Capítulo 03
POV %Débora% • Estrada
A manhã seguinte amanheceu da cor de chumbo. Uma garoa fina e persistente cobria Andirá, no Parana, transformando o asfalto em um espelho escuro e deixando o ar gelado.
Às 08h30 em ponto, o imponente ônibus
Double Decker preto, envelopado com o nome e o rosto de Gustavo Mioto em proporções gigantescas, roncava o motor na frente do hotel. %Débora% estava parada na porta, usando uma capa de chuva escura sobre a roupa de trabalho, coordenando o embarque da equipe técnica e da banda.
- O
case das guitarras vai no bagageiro central, bem travado! - instruiu ela a um dos
roadies. Em seguida, virou-se para os músicos que entravam arrastando os pés. - Fones de ouvido, fechem as cortinas das camas e durmam. Quero todo mundo inteiro na passagem de som em Marília às quatro da tarde. Boa viagem.
Paulinho, o baterista, bateu uma continência preguiçosa antes de sumir para o segundo andar do ônibus.
Logo atrás do gigante de metal, estava a van executiva preta - uma Mercedes Sprinter blindada, com vidros totalmente escuros. O veículo exclusivo do artista.
Às 09h00, Gustavo saiu pela porta giratória do hotel. Ele vestia uma calça de moletom cinza grossa, tênis confortáveis e uma jaqueta jeans forrada sobre a camiseta preta. O boné estava puxado para baixo, escondendo os olhos amassados de sono, e ele carregava apenas uma mochila de couro em um ombro. Marcão, o segurança pessoal dele, com seus quase dois metros de altura, caminhava logo atrás, cobrindo- o com um guarda-chuva.
- Bom dia, General - disse Gustavo ao chegar perto da van, a voz rouca, mas carregando o mesmo tom leve da noite anterior na piscina.
- Bom dia, Gustavo. O ônibus da banda já saiu na frente. Sua água e as vitaminas do nutricionista estão no porta-copos.
Ele parou no degrau da van, protegido pelo guarda-chuva de Marcão, e a encarou de cima a baixo.
- Você dormiu? Porque você parece irritantemente alerta para quem estava comendo pizza fria de madrugada.
- Eu sou movida a café expresso duplo e logística, Gustavo. Entra logo, o trânsito até Marília com essa chuva vai ser lento.
Ele soltou uma risada baixa e entrou. %Débora% subiu logo atrás. Marcão assumiu o banco do carona na frente, ao lado do motorista, e fechou a divisória de vidro e isolamento acústico que separava a cabine principal da área de passageiros.
O baque surdo da porta selou o ambiente. O isolamento acústico da van VIP era absoluto; mal se ouvia o motor a diesel. O interior cheirava a couro limpo e ao perfume amadeirado de Gustavo. O espaço era imenso, projetado para que o artista pudesse deitar se quisesse.
Gustavo sentou-se na poltrona individual da esquerda. %Débora% ocupou a poltrona do lado direito, paralela a ele, com o corredor acarpetado entre os dois.
Nos primeiros quarenta minutos de estrada rumo a próxima cidade, o silêncio reinou. O balanço suave da suspensão era quase hipnótico. %Débora% abriu o notebook no colo, mergulhando nas planilhas da D&R Produções, checando a reserva de quartos do próximo hotel e alinhando os horários com o produtor local. A luz fria da tela iluminava seu rosto concentrado.
Gustavo não tentou dormir. Ele ficou olhando a paisagem verde do interior paranaense passar pela janela manchada de gotas de chuva. De vez em quando, pelo canto do olho, %Débora% notava que ele virava o rosto para observá-la digitar furiosamente.
- Você vai acabar com uma enxaqueca se continuar lendo com o carro em movimento - disse ele, a voz preenchendo o espaço silencioso da cabine.
%Débora% parou de digitar, mas não tirou os olhos da tela.
- Eu não enjoo. Tenho estômago de aço. Ossos do ofício.
- Duvido. Larga isso um pouco. Seus olhos tão vermelhos. A paisagem aqui é bonita, mesmo com chuva.
%Débora% suspirou. Ela sabia que ele estava certo; suas vistas já começavam a embaçar e a dor de cabeça ameaçava dar as caras. Ela salvou o documento, fechou o notebook com um clique seco e o guardou na mochila aos seus pés. Girou a cadeira levemente para o centro, ficando de frente para ele.
- Ok. Ganhou. Pausa de trinta minutos pra evitar um colapso ocular.
Gustavo sorriu, satisfeito, e se ajeitou na poltrona, esticando as pernas longas no corredor.
- Sabe, fazer esse trecho no Paraná me lembra quando eu era mais novo, viajando com meu pai pra ver ele negociar show na região. - Ele apontou o queixo para as plantações de soja que passavam rápido lá fora. - A gente comia sanduíche de posto, dormia torto no carro e eu ficava sonhando com o dia em que viajaria numa van luxuosa, indo cantar pra trinta mil pessoas.
- E agora você está aqui - comentou %Débora%, observando o perfil dele, o tom de voz analítico, mas empático. - A van blindada, o ar- condicionado perfeito, a agenda lotada e a sua equipe inteira viajando no seu próprio ônibus lá na frente. Valeu a pena?
Gustavo virou o rosto para ela. A pergunta soava como uma entrevista de negócios, mas os olhos dela mostravam que a resposta importava de forma pessoal.
- Valeu. Cada quilômetro. A música é o que eu sou, eu não sei fazer outra coisa. Mas... a fatura chega alta, né? Você perde aniversários de amigos, perde o almoço de domingo da família, perde a noção dos dias da semana. A estrada cobra um pedágio caro.
- Cobra - concordou %Débora%, a voz perdendo a rigidez habitual. Ela cruzou os braços, lembrando-se das próprias renúncias para erguer o nome da D&R. - Eu perdi o nascimento da minha sobrinha porque estava coordenando a logística de um festival no Rio de Janeiro que estava desmoronando. Minha irmã ficou sem falar comigo por dois meses.
- Sério? - Gustavo franziu a testa, a atenção totalmente voltada para ela. - E vocês se resolveram?
- Sim. Hoje sou a tia ausente, mas que compensa mandando os presentes mais caros da loja. - Ela riu, um som curto e pragmático. - Mas eu entendo perfeitamente o que você diz. A gente escolhe uma vida que não para de girar. Quem tem rotina das oito às dezoito nunca vai entender o nosso fuso horário.
Gustavo assentiu lentamente, os olhos fixos nela. Havia um reconhecimento profundo ali. Ele não estava falando com uma fã que achava a vida dele um conto de fadas, nem com uma produtora deslumbrada. Ele estava falando com uma colega de trincheira. Eles habitavam o mesmo ecossistema caótico.
- É muito solitário às vezes - admitiu Gustavo, encostando a cabeça na poltrona de couro. O isolamento acústico da van fazia a voz dele soar ainda mais grave. - Você sai do palco em Marília hoje à noite com milhares de pessoas gritando o que você escreveu. Aí você entra no quarto do hotel de madrugada, a porta fecha, a adrenalina despenca e o silêncio é... quase insuportável. Por isso que eu gosto de ficar na piscina comendo pizza fria com os caras da técnica. Ajuda a lembrar que eu sou o Gustavo, e não só o "Mioto".
A vulnerabilidade crua na voz dele pegou %Débora% desprevenida. Ela viu, sem os holofotes e sem a armadura de artista, o peso real que ele carregava.
- É pra isso que a sua banda serve, Gustavo. E é pra isso que a D&R tá aqui - disse ela, o tom firme e reconfortante, sem cruzar a linha do profissionalismo, mas com uma doçura que raramente usava. - Aquele silêncio do hotel a gente não pode resolver, mas o caos ao redor dele, sim. A gente organiza a bagunça pesada pra você focar só na parte que faz a sua vida valer a pena.
Gustavo a observou por longos segundos. Os ombros dele relaxaram visivelmente dentro da jaqueta jeans. Um sorriso genuíno e contido se formou em seu rosto.
- É... acho que o Marcos Mioto sabia muito bem o que tava fazendo quando fechou contrato com vocês.
Ele pegou o celular no bolso da jaqueta e destravou a tela.
- Deixa eu adivinhar - disse ele, mudando deliberadamente o tom de voz para algo mais leve, quebrando a pequena tensão melancólica. - Quando você quer desligar a cabeça das planilhas, você não ouve os meus modões. Você tem toda a cara de quem ouve
Arctic Monkeys ou algum pop alternativo britânico escondida no fone.
%Débora% deu uma risada baixa, surpresa e levemente ofendida com a precisão do palpite.
- O preconceito contra a minha prancheta é real. Eu tenho um gosto musical muito decente e bem eclético, pra sua informação.
- Veremos. Abre seu WhatsApp.
%Débora% pegou o próprio celular. Segundos depois, uma notificação piscou. Um link do Spotify enviado por ele.
Playlist: Estrada & Chuva.
- Dá o play na primeira - instruiu ele, colocando os próprios AirPods nos ouvidos. - Vamos ver se a General aprova.
%Débora% pegou seus fones sem fio na bolsa, colocou-os e clicou no link. Uma melodia suave de piano e guitarra, vagamente indie e atmosférica, preencheu seus ouvidos.
The 1975. Ela conhecia. Ela adorava.
Ela levantou o olhar para Gustavo do outro lado do corredor. Ele já estava de olhos fechados, a cabeça encostada na poltrona, batucando o ritmo suavemente no braço de couro do assento.
Ela não disse nada. Apenas encostou a própria cabeça no assento, virou o rosto para a janela para observar as árvores passarem em borrões sob a chuva constante até Marília, e deixou a música tocar.
Estavam em poltronas separadas, divididos pelo corredor, cada um em seu próprio fone de ouvido. Mas, pela primeira vez desde que assinou aquele contrato de trinta dias, %Débora% sentiu que ela e Gustavo Mioto estavam, de fato, na mesma sintonia.
POV %Débora% • Chegada em Marília, Paraná
O mundo lá fora era chuva, neblina e asfalto escuro. Mas ali, dentro da cabine blindada da van, cada um imerso no próprio fone de ouvido, havia uma sintonia rara. Não era o clima de romance clichê que ela tanto repudiava; era algo mais maduro. Um respeito silencioso e compartilhado por dois profissionais exaustos encontrando um oásis no meio do caos.
%Débora% manteve os olhos fechados, permitindo-se, apenas por aquele trajeto, não ser a produtora resolvendo crises. Apenas uma mulher apreciando uma excelente playlist indie, sentada a um metro de distância de um cara que carregava o peso do próprio nome com uma dignidade surpreendente.
Quando a van reduziu a marcha, pegando os primeiros semáforos da área urbana de Marília, a chuva fina deu lugar a um céu cinza claro. %Débora% abriu os olhos e tocou no próprio fone sem fio, pausando a música. O feitiço da estrada se quebrou instantaneamente.
- Chegamos - anunciou ela, a voz voltando ao prumo, limpa e profissional. Ela recolocou os fones na caixa e puxou o notebook da mochila. - O produtor local já mandou mensagem. O ônibus da banda chegou há meia hora.
Gustavo, que batucava no braço da poltrona, abriu os olhos devagar e tirou os próprios AirPods. Ele a observou ajeitar a postura e endireitar os ombros, reassumindo a patente de General em questão de segundos. Ele sorriu, um sorriso contido e respeitoso.
- Obrigado pela companhia, %Débora%. E por não ser daquelas pessoas que sentem necessidade de falar o tempo todo. A viagem passou rápido.
- O silêncio é subestimado no nosso meio - respondeu ela, sustentando o olhar dele com naturalidade. - Boa playlist, a propósito. Você tem salvação fora do sertanejo.
Ele riu soprado enquanto a van parava suavemente na entrada do hotel. %Débora% não corou, não tremeu. Ela simplesmente destravou a porta, assumindo o controle da situação, repassando as coordenadas com o segurança Marcão e coordenando a descida discreta de Gustavo para evitar alvoroço no saguão. A engrenagem da D&R Produções voltava a girar em potência máxima. Faltavam vinte e nove dias.
O hotel em Marília era um prédio executivo moderno, o tipo de lugar onde todos os corredores parecem iguais e o carpete tem estampas geométricas destinadas a esconder manchas das rodinhas de malas.
%Débora% entrou no quarto 612, largou a mala ao lado do guarda-roupa e suspirou. Era a rotina tática: Check-in, testar a velocidade do Wi- Fi, verificar o nível do ar-condicionado, desfazer a mala.
Ela tirou as roupas com agilidade, Camisas sociais penduradas, calças dobradas. O "Modo Base" precisava ser ativado rapidamente para ela não se sentir uma estranha em mais um quarto genérico. Enquanto organizava os itens de higiene no banheiro, sua mente vagou rapidamente de volta para a van. Aquele trajeto tinha sido perigosamente confortável. Silêncio compartilhado, na profissão dela, era a forma mais alta de intimidade intelectual.
O celular, jogado sobre a colcha branca esticada, tocou o som característico de chamada de vídeo. %Rayane%. A sócia devia ter um radar implantado para momentos em que %Débora% ameaçava baixar a guarda tática.
%Débora% pegou o aparelho, apoiou-o contra uma garrafa de água na mesa de trabalho e atendeu, sentando-se na cadeira giratória.
- E aí, nômade? Chegaram vivos? - %Rayane% apareceu na tela, no escritório da D&R em São Paulo, devorando uma marmita de risoto. Passava das treze horas.
- Vivos e no horário. O motorista é ágil, a van é um tanque de guerra blindado e a logística fluiu - %Débora% relatou, prendendo o cabelo num coque firme. - E você? Almoçando na mesa de novo, %Rayane%? Cadê a pausa?
- A pausa é essa atualização com você. Vi no rastreador da logística que o ônibus da banda e a van já estão no hotel. Como foi a viagem no aquário VIP com o Mioto? Deu muito trabalho?
%Débora% serviu-se de um copo d'água, o tom de voz casual e analítico.
- Nenhuma dor de cabeça. Pelo contrário. Foi surpreendentemente agradável, %Ray%. A gente conversou no início, depois fomos ouvindo música em silêncio. Ele tem uma visão muito madura sobre os pedágios que a estrada cobra. Falou um pouco sobre a solidão pós- show, sobre perder o timing da vida normal. Ele é incrivelmente lúcido pra alguém do tamanho dele.
%Rayane% parou com o garfo no ar, os olhos castanhos semicerrados na tela. Ela conhecia a sócia melhor que ninguém.
- %Débora%... eu conheço esse seu tom de voz. É o seu tom de "eu vi a alma do cliente e achei fascinante".
- Menos, %Rayane%. Eu só constatei que ele é humano. Ter empatia pelo cliente faz parte de uma boa gestão de carreira.
- Faz. Mas ser terapeuta dele não faz - interrompeu %Rayane%, abandonando a marmita e encostando-se na cadeira do escritório. - Olha só, a gente sabe como a banda toca. Como empresárias, a gente conhece o mercado. O Gustavo é um cara sensacional, mas ele atrai holofotes 24 horas por dia. Tudo ao redor dele vira manchete, vira fofoca de internet.
- Eu sei disso. Por isso estou lá para blindá-lo.
- Exato! - %Rayane% apontou a caneta para a tela. - A D&R precisa ser invisível na mídia e impecável nos bastidores. Se você começa a virar a "amigona psicóloga” do cantor, aquela que ouve música dividindo angústias na van, a linha profissional fica turva. Você perde a mão de ferro na hora de cobrar horário e de dizer "não". E se a imprensa cismar de tirar foto de vocês rindo pelos cantos, sobra pra reputação da nossa empresa e talvez nossa chance de entrar na Miotinho Produções desapareça.
A observação da amiga era um balde de água fria necessário e extremamente racional. %Débora% olhou para a janela do hotel, vendo o movimento cinzento de Marília lá embaixo. %Rayane% estava defendendo o CNPJ delas, e com toda a razão.
- Você está certa. E eu não perdi a perspectiva, %Ray% - respondeu %Débora%, a voz voltando à inabalável frieza da "General". - Saber que ele é um cara decente e solitário só facilita o meu trabalho, porque sei que não estou lidando com um moleque deslumbrado. Mas a linha está desenhada no chão de concreto. Ele é o cliente VIP, nós somos a engrenagem.
- Certeza absoluta de que o profissionalismo tá intacto? Nenhuma brecha?
- Nenhuma brecha - %Débora% confirmou, batendo a ponta da caneta na mesa. - Ele vai ter os melhores trinta dias de logística que a Miotinho Produções já viu. Sem dramas, sem terapia de estrada e sem margem para fofoca.
%Rayane% sorriu, voltando a atacar o risoto, visivelmente aliviada com a firmeza da sócia.
- Excelente. A D&R agradece a sua lucidez de gelo. Seja o escudo de titânio dele e faça o nome da nossa empresa brilhar lá dentro.
- Pode deixar. Agora vai terminar de comer antes que seu almoço esfrie de vez. Às 16h eu tenho passagem de som e preciso focar.
A chamada encerrou. %Débora% ficou encarando o reflexo próprio na tela preta do celular por alguns instantes. A conversa serviu para assentar a poeira e fixar seus pés no chão firme da realidade.
A empatia que sentiu na van era natural, mas perigosa se não fosse dosada. Gustavo não precisava de uma amiga ali, precisava de uma gestora implacável que garantisse que tudo funcionasse com perfeição.
E perfeição técnica, definitivamente, era a especialidade de %Débora%.
O Lobby e o Café Ruim
Uma hora depois, o "Modo Casa" já estava devidamente desligado. %Débora% desceu para o saguão vestindo o uniforme tático de campo: calça jeans preta de sarja, botas confortáveis para aguentar horas em pé e uma camisa polo escura com a pequena logo da D&R Produções no peito. O rádio comunicador já estava preso na cintura, o fone invisível encaixado na orelha. A passagem de som em Maringá seria em trinta minutos.
Ela encontrou Gustavo sentado em uma das poltronas de couro do lobby, folheando um guia de turismo local que devia ter uns três anos de validade vencida. Ele também já estava pronto para o trabalho: calça jeans, camiseta preta básica e um boné diferente. O cheiro de sabonete do hotel se misturava ao perfume amadeirado dele, que agora %Débora% já identificava a metros de distância.
- Descobriu algum ponto turístico imperdível em Maringá além da Catedral? - perguntou ela, parando ao lado da poltrona e checando o relógio.
Gustavo fechou a revista e soltou uma risada nasalada.
- Aparentemente tem um parque enorme aqui perto. A gente devia ir caminhar.
- Claro. Se sobrar tempo entre a montagem do painel de LED, a passagem de som, o atendimento aos radialistas no camarim e o show, a gente vai dar uma corridinha no parque - ironizou ela, o tom seco, mas sem hostilidade, sentando-se na poltrona à frente dele.
- Você é uma destruidora de sonhos, %Débora% - ele disse, recostando-se na poltrona.
Havia uma garrafa térmica de café de cortesia em um aparador próximo. Gustavo se levantou.
- Quer um café? Aviso logo que tem gosto de pneu queimado com terra, mas tem cafeína.
- Aceito. Pneu queimado é exatamente o que eu preciso pra lidar com o técnico de luz hoje.
Ele serviu dois copos de papelão e entregou um a ela. O repasse foi rápido, prático, sem toques acidentais ou faíscas invisíveis. Apenas dois colegas de trabalho dividindo combustível ruim.
- Estava pensando no que a gente conversou na van - começou Gustavo, sentando-se novamente e soprando a fumaça rala do café. - Sobre a sua família no interior.
%Débora% ergueu as sobrancelhas, a mente de produtora já processando onde aquela conversa ia parar.
- O que tem eles?
- A gente tem uma folga na agenda na semana que vem, na terça-feira. É o dia de deslocamento, mas o trecho é curto. Vai ser um dia morto.
- Correto. O planejamento é chegar na próxima cidade, fazer o
check-in e deixar a equipe descansar no hotel o dia todo.
- Onde exatamente seus pais moram? É perto da rota? - Ele perguntou, os olhos castanhos fixos nela, com um interesse que ia além do casual.
%Débora% cruzou as pernas, apoiando o copo no joelho.
- Eles têm um recanto no Norte Pioneiro. Fica a umas duas horas do nosso trajeto principal.
A expressão de Gustavo mudou na hora. O interesse polido virou curiosidade genuína.
- Um recanto? Tipo roça?
- Tipo roça com CNPJ - ela corrigiu, um sorriso de orgulho escapando. - Eles produzem cachaça artesanal. O lugar é incrível, mas é o interior do interior.
Gustavo quase derrubou o copo de papelão.
- Cachaça artesanal e roça. %Débora%, pelo amor de Deus. A gente precisa ir.
%Débora% piscou, a mente logística entrando em curto-circuito por três segundos antes de reagir.
- O quê? Gustavo, não. Absolutamente não. Você tem noção do risco de segurança? Eu não posso simplesmente desviar uma van blindada e aparecer no recanto da minha família com o Gustavo Mioto a tiracolo. A vizinhança descobre, a cidade inteira desce pra lá, minha mãe infarta tentando fazer comida pra todo mundo e a D&R perde a apólice de seguro da turnê.
Ele riu alto, o som ecoando no lobby vazio e fazendo o recepcionista olhar para eles.
- Qual é, General, abaixa as armas. A gente faz um esquema discreto. Não precisa levar a equipe. Vai na van só eu, você, o Marcão da segurança e o motorista. A gente não posta nada, zero celulares. Eu troco minha presença vip por uma dose dessa cachaça e comida de fogão a lenha.
%Débora% o encarou, incrédula. Ele não estava flertando. Não havia nenhum tom de "vamos fugir juntos" naquilo. Ele estava, genuinamente, querendo um pedaço de terra firme. Ele queria fugir da bolha de vidro, do carpete de hotel e da comida pasteurizada de serviço de quarto.
Ela lembrou do que ele dissera na van sobre a solidão ensurdecedora. Um artista em
burnout era o pesadelo de qualquer turnê. Levar o cliente para a propriedade da família cruzava uma linha do protocolo padrão da D&R? Sim. Mas gerenciar a saúde mental do artista também era responsabilidade dela. E um dia de paz na roça poderia render um cantor com o dobro de energia para o resto do mês.
- Isso é um pesadelo logístico - murmurou ela, avaliando as variáveis. - Meu pai vai te fazer sentar num toco de madeira e te alugar por três horas contando vantagem sobre a produção da cachaça.
- Eu sou o melhor ouvinte de histórias de alambique que você vai conhecer - garantiu ele, o sorriso de quem sabia que estava ganhando a discussão. - É sério, %Débora%. Eu odeio ficar trancado em hotel no dia de folga. Pensa com carinho. Como minha produtora. Um artista relaxado rende muito mais no palco.
Ele estava usando as palavras dela contra ela. %Débora% não pôde evitar um sorriso de canto de boca. Ele era bom argumentador.
- Vou fazer uma análise de risco da rota e falar com o Marcão - ela cedeu, estritamente profissional, mas com um brilho divertido no olhar. - Se o nível de exposição for baixo, eu ligo pra minha mãe. Não estou prometendo nada.
- Já é um começo.
O rádio na cintura de %Débora% chiou. Era o coordenador de palco avisando que o som estava liberado para teste.
A van preta buzinou suavemente lá fora, encostando na porta de vidro do hotel.
- Hora do show - %Débora% se levantou, jogando o copo de papelão no lixo mais próximo. - A passagem de som nos espera. O técnico disse que mudou o
grid de luz, então se prepare pra ficar marcando posição no palco por um bom tempo hoje.
- Sim, senhora.
Eles caminharam juntos para a saída rotatória, ombro a ombro. Não havia a tensão clichê de um romance proibido, nem a formalidade gélida do primeiro dia. Havia apenas uma dinâmica de respeito se solidificando. Dois profissionais da estrada que, aos poucos, descobriam que trabalhar juntos tornava o café ruim suportável e o peso da turnê muito mais leve.
A Chegada e o Fantasma da Mídia
A chegada ao local do show foi, como de costume, caótica. A van executiva blindada manobrou lentamente pela entrada de serviço do pavilhão de eventos, onde uma grade de ferro separava o veículo de cerca de cinquenta fãs que aguardavam sob o céu ainda nublado. Eles seguravam cartazes, capas de chuva e celulares com as lanternas ligadas apontadas para os vidros escuros.
Assim que o motorista desligou o motor, o som dos gritos atravessou o isolamento acústico. "Gustavo! Mioto!"
%Débora% foi a primeira a descer. A "General" avaliou a segurança em cinco segundos. Havia três seguranças locais segurando a grade, além do Marcão, que já havia descido e se posicionado. Era o suficiente.
- Tudo limpo - disse ela, voltando-se para a porta aberta da van. - Você tem exatos cinco minutos, Gustavo. O cronograma da passagem de som está apertado por causa do atraso na montagem do LED.
Gustavo assentiu, respirando fundo e ajeitando o boné. Era fascinante e um pouco assustador ver a transição. Os ombros dele se endireitaram, o sorriso carismático se acendeu e qualquer traço de cansaço desapareceu. Ele entrou no "Modo Artista".
Assim que ele colocou o pé no asfalto, a histeria aumentou. %Débora% ficou a dois passos de distância, prancheta na mão, observando a linguagem corporal da multidão, pronta para intervir se alguém ultrapassasse o limite físico.
Ele foi impecável. Pegou celulares para selfies, autografou chapéus, aceitou cartas. Olhava nos olhos das pessoas e agradecia com uma paciência genuína. Ele sabia que aquelas pessoas pagavam a estrutura milionária que o cercava.
Mas a harmonia quebrou no último metro de grade.
Uma garota, talvez com seus vinte anos, esticou o braço por cima do ombro de outra fã, enfiando o celular gravando com o flash ligado bem no rosto de Gustavo.
- Gu! É verdade o que saiu no Daily do Garotinho? - a menina gritou, a voz estridente cortando os outros chamados. - Que você e a Ana estavam ensaiando voltar, mas ela assumiu o Zé Felipe em Goiânia? Manda um recado pra ela no meu vídeo! Você tá com raiva?
O sorriso de Gustavo não sumiu - anos de treinamento de mídia o impediam de quebrar a postura em público - mas congelou. A mão que segurava a caneta para autografar uma capinha de celular parou no ar. O maxilar dele trincou de forma quase imperceptível.
Aquilo não era a pergunta de alguém preocupado; era a busca desesperada por um corte viral para o TikTok às custas da paz dele.