A Química das Sapatilhas

Escrita porRay Dias
Editada por Natashia Kitamura

CAPÍTULO • QUATRO

Tempo estimado de leitura: 17 minutos

A • Q U Í M I C A • D A S • S A P A T I L H A S •

  Mais tarde, Nicholas buscou-a e levou-na para a casa dele. E %Clair% notou que nada mudara muito na vida dele e naquela casa desde que eram amigos e parceiros fixos de dança. Ela sentou-se no sofá aguardando Nicholas terminar seu banho, e assim que ele voltou foi à cozinha.
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  — Enquanto você come, quer que eu vá fazendo algo? — %Clair% perguntou.
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  Estava ansiosa, alguma coisa em “ficar perto ou a sós” de Nicholas deixavam-na ansiosa nos últimos dias. Ele olhou para ela sorrindo, e deu às costas voltando às panelas.
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  — Só estou preparando nosso jantar, para depois do ensaio.
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  — Ah, não precisa se incomodar comigo, Nicholas. Se quiser comer antes, fique à vontade.
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  — Acha que eu não sei que você anda se alimentando menos que um pássaro? Suas olheiras, e a cor da sua pele denunciam não só o cansaço extremo, como um pré-estado anêmico, %Clair%.
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  Ela ficou muito sem graça com a fala, com as percepções e com a audácia dele.
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  — Não é uma crítica. — Ele respondeu ainda de costas ao notar o silêncio atípico da parte dela — Eu só estou me preocupando contigo.
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  Ela murmurou um som positivo e voltou para a sala. Logo, Nicholas surgiu com uma taça de vinho para ela.
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  — Achei que íamos ensaiar. — Ela riu pegando a taça.
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  — Uma taça não vai atrapalhar nada. — Nicholas riu de volta: — Vou deixar o cozido fervendo em fogo baixo e podemos começar. A cobertura do apartamento é um ótimo espaço.
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  — Ok… — bebeu um gole e olhou curiosa: — Você aprendeu a cozinhar, então?
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  — Você sabe como eu adoro comer… E morando sozinho a gente é forçado a se virar, não é?
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  — Verdade… — Ela riu baixo.
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  — %Clair%? — Nicholas falou em tom cuidadoso e ela o olhou calma, então ele perguntou — Desculpa ser invasivo, mas… O que houve com você?
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  — Eu decidi o que foi melhor para mim.
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  — Seu pai te colocou contra a parede não é? Mas, o que foi diferente agora? Ele sempre fez isso.
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  — Uma hora a gente tem que bater o pé né…
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  — Você… Precisa de alguma coisa? — perguntou com muito jeito, tinha medo dela se ofender.
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  — Preciso. Me acostumar logo com a nova vida… — um sorriso melancólico surgiu nos lábios dela.
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  Ela ponderou entre uma fala e um gole. Decidiu beber ao invés de falar mais alguma coisa. E Nicholas quis poder fazer algo por ela.
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  — Ele deserdou você?
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  A pergunta sem resposta, e a sonora risada lenta da mulher indicaram o que ele já sabia. Afinal, havia escutado a conversa com Fred e %Clair%, apenas não admitiria isso para ela. Rapidamente, Nicholas virou de uma só vez seu vinho, sendo obrigado a ouvir %Clair% dizer-lhe que aquilo era um insulto. E foi ao fogão, deixar seu ensopado no modo “cozimento”. Em seguida puxou a garota pela mão, de modo delicado, e ela levando a taça o seguiu. Fecharam a porta do apartamento e seguiram para o elevador em silêncio.
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  Ensaiaram no terraço sob as estrelas e a lua grande, até que o tempo de cozimento de seu jantar os interrompesse. Quando desceram, checaram o cozido pronto e os dois comeram juntos, sorriam e conversavam como não faziam há muito tempo! Decidiram comer na sacada da sala, um espaço que Nicholas havia feito de “recanto”. Era coberta até certa parte, onde haviam almofadões e uma mesinha de centro. Aquilo quebrava o ar sofisticado da sala, e realmente era um refúgio.
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  Estavam ambos no chão bebendo o que restara da garrafa de vinho, e conversando animados, quando começou a chover. Nicholas levantou correndo passando por cima de %Clair%, e ela sem entender o observou até que enfim começou a gargalhar. Ele estava retirando algumas coisas que deixou na parte descoberta da sacada e estavam molhando. Ele retornou meio irritado por seu descuido próprio.
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  — Isso sempre acontece! — Ele disse chateado.
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  — Você precisa de alguém para te ajudar. O apartamento é grande. Não tem uma diarista para organizar as coisas aqui, pelo menos uma vez na semana?
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  — Não, eu que arrumo tudo. E até que é divertido. Vai ser ainda mais divertido quando eu tiver uma namorada!
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  — Mal dou conta da minha casa.
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  Nicholas olhou confuso para %Clair% e começou a gargalhar. Ela enfim o entendeu…
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  — Ei! Não estou me oferecendo! Foi só um comentário, afinal, estou até constrangida. Você arruma sozinho a sua casa e eu mal dou conta da minha que é tão pequena…
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  — Pequena, mas muito aconchegante.
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  — Você gostou dela? — %Clair% sorria de um modo surpreso.
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  — Muito.
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  Novamente um silêncio, e um par de olhares a se analisar.
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  — Também não estou me oferecendo a você. — Ele disse zombando.
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  — Eu não disse nada, convencido. — %Clair% respondeu rindo.
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  — Até porque… Você diz que não tem nada com o Fred, mas, vocês se beijam. Não quero problemas.
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  — Você é um problema. — Ela respondeu sem notar o peso daquela frase.
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  Nicholas olhava-a intrigado. E lentamente, aproximou seu rosto ao dela, a garota não olhava para ele, mas, sentia-o se aproximar. Ela, delicadamente levantou-se antes que ele a alcançasse. Fechou os olhos se auto reprovando e disse para Nicholas que precisava ir. Ele insistiu em levá-la em casa, e embora tivesse recém escapado do beijo dele — o que o deixou com raiva, mas sem saber de quem ou o quê — ela aceitou.
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  Nicholas a deixou na entrada de sua casa, e ela acenou entrando rápida correndo da chuva. Ele sorriu. E ela também, lançando a ele um último olhar da noite.
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A • Q U Í M I C A • D A S • S A P A T I L H A S •

  Havia chegado a segunda-feira em que eles precisariam apresentar a coreografia, e demonstraram um esboço perfeito da apresentação para a Mostra Final, e Fred não só aplaudiu como teceu elogios infindáveis. Elogiou a dedicação: apesar do prazo apertado, cumpriram seu dever. Elogiou a perfeição dos movimentos. Elogiou a criatividade. Elogiou a responsabilidade. Elogiou a beleza do duo. Elogiou por fim, em suas próprias palavras: “a natureza íntima e de um matrimônio corpóreo entre o casal”. Os dois não sabiam se sorriam exibindo-se, ou se resguardavam. Eles sempre foram um par discreto, muito confundido com soberbos ou esnobes. Agradeceram sorrindo e retornaram ao seu lugar para assistir as outras apresentações.
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  Mas, na vida, em tudo, um trabalho executado com maestria tende a atrair e repudiar. E na saída daquele ensaio, os dois foram bombardeados por cochichos maldosos e apontamentos. E %Clair% estourou a paciência ao ouvir uma colega falar, em tom não tão baixo:
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  — Aí é fácil, o Fred coloca os dois perfeitinhos juntos. Há quanto tempo eles estão nisso mesmo? Até eu me sairia muito bem se dançasse com o cara com quem transo há dez anos!
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  Nicholas segurou a mão de %Clair% puxando-a dali antes que ela fosse até a dançarina exigir explicações. Ele a acalmou, levou-a para o trabalho e antes que saísse revoltada do carro, ela pronunciou a única coisa naquele percurso:
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  — Nós vamos pisar em todas as apresentações. Façamos jus aos títulos de rei e rainha daquela companhia.
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  Ela disse e saiu batendo a porta do carro. Atravessou a rua pisando fundo. Nicholas estava com uma sobrancelha arqueada num tom surpreso e satisfeito com a saída tempestiva de %Clair%. Ele telefonou ao Fred contando o que aconteceu, e finalizou sua ligação com a frase:
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  — Despertaram a patricinha dona de um império, que há escondida dentro da %Clair%. E é melhor você não evitar esse fantasma agora.
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  Os dois mantiveram os ensaios noturnos, quando era possível conciliar às folgas dela. E embora, Nicholas achasse que após a experiência pré-avaliação, dos ensaios que os tornaram “íntimos” de novo, fosse perpetuar, na verdade, %Clair% estava mais insuportável do que antes. E o que mais espantava aos dois, era que Nicholas estava mais paciente do que nunca. Ele ria da maneira como a garota tentava o repelir de novo e implicá-lo. Em um dos ensaios ela falava sem parar, ou melhor, reclamava… E ele com as mãos à cintura sorria. Aquele sorrisinho a deixara tão enraivecida, que ela começou a gesticular forte e reclamar, mais, mais e mais até que Nicholas puxou-a pela mão colando seus corpos. Olhavam-se tão fortes, e ele, de repente iniciou uma dança calma com ela. E a mulher foi acalmando-se aos poucos, com um riso que nasceu de um sorriso de canto, logo, ambos gargalhavam bailando alegres pelo salão. Nicholas sabia que após a Mostra, aquele ar repulsivo e impaciência de %Clair%, desapareceria. E então, ele mudaria todo o ciclo de suas relações. Estava disposto a ter mais momentos agradáveis ao lado dela. %Clair% evitava pensar no que viria depois.
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A • Q U Í M I C A • D A S • S A P A T I L H A S •

  Dia da Mostra Final

  Eram o último casal.
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  — %Clair%… Vamos fazer o que nós nascemos fazendo de melhor. — Nicholas segurava a mão dela na cochia aguardando serem anunciados.
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  — Não se preocupe Nick, nós somos os melhores no fim das contas.
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  Eles foram anunciados, as cortinas se fecharam e ela deu o primeiro passo. Estava determinada. E o som de seu apelido dito por ela, fizera Nicholas reverberar por dentro. Ele entrou no mesmo ritmo, no mesmo sentimento e na mesma gana que ela. As luzes baixas, os dois em seus lugares, e começou a música.
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  %Clair% entrou dançando, os passos fortes e bem marcados, do street. E ele também. Se encontraram no centro do palco, e faziam marcações harmônicas.
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N/A: Clique aqui para escutar a música da dança deles, se quiser.

  Nicholas começou a cantar, de repente. Aquilo era um bônus. Havia um “ar” competitivo entre ele, %Clair% e na letra da canção. E quando a voz dela entrou, também, outro bônus. Todos estavam surpresos, principalmente pelo casal falar aquele idioma. Nicholas ganhou a frente, e %Clair% que havia sumido do jogo de luzes, retornou com uma roupa totalmente diferente, e na parte mais lenta, ela iniciou o balé, enquanto Nicholas fazia a dança paralela em street, no pop da música.
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  Quando Young saiu do palco surgindo em uma parte mais alta, %Clair% rebolava de modo sensual combinando o balé no chão, com o street dance. Ele pulou do alto onde estava, bem à frente dela, e puxou-a iniciando o padedê combinado. A música tomou um tom mais lento e as vozes sensuais de ambos arrepiaram a plateia. Nicholas jogou %Clair% para o alto, como haviam combinado, pegou-a em seus braços passando-a para suas costas e a garota tocou os pés ao chão retornando do padedê para o street. Eles fizeram uma sequência de passos ágeis, rápidos, difíceis e tão sincronizados quanto aos grupos de k-pop.
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  Três fileiras de dançarinos — que ninguém, nem mesmo Fred, esperava — tomaram a frente dos dois, criando um muro de dança. %Clair%, neste momento surgiu com sua terceira troca de roupa, um colan com voil descendo por suas pernas, em uma fenda abusadamente longa e Nicholas surgiu em um fraque de dança, elegante e tomou ela em seus braços.
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  Dali daquela cena até o final das músicas e apresentações, foram faces e mais faces concentradas neles. Olhares totalmente perplexos e um Frederico totalmente sorridente por trás das cortinas. Os companheiros da companhia que os detestavam, passaram a detestar mais. Aqueles que admiravam, passaram a admirar mais. E ainda, os que não “fediam e nem cheiravam”, convenceram-se do poder que aquele casal exercia sobre um palco.
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  Nicholas e %Clair% tomaram mais uma vez o centro do palco, e a equipe de dançarinos que os acompanhava saíram, e o mais improvável aconteceu quando Nicholas, ao final da dança pegou %Clair% — em um passo combinado e rodopiou-a em seu corpo onde ela finalizava sentada em sua cintura segurando-se à nuca dele —, mas, inesperadamente beijou-a voraz. %Clair% correspondeu e ali nada mais ouvia-se se não oblações e gritos. Fred não sabia se gargalhava, chorava de emoção ou recebia as parabenizações por sua companhia.
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  Os dois desceram do palco, após agradecerem ao público e foram abraçados pelos companheiros. Receberam cumprimentos e tiraram fotos. Fred os exaltou ainda mais, mas, apenas entre eles três. E quando foi chamado para receber o carinho da plateia, Nicholas e %Clair% ficaram a sós. Eles se abraçaram extremamente felizes e eufóricos. Ao separar-se de Nicholas, %Clair% viu que a mesma mulher que havia feito o comentário maldoso no ensaio os encarava com ódio. Nicholas olhou na direção dela e chamando a atenção de %Clair% falou:
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  — Vingada, senhorita %Clair% %Stefanini%?
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  — Bastante! — Ela riu e o olhou mais séria: — E o que foi aquele final?
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  — Você havia dito para nós fazermos jus aos títulos…
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  Ele sorria brincalhão e ela sorriu junto.
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  — Fiz mal?
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  — Não, acho que foi um “grand finale”.
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  — Ou seria um recomeço?
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  A pergunta de Nicholas ficou sem resposta, pois ambos foram puxados pelos colegas da companhia para o agradecimento final no palco. E em seguida foram arrastados para a saída em direção à comemoração. Nicholas perdeu %Clair% de vista, e ao perguntar sobre ela para Fred, ele disse que a bailarina havia ido embora. No mesmo momento, ele decidiu ir também. Na verdade, decidiu alcançar %Clair%.
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  Pegou o carro e poucos metros de distância do local, ela caminhava cabisbaixa na calçada com sua roupa da apresentação ainda e sua mochila pendurada nas costas. Nicholas alcançou-a com o carro, no mesmo ritmo dos passos dela. Ao olhar para o lado e ver que o automóvel era de Nicholas ela sorriu, e parou de andar. Ele também estacionou e abaixou o vidro perguntando:
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  — Por quê não foi comemorar?
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  — Você mais do que ninguém, sabe que eu preciso dormir. Depois de comer é claro, eu não como bem há semanas!
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  Ela respondeu se aproximando da porta do carro.
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  — Dorme lá em casa. — Ele falou naquele tom de voz que a deixava mexida.
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  Estava sério aguardando-a responder. Ela encarou-o em dúvida e sorriu fugindo ao olhar dele.
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  — Tenho um vinho em casa, uma massa pré-aquecida que preparei antes de sair… - deu mais uma alternativa a ela.
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  A mulher sorriu e negou com a cabeça, ponderando o que deveria fazer encostou a testa em seus braços cruzados sobre a porta do carro.
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  — Se não estou enganado, você não faz compras há alguns dias, sua geladeira está vazia e você vai comer uma salada de frutas ou vitaminas e cair morta de cansaço na cama. Minha oferta é meio irrecusável, não acha? Sem contar que, minha cama deve estar mais organizada com a sua com certeza!
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  — Idiota… - ela sussurrou ainda com a cabeça entre os braços.
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  — Eu falei que fiz massa? - ele continuou jogando.
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  Ela ergueu o rosto para ele. Estava irritada pela petulância dele em provocá-la daquela maneira, e não pode não sorrir quando viu os dentes dele se revelarem sob um sorriso maldoso. Respirou fundo certa do que ia fazer, mas Nicholas interrompeu seu ato com um último pedido:
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  — Dorme lá em casa.
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  Ela não queria ceder logo depois daquele pedido, mas, já havia posto a mão na maçaneta da porta e ele sabia. Ele tinha sido sugestivo de propósito. E ao vê-la naquele impasse de como reagir após sua última proposta, ele olhou para a mão dela na maçaneta confirmando que já sabia que ela havia aceitado pelo jantar. %Clair% fez uma careta entrando no carro, e não custava ser ainda mais direta naquela confirmação:
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  — Estou indo pela comida.
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  Ele riu negando com a cabeça, e ela sorriu afivelando o cinto. Ela não cedia mesmo. Mas, ele gostava daquilo.
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Fim

CAPÍTULO • QUATRO
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