Capítulo 4
Tempo estimado de leitura: 15 minutos
"Acho que preciso, acho que preciso de um pouco de espaço...Entre seu nome e meus lábios eu preciso de um espaço. Eu mando suas ligações e seus beijos para o espaço sideral, eu sei que queria provar, mas meus sentidos voltaram. Agora eu sei que preciso de um pouco de espaço. Você colocou muito e pouco no meu prato, não quero ser alguém que você vai odiar (vai odiar, vai odiar)... Eu preciso da sua chave para a minha casa, estávamos nos movendo muito rápido. Agora eu sei que preciso de um pouco de espaço."
%Yeonji% deixou as chaves caírem preguiçosamente sobre a mesa da sala enquanto chutava os sapatos para longe. A casa silenciosa a envolvia com um conforto estranho, contrastando com a turbulência dentro dela.
Ela largou a bolsa no sofá e puxou o celular do bolso. A tela acendeu, iluminando o cômodo escuro, e o coração dela deu um leve salto ao ver a sequência de notificações.
Chamadas perdidas: %Jeonghan% (5) Mensagens não lidas: %Jeonghan% (3) %Yeonji% suspirou, passando a mão pelo rosto.
Ela desbloqueou o celular com hesitação. As mensagens eram curtas, espaçadas entre as ligações.
"%Yeonji%, podemos conversar?" "Desculpa… acho que fui longe demais ontem." "Só me responde, por favor." %Yeonji% largou o telefone no sofá e cruzou os braços, encarando o teto.
%Jeonghan% era assim. Sempre foi. Um furacão de intensidade que chegava sem avisar, bagunçava tudo e depois desaparecia, deixando-a recolhendo os pedaços. Ele se afastava quando mais precisava ficar, e se aproximava quando ela finalmente começava a respirar sozinha.
"Ele quer espaço, mas não sabe ficar longe." Ela se lembrou de todas as vezes em que ele a afastou com palavras duras e silêncios pesados, apenas para depois aparecer com poesias confusas ou desculpas vazias. Como se o caos que ele carregava fosse justificável pelo breve calor que oferecia nos momentos de proximidade.
Mas, no fundo, %Yeonji% sabia que também era parte desse ciclo. Ela se acostumou a aceitar migalhas de presença, a tentar decifrar seus silêncios, a esperar que ele escolhesse ficar.
"E eu continuo aqui, esperando algo que ele nem sabe se pode me dar." O celular vibrou de novo, mas %Yeonji% não teve coragem de olhar. Não agora.
Ela se levantou lentamente e caminhou até a varanda. O vento frio tocou seu rosto, trazendo um pouco de clareza. Talvez o que %Jeonghan% precisava não era de respostas, mas de enfrentar o próprio turbilhão. E talvez, pela primeira vez, %Yeonji% também precisasse escolher não ser puxada para dentro dele.
Com um último olhar para o celular silencioso sobre o sofá, ela sussurrou para si mesma:
— Acho que eu também preciso de espaço.
☄️☄️☄️
O celular vibrou novamente sobre o sofá, interrompendo o silêncio que dominava o apartamento. %Yeonji% fechou os olhos por um instante, respirando fundo antes de pegar o aparelho.
Na tela, uma nova mensagem de %Jeonghan% piscava.
%Jeonghan%: "Estou aqui embaixo. Posso subir?" O coração dela disparou, misturando surpresa e exaustão. Ele realmente estava ali, na porta do prédio.
%Yeonji% passou a mão pelos cabelos, ponderando se deveria ignorar ou responder. Mas algo dentro dela—talvez o resquício daquele afeto bagunçado—não conseguiu resistir.
%Yeonji%: "Estou descendo. Eu vou abrir." Ela calçou o primeiro par de chinelos que encontrou e pegou o casaco pendurado na cadeira. O caminho até o elevador parecia mais longo do que o normal. Enquanto descia, sentia o estômago se apertar, como se estivesse prestes a mergulhar em algo que sabia não ter controle.
Quando chegou ao hall de entrada, lá estava ele. %Jeonghan%, encostado na parede do prédio, com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. A luz fraca do poste iluminava seus traços cansados, mas os olhos dele se levantaram assim que a porta de vidro se abriu.
Por um instante, nenhum dos dois disse nada.
%Yeonji% cruzou os braços, sentindo o frio da noite.
— Você realmente não sabe a hora de parar, não é? — ela murmurou, sem dureza na voz, apenas cansaço.
%Jeonghan% deu um passo hesitante.
— Eu... não consegui ficar longe. Precisava te ver.
Ela soltou um suspiro lento, desviando o olhar por um segundo.
— Vamos subir antes que algum vizinho resolva reclamar.
Ele apenas assentiu, e %Yeonji% se virou, sentindo os passos dele atrás dos seus. O elevador subiu em silêncio, preenchido por uma tensão que ambos conheciam bem.
Quando chegaram ao apartamento, ela abriu a porta e entrou primeiro.
— Fica à vontade. — disse, sem muita convicção, deixando a porta entreaberta para ele entrar.
%Jeonghan% passou devagar pelo batente, observando o espaço com um olhar perdido. Era familiar, mas ao mesmo tempo estranho.
Ela deixou o casaco no encosto do sofá e cruzou os braços.
— O que você quer, %Jeonghan%?
Ele permaneceu em pé, perto da porta, como se tivesse medo de invadir demais.
— Quero entender o que está acontecendo entre a gente. Se ainda tem algo... ou se eu já perdi você de vez.
%Yeonji% sentiu o peito apertar. Parte dela queria acreditar nas palavras dele, mas outra parte sabia o quanto era fácil se perder de novo naquele ciclo.
— Senta. — foi tudo o que disse, apontando para o sofá.
%Jeonghan% obedeceu em silêncio.
E ali estavam eles. Sozinhos. No meio do que sobrava deles.
☄️☄️☄️
%Yeonji% permaneceu em pé por alguns instantes, observando %Jeonghan% sentado no sofá, com o olhar perdido, como se procurasse algo no silêncio do ambiente. Ela respirou fundo, sentindo o peso das palavras que estava prestes a dizer. Sabia que não seriam fáceis, mas eram necessárias.
Deu alguns passos lentos até ficar de frente para ele. %Jeonghan% levantou o olhar, encontrando o dela. Havia algo de sereno, mas definitivo na expressão de %Yeonji%.
— Hoje… — ela começou, com a voz baixa, mas firme. — Hoje somos pessoas que se amam e se preservam na memória.
%Jeonghan% franziu levemente o cenho, como se tentasse entender onde aquilo ia chegar.
— Eu falo de você pros meus amigos como alguém que ajudou a pavimentar meu caminho. — Ela fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. — E a minha consciência sobre mim mesma. Sobre o que mereço ou não dentro de um relacionamento.
Os olhos de %Jeonghan% vacilaram, e ele pareceu prender a respiração.
— Você elevou a régua, %Jeonghan%. Estabeleceu um padrão que, daqui pra frente, eu quero cada vez maior. — A voz dela não tremia, mas carregava uma melancolia suave.
Ele abriu a boca, mas não disse nada. Apenas a observava, atento a cada palavra.
— Foi você quem me mostrou a necessidade de rir das tristezas e de me alegrar com as pequenas coisas do dia a dia. — %Yeonji% esboçou um sorriso fraco, como se lembrasse de momentos esquecidos. — Que me fez dançar na rua de pés descalços e com a alma encantada pela beleza que habita o mundo.
Ela passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar por um instante, antes de voltar a encará-lo.
— Foi você quem transformou a palavra
intimidade em uma tatuagem que hoje levo na pele… e na membrana mais honesta do pensamento.
O nome dele saiu como um sussurro, carregado de significado.
O silêncio que se seguiu pareceu engolir tudo ao redor. Ele baixou a cabeça, apertando as mãos sobre os joelhos.
— Eu… — %Jeonghan% tentou dizer algo, mas a voz falhou.
%Yeonji% não esperava uma resposta. Na verdade, nem sabia se queria ouvir alguma.
Ela respirou fundo e deu um passo para trás.
— Eu precisava que você soubesse disso. Só isso.
Então, virou-se devagar e caminhou em direção à porta da varanda, deixando %Jeonghan% sozinho com tudo aquilo.
Ele permaneceu por alguns segundos sentado, absorvendo cada palavra que %Yeonji% havia deixado no ar. O peso daquelas confissões parecia ecoar dentro dele, preenchendo o silêncio do apartamento. Mas, entre tudo o que sentia, havia uma certeza:
ele não podia deixar que ela se afastasse mais. Com passos lentos, mas decididos, ele se levantou e caminhou em direção à varanda. A luz suave da cidade iluminava o contorno de %Yeonji%, que observava o horizonte com os braços cruzados, tentando encontrar alguma paz no caos interno.
Sem dizer nada, %Jeonghan% se aproximou por trás e a envolveu delicadamente com os braços. Sua mão repousou sobre a cintura dela, e ele encostou a cabeça no ombro de %Yeonji%, fechando os olhos por um instante. Ela sentiu o calor do corpo dele e ficou imóvel, surpresa, mas não afastou o toque.
A voz de %Jeonghan% saiu baixa, quase como um sussurro carregado de sinceridade:
— Penso em você e te desejo todas as coisas lindas e grandes também.
%Yeonji% sentiu a respiração dele aquecer sua pele, e seus olhos se fecharam por reflexo.
— Pois hoje… — ele continuou, com a voz mais firme, mas ainda suave — mergulho em mim e vejo que sou oceano. Que sempre fui e serei.
Ele fez uma breve pausa, sentindo o coração acelerar contra as costas dela.
— E que, na verdade, você se mostrou sem medo de mergulhar… de descobrir e vivenciar toda essa intensidade que se alojou no meu corpo e que pronuncia meu nome.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era denso, cheio de significados não ditos.
%Yeonji% engoliu em seco, sentindo os olhos arderem. O corpo dela relaxou aos poucos sob o abraço dele, e por um momento, ela permitiu-se apenas sentir…
%Jeonghan% manteve o rosto próximo ao pescoço dela, sem pressa, como se aquele instante pudesse remendar todas as palavras não ditas.
— Eu nunca tive medo de você, %Jeonghan%. — A voz de %Yeonji% saiu baixa, quase trêmula. — Só tive medo de não ser suficiente.
Ele apertou os braços em torno dela, como se quisesse dissipar qualquer dúvida.
— Você sempre foi mais do que suficiente.
%Jeonghan% permaneceu abraçado a %Yeonji% por mais alguns segundos, sentindo o calor dela contra seu peito. O mundo parecia desacelerar, e o silêncio da noite só tornava aquele momento ainda mais intenso. Ele deslizou uma das mãos pela cintura dela, puxando-a levemente para mais perto. %Yeonji% virou o rosto devagar, os olhos encontrando os dele, tão próximos que podiam sentir a respiração um do outro.
Os olhares se prenderam por um instante, como se palavras fossem desnecessárias. O ar ficou denso, carregado de tudo o que nunca foi dito. E então, sem hesitar, %Jeonghan% inclinou-se lentamente, seus lábios encontrando os dela em um beijo calmo, mas cheio de significado.
Era um beijo que começava suave, explorando com cuidado, como se ambos estivessem redescobrindo algo esquecido. Os lábios de %Yeonji% responderam com a mesma delicadeza, mas havia uma urgência escondida ali, como se tivessem medo de que aquele momento escapasse. %Jeonghan% aprofundou o beijo, a mão subindo até a nuca dela, os dedos se entrelaçando nos fios de cabelo. O mundo sumiu ao redor, restando apenas a intensidade do toque, o sabor familiar e ao mesmo tempo novo.
Quando os lábios finalmente se afastaram, %Yeonji% manteve os olhos fechados por um segundo, como se quisesse segurar aquele instante. Ao abrir, encontrou o olhar de %Jeonghan%, e a respiração ainda descompassada escapou em um sussurro:
— Você é a linha tênue entre ter fé e esperar às cegas.
%Jeonghan% sorriu de lado, mas seus olhos estavam sérios, fixos nela. Ele ergueu uma das mãos e acariciou suavemente o rosto de %Yeonji%, o polegar traçando a curva da bochecha.
— Espero que você se lembre de tudo quando as luzes da cidade se apagarem. — A voz dele saiu baixa, quase rouca. — Espero que você se lembre de quem você é… e de quem você foi. E do que fomos ou poderíamos ter sido.
%Yeonji% sentiu o peito apertar, como se cada palavra dele atravessasse direto seu coração.
— Eu espero que você se lembre de mim quando fixar o olhar na estrela mais brilhante do céu noturno… porque, apesar da distância, o céu ainda é o mesmo. E as estrelas ainda brilham como antes. — %Jeonghan% se aproximou mais, a voz se tornando um sussurro contra os lábios dela. — E o sentimento ainda pulsa, ainda arde, como no primeiro toque.
Antes que %Yeonji% pudesse responder, %Jeonghan% a puxou de volta para um beijo mais intenso, mais urgente. Não havia mais hesitação. Era um beijo carregado de saudade, de desejo contido, de tudo o que ambos tentaram esconder. As mãos dele a seguravam firme, como se temesse que ela desaparecesse. E %Yeonji% correspondeu com a mesma intensidade, sentindo o calor dele atravessar cada parte de seu corpo.
A noite parecia testemunhar aquele reencontro, e por um momento, nada mais existia. Apenas eles, presos em um beijo que misturava passado, presente e todas as possibilidades do futuro.
Fim