. Eu vou blindar você. - Ela destampou a própria caneta, o cérebro operando em velocidade máxima. - Entrevistas no camarim? O roteiro de perguntas vai ser aprovado por mim com trinta minutos de antecedência. Se algum radialista tocar no nome dela, a entrevista acaba na hora e o veículo perde o acesso à turnê. Na grade, se a pergunta passar do ponto, eu te puxo na mesma fração de segundo. Você não precisa sorrir por educação para quem desrespeita o seu momento atual.
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  Gustavo a encarou. A postura rígida dele foi amolecendo. Ele estava tão acostumado a produtores que diziam "faz parte, sorri e acena pra não perder fã", que a abordagem de %Débora% o desarmou. Ela não estava oferecendo um ombro para ele chorar; estava oferecendo uma barreira de artilharia.
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  - Eles vão dizer que eu fiquei arrogante. Que a minha produção é antipática - ele pontuou, mas havia um alívio imenso na voz dele ao considerar a ideia.
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  - Deixa que me chamem de antipática. Meu trabalho não é ser Miss Simpatia, é garantir que você suba naquele palco com a cabeça limpa. Se a mídia quer drama, que procure na concorrência. Aqui a gente entrega música.
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  Um silêncio confortável e denso se instalou no camarim. Gustavo olhou para a garrafa de água em sua mão e depois para %Débora%. O peso nos ombros dele havia desaparecido.
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  - Você é assustadoramente eficiente, %Débora%.
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  - Eu sou paga para ser assustadora quando necessário. - Ela deu um meio sorriso, levantando-se e checando o rádio na cintura, que havia acabado de piscar. - Agora foca no que importa. O palco está pronto. O Beto deixou as linhas de guitarra novas marcadas para hoje, e o técnico de luz quer que você teste os LEDs do refrão. Podemos?
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  Gustavo se levantou. A sombra da fofoca havia ficado no sofá. Ele estava de volta ao controle.
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  - Podemos. Vamos trabalhar.
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  Ele abriu a porta para ela. Enquanto caminhavam pelos corredores escuros rumo ao palco principal, Gustavo não olhou para o celular e não se importou com os ecos do lado de fora. Pela primeira vez em meses de turnê, ele sentiu que suas costas estavam, de fato, protegidas por alguém que não tinha medo de comprar a briga dele.
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  O pavilhão de eventos estava vazio, exceto pela equipe técnica espalhada e alguns funcionários da limpeza no fundo da pista. O eco no teto de zinco era imenso, engolindo os ruídos metálicos da montagem.
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  Gustavo subiu ao palco de dezoito metros com passos duros. Ele não fez as habituais brincadeiras com o baterista nem cumprimentou o técnico de monitor no caminho. Pegou seu violão acústico no pedestal, sentou-se no banquinho central e ajeitou o microfone com um puxão seco.
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  - Vamos passar Eu Gosto Assim primeiro, pra bater o grave do bumbo com a via de LED ligada - orientou o diretor musical pelo microfone de comunicação interna.
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  - Não - cortou Gustavo. A voz dele soou grave e ríspida no sistema de som de alta potência, reverberando pela arena vazia. - Vamos de Com ou Sem Mim. Valendo. Agora.
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  A banda se entreolhou, surpresa pela quebra do roteiro técnico, mas ninguém questionou. O baterista contou o tempo nas baquetas e o teclado entrou rasgando o silêncio.
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  %Débora% estava na lateral do palco, na house mix secundária, de braços cruzados, prancheta esquecida sob o braço.
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  Quando Gustavo começou a cantar, não foi uma passagem de som técnica para poupar as cordas vocais. Ele atacou a música.
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  "Se você não me disser, a verdade..."
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  A letra, que naturalmente falava sobre incertezas e a dor de não saber onde se pisa, ganhou uma carga de energia densa que fez os técnicos de som tirarem os olhos das mesas de mixagem para observar o palco. Gustavo cantava de olhos fechados, a veia do pescoço saltada, a mão direita castigando as cordas do violão com mais força do que o necessário.
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  Ele não estava cantando para implorar o amor de ninguém, muito menos o da ex-namorada. %Débora%, assistindo a poucos metros de distância, entendeu perfeitamente o que estava acontecendo. Ele estava despejando no microfone a frustração do saguão, a humilhação do escrutínio público e o cansaço de ser reduzido a um boato de internet com Zé Felipe. Era a fúria de um artista transformando lixo midiático em arte crua.
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  Era visceral. Era pesado. E era, de uma forma técnica e artística, absolutamente irretocável.
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  No último refrão, o arranjo subiu. Gustavo abriu os olhos. Varreu a pista vazia e virou o rosto para a lateral do palco, procurando a única pessoa ali que conhecia o contexto daquela explosão.
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  Quando os olhos dele encontraram os de %Débora% nas sombras das coxias, ele sustentou o olhar. Não havia flerte romântico. Havia um recado claro, de artista para empresária: Eu estou deixando a raiva aqui em cima, como você mandou.
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  A música terminou com um acorde seco de violão que ecoou pelas arquibancadas de concreto até morrer no silêncio.
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  A equipe ficou muda por dois longos segundos, processando o impacto da performance.
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  - Puta que pariu, Gustavo... - murmurou o baixista, abaixando o instrumento. - Se você cantar assim à noite, o estádio vem abaixo. Tá aprovado o som.
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  Gustavo apenas assentiu, tirando a correia do violão do pescoço e entregando o instrumento ao roadie. Ele respirava fundo, os ombros visivelmente mais leves. O veneno tinha saído do sistema.
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  Ele caminhou em passos lentos até a lateral escurecida onde %Débora% o observava. Uma fina camada de suor brilhava em sua testa, apesar do frio do pavilhão.
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  %Débora% estendeu uma toalha de rosto limpa e uma garrafa de água lacrada.
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  - Catarse concluída? - perguntou ela, a voz baixa, o tom analítico, mas com um traço claro de aprovação.
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  - Quase - admitiu ele, secando o rosto e o pescoço. - Mas limpou o sistema. Eu precisava gritar um pouco. A acústica daqui é boa pra isso.
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  - Foi um excelente uso da acústica - ela concordou, dando um passo para o lado para deixar um técnico de luz passar com um cabo. - O bloqueio midiático no camarim já está armado para a noite. A imprensa não vai chegar a três metros de você com perguntas que não estejam no script.
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  Ele tomou metade da água da garrafa de uma vez só, apoiando-se na estrutura metálica do palco ao lado dela.
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  - Obrigado, %Débora%. Por não ter me mandado engolir sapo lá fora e por me deixar estourar aqui dentro.
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  - Minha função é garantir que o Mioto do palco entregue os hits e o Gustavo não enlouqueça no processo - ela respondeu com naturalidade, checando o relógio. - Mas a catarse acabou. O público pagou pra beber, pular e esquecer os próprios problemas hoje à noite, não pra resolver os seus. Vamos passar as mais animadas agora. Consegue sorrir?
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  Gustavo a encarou. O sorriso que despontou no rosto dele dessa vez não teve nada de ensaiado. Foi verdadeiro, aliviado e cheio de cumplicidade.
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  - Com você ali na porta barrando a loucura? Consigo fazer até coreografia.
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  - Menos. Foca na afinação que já está de bom tamanho - ela rebateu, virando-se de volta para a prancheta para esconder a expressão.
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  - Sim, General.
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  Ele deu as costas e caminhou de volta para o centro do palco, pedindo o violão novamente e fazendo uma piada com o baterista, o clima da equipe subitamente restaurado e leve.
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  %Débora% ficou parada na penumbra, o fone do rádio comunicador zumbindo em seu ouvido com instruções da portaria, mas ela não processou as palavras de imediato.
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  A "General" não sentiu o coração acelerar com paixão adolescente. O que a atingiu foi algo muito mais perigoso para uma gestora: um respeito profundo e irrefreável pelo homem debaixo dos holofotes.
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  A relação deles havia ultrapassado a fronteira de "cliente e contratada" muito antes dos trinta dias. Eles agora compartilhavam segredos de bastidor, frustrações reais e a confiança mútua de uma trincheira. E, no mercado da música, a lealdade de trincheira era o cimento mais impossível de se quebrar.
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  %Débora% respirou fundo, apertou o botão do rádio e voltou ao trabalho. O muro estava de pé, mas a porta de aço tinha acabado de ganhar uma fechadura nova.
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  A Crise das 06h30

  O celular de %Débora% não tocou; ele vibrou em um zumbido contínuo e agressivo contra a madeira da mesa de cabeceira até despencar no carpete. Eram 06h30 da manhã de domingo.
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  Ela acordou num pulo, a mente varrendo o nevoeiro do sono em um segundo. O instinto da D&R Produções entrou em alerta vermelho. Ninguém na indústria liga repetidas vezes nessa hora da manhã após um show de sábado, a menos que uma carreta tenha tombado ou a internet tenha explodido.
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  Pescou o aparelho do chão. Quinze notificações de %Rayane%. Oito do grupo de monitoramento de mídia da gravadora. E um link enviado pelo Assessor de Imprensa com a legenda: "Temos um vazamento nível 4."
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  %Débora% sentou-se na beira da cama, ignorando o frio do ar-condicionado, e abriu o link. Era uma página de fofoca no Instagram com três milhões de seguidores.
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  Manchete: "CLIMÃO! Mioto trava ao ser questionado sobre Ana Castela e Zé Felipe. O sertanejo ainda sofre pela Boiadeira?"
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  O vídeo era tremido, gravado do ângulo da fã na grade de Marília. Mostrava a pergunta invasiva, mas a edição era venenosa: deram um zoom lento no rosto de Gustavo no exato milissegundo em que ele trincou o maxilar. Colocaram um filtro preto e branco, desaceleraram a imagem e inseriram uma música melancólica de fundo. Logo em seguida, a mão de %Débora% aparecia bloqueando a lente, e a voz dela soava autoritária cortando a gravação.
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  Os comentários eram um esgoto a céu aberto:
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  • "Nossa, a cara dele de quem vai chorar no banho."
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  • "Zé Felipe não perdoa, né? Supera, Mioto!"
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  • "Gente, quem é essa produtora grossa empurrando a fã? Que equipe lixo."
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  - Produtora grossa, não. Gestora de crise - murmurou %Débora%, a voz rouca de sono, mas os olhos brilhando com a frieza de uma estrategista.
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  Ela não foi ao banheiro. Não pediu café. Abriu o notebook no colo e iniciou o "Modo Sala de Guerra". Se a narrativa que queriam vender era a de um "Gustavo frágil e abandonado", ela iria esmagar essa história com o peso da máquina que operava os bastidores.
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  Seus dedos voaram no teclado. Três abas abertas: o painel de controle da assessoria jurídica, o grupo de WhatsApp com os líderes dos cinco maiores Fã Clubes (FCs) oficiais, e o e-mail do suporte do Instagram.
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  Café da Manhã com o Chefe do Chefe

  Às 08h00, %Débora% desceu para o restaurante do hotel. A "General" estava blindada: blazer preto de corte impecável sobre uma camiseta de seda branca, calça de alfaiataria e o iPad na mão. Ninguém diria que ela estava acordada há uma hora e meia orquestrando um ataque digital em massa.
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  O restaurante estava calmo, mas uma mesa no fundo, isolada por um biombo de plantas, atraía a atenção discreta e nervosa dos garçons.
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  Gustavo estava lá. Usava um moletom com o capuz puxado sobre o boné, mexendo em um prato de frutas sem comer absolutamente nada. A postura era a de quem queria desaparecer.
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  E, sentado à frente dele, bebendo um expresso duplo, estava uma figura que fez os pés de %Débora% travarem por um microssegundo no carpete.
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  Marcos Mioto.
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  Ele era exatamente como as fotos das revistas de negócios o retratavam: imponente, com cabelos grisalhos milimetricamente alinhados e aquela aura pesada de quem conhecia os esqueletos e os cofres da indústria da música brasileira. Ele não estava ali a passeio. Tinha voado com o jato da empresa logo cedo. Estava falando baixo, o tom grave e severo de uma repreensão executiva.
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  %Débora% ajeitou os ombros, ergueu o queixo e caminhou até a mesa. O salto da bota marcando o ritmo da sua autoridade.
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  - Bom dia - disse ela, a voz projetada com polidez cirúrgica.
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  Gustavo levantou a cabeça rápido, um alívio imenso cruzando suas feições. Marcos Mioto parou de falar e virou-se lentamente, analisando-a de cima a baixo com um olhar que parecia escanear seu currículo inteiro.
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  - Bom dia, %Débora% - apressou-se Gustavo. - Pai, essa é a %Débora%. A produtora da D&R que está cobrindo a licença do Beto.
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  Marcos não sorriu. Ele levantou-se parcialmente e estendeu a mão. O aperto foi um teste de força.
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  - A famosa "General" que o Beto garantiu que seguraria a turnê - a voz de Marcos era um trovão contido. - E a mesma moça que, desde as seis da manhã, a internet está chamando de pitbull do sertanejo por maltratar fãs.
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  Gustavo encolheu-se na cadeira, abrindo a boca para defendê-la. - Pai, o vídeo foi cortado, não foi bem as...
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  - Deixe-a responder, Gustavo - cortou Marcos, sem tirar os olhos de %Débora%. O teste não era para o filho. Era para ela.
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  %Débora% não piscou. Ela sustentou o olhar do homem que era a maior inspiração do seu CNPJ, sentindo a adrenalina varrer qualquer traço de intimidação.
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  - É uma honra conhecê-lo pessoalmente, Marcos - ela respondeu, soltando a mão dele com firmeza. - E quanto à internet: o vídeo omite a invasão de privacidade e o desrespeito direto ao seu artista. O meu trabalho não é ser simpática com quem gera fofoca de corredor; é proteger a sanidade do cantor para que ele entregue o show milionário que o público pagou para ver. Se isso me transforma na vilã temporária do Twitter, eu durmo muito bem com esse título.
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  Marcos Mioto ficou em silêncio por três longos segundos. Ele estava medindo a espessura da armadura dela.
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  - Proteger o artista na hora é o básico da operação de campo, %Débora% - disse Marcos, sentando-se novamente e cruzando as mãos sobre a mesa. - Mas a manchete já estourou. "Mioto abalado". Isso soa como fraqueza para os contratantes. Isso alimenta o fantasma desse triângulo amoroso que eu venho tentando enterrar há seis meses com a equipe de marketing. O Beto estaria suando frio me perguntando o que fazer. O que você fez?
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  %Débora% puxou uma cadeira, sentou-se ao lado de Gustavo e colocou o iPad no centro da mesa, deslizando-o para a frente do todo-poderoso da Miotinho Produções.
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  - Não emitimos nota de repúdio. Isso valida a fofoca e alimenta os abutres - começou ela, a voz no ritmo de um relatório de diretoria. - Apliquei a tática de sufocamento de algoritmo.
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  Ela tocou na tela, abrindo um gráfico em tempo real.
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  - Passo um: o jurídico já enviou uma notificação de copyright strike para as três maiores páginas de fofoca. O vídeo deles usa o áudio oficial de fundo do pavilhão, que pertence à gravadora. É uma tecnicalidade agressiva, mas o algoritmo do Instagram já derrubou os dois maiores vídeos automaticamente há dez minutos.
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  Gustavo arregalou os olhos, olhando para o iPad e depois para ela, chocado com a velocidade. Marcos Mioto se inclinou para a frente, ajustando os óculos.
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  - Passo dois - continuou %Débora%, deslizando a tela para o Twitter. - Liberei para os presidentes dos cinco maiores Fã Clubes oficiais um vídeo em alta definição, gravado na passagem de som ontem à tarde. Mostra o Gustavo cantando Com ou Sem Mim no violão. Cru, visceral, impecável e focado. Instruí os FCs a inundarem as redes com a hashtag #MiotoNoPalco. A narrativa de "abandonado" está sendo engolida pela narrativa de "artista focado e no auge vocal". Em meia hora, entramos nos Trending Topics.
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  - E o terceiro passo - ela finalizou, fechando a aba e bloqueando a tela. - Às 09h em ponto, a equipe de mídias sociais vai soltar um carrossel de fotos da arena lotada de ontem, agradecendo Marília, com a agenda esgotada da semana. A mensagem corporativa é silenciosa e letal: Ele está faturando e trabalhando demais para ser figurante em novela de ex-namorada.
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  O silêncio na mesa foi absoluto. Gustavo estava boquiaberto. Ele sabia que ela era boa, mas ver a "General" desmontar uma crise midiática nacional antes do café esfriar era um espetáculo assustador.
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  Marcos Mioto olhou para o iPad apagado. Depois olhou para o filho. E, finalmente, olhou para %Débora%. O rosto rígido do empresário cedeu, dando lugar a um sorriso de aprovação que pouquíssimas pessoas no mercado já tinham visto.
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  - Você é letal, menina - constatou Marcos, a voz perdendo o tom de teste e assumindo um respeito cristalino. - Você não pediu permissão. Você executou, matou o problema e me apresentou o corpo.
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  - Crises de imagem não esperam o horário comercial, Marcos. E a D&R Produções não foi contratada para pedir permissão - respondeu %Débora%, permitindo-se um sorriso microscópico, o coração finalmente batendo num ritmo normal de puro triunfo profissional.
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  Marcos soltou uma risada grave e rouca, balançando a cabeça. Ele virou-se para Gustavo.
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  - Você tem muita sorte, moleque. Eu vim de São Paulo voando baixo porque achei que a equipe reserva ia deixar a turnê afundar nessa fofoca com a Ana Castela de novo. Mas o barco não está apenas controlado. Ele está blindado.
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  - Eu te avisei, pai. A %Débora% é de outro nível - disse Gustavo, a voz carregada de um orgulho que fez o estômago de %Débora% dar um giro.
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  - Vejo que sim. - Marcos tomou o resto do café em um gole só e se levantou, abotoando o paletó. - Eu não fico para o almoço. Só vim checar a temperatura da crise. E a temperatura está congelada.
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  Ele estendeu a mão para %Débora%, dessa vez não como um teste, mas como um selo de parceria.
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  - Parabéns pelo trabalho, %Débora%. Continue sendo a barreira de concreto dele. O Gustavo tem o talento e um coração mole demais pra esse mercado de tubarões. Ele precisa de generais com sangue frio por perto.
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  - O CNPJ dele está seguro comigo, Marcos. Boa viagem de volta.
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  Marcos deu um tapinha forte no ombro de Gustavo, abaixou-se e disse algo inaudível no ouvido do filho que o fez concordar com a cabeça. Em seguida, o empresário virou as costas e marchou para fora do restaurante, seguido por dois seguranças.
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  Assim que Marcos sumiu no lobby, Gustavo soltou todo o ar dos pulmões de uma vez, afundando na cadeira, tirando o capuz da cabeça e passando a mão no rosto.
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  Ele olhou para %Débora% do outro lado da mesa. O olhar dele não era de um cliente satisfeito. Era de alguém que havia acabado de encontrar um farol no meio de um furacão.
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  - Você tem noção de que acabou de deixar o Marcos Mioto sem palavras? - perguntou Gustavo, a voz embargada de alívio e pura admiração. - Nem o Beto consegue fazer isso. Como você fez tudo aquilo em uma hora?
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  %Débora% puxou o iPad de volta para si, a postura inabalável, mas os olhos suavizando ao encontrar os dele.
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  - Eu te disse ontem no camarim. Deixa a parte ruim comigo. Você só foca em tocar violão. Vai comer suas frutas ou vai ficar me encarando com essa cara de choque?
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  A saída de Marcos Mioto deixou um vácuo de silêncio na mesa. Débora% sentou-se na cadeira que o empresário havia deixado vaga, permitindo-se encostar as costas no estofado pela primeira vez na manhã. A adrenalina tática começava a baixar, deixando um rastro de cansaço nos ombros.
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  Gustavo, que ainda estava processando o furacão dos últimos vinte minutos, empurrou o prato de frutas intocado para o lado e apoiou os braços na mesa, encarando-a com uma mistura de choque e admiração absoluta.
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  - Você jantou a crise, engoliu a página de fofoca e ainda serviu de sobremesa pro meu pai. - Ele balançou a cabeça, rindo nervoso. - "Sufocamento de algoritmo"? Você inventou isso agora?
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  - O nome técnico é Gestão de Reputação por Deslocamento de Foco, mas achei que seu pai, sendo um homem de negócios, apreciaria uma terminologia mais agressiva - confessou ela, roubando um pão de queijo da cesta dele e dando uma mordida. - E eu estava calculando cada milissegundo daquela conversa. Seu pai não é um homem que aceita hesitação.
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  - Não parecia hesitar. Você parecia uma muralha de concreto armado. - Gustavo ficou sério, o olhar castanho se suavizando. - Obrigado. De verdade. Por ter acordado cedo pra limpar a minha barra e não me deixar afundar nisso.
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  - É o meu trabalho, Gustavo. E o seu trabalho hoje é esquecer que a internet existe. - Ela checou o relógio no pulso. Nove da manhã. - O incêndio está apagado. Seu pai deu a bênção. A equipe inteira está de folga hoje e o ônibus só segue viagem à noite.
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  Gustavo abriu um sorriso lento, daquele tipo que desarmava defesas com uma facilidade irritante.
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  - O que significa que o convite pro interior ainda está de pé?
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  %Débora% o avaliou por um momento. Levar o cliente para a propriedade da família era uma quebra de protocolo, mas depois da manhã brutal que ele teve, um isolamento rural era a melhor prescrição médica possível.
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  - Está. Mas com regras estritas de segurança - ela pontuou, a General assumindo o controle da logística. - Nada de postar localização, nada de fotos no Instagram. Um dia cem por cento offline. Vamos na van blindada, só eu, você, o Marcão na segurança e o motorista. O Recanto fica no Norte Pioneiro, a pouco mais de uma hora e meia daqui.
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  - Eu aceito qualquer termo de contrato que envolva sumir do mapa e comer comida de verdade - ele concordou, erguendo a xícara de café como num brinde.
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