A Maldição de San Valentin

Escrita porNatashia Kitamura
Revisada por Natashia Kitamura

PARTE 2

Tempo estimado de leitura: 29 minutos

 Você precisa melhorar essa sua vida social — %Manuela% disse para mim no dia seguinte, uma sexta-feira, quando nos encontramos no metrô para irmos até o shopping assistir a um filme. Não deixei que marcassem nenhuma consulta para essa sexta, porque era o lançamento de um filme que %Manu% estava louca para ir, e como havia acabado de terminar com seu ex-namorado (de novo), precisava da amiga para fazer o step.
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  — Eu saio bastante — me limitei a responder.
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  Não era mentira. Eu saio. Muito. Vou a bares, baladas, shows, teatros, museus, parques, shoppings... sozinha ou na companhia de uma, ou mais pessoas. Já que não podia usar minha magia comigo, tinha que me esforçar para conseguir encontrar com um cara que gostasse de mim.
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  Mas, como era de se esperar, não era tão fácil assim.
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  Não era que eu fosse magra (lembra da forcinha de San Valentin?), mas estava, sim, acima do meu peso ideal. Isso não significava que eu fosse feia. Acredito que estava na média. Meus cabelos escuros são muito lisos e pesados, por isso sempre o mantenho com um corte repicado, tornando-o mais leve e esvoaçante. Não ajuda muito na hora de fazer penteados, mas quando soltos são uma maravilha. Minhas pernas são tortas e tenho uma barriguinha pendurada. Fora isso, sou bem legal. Altura legal, seios legais, bumbum legal, aparência, no geral, legal. Além disso, minha personalidade não é tão ruim. Topo 90% dos convites que me fazem para sair, não faço birra com a divisão da conta (só quando não consumo nada) e sou uma ótima ouvinte (e também falante). Como disse, na média.
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  O problema era que os paulistanos não se importavam com as garotas na média. Eles queriam as peitudas demais, magras demais, bundudas demais, maquiadas demais, simpáticas demais, com atitudes demais ou modelos demais.
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  Sou facilmente descartada pelos homens por quem mostro interesse e também pelos que não dou a mínima. Nunca fui em um encontro e, o pior de tudo, ainda sou virgem.
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  Virgem. Você conhece uma pessoa virgem aos 27 anos? Quero dizer, virgem por obrigação, não opção.
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  Sim, eu mesma. %Emília%, do 151A.
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  Como uma integrante da minha família amaldiçoada por San Valentin, acredito muito no amor e que se o beijo não foi com uma pessoa amada, pelo menos o ato sexual seja. Isso me garantiu o prêmio de virgem do século 21.
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  Se me arrependo? Não.
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  Não que eu tivesse tido a opção de aceitar ou recusar, mas prefiria pensar que em algum momento, em algum bar, balada, happy hour, evento... alguém sentiu uma atração sexual por mim e eu decidi que não.
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  — Eu posso te reapresentar meu irmão. Eu juro que ele está mais legal.
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  — Legal e seu irmão são duas coisas que não batem em uma frase. Uma tenta chutar a outra para longe.
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  O irmão mais velho de %Manu%, %Marco%, também morava em São Paulo. Porém, ao contrário da minha amiga, ele era a pessoa mais bem-sucedida que já ouvi falar (afinal, não o vejo desde os 13 anos, quando ele tinha 17 e veio para a capital após passar no vestibular). Seu relacionamento anterior com a filha do diretor do melhor hospital de São Paulo garantiu seu posto importante no lugar. Mesmo após o término, o agora ex-sogro não permitiu que o relacionamento pessoal dele afetasse o profissional. É por isso que agora fazia quatro anos que %Marco% era o neurocirurgião mais requisitado entre os profissionais da área, em toda a nossa região Sudeste.
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  — Ele mudou. Viu que não adiantava de nada ser um mala como o nosso pai — ela disse, passando pela catraca da saída do metrô. — Além disso, já faz 15 anos.
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  — Já vi muita gente que fazia 20 anos que não encontrava e continuava sendo a mesma pessoa chata.
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  — Isso porque você pegou ranço dela.
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  — Exatamente o que acontece com seu irmão.
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  %Manuela% revirou os olhos e decidiu não falar mais nada.
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  — Lucas te ligou? — Procurei mudar de assunto.
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  %Manuela% encolheu os ombros e vi-os estremecer em um calafrio.
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  — Graças a Deus não, aquele verme.
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  — Você não tem certeza se ele te traiu.
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  — E prefiro nem ter. — Ela jogou os cabelos com as mechas louras para trás dos ombros. — Se ele não tinha culpa no cartório, então por que ainda não me ligou?
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  — O treino...
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  — Quando estávamos namorando, ele me ligava sempre que podia. Agora que eu o peguei com a vaca da Bianqui, dane-se eu?
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  Suspirei, deixando a conversa de lado. É claro que não iria discutir com %Manu% sobre o assunto. Se ela disse que pegou os dois se amassando no vestiário do clube, então era nela em quem devia acreditar (até porque nunca tive uma relação íntima com Lucas para poder ficar do lado dele). O problema era que já era a décima primeira vez que %Manu% me fazia utilizar da magia para ela, e não durava nem um ano até ela decidir que não era o moço que esperava.
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  — Você não devia ir a uma terapeuta?
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  — Eu vou a uma terapeuta — ela me respondeu, um pouco ofensiva.
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  — Então por que você insiste em atirar para todos os lados?
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  — Porque sei que uma hora irei acertar. Psicologia positiva. — Ela deu o seu sorriso de modelo de propaganda.
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  Era assim que ela convencia as pessoas de que ela estava certa e era incrível. Também foi assim que ela conquistou 80% de seus clientes. Mesmo a quantidade não passando de 10 pessoas.
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  — Já não está na hora de você pedir aquela ajuda ao seu irmão? — perguntei a ela já na escada rolante, dois andares abaixo do cinema.
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  — De jeito nenhum. Meu pai com certeza irá saber e fará com que eu volte para Valinhos. Eu não quero voltar para lá. Sou uma mulher da cidade grande.
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  — %Manu%. — Olhei para ela quando saímos da escada e andamos em direção à próxima. — Você tem 29 anos e só tem 10 pacientes.
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  — Eles pagam bem.
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  — Eles não pagam bem o suficiente para nós dividirmos um valor justo da moradia. — Ergui uma sobrancelha. — E se eu casar?
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  — Você quer dizer, se você decidir que quer morar sozinha? — Ela riu.
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  — Vai se ferrar. – Dou-lhe um empurrão.
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  Ela balançou a cabeça e suspirou.
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  — Eu estou tentando, amiga. Muito. Mas não está fácil. Quero focar mais no trabalho do que na vontade de arranjar um homem, mas é mais forte que eu. E eles aparecem do nada! — Entramos na última escada rolante. — Mas vou conseguir receber tanto quanto você até o final do ano!
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  — Você disse isso ano passado.
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  — Mas dessa vez é de verdade!
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  Ri, porque sabia que ela só falava da boca para fora. Eu, na verdade, não me importava em pagar sozinha o aluguel e condomínio do apartamento, porque gostava muito da companhia de %Manu%. Sei que ela não passava por muitas dificuldades financeiras, já que o pai cismou de que ela precisava formar a própria carreira sozinha, assim como o irmão mais velho fez (ainda assim, recebia uma mesadinha de consolação), e por isso nós mentimos que dividíamos o valor da moradia por igual a ele.
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  — Ah! Só uma coisa! — Ela me parou quando seguia em direção à fila do guichê de ingressos. — Eu marquei um encontro.
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  — Um encontro? – Ergui a sobrancelha e olhei ao redor.
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  — É! Duplo! Eles são incríveis, juro. O Fausto, meu parceiro, é maravilhoso, é cirurgião plástico e faz academia no mesmo lugar que eu...
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  — Não me diga... — disse, semicerrando os dentes. — Que o meu parceiro é o seu irmão?
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  Eu jamais deixaria de reconhecer %Marco%. Apesar de estar completamente diferente, alguns traços permaneciam os mesmos, como o meio sorriso de quem achava estar sempre à frente, e o corte de cabelo playboy. Além disso, ele era muito parecido com %Manuela%, que não era, de jeito nenhum, feia. Ver as mulheres que passavam por ele quebrarem seus pescoços para terem mais um momento admirando-o me deixou ainda mais irritada. Ele não podia crescer e ser feio?
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  — E aí, %Manu%? — Fausto, que estava ao lado de %Marco% e só percebi agora sua presença, foi direto até minha amiga, depositando um beijo em sua bochecha. — Prazer, sou Fausto.
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  — %Emília%.
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  — Um nome típico do nosso interior. — %Marco% sorriu (droga de dentes brancos e perfeitamente alinhados). — Quanto tempo.
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  Abri um pequeno sorriso e olhei para %Manu%, que já entrava em uma conversa com Fausto, claramente interessado nela.
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  — Pelo jeito, ela a arrastou até aqui — %Marco% comentou, tirando meu olhar do “casal”.
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  — Ah... podemos pensar assim, sim.
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  %Marco% deu uma risada. Colocou as mãos nos bolsos e olhou ao redor, até dizer:
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  — Quer pipoca?
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  — Claro. — Ergui os ombros e o acompanhei até a fila, sendo seguida por Fausto e %Manuela%. — Você quem apresentou ele para ela? — Fiz sinal para os dois atrás de nós, que já faziam muito bem o papel de quem estava ali sozinho, não em um encontro duplo.
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  — A pedido dele. — %Marco% justificou. — Como você está?
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  — Bem. Você?
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  — Bem. Achei que sexta-feira fosse o dia ideal para vocês duas irem a uma festa.
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  — Festa? — Abri um pequeno sorriso irônico.
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  — Não é o que garotas da idade de vocês fazem?
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  — %Marco%. Eu e %Manuela% temos 29...
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  — %Manuela% tem 29.
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  — O que são dois meses? — Fiz uma careta, vendo-o rir. — Nós não vamos mais a festas. E você? Por que não está trabalhando?
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  — Médicos têm folgas.
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  — Não você. Pelo que %Manuela% diz — completei, a fim de fazê-lo entender que não tinha interesse nenhum nele, e que era apenas uma boa amiga para sua irmã mais nova, nos momentos em que ela queria desabafar.
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  — %Manuela% omite muita coisa, como o encontro de hoje, por exemplo.
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  — Nós — apontei para nós dois —, não estamos em um encontro.
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  %Marco% parou e olhou para mim antes de conferir se já era a nossa vez de ir até o caixa.
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  — Uau. — Sorriu. — %Manu% tem razão quando disse que você ainda tem sentimentos por mim.
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  — O quê? — Olhei para trás, mas os dois já não estavam mais conosco. — Aonde aquela tratante foi? — Voltei a encará-lo, lembrando exatamente do porquê de não suportar %Marco%, mesmo depois de anos. — Para sua informação, eu nunca tive sentimentos por você.
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  — É mesmo? — Ele cruzou os braços.
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  — Exato.
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  — Nem quando nos beijamos?
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  — Muito menos quando nos beijamos. — Tentei, ao máximo, não corar com a lembrança do meu primeiro beijo, que joguei no lixo e disse não importar tanto quanto a primeira vez, porque %Marco% foi um filho... hum. Uma pessoa maldosa que no dia seguinte aceitou o pedido de namoro de uma garota da sala dele e foi para São Paulo com ela fazerem a faculdade juntos e viver um grande amor de adolescência. Até as festas da turma de medicina começar.
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  Vi sua posição relaxada, o que me deixou ainda mais nervosa.
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  Quer dizer? Dane-se o filme.
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  — Aonde você vai? – ele falou mais alto ao me ver saindo da fila para comprar a pipoca.
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  — Embora.
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  — Nós éramos os próximos — ele disse logo atrás de mim.
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  — Bom filme.
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  — %Emília%, qual é? — %Marco% segurou meu braço, me impedindo de descer a escada rolante. — Eu estava só tentando descontrair. Faz quase 15 anos que não nos vemos, sobre o que mais eu falaria?
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  — Tudo, menos o nosso beijo.
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  — E por que não? Foi tão ruim para você?
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  Não. Pensei. Não foi ruim. Ruim foi ver você com outra garota no dia seguinte. Ruim foi saber que você continuou namorando ela por um ano inteiro depois de ter aceitado o pedido dela. Ruim foi eu não ter recebido nem uma mensagem de desculpas por ter pisado no meu coração e chutado para o outro lado do mundo.
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  Se eu pudesse ter escolhido um amor para acabar, teria sido o seu, seu imbecil. Pelo menos me sentiria vingada.
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  — Foi péssimo — respondi, dando-lhe as costas.
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  Ignorei quando ele me chamou e tentei me desvencilhar dele sem parecer uma louca no meio do shopping.
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  — Nós precisamos falar sobre isso — ele disse, sério.
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  — Não precisamos falar sobre nada. — Olhei para sua mão segurando meu antebraço, mas ele não pareceu perceber minha indireta. — Olha, vamos só fingir que não nos encontramos hoje. Como você disse, faz praticamente 15 anos, podemos viver o resto da vida sem nos ver.
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  — Caramba, %Emília%. — %Marco% me soltou. — Eu não sabia que você me odiava.
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  — Eu não odeio ninguém, %Marco%. Eu só evito as pessoas que não gosto.
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  Vi seu olhar sustentar o meu e então aceitar minha repulsa. Ao contrário de %Marco%, eu não tive muitas experiências amorosas para poder chamar de pior ou saber que aquilo não foi nada em comparação. Para o azar dele, o que ele fez foi exatamente a pior coisa relacionada ao amor que aconteceu comigo, então não é como se eu fosse deixar de lado toda a humilhação e desilusão que senti no dia seguinte ao meu primeiro beijo.
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  Achei, honestamente, que era especial. Foi no dia de San Valentin, mais conhecido como o dia dos namorados. Só podia ser um sinal, não é? Tudo bem ser amaldiçoada pelo dom da família e então mais uma vez por ter atrapalhado o relacionamento de um casal. Eu estava para completar 15 anos em 3 meses e era a única garota da minha turma que não havia beijado ninguém. Achei que poderia ser especial. 3 meses antes do dia fatídico, %Manu% veio dizer que %Marco% estava interessado em mim, e então todo o resto do nosso grupo de amigas apostou nessa união, inclusive eu.
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  Só que ninguém venceu. Nem elas, muito menos eu. Para ser sincera, só eu fui a prejudicada na questão toda. Só eu não consegui superar aquela vergonha.
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  — Você está de carro? – ele perguntou, quebrando o silêncio, me tirando do transe e lembrando que eu não havia mexido um músculo para longe dele, após confirmar meu desgosto em vê-lo.
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  Mas alguém tinha de desgostá-lo, não é? Ninguém era amado por absolutamente o mundo inteiro. Tenho quase certeza de que era a única que não gostava de %Marco% (e uma ou três ex-namoradas dele), e não tinha problema. Ninguém era perfeito, afinal.
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  — Vou pegar o metrô — disse, voltando a caminhar a volta até o andar térreo.
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  — Eu te levo.
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  — Não precisa.
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  — Não vou deixar você voltar sozinha.
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  — Não é a primeira vez.
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  %Marco% suspirou.
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  — Pare — disse, voltando a me segurar. — Você deve se lembrar do quão teimoso eu sou. Não vou conseguir dormir sem saber a real razão do seu desgosto. Foi porque eu dei o seu primeiro beijo? Isso, de alguma forma, quebrou o encanto daquele seu feitiçozinho?
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  Apertei os lábios. %Marco% nunca acreditou na magia de San Valentin. Eu ainda não me decidi se isso era ou não uma coisa boa, mas auxiliou no meu ranço por ele. Apesar de às vezes chamar de maldição, não sou totalmente avessa à ideia de ajudar as pessoas a ter o amor que elas querem.
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  — Se você tem uma boa memória, retorne a 15 anos atrás e avalie tudo novamente — disse, soltando meu pulso de sua mão. — Foi mal o encontro. Vá até algum bar, você terá uma parceira em um estalar de dedos.
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  — Eu sabia — disse, assim que me virei. — Você gostava de mim.
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  Apertei os lábios e virei apenas meu rosto em sua direção.
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  — Quando vim para São Paulo com a Bianqui. Você gostava de mim. — Ele fez uma careta.
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  — É claro que não. — Olhei para o lado.
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  — Então é o quê, %Emília%? Porque não faz sentido! Pelo amor, nós somos adultos. Não podemos ficar nos prendendo ao passado desse jeito. 15 anos!
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  — Quase 15 anos. — Eu sabia que estava sendo birrenta, mas não conseguia, de jeito nenhum, deixa-lo ter a última palavra.
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  %Marco% suspirou e colocou as mãos na cintura.
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  — O que aconteceu lá atrás...
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  — Exatamente, %Marco%. O que aconteceu, aconteceu. Você esqueceu, eu não. O problema é meu. Obrigada. Passar bem. — E dei-lhe as costas.
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  Era como se eu tivesse voltado no tempo, quando vi que ele realmente havia aceito o pedido de namoro da Bianqui. Seu olhar encontrou o meu por uma fração de segundo. Uma fração que tentei enxergar o significado de tudo aquilo, mas que no final só resultou em vergonha. Agora, era como se eu estivesse revivendo tudo, mas sem minhas amigas e %Manuela% saberem que eu havia cedido.
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  Porque eu não cederia.
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  Ouvi o suspiro de %Marco% e então o silêncio. Isso significava que ele havia desistido. Ótimo, porque eu não queria ouvir nada do que ele tinha para dizer. Se é que ele tinha.
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  Dou alguns passos, não porque estava curiosa em ver se ele tentaria me impedir, mas porque meu celular vibrou, notificando para eu voltar ao jogo que havia parado depois que saí do trabalho. Limpei minha garganta, esperando que ninguém tivesse visto, e voltei a andar.
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  Foi somente quando entrei no vagão do metrô, que vi que %Marco% havia me deixado ir. Não foi desapontamento o que senti. Foi alívio. Claro. Porque eu não queria mais ouvir um ‘A’ dele. Nem uma desculpa ou comentário convencido de que eu era apaixonada por ele. Pff. Apaixonada. Me poupe.
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  O caminho para casa foi de 40 minutos. Tive que trocar de linha somente uma vez e pegar um ônibus cuja parada era no quarteirão de baixo do prédio onde eu e %Manu% morávamos.
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  Quando virei a esquina, vi sua silhueta parada na porta de entrada do prédio. %Marco% devia ter vindo de carro.
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  Nervosa, peguei meu celular e encostei na parede da esquina mesmo, mas em um lugar em que ele não podia me ver. Tentei ligar para %Manuela%, mas ela me ignorou.
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  Literalmente.
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  Ouvi o som da chamada ser atendida, e então encerrada.
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  — Vaca.
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  — A %Manuela% não vai te salvar dessa, %Emília%. — A voz de %Marco% surgiu atrás de mim, causando-me um calafrio até as pontas dos meus cabelos.
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  — Como você... – Olhei para ele, chocada.
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  — Tenho uma boa visão e você foi só um pouco estabanada em se esconder.
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  — Ah. — Olhei para minha bolsa toda arreganhada, com os objetos em seu interior bagunçados por terem sido remexidos com pressa. Além disso, meu cardigan estava quase na cintura, sendo sustentada pelos meus braços, que estavam flexionados.
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  — Podemos conversar agora?
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  Ele não iria desistir.
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  — Tá. — Sentei no degrau da loja fechada da esquina. %Marco% é um médico renomado, cujos encontros são, no mínimo, em restaurantes com pelo menos uma estrela Michelin. Ele jamais admitiria ter uma discussão no meio da rua, à noite, e sujar a calça de seu terno caro.
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  Mas foi exatamente o que ele fez.
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  — O que está fazendo? — Olhei para ele, assustada.
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  — Você não quer que eu fique em pé o tempo todo, não é? — Ele sorriu. — Quero dizer, do jeito que é teimosa, vai levar um tempo até eu conseguir fazer você me dizer a verdade.
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  Ele se acomodou da maneira que achou melhor e então olhou para mim.
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  — Você gostava ou não de mim?
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  — Não.
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  — Então odiava Bianqui?
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  — Eu nem a conhecia.
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  — Queria ter dado seu primeiro beijo em outro garoto?
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  — Não.
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  — Então quer dizer que estava interessada em mim.
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  Droga.
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  — Não faz diferença.
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  — Bem, para mim faz.
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  Olhei para ele, mais surpresa do que há pouco. %Marco% olhava para o céu e mantinha seus braços apoiados nas pernas. O degrau era um pouco baixo demais para a altura dele e suas pernas eram bastante compridas, o que o fazia estar em uma posição ridícula e muito desconfortável, mas ele não parecia se importar.
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  — Eu gostava de você – ele disse.
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  — Quê?
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  %Marco% riu.
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  — Mas você era muito nova. Eu tinha meu orgulho idiota naquela época.
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  — Você era totalmente idiota.
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  — Só na frente dos meus amigos.
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  Bem. Isso era verdade.
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  — Você é quatro anos mais nova. Eu tinha 17, você tinha 13 ou 14 — corrigiu-se quando viu meu olhar. — Já parou para pensar nas piadas que fariam de mim naquela época? — Ele riu. — Era tudo o que me importava. E aí todo mundo falou que a Bianqui era a garota mais bonita do colégio. Quando ela se declarou e me pediu em namoro, eu achei que não havia saída. Era ou aceitar, ou negar e dizer que curtia uma criança de 13... 14 anos. Eu não pensei que 4 anos pudesse ser uma diferença ridícula no futuro.
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  — Pois é — foi tudo o que consegui dizer. E não posso me orgulhar disso, tampouco posso me culpar, afinal, meu cérebro acabou de entrar em pane.
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  %Marco% disse que gostava de mim na época em que eu gostava dele (agora que ele admitiu, tudo bem eu admitir também). Olhando pelo lado dele, realmente parecia uma situação horrível.
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  — Isso é passado. — Tentei desconversar.
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  %Marco% riu.
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  — Você acredita em maldição? — ele perguntou. — Deve acreditar — concluiu, após se lembrar do meu dom. — Eu acho que fui amaldiçoado por você.
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  — Por mim?
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  — É. — Ele suspirou. — É verdade que estive em vários relacionamentos. Alguns legais, outros péssimos. Mas nenhum durou. E sabe por quê?
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  — Acho que não quero saber.
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  — Porque sou teimoso.
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  — Como? — O olhei, confusa.
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  — Na minha cabeça, nossa história não acabou. — Apontou para nós dois. — Você não terminou comigo depois daquilo, e eu não terminei com você.
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  — Isso não faz sentido, você sabe, né?
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  — Médicos também viajam na maionese. — Ergueu os ombros. — Então eu preciso colocar um ponto final.
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  Meu estômago revirou. Mesmo vivendo durante todos esses anos com a lembrança adormecida, parece que meu corpo, junto de minha mente, souberam trabalhar muito bem unidos para me fazer lembrar do que eu sentia por %Marco% naquela época. Nunca cheguei a pensar em um ponto final. Em fechar esse capítulo da minha vida. Enxergar que agora é a hora... é tudo muito... repentino.
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  Mas %Marco% não me deixou pensar muito mais no assunto. Não me deixou tomar uma decisão se eu queria ou não colocar um ponto final na única coisa que achei que poderia vencer com meus esforços. Vencer San Valentin e sua maldição.
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  Sem nem sequer dar uma dica de seu próximo passo, ele passou um braço sobre meus ombros e, com o outro, puxou meu rosto em sua direção até grudar seus lábios nos meus.
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  Não foi como o meu primeiro beijo. Mas foi como se fosse o primeiro novamente. Aconteceu tudo como quando se é nova e não se conhece as sensações. O susto, as borboletas no estômago, a insegurança de estar fazendo errado, o “ah, dane-se” que deixava as mãos finalmente terem uma função no ato.
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  Ele não finalizou o beijo de uma vez. Tão cedo separou nossos lábios, me deixou dar apenas uma respiração completa, para então voltar a me beijar, dessa vez com a certeza de que eu retribuiria.
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  Porque é claro que eu retribuiria. San Valentin acabou de me lembrar que não me esqueci do meu primeiro amor.
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  — Admita — %Marco% disse, bem ao pé do meu ouvido, quando arrastou sua boca dos meus lábios até lá. — Você tentou usar sua magia para me fazer apaixonar por você, não foi?
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  Abri um pequeno sorriso para ele e olhei em seus olhos antes de dizer:
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  — Eu prefiro dizer que fui amaldiçoada por você.
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  %Marco% riu com minha resposta, porque ele sabia. Não foi a magia de San Valentin que nos uniu. Foi a maldição que o Santo colocou em nós dois quando, há 15 anos, viu que %Marco% era o homem que eu queria para a minha vida.
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  Desde aquela época, San Valentin já havia o separado para mim.
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  Era só uma questão de tempo.
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Fim

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Effy Stanfield

Socorro, confesso que demorei um pouquinho pra ler porque fiquei nervosa, uma história de Natashia Kitamura dedica a mim é demais pro meu coraçãozinho hahaha

Eu adorei demais, ainda mais sendo baseada em uma música das minhas Misturinhas <3

Eu amei toda a ideia dela ter que ajudar as outras pessoas a encontrarem seus amores e não poder usar nela mesma, isso mostra que quem for se apaixonar por ela vai ser naturalmente.

Enfim, foi uma honra ser sua amiga secreta nesse especial, Nat <3

Ray Dias
  — A %Manuela% não vai te salvar dessa, %Emília%. — A voz de %Marco% surgiu atrás de mim, causando-me um…" Leia mais »

Mano eu gargalhei dela sendo pega em flagrante! kkkkkkkkkkkkkk

Ray Dias

Só tenho uma coisa a dizer: que San Valentin sacana! Amei a fic ! ♥

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