Capítulo Vinte e Seis
O silêncio que se seguiu foi tenso, carregado de exaustão. Olhei para cada pessoa presente naquele lugar; alguns rostos conhecidos,
outros nem tanto. Vi minha melhor amiga limpar o suor de seu rosto, apoiada em %Seungmin%, que carregava um olhar de alívio. Vi também vários alunos da academia. Eles eram mais novos do que eu, ainda mais jovens do que quando fui mandada para a minha primeira missão. Não era certo que estudantes tão novos e sem experiência alguma estivessem ali. Eles deviam estar aprendendo sobre táticas de luta e história, não enfrentando um combate logo na primeira missão.
— Entendam que não estou fazendo isso por mal. — Continuei, minha voz ganhando uma autoridade que eu ainda não sabia ao certo se deveria estar assumindo. — A nossa instituição não deve seguir nas mãos daqueles que causam danos. Pelo contrário, ela foi construída para proteger, e isso inclui todos os seres nascidos.
Humanos e seres sobrenaturais. Um murmúrio correu entre os caçadores, principalmente os veteranos, que foram ensinados a não perdoar. Eu queria dar uma escolha para eles, principalmente para os mais velhos, ao mesmo tempo que desejava que eles fossem punidos por toda dor que causaram nos outros.
— E o que acontecerá com aqueles que não aceitarem? — Um dos veteranos me perguntou.
— Aqueles que escolherem deixar a Ordem, serão julgados por seus atos, e então terão suas sentenças declaradas. — Expliquei, enquanto o burburinho tomava grande proporção, com uma boa parte dos caçadores vaiando minha declaração.
— Isso é injusto! Trabalhamos uma vida por isso…
— E, por conta disso, quem não participou do massacre anos atrás irá recomeçar suas vidas… Sem maiores punições. — Encarei cada um que estava ali. — No entanto, aqueles que participaram daquele massacre, serão julgados pela Ordem… E principalmente pelo submundo.
Diante do meu comunicado, um a um, eles soltaram suas armas. Pela fisionomia de cada um, dava para saber quem continuaria, e quem desistia.
— %Echo%. — Chamei minha amiga, que se aproximou. — Chame %Hyunjin% e peça por reforços. Para aqueles que não aceitaram continuar na Ordem, iremos usar o Pulvis Lethe. Apagar a memória deles é nos resguardar de qualquer problemas no futuro. — Sussurrei.
— Você acha isso certo? Apagar a memória deles deixará um vazio de anos… — Fechei meus olhos. Eu sabia muito bem os efeitos de apagar a memória das pessoas, mas nesse caso, não poderíamos deixar pontas soltas, muito menos dar a oportunidade de uma futura rebelião de caçadores.
— É direito dela decidir, %Echo%. — Senti a mão de %Changbin% no meu ombro. — Eu irei falar com %Hyunjin%… Quantas pessoas você acha que irá aceitar ficar na Ordem?
Os caçadores da nova geração permaneceram parados no mesmo lugar onde estavam, sujos de sangue, cobertos de suor e cansaço. Ali estava claro quem aceitaria essa nova fase e quem renunciaria.
— Iremos precisar de toda ajuda possível… Os mais velhos não vão aceitar facilmente. — Era possível ver alguns caçadores tentando sair do campo, mas os guardas reais os impediram.
— Ótimo! — %Changbin% assentiu, indo em direção à casa, e logo sumiu do meu campo de visão.
— E você, %Echo%? O que vai querer fazer? — Perguntei, deixando claro que todos teriam a oportunidade de ir embora, sem exceções.
— Vou ficar do seu lado, onde mais eu estaria? — Ela sorriu para mim.
— %Faith%… — %Seungmin% e %Minho% se aproximaram. — Você precisa ir para dentro. Precisamos consertar a bagunça que você está antes que desmaie.
Assenti, mas meus olhos voltaram para a Guarda Real. Alguns transmorfos estavam sendo levados, deixando claro que eles seriam julgados pelo tribunal do submundo.
— Vamos para dentro. — %Minho% passou as mãos sobre meus ombros, me guiando para a casa da minha avó.
— Espera! Onde estão %Christopher% e %Jisung%? — Travei assim que lembrei dos dois.
— Tivemos que apagar %Christopher% por conta dos efeitos da lua de sangue. E o %Jisung% está em um lugar seguro. — %Minho% me tranquiliza.
— Certo. Preciso que alguém cheque os dois.
— Está tudo certo. %Christopher% está com alguns guardas e %Jisung% está com Félix no mundo das fadas. — %Seungmin% me empurrou levemente, me forçando a andar.
À medida que eu caminhava por aquele quintal, era obrigada a desviar de alguns corpos que estavam estendidos. O chão, que uma hora era de um verde brilhante, agora estava coberto pelo sangue daqueles que morreram nessa luta.
A casa da minha avó era outra coisa que estava lastimável. As janelas estavam quebradas e a casa aparentava ter algumas rachaduras. Levaria um bom tempo até que ela voltasse a ser um lugar habitável. Mas isso não era nada comparado ao alívio de vê-la parada na porta, me esperando sem nenhum arranhão.
— Vovó… — Engoli toda a dor que sentia pelo meu corpo e praticamente corri em sua direção. — Vocês estão bem?
— Sim… Estivemos o tempo todo protegidos. — A cabeça da minha avó ergueu-se levemente, olhando por cima dos meus ombros. — Parece que levaremos um bom tempo até conseguirmos limpar toda essa bagunça.
— Muitos ficaram feridos, outros…
— Tente não pensar sobre isso. Todo mundo sabia o que estava fazendo a partir do momento em que chegou aqui. Não é sua culpa. — Ela tentou me confortar.
— Por que parece que a senhora sabia o que aconteceria? — Perguntei.
— Não tenho o dom de prever o futuro, criança. — Vovó sorriu. — Mas, em tempos de batalha, todos estamos preparados para as perdas.
— O que você pretende fazer, %Faith%? — Vovô se aproximou, sua mão enfaixada.
— Porque todo mundo está me perguntando isso? — Os encarei, confusa.
— Você ainda não entendeu? %Faith%… A Ordem pertence a você. — Soltei uma risada nervosa, sem acreditar no que acabara de escutar.
— Claro, claro. — Eu precisava sentar; podia sentir minhas pernas fraquejando. — Bom… Iremos começar dando uma segunda chance aos caçadores Mas os que se recusarem terão suas memórias apagadas….
— Uma atitude um tanto quanto ambiciosa. — o rei Kaer entrou na sala, acompanhado de alguns guardas. — Mas algo que eu faria, com certeza.
— Tem algum motivo para essa decisão? — Lith me pergunta.
— Quero evitar possíveis rebeliões. — Expliquei.
— E o que a faz crer que as pessoas que estarão ao seu lado não se rebelarão ao longo dos anos? — Me perguntou.
— É por isso que irei precisar da ajuda de todos os bruxos. Além de apagar as memórias, pedirei para que seja jogado o pó da verdade em todos. Assim, saberei que é leal.
— Mas isso não seria impor algo? — Lith continuou.
— Isso seria evitar outra guerra. Existem caçadores bons, mas também existem os maus. Não posso me dar ao luxo, nesse momento, de ter traidores na Ordem.
— Deixe ela, Lith. Parece que a garota sabe exatamente o que deve fazer. — Observei o rei se aproximando da rainha, sussurrando algo em seu ouvido que a fez recuar.
— A Ordem é sua, você será nova líder. Teremos que confiar em você e no que decidir fazer. — Ela me ofereceu um sorriso singelo.
— Ótimo, porque o conselho da Ordem será formado a partir de um caçador, um lobo, um vampiro, um bruxo, uma fada, um humano e uma raposa de nove caudas….
— Por que uma raposa? — %Minho% me perguntou.
— Porque quando eu estava perdida em minhas memórias, foi uma raposa que me ajudou. — Devolvi.
— Mas raposas de nove caudas são traiçoeiras e foram rebaixadas há muitos anos. — %Seungmin% explica.
— Se os caçadores terão uma nova chance, o certo é que todos tenham. — Ponderei. — Alguém peça para que Félix volte e traga %Jeongin% e %Jisung% com ele.
As horas seguintes foram como um borrão para mim. Vi meus amigos ajudando na organização dos feridos, enquanto %Hyunjin% e outros bruxos ajudavam a curar as pessoas em estado mais crítico.
Fiquei aliviada quando um dos guardas de Lith veio em minha direção e informou que %Christopher% tinha finalmente acordado. Eu tinha certeza de que ele teria sido de grande ajuda nessa batalha, mas se os reis olharam para ele e entenderam que não, ele não estava preparado para aquilo, e que o melhor seria apagá-lo para que nada de ruim acontecesse, eu consideraria essa a melhor solução.
Posso ter uma parcela de familiares lobos, mas eu não tinha convivido a minha vida inteira com eles para saber os efeitos de uma lua de sangue, não quando ela era a primeira.
Quando o sol começou a aparecer no horizonte, restavam poucas pessoas. A maioria era de caçadores esperando um veredito. Caminhei até o quintal, onde já não tinha mais corpos e sangue no chão. %Changbin% estava ao meu lado, me mantendo firme em minha posição, como um escudo prestes a interceptar qualquer golpe por mim.
— Você está pronta? — Ele perguntou, observando os rostos conhecidos à nossa frente.
— Não sei. — Confessei baixinho. — Tenho medo de não restar muitos de nós.
— Caso isso aconteça, começaremos do zero, com novos caçadores, caçadores que irão nos apoiar, e não nos atrasar. — Balancei minha cabeça. Ele tinha razão.
A guerra tinha acabado, mas uma nova história estava se iniciando. Ali, entre os caçadores, percebi dois rostos ainda mais conhecidos por mim.
Meus pais… Eu teria que encarar a realidade de puni-los por seus atos do massacre ordenado pela minha avó anos antes, e não poderia recuar nessa decisão. Precisava me mostrar imparcial, para que todos entendessem que não haveria perdão para ninguém, e isso inclui meu próprio sangue.
A Ordem não existia apenas pelo poder. Ela foi criada para manter o equilíbrio entre os mundo, e era isso que ela voltaria a ser.
Fechei os olhos, sentindo o calor dos primeiros raios de sol.
Minha primeira tarefa como líder da Ordem seria difícil e eu teria que lidar com as consequências, mas, se isso fosse para o bem de todos, então eu estava preparada.
— Então… O que decidiram? — Perguntei, de frente aos caçadores. — Quem escolher ficar, por favor, se dirijam até onde %Seungmin% está. Aquelas que escolherem deixar a Ordem, por favor, se dirijam até %Echo%.
Observei o primeiro caçador se aproximar. Ele era um dos homens da minha avó, seu fiel escudeiro. Não me surpreendeu que ele tivesse parado na frente de %Echo%; o que me surpreendeu foi ele não oferecer
nenhum tipo de resistência ao que aconteceria com ele.
Um a um, observei caçadores experientes saindo, mas também aqueles que decidiram permanecer. A maioria dos mais jovens decidiu ficar, o que me trouxe um pouco mais de alívio. Muitos ali eram órfãos e não tinham para onde ir.
No entanto, o que realmente me pegou e deixou com a guarda baixa foi o momento que vi meus pais sendo levados pelos guardas de Lith e Kaer. Saber que eles seriam julgados por seus crimes me deixava aliviada.
— Ainda acho que você está sendo muito generosa. — %Changbin% sussurrou ao meu lado. — A maioria não teria nos dado uma escolha.
— Sei disso. — Suspirei. — Mas não queremos um recomeço manchado de sangue, certo?
— Em partes você tem razão…
Com as escolhas definidas, observei atentamente quando %Hyunjin% e outros bruxos se posicionavam na frente dos caçadores e começavam a praticar sua magia. Um a um, os caçadores tiveram suas memórias apagadas, possibilitando que as novas as substituíssem. Já aqueles que participaram do massacre autorizado pela minha avó, foram encaminhados para o tribunal do submundo. Apagar a mente deles e fazer com que esquecessem todas as atrocidades cometidas não era uma opção para mim. Eu queria que eles lembrassem exatamente o que fizeram e o motivo de serem julgados e sentenciados.
Assim que o último caçador teve sua memória apagada, me aproximei dos meus amigos que observavam a cena de longe.
— Isso acabou mesmo, %Faith%? — %Seungmin% me perguntou.
— Por hora… Nunca sabemos quem pode ser o próximo vilão. — Soltei uma risada seca.
— E a casa da vovó? O que vamos fazer? — Encarei a residência novamente.
— Depois, ela vai voltar a ser a casa da vovó.
— Isso parece bom pra mim.
Meu primo se afasta, indo em direção a %Jisung% e %Christopher%. Fiz meu próprio caminho até eles e sorri. Pela primeira vez, eu não estava fugindo de algo. Sentia como se estivesse fazendo algo importante, como se eu estivesse exatamente onde deveria estar.
Fallen Hills ainda tinha suas sombras e dúvidas, mas estávamos bem diante de um novo recomeço. A Ordem, por outro lado, tinha um longo caminho pela frente; teríamos que conquistar o respeito das pessoas. Elas precisavam confiar em nós e respeitá-la, não por medo, mas por respeito. No entanto, olhando para os meus amigos, e minha família, eu sabia que tínhamos feito a escolha certa.
— Ei, %Faith%! — %Echo% sorriu para mim. — Você é a nova líder da Ordem e a sua avó está sendo mandada para o submundo. Já pensou em alguém para ser o diretor ou diretora da academia?
Aquilo não tinha passado pela minha cabeça. Minha avó tinha comandado a Ordem e a academia com pulsos de ferro, mas eu não precisava fazer isso sozinha. Eu tinha pessoas a quem confiar.
— Está a fim de ser a nova diretora? — Perguntei.
— Eu? Jamais! Quero poder estar em campo, mas talvez pudéssemos colocar %Changbin% no cargo. Quem sabe assim ele ficaria em bons lençóis com os pais. — Ela riu.
— Bom… Podemos falar com ele. — Pisquei.
A empurrei de leve e me sentei ao lado de %Changbin%.
— Tudo certo? — Encarei o céu antes de olhá-lo.
Olhei para cada um deles com um sentimento de realização. %Minho% estava de braços cruzados. %Seungmin% começou uma conversa baixinha com %Echo% que sentou ao seu lado. Mais adiante, %Christopher% e %Jisung% falavam alguma coisa sobre quão louco tinha sido a passagem da lua de sangue para Chris, enquanto Félix exibia um sorriso que parecia ser capaz de fazer o sol nascer rapidamente. Ao lado deles, %Hyunjin% e %Jeongin% estavam encostados em uma árvore, completamente relaxados.
— Quem diria que nós seríamos os responsáveis pelo final da Ordem, quer dizer… — %Echo% comentou.
— Sempre soube que essa mudança aconteceria. — %Minho% falou.
— Só senti quando conheci vocês. — Ele deu de ombros.
Ficamos em silêncio. O caos finalmente terminara, mas o verdadeiro trabalho começaria agora. A casa da minha avó, a restauração da Ordem, os novos princípios que a academia teria que seguir…
A coexistência seria um dos maiores obstáculos, mas seria um que eu iria fazer questão de vencer.
Pode até ser difícil no começo, mas eu era teimosa o suficiente para acabar com essas barreiras, porque a história de uma Ordem justa estava começando agora.
N/a: Hello! Hello!
E chegamos ao fim desta história. Confesso para vocês que levei muito tempo para escrevê-la; tive altos e baixos, momentos em que pensei até em desistir, porque cheguei a um ponto em que abria o arquivo e nada saía. Enfrentei dificuldades imensas para concluir esse projeto, pois me arrisquei em um gênero que não estava acostumada e não me preparei tão bem quanto gostaria. Mas olhando pra trás, o que mais me desafiou foi o fato de tê-la colocado como uma fanfic e não como uma história original.
Gosto de ser bem sincera, o que me motivou a finalizar essa história foi ler a primeira versão, escrita em 2016, e me reconectar com a essência real dos personagens. Reescrevi os primeiros capítulos com base nas críticas e reviews que recebi, algo que ajudou muito a perceber alguns pontos que estavam "fora da curva".
Para quem acompanhou a história até aqui e teve paciência para esperar pelas atualizações, muito obrigada!
E caso vocês curtam minhas histórias, tenho algumas histórias em andamento aqui no site e ficaria feliz em vê-los por lá.
Beijos.