Unnecessary Roughness

Maria C. | Revisada por Luba

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Capítulo 01 - Auburn who?

’s POV

A pequena placa em forma de cavalo com o nome “Leroy” balançava conforme o vento forte soprava. Ela parecia poder cair a qualquer momento e produzia um rangido incômodo à medida que ia para frente e para trás. A pouca iluminação do local às vezes me trazia um pouco de insegurança, mas o pátio do bar, que também servia como estacionamento, estava lotado. Encostei-me na parede de tijolinhos que deveriam ser brancos, mas que assumem uma coloração quase cinza por conta da sujeira acumulada ali. Dois homens que estavam fazendo xixi na vegetação logo a frente do bar vieram rindo em minha direção, eu implorei mentalmente para que não falassem comigo e deu certo, apesar da encarada que parecia ter feito um raio-X de mim, nenhuma palavra foi dita e eles entraram diretamente no bar.
E o que eu estava fazendo para fora e, ainda por cima, sozinha? Bom, primeiro porque o calor humano estava me matando, segundo, eu havia ido para outra cidade para fugir dos meus amigos e resolvi sair do bar porque as três televisões estavam reprisando o Sugar Bowl que havia acontecido há quase dois anos atrás, logo após mostrar outra derrota de Alabama que aconteceu no começo do ano, contra Ohio State. Oklahoma Sooners contra Alabama Crimson Tide, o time que eu torço, no caso. E digamos que o resultado final não foi muito bom quanto o esperado e eu ainda não havia superado.

2 de Janeiro de 2014. New Orleans, Louisiana. Mercedes-Benz Superdome. 1:30AM.
O jogo havia acabado. O placar, não tão esperado, marcava 45 pontos para Oklahoma e 31 para Alabama. Era isso, havíamos perdido o jogo.
Meu pai permaneceu sentado em seu lugar mesmo após o jogadores já terem saído de campo e de minha mãe ter ido embora junto com Olivia e seus pais – Ava e Noah. Ele estava desolado, eu nunca havia o visto daquela maneira.
— Pai… — chamei, colocando minhas mãos em seus ombros. Ele estava com os cotovelos apoiados em suas coxas e seu rosto afundado nas mãos. — Precisamos ir, — disse mais uma vez, ele apenas me encarou com os olhos vermelhos e depois levou o olhar até o campo, o fixando lá.
O kick off da partida havia sido feito por Oklahoma, nos deixando em posição de ataque. Robert fez um bom trabalho com Tyler e meu irmão fez um avanço para o first down*, novamente Rob utilizou Tyler e o filho da mãe correu 53 jardas. Eu sempre, sempre mesmo, tentava entender como ele podia ser tão ágil, enquanto eu não conseguia nem ao menos dar uma volta no quarteirão correndo sem chegar em casa totalmente cansada. Voltando ao jogo, após sua corrida espetacular que quase matou meu pai de tanto orgulho, Alabama ficou a apenas 6 jardas do touchdown. Não teve outro resultado, o touchdown foi marcado – não pelo meu irmão, e sim por Yeldon – e o placar foi aberto, após o bom chute, o extra point foi somado ao touchdown, 7 a 0 para Alabama. Após o feito, a bola foi devolvida para Oklahoma, eles foram avançando devagar até entrarem na linha de 30 jardas do campo de defesa do Alabama, isso significava que eles tinham chances de fazer um touchdown ou então chutar um field goal*, mas isso não aconteceu. Um dos recebedores correu para pegar um lançamento do quarterback, mas ele acabou sendo interceptado* por um safety após não ter agarrado a bola corretamente. A interceptação acabou não sendo grandes coisas, já que logo após, Oklahoma também interceptou um de nossos jogadores bem no primeiro lançamento. Uma desgraça. Logo após a interceptação, Oklahoma teve sua posse de bola e empatou o jogo.
— O que eu vou dizer para o Tyler? — meu pai questionou de repente, me fazendo o olhar com as sobrancelhas franzidas. — Ele estava tão confiante, e eu enchi o ego dele, ele deve estar arrasado, — concluiu, soltando um longo suspiro em seguida.
— A derrota não foi sua culpa, nem culpa do Tyler, pai. Ele tem 20 anos, vai saber superar isso daqui algumas semanas. — Tentei reconforta-lo. — Anda, vamos embora. — Levantei da minha cadeira e esperei que ele fizesse o mesmo.
O segundo quarto foi horrível. Alabama começou marcando outro touchdown e um extra point, o que nos dava a vantagem de 7 pontos, mas Oklahoma conseguiu empatar novamente. E então o massacre começou, com um fumble* Oklahoma conseguiu retomar a bola e marcar 24 pontos enquanto Alabama estava com 17. Alabama teve sua posse de bola após o touchdown, mas sofreu uma interceptação, mais um touchdown de Oklahoma, seu kicker errou o chute do extra point e então o placar foi elevado para 31 a 17.
— Eu acho que deveria ficar e esperar ele, — meu pai disse, aparentemente desistindo de ir comigo.
— E eu acho que deveríamos ir para casa, — rebati, cruzando os braços. Eu estava começando a ficar irritada.
— Vai na frente, , eu te encontro daqui a pouco. — Ele gesticulou com as mãos para que eu fosse embora e voltou a se sentar no local em que passamos o jogo todo. Eu apenas revirei os olhos – muito irritada – e fiz o que ele me pediu.
O grande problema do meu pai era a frustração de nunca ter conseguido entrar para a liga profissional, e ter acabado dentro de um escritório, usando roupa social. Ele sentia a dor do Tyler da mesma forma que sentiu quando passou por aquilo vários anos atrás.
O terceiro quarto começou após o intervalo e apenas um touchdown foi marcado, dessa vez Alabama usou um dos nossos running backs e tentou se aproximar mais de Oklahoma. 31 a 24. Eu comecei a pensar um pouco mais positivo, se Oklahoma não pontuasse mais e Alabama conseguisse um touchdown com o extra point e um field goal, nós poderíamos ganhar. Eu achei que não fosse tão impossível até que o último quarto começou e nosso ataque pareceu piorar. Robert sofreu um *sack e isso nos fez perder 9 jardas, não conseguimos o first down e o time teve que devolver a bola. A defesa cometeu algumas faltas e isso ajudou Oklahoma avançar. Touchdown. 38 a 24, e a situação começou a piorar. Alabama bem que tentou, conseguiu mais 7 pontos, chegando um pouco mais perto. Porém, outro fumble representou fim de jogo para nós. Oklahoma recuperou a bola e fez mais um touchdown, fim de jogo, 45 a 31 para Oklahoma Sooners.

Era quase setembro, a temporada estava começando e eles faziam questão de reprisar aquele jogo horrível só para lembrar que Alabama havia perdido dois campeonatos seguidos. Sim, porque o Sugar Bowl de 2015 também fodeu Alabama, 42 a 35 para Ohio State. Eles estavam reprisando dois campeonatos que Alabama havia perdido, um verdadeiro saco. Tomei o último gole da minha cerveja e resolvi buscar mais uma garrafa antes de voltar para Birmingham.
Quando peguei no puxador da porta para abri-la, escutei alguém chamar pelo nome que eu e outras meninas estávamos acostumadas. “Garota Alabama”. Ignorei, talvez fosse realmente comigo, mas eu não estava com muita vontade de dar atenção. Entrei no bar, tentando manter meu olhar longe das televisões para não passar mais raiva ainda, fui direto pagar o que eu havia consumido e troquei a cerveja por uma lata de energético que eu tinha certeza que não beberia nem metade.
Sai do estabelecimento procurando em qual dos bolsos da calça eu havia deixado a chave do carro, enquanto caminhava pelo estacionamento escutei novamente alguém chamar. Garota Alabama… Olhei para trás e eu realmente não tinha como saber quem era o infeliz. Continuei indo em direção ao meu carro até que realmente veio a confirmação de que estavam falando comigo.
“Cooper!”
Parei novamente de andar, olhei na direção contrária que estava indo e pelo menos dessa vez um cara aparentemente vinha até mim.
Cooper? — ele questionou como se não tivesse certeza de quem eu era.
— Eu mesma, — respondi, cruzando meus braços. Quem aquele louco era?
— Irmã do Tyler Cooper, não é? — perguntou, rindo.
— Ah, vai se foder, — disse quando saquei qual era a do idiota. Rolei os olhos e voltei a fazer o caminho até meu carro.
— Eu por acaso falei algo de errado? — Ele foi andando atrás de mim e eu quis socá-lo.
— Está mesmo me perguntando isso? — Parei de caminhar quando cheguei ao automóvel, não destravei as portas, afinal, havia a chance de ele querer me assaltar ou algo do tipo. Era melhor prevenir, mas levando em consideração o tamanho dele, eu não teria muitas chances.
— Parece uma piada para você? — perguntou com uma de suas sobrancelhas arqueada, encostando-se na lateral do meu carro.
— Com certeza, — respondi irritada — O que você quer? — Eu já estava impaciente, cruzei os braços na altura dos seios e bufei, esperando sua resposta.
— Saber como você se sente com a derrota, — ele disse sério, mordendo o lábio inferior para conter um riso que veio à tona dez segundos depois.
— Você é um babaca! — Alterei meu tom de voz.
— Você não ‘tá me reconhecendo? — questionou ainda rindo.
— É óbvio que não.
— Eu vou te dar uma dica, okay? — sugeriu e eu apenas assenti com a cabeça. — Eu sou um linebacker muito bom. — Ele usou todo o ar de superioridade possível para dizer aquela pequena frase, eu quis socá-lo novamente.
— Você não é um bom linebacker, se fosse, pode ter certeza que eu saberia quem você é. — Pisquei e o observei mudar completamente sua feição. — Você pode me dar licença ou eu vou ter que te atropelar? — questionei. Um cara que eu não tinha ideia de quem era estava encostado no meu carro, sendo chato e ainda havia tentado tirar uma com a minha cara. Eu realmente deveria atropelar ele.
— Tudo bem, Cooper! Pode deixar que eu saio por livre e espontânea pressão. — Ele levantou os braços em sinal de rendimento. Seu corpo ficou de frente para o meu e eu pude perceber que ele era realmente grande. — Mais uma coisa, Cooper. — Levantou seu dedo indicador e aproximou seu rosto do meu de forma que eu pudesse sentir bem o hálito de cerveja. Acho que pelo menos nisso nós estávamos combinando. — Meu nome é … — Deu um sorriso totalmente artificial e rápido, e ainda ficou alguns segundos me encarando antes de se afastar completamente. — O resto é com você. — Arqueou uma de suas sobrancelhas e começou a se afastar, andando de costas para manter contato visual comigo.
— Espera! — pedi ao perceber que eu continuava parada no mesmo local e ele já tomava uma distância significativa — De qual universidade você é? — questionei e ele riu.
— Não vou ser tão óbvio assim. — Ele continuou se afastando. Eu não acreditava que estava dando moral para aquilo, mas era mais forte que eu. Finalmente me movi e voltei a manter proximidade.
— Não vai me dizer que você é de Auburn? — perguntei irônica, mas ele riu. Ele riu. — ?! — o chamei pelo sobrenome e minha voz saiu um pouco mais esganiçada do que o normal. — Filho da mãe! — Reprimi um xingamento pior, ficando totalmente inconformada. Aquele cretino era tão bonito daquele jeito?!
— Você se fez de idiota, não é Cooper? — ele perguntou enquanto me seguia até meu carro novamente.
— Não! — neguei imediatamente, eu estava nervosa. — Primeiro, eu não lembrava que seu nome era , nós sempre nos referimos a você como o babaca, e só.
— Então esse é o meu apelido? — Ele chegou ao meu lado e esbarrou em mim, fazendo meu corpo se deslocar levemente para a direita.
— Eu sei que meu irmão deve ter piores para vocês. — Rolei os olhos e tentei o empurrar para a esquerda, mas não obtive muito sucesso. Bufei, frustrada. — Segundo, — continuei a enumerar fatos a meu favor antes que ele voltasse a defecar pela boca. — Você está sempre com o rosto cheio de tinta preta e laranja, sério, como os juízes deixam você jogar com aquela porcaria no rosto?
— Você acabou de admitir que então fica me observando nos jogos. — E lá estava ele novamente deixando seu ego maior que tudo transparecer. Menos, , você nem é tão bonitão assim.
— Ah, cala a boca, — mandei, rolando os olhos — Eu não reparo em você primeiro porque eu assisto os jogos de Auburn em último caso e também as últimas vezes que eu te vi você estava com uma coisa branca estranha no nariz e eu não sou paga para ficar observando cada detalhe do seu rosto, — conclui e peguei a chave do carro, destravando as portas.
— Aquilo era para ele não sangrar, — respondeu e eu demorei um pouco para entender que ele estava se referindo ao nariz. — Você vai mesmo me deixar sozinho sem sua maravilhosa companhia? — perguntou assim que eu abri a porta do carro.
— Vou, e se você continuar grudado em mim terei que atropelar você, — disse séria e entrei no carro enquanto ria.
— Relaxa, eu já estou indo. — Ele se afastou tranquilamente enquanto eu dava partida — Supere a derrota, Cooper! — gritou e saiu dali.
Eu realmente poderia ter passado por cima dele, mas aquilo me causaria problemas, então preferi imaginar milhares de formas para matar lenta e dolorosamente. Era bizarro pensar que eu havia ido para uma outra cidade justamente para evitar essas piadas e encheção de saco e encontrar precisamente com um dos jogadores mais imodestos da liga e que ainda por cima jogava em Auburn. Essa noite realmente não tinha como ser pior.

Sobre algumas expressões:

*first down: down é o nome dado à cada tentativa de avanço de um time durante seu ataque. Um time tem quatro tentativas para conseguir pelo menos 10 jardas, se quiser manter a posse da bola. Cada nova descida é chamada de first down.
*field goal: é uma forma de pontuar no futebol americano, na qual, em vez de se passar a bola a um quarterback, ela é passada a um placeholder , que a segura junto ao chão de forma que um kicker possa executar o chute, fazendo-a passar entre os postes do gol. O acerto vale três pontos no placar.
*interceptar: quando a bola é pega por um adversário da defesa em uma situação de passe.
*fumble: ocorre quando um jogador, que tem a posse e controle da bola deixa ela cair. O fumble pode ser forçado por um jogador da defesa, usando as mãos dando um soco na bola ou forçando com o capacete.
*sack: acontece quando um jogador de linha defensiva, um linebacker ou um defensive back é capaz de passar pelo bloqueio da linha ofensiva, cortando a proteção do quarterback e então o derruba.
*linebacker: o objetivo do linebacker é defender contra passes curtos, fazer tackles e atacar o quarterback adversário.

Capítulo 02 - Gatinha

’s POV.

Por que às vezes você tem a sensação de que sua vida se tornou uma piada? Talvez porque ela realmente tenha se tornado uma.
Depois dos acontecimentos fatídicos da noite passada, eu provavelmente teria que lidar com uma bronca dos meus pais e também da minha chefe. Faltavam apenas 10 minutos para eu entrar no trabalho e eu nem tinha levantado da cama. Ótimo, mais uma vez atrasada. Eu nem conseguia acreditar que estava atrasada porque fiquei quase a noite toda morrendo de raiva de . Ok, “morrendo de raiva” era uma expressão muito dramática, mas eu realmente fiquei com estressada.
Eu ia chegar atrasada de qualquer forma, não tinha porque sair correndo de casa, tentei relaxar para não fazer minha cabeça explodir, mas estava difícil. Digitei uma mensagem para Jessie, avisando que eu provavelmente chegaria bem depois que o esperado, se ninguém me dedurasse e Charlotte chegasse depois das dez, eu provavelmente ainda não teria minha cabeça arrancada por ela.
Enquanto eu tentava me arrumar, meu celular tocou, era Olivia. Estranho porque ela geralmente nunca estava acordada àquele horário e também porque nós nos falamos até às duas da manhã. Talvez ela tivesse esquecido de algum detalhe importante dos nossos assuntos.
— É você mesma me ligando ou você foi sequestrada e esse é um pedido de resgate?
— Eu 'tô desesperada, — Olivia disse e eu já esperei pela bomba. Desesperada logo cedo? Isso não era muito comum para ela.
— O que houve?
— Eu esqueci que o aniversário do Robert é nesse final de semana, — ela soltou e eu comecei a rir. Era sério aquilo?
— Você 'tá me zoando, né? — Eu até borrei a maquiagem.
— Não, é sério! — Olivia bufou. — Eu tinha que fazer uma festa surpresa, mas aí eu lembrei que tem um jogo no mesmo dia, será que não dá pra gente ir junto com eles?
— Eu não acredito que você me ligou pra isso. — Limpei o risco de delineado que eu havia feito anteriormente. — Eu acho que ele não vai ficar chateado se não rolar festa, né? — Eu estava tentando jogar os fatos para Olivia enquanto guardava a bagunça que eu havia feito com minhas maquiagens. — Sei lá, Liv, mas tenho certeza que a gente pode adiar isso para o domingo.
— Por que você nunca topa fazer nada pro Robert? — ela questionou, seu tom de voz estava mais puxado para quem estava com raiva do que chateada.
— Talvez porque você esteja me pedindo algo impossível, — rebati, começando a ficar irritada também. — Seu irmão não vai morrer por causa disso, Olivia. — Joguei algumas coisas pra dentro da necessaire com força, eu estava descontando meu stress nas minhas próprias coisas. Mas sério, ela precisa mesmo me ligar àquela hora para me irritar?
— Olha, depois a gente conversa, okay? — ela propôs. — Bom dia para você.
E então a chamada foi finalizada. Olivia desligou na minha cara só porque eu não concordei com uma ideia que era inviável. Tinha como ser menos infantil?

xxx

Quando estacionei em frente do atêlie, percebi que o carro da Charlotte ainda não estava lá. Fiquei olhando bem para os lados antes de sair do carro, tentando não ser pega pela minha chefe, já que geralmente ela chegava naquele horário. Eu estava uma hora atrasada e provavelmente uma ou duas clientes já teriam ido embora.
Passei reto e tão rápido pela recepção que Chloé nem teve tempo de falar comigo. Direto e reto para a minha sala. Quando entrei, encontrei Jessie sentada, mexendo no celular.
, pelo amor de Deus! Eu não sei mais o que fazer, tem gente te esperando, sabia? — ela me advertiu e eu ficaria brava se eu realmente não estivesse tão atrasada.
— Okay, Jess, okay. — Dei as coisas que segurava para ela e me sentei na cadeira onde atendia as clientes do ateliê. — Manda quem estiver me esperando entrar, depois a gente conversa.
Ela saiu da sala com as pastas que eu havia lhe entregado, usei o pequeno tempo sozinha para ligar o notebook e organizar alguns materiais, logo Jessie voltou com uma mulher que eu tinha certeza que era amiga da Charlotte. Eu estava ferrada.

Stacy Miller havia sido a primeira pessoa que eu atendi no dia, uma grande amiga da Charlotte. ​Ela possuía uma beleza invejável. Os olhos levemente esverdeados contrastavam com a pele negra e ela parecia ser uma miss. Stacy foi extremamente educada e legal comigo, não parecendo ter ligado muito para o meu atraso.
Uma das pessoas que eu atenderia acabou indo embora e então eu pude adiantar um vestido de noiva que a dona viria aprovar o croqui e também fazer algumas alterações. Decote coração, rendado e cristais bordados em toda extensão da saia, além do longo véu. O casamento aconteceria no começo do ano que vem, mas tudo tinha que estar pronto até o final do próximo mês.
Mais cedo, enquanto eu trabalhava nesse vestido, Tyler me mandou uma mensagem para perguntar se ele e Robert poderiam vir almoçar comigo. Como Charlotte já havia chegado e não mencionara nada sobre o meu atraso, eu não teria que ficar presa no ateliê fazendo coisas que eu deveria ter feito no meu tempo de atraso, então disse que tudo bem se eles viessem.
— Chloé, você vai ficar por aqui? — questionei assim que a vi sentada na cadeira da recepção. — Você já não deveria ter fechado para o almoço?
— Hoje eu vou ficar, mas já pedi meu almoço. — ela respondeu enquanto anotava algo em uma folha pequena de bloco de notas. — Você se importa de ir comprar isso para mim? — Chloé colocou o papel em cima do balcão que nos separava e eu o peguei para ler. — Depois eu te dou o dinheiro.
— Só isso? — questionei, ela pedia por canetas, um bloco de papel sulfite e um de post-it. Chloé murmurou um “uhum” em resposta. — Te trago assim que voltar do almoço.
— Okay, obrigada, .
— Por nada. — Coloquei o papel no meio da agenda que estava dentro da minha bolsa — Até mais tarde.
O restaurante onde marcamos ficava bem perto do atêlie, optei por ir andando e já aproveitei para passar em uma papelaria e comprar as coisas que Chloé havia me pedido.
Tyler.
Onde você ‘tá??

“Já estou chegando”

Meu irmão era sempre a pessoa mais atrasada da família, mas era incrível como ele ficava irritado quando alguém se atrasava em algum compromisso com ele. Caminhei por mais dois quarteirões até chegar no lugar em que marcamos. Conferi nas mensagens se era ali mesmo o combinado e depois de confirmar, entrei.
Avistei Tyler e Robert sentados em uma mesa perto das janelas, Tyler, que estava virado em minha direção, acenou quando me viu. Caminhei até os dois e eles levantaram para me cumprimentar.
— Você sumiu, mana, — Tyler disse enquanto nos abraçávamos. Ele beijou minha bochecha e se afastou.
— O problema é que vocês passam mais tempo treinando do que outra coisa, — respondi e me virei para Rob, dando um selinho nele. — Não sei nem como conseguiram vir para cá. — Robert puxou a cadeira ao seu lado para que eu me sentasse e eu o fiz.
— Às vezes a gente consegue, — Tyler respondeu. — Agora eu só vou ver você no ano que vem quando todos os jogos acabarem.
— Se você sumir igual fez da última vez eu vou te buscar no campo no meio do jogo, — ameacei, fazendo-o rir.
Um garçom se aproximou da mesa e fizemos nossos pedidos, como sempre, as bebidas chegaram primeiro e os lanches depois. Tyler, Robert e eu conversávamos sobre assuntos aleatórios e em nenhum momento o aniversário de Rob foi mencionado, Olivia, que até então não tinha mais falado comigo, estava surtando à toa.
— Nós vamos começar a temporada agora, . Sem álcool, sem garotas e sem drogas. Você ainda não entendeu?
— Vocês são chatos demais, — resmunguei. Tyler e Robert riram enquanto eu arrancava a folha da minha agenda onde estavam os itens que deveriam ser comprados. — Espero que percam o jogo.
— Se a gente perde, você chora. — Rob disse com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Isso é mentira, — protestei — Só choro quando vocês perdem de Auburn.
Auburn. . Cornerback babaca.
— Até eu choro quando a gente perde pra Auburn, — Tyler disse em tom baixo e começou a tossir em seguida, tentando disfarçar.
— Não precisa fazer isso, bro. — Rob deu um sorriso compreensivo, me fazendo rir. — Nós sabemos que isso é verdade.
— Tanto faz, todo mundo de Alabama chora se a gente perder pra Auburn. — Deu de ombros, mordendo seu lanche. — Você vai para o jogo no sábado? — Tyler perguntou de boca cheia.
— Vai, — Rob respondeu por mim.
— Eu já disse que não vou, — reforcei, eles me olharam parecendo desconfiados. — Eu estou falando sério!
— Se sua desculpa for trabalho, eu te mato, — Tyler disse, me fazendo rolar os olhos.
— Você vive de futebol, não sei o que está falando de mim.
— Futebol é diversão, não trabalho. — eles falaram praticamente juntos.
— Falando assim nem parece que vocês entrariam em depressão se não draftados para jogar profissionalmente.
— Para com esse papo, mana, você me enche o saco demais.
— Só estou fazendo uma observação. — Tyler fez careta com a minha resposta. Ele era sempre tão criança.

xxx

Eu estava quase cochilando quando Jessie entrou na minha sala parecendo um furacão. Ajeitei-me na cadeira e cocei os olhos, me lembrando que provavelmente havia estragado meu rímel ou então o delineado.
— Você está prestes a atender o melhor cliente da sua vida! — Jess estava agitada e gesticulava sem parar.
— Do que você está falando, louca? — perguntei ainda sem entender. Eu estava meio sonolenta.
— Olha, eu não sei se ele é influente ou algo do tipo, mas ele é muito bonito. — Jessie começou a falar mais baixo, como se o tal cliente pudesse ouvi-la.
— Ai, Jess. — Comecei a rir — Manda o cara entrar, — pedi, mas então tive um estalo mental — Espera! — fiz Jessie parar de andar. — Você sabe o nome dele? Porque na minha agenda não tinha nenhum homem marcado.
— Ah, ele não marcou, , ele veio tentar um encaixe e como a mulher das três da tarde desmarcou, eu não vi mal em deixar ele entrar, — explicou.
— Okay, pode chamar então.
Estranho. Bem estranho. Seja lá quem fosse, bonito ou não, estava atrapalhando meus minutos livres de cochilo. Não demorou muito para que Jess abrisse a porta e deixasse uma figura masculina entrar. Não, não, não. De jeito nenhum. O corpo forte, alto, cabelo e olhos castanhos.
— O que você pensa que está fazendo aqui? — perguntei, me levantando da cadeira.
— Eu acho que ontem à noite não foi o suficiente. — Ele passou a língua nos lábios e sorriu, cruzando os braços.
— Cara, como você me achou no meu trabalho? — Eu estava inconformada. — É melhor você ir embora, tipo, agora. — Tentei girar seu corpo para a direção da porta e empurrá-lo para fora, mas era resistente.
— Eu geralmente consigo o que eu quero, e eu quis encontrar você. — respondeu e eu acabei rindo.
— Que ridículo, . Por favor, saia. — Não custava nada tentar pedir com educação, certo?
— Por que está me mandando ir embora? — Errado. Ele era insistente demais.
— Por que está aqui me enchendo o saco sem motivo algum? — rebati.
— Porque você é bonitinha. — ele arqueou uma das sobrancelhas e começou a me encarar fixamente. Qual era o problema daquele cara?
— Você é doente. — bufei. — E está me atrapalhando, então faz o favor de sair. — Voltei para minha cadeira e tentei fazer qualquer coisa que não fosse me estressar com .
Ele ficou algum tempo parado no mesmo lugar, mas aparentemente não desistiu, já que resolveu sentar em uma das cadeiras em frente a minha mesa.
— Gostei da sua sala, — disse, observando as coisas ao seu redor. Apenas balancei a cabeça, eu não ia me estressar — Você não vai mesmo conversar comigo?
— Por que você não tira essa bunda de tiger imundo da cadeira da minha sala e não vai embora?
— Essa doeu, Cooper.
— Vai embora, .
— Você não quer conversar por causa do seu namorado ou porque eu sou de Auburn?
— Eu não tenho um namorado e mesmo que tivesse, isso não me impediria de conversar com você. — Levantei e fui até a porta, abrindo-a. — Então fico com a segunda opção. Agora você já pode ir embora. — Apontei para fora, esperando alguma reação dele.
— Eu não acredito que vim de Auburn até aqui para nada. — Ele bufou. Que engraçado, quem fazia a merda e depois ficava irritado?
— Olha, se te serve de consolo, em Birmingham tem vários lugares legais, se você quiser eu posso te indicar todos eles. — Era óbvio que eu não ia fazer aquilo e eu esperava que ele entendesse a ironia na minha fala.
— Okay, Cooper. — se levantou e respirou fundo, em seguida foi até a porta e parou na minha frente — Não vou mais ocupar seu tempo. — Ele se aproximou e então beijou minha bochecha, saindo de lá em seguida.
Bati a porta assim que ele me deu espaço. Que idiota.

xxx

“Não esquece de comer seu lanche antes de entrar para a aula. Se você estiver com fome vai perder a concentração.” A minha mãe era a melhor. Achei o bilhete grudado na tampa de um tupperware dentro da minha bolsa. Eu geralmente não tinha muito tempo de comer antes da faculdade, então ela fazia o favor de lembrar de não me deixar morrendo de fome antes de eu chegar na universidade.
Antes de sair do carro, juntei tudo que eu iria precisar levar para as aulas e peguei o celular para agradecê-la. Acabei me deparando com a notificação de uma mensagem de alguém que não estava em meus contatos. Como sempre, a curiosidade falou mais alto e eu meio que ignorei o fato de que ia falar com minha mãe.
“Oi, gatinha. Você já deve imaginar quem é. Sua amiga é bem legal, foi só insistir um pouquinho e ela me passou seu número. Agradeça à ela por isso. Eu não vou te deixar em paz tão cedo. Xx”
Se aquela mensagem fosse realmente de quem eu estava pensando que era, eu teria que matar a Jessie.

Capítulo 03 - Rotina

’s POV.

— Por que você não desgruda dessa merda? — Meneely arrancou o celular da minha mão, por sorte consegui bloquear a tela antes que ele visse o que eu realmente estava fazendo — , não me diga que isso tem a ver com…
— Não, não tem, — cortei antes que ele terminasse sua pergunta. — Agora para de ser otário e me devolve o celular.
— Mesmo que tivesse a ver com o que eu estou pensando que tem, você não teria motivo para esconder. — Porra Ryan, dava pra parar de encher o saco? — Eu acho que você precisa transar. — Ele me entregou o celular e eu o coloquei no bolso da minha bermuda, recebendo um soco no braço. — E parar de esconder seus esquemas.
— Cala a boca, Meneely, eu preciso treinar, só isso.
Nós dois seguimos em silêncio para o campo de treino. Ryan Meneely era um dos nossos wide receivers, mas ele não ligava muito para o que envolvia a liga profissional e mesmo assim adorava competir com Tyler Cooper. Era claro que o Cooper era bem melhor, mas eu nunca admitiria isso em voz alta.

— Azul, 11!
Assim que a bola foi parar nas mãos de Floyd, eu corri. A OL tentou me bloquear, mas eu consegui passar, eles precisavam melhorar se quisessem parar um linebacker do mesmo nível que eu, principalmente nessa última temporada. Era tudo ou nada. Passando com velocidade pela barreira, encontrei Floyd ainda com a bola em mãos, ele foi para trás, procurando fugir do tombo. Muito lento, Floyd. Ele soltou a bola pouco antes de ser derrubado por mim. Passe incompleto e 7 jardas perdidas. Se eu conseguia fazer isso com um ataque bom como o nosso, não seria difícil derrubar outros quarterbacks.
— Boa, , — ele disse ainda no chão. Estendi minha mão para o ajudar a levantar. — Mas vai com calma, você não pode me lesionar, — Floyd completou quando se levantou e bateu no meu capacete.
Murmurei um “desculpe” e voltei para minha posição anterior. Às vezes esses caras eram frágeis demais.

’s POV.

Cheguei no ateliê disposta a ter uma longa conversa com Jess. deve ter sido muito persuasivo para ter feito Jessie passar o número do meu celular para ele. Aquilo era basicamente contra as regras, nenhum cliente poderia ter meu número pessoal ao menos que eu quisesse passar, mas o caso de não era esse.
— Bom dia, Chloé, — disse assim que abri a porta e a encontrei arrumando algumas coisas no balcão.
— Bom dia, . — Ela sorriu, levando revistas para a mesa de centro da sala de espera. — Jessie ainda não chegou, mas Charlotte está te esperando na sala dela. — avisou enquanto voltava para sua cadeira. Charlotte estava me esperando na sala dela àquele horário? Ok, eu deveria estar ferrada.
— Então eu acho melhor já falar com ela antes que eu comece a atrasar os clientes, — comentei. Mesmo que ainda não tivesse ninguém esperando por mim, eu não poderia demorar tanto e me atrasar no atendimento de novo.
— Quando a Jessie chegar eu peço para ela te esperar na sua sala então, okay?
— Okay, obrigada.
— Boa sorte com a Charlotte.
É, eu ia mesmo precisar. Agradeci novamente e segui até os fundos do ateliê, local em que a sala da nossa chefe ficava. Notei que a decoração do local estava sendo trocada, isso acontecia conforme as estações mudavam e, como estávamos na época de transição do verão para o outono, as coisas lá dentro também mudavam. Com adaptações nas peças do outono do ano passado e algumas outras novas, os tons coloridos eram substituídos pelo marrom, laranja e outras tonalidades que remetiam à estação.
Bati na porta da Charlotte duas vezes e ela me mandou entrar. Aquela sala era incrível. As coisas ali dentro não mudavam conforme as estações e, tirando a cor das flores, todo o resto era em preto e branco. Charlotte gostava de mesas, só na sala dela havia três, duas de vidro e uma de madeira. Todas com vasos de flores em cima. Havia uma estante preta enorme com todos livros sobre moda existentes, muitos quadros e muitos porta retratos com fotos da família.
— Mandou me chamar? — perguntei um pouco sem jeito. Eu estava nervosa sem saber qual seria o assunto daquela conversa.
— Sim, querida, sente-se, — ela pediu, indicando as cadeiras em frente a sua mesa. Ela não parecia estar nervosa.
— Algum problema? — perguntei assim que me sentei, eu sabia que estava sendo um pouco apressada demais, mas a curiosidade estava me matando.
— Não, nenhum. — Charlotte sorriu e retirou seu óculos. — Na verdade, tenho ótimas notícias.
— Então não estou ferrada, — murmurei, Charlotte escutou e riu.
— Realmente não, — ela confirmou e então pegou a primeira revista da pilha que estava em cima da sua mesa. — Você conhece a Filadélfia? — questionou enquanto folheava a revista.
— Não, nunca estive lá, por quê?
— Porque em dezembro nós estaremos lá, — ela disse, virando a revista para mim. — Esse é um teste da matéria sobre a inauguração da minha loja. — Charlotte me indicava post-its com o dedo, a matéria ocupava duas folhas e possuía apenas o esqueleto de como seria. — Eu vou te levar comigo porque quero que confeccione a coleção de inverno. — Eu gelei naquela hora. Ela estava mesmo falando sério? Aparentemente sim, Charlotte continuou me indicando coisas até que o meu nome apareceu em uma das anotações.
— Eu não acredito… — Eu com certeza estava com um sorriso enorme e talvez parecendo boba, mas o que importava era que Charlotte parecia feliz por mim. — Você não está brincando, né?
— O seu nome está bem aqui, , não sei porque está tão incrédula.
— Eu não estava esperando isso, — tentei justificar, na verdade eu esperava por uma notícia dessas há meses, mas mesmo assim estava surpresa.
— Até parece que não. — Ela me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas e puxou a revista de volta. — Depois eu te dou uma cópia disso. — Indicou as duas páginas sobre a matéria.
— E quando nós vamos?
— Entre a semana do natal e ano novo, — ela informou, voltando a mexer em seu computador. — Você já pode ir. — Poxa, Charlotte, você cortou meu barato de conversar com você. — A primeira pessoa já deve ter chegado.
— Certo, com licença. — Levantei e empurrei a cadeira para frente.
Charlotte era assim, uma ótima pessoa, mas às vezes ela se tornava curta e grossa logo após ser gentil. Eu já estava acostumada e, mesmo que não estivesse, naquele momento eu pouco ligava para o fato de que ela me chutou da sua sala. Cooper estava muito próxima de realizar seu sonho de desenhar uma coleção inteira de roupas que fossem realmente ser vendidas. Aquilo era mais do que o máximo. Meu Deus, eu ia surtar.

xxx

— Jess, você não pode fazer isso outra vez, ok? — repeti aquilo pela vigésima vez naquela conversa.
— Foi mal, , - ela pediu, parecia estar arrependida, eu não queria que ela se sentisse mal por aquilo.
— Tudo bem, Jess, mas é que ele não é confiavél, entende? — ela assentiu e nós rimos — Pelo menos não para mim.
— Ele disse que o nome era , mas você sabe que eu não sou ligada a futebol igual a você, então eu nunca ia adivinhar.
— Olha, não se incomode mais com isso, ok? — Segurei sua mão e ela sorriu. — Eu posso bloquear o número dele e ele para de me encher o saco.
— Então você ainda não bloqueou? — Jess questionou com uma das sobrancelhas arqueadas. Rolei os olhos. — Você não teve coragem!
— Ele ainda não me irritou o suficiente, okay? — tentei justificar. Afinal, por que mesmo eu não havia bloqueado o número de ?
— Sei. — Jessie riu e se levantou da cadeira, puxando sua jaqueta jeans que estava pendurada no assento. — Você está dando muita bola para ele.
— E você está ficando louca. — Ajeitei minhas coisas em uma pilha só e desliguei o notebook. Faltavam só dez minutos para irmos embora. Meu celular vibrou, mensagem do Tyler. Bloqueei a tela e coloquei o aparelho dentro da bolsa. — Vamos?
— Era ele?
— Não, maluca! Era meu irmão. — Ela me olhou desconfiada. — Quer ver meu celular? — ofereci.
— De jeito nenhum! — riu.
Jessie e eu nos despedimos de Chloé, já que ela saía mais tarde e fechava o ateliê, nós nunca tínhamos a oportunidade de sair as três juntas. Jess não cursava na mesma universidade que eu, mas às vezes eu dava carona para ela, porém ela só aceitava isso quando chovia, fazia muito frio ou quando estávamos atrasadas. Havia pelo menos um mês que ela não aceitava minhas caronas.
Quando entrei no carro peguei o celular para responder Tyler. Ele estava perguntando de novo se eu ia para o jogo, pois ele tinha um ingresso e mais alguma coisa que eu não li direito.
“Bro, não vou poder ir, quer que eu tente vender o ingresso para você não tomar prejuízo?”

Tyler.
Não precisa.
Já arrumei outra pessoa para ir.
Na verdade, ela já estava interessada.
Tá tudo bem por ai?

“Vai levar quem no meu lugar?”
“Tudo certo por aqui. Fui “promovida” hoje :D”
“E aí?”

Mal terminei de responder e outra mensagem chegou.
.
Você vai me ver jogar no sábado, né?
“Eu vou ver o meu irmão”
“Não você”

Por que aquela coisa ficava sempre me esperando responder? Eu nem tinha tempo de piscar e já aparecia como “lida”.

.
Eu sei que você vai querer me ver sacar o quarterback.
Apesar do Cornwell, você tem cara de quem gosta dos caras da defesa.

Ok. Nisso ele estava certo.
“Tchau,

.
Eu ia dizer que vou fazer um touchdown para você, mas não faz muito sentido.
“Você pode fazer isso, é só interceptar um passe e correr.”
“Correr muito.”

.
Então você quer que eu marque um touchdown para você?
“Eu não disse nada.”
“Tchau, .”

.
Tchau Cooper.

xxx

Capítulo 04 - Touchdown

’s POV.

  Sábado. Dia de jogo, ou melhor dizendo, o primeiro dia da temporada regular dos jogos. Tyler àquela hora já deveria estar no Texas e eu estava falhando miseravelmente ao tentar não sentir inveja de Olivia por ter ido com eles.
  O jogo do Tyler começaria dentro de duas horas, tempo o suficiente para que eu me organizasse e fizesse alguma coisa para comer durante a partida. Falhei também em não acordar mais cedo para fazer uma ligação desejando-lhes boa sorte e também para dar os parabéns a Robert por ligação. Talvez uma mensagem – que seria vista somente depois do jogo – compensaria minha ausência logo na primeira partida, ou não, Tyler era muito mimado e ficava chateado com coisas assim. Eu só esperava que Rob não sentisse o mesmo.
  Após arrumar todo meu quarto, resolvi juntar meu material e descer, geralmente, fazer croquis e assistir jogos ao mesmo tempo não dava muito certo, eu ficava vidrada na TV e não prestava muita atenção em outras coisas.
  Algo estava cheirando bem, eu nem tive que terminar de descer a escada para saber que meu pai estava cozinhando alguma coisa. Encontrei minha mãe sentada em uma das poltronas que ficavam perto da vidraça principal da sala, onde tínhamos vista para o jardim.
  — Achei que teria que te acordar, — ela disse sem tirar os olhos do livro que estava lendo.
  — Eu acordei faz tempo, só estava arrumando meu quarto, — expliquei. Ela tirou a atenção do seu livro e me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas — O que foi? Eu arrumei mesmo.
  — Vai chover hoje, — comentou, voltando a prestar atenção na leitura.
  É, eu não costumava ser muito organizada mesmo, mas não custava nada deixar as coisas em ordem no domingo para ver se pelo menos conseguia manter até o final da semana.
  A televisão já estava ligada no canal de esportes, meu pai sempre gostava de escutar o que os comentaristas diziam, principalmente sobre Tyler.
  Fui até a cozinha e não o encontrei lá, mas vi que a torta no forno era o que estava cheirando tão bem. Comida para a hora do jogo era o que eu mais precisava, principalmente porque meu pai cozinhava muito bem. Desde que os móveis da cozinha foram trocados, eu me sentia incomodada com sujeira neles. Eram tão claros e tão bonitos. Quase surtei quando vi o mármore da ilha da cozinha todo respingado com a massa líquida da torta. Limpei antes que minha mãe visse aquilo, ela tinha mania de limpeza, mas meu pai não ligava para essas coisas. Peguei uma cerveja dentro da geladeira e fiquei sentada em uma das cadeiras da mesa, observando a torta para que não queimasse antes do meu pai voltar.

xxx

  Tyler sempre ia muito bem. 2 touchdowns, algumas recepções que os deixaram na boca da endzone e boas corridas. Ele provavelmente seria draftado no primeiro round, pelo menos era isso que os comentaristas diziam. Meu pai já até tinha um gerente financeiro para cuidar da possível vida profissional de Tyler, o cara deveria ser conhecido dele, mas ainda não havia sido apresentado a nós. Nosso pai mantinha algumas coisas em segredo até elas realmente darem certo, afinal, quanto menos você criar expectativas, menor será a decepção caso algo dê errado.
  Eu estava terminando meus trabalhos da semana no meu quarto, meus pais haviam saído para ir no aniversário de uma amiga da minha mãe e eu fiquei sozinha em casa. Tive a brilhante ideia de descer para comer um pedaço de torta. Eu detestava ficar sozinha em casa, principalmente por causa daquelas vidraças enormes na sala e na cozinha. Pelo menos minha mãe havia descido as persianas delas, era horrível estar de costas para aqueles vidros e ter a sensação de que tem alguém ali te olhando. Peguei a travessa de torta dentro do forno, ela não estava quente, mas estava comível o suficiente para não ter que esquentar. Voltando para a sala, passei pela televisão e lembrei que estava passando jogo e eu decidi parar para assistir. Auburn já estava ganhando quando eu liguei a televisão. O jogo estava próximo do intervalo e Auburn tinha uma boa posição. Joe estava posicionado na linha de cinco jardas do campo de Auburn, então a jogada iniciou, a bola foi parar na mão do quarterback deles e a movimentação dos jogadores foi grande. Eu estava com os olhos no 15, infelizmente eu tinha que concordar com o fato de que ele era bom. furou o bloqueio da OL e chegou até o quarterback, ele tentou se desvencilhar, mas se auto prejudicou. Conforme se aproximava, ele ia para o lado e um pouco para trás. sacou o jogador dentro da endzone, o quarterback com a bola em mãos, sendo sacado lá dentro, era como um touchdown contra, já que a endzone era do campo de ataque de Auburn. Quase engasguei com o pedaço de torta que estava na minha boca. O filho da mãe havia feito um touchdown.
  O celular estava no sofá, bem do meu lado. Eu não podia, mas no fundo queria fazer aquilo. E fiz, me arrependendo logo em seguida.

“Você fez mesmo um touchdown, parece que você não é tão ruim assim, não é, ?”

Shane’s POV.

  Voltar para casa após um jogo poderia parecer bom, mas no meu caso, não era. Eu sabia que o meu papel era estar ali com ela, a ajudando a superar tudo aquilo, mas essa situação sugava todas as minhas boas energias. Vê-la daquela forma era horrível. Joguei a mala em cima do sofá e fui até o lugar mais óbvio: o quarto. A porta estava aberta, ela mexia no celular, deitada na cama. Estava de costas para mim. Bati na porta, fazendo ela se virar.
  — Tudo bem por aqui? — questionei.
  — Melhor agora que você chegou, — ela respondeu e sorriu. — Sua irmã disse que você foi bem ontem. — Sentou-se na cama, parecia uma pouco desnorteada.
  — Então você não assistiu o jogo? — era óbvio que não.
  — Eu não tive um bom dia ontem, .
  — O que aconteceu? — Fui até ela e me sentei na ponta do colchão. Aquela pergunta tinha uma resposta bem direta, mas daquela vez tinha algo a mais.
  — Seu pai fez uma transação bancária para minha conta, foram quatro mil doláres, , — ela começou a explicar. — Eu tentei ligar para ele, mas como sempre, ele não me atendeu.
  Aquilo me atingiu em cheio. Filho da puta. Eu não conseguia aceitar o fato de que aquele homem era meu pai. Talvez sua consciência estivesse pesando, e por isso ele estava mandando dinheiro para nós. Babaca. Ele não teria que nos dar seu dinheiro se tivesse pensado antes de trair minha mãe com uma garota da minha idade.
  — Você vai mandar esse dinheiro de volta para ele, — eu disse, mas ela não parecia concordar com isso. — Eu vou vender o carro e arrumar um emprego.
  — , a gente precisa disso.
  Eu escutei aquilo da primeira vez que aconteceu e pelo jeito ela não mudaria de opinião.
  — Eu vou pensar em alguma outra coisa, tudo bem? — Eu a abracei por alguns segundos, mas ela não parecia muito à vontade com aquilo. É claro, ela sempre achava que eu estava errado.
  Saí dali sem sua resposta. Aquela situação me matava. Voltei para o meu quarto, bati a porta e peguei meu notebook. Eu precisava ir atrás de alguma lista de empregos pela região, precisava me virar antes que a temporada acabasse e então eu tivesse minha chance na liga profissional. Eu precisava tentar ganhar dinheiro, não tinha a menor condição de continuar aceitando transações bancárias daquele homem. Talvez eu pudesse pedir um emprego para o pai do Meneely, ele era empresário e tinha seus contatos, cheguei a abrir as mensagens do meu celular para avisar Ryan que precisava conversar com ele, mas lembrei que ele estava me enchendo a paciência desde o final do jogo e então desisti. Não dava pra voltar a falar normalmente com ele só porque eu precisava de um favor. As coisas não funcionavam dessa forma. Antes de bloquear a tela do celular, vi ali. Eu não queria voltar a irritá-la. Aquilo não me levaria a algo positivo. Estava com tanta raiva do meu pai e não podia suportar a ideia de ser um homem quase tão babaca quanto ele. Eu queria socar as paredes, ainda mais porque Meneely não parava de me encher com seus ideias de merda. Continuei o ignorando e acabei por ignorar também, mas ela não parecia muito disposta a parar.

.
Você não vai mesmo se gabar pelo jogo?
está morto?

“O mundo seria um lugar horrível sem mim”
“Então estou vivo”

.
Nossa, finalmente.
Eu ia te perguntar se você estava com depressão pós jogo, mas vocês ganharam.

“É depressão pós jogos, mas não por causa do jogo”

  Voltei a olhar a lista de empregos disponíveis, mas nada se encaixava nos meus horários, que merda. Foco, , você vai encontrar.

.
Você tá mesmo com algum problema ou só tá tentando me zoar?

“Você pensa mal sobre mim”
“Mas sim, eu realmente estou com problemas”

.
Não se porquê vou fazer isso, já que você foi um idiota comigo, mas minha vontade de ajudar é maior.
Na verdade nem sei porque estou falando com você ainda.
Enfim
Quer conversar sobre o que está te deixando mal?

“Eu sou idiota com todo mundo”
“Brincadeira. Isso só acontece às vezes.”
“Podemos nos ver?”

Capítulo 05 - Confrontos

’s POV.

  Era complicado estar ali. Comecei a me arrepender assim que estacionei o carro e vi sentado em um dos lugares da área externa da lanchonete. Eu não sabia o que esperar daquele encontro, digamos que as duas outras vezes não haviam sido nem um pouco agradáveis e eu estava com medo de que isso acontecesse novamente. Seria horrível ter que dirigir de Birmingham até Auburn para ter uma tarde totalmente arruinada por troca de farpas entre e eu.
  Ele comia alguma coisa e parecia estar distraído com o celular. Desci do carro ainda achando que aquilo era uma péssima ideia, mas deixá-lo ali estava fora de cogitação. O lugar era bonito, havia um caminho de pedras para entrarmos, em uma das laterais havia um jardim bonito, e na outra a área externa onde ele estava. A fachada era rústica e parecia ser bem aconchegante. estava de costas para mim, aparentemente não notou que eu estava chegando, entrei na lanchonete e encontrei a passagem para a área externa, assim que pisei no chão de paletes, desgrudou os olhos do celular e olhou para mim. Ele sorriu e se levantou, esperando que eu chegasse até a mesa em que estava.
  — Pensei que não viria — disse. —, parece que eu me enganei. — Ele sorriu novamente. Que sorriso bonito.
  — Eu não sou esse tipo de pessoa. — respondi, me sentando na cadeira de frente para ele, fez o mesmo.
  E o que deveria acontecer depois disso? Eu sabia que aquela era uma péssima ideia, estava me sentindo nervosa, porque eu simplesmente não sabia o que dizer. Era como se eu voltasse ao meu primeiro encontro quando eu tinha quatorze anos. também não colaborava. Ele estava totalmente calado. Enquanto, por debaixo da mesa, eu esfregava sem parar minhas mãos uma na outra, batucava os dedos em cima da madeira coberta por uma toalha simpática xadrez. Ele olhava para os lados, às vezes me encarava e sorria. Qual é, , você não é tímida assim. Pensei em falar algo, mas nada vinha em minha mente. Tentei formular qualquer besteira, até mesmo perguntar o que ele estava comendo, mas quando decidi falar, resolveu fazer o mesmo. Já que que havia aberto a boca para começar, minha fala foi disfarçada por um suspiro. Eu senti aquele incômodo no estômago. Não eram as borboletas e sim aquela sensação ruim de quando você se sente nervosa ou ansiosa por algo.
  — Qual a probabilidade das folhas da árvore da calçada da minha casa não ficarem laranjas e caírem? — ele começou a pergunta olhando para as árvores do outro lado da rua e terminou me encarando. — Eu acho muito feio.
  — Bom, acredito que seja de um por cento, no máximo. — Soltei um riso extremamente nervoso. Puta merda. Respirei fundo e tentei me acalmar, eu estava lembrando de quando ele apareceu na minha sala e aquilo não estava ajudando — Laranja é uma das cores do seu time, você não deveria achar tão feio assim.
  — Mas as folhas são verdes e de repente ficam laranjas e marrons até caírem, isso não é legal. — Ele parecia extremamente focado na sua observação, gesticulava e trocava olhares entre mim e qualquer outro ponto de seu campo de visão.
  — Esse é o ciclo delas, é inevitável, — respondi, me sentindo um pouco mais firme. A sensação no estômago estava diminuindo.
  Ficamos em silêncio novamente. Será que não poderia continuar com suas aleatoriedades até conseguirmos engatar em algo concreto?
  Ele voltou a comer e então eu me peguei observando mais o lanche do que o próprio . Aquilo parecia bom de verdade.
  — O que você está comendo? — questionei, tentando abrir outro tópico de conversa. Falar sobre comida era sempre uma boa opção para mim.
  — Ele veio com três hambúrgueres, mas eu já comi um separado do lanche, — ele explicou, tenho certeza que a expressão de surpresa se manifestou no meu rosto, já que começou a rir.
  — Vocês comem, hein?
  — Eu ‘tô sentindo fome desde ontem. — disse, me fazendo rir. — Quer? — ele ofereceu, empurrando o prato em minha direção.
  — Parece bom. — Peguei o lanche e olhei bem para todo aquele queijo. Jesus. Eu ainda não tinha certeza se ia mesmo querer um daquele, mas depois que mordi, resolvi que a melhor coisa que eu poderia fazer era pedir aquele lanche.
  — Quer que eu peça um para você? — ele me perguntou e eu estranhei tamanho cavalheirismo.
  — Sim, por favor.
  Não importava ser um pouco folgada, certo? De qualquer forma, ele havia oferecido. se levantou e foi para o lado de dentro do estabelecimento.
  Tirei o celular de dentro da bolsa pendurada na lateral da cadeira e aproveitei para responder Olivia, que estava me mandando mensagens um pouco antes que eu chegasse em Auburn.

Liv.
O Rob vai chegar só de noite. Vamos preparar uma surpresa e o Tyler vai ajudar.
Você vem?

  Era óbvio que eu iria. Olivia estava me tratando como se eu fosse a pior pessoa do mundo só porque eu não pude viajar com ela para comemorar o aniversário do Robert e também para assistir ao jogo, isso me deixava extremamente incomodada.

“Eu vou sim. É pra chegar que horas?”

   estava apoiado no balcão, provavelmente esperando pelo lanche. Desde o primeiro minuto que ele deixou a mesa onde estávamos, eu pude respirar um pouco mais aliviada. Nós estávamos conseguindo engatar em algo, mas era fácil perder a calma. , que até então era o jogador de Auburn que odiava meu irmão e todos os meus amigos do time, havia se tornado uma companhia que naquele dia estava se mostrando um pouco gentil e que tirava sua atenção com aquele sorriso tão bonito e o corpo atlético, principalmente pelos braços fortes que ficavam bem à mostra quando a manga da camisa subia um pouco. Eu, definitivamente, não sabia o que estava fazendo da minha vida.
  De longe, vi que uma garçonete trouxe dois copos com gelo e duas latas de refrigerante em sua bandeja. Ela deixou as coisas em cima do mesmo balcão em que estava apoiado e entrou no ambiente que eu deduzi ser a cozinha. se virou, me encarando, eu desviei o olhar, mas voltei a manter contato visual quando percebi que ele caminhava de volta para onde estávamos. carregava os dois copos com refrigerante, mas meu lanche ainda não havia chegado.
  — Eles são lentos quanto aqui ‘tá vazio, — explicou, sentando-se no lugar em que estava antes. — A mulher simplesmente deixou as coisas ali em cima e desapareceu.
  — Eu percebi, — respondi, tomando um gole do refrigerante em seguida. — Mas não tem problema.
  — Não tem problema porque não é você que está com fome, — retrucou e eu quase cuspi o refrigerante nele.
  — Você ainda está com fome? — questionei, totalmente indignada.
  — Você acha que eu me mantenho como com quase dois metros e 120 quilos? — rebateu.
  — O Tyler não come tanto assim, — eu respondi, mas percebi que a comparação não fazia sentido algum.
  — , se seu irmão pesar uns cem quilos é muito. — Ele riu. — Quanto ele tem de altura?
  — Deve ter um e oitenta e cinco, eu acho, — disse e percebi que a garçonete vinha com lanches em cima da bandeja.
  Ela colocou os dois pratos em cima da mesa e se retirou em seguida. A melhor parte daquele “encontro” estava sendo a comida, com certeza.
  Estávamos comendo em silêncio, mas não era desconfortável como aconteceu logo que eu cheguei.
  Meu celular vibrou, eu não estava distraída conversando com , então resolvi dar atenção ao aparelho, eu precisava responder Olivia, se não o fizesse ela ficaria ainda mais irritada comigo e ficar naquele clima com sua melhor amiga e meio cunhada não era legal.

Liv.
Às sete, pode ser?
Rob chega às oito.

“Na sua casa, né?”

  Levando em consideração que eu estava em Auburn e não na minha casa, eu já estava atrasada para a festa surpresa de Robert.
  — Você não vai querer conversar sobre aquilo?
  — Aquilo o quê? — ele perguntou com as sobrancelhas franzidas.
  — Ué, me diga você, eu vim aqui por algum motivo.
  — É um pouco complicado, , — disse, batendo a ponta dos dedos na mesa. — Eu só queria uma companhia que não fosse babaca como as de geralmente, — ele completou sem fazer contato visual algum, seu olhar estava perdido.
  — Mas se eu vim para conversar talvez eu possa ajudar, — sugeri, abrindo um pequeno sorriso. — Ou eu posso quebrar o clima e falar que você é idiota, joga em Auburn e vou embora. — Rimos.
  — Você tem problemas familiares? — ele questionou, olhando-me nos olhos. Então esse era o ponto.
  — Até agora nada de grave, mas tudo é possível, — respondi e percebi travar o maxilar, ele mordeu o lábio inferior e respirou fundo. — Está com problemas em casa?
  — É mais ou menos isso. — Ao mesmo tempo em que ele falava, ficava também estalando os dedos. estava inquieto. — Mas é como eu te disse, eu só queria companhia. — Ele suspirou, recostando-se na cadeira.
  — Tem certeza?
   assentiu positivamente e ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu estava me sentindo mal por ter que ir embora, ao mesmo tempo que era perceptível o fato de que ele realmente queria alguém para conversar, eu ainda estava com um pé atrás, afinal, era o .
  — Você tem que ir embora que horas? — ele quebrou o silêncio.
  — Eu já deveria ter ido, — disse assim que chequei as horas no relógio em meu pulso. Eu estava tão atrasada, Olivia iria me matar.
  — Não vai ficar para jantar comigo? — questionou, me fazendo rir.
  — Eu vou explodir se comer mais alguma coisa.
  — Então acho que eu também já devo ir embora, — respondeu. não parecia estar muito disposto a voltar para qualquer lugar que fosse, eu talvez deveria ficar ali e fazer um pouco mais de companhia, mas mesmo se eu quisesse muito ficar não poderia. O que só me fazia lembrar o quão atrasada eu estava.
  — Bom então... vamos?
   assentiu positivamente e então nos levantamos das cadeiras, eu peguei minha bolsa e deixei ir na minha frente para me guiar até o caixa. Enquanto caminhava até o lado de dentro de estabelecimento eu tinha a sensação de que as pessoas me encaravam como se soubessem que eu era a irmã do Tyler Cooper e estava lá com o cara de Auburn. Paranóias de Cooper. Mas talvez isso estivesse acontecendo porque a confusão estaria feita se Tyler, Robert e Olivia soubessem daquilo.
  Nós entregamos nossas comandas para a mulher no caixa e ela rapidamente somou o quanto deveríamos pagar. Abri a bolsa para pegar a carteira e senti segurar o meu braço.
  — Você veio de Birmingham, pode deixar que eu pago, — ele disse, entregando o dinheiro para a mulher.
  — Não precisa, , eu vim porque quis.
  Eu puxei a carteira para pagar minha parte, mas então a mulher devolveu o trocou para e não havia mais o que ser pago.
  — , você não tinha que pagar o meu, — reclamei enquanto saíamos da lanchonete.
  — Agora já está pago, .
  Foi uma gentileza, afinal, eu havia gastado combustível para sair da minha casa para ir até Auburn, mas eu já fui preparada para gastar com comida e digamos que para mim não era incomodo algum gastar dinheiro para comer.
  — Obrigada por ter vindo, — disse assim que saímos e paramos na calçada em frente a lanchonete. — Eu achei que você fosse me deixar aqui por causa da semana passada.
  — Eu não sei se as provocações do estacionamento foram piores do que você no meu trabalho, mas até que hoje não foi ruim. — Sorri.
  — Acho que devo ficar contente com isso. — Ele devolveu o sorriso, colocando as mãos nos bolsos da sua calça. — Tome cuidado na estrada.
  — Eu vou tomar, com certeza.
  E o que acontecia depois daquilo? e eu ficamos nos olhando por algum tempo, sem dizer nada. Que desconfortável.
  — Então eu vou indo, — disse e assentiu com a cabeça. Nos aproximamos e ele me beijou na bochecha, eu estava meio desajeitada. Mas ok, tudo sob controle.
  — Tchau, .
  — Tchau, .
   atravessou a rua e foi para a direção oposta a minha, eu queria ficar mais um pouco e conversar sobre o que passava na cabeça dele. me deixava tão desconfiada das coisas que ele dizia e fazia, mas ao mesmo tempo, isso causava uma curiosidade tão grande. Eu sempre achei ele um babaca, isso não tinha mudado, ainda era uma piada, mas ele estava se mostrando um pouco melhor.
  Eu não estava com vontade de ir para a festa de Robert, eu já ia chegar atrasada de qualquer forma, então era uma opção ficar dentro do carro, esperando que algum dos bares da rua abrisse. Mas isso seria ridículo da minha parte, eu precisava estar lá.

xxx

Tyler.
Eu estou enrolando faz meia hora com o Robert.
Onde você está?

“Eu estou saindo de casa agora”
“Não precisa me esperar para a surpresa”

  Eu já tinha passado da metade do caminho, o que equivalia a distância de Birmingham até Tuscaloosa e não aguentava mais dirigir, meus olhos estavam pesando e eu cogitava parar o carro em algum lugar e dormir.

Tyler.
Que merda, .

  Mexer no celular enquanto dirigia não era uma das minhas coisas favoritas, principalmente se fosse para responder meu irmão sendo chato, então simplesmente ignorei.

  Quando finalmente cheguei na casa de Olivia, me deparei com todos eles para o lado de fora, no terraço. Estacionei o carro do outro lado da rua e assim que sai do automóvel, notei que eles me olharam com um pouco de… indignação, talvez. Pelo menos Olivia e Robert não pareciam estar felizes, as outras pessoas talvez só não tivessem entendendo o porquê alguém chega atrasado para uma festa surpresa, mas nada demais. Aproximei-me, tentando não transparecer o quanto eu estava cansada e precisando ir para a minha casa.
  — Meu Deus, eu achei que você tinha morrido, — Tyler disse, mas ele não parecia preocupado, só exagerado, como sempre.
  — Não precisava nem ter vindo. — Ouvi Olivia murmurar, dando um gole na cerveja em seguida.
  — Não seja por isso, Liv, eu posso ir embora agora — rebati, fazendo-a me olhar com uma das sobrancelhas arqueadas. —, estou mesmo precisando dormir.

Continua...



Comentários da autora


Oi, mores! gostaria de declarar que morri de amores pelos comentários que recebi aqui na última atualização hahaha muito obrigada ^~^ mas, agora, o que esperar dessa festa do Robert? Olivia ficou 200% putassa com a Katherine por causa do atraso, imaginem se eles souberem que o atraso foi causado por causa do Shane hehehe. Entrem no grupo do facebook para ficarem por dentro das novidades! Até a próxima <3