Unnecessary Roughness

Maria C. | Revisada por Luba

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Capítulo 01 - Auburn who?

’s POV

  A pequena placa em forma de cavalo com o nome “Leroy” balançava conforme o vento forte soprava. Ela parecia poder cair a qualquer momento e produzia um rangido incômodo à medida que ia para frente e para trás. A pouca iluminação do local às vezes me trazia um pouco de insegurança, mas o pátio do bar, que também servia como estacionamento, estava lotado. Encostei-me na parede de tijolinhos que deveriam ser brancos, mas que assumem uma coloração quase cinza por conta da sujeira acumulada ali. Dois homens que estavam fazendo xixi na vegetação logo a frente do bar vieram rindo em minha direção, eu implorei mentalmente para que não falassem comigo e deu certo, apesar da encarada que parecia ter feito um raio-X de mim, nenhuma palavra foi dita e eles entraram diretamente no bar.
^p E o que eu estava fazendo para fora e, ainda por cima, sozinha? Bom, primeiro porque o calor humano estava me matando, segundo, eu havia ido para outra cidade para fugir dos meus amigos e resolvi sair do bar porque as três televisões estavam reprisando o Sugar Bowl que havia acontecido há quase dois anos atrás, logo após mostrar outra derrota de Alabama que aconteceu no começo do ano, contra Ohio State. Oklahoma Sooners contra Alabama Crimson Tide, o time que eu torço, no caso. E digamos que o resultado final não foi muito bom quanto o esperado e eu ainda não havia superado.

2 de Janeiro de 2014. New Orleans, Louisiana. Mercedes-Benz Superdome. 1:30AM.
  O jogo havia acabado. O placar, não tão esperado, marcava 45 pontos para Oklahoma e 31 para Alabama. Era isso, havíamos perdido o jogo.
  Meu pai permaneceu sentado em seu lugar mesmo após o jogadores já terem saído de campo e de minha mãe ter ido embora junto com Olivia e seus pais – Ava e Noah. Ele estava desolado, eu nunca havia o visto daquela maneira.
  — Pai… — chamei, colocando minhas mãos em seus ombros. Ele estava com os cotovelos apoiados em suas coxas e seu rosto afundado nas mãos. — Precisamos ir, — disse mais uma vez, ele apenas me encarou com os olhos vermelhos e depois levou o olhar até o campo, o fixando lá.
  O kick off da partida havia sido feito por Oklahoma, nos deixando em posição de ataque. Robert fez um bom trabalho com Tyler e meu irmão fez um avanço para o first down*, novamente Rob utilizou Tyler e o filho da mãe correu 53 jardas. Eu sempre, sempre mesmo, tentava entender como ele podia ser tão ágil, enquanto eu não conseguia nem ao menos dar uma volta no quarteirão correndo sem chegar em casa totalmente cansada. Voltando ao jogo, após sua corrida espetacular que quase matou meu pai de tanto orgulho, Alabama ficou a apenas 6 jardas do touchdown. Não teve outro resultado, o touchdown foi marcado – não pelo meu irmão, e sim por Yeldon – e o placar foi aberto, após o bom chute, o extra point foi somado ao touchdown, 7 a 0 para Alabama. Após o feito, a bola foi devolvida para Oklahoma, eles foram avançando devagar até entrarem na linha de 30 jardas do campo de defesa do Alabama, isso significava que eles tinham chances de fazer um touchdown ou então chutar um field goal*, mas isso não aconteceu. Um dos recebedores correu para pegar um lançamento do quarterback, mas ele acabou sendo interceptado* por um safety após não ter agarrado a bola corretamente. A interceptação acabou não sendo grandes coisas, já que logo após, Oklahoma também interceptou um de nossos jogadores bem no primeiro lançamento. Uma desgraça. Logo após a interceptação, Oklahoma teve sua posse de bola e empatou o jogo.
  — O que eu vou dizer para o Tyler? — meu pai questionou de repente, me fazendo o olhar com as sobrancelhas franzidas. — Ele estava tão confiante, e eu enchi o ego dele, ele deve estar arrasado, — concluiu, soltando um longo suspiro em seguida.
  — A derrota não foi sua culpa, nem culpa do Tyler, pai. Ele tem 20 anos, vai saber superar isso daqui algumas semanas. — Tentei reconforta-lo. — Anda, vamos embora. — Levantei da minha cadeira e esperei que ele fizesse o mesmo.
  O segundo quarto foi horrível. Alabama começou marcando outro touchdown e um extra point, o que nos dava a vantagem de 7 pontos, mas Oklahoma conseguiu empatar novamente. E então o massacre começou, com um fumble* Oklahoma conseguiu retomar a bola e marcar 24 pontos enquanto Alabama estava com 17. Alabama teve sua posse de bola após o touchdown, mas sofreu uma interceptação, mais um touchdown de Oklahoma, seu kicker errou o chute do extra point e então o placar foi elevado para 31 a 17.
  — Eu acho que deveria ficar e esperar ele, — meu pai disse, aparentemente desistindo de ir comigo.
  — E eu acho que deveríamos ir para casa, — rebati, cruzando os braços. Eu estava começando a ficar irritada.
  — Vai na frente, , eu te encontro daqui a pouco. — Ele gesticulou com as mãos para que eu fosse embora e voltou a se sentar no local em que passamos o jogo todo. Eu apenas revirei os olhos – muito irritada – e fiz o que ele me pediu.
  O grande problema do meu pai era a frustração de nunca ter conseguido entrar para a liga profissional, e ter acabado dentro de um escritório, usando roupa social. Ele sentia a dor do Tyler da mesma forma que sentiu quando passou por aquilo vários anos atrás.
  O terceiro quarto começou após o intervalo e apenas um touchdown foi marcado, dessa vez Alabama usou um dos nossos running backs e tentou se aproximar mais de Oklahoma. 31 a 24. Eu comecei a pensar um pouco mais positivo, se Oklahoma não pontuasse mais e Alabama conseguisse um touchdown com o extra point e um field goal, nós poderíamos ganhar. Eu achei que não fosse tão impossível até que o último quarto começou e nosso ataque pareceu piorar. Robert sofreu um *sack e isso nos fez perder 9 jardas, não conseguimos o first down e o time teve que devolver a bola. A defesa cometeu algumas faltas e isso ajudou Oklahoma avançar. Touchdown. 38 a 24, e a situação começou a piorar. Alabama bem que tentou, conseguiu mais 7 pontos, chegando um pouco mais perto. Porém, outro fumble representou fim de jogo para nós. Oklahoma recuperou a bola e fez mais um touchdown, fim de jogo, 45 a 31 para Oklahoma Sooners.

  Era quase setembro, a temporada estava começando e eles faziam questão de reprisar aquele jogo horrível só para lembrar que Alabama havia perdido dois campeonatos seguidos. Sim, porque o Sugar Bowl de 2015 também fodeu Alabama, 42 a 35 para Ohio State. Eles estavam reprisando dois campeonatos que Alabama havia perdido, um verdadeiro saco. Tomei o último gole da minha cerveja e resolvi buscar mais uma garrafa antes de voltar para Birmingham.
  Quando peguei no puxador da porta para abri-la, escutei alguém chamar pelo nome que eu e outras meninas estávamos acostumadas. “Garota Alabama”. Ignorei, talvez fosse realmente comigo, mas eu não estava com muita vontade de dar atenção. Entrei no bar, tentando manter meu olhar longe das televisões para não passar mais raiva ainda, fui direto pagar o que eu havia consumido e troquei a cerveja por uma lata de energético que eu tinha certeza que não beberia nem metade.
  Sai do estabelecimento procurando em qual dos bolsos da calça eu havia deixado a chave do carro, enquanto caminhava pelo estacionamento escutei novamente alguém chamar. Garota Alabama… Olhei para trás e eu realmente não tinha como saber quem era o infeliz. Continuei indo em direção ao meu carro até que realmente veio a confirmação de que estavam falando comigo.
  “Cooper!”
  Parei novamente de andar, olhei na direção contrária que estava indo e pelo menos dessa vez um cara aparentemente vinha até mim.
  — Cooper? — ele questionou como se não tivesse certeza de quem eu era.
  — Eu mesma, — respondi, cruzando meus braços. Quem aquele louco era?
  — Irmã do Tyler Cooper, não é? — perguntou, rindo.
  — Ah, vai se foder, — disse quando saquei qual era a do idiota. Rolei os olhos e voltei a fazer o caminho até meu carro.
  — Eu por acaso falei algo de errado? — Ele foi andando atrás de mim e eu quis socá-lo.
  — Está mesmo me perguntando isso? — Parei de caminhar quando cheguei ao automóvel, não destravei as portas, afinal, havia a chance de ele querer me assaltar ou algo do tipo. Era melhor prevenir, mas levando em consideração o tamanho dele, eu não teria muitas chances.
  — Parece uma piada para você? — perguntou com uma de suas sobrancelhas arqueada, encostando-se na lateral do meu carro.
  — Com certeza, — respondi irritada — O que você quer? — Eu já estava impaciente, cruzei os braços na altura dos seios e bufei, esperando sua resposta.
  — Saber como você se sente com a derrota, — ele disse sério, mordendo o lábio inferior para conter um riso que veio à tona dez segundos depois.
  — Você é um babaca! — Alterei meu tom de voz.
  — Você não ‘tá me reconhecendo? — questionou ainda rindo.
  — É óbvio que não.
  — Eu vou te dar uma dica, okay? — sugeriu e eu apenas assenti com a cabeça. — Eu sou um linebacker muito bom. — Ele usou todo o ar de superioridade possível para dizer aquela pequena frase, eu quis socá-lo novamente.
  — Você não é um bom linebacker, se fosse, pode ter certeza que eu saberia quem você é. — Pisquei e o observei mudar completamente sua feição. — Você pode me dar licença ou eu vou ter que te atropelar? — questionei. Um cara que eu não tinha ideia de quem era estava encostado no meu carro, sendo chato e ainda havia tentado tirar uma com a minha cara. Eu realmente deveria atropelar ele.
  — Tudo bem, Cooper! Pode deixar que eu saio por livre e espontânea pressão. — Ele levantou os braços em sinal de rendimento. Seu corpo ficou de frente para o meu e eu pude perceber que ele era realmente grande. — Mais uma coisa, Cooper. — Levantou seu dedo indicador e aproximou seu rosto do meu de forma que eu pudesse sentir bem o hálito de cerveja. Acho que pelo menos nisso nós estávamos combinando. — Meu nome é … — Deu um sorriso totalmente artificial e rápido, e ainda ficou alguns segundos me encarando antes de se afastar completamente. — O resto é com você. — Arqueou uma de suas sobrancelhas e começou a se afastar, andando de costas para manter contato visual comigo.
  — Espera! — pedi ao perceber que eu continuava parada no mesmo local e ele já tomava uma distância significativa — De qual universidade você é? — questionei e ele riu.
  — Não vou ser tão óbvio assim. — Ele continuou se afastando. Eu não acreditava que estava dando moral para aquilo, mas era mais forte que eu. Finalmente me movi e voltei a manter proximidade.
  — Não vai me dizer que você é de Auburn? — perguntei irônica, mas ele riu. Ele riu. — ?! — o chamei pelo sobrenome e minha voz saiu um pouco mais esganiçada do que o normal. — Filho da mãe! — Reprimi um xingamento pior, ficando totalmente inconformada. Aquele cretino era tão bonito daquele jeito?!
  — Você se fez de idiota, não é Cooper? — ele perguntou enquanto me seguia até meu carro novamente.
  — Não! — neguei imediatamente, eu estava nervosa. — Primeiro, eu não lembrava que seu nome era , nós sempre nos referimos a você como o babaca, e só.
  — Então esse é o meu apelido? — Ele chegou ao meu lado e esbarrou em mim, fazendo meu corpo se deslocar levemente para a direita.
  — Eu sei que meu irmão deve ter piores para vocês. — Rolei os olhos e tentei o empurrar para a esquerda, mas não obtive muito sucesso. Bufei, frustrada. — Segundo, — continuei a enumerar fatos a meu favor antes que ele voltasse a defecar pela boca. — Você está sempre com o rosto cheio de tinta preta e laranja, sério, como os juízes deixam você jogar com aquela porcaria no rosto?
  — Você acabou de admitir que então fica me observando nos jogos. — E lá estava ele novamente deixando seu ego maior que tudo transparecer. Menos, , você nem é tão bonitão assim.
  — Ah, cala a boca, — mandei, rolando os olhos — Eu não reparo em você primeiro porque eu assisto os jogos de Auburn em último caso e também as últimas vezes que eu te vi você estava com uma coisa branca estranha no nariz e eu não sou paga para ficar observando cada detalhe do seu rosto, — conclui e peguei a chave do carro, destravando as portas.
  — Aquilo era para ele não sangrar, — respondeu e eu demorei um pouco para entender que ele estava se referindo ao nariz. — Você vai mesmo me deixar sozinho sem sua maravilhosa companhia? — perguntou assim que eu abri a porta do carro.
  — Vou, e se você continuar grudado em mim terei que atropelar você, — disse séria e entrei no carro enquanto ria.
  — Relaxa, eu já estou indo. — Ele se afastou tranquilamente enquanto eu dava partida — Supere a derrota, Cooper! — gritou e saiu dali.
  Eu realmente poderia ter passado por cima dele, mas aquilo me causaria problemas, então preferi imaginar milhares de formas para matar lenta e dolorosamente. Era bizarro pensar que eu havia ido para uma outra cidade justamente para evitar essas piadas e encheção de saco e encontrar precisamente com um dos jogadores mais imodestos da liga e que ainda por cima jogava em Auburn. Essa noite realmente não tinha como ser pior.

Sobre algumas expressões:

*first down: down é o nome dado à cada tentativa de avanço de um time durante seu ataque. Um time tem quatro tentativas para conseguir pelo menos 10 jardas, se quiser manter a posse da bola. Cada nova descida é chamada de first down.
*field goal: é uma forma de pontuar no futebol americano, na qual, em vez de se passar a bola a um quarterback, ela é passada a um placeholder , que a segura junto ao chão de forma que um kicker possa executar o chute, fazendo-a passar entre os postes do gol. O acerto vale três pontos no placar.
*interceptar: quando a bola é pega por um adversário da defesa em uma situação de passe.
*fumble: ocorre quando um jogador, que tem a posse e controle da bola deixa ela cair. O fumble pode ser forçado por um jogador da defesa, usando as mãos dando um soco na bola ou forçando com o capacete.
*sack: acontece quando um jogador de linha defensiva, um linebacker ou um defensive back é capaz de passar pelo bloqueio da linha ofensiva, cortando a proteção do quarterback e então o derruba.
*linebacker: o objetivo do linebacker é defender contra passes curtos, fazer tackles e atacar o quarterback adversário.

Capítulo 02 - Gatinha

’s POV.

  Por que às vezes você tem a sensação de que sua vida se tornou uma piada? Talvez porque ela realmente tenha se tornado uma.
  Depois dos acontecimentos fatídicos da noite passada, eu provavelmente teria que lidar com uma bronca dos meus pais e também da minha chefe. Faltavam apenas 10 minutos para eu entrar no trabalho e eu nem tinha levantado da cama. Ótimo, mais uma vez atrasada. Eu nem conseguia acreditar que estava atrasada porque fiquei quase a noite toda morrendo de raiva de . Ok, “morrendo de raiva” era uma expressão muito dramática, mas eu realmente fiquei com estressada.
  Eu ia chegar atrasada de qualquer forma, não tinha porque sair correndo de casa, tentei relaxar para não fazer minha cabeça explodir, mas estava difícil. Digitei uma mensagem para Jessie, avisando que eu provavelmente chegaria bem depois que o esperado, se ninguém me dedurasse e Charlotte chegasse depois das dez, eu provavelmente ainda não teria minha cabeça arrancada por ela.
  Enquanto eu tentava me arrumar, meu celular tocou, era Olivia. Estranho porque ela geralmente nunca estava acordada àquele horário e também porque nós nos falamos até às duas da manhã. Talvez ela tivesse esquecido de algum detalhe importante dos nossos assuntos.
  — É você mesma me ligando ou você foi sequestrada e esse é um pedido de resgate?
  — Eu 'tô desesperada, — Olivia disse e eu já esperei pela bomba. Desesperada logo cedo? Isso não era muito comum para ela.
  — O que houve?
  — Eu esqueci que o aniversário do Robert é nesse final de semana, — ela soltou e eu comecei a rir. Era sério aquilo?
  — Você 'tá me zoando, né? — Eu até borrei a maquiagem.
  — Não, é sério! — Olivia bufou. — Eu tinha que fazer uma festa surpresa, mas aí eu lembrei que tem um jogo no mesmo dia, será que não dá pra gente ir junto com eles?
  — Eu não acredito que você me ligou pra isso. — Limpei o risco de delineado que eu havia feito anteriormente. — Eu acho que ele não vai ficar chateado se não rolar festa, né? — Eu estava tentando jogar os fatos para Olivia enquanto guardava a bagunça que eu havia feito com minhas maquiagens. — Sei lá, Liv, mas tenho certeza que a gente pode adiar isso para o domingo.
  — Por que você nunca topa fazer nada pro Robert? — ela questionou, seu tom de voz estava mais puxado para quem estava com raiva do que chateada.
  — Talvez porque você esteja me pedindo algo impossível, — rebati, começando a ficar irritada também. — Seu irmão não vai morrer por causa disso, Olivia. — Joguei algumas coisas pra dentro da necessaire com força, eu estava descontando meu stress nas minhas próprias coisas. Mas sério, ela precisa mesmo me ligar àquela hora para me irritar?
  — Olha, depois a gente conversa, okay? — ela propôs. — Bom dia para você.
  E então a chamada foi finalizada. Olivia desligou na minha cara só porque eu não concordei com uma ideia que era inviável. Tinha como ser menos infantil?

xxx

  Quando estacionei em frente do atêlie, percebi que o carro da Charlotte ainda não estava lá. Fiquei olhando bem para os lados antes de sair do carro, tentando não ser pega pela minha chefe, já que geralmente ela chegava naquele horário. Eu estava uma hora atrasada e provavelmente uma ou duas clientes já teriam ido embora.
  Passei reto e tão rápido pela recepção que Chloé nem teve tempo de falar comigo. Direto e reto para a minha sala. Quando entrei, encontrei Jessie sentada, mexendo no celular.
  — , pelo amor de Deus! Eu não sei mais o que fazer, tem gente te esperando, sabia? — ela me advertiu e eu ficaria brava se eu realmente não estivesse tão atrasada.
  — Okay, Jess, okay. — Dei as coisas que segurava para ela e me sentei na cadeira onde atendia as clientes do ateliê. — Manda quem estiver me esperando entrar, depois a gente conversa.
  Ela saiu da sala com as pastas que eu havia lhe entregado, usei o pequeno tempo sozinha para ligar o notebook e organizar alguns materiais, logo Jessie voltou com uma mulher que eu tinha certeza que era amiga da Charlotte. Eu estava ferrada.

xxx

  Stacy Miller havia sido a primeira pessoa que eu atendi no dia, uma grande amiga da Charlotte. ​Ela possuía uma beleza invejável. Os olhos levemente esverdeados contrastavam com a pele negra e ela parecia ser uma miss. Stacy foi extremamente educada e legal comigo, não parecendo ter ligado muito para o meu atraso.
  Uma das pessoas que eu atenderia acabou indo embora e então eu pude adiantar um vestido de noiva que a dona viria aprovar o croqui e também fazer algumas alterações. Decote coração, rendado e cristais bordados em toda extensão da saia, além do longo véu. O casamento aconteceria no começo do ano que vem, mas tudo tinha que estar pronto até o final do próximo mês.
M ais cedo, enquanto eu trabalhava nesse vestido, Tyler me mandou uma mensagem para perguntar se ele e Robert poderiam vir almoçar comigo. Como Charlotte já havia chegado e não mencionara nada sobre o meu atraso, eu não teria que ficar presa no ateliê fazendo coisas que eu deveria ter feito no meu tempo de atraso, então disse que tudo bem se eles viessem.
  — Chloé, você vai ficar por aqui? — questionei assim que a vi sentada na cadeira da recepção. — Você já não deveria ter fechado para o almoço?
  — Hoje eu vou ficar, mas já pedi meu almoço. — ela respondeu enquanto anotava algo em uma folha pequena de bloco de notas. — Você se importa de ir comprar isso para mim? — Chloé colocou o papel em cima do balcão que nos separava e eu o peguei para ler. — Depois eu te dou o dinheiro.
  — Só isso? — questionei, ela pedia por canetas, um bloco de papel sulfite e um de post-it. Chloé murmurou um “uhum” em resposta. — Te trago assim que voltar do almoço.
  — Okay, obrigada, .
  — Por nada. — Coloquei o papel no meio da agenda que estava dentro da minha bolsa — Até mais tarde.
  O restaurante onde marcamos ficava bem perto do atêlie, optei por ir andando e já aproveitei para passar em uma papelaria e comprar as coisas que Chloé havia me pedido.

Tyler.
Onde você ‘tá??

“Já estou chegando”

  Meu irmão era sempre a pessoa mais atrasada da família, mas era incrível como ele ficava irritado quando alguém se atrasava em algum compromisso com ele. Caminhei por mais dois quarteirões até chegar no lugar em que marcamos. Conferi nas mensagens se era ali mesmo o combinado e depois de confirmar, entrei.
  Avistei Tyler e Robert sentados em uma mesa perto das janelas, Tyler, que estava virado em minha direção, acenou quando me viu. Caminhei até os dois e eles levantaram para me cumprimentar.
  — Você sumiu, mana, — Tyler disse enquanto nos abraçávamos. Ele beijou minha bochecha e se afastou.
  — O problema é que vocês passam mais tempo treinando do que outra coisa, — respondi e me virei para Rob, dando um selinho nele. — Não sei nem como conseguiram vir para cá. — Robert puxou a cadeira ao seu lado para que eu me sentasse e eu o fiz.
  — Às vezes a gente consegue, — Tyler respondeu. — Agora eu só vou ver você no ano que vem quando todos os jogos acabarem.
  — Se você sumir igual fez da última vez eu vou te buscar no campo no meio do jogo, — ameacei, fazendo-o rir.
  Um garçom se aproximou da mesa e fizemos nossos pedidos, como sempre, as bebidas chegaram primeiro e os lanches depois. Tyler, Robert e eu conversávamos sobre assuntos aleatórios e em nenhum momento o aniversário de Rob foi mencionado, Olivia, que até então não tinha mais falado comigo, estava surtando à toa.
  — Nós vamos começar a temporada agora, . Sem álcool, sem garotas e sem drogas. Você ainda não entendeu?
  — Vocês são chatos demais, — resmunguei. Tyler e Robert riram enquanto eu arrancava a folha da minha agenda onde estavam os itens que deveriam ser comprados. — Espero que percam o jogo.
  — Se a gente perde, você chora. — Rob disse com uma das sobrancelhas arqueadas.
  — Isso é mentira, — protestei — Só choro quando vocês perdem de Auburn.
  Auburn. . Cornerback babaca.
  — Até eu choro quando a gente perde pra Auburn, — Tyler disse em tom baixo e começou a tossir em seguida, tentando disfarçar.
  — Não precisa fazer isso, bro. — Rob deu um sorriso compreensivo, me fazendo rir. — Nós sabemos que isso é verdade.
  — Tanto faz, todo mundo de Alabama chora se a gente perder pra Auburn. — Deu de ombros, mordendo seu lanche. — Você vai para o jogo no sábado? — Tyler perguntou de boca cheia.
  — Vai, — Rob respondeu por mim.
  — Eu já disse que não vou, — reforcei, eles me olharam parecendo desconfiados. — Eu estou falando sério!
  — Se sua desculpa for trabalho, eu te mato, — Tyler disse, me fazendo rolar os olhos.
  — Você vive de futebol, não sei o que está falando de mim.
  — Futebol é diversão, não trabalho. — eles falaram praticamente juntos.
  — Falando assim nem parece que vocês entrariam em depressão se não draftados para jogar profissionalmente.
  — Para com esse papo, mana, você me enche o saco demais.
  — Só estou fazendo uma observação. — Tyler fez careta com a minha resposta. Ele era sempre tão criança.

xxx

  Eu estava quase cochilando quando Jessie entrou na minha sala parecendo um furacão. Ajeitei-me na cadeira e cocei os olhos, me lembrando que provavelmente havia estragado meu rímel ou então o delineado.
  — Você está prestes a atender o melhor cliente da sua vida! — Jess estava agitada e gesticulava sem parar.
  — Do que você está falando, louca? — perguntei ainda sem entender. Eu estava meio sonolenta.
  — Olha, eu não sei se ele é influente ou algo do tipo, mas ele é muito bonito. — Jessie começou a falar mais baixo, como se o tal cliente pudesse ouvi-la.
  — Ai, Jess. — Comecei a rir — Manda o cara entrar, — pedi, mas então tive um estalo mental — Espera! — fiz Jessie parar de andar. — Você sabe o nome dele? Porque na minha agenda não tinha nenhum homem marcado.
  — Ah, ele não marcou, , ele veio tentar um encaixe e como a mulher das três da tarde desmarcou, eu não vi mal em deixar ele entrar, — explicou.
  — Okay, pode chamar então.
  Estranho. Bem estranho. Seja lá quem fosse, bonito ou não, estava atrapalhando meus minutos livres de cochilo. Não demorou muito para que Jess abrisse a porta e deixasse uma figura masculina entrar. Não, não, não. De jeito nenhum. O corpo forte, alto, cabelo e olhos castanhos.
  — O que você pensa que está fazendo aqui? — perguntei, me levantando da cadeira.
  — Eu acho que ontem à noite não foi o suficiente. — Ele passou a língua nos lábios e sorriu, cruzando os braços.
  — Cara, como você me achou no meu trabalho? — Eu estava inconformada. — É melhor você ir embora, tipo, agora. — Tentei girar seu corpo para a direção da porta e empurrá-lo para fora, mas era resistente.
  — Eu geralmente consigo o que eu quero, e eu quis encontrar você. — respondeu e eu acabei rindo.
  — Que ridículo, . Por favor, saia. — Não custava nada tentar pedir com educação, certo?
  — Por que está me mandando ir embora? — Errado. Ele era insistente demais.
  — Por que está aqui me enchendo o saco sem motivo algum? — rebati.
  — Porque você é bonitinha. — ele arqueou uma das sobrancelhas e começou a me encarar fixamente. Qual era o problema daquele cara?
  — Você é doente. — bufei. — E está me atrapalhando, então faz o favor de sair. — Voltei para minha cadeira e tentei fazer qualquer coisa que não fosse me estressar com .
  Ele ficou algum tempo parado no mesmo lugar, mas aparentemente não desistiu, já que resolveu sentar em uma das cadeiras em frente a minha mesa.
  — Gostei da sua sala, — disse, observando as coisas ao seu redor. Apenas balancei a cabeça, eu não ia me estressar — Você não vai mesmo conversar comigo?
  — Por que você não tira essa bunda de tiger imundo da cadeira da minha sala e não vai embora?
  — Essa doeu, Cooper.
  — Vai embora, .
  — Você não quer conversar por causa do seu namorado ou porque eu sou de Auburn?
  — Eu não tenho um namorado e mesmo que tivesse, isso não me impediria de conversar com você. — Levantei e fui até a porta, abrindo-a. — Então fico com a segunda opção. Agora você já pode ir embora. — Apontei para fora, esperando alguma reação dele.
  — Eu não acredito que vim de Auburn até aqui para nada. — Ele bufou. Que engraçado, quem fazia a merda e depois ficava irritado?
  — Olha, se te serve de consolo, em Birmingham tem vários lugares legais, se você quiser eu posso te indicar todos eles. — Era óbvio que eu não ia fazer aquilo e eu esperava que ele entendesse a ironia na minha fala.
  — Okay, Cooper. — se levantou e respirou fundo, em seguida foi até a porta e parou na minha frente — Não vou mais ocupar seu tempo. — Ele se aproximou e então beijou minha bochecha, saindo de lá em seguida.
  Bati a porta assim que ele me deu espaço. Que idiota.

xxx

  “Não esquece de comer seu lanche antes de entrar para a aula. Se você estiver com fome vai perder a concentração.” A minha mãe era a melhor. Achei o bilhete grudado na tampa de um tupperware dentro da minha bolsa. Eu geralmente não tinha muito tempo de comer antes da faculdade, então ela fazia o favor de lembrar de não me deixar morrendo de fome antes de eu chegar na universidade.
  Antes de sair do carro, juntei tudo que eu iria precisar levar para as aulas e peguei o celular para agradecê-la. Acabei me deparando com a notificação de uma mensagem de alguém que não estava em meus contatos. Como sempre, a curiosidade falou mais alto e eu meio que ignorei o fato de que ia falar com minha mãe.
“Oi, gatinha. Você já deve imaginar quem é. Sua amiga é bem legal, foi só insistir um pouquinho e ela me passou seu número. Agradeça à ela por isso. Eu não vou te deixar em paz tão cedo. Xx”
  Se aquela mensagem fosse realmente de quem eu estava pensando que era, eu teria que matar a Jessie.

Capítulo 03 - Rotina

’s POV.

  — Por que você não desgruda dessa merda? — Meneely arrancou o celular da minha mão, por sorte consegui bloquear a tela antes que ele visse o que eu realmente estava fazendo — , não me diga que isso tem a ver com…
  — Não, não tem, — cortei antes que ele terminasse sua pergunta. — Agora para de ser otário e me devolve o celular.
  — Mesmo que tivesse a ver com o que eu estou pensando que tem, você não teria motivo para esconder. — Porra Ryan, dava pra parar de encher o saco? — Eu acho que você precisa transar. — Ele me entregou o celular e eu o coloquei no bolso da minha bermuda, recebendo um soco no braço. — E parar de esconder seus esquemas.
  — Cala a boca, Meneely, eu preciso treinar, só isso.
  Nós dois seguimos em silêncio para o campo de treino. Ryan Meneely era um dos nossos wide receivers, mas ele não ligava muito para o que envolvia a liga profissional e mesmo assim adorava competir com Tyler Cooper. Era claro que o Cooper era bem melhor, mas eu nunca admitiria isso em voz alta.

xxx

  — Azul, 11!
  Assim que a bola foi parar nas mãos de Floyd, eu corri. A OL tentou me bloquear, mas eu consegui passar, eles precisavam melhorar se quisessem parar um linebacker do mesmo nível que eu, principalmente nessa última temporada. Era tudo ou nada. Passando com velocidade pela barreira, encontrei Floyd ainda com a bola em mãos, ele foi para trás, procurando fugir do tombo. Muito lento, Floyd. Ele soltou a bola pouco antes de ser derrubado por mim. Passe incompleto e 7 jardas perdidas. Se eu conseguia fazer isso com um ataque bom como o nosso, não seria difícil derrubar outros quarterbacks.
  — Boa, , — ele disse ainda no chão. Estendi minha mão para o ajudar a levantar. — Mas vai com calma, você não pode me lesionar, — Floyd completou quando se levantou e bateu no meu capacete.
  Murmurei um “desculpe” e voltei para minha posição anterior. Às vezes esses caras eram frágeis demais.

’s POV.

  Cheguei no ateliê disposta a ter uma longa conversa com Jess. deve ter sido muito persuasivo para ter feito Jessie passar o número do meu celular para ele. Aquilo era basicamente contra as regras, nenhum cliente poderia ter meu número pessoal ao menos que eu quisesse passar, mas o caso de não era esse.
  — Bom dia, Chloé, — disse assim que abri a porta e a encontrei arrumando algumas coisas no balcão.
  — Bom dia, . — Ela sorriu, levando revistas para a mesa de centro da sala de espera. — Jessie ainda não chegou, mas Charlotte está te esperando na sala dela. — avisou enquanto voltava para sua cadeira. Charlotte estava me esperando na sala dela àquele horário? Ok, eu deveria estar ferrada.
  — Então eu acho melhor já falar com ela antes que eu comece a atrasar os clientes, — comentei. Mesmo que ainda não tivesse ninguém esperando por mim, eu não poderia demorar tanto e me atrasar no atendimento de novo.
  — Quando a Jessie chegar eu peço para ela te esperar na sua sala então, okay?
  — Okay, obrigada.
  — Boa sorte com a Charlotte.
  É, eu ia mesmo precisar. Agradeci novamente e segui até os fundos do ateliê, local em que a sala da nossa chefe ficava. Notei que a decoração do local estava sendo trocada, isso acontecia conforme as estações mudavam e, como estávamos na época de transição do verão para o outono, as coisas lá dentro também mudavam. Com adaptações nas peças do outono do ano passado e algumas outras novas, os tons coloridos eram substituídos pelo marrom, laranja e outras tonalidades que remetiam à estação.
  Bati na porta da Charlotte duas vezes e ela me mandou entrar. Aquela sala era incrível. As coisas ali dentro não mudavam conforme as estações e, tirando a cor das flores, todo o resto era em preto e branco. Charlotte gostava de mesas, só na sala dela havia três, duas de vidro e uma de madeira. Todas com vasos de flores em cima. Havia uma estante preta enorme com todos livros sobre moda existentes, muitos quadros e muitos porta retratos com fotos da família.
  — Mandou me chamar? — perguntei um pouco sem jeito. Eu estava nervosa sem saber qual seria o assunto daquela conversa.
  — Sim, querida, sente-se, — ela pediu, indicando as cadeiras em frente a sua mesa. Ela não parecia estar nervosa.
  — Algum problema? — perguntei assim que me sentei, eu sabia que estava sendo um pouco apressada demais, mas a curiosidade estava me matando.
  — Não, nenhum. — Charlotte sorriu e retirou seu óculos. — Na verdade, tenho ótimas notícias.
  — Então não estou ferrada, — murmurei, Charlotte escutou e riu.
  — Realmente não, — ela confirmou e então pegou a primeira revista da pilha que estava em cima da sua mesa. — Você conhece a Filadélfia? — questionou enquanto folheava a revista.
  — Não, nunca estive lá, por quê?
  — Porque em dezembro nós estaremos lá, — ela disse, virando a revista para mim. — Esse é um teste da matéria sobre a inauguração da minha loja. — Charlotte me indicava post-its com o dedo, a matéria ocupava duas folhas e possuía apenas o esqueleto de como seria. — Eu vou te levar comigo porque quero que confeccione a coleção de inverno. — Eu gelei naquela hora. Ela estava mesmo falando sério? Aparentemente sim, Charlotte continuou me indicando coisas até que o meu nome apareceu em uma das anotações.
  — Eu não acredito… — Eu com certeza estava com um sorriso enorme e talvez parecendo boba, mas o que importava era que Charlotte parecia feliz por mim. — Você não está brincando, né?
  — O seu nome está bem aqui, , não sei porque está tão incrédula.
  — Eu não estava esperando isso, — tentei justificar, na verdade eu esperava por uma notícia dessas há meses, mas mesmo assim estava surpresa.
  — Até parece que não. — Ela me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas e puxou a revista de volta. — Depois eu te dou uma cópia disso. — Indicou as duas páginas sobre a matéria.
  — E quando nós vamos?
  — Entre a semana do natal e ano novo, — ela informou, voltando a mexer em seu computador. — Você já pode ir. — Poxa, Charlotte, você cortou meu barato de conversar com você. — A primeira pessoa já deve ter chegado.
  — Certo, com licença. — Levantei e empurrei a cadeira para frente.
  Charlotte era assim, uma ótima pessoa, mas às vezes ela se tornava curta e grossa logo após ser gentil. Eu já estava acostumada e, mesmo que não estivesse, naquele momento eu pouco ligava para o fato de que ela me chutou da sua sala. Cooper estava muito próxima de realizar seu sonho de desenhar uma coleção inteira de roupas que fossem realmente ser vendidas. Aquilo era mais do que o máximo. Meu Deus, eu ia surtar.

xxx

  — Jess, você não pode fazer isso outra vez, ok? — repeti aquilo pela vigésima vez naquela conversa.
  — Foi mal, , - ela pediu, parecia estar arrependida, eu não queria que ela se sentisse mal por aquilo.
  — Tudo bem, Jess, mas é que ele não é confiavél, entende? — ela assentiu e nós rimos — Pelo menos não para mim.
  — Ele disse que o nome era , mas você sabe que eu não sou ligada a futebol igual a você, então eu nunca ia adivinhar.
  — Olha, não se incomode mais com isso, ok? — Segurei sua mão e ela sorriu. — Eu posso bloquear o número dele e ele para de me encher o saco.
  — Então você ainda não bloqueou? — Jess questionou com uma das sobrancelhas arqueadas. Rolei os olhos. — Você não teve coragem!
  — Ele ainda não me irritou o suficiente, okay? — tentei justificar. Afinal, por que mesmo eu não havia bloqueado o número de ?
  — Sei. — Jessie riu e se levantou da cadeira, puxando sua jaqueta jeans que estava pendurada no assento. — Você está dando muita bola para ele.
  — E você está ficando louca. — Ajeitei minhas coisas em uma pilha só e desliguei o notebook. Faltavam só dez minutos para irmos embora. Meu celular vibrou, mensagem do Tyler. Bloqueei a tela e coloquei o aparelho dentro da bolsa. — Vamos?
  — Era ele?
  — Não, maluca! Era meu irmão. — Ela me olhou desconfiada. — Quer ver meu celular? — ofereci.
  — De jeito nenhum! — riu.
  Jessie e eu nos despedimos de Chloé, já que ela saía mais tarde e fechava o ateliê, nós nunca tínhamos a oportunidade de sair as três juntas. Jess não cursava na mesma universidade que eu, mas às vezes eu dava carona para ela, porém ela só aceitava isso quando chovia, fazia muito frio ou quando estávamos atrasadas. Havia pelo menos um mês que ela não aceitava minhas caronas.
  Quando entrei no carro peguei o celular para responder Tyler. Ele estava perguntando de novo se eu ia para o jogo, pois ele tinha um ingresso e mais alguma coisa que eu não li direito.

“Bro, não vou poder ir, quer que eu tente vender o ingresso para você não tomar prejuízo?”
Tyler.
Não precisa.
Já arrumei outra pessoa para ir.
Na verdade, ela já estava interessada.
Tá tudo bem por ai?
“Vai levar quem no meu lugar?”
“Tudo certo por aqui. Fui “promovida” hoje :D”
“E aí?”

  Mal terminei de responder e outra mensagem chegou.

.
Você vai me ver jogar no sábado, né?
“Eu vou ver o meu irmão”
“Não você”

  Por que aquela coisa ficava sempre me esperando responder? Eu nem tinha tempo de piscar e já aparecia como “lida”.

.
Eu sei que você vai querer me ver sacar o quarterback.
Apesar do Cornwell, você tem cara de quem gosta dos caras da defesa.

  Ok. Nisso ele estava certo.

“Tchau,

.
Eu ia dizer que vou fazer um touchdown para você, mas não faz muito sentido.
“Você pode fazer isso, é só interceptar um passe e correr.”
“Correr muito.”

.
Então você quer que eu marque um touchdown para você?
“Eu não disse nada.”
“Tchau, .”

.
Tchau Cooper.

Capítulo 04 - Touchdown

’s POV.

  Sábado. Dia de jogo, ou melhor dizendo, o primeiro dia da temporada regular dos jogos. Tyler àquela hora já deveria estar no Texas e eu estava falhando miseravelmente ao tentar não sentir inveja de Olivia por ter ido com eles.
  O jogo do Tyler começaria dentro de duas horas, tempo o suficiente para que eu me organizasse e fizesse alguma coisa para comer durante a partida. Falhei também em não acordar mais cedo para fazer uma ligação desejando-lhes boa sorte e também para dar os parabéns a Robert por ligação. Talvez uma mensagem – que seria vista somente depois do jogo – compensaria minha ausência logo na primeira partida, ou não, Tyler era muito mimado e ficava chateado com coisas assim. Eu só esperava que Rob não sentisse o mesmo.
  Após arrumar todo meu quarto, resolvi juntar meu material e descer, geralmente, fazer croquis e assistir jogos ao mesmo tempo não dava muito certo, eu ficava vidrada na TV e não prestava muita atenção em outras coisas.
  Algo estava cheirando bem, eu nem tive que terminar de descer a escada para saber que meu pai estava cozinhando alguma coisa. Encontrei minha mãe sentada em uma das poltronas que ficavam perto da vidraça principal da sala, onde tínhamos vista para o jardim.
  — Achei que teria que te acordar, — ela disse sem tirar os olhos do livro que estava lendo.
  — Eu acordei faz tempo, só estava arrumando meu quarto, — expliquei. Ela tirou a atenção do seu livro e me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas — O que foi? Eu arrumei mesmo.
  — Vai chover hoje, — comentou, voltando a prestar atenção na leitura.
  É, eu não costumava ser muito organizada mesmo, mas não custava nada deixar as coisas em ordem no domingo para ver se pelo menos conseguia manter até o final da semana.
  A televisão já estava ligada no canal de esportes, meu pai sempre gostava de escutar o que os comentaristas diziam, principalmente sobre Tyler.
  Fui até a cozinha e não o encontrei lá, mas vi que a torta no forno era o que estava cheirando tão bem. Comida para a hora do jogo era o que eu mais precisava, principalmente porque meu pai cozinhava muito bem. Desde que os móveis da cozinha foram trocados, eu me sentia incomodada com sujeira neles. Eram tão claros e tão bonitos. Quase surtei quando vi o mármore da ilha da cozinha todo respingado com a massa líquida da torta. Limpei antes que minha mãe visse aquilo, ela tinha mania de limpeza, mas meu pai não ligava para essas coisas. Peguei uma cerveja dentro da geladeira e fiquei sentada em uma das cadeiras da mesa, observando a torta para que não queimasse antes do meu pai voltar.

xxx

  Tyler sempre ia muito bem. 2 touchdowns, algumas recepções que os deixaram na boca da endzone e boas corridas. Ele provavelmente seria draftado no primeiro round, pelo menos era isso que os comentaristas diziam. Meu pai já até tinha um gerente financeiro para cuidar da possível vida profissional de Tyler, o cara deveria ser conhecido dele, mas ainda não havia sido apresentado a nós. Nosso pai mantinha algumas coisas em segredo até elas realmente darem certo, afinal, quanto menos você criar expectativas, menor será a decepção caso algo dê errado.
  Eu estava terminando meus trabalhos da semana no meu quarto, meus pais haviam saído para ir no aniversário de uma amiga da minha mãe e eu fiquei sozinha em casa. Tive a brilhante ideia de descer para comer um pedaço de torta. Eu detestava ficar sozinha em casa, principalmente por causa daquelas vidraças enormes na sala e na cozinha. Pelo menos minha mãe havia descido as persianas delas, era horrível estar de costas para aqueles vidros e ter a sensação de que tem alguém ali te olhando. Peguei a travessa de torta dentro do forno, ela não estava quente, mas estava comível o suficiente para não ter que esquentar. Voltando para a sala, passei pela televisão e lembrei que estava passando jogo e eu decidi parar para assistir. Auburn já estava ganhando quando eu liguei a televisão. O jogo estava próximo do intervalo e Auburn tinha uma boa posição. Joe estava posicionado na linha de cinco jardas do campo de Auburn, então a jogada iniciou, a bola foi parar na mão do quarterback deles e a movimentação dos jogadores foi grande. Eu estava com os olhos no 15, infelizmente eu tinha que concordar com o fato de que ele era bom. furou o bloqueio da OL e chegou até o quarterback, ele tentou se desvencilhar, mas se auto prejudicou. Conforme se aproximava, ele ia para o lado e um pouco para trás. sacou o jogador dentro da endzone, o quarterback com a bola em mãos, sendo sacado lá dentro, era como um touchdown contra, já que a endzone era do campo de ataque de Auburn. Quase engasguei com o pedaço de torta que estava na minha boca. O filho da mãe havia feito um touchdown.
  O celular estava no sofá, bem do meu lado. Eu não podia, mas no fundo queria fazer aquilo. E fiz, me arrependendo logo em seguida.

“Você fez mesmo um touchdown, parece que você não é tão ruim assim, não é, ?”

Shane’s POV.

  Voltar para casa após um jogo poderia parecer bom, mas no meu caso, não era. Eu sabia que o meu papel era estar ali com ela, a ajudando a superar tudo aquilo, mas essa situação sugava todas as minhas boas energias. Vê-la daquela forma era horrível. Joguei a mala em cima do sofá e fui até o lugar mais óbvio: o quarto. A porta estava aberta, ela mexia no celular, deitada na cama. Estava de costas para mim. Bati na porta, fazendo ela se virar.
  — Tudo bem por aqui? — questionei.
  — Melhor agora que você chegou, — ela respondeu e sorriu. — Sua irmã disse que você foi bem ontem. — Sentou-se na cama, parecia uma pouco desnorteada.
  — Então você não assistiu o jogo? — era óbvio que não.
  — Eu não tive um bom dia ontem, .
  — O que aconteceu? — Fui até ela e me sentei na ponta do colchão. Aquela pergunta tinha uma resposta bem direta, mas daquela vez tinha algo a mais.
  — Seu pai fez uma transação bancária para minha conta, foram quatro mil doláres, , — ela começou a explicar. — Eu tentei ligar para ele, mas como sempre, ele não me atendeu.
  Aquilo me atingiu em cheio. Filho da puta. Eu não conseguia aceitar o fato de que aquele homem era meu pai. Talvez sua consciência estivesse pesando, e por isso ele estava mandando dinheiro para nós. Babaca. Ele não teria que nos dar seu dinheiro se tivesse pensado antes de trair minha mãe com uma garota da minha idade.
  — Você vai mandar esse dinheiro de volta para ele, — eu disse, mas ela não parecia concordar com isso. — Eu vou vender o carro e arrumar um emprego.
  — , a gente precisa disso.
  Eu escutei aquilo da primeira vez que aconteceu e pelo jeito ela não mudaria de opinião.
  — Eu vou pensar em alguma outra coisa, tudo bem? — Eu a abracei por alguns segundos, mas ela não parecia muito à vontade com aquilo. É claro, ela sempre achava que eu estava errado.
  Saí dali sem sua resposta. Aquela situação me matava. Voltei para o meu quarto, bati a porta e peguei meu notebook. Eu precisava ir atrás de alguma lista de empregos pela região, precisava me virar antes que a temporada acabasse e então eu tivesse minha chance na liga profissional. Eu precisava tentar ganhar dinheiro, não tinha a menor condição de continuar aceitando transações bancárias daquele homem. Talvez eu pudesse pedir um emprego para o pai do Meneely, ele era empresário e tinha seus contatos, cheguei a abrir as mensagens do meu celular para avisar Ryan que precisava conversar com ele, mas lembrei que ele estava me enchendo a paciência desde o final do jogo e então desisti. Não dava pra voltar a falar normalmente com ele só porque eu precisava de um favor. As coisas não funcionavam dessa forma. Antes de bloquear a tela do celular, vi ali. Eu não queria voltar a irritá-la. Aquilo não me levaria a algo positivo. Estava com tanta raiva do meu pai e não podia suportar a ideia de ser um homem quase tão babaca quanto ele. Eu queria socar as paredes, ainda mais porque Meneely não parava de me encher com seus ideias de merda. Continuei o ignorando e acabei por ignorar também, mas ela não parecia muito disposta a parar.

.
Você não vai mesmo se gabar pelo jogo?
está morto?

“O mundo seria um lugar horrível sem mim”
“Então estou vivo”

.
Nossa, finalmente.
Eu ia te perguntar se você estava com depressão pós jogo, mas vocês ganharam.

“É depressão pós jogos, mas não por causa do jogo”

  Voltei a olhar a lista de empregos disponíveis, mas nada se encaixava nos meus horários, que merda. Foco, , você vai encontrar.

.
Você tá mesmo com algum problema ou só tá tentando me zoar?
“Você pensa mal sobre mim”
“Mas sim, eu realmente estou com problemas”

.
Não se porquê vou fazer isso, já que você foi um idiota comigo, mas minha vontade de ajudar é maior.
Na verdade nem sei porque estou falando com você ainda.
Enfim
Quer conversar sobre o que está te deixando mal?

“Eu sou idiota com todo mundo”
“Brincadeira. Isso só acontece às vezes.”
“Podemos nos ver?”

Capítulo 05 - Confrontos

’s POV.

  Era complicado estar ali. Comecei a me arrepender assim que estacionei o carro e vi sentado em um dos lugares da área externa da lanchonete. Eu não sabia o que esperar daquele encontro, digamos que as duas outras vezes não haviam sido nem um pouco agradáveis e eu estava com medo de que isso acontecesse novamente. Seria horrível ter que dirigir de Birmingham até Auburn para ter uma tarde totalmente arruinada por troca de farpas entre e eu.
  Ele comia alguma coisa e parecia estar distraído com o celular. Desci do carro ainda achando que aquilo era uma péssima ideia, mas deixá-lo ali estava fora de cogitação. O lugar era bonito, havia um caminho de pedras para entrarmos, em uma das laterais havia um jardim bonito, e na outra a área externa onde ele estava. A fachada era rústica e parecia ser bem aconchegante. estava de costas para mim, aparentemente não notou que eu estava chegando, entrei na lanchonete e encontrei a passagem para a área externa, assim que pisei no chão de paletes, desgrudou os olhos do celular e olhou para mim. Ele sorriu e se levantou, esperando que eu chegasse até a mesa em que estava.
  — Pensei que não viria — disse. —, parece que eu me enganei. — Ele sorriu novamente. Que sorriso bonito.
  — Eu não sou esse tipo de pessoa. — respondi, me sentando na cadeira de frente para ele, fez o mesmo.
  E o que deveria acontecer depois disso? Eu sabia que aquela era uma péssima ideia, estava me sentindo nervosa, porque eu simplesmente não sabia o que dizer. Era como se eu voltasse ao meu primeiro encontro quando eu tinha quatorze anos. também não colaborava. Ele estava totalmente calado. Enquanto, por debaixo da mesa, eu esfregava sem parar minhas mãos uma na outra, batucava os dedos em cima da madeira coberta por uma toalha simpática xadrez. Ele olhava para os lados, às vezes me encarava e sorria. Qual é, , você não é tímida assim. Pensei em falar algo, mas nada vinha em minha mente. Tentei formular qualquer besteira, até mesmo perguntar o que ele estava comendo, mas quando decidi falar, resolveu fazer o mesmo. Já que que havia aberto a boca para começar, minha fala foi disfarçada por um suspiro. Eu senti aquele incômodo no estômago. Não eram as borboletas e sim aquela sensação ruim de quando você se sente nervosa ou ansiosa por algo.
  — Qual a probabilidade das folhas da árvore da calçada da minha casa não ficarem laranjas e caírem? — ele começou a pergunta olhando para as árvores do outro lado da rua e terminou me encarando. — Eu acho muito feio.
  — Bom, acredito que seja de um por cento, no máximo. — Soltei um riso extremamente nervoso. Puta merda. Respirei fundo e tentei me acalmar, eu estava lembrando de quando ele apareceu na minha sala e aquilo não estava ajudando — Laranja é uma das cores do seu time, você não deveria achar tão feio assim.
  — Mas as folhas são verdes e de repente ficam laranjas e marrons até caírem, isso não é legal. — Ele parecia extremamente focado na sua observação, gesticulava e trocava olhares entre mim e qualquer outro ponto de seu campo de visão.
  — Esse é o ciclo delas, é inevitável, — respondi, me sentindo um pouco mais firme. A sensação no estômago estava diminuindo.
  Ficamos em silêncio novamente. Será que não poderia continuar com suas aleatoriedades até conseguirmos engatar em algo concreto?
  Ele voltou a comer e então eu me peguei observando mais o lanche do que o próprio . Aquilo parecia bom de verdade.
  — O que você está comendo? — questionei, tentando abrir outro tópico de conversa. Falar sobre comida era sempre uma boa opção para mim.
  — Ele veio com três hambúrgueres, mas eu já comi um separado do lanche, — ele explicou, tenho certeza que a expressão de surpresa se manifestou no meu rosto, já que começou a rir.
  — Vocês comem, hein?
  — Eu ‘tô sentindo fome desde ontem. — disse, me fazendo rir. — Quer? — ele ofereceu, empurrando o prato em minha direção.
  — Parece bom. — Peguei o lanche e olhei bem para todo aquele queijo. Jesus. Eu ainda não tinha certeza se ia mesmo querer um daquele, mas depois que mordi, resolvi que a melhor coisa que eu poderia fazer era pedir aquele lanche.
  — Quer que eu peça um para você? — ele me perguntou e eu estranhei tamanho cavalheirismo.
  — Sim, por favor.
  Não importava ser um pouco folgada, certo? De qualquer forma, ele havia oferecido. se levantou e foi para o lado de dentro do estabelecimento.
  Tirei o celular de dentro da bolsa pendurada na lateral da cadeira e aproveitei para responder Olivia, que estava me mandando mensagens um pouco antes que eu chegasse em Auburn.

Liv.
O Rob vai chegar só de noite. Vamos preparar uma surpresa e o Tyler vai ajudar.
Você vem?

  Era óbvio que eu iria. Olivia estava me tratando como se eu fosse a pior pessoa do mundo só porque eu não pude viajar com ela para comemorar o aniversário do Robert e também para assistir ao jogo, isso me deixava extremamente incomodada.

“Eu vou sim. É pra chegar que horas?”

   estava apoiado no balcão, provavelmente esperando pelo lanche. Desde o primeiro minuto que ele deixou a mesa onde estávamos, eu pude respirar um pouco mais aliviada. Nós estávamos conseguindo engatar em algo, mas era fácil perder a calma. , que até então era o jogador de Auburn que odiava meu irmão e todos os meus amigos do time, havia se tornado uma companhia que naquele dia estava se mostrando um pouco gentil e que tirava sua atenção com aquele sorriso tão bonito e o corpo atlético, principalmente pelos braços fortes que ficavam bem à mostra quando a manga da camisa subia um pouco. Eu, definitivamente, não sabia o que estava fazendo da minha vida.
  De longe, vi que uma garçonete trouxe dois copos com gelo e duas latas de refrigerante em sua bandeja. Ela deixou as coisas em cima do mesmo balcão em que estava apoiado e entrou no ambiente que eu deduzi ser a cozinha. se virou, me encarando, eu desviei o olhar, mas voltei a manter contato visual quando percebi que ele caminhava de volta para onde estávamos. carregava os dois copos com refrigerante, mas meu lanche ainda não havia chegado.
  — Eles são lentos quanto aqui ‘tá vazio, — explicou, sentando-se no lugar em que estava antes. — A mulher simplesmente deixou as coisas ali em cima e desapareceu.
  — Eu percebi, — respondi, tomando um gole do refrigerante em seguida. — Mas não tem problema.
  — Não tem problema porque não é você que está com fome, — retrucou e eu quase cuspi o refrigerante nele.
  — Você ainda está com fome? — questionei, totalmente indignada.
  — Você acha que eu me mantenho como com quase dois metros e 120 quilos? — rebateu.
  — O Tyler não come tanto assim, — eu respondi, mas percebi que a comparação não fazia sentido algum.
  — , se seu irmão pesar uns cem quilos é muito. — Ele riu. — Quanto ele tem de altura?
  — Deve ter um e oitenta e cinco, eu acho, — disse e percebi que a garçonete vinha com lanches em cima da bandeja.
  Ela colocou os dois pratos em cima da mesa e se retirou em seguida. A melhor parte daquele “encontro” estava sendo a comida, com certeza.
  Estávamos comendo em silêncio, mas não era desconfortável como aconteceu logo que eu cheguei.
  Meu celular vibrou, eu não estava distraída conversando com , então resolvi dar atenção ao aparelho, eu precisava responder Olivia, se não o fizesse ela ficaria ainda mais irritada comigo e ficar naquele clima com sua melhor amiga e meio cunhada não era legal.

Liv.
Às sete, pode ser?
Rob chega às oito.

“Na sua casa, né?”

  Levando em consideração que eu estava em Auburn e não na minha casa, eu já estava atrasada para a festa surpresa de Robert.
  — Você não vai querer conversar sobre aquilo?
  — Aquilo o quê? — ele perguntou com as sobrancelhas franzidas.
  — Ué, me diga você, eu vim aqui por algum motivo.
  — É um pouco complicado, , — disse, batendo a ponta dos dedos na mesa. — Eu só queria uma companhia que não fosse babaca como as de geralmente, — ele completou sem fazer contato visual algum, seu olhar estava perdido.
  — Mas se eu vim para conversar talvez eu possa ajudar, — sugeri, abrindo um pequeno sorriso. — Ou eu posso quebrar o clima e falar que você é idiota, joga em Auburn e vou embora. — Rimos.
  — Você tem problemas familiares? — ele questionou, olhando-me nos olhos. Então esse era o ponto.
  — Até agora nada de grave, mas tudo é possível, — respondi e percebi travar o maxilar, ele mordeu o lábio inferior e respirou fundo. — Está com problemas em casa?
  — É mais ou menos isso. — Ao mesmo tempo em que ele falava, ficava também estalando os dedos. estava inquieto. — Mas é como eu te disse, eu só queria companhia. — Ele suspirou, recostando-se na cadeira.
  — Tem certeza?
   assentiu positivamente e ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu estava me sentindo mal por ter que ir embora, ao mesmo tempo que era perceptível o fato de que ele realmente queria alguém para conversar, eu ainda estava com um pé atrás, afinal, era o .
  — Você tem que ir embora que horas? — ele quebrou o silêncio.
  — Eu já deveria ter ido, — disse assim que chequei as horas no relógio em meu pulso. Eu estava tão atrasada, Olivia iria me matar.
  — Não vai ficar para jantar comigo? — questionou, me fazendo rir.
  — Eu vou explodir se comer mais alguma coisa.
  — Então acho que eu também já devo ir embora, — respondeu. não parecia estar muito disposto a voltar para qualquer lugar que fosse, eu talvez deveria ficar ali e fazer um pouco mais de companhia, mas mesmo se eu quisesse muito ficar não poderia. O que só me fazia lembrar o quão atrasada eu estava.
  — Bom então... vamos?
   assentiu positivamente e então nos levantamos das cadeiras, eu peguei minha bolsa e deixei ir na minha frente para me guiar até o caixa. Enquanto caminhava até o lado de dentro de estabelecimento eu tinha a sensação de que as pessoas me encaravam como se soubessem que eu era a irmã do Tyler Cooper e estava lá com o cara de Auburn. Paranóias de Cooper. Mas talvez isso estivesse acontecendo porque a confusão estaria feita se Tyler, Robert e Olivia soubessem daquilo.
  Nós entregamos nossas comandas para a mulher no caixa e ela rapidamente somou o quanto deveríamos pagar. Abri a bolsa para pegar a carteira e senti segurar o meu braço.
  — Você veio de Birmingham, pode deixar que eu pago, — ele disse, entregando o dinheiro para a mulher.
  — Não precisa, , eu vim porque quis.
  Eu puxei a carteira para pagar minha parte, mas então a mulher devolveu o trocou para e não havia mais o que ser pago.
  — , você não tinha que pagar o meu, — reclamei enquanto saíamos da lanchonete.
  — Agora já está pago, .
  Foi uma gentileza, afinal, eu havia gastado combustível para sair da minha casa para ir até Auburn, mas eu já fui preparada para gastar com comida e digamos que para mim não era incomodo algum gastar dinheiro para comer.
  — Obrigada por ter vindo, — disse assim que saímos e paramos na calçada em frente a lanchonete. — Eu achei que você fosse me deixar aqui por causa da semana passada.
  — Eu não sei se as provocações do estacionamento foram piores do que você no meu trabalho, mas até que hoje não foi ruim. — Sorri.
  — Acho que devo ficar contente com isso. — Ele devolveu o sorriso, colocando as mãos nos bolsos da sua calça. — Tome cuidado na estrada.
  — Eu vou tomar, com certeza.
  E o que acontecia depois daquilo? e eu ficamos nos olhando por algum tempo, sem dizer nada. Que desconfortável.
  — Então eu vou indo, — disse e assentiu com a cabeça. Nos aproximamos e ele me beijou na bochecha, eu estava meio desajeitada. Mas ok, tudo sob controle.
  — Tchau, .
  — Tchau, .
   atravessou a rua e foi para a direção oposta a minha, eu queria ficar mais um pouco e conversar sobre o que passava na cabeça dele. me deixava tão desconfiada das coisas que ele dizia e fazia, mas ao mesmo tempo, isso causava uma curiosidade tão grande. Eu sempre achei ele um babaca, isso não tinha mudado, ainda era uma piada, mas ele estava se mostrando um pouco melhor.
  Eu não estava com vontade de ir para a festa de Robert, eu já ia chegar atrasada de qualquer forma, então era uma opção ficar dentro do carro, esperando que algum dos bares da rua abrisse. Mas isso seria ridículo da minha parte, eu precisava estar lá.

xxx

Tyler.
Eu estou enrolando faz meia hora com o Robert.
Onde você está?

“Eu estou saindo de casa agora”
“Não precisa me esperar para a surpresa”

  Eu já tinha passado da metade do caminho, o que equivalia a distância de Birmingham até Tuscaloosa e não aguentava mais dirigir, meus olhos estavam pesando e eu cogitava parar o carro em algum lugar e dormir.

Tyler.
Que merda, .
  Mexer no celular enquanto dirigia não era uma das minhas coisas favoritas, principalmente se fosse para responder meu irmão sendo chato, então simplesmente ignorei.

  Quando finalmente cheguei na casa de Olivia, me deparei com todos eles para o lado de fora, no terraço. Estacionei o carro do outro lado da rua e assim que sai do automóvel, notei que eles me olharam com um pouco de… indignação, talvez. Pelo menos Olivia e Robert não pareciam estar felizes, as outras pessoas talvez só não tivessem entendendo o porquê alguém chega atrasado para uma festa surpresa, mas nada demais. Aproximei-me, tentando não transparecer o quanto eu estava cansada e precisando ir para a minha casa.
  — Meu Deus, eu achei que você tinha morrido, — Tyler disse, mas ele não parecia preocupado, só exagerado, como sempre.
  — Não precisava nem ter vindo. — Ouvi Olivia murmurar, dando um gole na cerveja em seguida.
  — Não seja por isso, Liv, eu posso ir embora agora. — rebati, fazendo-a me olhar com uma das sobrancelhas arqueadas. — Eu estou mesmo precisando dormir.

Capítulo 06

’s POV.

  — Não precisava nem ter vindo. — Ouvi Olivia murmurrar, dando um gole na cerveja em seguida.
  — Não seja por isso, Liv, eu posso ir embora agora, — rebati, fazendo-a me olhar com uma das sobrancelhas arqueadas. — Eu estou mesmo precisando dormir.
  — É sério que vocês vão querer brigar justo hoje? — Robert questionou.
  Olivia ficou calada, me olhando com indiferença. Nenhuma palavra saía da boca de Tyler, David e Henry, eu sabia que eles queriam dizer algo, afinal, eram os amigos mais próximos de Robert e Olivia, mas não o fizeram. Tyler apenas me olhava com cara de quem queria dizer “conversamos mais tarde”. Robert estava com a feição péssima. Eu estava sentindo meu estômago embrulhar com toda aquela situação. De tarde, eu estava com , o cara que odiava meu irmão, e então me atrasei para o aniversário do Rob justamente porque estava com , que também era odiado e odiava o Robert.
  Eu quebrei a cara achando que o clima não podia piorar. Robert, percebendo que ninguém estava fazendo algo para melhorar aquilo, balançou a cabeça negativamente e se levantou, voltando para a casa. Mexa-se, . Era como se eu tivesse criado raízes ali. Eu queria ir, precisava ir atrás do Robert, mas eu não estava confiante. Então Olivia se levantou, e assim como em uma competição, eu senti a necessidade de ser mais rápida do que ela.
  — Pode deixar que eu vou, — disse, segurando em seu pulso. Olivia virou-se para mim e me olhou de um jeito que talvez fosse melhor eu ficar quieta na minha. — Eu acho que tenho assuntos pendentes com o Rob.
  — Eu sou a irmã dele, vamos conversar e eu vou trazer ele de volta. — Olivia soltou seu pulso que ainda estava envolto pelos meus dedos e continuou a caminhar em direção a casa.
  — Por que não vão as duas? — Henry sugeriu, Tyler e David balançaram a cabeça positivamente, concordando com a sugestão do amigo, mas não disseram nada.
  Olivia e eu nos entreolhamos e continuamos andando, a sugestão de Henry serviu de algo, eu só não tinha certeza se daria muito certo. Liv abriu a porta e passou direto, fazendo com que ela quase voltasse na minha cara. Loki veio correndo em minha direção, se espreguiçando na minha perna. O cachorro da família Cornwell era branco com algumas manchinhas pretas, ele não tinha uma raça, mas quem liga pra isso? Ele era engraçado, porque tinha as patas curtas como as de um corgi e às vezes se atrapalhava para pular ou descer de lugares. Abaixei-me para brincar com Loki e vi que Olivia já começava a subir a escada. Nós duas no quarto? Não ia dar certo.
  — Liv! — chamei, fazendo-a parar no segundo degrau. — Posso ir, por favor? — pedi enquanto Loki pulava, implorando por atenção.
  — Eu não quero que isso aconteça, mas se eu falar que não, você vai do mesmo jeito. — Olivia desceu os degraus, mas me olhava de um jeito indiferente. — Não seja idiota com ele.
  — Você ficou louca? — questionei, olhando-a com o cenho franzido. — Por que você acha que eu vou subir para bancar a idiota? Se fosse pra fazer isso, eu teria ficado lá fora.
  — Eu não vou falar nada, . — Olivia se jogou no sofá, cruzando os braços. — Se acerte com ele.
  — É isso que eu vou fazer.
  Eu estava decidida a colocar um ponto final naquele clima horrível, e faria isso com Olivia também. Nós quatro — Tyler, Robert, Liv e eu — sempre estivemos juntos, não era porque eu decidi não viajar e porque cheguei atrasada que isso ia mudar. Porém, Olivia não colaborava, eu nunca havia visto ela tão estressada, qualquer coisa que eu dizia parecia ofensivo e eu realmente gostaria de entender o porquê.
  Subi as escadas com a esperança de que o barulho do meu sapato em contato com a madeira dos degraus não fizesse Robert perceber que eu estava indo e então trancar a porta para mim. Fui até o final do corredor, onde seu quarto ficava de frente para o da Olivia. No corredor, havia diversos porta-retratos pendurados na parede, eu tinha a sensação de saber onde cada foto estava, como se durante aqueles quatro anos nada tivesse mudado.
  A porta do quarto estava aberta. Robert, sentado de costas para mim, não notou que eu estava bem ali. ​Bati na madeira, fazendo-o se virar para ver quem estava lá. Robert não esboçou nenhuma reação. Nenhuma. Aquilo me deixava preocupada. Ele apenas me olhou por alguns segundos e voltou a sua posição original. Eu estava me sentindo um pouco... rejeitada, talvez.
  — Posso entrar?
  — Uhum. — ele murmurou ainda olhando pela janela.
  Eu estava visivelmente perdida. Não sabia por onde começar, muito menos o que dizer. Parei ao seu lado e o encarei, Robert não devolveu o olhar. Qual é, o que eu tinha feito de tão errado?
  — O que está acontecendo com a gente? — questionei, observando o lado de fora assim como Robert fazia. Não havia nada de interessante, só a lateral da casa do seu vizinho.
  — Com a gente você quer dizer eu e você ou a Olivia também está incluída nisso? — rebateu, virando o rosto em minha direção. Ele estava sério.
  — A Olivia com certeza está incluída nisso, — dei ênfase a frase, mesmo que a ideia inicial fosse conversar sobre nós dois e nosso relacionamento. — Mas eu vim aqui para conversar com você.
  — Eu, sinceramente, não sei o que dizer. — Ele me deu as costas, caminhou até sua cama e sentou-se no colchão com a feição emburrada como a de uma criança. Eu odiava quando ele fazia isso.
  — Você sabe sim, deixa de ser infantil, por favor. — Rolei os olhos. — Tem algo incomodando você, Cornwell, é só falar. — Tentei incentivar, mas em resposta recebi uma risadinha um pouco debochada e uma chacoalhada de cabeça.
  — Você sabe que não é tão fácil expor tudo que te incomoda, não é? — ele questionou, jogando seu corpo no colchão.
  — A partir do momento em que sua irmã age como se eu fosse a causadora de todos os problemas de vocês, eu tenho o direito de saber o que está acontecendo, sendo ou não fácil de falar, — disse, me apoiando na parede atrás de mim. Aquilo havia soado um pouco ríspido, mas eu também estava cansada da hostilidade.
  — Com quem você anda saindo? — Robert questionou, me deixando sem entender o motivo daquilo.
  — O que isso tem a ver? — rebati.
  — O que tem a ver é que, seja lá quem for essa pessoa, está fazendo você abandonar seus amigos e mudar seu jeito. — ele disse de uma maneira tão dramática que já podiam trazer um prêmio de melhor atleta dramático para ele.
  — Você é meu pai ou o quê? — comecei a rir. — Me desculpa, mas isso não tem sentido nenhum, sério, eu saio com quem eu quero e não sou obrigada a ficar só com vocês, — finalizei.
  Robert não estava nada contente com aquela resposta, mas que se dane, eu só disse a verdade e não tinha que aturar aquele tipo de coisa. Ele ficou calado, encarando o chão, para então se deitar no colchão e ficar olhando para o teto.
  — Robert, se você falasse algo concreto ao invés de fazer suposições já ajudaria, — eu insisti, mas ele não parecia muito favorável àquilo.
  — Eu preciso que você entenda que as coisas não são fáceis e que quando você fica distante é pior ainda, — ele soltou, sentando-se na cama.
  — Você está falando sobre o quê? — questionei, sentando-me ao seu lado.
  — Eu estou lesionado com o risco de perder alguns jogos da minha última temporada, — contou, me deixando absolutamente confusa. — Você acha mesmo que eu estou conseguindo ficar tranquilo com as coisas? Tudo me estressa.
  — Lesionado? — questionei ainda indignada com aquilo.
  — Levei um tiro no joelho enquanto jogava paintball, — explicou. — Não estou conseguindo jogar direito e tive que inventar uma história absurda sobre crianças terem me atingindo com essa merda na rua, Olivia está me ajudando com o tratamento em casa, mas eles querem me cortar por alguns jogos.
  — Robert, qual é o seu problema? — deixei toda indignação sair em minha voz. — Eles já te levaram para fazer exames ou algo do tipo?
  — É óbvio que sim. — atropelando Robert, uma voz feminina soou, olhei para trás e dei de cara com Olivia entrando no quarto. — É por isso que querem cortar ele.
  — Puta merda, onde é que você estava com a cabeça? — questionei, me levantando da cama. — Quando foi isso?
  — Semana passada, — responderam praticamente juntos. — A gente teria te contado se... — Olivia continuou, mas eu não estava disposta a mais drama.
  — Se eu não estivesse ausente e blá, blá, blá, — a cortei. Era falta de educação fazer isso, mas naquele momento era necessário. — Eu quero matar você, mas acho que isso nos deixa um pouco quites, — disse, olhando para Rob. Ele riu.
  — É, acho que sim, — confirmou, olhando para Olivia que ainda não parecia ter encontrado seu lugar ali.
  — Eu ia te contar isso no jogo, mas você não teve como ir e eu estava sufocada de não poder falar a verdade pra ninguém. — Olivia começou, sentando-se ao lado de Rob. — E só estamos falando sobre isso agora, porque nossos pais também não estão aqui, eles nem sabem que Robert se machucou. — Aquela história parecia cada vez mais absurda, e dava pra notar em suas feições que ambos sabiam a bola de neve que estava se formando.
  — Vocês estão muito ferrados, — eu disse, mordendo um pedaço da minha unha. Aquela situação havia me deixado nervosa.
  — Ferrados e chateados porque você sumiu, — Liv completou.
  — Eu não sumi.
  — É claro que sumiu. — Eu odiava essa mania deles falarem juntos, especialmente porque agora eram os dois me dizendo o contrário do que eu achava.
  — Okay, eu posso ter me ausentado um pouco, mas isso não era motivo para ficar como vocês ficaram, — me defendi. — Eu entendo como a cabeça de vocês deve estar com toda situação, mas eu realmente não tenho culpa.
  — Eu queria pedir desculpas por isso, às vezes eu acabo descontando meus problemas pessoais em quem não tem nada a ver com eles, — Liv disse, suspirando longamente em seguida.
  — Eu também tenho que me desculpar por ter me tornado um pouco babaca com vocês. — Ri, indo para perto dos dois novamente. — É meu último ano, a faculdade e o trabalho me consomem muito.
  — Como eu não tenho nada para me desculpar além por ter tomado um tiro no joelho, — ele fez uma pausa, nos fazendo rir. Eu estava rindo naquele momento, mas ainda ia conversar bem sobre aquele assunto com ele. — Acho que deveríamos dar um abraço em grupo, — Rob sugeriu.
  Senti que estava tudo bem quando nós três realmente nos abraçamos e eu não pensava mais no quanto Olivia havia sido cretina comigo e também em como eu tinha culpa naquilo. O importante era que no final tudo se acertasse.

xxx
's POV.

  Cheguei em casa relativamente rápido, acreditava que ainda nem teria entrado na estrada, mas me preocupei em enviar mensagens para ela. O caminho de Auburn até Birmingham era longo e já estava ficando tarde.
  Usei minha chave para abrir a porta, esperava entrar e encontrar a casa totalmente diferente de como ela realmente estava. Quando minha mãe ficava realmente mal como aparentava estar, ela não levantava da cama para fazer nada, mas a casa parecia ter sido limpa há poucas horas e eu também sentia cheiro de comida. Talvez minha irmã tivesse feito tudo, já que ela veio passar a tarde conosco. Eu tive que recorrer a ela, porque nunca deixaria nossa mãe sozinha naquela situação, mas também estava ficando insuportável para mim ficar só dentro de casa. O clima era muito pesado e eu tinha a sensação de estar ficando como ela. Não era certo deixá-la sozinha, eu jamais faria isso para simplesmente sair e me divertir, mas ficar em casa o tempo todo me trazia lembranças que também me deixavam totalmente pra baixo.
  — ? — ouvi a voz da minha mãe chamar, provavelmente pelo barulho da porta.
  — Oi, mãe, — respondi, indo para a cozinha. O cheiro estava ótimo. — Está sozinha? — questionei assim que a encontrei só no cômodo.
  — Sua irmã não pode ficar pro jantar. — Ela sorriu, mexendo em algo na panela — Você saiu com quem?
  — Com uma amiga, — respondi simples e fui até ela, a abraçando. — Você está bem?
  — Estou, meu bem. — Certo, ela parecia realmente bem. Estava estampado na sua cara.
  — Precisa de ajuda?
  — Não, já estou quase terminando o jantar, — avisou. — Mas a louça é por sua conta.
  — Pode deixar.
  Sentei em uma das cadeiras ao redor da mesa. Ali costumava ter quatro pessoas, mas então meu pai decidiu que ele seria um babaca e trocaria minha mãe por uma menina da minha idade. Minha irmã se casou e também foi embora, eu sentia falta dela, dele não.
  — Eu arrumei um emprego, — ela anunciou, colocando dois pratos em cima da mesa.
  — É sério? — A olhei com animação, eu estava feliz por ela. — Isso é ótimo! — Levantei para abraçá-la novamente.
  — Eu vou trabalhar naquela loja nova de vestidos de noiva, — contou. — O salário não é grandes coisas, mas o trabalho é bom. — Sorriu, suspirando em seguida.
  — Eu também estou tentando, mãe. — A animação em minha voz havia acabado. — Mas é difícil conciliar os horários.
  — Não se preocupe tanto, ainda temos mais um mês para você procurar. — Ela passou a mão na minha cabeça.
  Em silêncio, colocamos as travessas com comida em cima da mesa e nos sentamos para comer.
  — Sua amiga é da universidade? — ela questionou enquanto se servia, me olhando com uma das sobrancelhas arqueadas.
  — Não, ela mora em Birmingham, — respondi, puxando o celular do bolso para ver se havia alguma notificação de . Nada. — Você iria gostar dela, ela é bonita e legal. — Sorri.
  — Talvez você possa trazer ela aqui algum dia. — disse, sorrindo também. — Você parece contente.
  — Talvez um dia, mãe, — respondi, pensando em Tyler Cooper me esmurrando. — E eu estou, — confirmei enquanto me decidia se ia comer pelo menos um pouco ou não.
  Naquele momento, as coisas pareciam estar em ordem. Era ótimo ver minha mãe daquela forma, dialogando e interessada nas coisas. Eu só esperava que as coisas permanecessem daquela forma por mais um tempo.

xxx
’s POV.

  Eu detestava beber no domingo à noite. O arrependimento sempre chegava na segunda-feira quando meu celular despertava. Minha cabeça doía muito e meu corpo estava pior ainda. Sem condições de dirigir, pedi para que Tyler me trouxesse de volta, ele estava bem melhor do que eu. O meu problema era que algumas poucas cervejas já me deixavam mal e mesmo assim eu insistia em beber mais do que podia.
  Eu precisava de um banho, uma escova no cabelo e uma boa maquiagem. Pela primeira vez naquele ano, eu não estava atrasada em uma manhã de ressaca. Apesar de estar com uma enxaqueca horrível, a noite passada compensava isso. A comemoração do aniversário do Robert havia sido ótima, principalmente porque David e Henry estavam lá. Depois do Tyler e do Rob, eles eram minhas pessoas favoritas naquele time.
  Refletir sobre o dia anterior enquanto quase entrava em estado de transe no banho me fez lembrar de . Àquela hora ele provavelmente já deveria ter ficado chateado comigo de mil modos diferentes. A coisa foi que, até um pouco antes de chegar na casa dos Cornwell ele havia me mandado uma mensagem perguntando se estava tudo bem, mas eu realmente não retornei porque estava dirigindo, e então quando eu cheguei, tive que me acertar com Olivia e Robert, o que me deixou mais tempo ainda sem ter contato com . E depois disso eu só conseguia focar em ficar com eles, comemorando o aniversário de uma pessoa realmente especial. Tiramos algumas fotos e eu sabia que deveria responder , mas eu não tinha uma brecha para fazer aquilo. Não era como se eu estivesse falando com uma pessoa normal para eles, era o , idiota de Auburn. Tyler, David e Henry o detestavam, mas com Robert era um pouco para mais. Rob sempre estava com raiva dele porque o papel principal do era marcar o quarterback e suas jogadas curtas. Até pouco tempo atrás eu também estava nesse nível de ódio em relação ao , mas isso era causado por coisas que aconteciam dentro dos campos e das universidades. Eu não sabia nada sobre sua vida fora daquilo, e quando comecei a conhecer, passei a aturar o cara que eu só me referia como o "linebacker babaca de Auburn". Mas isso não aconteceria com Tyler e Robert, a rivalidade era bem mais importante para eles do que conhecer a pessoa fora daquilo.
  Sai do chuveiro e decidi que talvez pudesse ligar para antes de ir para o trabalho. Ele provavelmente estaria acordado, mas não tinha certeza se o encontraria, existia a probabilidade dele já ter ido para o treino. De qualquer forma, fui tentar.


Dirija com cuidado e não atropele ninguém de Auburn
Várias coisas podem te fazer bater o carro, então me avisa quando estiver na sua casa
, você já chegou??
??????
Deveria me preocupar?
Droga
Você está bem??
É claro que está.
Puta merda eu tava morrendo de preocupação e você 'tá de boa bebendo cerveja com seus amigos.
Eu sou muito trouxa.

  Que situação, . Que situação. Eu não havia recebido as notificações das últimas mensagens na noite passada, mas de qualquer forma, eu estava me sentindo muito mal com aquilo. Não custava ter avisado que estava tudo ok, custava? O pior era que depois da quarta mensagem, eu parei de receber qualquer coisa em meu celular. Foi quando eu postei a foto do aniversário e então coloquei o celular em modo avião para economizar bateria.
  Fiquei alguns minutos sem saber o que responder para , até que acabei digitando algumas palavras para tentar descobrir o quão puto ele estava comigo.

"Hey, bom dia"
"Foi mal não te responder ontem"
"Eu tive que ir para a casa do Robert, era aniversário dele"
"E meu celular ficou sem bateria"
"Como você está?"

  Sinceramente, eu estava torcendo para que demorasse para responder. Eu também estaria puta comigo se fosse ele.

xxx

  — Eu vou para a Filadélfia com vocês? — Jess perguntou animada.
  — É claro que vai, — respondi, puxando um rolo de tecido. — Você pode cortar três metros desse aqui, por favor? — pedi para a funcionária que sempre nos atendia. Se eles ganhassem comissão pelas comandas levadas ao caixa, Ann com certeza estaria ganhando mais do que os outros.
  — Esses tecidos já são pra coleção da loja? — Jess questionou e eu assenti com a cabeça enquanto caminhava para outro corredor.
  — Ai que saco. — Bufei.
  — O que foi? — Jess me olhou sem entender nada.
  — Eu idealizei um tecido, mas agora não consigo encontrar ele, — resmunguei, desistindo daquilo. Talvez fosse melhor mudar.
  — , você já foi procurar na loja de Montgomery? — Ann entrou no assunto. — Acho que lá você encontra mais coisas.
  — Eu estava tentando pegar tudo por aqui, mas vou pensar no que fazer, — disse, dando uma última olhada nos tecidos. — É só isso, Ann.
  — Vou preparar sua comanda, — avisou, saindo com os panos em mãos.
  Quando estávamos indo para o caixa, senti o celular vibrar no bolso da calça. Peguei o aparelho e vi que havia me respondido.


Não custava ter me respondido.
Mas você estava ocupada demais para isso.

”Ah, , eu sei que você está chateado, mas a única coisa que eu posso fazer é te pedir desculpas"
“Eu sei que vacilei ):”


“Okay"
"Eu estava realmente preocupado"
  — , você precisa pagar, — Jess disse, me fazendo tirar a atenção do celular.
  — Ah sim, desculpe, — pedi para a moça do caixa que me olhava com cara de tédio.

xxx

  — Vocês não vão ficar mais, gatinhas? — Luke questionou com a voz arrastada enquanto me segurava pela mão.
  Gatinha. Eu só conseguia ouvir a voz do falando aquilo.
  — Você está bêbado, Luke, — respondi, olhando para Zoe que também não estava das melhores. — Deixa só o treinador ficar sabendo disso.
  — Ele não vai saber se ninguém contar. — Luke riu, me puxando pela cintura. Recuei, empurrando-o. — Qual é seu problema comigo?
  — O meu problema é que você já quase vomitou em mim hoje e eu estou com nojo, — respondi, fazendo Zoe rir.
  — Essa foi boa, — ela disse. Luke nos entreolhava com o cenho franzido.
  — Eu sou mais maneiro do que os outros caras, — ele "argumentou". — E se quer saber...
  — Não, Luke, obrigada, — o cortei antes que ele voltasse a falar outras porcarias. — Estamos indo, cuidado pra não ter uma overdose.
  Sai puxando Zoe pela mão, deixando Luke para trás. Em cada festa ele tentava ficar com uma pessoa diferente, pelo visto minha vez havia chegado. Luke era tão bom jogador, mas tão babaca que às vezes te dava desgosto.
  — O Eiffort é um otário, — Zoe comentou de repente, nos fazendo rir.
  — O prêmio de atleta mais babaca da universidade deveria ir para ele.
  — Estou super de acordo.
  Zoe continuou rindo, e não era pouco. Eu não poderia enfiar ela meio bêbada em um táxi sem peso algum na consciência, já estava planejando avisar para minha mãe que chegaria bem mais tarde porque a levaria em casa quando Cassidy resolveu me mandar uma mensagem dizendo que estava vindo buscá-la. Zoe e eu ficamos sentadas na calçada, uma apoiada na outra até sua prima chegar. Cassie fazia moda na mesma turma que nós, mas ela era bem mais careta e nunca participava das festas – só quando Zoe e eu a arrastávamos conosco. Pelo menos eu pude ir pra casa tranquila sabendo que Zoe estava bem.


?
  Merda
. Eu não tinha dado continuidade na nossa conversa de mais cedo e a última mensagem que ele havia me mandado foi algo tipo “então, como ficamos?". E eu não respondi. Ótimo, já deveria estar conformado com os foras que eu estava dando, e que aliás, não foram propositais.

"Eu estava na faculdade"
"Quer conversar?"


Amanhã.
Estou indo dormir.

  Eu tive vontade de perguntar o porquê ele havia me chamado novamente se ele estava indo dormir, mas me contive, afinal, eu também estava com sono e não manteria uma conversa.

Quero te convidar para uma coisa.
Mas amanhã eu falo.
"Se for pra comer aquele hambúrguer, eu topo haha"
"Você me deixou curiosa"
"Volta aqui"
"!!!"

  Então ele estava me dando o troco por ter deixado ele sem respostas o dia todo? Eu ia surtar, era terrível admitir que eu estava daquele jeito sendo que fiz a mesma coisa com ele. Talvez só quisesse me deixar assim e não tivesse convite nenhum, mas talvez ele me chamasse para comer e eu provavelmente aceitaria.
  Eu estava um pouquinho mais envolvida com e as coisas não poderiam passar desse ponto. Eu não podia deixar isso acontecer e esperava que ele colaborasse.

Capítulo 07 - Sobre rivalidade e empatia

’s POV.

  Eu não estaria me desgastando tanto se não fosse receber mais dinheiro por aquilo. Em três dias, aquela era a segunda vez que eu estava em Auburn, me sentia extremamente cansada por estar fazendo aquele caminho mais uma vez. Eu deveria ter aceitado a proposta de Charlotte e ir de táxi, já que ela iria pagar, mas preferi que ela me desse dinheiro para encher o tanque do carro e eu ir por conta própria.
  Conferi se o endereço que Charlotte havia escrito no papel era o mesmo em que eu estava e então procurei um lugar para estacionar. Por que todos os lugares vagos tinham que ser em frente à garagem de alguém? Caminhei até a casa de Amber recebendo infinitas mensagens de Jess perguntando se eu já havia chegado e me pedindo para não esquecer de fazer tudo que deveria ser feito.
  Respondi Jessie só para que ela ficasse ciente de que eu já estava lá e fui até a porta da casa. Toquei a campainha e não demorou muito para que Amber abrisse a porta.
  — Oi, ! — ela saudou, sorrindo. — Conseguiu encontrar fácil o endereço? — questinou, me dando espaço para entrar.
  — Sim, eu passei por aqui esses dias, não foi tão difícil, — expliquei. — Você já morava por aqui antes, não?
  — Morava — fechou a porta —, mas então eu me casei e nós viemos pra cá.
  — Entendi.
  A casa de Amber era extremamente bonita. Todos os cômodos estavam bem iluminados graças às cortinas abertas, o que fazia os móveis parecerem ainda mais claros do que eram já que sua grande maioria era marfim ou creme.
  Amber me guiou até sua sala, onde a televisão estava ligada, transmitindo um seriado de comédia. Eu não estava me sentindo confortável o suficiente para estar à vontade como Amber havia me dito para ficar. Ela foi até a cozinha para pegar algo para bebermos e então eu pude respirar aliviada, estava tensa com receio de que Amber me mandasse mudar tudo. Ela era uma das grandes responsáveis pelo editorial que abordaria o atêlie, a nova loja e nossa coleção.
  — Eu trouxe algumas fotos do que já está pronto e os croquis do que ainda não saiu do papel, — expliquei, pegando um copo da bandeja. — Obrigada. — sorri.
  — Eu já encontrei alguns modelos. — colocou a bandeja em cima da mesa de centro — Mas ainda precisamos fazer vários ajustes. — suspirou, sentando-se em uma poltrona ao lado da minha — Você é irmã do Tyler Cooper, não é? — questionou.
  — Sou sim, — respondi enquanto tirava as coisas da pasta.
  — Se ele não fosse tão baixinho e não tivesse porte atlético seria um ótimo modelo. — Riu.
  — Ele é bem fotogênico. — comentei, bebendo um pouco do suco em seguida.
  — Se algum dia eu precisar de atletas para um editorial, eu vou querer o contato dele. — Piscou.

xxx

  Eu estava com fome. Na verdade, eu sempre estava com fome, mas já havia passado da uma da tarde e eu não tinha feito meu lanche. Estava em uma lanchonete na beira da rodovia de volta para Birmingham, conversando com Zoe sobre Jake White, tight end do time da nossa universidade, e sobre como ela estava totalmente em uma relação de amor e ódio com ele. Então resolveu aparecer. Eu ainda não tinha o chamado depois que ele resolveu sumir após me deixar curiosa.
  — Resolveu me dizer qual era o convite? — questionei assim que atendi o telefone.
  — Você é bem direta. — riu — Onde você está?
  — Voltando para Birmingham, — expliquei — Eu sai de Auburn tem uns trinta minutos.
  — Isso é sério? — ele perguntou, seu tom de voz denunciava um pouco de indignação. — Por que não me avisou?
  — Porque eu estava trabalhando, — disse, sorrindo como forma de agradecimento para a garçonete que havia colocado meu lanche em cima da mesa. — Você por acaso pretendia me apresentar para os inimigos?
  — Que inimigos? — questionou com o tom de voz de quem estava realmente confuso.
  — Os tigrezinhos nojentos, — falei, dando uma mordida no meu lanche.
  — Assim você me ofende, gatinha, — respondeu e soltou uma risada irônica.
  — Eu acho melhor você falar logo qual é seu convite irresistível. — Eu estava falando com a boca cheia, aquilo era horrível, mas seria pior ainda se meu lanche ficasse frio.
   começou a falar, mas eu não consegui ouvir sobre o que se tratava, porque três caminhões passaram fazendo muito barulho e buzinando um para o outro. Qual era o problema deles?
  — Eu não ouvi, , — avisei, o cortando enquanto ele falava algo sobre horários.
  — Esse não é um bom jeito de enrolar, . — Riu.
  — Eu realmente não escutei, — dei ênfase ao “realmente” e voltei a mastigar meu lanche.
  — Eu estava te convidando para o jogo de sábado, — disse, quase me fazendo engasgar com a comida — Vai ser aqui em Auburn, — completou. Ele parecia falar sério, mas para mim soava mais como uma pegadinha.
  — Você ‘tá me zoando? — perguntei, me levantando para ir embora.
  — Não, inclusive eu ia te apresentar para os meus amigos. — sua voz estava carregada de ironia — Essa parte é zoeira, mas se você aceitar eu prometo sacar o quarterback de três jeitos diferentes para você ver, — ele disse, me fazendo rir.
  — Você já conseguiu fazer isso pelo menos nos treinos? — Apoiei o celular entre a orelha e o ombro para pegar o dinheiro em minha bolsa. riu com a pergunta.
  — É, não. — respondeu meio sem jeito — Mas você seria um bom incentivo.
  — Eu imaginei que não. — Ri, guardando minha carteira de volta na bolsa — Mas talvez você possa fazer isso acontecer.

xxx

  Eu estava sentindo minha cabeça latejar de tanto sono. A última aula do dia tinha acabado há duas horas, mas ainda estávamos na universidade. A campanha ia muito mal e nós tentávamos desesperadamente melhorar isso. Geralmente nossa fraternidade não fracassava com arrecadações.
  — Agora que a temporada começou talvez a gente consiga mais coisas, — Deb disse, suspirando em seguida.
  — Acho que a gente pode tentar receber no final das partidas, — Cassie completou.
  — Mas temos que divulgar antes para as pessoas trazerem. — eu intervim — Talvez o problema seja a falta de divulgação.
  — Mas a universidade sabe que fazemos a arrecadação todo ano, — Zoe rebateu.
  — Talvez as pessoas não estejam sendo tão solidárias. — Ash bufou, estávamos todas descontentes por igual.
  — É por isso que fizemos mais flyers, não é? — Deb balançou a sacola em sua mão cheia de papéis. — Acho que vai dar certo. — ela sorriu, tentando parecer um pouco mais positiva.
  — Espero que sim. — Cassidy suspirou — Já posso ir embora?
  — Já, Cassie — Ash respondeu —, terminamos por hoje.
  — Eu vou com você, — disse, me levantando do chão. — Vou pedir para a minha mãe deixar alguns no trabalho dela. — expliquei enquanto pegava alguns flyers na sacola.
  Cassie e eu nos despedimos das meninas e saímos da casa acompanhadas por Zoe, que acabou desviando o caminho para encontrar com Jake na casa dos crocodilos. “Casa dos crocodilos” era uma referência estranha, mas o que podíamos fazer se o nosso mascote era um crocodilo?
  O campus estava bem mais seguro depois que melhoraram a iluminação, as luzes não acabavam com o problema total de caras doentes que tentavam fazer algo com você a força mas diminuía um pouco o problema uma vez que era mais difícil de se esconderem.
  — Nos vemos amanhã? — Cassie perguntou assim que chegamos até o seu carro.
  — Com certeza, — respondi, a abraçando.
  A rua ainda estava um pouco movimentada quando nós saímos, no caminho até o carro escutei um “psiu”. Não tive reação alguma, não olhei para trás para saber se era comigo, continuei andando um pouco mais rápido em direção ao meu carro. Mas alguém resolveu me chamar pelo nome. Eu demorei um pouco até associar que conhecia o dono daquela voz. Virei-me para trás, procurando por ele. Talvez tivesse o enxergado a uns dez metros de distância, encostado em um carro preto. Fiquei o encarando por alguns segundos até ele acenar e me deixar com mais certeza de que era quem eu estava pensando que era. Comecei a rir, aquela cena parecia muito com a do dia em que nós nos conhecemos, mas provavelmente não seria tão horrível como foi na primeira vez.
   estava bem ali, na saída da minha faculdade. Eu realmente não sabia o que esperar daquilo.
  — O que você está fazendo aqui? — perguntei assim que fiquei bem de frente para ele. estava sempre tão bonito, eu tinha vontade de chorar com isso.
  — Eu posso ir embora se você quiser, — ele respondeu, cruzando os braços.
  — Não! — protestei — É que você não avisou nada, eu estranhei. — justifico, tentando identificar o que tinha dentro do pacote que ele tinha em mãos.
  — Posso ficar, então? — questionou com uma das sobrancelhas arqueadas.
  — É claro que pode, . — não tinha problema naquilo, certo? — O que você tem aí? — perguntei, me encostando no capô do carro ao lado dele.
  — Lanches, — respondeu, me olhando de rabo de olho. — Eles são do lugar que nós comemos no domingo. — completou.
  — Eu estou mesmo com fome. — Ri e puxei o saco da mão do , olhando para dentro dele em seguida. — Você trouxe batata frita também. — observei, sentindo minha boca salivar.
  — Quer entrar para comer? — perguntou, indicando o carro com a cabeça.
  — Uhum.
   me acompanhou até a porta do passageiro e a abriu para que eu pudesse entrar, depois que a fechou fez o mesmo do seu lado. Eu estava torcendo para que ninguém conhecido tivesse me visto com , ou que pelo menos não tivessem o reconhecido como alguém que não deveria estar comigo. sentou-se no banco do motorista e ficamos encarando a rua, sem dizer nada. Eu daria muito para saber o que passava por sua cabeça naquele momento, porque na minha tudo estava meio embaraçado. A verdade era que eu estava muito confusa em relação à . Alguns pontos não ligavam com outros e eu não conseguia entender certas coisas.
  — Você faz moda, não faz? — começou o diálogo, pegando a sacola com a comida que estava no meu colo. O cheiro do hambúrguer estava me deixando com mais fome ainda.
  — Faço, mas já estou no último ano, — respondi muito satisfeita com aquela frase, cheguei até abrir um sorriso ao dizer a parte “último ano”. — E você? O que faz na faculdade? — questionei, pegando a caixa que um dos lanches estava.
  — Ser o melhor linebacker não conta? — ele rebateu, me fazendo rir e rolar os olhos — O que você acha que eu curso?
  — Acho que você gosta de matemática. — eu respondi e então ele riu enquanto mordia seu lanche — O que foi?
  — De jeito nenhum, . Aliás, ninguém do time gosta, — explicou, me passando uma cestinha com batatas fritas.
  — Você está me engordando, — comentei, sorrindo para ele. — Então o que você faz?
  — Eu faço jornalismo. — respondeu. Eu fiquei um pouco surpresa com aquilo — E eu não acho que estou engordando você. — piscou.
  — Ok, eu nunca ia imaginar que você faz jornalismo.
  — É, mas eu não sou muito bom com isso. — rimos — No começo eu até gostava.
  — Foco no draft e você nunca mais vai precisar pensar em jornalismo.
   respirou fundo e apenas balançou a cabeça positivamente, não entendi o porquê da reação. Ele não tinha mais confiança em si mesmo? Se ele fosse um linebacker ruim eu até concordaria com aquilo, mas ele não era, nenhum pouco. estava longe de ser um jogador ruim.
  — Eu vou ser draftado antes que seu irmão, — disse, me olhando com uma das sobrancelhas arqueada.
  — Que piada engraçada. — comecei a rir enquanto me observava com a mesma feição — Você está falando sério? — questionei, totalmente indignada.
  — É claro que estou. — ele virou-se de lado no banco — A defesa é bem mais importante!
  — Você tem noção de quantos touchdowns Tyler marcou na temporada passada? — questionei enquanto sentia meu semblante mudar. Eu tinha certeza de que estava o olhando como quem queria dizer “qual é seu problema?”.
  — E sobre meus sacks? — rebateu, parecendo ofendido.
  — Você recebeu um prêmio por ser o melhor na sua posição? — o questionei e rolou os olhos — Eu acho que não.
   não respondeu e eu também resolvi não dizer mais nada, mesmo que estar vencendo aquela discussão estivesse me dando prazer. Ele e meu irmão tinham funções completamente diferentes, nem ao menos marcava Tyler nas partidas. Mas se ele insistia em discutir aquele ponto, eu possuía argumentos suficientes para mostrar que meu irmão era melhor.
  Continuamos comendo em silêncio enquanto observávamos o movimento em frente a universidade, nenhuma das meninas havia saído, talvez tivessem se juntado a Zoe na casa dos crocodilos.
  Eu estava com uma pergunta na ponta da língua havia uns bons minutos, mas estava com receio de ser invasiva demais, principalmente porque o clima havia pesado. Mas aquilo envolvia um pouco de sensibilidade, e de preocupação também.
  — Como estão as coisas na sua casa? — soltei, encarando , mas ele não me olhou de volta.
  — Estão indo — respondeu simples e eu percebi seu maxilar travar —, obrigada por perguntar. — ele me olhou e esboçou um sorriso fraco.
  — Você está precisando de alguma coisa? — questionei sem saber exatamente como ajudar. Eu nem ao menos sabia o que estava acontecendo totalmente.
  — Não, .
   parecia estar calmo, mas não levava mais de quinze segundos para perceber o quanto ele estava estressado. Uma boa observação te levaria a perceber que até os seus músculos pareciam mais rígidos do que antes, mas ele não queria falar sobre aquilo. Após alguns segundos de silêncio em que nós apenas nos olhamos, me envolveu em um abraço. Um abraço extremamente confortável. Nós parecíamos estar em sintonia naquele momento, mesmo calado parecia querer dizer alguma coisa e eu só queria entendê-lo.

Capítulo 08 - Lesões

’s POV

  Sábado. Dia do segundo jogo da temporada regular. Eu já estava em Tuscaloosa desde o dia anterior, dormindo na casa da Olivia. Robert e Tyler não tinham aparecido e eu tinha plena certeza de que só iríamos nos falar após o jogo.
  A casa dos Cornwell estava em completo silêncio quando decidi levantar da cama, eu sabia que Olivia já tinha ido para a universidade por conta do estágio, sempre que a temporada começava ela participava dos jogos como integrante da equipe médica da universidade. Talvez seus pais tivessem saído para levar Loki para um passeio, como sempre faziam nas manhãs de sábado, já que ele não estava mais no quarto, dormindo em sua caminha.
  Pela janela do quarto, conseguia ver que as pessoas já estavam indo para o estádio enquanto eu nem havia tirado meu pijama. Meus olhos estavam naqueles que passavam na rua, ​mas o meu pensamento estava em algo bem distante dali.
  300 quilômetros me separavam daquilo que eu não conseguia tirar da cabeça. Naquele momento, ele provavelmente estava se preparando para mais uma partida, assim como o Alabama fazia. Não tivemos muito contato após a noite que ele apareceu na minha universidade, eu me preocupava com ele, na verdade, me preocupava com qualquer um que estivesse com problemas, principalmente familiares. Mas não parecia à vontade para dividi-los comigo. Era claro que eu não o culpava por ser fechado dessa forma, afinal, despejar seus problemas mais íntimos em alguém que acabou de conhecer não é uma tarefa fácil, mas então por que me envolver nisso? Eu não tinha respostas para as minhas várias perguntas sobre e isso me deixava mais confusa do que o necessário.
  Procurei pelo meu celular para confirmar se as meninas viriam, mas não o encontrei. Talvez tivesse deixado na sala, quando decidi descer, escutei as vozes de Noah e Ava e achei melhor me trocar primeiro.

xxx

  — Mas não rolou nada depois que vocês foram pro dormitório dele? — Cassie perguntou tão surpresa quanto nós.
  — Por que vocês estão me olhando desse jeito? — Zoe rebateu com a voz um pouco mais aguda do que o necessário — Eu não estava no clima, okay? — se defendeu.
  — Você tem todo direito de não estar no clima — eu comecei, falando um pouco mais baixo para tentar fazer uma senhora na mesa ao lado parar de prestar atenção na nossa conversa sobre pessoas bebadas e sexo —, mas você sumiu a noite toda, Zoe! A gente achou que vocês estivessem fazendo coisas, — conclui, arrancando uma risadinha de Deb.
  — O Jake falou sobre o jogo a noite toda, — ela bufou, mexendo no canudo do seu suco — Eu acabei dormindo no meio de uma conversa sem nexo. — riu.
  — Bem vinda ao clube, — respondi, abraçando-a de lado. — Logo você se acostuma com o único assunto que eles conversam.
  — Que horrível, gente. — Ashley resmungou — Eu ia bater no meu namorado se ele só falasse de futebol. — rolou os olhos.
  — E falando em futebol — Cassie fez uma pausa, olhando para a tela de seu celular —, acho melhor irmos.
  Faltava um pouco menos de duas horas para o jogo começar, a lanchonete só estava com pessoas que provavelmente não iriam para o estádio, igual a senhorinha que nos julgava enquanto escutava nossa conversa.
  Eu estava tentando falar com Olivia para saber se estava tudo bem com os garotos do time, porém ela não retornou nenhuma das minhas mensagens. Ainda olhando minhas últimas conversas, fiquei um pouco em dúvida se deveria tentar fazer algum tipo de contato com , talvez desejá-lo boa sorte para que ele e não o seu time fizesse uma boa performance, mas achei melhor não. Desde a noite passada ele não tinha me respondido, então talvez ele não quisesse fazer contato naquele dia.

Go, roll to the victory, hit your stride, you’re Dixie’s football pride, Crimson Tide!
  Rob estava com a bola em mãos, mas não parecia raciocinar direito. Meu coração quase saía pela boca, e ouvir pessoas xingando Robert não ajudava nada na minha ansiedade. Ele recuou devagar demais, perdendo sete jardas da posição atual, Eiffort estava praticamente livre, esperando que Rob tivesse a boa vontade de lançar a bola para ele. Mas não o fez. Foram longos segundos em que Robert só ficava de um lado para o outro, recuando cada vez mais. A sua única alternativa foi soltar a bola antes de ser agarrado pela cintura por Derby e cair no chão com o jogador duas vezes maior que ele ao seu lado. Foi muito fácil derrubá-lo, apesar disso, Rob não deveria ter ficado tanto tempo no chão.
  — Desde quando o Cornwell é tão incompetente assim? — Zoe questionou um pouco mais nervosa do que ela realmente deveria estar. — Eu não deixei de ver o Jake jogar pra assistir isso!
  Eu não sabia nem o que falar para Zoe, não me sentia no direito de xingá-lo, mesmo que ele estivesse sendo muito burro, mas eu estava nervosa o suficiente para desejar que ele finalmente tivesse se lesionado de vez para aquilo tudo acabar. Não era certo querer que o outro se machucasse, mas era o único jeito. Robert não poderia estar jogando. Olivia havia se precipitado demais ao achar que poderia cuidar do irmão sem nem ao menos o levar para fazer uma ressonância.
  — Ele não vai levantar nunca? — Ouvi alguém gritar atrás de mim, me virei para trás, mas aparentemente não estavam falando comigo.
  E não. Robert não levantou. Os xingamentos ao meu redor aumentaram, o alvo não era mais Cornwell e sim Derby, eu também estava xingando ele mentalmente, mas a culpa era do Robert, ele já estava lesionado antes disso acontecer. O jogo ficou alguns minutos parado enquanto o carrinho retirava Rob do campo.
  — Olivia está desesperada, — Cassidy comentou o que nós todas provavelmente estávamos pensando.
  Liv corria ao lado do carrinho mesmo sob protesto de alguém superior a ela, o homem que eu já havia visto em várias partidas tentava puxá-la para o outro lado do campo, mas Liv relutava.
  — Acho que se eu fosse ela, estaria do mesmo jeito, — eu disse, enquanto nosso quarterback secundário já combinava o que faria com o restante dos jogadores.
  Robert estava fora. Eu não tinha certeza se Oliver estava tão capacitado quanto ele para assumir o posto de quarterback titular, mas Cornwell foi jogar paintball por sua conta e risco, ninguém havia o obrigado. Eu, sinceramente, não estava chateada como torcedora.

xxx

  Apesar de ter achado que o fato de Robert ter acabado vez com o seu joelho logo no começo da temporada tivesse sido o melhor para ele, eu estava aflita por notícias. Voltar para casa enquanto todos estavam com Rob não foi minha melhor escolha, principalmente porque ninguém estava sendo capaz de me mandar informações. Eu estava me esforçando para conseguir manter a concentração no meu trabalho da faculdade, mas ficar checando minhas mensagens e redes sociais parecia mais interessante.
  Cada par de faróis que eu via se aproximando da minha casa, eu torcia para que fosse meus pais, já fazia um tempo que minha mãe havia mandado uma mensagem para avisar que estavam chegando em Birmingham.
  Nem ao menos tinha vindo se gabar por Auburn ter ganhado, talvez tenha sido porque Alabama também ganhou, ou porque suas estatísticas não tivessem sido boas.
  Resolvi, pela décima vez, entrar no twitter e ver se não estavam falando nada sobre Robert e se haviam parado de me mencionar nas coisas. Eu já havia dito para alguns fã-clubes do Alabama que eu realmente não sabia de nada, mas eles estavam deixando qualquer um que fosse mais próximo do Robert louco. O cachorro do vizinho começou a latir, isso significava que meus pais tinham chegado, era meio bizarro como ele só fazia barulho para quem conhecia, geralmente funciona ao contrário. Levantei correndo para tirar a bagunça de comida e refrigerante que eu havia feito na mesa de centro da sala, quando cheguei a casa estava toda limpa, minha mãe surtaria.
  — Finalmente! — disse assim que a porta se abriu, indo de encontro aos dois.
  — O trânsito estava horrível, — minha mãe explicou, me dando um beijo na bochecha em seguida — Você chegou bem?
  — Cheguei, sim, — respondi simples — Quais são as notícias? — questionei enquanto encarava fixamente meu pai que trancava a porta.
  — Não são boas. — Elizabeth passou a mão em meu cabelo e deu um sorriso triste — Eu vou tomar um banho. — avisou, pegando o caminho para a escada.
  — As notícias ruins sempre sobram pra mim. — Meu pai deu um riso fraco e me abraçou pelos ombros, nos guiando até a sala. Eu me sentei em uma das almofadas no chão, lugar onde eu estava anteriormente enquanto fazia meu trabalho. E meu pai se jogou no sofá a minha frente.
  — E então? — sugeri que ele dissesse algo, já que William havia se calado.
  — Robert está fora da temporada, — anunciou.
  Eu fiquei boquiaberta com aquela notícia. O que eu esperava era que ele fosse ficar alguns jogos fora, não a temporada toda. Eu me odiei por ter, mesmo que no fundo, comemorado aquilo na hora do jogo. Eu era uma pessoa horrível. Meu pai me olhava como se me esperasse dizer alguma coisa. Mas o que eu deveria falar naquele momento? Eu só queria estar em Tuscaloosa com os Cornwell.
  — Mas o que aconteceu? — eu questionei, tentando entender o que ocorreu naquela jogada. Nem pareceu tão grave.
  — Você já sabe da metade da história. — meu pai começou ao mesmo tempo que o meu celular vibrando incessantemente.
  — Espera, — pedi, achando que poderia ser Olivia.
  Levantei do chão e peguei o aparelho de cima do raque. Eu senti meu coração acelerar e não consegui controlar minha feição com aquilo. Era . E no momento ele tinha conseguido me deixar ainda mais nervosa.


!!!!!
????
Me desculpa
Eu ‘tô rindo pra caramba
Não acredito que o Cornwell perdeu a temporada por causa de um tiro de paintball
Isso é sério ou estão tirando com a nossa cara?

  Eu senti meu estômago revirar. Como a aquilo já havia chegado em Auburn?   — Quantas pessoas sabem sobre o paintball? — perguntei, fazendo-o rir — Você sabia, não sabia? — voltei a me sentar nas almofadas, formulando alguma resposta para .
  — Quem já ficou sabendo para ter te deixado tão assustada assim? — ele rebateu, me analisando bem.
  — Uma amiga minha, — respondi com a voz um pouco vacilante enquanto mais mensagens chegavam.


Foi mal, gatinha
Eu sei que ele é seu amigo.
Mas eu achei ridículo

  — A gente ficou sabendo hoje. — meu pai começou a explicar — Ele tem uma marca no joelho que denunciou completamente. — suspirou, chacoalhando a cabeça negativamente — O resultado da mentira é esse.

“Como você ficou sabendo disso?”
  — Mas o que aconteceu com o joelho dele? Ele vai ter que operar?
  — Ele teve uma lesão nos ligamentos cruzados anterior, o médico disse que o impacto do tiro do paintball ajudou, mas a lesão aconteceu porque ele estava parado na hora. Vão tentar algumas sessões de fisioterapia com ele. — contou — Mas não acho que dê certo.
  — É, vamos ter que esperar, — conclui, observando que meu pai parecia tão descontente quanto eu.
  — Eu vou fazer alguma coisa para comermos, ok? — ele avisou, levantando-se do sofá.
  — Quer ajuda? — perguntei por desencargo de consciência. Geralmente eu só limpava as coisas, a comida ficava por sua conta.
  — Não precisa, — respondeu já entrando na cozinha.


Não sou só eu que 'tá sabendo
Ele é muito burro
Ӄ sua cara fazer esse tipo de coisa"

Eu já te disse que eu vou ser draftado antes que seu irmão
Esse é meu momento
Não faria uma idiotice dessa
Cornwell perdendo as coisas como sempre hahahah
Desculpa
Eu vou parar
"Vai pro inferno, "
  A parte de não deixar a notícia se espalhar havia falhado. Ele deveria estar péssimo no momento e minha cabeça estava cheia demais para discutir com sobre Tyler ser bem melhor que ele, mesmo jogando em posições totalmente opostas. Minha prioridade era tentar falar com Olivia para ela me dar uma prévia da condição psicológica do Robert, mas os celulares estavam desligados. Tentei pelo Tyler, chamou, chamou e chamou. Nada. Optei pela mensagem, pelo menos quando eles resolvem dar sinal de vida viriam que eu estava preocupada.

”Rob, quando se sentir melhor para conversar, me liga. Não posso ir para Tuscaloosa ficar com você, mas tenho certeza que a Olivia está te tratando muito bem. Não sei o que dizer nesse momento, mas sinto muito. Me liga, ok?"
  Robert seria zoado pro resto da vida dele. Eu estava sem saco para toda as piadinhas do , mas ele estava certo. Afinal, quem é que perde a temporada por causa de um tiro de paintball? Talvez ele só tivesse sofrido uma torção e estaria bem, mas agora ele teria que lidar com uma lesão e suas consequências.

Capítulo 09 - Sessão de fotos (parte I)

’s POV.

  Tirando a parte de que meu time ficou sem o quarterback titular e de que Rob iria perder a temporada inteira, até que sua lesão serviu para algo de bom. Robert Cornwell era meu novo fotógrafo oficial. Tyler Cooper, você perdeu essa. Sim, meu irmão era quem fotografava minhas roupas, eu não possuía habilidades para valorizá-las nas fotos, então precisava de alguém para fazer isso para mim. Por sorte, Rob sabia muito bem como fazer isso.
  Eu havia tirado o dia de folga para organizar as coisas que levaria para a sessão de fotos. Robert estava dormindo no antigo quarto que Tyler ocupava quando morava com nós, meus pais já haviam saído para trabalhar e eu separava as peças que ainda não haviam sido fotografadas. No dia anterior, ele e Olivia vieram para Birmingham e ficaram na minha casa durante o dia, quando cheguei do trabalho e os encontrei com meus pais, decidi faltar na faculdade. E além do fato de que Olivia fez um mini sessão de fisioterapia com Robert antes de ir embora, nada foi dito sobre sua lesão. Rob não estava à vontade com o assunto, a notícia sobre o paintball se espalhou no mesmo dia em que ele se machucou no jogo. Todo mundo já estava falando sobre, isso gerou um clima bem pior do que deveria estar, porque para ajudar, os pais deles só descobriram sobre isso quando o médico fez com que Robert abrisse o jogo.

.
Que bom que você tirou minhas iniciais do seu contato, mas na verdade meu nome deveria estar como “ melhor linebacker”

Acho que nem suas namoradinhas tem seu contato salvo assim”
.
E quem disse que eu tenho “namoradinhas”?
“Até parece que não”
.
Você poderia ser minha namoradinha.
“Haha não.”
.
Tudo bem
Não me importo.
Que horas você vem pra Auburn?
“Você é o , não deveria se importar mesmo”
“Às duas, acho que devo sair depois das seis”

.
Eu mesmo, o melhor linebacker que você respeita.
Eu tenho compromisso nesse horário.
Merda.
“Na verdade o melhor linebacker que eu respeito é o Chandler Jones”
“É sério? Que droga”
“Vamos ter que remarcar então”

.
Chandler Jones é minha religião.
  Eu estava lendo a mensagem de quando Rob resolveu aparecer, ele estava usando uma muleta para não ter que colocar carga no joelho machucado. Repouso, gelo, fisioterapia e um pouco mais de coisas, no fundo, a gente sabia que nada disso daria certo.
  — Por que não me acordou, ? — questionou, passando os olhos pelas várias coisas espalhadas pelo quarto enquanto entrava.
  — Você deveria ter dormido mais um pouco, — disse, sorrindo para ele. — Eu ainda não preciso dos seus serviços. — ri.
  — Acordei por causa da dor — explicou, sentando-se na ponta da cama —, mas já tomei remédio.
  — Você precisa de mais alguma coisa? — Sentei ao seu lado, terminando de alfinetar uma das peças.
  — Não, , daqui a pouco vou ligar pra Olivia pra ver o que vamos fazer, — ele disse enquanto tirava o celular do bolso da sua calça de moletom — Acho que tenho uma sessão de fisioterapia hoje. — apoiou as mãos no colchão e reclinou seu corpo para trás.
  — Então eu te deixo em casa antes de ir para Auburn, pode ser?
  — Pode sim.
Robert me respondeu e então ficou em silêncio, encarando o chão. Eu me sentia mal por ele, se tivesse perdido a minha chance de mostrar que eu realmente sou boa naquilo que gosto de fazer iria ficar sem chão. Infelizmente, eu estava sem tempo — e sem paciência — para conversar com ele. Rob e eu estávamos extremamente distantes, olhando bem para a situação atual, não parecia que um dia já fomos quase namorados. Eu sabia que ele estava chateado comigo havia um bom tempo, bem antes do seu aniversário. O clima entre nós não estava bom, e somado aos últimos acontecimentos, tinha piorado. Eu não estava chateada, em compensação, ele me olhava como se me julgasse a todo momento e isso me deixava levemente incomodada.
  — Você acha que o Clowney vai se sair melhor do que eu? — ele questionou e se levantou da cama, indo até minha cômoda para pegar a câmera.
  — Pode até ser, — respondi simples, prestando atenção no que fazia com o alfinete na peça. — Ele é meio enferrujado, porque nunca joga. — ri e olhei Rob rapidamente, ele revirava os olhos enquanto eu falava. Perdeu a noção do perigo, Cornwell? — Mas acho que daqui uns três jogos ele vai estar lançando melhor que você. — finalizei.
  — Parece que você caiu e bateu com a cabeça, — ele resmungou, balançando a cabeça negativamente.
 emsp;— Deixa de ser bobo, Rob. Eu só estou te irritando. — Rolei os olhos. Eu não estava só enchendo o saco dele, aquilo era verdade.
  — Eu vou ficar no quarto do Tyler, — avisou, pegando sua muleta que estava apoiada na cama — Quando você precisar, me avisa.
  — Robert, não foi o tiro do paintball que te fez machucar o joelho, né? — perguntei antes que ele saísse do quarto. Rob parou na porta e me encarou.
  — Não — respondeu, se encostando no batente —, alguém fez de propósito.
  — Fez o que de propósito? — questionei com as sobrancelhas franzidas, aquela história me deixava cada vez mais confusa.
 emsp;— Atirar no meu joelho enquanto eu estava em cima de um pedaço de tronco de árvore, e me fazer cair no chão. — Robert soltou uma risada debochada e balançou a cabeça negativamente.
  Eu ainda estava tentando montar a cena na minha cabeça. Era bem óbvio que aquela história de "levei um tiro de paintball no joelho e isso lesionou ele" não estava caindo bem. Mas Robert pareceu extremamente incomodado com o meu questionamento e saiu dali. A culpa não era minha se ele foi um idiota.

xxx

  Eu mal podia esperar pelo dia em que eu fosse bem sucedida o suficiente para ter pessoas que fossem carregar minhas coisas. Mas, enquanto isso não acontecia, só me restava resmungar mentalmente sobre o peso em meus braços e mãos. O elevador finalmente chegou ao décimo terceiro andar, as portas metálicas se abriram e eu encontrei Amber andando de um lado para o outro.
  — ! — foi até mim rapidamente — Por que não me ligou? — questionou enquanto tirava algumas coisas dos meus braços — Preciso de uma arara aqui!
  — Eu achei que conseguisse trazer tudo sozinha. — Ri.
  Não demorou muito para que fizessem o que Amber havia pedido para então começarmos a pendurar as coisas. Finalmente senti o alívio em ficar sem peso em meus braços.
  — Você conseguiu fazer aqueles ajustes? — ela me perguntou enquanto pendurava o último cabide — Pode levar. — avisou para sua assistente que nos ajudava.
  — Fiz sim, — respondi, observando-a levar a arara para onde os modelos se trocavam. — Elas estão com uma etiqueta verde no cabide.
  — Okay, você já pode começar a vestir os modelos. — avisou, olhando em seu relógio — Estamos atrasados.
  Amber saiu e eu me senti um pouco perdida. Não estava habituada com aquele estúdio, desde que comecei a trabalhar com Charlotte estava acostumada a ir em um mesmo lugar para lugar e fazer as mesmas coisas. Localizei onde a arara com minhas roupas havia sido levada e deduzi que os modelos estivessem se trocando ali, caminhei até lá e encontrei uma bagunça de pessoas. Aparentemente, os homens iriam ser fotografados antes que as mulheres, já que eles estavam prontos enquantos elas ainda passavam pela maquiagem. Isso me lembrou que eu precisava separar a roupa com os ajustes que Amber havia me pedido, era uma peça masculina e eu ainda precisava saber qual modelo usaria ela. Fui até a arara, torcendo para que não tivesse mexido nos meus cabides etiquetados, aqueles estavam certos para uma pessoa em especial.

“Amber, preciso saber quem é o modelo. SOS.”
Amber Johnson.
Eu vou te mandar uma foto, ok?
  Uma imagem chegou logo em seguida. Ela estava demorando para carregar, mas quando o fez, me causou um riso de nervoso. Um riso um pouco mais alto do que deveria ser. Eu conhecia bem aquele maxilar marcado e o nariz tão bem desenhado que eu tinha vontade de socar.

“Onde foi que você achou ele?”
Amber Johnson.
Não gostou? Hahahaha
Ele é atleta, por isso precisei de roupas maiores.
PS: ele é meu irmão, qualquer coisa você pode brigar com ele e dizer que eu mandei ele se comportar.
Ele é meio hiperativo.
“Não, não é isso hahah”
“Onde ele está?”

Amber Johnson.
Aqui comigo, traz as roupas dele.

Parte II

  Desde quando eu conheci , aquele era o momento mais bizarro entre nós dois. Se eu queria cavar um buraco e me enfiar lá pra sempre? Com certeza. Eu, definitivamente, não estava acreditando nisso. Será que ele não podia me deixar em paz nem no meu trabalho? Não que eu não gostasse do , mas aquela situação estava me dando náuseas.
  A observação que Amber havia feito era o que me deixava ainda mais assustada. Ele era realmente irmão dela ou era aquele tipo de pessoa próxima o suficiente para você considerar da família? Eu esperava que fosse a segunda opção.
  Peguei as roupas que eu havia separado e fui procurar Amber. Eu estava tentando manter a calma, respirava fundo enquanto caminhava até o final do estúdio onde ela provavelmente estava. Minha tentativa de ficar neutra diante àquela situação foi por água abaixo quando eu encontrei saindo de trás de uma cortina sem camiseta. Não que eu não estivesse acostumada a ver homens sem camisa, mas com era… diferente. Ele me olhou e sorriu casualmente como se eu fosse qualquer pessoa ali, como se ele realmente não me conhecesse. Como ele conseguia?
  Amber estava sentada ao lado dele, mexendo no celular. Caminhei até os dois, trazendo sua atenção para mim. parecia estar totalmente avulso, como um completo desconhecido.
  — , esse é o . — ela se levantou, nos apresentando com um sorriso enorme no rosto — E essa é a , responsável pelas roupas que você vai usar.
  — É um prazer conhecer você.
   puxou meu corpo para mais perto e me abraçou brevemente, ele me olhou nos olhos e sorriu. Qual era a dele?
  — É um prazer conhecer você também, — respondi, respirando fundo.
  — , anda logo, vai se vestir. — Amber pediu e puxou as peças de roupa da minha mão e as entregou para vai te ajudar depois. — avisou enquanto ele se distanciava.
  — Eu preciso dar uma olhadinha em outros modelos também, — disse, tentando não parecer tão indelicada. Mas aquele era meu trabalho, não era?
  — Ele vai ser rápido, e eu posso cuidar dos outros para você. — sugeriu — É que seria meio desconfortável ver a bunda do meu irmão. — Ela estava com uma feição estranha, como se estivesse imaginando a cena. Ri, mas era de nervoso.
  — Tudo bem. — suspirei — Qualquer coisa você me manda mensagem.
  — Eu já volto.
  Amber saiu em direção do local em que eu estava antes e me deixou lá um pouco deslocada. ​A maioria dos modelos estavam sentados em frente a espelhos, arrumando o cabelo ou a maquiagem. Era incrível ver que aquilo realmente estava acontecendo, eu queria aproveitar o meu momento, contemplando todas aquelas roupas que eu havia feito com a colaboração de pessoas maravilhosas que trabalhavam comigo no ateliê, mas não era possível, porque estava lá me deixando mais nervosa do que o comum. Ele estava se trocando e demorando um pouquinho mais do que o necessário e Amber havia dito que depois eu o ajudaria, talvez não fizesse a menor ideia do que estivesse fazendo ali. Não existia ninguém mais confusa do que eu naquele momento.
  Puxei a cortina de onde estava se trocando e o encontrei quase rasgando a calça. O pensamento que eu estava tendo alguns segundos atrás sobre não conseguir imaginar usando algo além de moletom e uniforme fez muito mais sentido.
  — O que você está fazendo? — questionei, apoiando minhas mãos na cintura. Ele estava meio desajeitado, mas bonitinho.
  — Aqui ou com essas roupas? — rebateu e começou a rir — Isso não serve em mim, me ajuda.
  — Eu duvido que você saiba posar para fotos, mas tudo bem. — puxei o cós da calça e então notei que o problema não era nas coxas — A sua bunda é muito grande. — resmunguei.
  — Mas pelo menos eu sou bonito, — respondeu, me fazendo rolar os olhos enquanto puxava a calça para cima — Isso não vai entrar.
  — Você se acha demais. — olhei para ele que parecia estar se divertindo bastante com a situação — Já assistiu “As Branquelas”? — questionei, parando de ajudar a fazer aquilo entrar nele.
 &emsp— É claro que já, por quê?
  — Sabe aquela cena que eles saem para comprar roupas? — fez que sim com a cabeça, começando a rir de novo — Se o Marcus entrou na calça de couro, você também entra, e essa nem é de couro.
  — Tenta fazer igual a vendedora fez. — Sugeriu e se encostou na parede — Eu vou prender minha respiração, você só não pode machucar meu amigo aí de baixo.
  — Eu deveria cortar ele fora, isso sim. — bufei, pegando o cós da parte de trás. Aquilo ia passar ali, sim — Devem pensar que eu estou pegando um dos modelos.
  — Não seria uma má ideia, — murmurou.
  — Fica quieto, vai.
  Puxei a calça mais duas vezes para cima até ela decidir encaixar naqueles glúteos enormes. Era isso que acontecia quando te pediam a peça um tamanho maior, quando na verdade quem iria usar vestia dois números a mais. havia conseguido abotoar e fechar o zíper, então provavelmente estava tudo certo.
  — Você se vira com o resto. — avisei — Faça poses bonitas, ou você vai acabar matando minhas roupas.

xxx

  Depois de longas horas, finalmente finalizamos a sessão. Já tinha escurecido, eu estava exausta e ainda estávamos terminando de organizar as coisas.
   não tinha ido tão mal, mas também não era aquelas coisas. Talvez aquilo só fosse porque Amber quisesse o ajudar a ganhar uma grana extra, ele havia comentado sobre estar precisando, mas que não encontrava nada que batesse com os horários.
  Tyler estava em Auburn com Robert, alguém havia recomendado um médico que, segundo informes, era especialista em recuperações sem métodos cirúrgicos. Duvidava muito que a situação do Robert fosse essa, mas não custava tentar. Combinamos de nos encontrar, foi uma boa, porque estava insistindo para que fizéssemos alguma coisa. Mas eu não ficaria circulando com ele por Auburn nem que me obrigassem, fiz isso uma única e vez e não pretendia fazer de novo.

Tyty.
O porteiro disse que ele torce pra Auburn e que deveria me amarrar e entregar o .
Esse idiota ‘tá ai em cima?
Pelo menos ele disse que eu estou indo bem.

“Que louco hahahah”
“O foi um dos modelos”
“Ainda está aqui, mas não inventa de provocar ele”

  Eu estava sentada em cima de uma caixa, quase dormindo, esperando meu irmão vir me ajudar a levar as coisas embora.
  — Ei, gatinha. — chegou, passando a mão no meu cabelo — Não vamos fazer nada mesmo?
  — O elevador está subindo e o Tyler vai chegar com o Robert, — respondi seca e me afastei dele — Você pode chamar a Amber, por favor?
   balançou a cabeça positivamente se afastou. Respirei aliviada, se Tyler visse aquela cena ele iria surtar. E realmente não demorou para que eles chegassem, meu irmão ajudava Robert mesmo que ele estivesse com uma muleta. Cornwell deveria estar morrendo de dor.
  — E aí, mana. — Tyler deu um beijo na minha bochecha e me abraçou. Rob ficou afastado, só me encarando — ‘Tá tudo bem? — questionou, trocando olhares com nós dois.
  — Você não ia embora sem me apresentar seu irmão, não é? — a voz alta de Amber soou, me livrando do desconforto com Robert. Mas, logo atrás estava — Tyler, você é muito mais bonito pessoalmente. — ela segurou em um dos braços do meu irmão e sorriu.
  — Assim você me deixa sem graça. — ele mordeu o lábio, disfarçando uma risadinha — Fiquei sabendo que vocês estão usando atletas nos ensaios, posso participar do próximo.
  — Você não sabe nem tirar selfies, Tyler, não inventa, — respondi, fazendo Amber rir.
  — Mas ele pode entrar em editoriais esportivos, — rebateu. — Eu vou te procurar, viu?
   nos observava de longe, Tyler e principalmente Robert já haviam notado ele lá, mas estavam colaborando, menos Robert que praticamente queimava com o olhar, fazendo-o retribuir na mesma intensidade. Vi pegar o celular e logo depois uma mensagem chegou para mim.

.
Vou terminar de arrebentar o joelho desse babaca.
  Olhei para ele, balançando a cabeça negativamente e soltei uma risada. Tyler, Rob e Amber me encararam sem entender. Eu não sabia onde enfiar a cara depois daquela.
  — Já terminaram de se paparicar? — perguntei para Tyler e Amber, tentando disfarçar minha risada aleatória.
  — Deixa de ser invejosa. — meu irmão respondeu — Ela me conheceu hoje e gosta mais de mim do que de você.
  — Eu não vou causar discórdia entre irmãos, — Amber disse, rindo. — Mas quando eu tiver um editorial esportivo você vai ter que participar.
  — Eu venho, com certeza.
  Amber havia conseguido inflar o ego do Tyler e seria bem difícil de murchar. Começamos a nos despedir e pegar as coisas para irmos embora, meu irmão tinha alguma conversinha aleatória com Amber e Rob ao lado deles, carregando uma maleta. Olhei para , que estava na mesma posição, nos observando. Joguei um beijo para ele, fazendo-o rir e pegar o celular. Peguei o meu, esperando por alguma coisa vinda dele.
.
Você está me devendo um encontro.
E um joelho arrebentado do Cornwell.
“O joelho arrebentado do Cornwell vai ser mais rápido do que nosso encontro”
“E você sabe disso”
.
Essa notícia deixou meu dia bem melhor.
“Eu já te disse pra parar de falar mal dele pra mim”
  — Morreu olhando pro celular, ? — Tyler questionou enquanto segurava a porta do elevador para que eu entrasse.
  — Aí, desculpa.
  Nós colocamos a maioria das coisas no chão do elevador e ainda nos despedimos de Amber, se alguém estivesse querendo usar o elevador deveria estar nos xingando muito. Quando começamos a descer, me encostei na parede metálica e fechei os olhos. Tyler e Robert estavam em silêncio, não tinha nada naquele momento que me distraísse e eu estava me odiando por estar pensando tanto em .

Capítulo 10 - Derrota e decepções

.

  O campus já estava cheio de torcedores e tendas, não demoraria muito para que o estádio estivesse lotado também. Dia de jogo em Auburn era menos estressante, contar com o apoio de quase toda universidade era a melhor coisa que acontecia em jogos no Jordan–Hare.
  — Oi, . — Kimberly e Ashley passaram por nós e me saudaram ao mesmo tempo, acenando.
  — Você nem é tão bonito assim. — Brandon riu.
  — É claro que eu sou. — soquei seu braço — Se eu não fosse elas teriam dito “oi, Brandon” e não “oi, , — imitei a voz afetada das duas, fazendo Brandon rir mais ainda.
  — Você é um lixo, — caçoou.
  Eu sentia falta de morar no campus, mas ao mesmo tempo me sentia confortável em casa mesmo com as dificuldades que estávamos tendo. Pelo menos eu tinha descolado uma grana com Amber depois daquelas fotos, mas como nada na minha vida estava indo totalmente bem, ela já havia avisado que se eu não treinasse muito minhas “poses”, eu não iria participar mais. Eu não queria perder a oportunidade de ganhar dinheiro com isso, não era difícil e tinha um horário flexível, e eu ainda poderia ver a sempre, desde que aquele idiota do Cornwell não aparecesse para buscá-la todo santo dia.
  — Onde o Meneely ‘tá? — Brandon questionou depois de algum tempo em silêncio.
  — No inferno, — respondi, irritado com o assunto — Ele mesmo mandou você me perguntar isso, não foi?
  — Se acalma aí, . — deu uma batidinha no meu ombro — Vocês pareciam gêmeos siameses, agora nem se falam mais. — explicou com calma enquanto gesticulava.
  — É que eu consegui encontrar alguém mais babaca que eu. — Balancei a cabeça negativamente ao lembrar sobre certas coisas — Eu quero que ele se ferre.
  — E você só percebeu isso agora. — Riu — O que ele te fez?
  — Ele fica me enchendo o saco com certas coisas, — expliquei. — Você sabe que eu gosto de fazer merda, mas ele passa dos limites.

🏈🏈🏈

  Eu não deveria ligar para os outros jogos que estavam por vir, a orientação era jogar um jogo de cada vez, mas era impossível não pensar no quanto a próxima semana seria mais fácil do que essa.
  — Você é meu LB* favorito, — Gilmore disse enquanto fazíamos nosso toque.
  — E você é meu corner favorito. — Ri, abraçando-o brevemente.
  Terminei de colocar meu shoulder e vesti minha camiseta, o protetor bucal foi fixado a grade do meu capacete e então pude seguir o caminho para fora do vestiário com o restante do time. Chegamos a sala final, aquele era o último momento antes da abertura do portão e da nossa entrada para o jogo. Nos ajoelhamos* e esperamos pela palavra de Hall.
  — Certo, pessoal, vamos lá. — ele começou — Estamos sem nenhuma derrota até agora, e eu quero que vocês permaneçam assim. É bom lembrar que Alabama também joga hoje com um adversário bem mais fraco do que o nosso, precisamos ganhar para não correr o risco de ficarmos atrás deles. — Hall nos olhou do mesmo jeito de sempre, como se fosse um pai rígido, mas que sempre nos acolhia. Sorriu, andando de um lado para o outro — Entenderam? — questionou, parando com as mãos na cintura.
  — Sim, senhor, — respondemos em conjunto.

...

  A sensação de estar perdendo de 31 a 7 era desesperadora, principalmente para mim. Nenhum sack, nenhum tackle, nenhuma ação que fosse ajudar, nada.
  Já íamos para o último quarto, faltavam cinco minutos para o final do terceiro. Estávamos com a posse de bola, segunda para oito na linha de vinte e cinco jardas do nosso campo. Greg fez o snap* e Floyd quase deixou a bola cair, nossa linha ofensiva estava trabalhando bem, mas o quarterback não. Mesmo com toda a proteção, tudo aconteceu rápido demais. Floyd, que agora estava na linha de dezoito jardas, foi sacado e perdeu mais duas. Johnson, o responsável pela ação lhe forçou a soltar a bola, tornando aquilo um fumble. Floyd era um incompetente desgraçado, joguei o capacete no chão com força e raiva. Como podia ser tão burro?
  — Não deixem eles fazerem esse touchdown! — Palmer nos ordenou antes que entrássemos em campo.
  Eu e o resto da defesa já estávamos em posição, enquanto o ataque ainda combinava a jogada. Quando os jogadores adversários tomaram suas posições, eu só conseguia pensar em uma coisa: sacar o quarterback. Eles já estavam em posição para chutar pelo menos um field goal, e nós não estávamos com condições de levar mais três pontos. Intercalei os olhares com o wide-receiver que estava na minha frente e com o quarterback mais à direita, o juíz apitou, sinalizando que o tempo para a jogada havia começado. O quarterback deles ainda gritava os códigos da jogada, o snap ainda não havia sido feito e eu percebi uma movimentação singela do nosso defensive end, Bower. Isso fez alguns jogadores do ataque se movimentarem também, o juiz apitou e as bandeiras amarelas voaram no campo.
  — Neutral-Zone Infraction*, número noventa. Cinco jardas de penalidade.
  Eu estava queimando de raiva naquele momento. Erros como esses faziam toda a diferença quando você estava perdendo por vinte e quatro pontos, faltando um pouco mais de um quarto para o jogo acabar e seu ataque não funcionando. A manifestação vinda das torcidas também não ajudavam.
  Eles sabiam aproveitar as oportunidades da vida, a segunda jogada, diferente da primeira, foi extremamente ágil e quase impossível de bloquear o quarterback ou os running backs, a linha ofensiva deles fez o trabalho certo e o restante da nossa defesa provavelmente estaria dormindo. O receiver deles recebeu a bola na linha de dez jardas, somente duas para frente de onde eles estavam e chegou praticamente sozinho a end zone. Touchdown. A vantagem era de trinta e um pontos, naquele momento eu me sentia pior ainda.

🏈🏈🏈

.
E então?? Como você está?
Sem querer me gabar, mas o Tyler fez dois touchdowns :D
Acho que alguém vai ser draftado antes que você.

“Eu te odeio, oficialmente”
  Coloquei o celular no bolso da bermuda e segui para o portão principal de entrada e saída. O campus já estava suficientemente vazio para ir embora sem ser xingado por algum torcedor, ou levar uma ovada. O jogo já havia sido humilhante demais. Eu queria sossego, mas já tinha um tempo que eu não conseguia atingir cem por cento da minha paz de espírito. Mais à frente estava vindo Meneely, entrando no campus.
  — ! — ele gritou de longe enquanto balançava as mãos como se eu não tivesse o visto.
  Abaixei o volume da música que tocava no meu fone de ouvido e continuei andando até nos encontrarmos.
  — O que foi?
  — Quem você acha que é? — ele me empurrou pelo ombro, me deixando possesso — 'Pô, irmão. O que 'tá acontecendo com você? — questionou com a voz calma e arrastada, dando duas batidinhas no local onde ele havia empurrado, como se limpasse alguma coisa. Meenely dava constantes sinais de que estava drogado.
  — Para de me encher o saco, — pedi, tentando colocar os fones de volta na minha orelha, não fiz nem metade do percurso com as mãos e ele puxou os fios para baixo. — Qual é a sua? — questionei com a voz alterada e quase o empurrei, mas me contive ao notar que algumas pessoas passavam por perto.
  — Eu que deveria estar perguntando isso, não você. — Ele riu sarcástico, cruzando os braços — Não seja um babaca comigo, eu já te tirei da merda por várias vezes.
  Aquilo foi como receber um chute no saco. Meenely não tinha o direito de jogar as coisas na cara dos outros só porque sua condição financeira o favorecia quase sempre. O fato de que eu pedi ajuda para ele por mais de uma vez quando meu genitor resolveu ir embora não é mentira, mas isso não anula as outras atitudes que Ryan tinha. Eu não era nenhum santo, mas Meenely era mau-caráter.
  — O gato comeu sua língua? — questionou diante do meu silêncio — Ou foi a gatinha?
  — Você me ajuda só para me afundar duas vezes mais, otário, — respondi rude — Deixe ela fora de qualquer uma das suas ideias mirabolantes, ela nem te conhece. — tentei permanecer firme, Ryan não podia notar ninguém vacilante.
  — tem um ponto fraco que não é mais o papai. — Soltou uma risada maldosa — Já parou pra imaginar que ela daria uma boa namorada para o seu pai?
  Toda ação tem sua reação, no caso, a minha reação não demorou para vir. Meu cérebro deve ter levado uns dez segundos para processar o que Meenely disse, e então meu punho já estava se chocando com força contra seu nariz. Ele cambaleou para trás e um filete de sangue começou a escorrer, duas pessoas correram em nossa direção, uma delas era um cara que cursava a mesma coisa que Ryan e a outra era uma garota que eu não conhecia.
  — Isso não vai ficar assim, — ele ameaçou, limpando o sangue do nariz.
  — Eu não ligo.
  Coloquei meus fones de ouvido de volta e saí dali enquanto os outros dois amparavam Meenely, talvez por interesse, porque ninguém gostava de verdade dele. Eu só queria chegar em casa logo e dormir muito até esquecer do dia horrível que tive.

🏈🏈🏈
*snap: quando o center passa a bola por debaixo das pernas para o quarterback para dar início a jogada.
*neutral-zone infraction: é o nome da falta descrita no parágrafo.
*LB: abreviação de “linebacker”, posição defensiva em que o joga.
*o ato de ajoelhar no futebol americano é bem comum para indicar sinal de respeito.

Capítulo 11

Robert

  Quando algo de ruim te acontece, é normal procurar alguém para culpar. Talvez se você encontrasse uma pessoa para se responsabilizar, as lamentações por ter feito algo de errado se tornariam menores. E não tinha nada pior do que viver com o sentimento de culpa. Então, era exatamente aquilo que eu estava fazendo: procurando alguém para culpar. Eu não estava agindo de má fé, querendo responsabilizar qualquer um que estivesse jogando ao mesmo tempo que meu grupo, mas eu tinha plena certeza de que aquilo tinha sido planejado. Só que por questões de segurança, o dono do paintball não podia me fornecer o nome de quem estava lá no dia.
  Talvez eu fosse um idiota por estar fazendo as coisas sozinho, Tyler e William mereciam saber, mas eu estava com raiva. Raiva de ser cobrado a todo momento e de ser tratado como um boneco de vidro, eu não ligava mais para a porcaria da temporada, meu joelho doía cada dia mais e a ignorância das pessoas ao meu redor estava me deixando louco.
  A minha esperança naquele momento era Jimmy Cooks, a única pessoa um pouco confiável dentro daquela universidade nojenta, mesmo assim, todo cuidado era pouco.
  Sentado no vaso sanitário do banheiro, eu esperava que ele me respondesse. Eu não conseguia acreditar que aquele babaca me fez sair da aula para não correr o risco de ter meu celular confiscado, e nem ao mesmo respondeu minhas primeiras mensagens. Eu queria jogar o celular na privada e dar descarga.
​Cooks.
E aí, bro.
O que você quer?

“Achei que fosse me responder só amanhã.”
“Preciso saber uma coisa sobre um dos caras do seu time”
Cooks.
Só digo se ele tiver feito algo errado contra alguma mulher ou animal.
Caso contrário, minha boca é um túmulo.
"Idiota."
"Eu tô falando sério"
Cooks.
Tudo depende, Cornwell.
Tenho treino daqui dez minutos e já sai do dormitório.
Anda logo com o que você quer.

 &emspTalvez se esse inútil tivesse me respondido no horário que nós combinamos, eu não precisaria me apressar. Idiota.
"Seus amigos gostam de jogar paintball?"
Cooks.
Você 'tá de brincadeira?
Isso é sério?
Porque eu não acredito que você quer me usar pra encontrar alguém culpado pela sua lesão.
“Eu só quero entender as coisas.”
Cooks.
Vai pro inferno, Cornwell.
  Maldito. Que droga, se a pessoa que havia estudado comigo e foi meu amigo por mais de dois anos no colégio não podia me ajudar, então ninguém poderia. Pelo menos não alguém de Auburn. Soquei a porta do banheiro com força, sentindo meus dedos doerem. Inferno.
  Sai do box do banheiro e me deparei com um cara me encarando pelo reflexo do espelho com as sobrancelhas arqueadas. Apenas acenei com a cabeça e sai rapidamente dali, não queria mais confusão. Talvez o mais sensato a se fazer era voltar para as próximas aulas antes que eu detonasse com a minha vida acadêmica também.
  — Robert. — Ouvi a voz de Melania, que droga. Coloquei o celular no bolso e continuei a andar como se não tivesse escutado nada — Robert, você nem está com fones de ouvido. — falou e automaticamente parei onde estava. O barulho dos saltos batendo no chão do corredor vazio se aproximava cada vez mais — Não finja que não escutou. — ela completou, me fazendo virar para trás para dar de cara com nossa orientadora.
  — Eu sabia que você ia me pegar atrasado de novo, — resmunguei, coçando a nuca. Eu adorava Melania, mas já estava sem graça de tanto receber broncas.
  — Não precisa se preocupar com o horário hoje. — ela pegou em meu ombro e sorriu — Preciso conversar com você.
  O jeito como ela falava e me olhava era o suficiente para saber que havia algum problema ali. Melania saiu andando em minha frente, olhando vez ou outra para trás só para conferir se eu ainda estava a seguindo em direção a sua sala.
  — Pode fechar a porta, — falou enquanto se sentava em sua cadeira.
  Fechar a porta? Melania nunca nos mandava fechar a porta. Eu deveria estar mesmo muito ferrado.
  — Como está o joelho? — ela questionou assim que eu me sentei no sofá.
  — Ainda dói um pouco, — disse, sacando o celular do bolso. Nova mensagem do meu pai — Você me arrumou um novo ortopedista?
  — Guarda o celular, por favor, — Melania disse com a voz calma, fiz o que ela pediu e a encontrei me encarando com o rosto apoiado nas mãos. — Você está me decepcionando.
  — Eu ‘tô decepcionando bastante gente.
  — Hoje os olheiros vão visitar a universidade que vocês conhecem bem, eles têm um quarterback muito bom lá e acho que o garoto não hesitaria em aceitar uma proposta para vir jogar aqui.
  Aquilo foi como levar uma facada. Primeiro o Clowney, agora eu tinha que me preocupar com os novatos. Aquela universidade era uma máquina de jogadores, se antes eu estava preocupado, agora eu estava muito preocupado.
  — Você não está indo bem com as suas notas, Robert. E você sabe o que acontece depois disso, não sabe? ​Se ele estiver com notas melhores que a sua, pode ter certeza que Nick não vai ter piedade em te cortar, — continuou a falar, fazendo aquilo martelar na minha cabeça de tal forma que me fez sentir raiva. — Você não é bolsista, mas sabe que ele exige isso.
  — Vocês nem sabem se o calouro vai ter notas melhores que as minhas e já estão me dizendo indiretamente que eu estou fora. — Apoiei minha cabeça na parede e bufei.
  — Eu sugiro que você vá fazer sua redação em atraso e que opere esse joelho logo para voltar bem melhor no ano que vem, — Melania disse e sorriu para mim.
  — Eu vou agora, então. — Levantei do sofá e ela fez o mesmo.
  — Eu não falo isso para o seu mal, ok? — apoiou as mãos no meu ombro, me puxando para um abraço — Não me odeie por isso, eu continuo amando todos vocês.

🏈🏈🏈
.

“Ryan Meenely enviou-lhe uma solicitação de amizade”   Por que de uma hora pra outra os jogadores de Auburn estavam vindo atrás de mim? Eu queria que todos eles explodissem, exceto o . Recusei a solicitação e bloqueei o perfil. Wide receiver de Auburn no meu Facebook? Não, obrigada.
  Estava divagando pelo feed do meu Facebook quando Jessie entrou na minha sala, olhei rapidamente para o relógio digital no canto direito da tela e vi que realmente faltavam vinte minutos para dar o meu horário, Jess já deveria ter ido há pelo menos quarenta.
  — Você não deveria estar em casa? — questionei, fechando a janela do Facebook para voltar ao site de tecidos.
  — Eu vou fazer hora extra pra conseguir pagar o aluguel do apartamento, — ela explicou e caminhou até minha mesa, me estendendo um papel — Charlotte mandou entregar.
  — Está tendo problemas no campus? — Olhei-a com uma das sobrancelhas arqueadas.
  — Não exatamente. — Sentou-se de frente para mim enquanto eu desdobrava o pedaço de papel — É que a maioria das meninas que eu me dou bem estão querendo alugar um apartamento, e eu meio que não quero ficar sozinha no campus. — suspirou.
  — Se você estudasse na UAB nada disso estaria acontecendo. — Rimos — É sério, acho que só tem umas quatro pessoas da minha turma que não gostam de se misturar, todo mundo foi bem receptivo desde o começo. Eu só não moro lá porque minha casa é quase do lado, — finalizei.
  — Eu pensei em me transferir para lá no ano que vem, — comentou, me fazendo achar a ideia bem interessante.
  — Você vai ter um convite para entrar na nossa fraternidade. — respondi e ela sorriu parecendo mais animada do que com sua universidade atual — Eu vou ler isso, — balancei o papel em minha mão — e já te falo mais sobre a UAB.
,
Eu sei que você tem muitas coisas para fazer, mas minha sobrinha precisa de você. No dia 3 do mês que vem ela vai atender a um evento em NY e quer um vestido feito especialmente para ela. Então eu disse que você poderia fazer. Ela chega aqui na semana que vem, mas já me deixou algumas coisas adiantadas. Me ligue assim que ler isso.
Um beijo,
Charlotte.

  — Você leu isso? — questionei, jogando o papel em sua direção — É inacreditável, — resmunguei enquanto respirava fundo.
  — Eu imaginei que você fosse ter essa reação, — Jess respondeu e percebi que ela tentava conter uma risada. Eu senti meu rosto esquentar. — Você quer ir lá fora tomar um ar? — perguntou parecendo preocupada.
  — Não, — me levantei da cadeira, contrariando minha resposta — Mas sério, o que ela pensa? Por acaso ela acha que eu sou o Quatro Braços do Ben 10? — comecei a falar tudo rapidamente enquanto andava de um lado pro outro, então escutei Jessie rir — Para com isso!
  — Olha, vamos fazer assim, eu mando uma mensagem para ela dizendo que você não estava se sentindo bem e que não pode ligar para ela, pelo menos você vai ter até amanhã para pensar, — ela sugeriu e eu parei para pensar naquilo que era realmente uma boa opção. Fui até ela, a abraçando.
  — Eu te amo, Jessie.

🏈🏈🏈

  Aquela não havia sido a melhor decisão que eu já tinha tomado, mas ficar em casa pareceu bem mais convidativo do que ir para a faculdade, e se até minha mãe havia concordado com a minha ausência, quem eu era para discordar?
  Meu celular vibrou mais uma vez e eu fiquei bem em dúvida sobre pegá-lo para ver o que estava acontecendo, talvez minhas amigas tivessem desistido de serem compreensivas e estariam me xingando por ter furado com elas, poderia ser a Charlotte, que eu ignoraria totalmente, talvez já que a gente ainda não tinha se falado naquele dia, e por último, Olivia para confirmar o dia da consulta do Robert. Para minha felicidade, nenhuma das opções.
Luke.
Você não veio hoje?
Não te vi com as meninas que sempre andam com você.

"Nop, Luke"
"Não estou me sentindo muito bem ):"
  Eu sabia que não era uma boa ideia ter faltado. Eu odiava ficar me remoendo por me arrepender de fazer as coisas do jeito errado.
Luke.
O que você tem? Precisa de alguma coisa?
"Não, é só uma crise existencial hahaha"
  — Ei. — ouvi a voz da minha mãe e quando olhei em direção a porta a vi parada ali — Quer me ajudar? — ela sorriu, me fazendo levantar rapidamente da cama.
  — Cliente novo? — questionei e ela fez que ‘sim’ com a cabeça. — Meu chinelo sumiu, espera.
  — Você lembra da Emilly que tinha o abrigo de cães e é dentista? — perguntou e eu fiz um sinal de positivo com a cabeça — É para o consultório novo dela. — explicou enquanto eu me abaixava para pegá-los embaixo da cama.
  — Você tem sorte de ter uma cliente que muda de lugar quase todo ano. — Ri, a acompanhando para fora do quarto.
  — Eu preferiria não ter que lidar com ela anualmente. — suspirou — Mas não posso recusar o trabalho.
  Emilly só era suportável porque ajudava os cães, se anularmos esse fato ela seria uma das pessoas mais insuportáveis que eu conheci em toda minha vida. Quando eu ainda não trabalhava no ateliê, passava a maior parte do tempo com a minha mãe em seu escritório e tinha muito contato com seus clientes, mesmo depois de dois anos ela ainda prestava serviços para alguns deles.
  — E o Luke? — ela questionou, me fazendo tirar os olhos do catálago de cores.
  — Está bem, — respondi simples, mas ela não pareceu estar satisfeita com a resposta. — Nós não temos nada.
  — Sabia que você me fala isso desde o ano passado? — rebateu e me fez rolar os olhos — Por que não chama ele para vir almoçar aqui no final de semana? — ela sugeriu com animação totalmente notória em sua voz.
  — Eu posso chamar, desde que Robert e Olivia não estejam aqui para encher o saco, — falei séria, porém, começamos a rir dois segundos depois.
  — Sem os Cornwell, então.
  — Que dia você acha melhor? — questionei para tentar parecer tão interessada quanto ela.
  — Depende, ele torce para Auburn ou Alabama? — devolveu a pergunta, mas já estava com sua atenção focada no projeto.
  — Alabama.
  — Então pode ser domingo.
  — Okay, vou falar com ele, — respondi enquanto fazia marcações nas cores que eu mais tinha gostado.
  Não. Eu não falaria com Luke. Durante todo aquele tempo que nós nos conhecíamos, não tinha acontecido absolutamente nada. Não vou negar que no começo isso me deixou bastante frustrada, mas com o tempo eu descobri que Luke era um ótimo amigo e que eu sobreviveria sem namorar com ele. O problema é que minha mãe o conheceu em uma feira de adoção de animais abandonados, Luke estava colaborando com o evento assim como outros estudantes de medicina veterinária.
  Eu não costumava esconder as coisas dela, nós tínhamos uma relação bem íntima e eu me sentia mal por não abrir o jogo com ela. Parecia tão simples de dizer tudo de uma vez, mas na prática, não era.
  — Você teria se casado com alguém de Auburn? — questionei, fazendo-a largar a caneta da sua mão.
  — O que disse? — respondeu, me olhando com as sobrancelhas franzidas.
  — Eu perguntei se você casaria com alguém de Auburn, — repeti e ela soltou uma risada anasalada.
  — É claro que sim, — ela disse tão rapidamente que eu quase engasguei com minha própria saliva. Aquilo realmente foi uma resposta positiva? — Está pensando em se casar com alguém de lá? — Riu.
  — Eu acho que não, — respondi, pensando naquela possibilidade.
  — Você anda muito estranha esses dias. — Ela me olhou fixamente por algum tempo, mas logo voltar a rabiscar em seu caderno.
  Mais estranha que eu, só a possibilidade de casar com . Isso sim era estranho. Pensar nesse tipo de coisa me deixava mais confusa do que o necessário. Eu odiava ter que pensar nele.

Capítulo 12 - Problema

.

  — Você falou com ela antes de me ligar? — Charlotte questionou, me olhando por cima das lentes do óculos que estava praticamente na ponta de seu nariz.
  — Algum problema com isso? — perguntei de volta da maneira mais calma possível, não queria parecer estar faltando com respeito ou sendo grosseira. Ela pagava meu salário.
  — De jeito nenhum. — respondeu e voltou a mexer no computador. Respirei aliviada — Você já adiantou isso então? — Balancei a cabeça positivamente diante da pergunta, Charlotte parou para mexer em sua bolsa. Pegou a carteira e começou a tirar algumas notas de dinheiro de lá. — Eu preciso que você vá em Auburn, — disse, me estendendo os dólares — Dinheiro para pagar o táxi. — explicou assim que o peguei de suas mãos — Jessie já está com um papel para a retirada dos vestidos que estão lá, Samantha está viajando, então tem toda a parte burocrática. — Rolou os olhos.
  — Certo, já posso ir? — questionei, olhando o relógio fixado em sua parede. Já estava razoavelmente tarde para sair de Birmingham e ir para Auburn.
  — Pode sim.
  Charlotte era louca, oficialmente. Onze da manhã, com muita sorte eu chegaria em Auburn por volta de uma e meia, demoraria pelo menos mais uma hora por lá e depois ainda teria que enfrentar o trânsito na volta.
  Peguei minhas coisas e os tais papéis que estavam com a Jess enquanto já chamava um táxi. Charlotte não fazia tanta coisa assim, a cabeça dela com certeza estava ocupada com as coisas da nova loja fora do estado, mas os vestidos eram do ateliê, ela era a dona do ateliê e aquela não era minha função. Pelo menos ela estava pagando meu táxi.
  ​Eu estava agradecendo mentalmente pelo motorista não ser daqueles que gostam de puxar assunto a todo momento, minha cabeça estava explodindo e eu queria tirar um cochilo até lá, mas não tinha a mínima coragem de fazer aquilo.

Luke.
Nós ainda vamos para Montgomery depois do jogo?

"Se você quiser, vamos sim"
"O pessoal do time vai"
"E eu também"

Luke.
Encontro você na sua casa ou em Tuscaloosa?
  Aquela era uma boa pergunta. Eu não queria ir para Tuscaloosa sozinha, as meninas não iam nesse jogo e só de pensar em ficar na casa da Olivia e do Robert já me deixava com dor de cabeça, mas também se Luke me encontrasse em casa minha mãe talvez fosse surtar um pouco.

“Me encontra perto da faculdade”
“eu vou entregar algumas coisas para a Cassie antes de ir”

  Pelo GPS do motorista vi que ainda faltava quase duas horas para chegarmos até a loja de vestidos, avisei que estaria em Auburn caso ele quisesse fazer alguma coisa rápida. O tempo passou e ele não havia me respondido, eu não ligaria para porque ele provavelmente estava na aula ou no treino, e do jeito que ele era, iria atender e acabar se complicando.
  A viagem foi longa e silenciosa, o motorista não tinha uma feição muito boa, e sinceramente, eu não me esforçava para puxar assunto com ele. Senti-me extremamente aliviada quando o paguei e coloquei os pés para fora daquele carro.
  A loja estava bem mais bonita do que da última vez, eles haviam reformado a frente e feito um jardim bem simpático. Abri a porta, fazendo um pequeno sino soar, imediatamente uma mulher com o uniforme da loja saiu de trás do balcão, vindo até mim.
  — Bem vinda a Lady in White, — ela saudou com um grande sorriso — Como posso te ajudar?
  — Oi, Ceci. — cumprimentei ao ler seu nome na plaquinha do blazer que usava — Eu sou a , Charlotte me mandou para buscar algumas coisas para ela. — expliquei, entregando o papel que já estava em minhas mãos.
  — Ah sim, Samantha me avisou, — respondeu apenas dando uma olhadinha no que eu havia acabado de entregar — Vamos lá?

.
Estou saindo da faculdade agora.
Eu tava treinando.
“Não posso demorar, ok?”
“Estou trabalhando haha”
“Vou mandar a localização”

  Ceci estava me levando para o que parecia o estoque dos vestidos, era cedo e dia da semana, mas a loja estava bem cheia e as consultoras circulavam sem parar com vestidos nos braços. Eu provavelmente não levaria tudo que precisava.
  — Você veio de táxi? — Ceci questionou enquanto passava os olhos pelas araras. Respondi um uhum, esperando ela continuar — Vou pedir para colocarem em caixas para você, — explicou.
  — Se eu tivesse vindo com meu carro não ia precisar, — disse. Aquele lugar era um sonho, eu estava apaixonada — Mas os taxistas não são tão compreensivos com uma bagunça no carro deles. — Ri.
  — Não tem problema, querida. Nossas caixas são grandes, é só pedir para por no porta-malas.
  Eu queria me casar mil vezes só para poder usar cada um daqueles vestidos, os que eu havia desenhado eram bem bonitos, modéstia à parte, mas tinha certas peças ali que eu simplesmente queria viver dentro deles.

.
Peguei carona com um amigo.
To aqui na frente.
“Espera aí”

  Eu não podia virar e falar “então, Ceci, eu vou ali fora fazer um belo nada de importante e você termina de procurar meus vestidos sozinha”, se já até tinha saído da faculdade, ele podia esperar um pouco. Não demorou tanto quanto o esperado, quatro dos sete vestidos estavam juntos, provavelmente seguindo a organização padrão, já que os outros três nem estavam dentro do estoque. Fiquei um pouco receosa, porque talvez aqueles fossem realmente para ficar expostos, mas Ceci assegurou que não teria problema em levá-los.
  — Se você quiser esperar na recepção, pode ir, — ela disse assim que terminamos — Vou colocar eles na caixa agora.
  — Eu vou encontrar com uma pessoa do lado de fora, mas fico aqui na frente esperando, — avisei e Ceci assentiu positivamente.
  O sonho da minha vida era ter uma loja de vestidos de noiva, eu era totalmente apaixonada pela Lady in White e ela era uma das mais simples que eu já havia visitado, mas todos aqueles detalhes tão delicados me deixavam totalmente apaixonada. Quase esqueci que me esperava no lado de fora e que eu não tinha muito tempo para ficar conversando com ele. Sai rapidamente da loja, encontrando-o sentado em cima do pequeno muro do jardim.
  — Não é muito elegante sentar aí, , — chamei sua atenção, fazendo-o rir.
  — Você queria que eu sentasse onde? Na calçada? — ele questionou enquanto se levantava. chegou mais perto e me abraçou, ele era estranhamente confortável.
  — Na calçada é nojento, mas não é educado ficar aí. — bati em suas costas para ele parar de me apertar — Para, . — resmunguei com a voz arrastada quando percebi que ele não entendeu o recado.
  — Sabia que a minha mãe trabalha aí? — ele disse quando se afastou.
  — Qual o nome dela?
  — Ceci. — respondeu e eu soltei uma risada — O que foi?
  — Por que eu conheço sua família inteira sem saber que são da sua família? — questionei e franzi minhas sobrancelhas automaticamente, aquilo era bizarro.
  — Espero que você não conheça meu pai. — riu sem humor, o olhei sem entender — Nada, deixa pra lá.
  — Okay. — dei de ombros, ele não gostava de falar sobre aquilo, era visível — Sua família toda é um amor, você veio com defeito. — Ri, apertando sua bochecha.
  — Engraçadinha. — rolou os olhos — Vou dar oi pra minha mãe. — disse, entrando na loja. Fui atrás dele.
  — Ela está embalando uns vestidos para mim, — avisei.
  — Oi, Suzy, — ele cumprimentou a mulher que estava atrás do balcão no lugar de Ceci.
  — Oi, . — ela se levantou, beijando sua bochecha — Veio falar com a sua mãe?
  — Sim, mas acho que ela está ocupada.
  — Daqui a pouco ela vem, podem esperar aqui dentro se quiserem. — Suzy indicou as poltronas atrás de nós.
  — Obrigada. — ele agradeceu, me puxando para sentar ao seu lado.
  — Como seu amigo Tyler está? — questionei ao me lembrar do assunto.
  — Ele ficou bem. — sorriu — Mas Hunter me disse que fizeram de propósito, — contou, me deixando um pouco chocada com a informação.
  — Que tipo de pessoa esse Tyler é? — ri e revirou os olhos.
  — Ele não é nada do que você está pensando.
  — ?
  Uma voz conhecida se fez presente no ambiente, fazendo se levantar. A associei com Ceci, quando me virei para trás confirmei que era mesmo a sua mãe. Ela estava com as caixas em mãos, mas acabou colocando-as em cima do balcão para cumprimentar o filho, eles não eram nada parecidos, Amber tinha alguns traços que lembravam Ceci, mas podia ser facilmente influenciado com piadinhas que irmãos mais velhos fazem sobre adoção.
  — Já conheceu a ? — ela questionou, intercalando seu olhar entre e eu.
  — A gente se conhece já faz um tempo, — respondeu e eu apenas sorri um pouco sem graça.
  — Entendi. — Ceci balançou a cabeça positivamente sem dar muita importância para os fatos — , suas caixas já estão aqui. — ela deu uma batidinha na tampa de uma delas e sorriu — Precisa de algo, querido?
  — Não, só passei para te dar oi. — sorriu e beijou a bochecha da mãe — Eu vou para casa agora.
   se despediu de sua mãe e saiu da loja antes que eu o fizesse, tive que assinar alguns papéis para a retirada daqueles vestidos e por isso demorei um pouco mais. Saí da loja com as três caixas em mãos, encontrei sentado no mesmo lugar de antes, apoiei as caixas no murinho e peguei o celular para chamar o táxi.
  — Você já vai? — perguntou, observando o que eu fazia.
  — Vou, se eu ficar muito tempo aqui não chego a tempo pra faculdade, — expliquei — A bye* de vocês é a mesma de Alabama? — Sentei ao seu lado.
  — É, sim. Eu acho que vou acabar indo para Chicago, — disse calmamente, encarando o outro lado da rua — Você e o Tyler vão fazer alguma coisa?
  — Eu vou com o Robert. — contei e vi rolar os olhos — Só vou estar fazendo um favor, porque Tyler não vai poder. — ri, encostando minha cabeça em seu ombro.
  — Vocês ainda ficam? — perguntou e eu comecei a rir mais.
  — Se liga, . — Bati em seu braço, me desencostando dele. Antes que eu pudesse continuar, fui interrompida por um carro que passou em alta velocidade, buzinando. Ódio mortal de pessoas que usavam a buzina do carro daquele jeito — Eu não tenho mais nada com ele. — continuei.
  — Não sei se me sinto melhor com isso ou se não muda nada, — comentou e riu no final.
  — Se transfere pro Alabama, aí a gente pode namorar. — Pisquei, me levantando ao notar que o carro havia chegado.
  — Se depender disso você vai ficar sozinha pro resto da sua vida. — Ele cruzou os braços e me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas.
  — Você sabe que eu tenho vários pretendentes lá, não sabe? — perguntei apenas para provocar, o único era Robert e não seria nunca mais — Oi, você pode abrir o porta-malas, por favor? — pedi para o motorista que assentiu prontamente e fez o que eu pedi.
  — Você ‘tá querendo me ofender, só pode. — Riu, enquanto pegava duas das três caixas para me ajudar a colocá-las dentro do carro.
  — Claro que não, babe. — Sorri, batendo a tampa do porta-malas — Tchau, .
  — Tchau, chata. — ele me empurrou levemente e se afastou rindo.

🏈🏈🏈

  A melhor parte de ganhar um jogo em casa era ir para a Phoenix, a nossa mesa já era reservada para dias assim e as pessoas que trabalhavam lá provavelmente já conheciam cada um de nós. Até Luke estava lá. E ele estava sendo uma ótima companhia, mesmo estando um pouco deslocado, ele parecia estar gostando. Era a primeira vez que Luke havia saído conosco depois dos jogos, e pelo menos os meninos estavam tranquilos sobre aquilo, porque novatos no grupo significava que ele seria bem zoado até entrar no ritmo dos outros, mas estava tudo sob controle.
  — . — Luke me cutucou, interrompendo minha conversa com Elliot — Acho que o Tyler quer falar com você, — avisou.
  Meu irmão me encarava fixamente e assim que percebeu que eu havia captado o sinal, indicou com a cabeça que era para sairmos. Pedi licença aos meninos e fiz o que ele havia dito, o seguindo até a área de fumantes. Não havia ninguém do time ali.
  — Algum problema, Ty? — questionei um pouco preocupada.
  — , escuta… — ele suspirou e fez uma pausa — Você sabe que eu não gosto de me meter na sua vida, certo? — Tyler me abraçou pelos ombros e nos guiou até próximo ao parapeito.
  — O que aconteceu? — Distanciei dele e o olhei séria. — Fala logo!
  — Eu recebi uma foto hoje de manhã. — Ele coçou a nuca e então retirou o celular do bolso. Eu entrei totalmente em choque. Que tipo de foto Tyler estava falando? — E assim, eu realmente não gosto de me meter, mas cara, — meu irmão me entregou o celular desbloqueado, com a imagem na tela. Senti minhas pernas vacilarem por um momento e uma sensação de nervosismo horrível tomar conta do meu corpo — é você com o . Porra, , é o nojento do .

🏈🏈🏈
*bye é uma “abreviação” da expressão bye week que caracteriza a semana de folga dos times.

Capítulo 13 - Mudança

’s POV

  — Eu recebi uma foto hoje de manhã. — Ele coçou a nuca e então retirou o celular do bolso. Eu entrei totalmente em choque. Que tipo de foto Tyler estava falando? — E assim, eu realmente não gosto de me meter, mas cara — meu irmão me entregou o celular desbloqueado, com a imagem na tela. Senti minhas pernas vacilarem por um momento e uma sensação de nervosismo horrível tomar conta do meu corpo —, é você com o . Porra, , é o nojento do .
  Eu não sabia o que falar, nem o que fazer. Minha mão estava tremendo e eu achei que podia derrubar o celular do Tyler a qualquer momento. Na foto, estava sentado no muro do canteiro de flores da Lady In White, e eu em pé, conversando com ele. Que merda. Eu não tinha ideia de quem tinha feito aquilo, mas já tremia de ódio igual a um Chihuahua.
  — Isso foi ontem, em Auburn. — devolvi o celular para ele — A mãe do trabalha nessa loja, e eu acabei cruzando com ele por lá, — expliquei, tentando não demonstrar o quanto estava insegura para falar sobre aquilo. Tyler farejava mentiras. — E ele ficou me enchendo o saco, óbvio.
  — Ele é um babaca. — Meu irmão revirou os olhos, guardando o celular em seu bolso — Você quer que eu fale com ele?
  — Pirou, Tyler? — ri olhando-o com as sobrancelhas franzidas — Não foi nada de importante.
  — Tudo bem, , só estou falando no caso dele ter te importunado demais. — sorriu — Era só isso.
  Tyler era um pouco ciumento, mas na maioria das vezes era só brincadeira e ele não se importava sobre o que eu fazia, só que aquele era um caso em especial. Eu queria poder dizer para ele que não era tão babaca assim e que se eles ficassem por algum tempo juntos, sem falar de futebol, eles se dariam bem. Mas, isso não aconteceria. Eu ainda estava nervosa com o acontecido, e queria matar o idiota que havia tirado aquela foto. Tyler e eu entramos novamente e eu senti o olhar de Robert praticamente me queimar, ele, com certeza, estava sabendo daquilo.
  Desviei da mesa que todos estavam e fui direto para o banheiro, eu precisava pensar. Minha cabeça parecia poder explodir a qualquer momento e tive uma súbita vontade de chorar de raiva ao cogitar a possibilidade daquilo ter sido feito de propósito e de que sabia. Eu estava confiando nele, mas continuava sendo o .

Eu preciso falar com você.
Agora.

  Sentei no vaso sanitário com a tampa abaixada e respirei fundo, eu iria surtar de não aparecesse logo. Eu já estava extremamente desconfiada e nem havia o escutado, me senti horrível por isso, por não ter confiança em uma pessoa que eu gostava, e por estar querendo culpá-lo por aquilo.
.
O que foi ???
Meu irmão recebeu uma foto nossa.
Juntos.
De ontem.

.
Que????
Alguém tirou uma foto nossa em frente da loja ontem.
O Tyler e mais algumas pessoas do time estão sabendo.

.
E o que ele te disse?
Nada de importante, só te xingou.
E eu inventei uma desculpa pra ele parar.

.
Por que você não disse a verdade?
Você só pode estar de brincadeira.
Tem dedo seu nisso?

.
Dedo meu pra que????
Pra correr o risco do seu irmão vir me dar umas porradas?
Ou pra mandar alguém fazer isso pra ele, já que ele provavelmente apanharia de mim.
Se liga.
Isso acontece e a primeira coisa que você me fala é pra me questionar sobre não ter dito a verdade pra ele. Parece proposital.
Por que então você não vai e conta?
Ou você não se garante?

  Se eu já estava desconfiada antes, agora eu estava desconfiada e com raiva. Eu tinha plena certeza que tinha me precipitado em o acusar, mas existia uma coisa chamada evidência. já havia sido um babaca tantas vezes que eu não me impressionaria em me decepcionar com ele, mesmo depois de achar que ele estava sendo bom comigo.

🏈🏈🏈

  A melhor coisa do mundo era se orgulhar tanto de algo que você fez ao ponto de ter vontade de repetir aquilo várias vezes. Depois de quase morrer para fazer o possível – e impossível – para entregar um vestido de festa longo para a sobrinha de Charlotte, eu estava criando algo parecido com ele para ser vendido na loja da Filadélfia. A inauguração seria adiantada e eu estaria muito ferrada se atrasasse as outras peças por causa daquele vestido, mas tive uma vontade súbita de começar e a inspiração veio com tudo.
  O telefone da minha sala começou a tocar, pelo identificador vi que a ligação vinha da recepção.
  — Oi, — atendi, largando meu lápis.
  — , Charlotte marcou uma reunião com a Amber hoje e pediu para você ir para a sala dela assim que estivessem juntos, ela acabou de chegar, então acho que você já pode ir, — explicou rapidamente.
  — Ok, já estou indo, obrigada por avisar.
  ​O ateliê estava bem calmo, propício para todos os compromissos que Charlotte estava agendando para que a inauguração da loja funcionasse exatamente como ela queria.
  A porta de sua sala estava aberta, Amber e ela conversavam, sentadas nas poltronas ao lado da grande vidraça que mostrava o jardim atrás do ateliê. Bati na porta, trazendo os olhares de ambas para mim.
  — Entra, , — Charlotte disse, mexendo em alguns papéis.
  Eu tinha inveja da sala da minha chefe, na verdade, eu invejava mesmo a sua organização. A minha sala não passava nem um dia toda arrumadinha.
  — Oi, Amber, — saudei assim que ela se levantou para nos cumprimentarmos.
  — Adorei a blusa. — Sorriu, pegando no tecido escondido pela jaqueta que eu usava.
  — Obrigada. — Sorri de volta e sentei-me ao seu lado.
  A pauta da reunião era uma só: a inauguração da loja na Filadélfia. Charlotte já havia avisado por diversas vezes que teríamos que antecipar o evento, mas quase caí dura no chão quando foi comunicado que, de dia 27 de Dezembro, seria passado para o dia 12 de Novembro.
  Para minha grande frustração, Amber não iria conosco. Na verdade, ela já não estava participando diretamente do processo, mas nos auxiliava com algumas coisas. Charlotte não ficou surpresa com a notícia, ela já deveria saber, de qualquer forma, minha chefe nunca parecia abalada com nada. Ela sempre teria uma carta na manga para coisas dando errado e de última hora.
  Não demoramos muito, os quarenta minutos que ficamos conversando foram totalmente focados em questões pendentes sobre a loja, Amber não estava envolvida diretamente com a inauguração, mas ainda fazia parte do time da Charlotte e minha chefe fazia questão de tê-la por perto.
  Fui dispensada primeiro, me despedi rapidamente de Amber e voltei para a minha sala. Jessie não foi trabalhar porque estava gripada, então eu estava sozinha. Pelo menos o ateliê estava vazio e bem calmo.
  Ouvi alguém bater na porta, me fazendo tirar os olhos dos papéis em minha mesa para os direcionar até a porta. Amber estava ali, encostada no batente.
  — Posso entrar?
  — Não precisa nem pedir, — respondi, sorrindo.
  — Eu não vou te atrapalhar muito, — disse enquanto caminhava até minha mesa. Amber escorou o corpo no tampo de vidro e olhou para os meus rascunhos que estavam ali — Se você não terminar esses eu vou ser obrigada a te matar. — rimos.
  — Eu vou terminar, prometo, — disse e Amber me olhou com os olhos semicerrados. Ela sabia bem como eu desistia fácil dos meus rascunhos. — É sério!
  — Vou te mandar mensagem para cobrar esse croqui pronto. — ela avisou e eu rolei os olhos, rindo — Mas eu não vim aqui para isso. — Amber sorriu e saiu de cima da mesa para pegar algo em sua bolsa — O é idiota, , — ela falou e eu senti meu estômago gelar. Eu conhecia Amber há tanto tempo que mesmo depois de saber sobre sua ligação com , eu não a via como irmã dele, para falar a verdade, eu nem lembrava muito disso quando falava com ela — Ele não tem a mínima ideia das coisas que fala, e eu não sei o que ele fez, mas — Amber fez uma pausa para me entregar um papel — ele mandou isso. me pediu para ler porque ele é um ridículo que não sabe pedir desculpas, mas até que ele se saiu bem.
   havia mandado um bilhetinho com um pedido de desculpas pela sua irmã mais velha. Aquilo não combinava com ele. estava morto e alguém tinha substituído ele. Era isso.
  — Ah, ele quis mandar flores, mas eu não deixei. — Amber contou. — Nunca vou esquecer de quando te mandei flores de boas vindas e você quase morreu de tanto espirrar porque não quis tirar elas da sua sala.
  — Obrigada por ter feito isso. — Ri. Alergia a flores era minha especialidade.
  — Eu já vou, , — ela avisou e deu a volta na mesa para nos abraçarmos — Termina seus rascunhos e perdoa o bichinho, ok?
  — Pode deixar. — Sorri.
  Quando Amber saiu da sala e fechou a porta, me joguei em minha cadeira, suspirando longamente. Eu precisava ler o bilhete, mas eu não queria. e eu nem tínhamos brigado de verdade, foi só uma discussão boba e eu poderia enviar uma mensagem para ele, dizendo que estava tudo bem. A verdade era que e eu estávamos próximos demais, eu não estava me relacionando com outra pessoa depois que Robert e eu acabamos, estava me dando sentimentos que eu não queria ter, não com ele. Ou queria. Na verdade, sim, eu queria. antes era só o babaca, o linebacker de Auburn. Agora ele era , irmão de uma pessoa que eu tinha muita afinidade e uma pessoa com quem eu estava falando frequentemente e saindo às vezes, eu estava me acostumando com a sua presença.
Gatinha,
  Eu te falei muita porcaria no final de semana passado, eu só queria que você soubesse que eu me senti um pouco ofendido, mas eu deveria ter te passado segurança, porque a prejudicada foi você. Espero que você e o Tyler não tenham brigado. Quando você se sentir a vontade pra fazer isso, me liga.

  Eu, definitivamente, não conseguia ficar com raiva dele. Não demorei nem dois minutos para pegar meu celular e digitar uma mensagem para .

Não fiquei feliz com a nossa discussão no sábado e também não me orgulho por ter te acusado. Quem deve desculpas sou eu. Então, me perdoa, sério.
Não vou te ligar agora, porque ainda é muito cedo. Espero que você esteja bem.
Beijinhos.
🏈🏈🏈

  Tyler já havia avisado que estava em casa, mas não comentou nada sobre os Cornwell. Fiquei um pouco surpresa quando cheguei e encontrei o carro da família estacionado em frente à minha casa.
  Fiquei alguns minutos dentro carro após guardá-lo na garagem. Pensei que tudo já estivesse resolvido e ver que eles também estavam ali com meu irmão, significava que iríamos repassar todos os pontos da mudança, o que era um processo extremamente cansativo, principalmente para Rob. Eu estava com pena dele, toda a situação só mostrava como coisas ruins podem se tornar ainda piores.
  Assim que coloquei meus pés na cozinha, escutei risadas, sinal de que ninguém estava surtando. Pelo menos não ainda.
  — Olha quem chegou. — Tyler foi o primeiro a me ver, fazendo com que os outros se virassem em minha direção.
  — Oi pra todo mundo, — saudei assim que me aproximei definitivamente deles. Cumprimentar sete pessoas, uma de cada vez, dava muito trabalho — Estavam falando sobre o quê? — questionei, me sentando no chão próxima à Olivia.
  — Sobre o dia que nós fomos para Montgomery e deu tudo errado, — minha mãe contou e eu ri. Aquela noite havia sido hilária. — Ava, você quer me ajudar com as coisas? — ela questionou, mudando completamente o assunto. As duas se levantaram e foram em direção a cozinha.
  Ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu estava com Tyler, meu pai, Robert, Noah e Olivia e nada confortável com todos calados daquela forma.
  — E então? — falei, alternando meu olhar entre Rob e seu pai. Eles quem tinham mais coisas para dizer.
  — Eu já providenciei as passagens. — Noah começou — Vocês vão para Washington na sexta-feira. — Suspirou.
  — E ontem nós marcamos a minha cirurgia. — Robert contou — Vou fazer no final do mês.
  — Tem certeza de que é isso que você quer? — Tyler questionou e em troca recebeu um olhar repreensivo do nosso pai — O que foi? Eu só estou perguntando porque me importo com ele. — se defendeu.
  — Você não precisa se preocupar, bro. — Robert sorriu — Eu sei que é isso que preciso fazer.
  Assim que toda agitação causada pelo real motivo da lesão do Robert cessou, chegou a hora de pensar no que fazer. Era mais do que óbvio que ele teria que passar por procedimentos cirúrgicos, só que a parte da aceitação estava sendo mais difícil do que qualquer um pode imaginar. Mesmo sentido dores extremamente fortes e com dificuldades na locomoção, Rob se segurou para pensar no que deveria fazer e talvez ele só não quisesse decepcionar seu pai. Mas o mais importante naquele momento era ele, não seu pai ou Olivia, que insistia afirmar que estava cuidando bem do irmão em casa enquanto ele não fosse levado para uma mesa de cirurgia.
  — Qualquer time vai querer você, serão idiotas se não aceitarem o quarterback titular do Alabama, — meu pai comentou animado e visivelmente otimista.
  — Ele tem razão, filho. — Noah segurou em um dos ombros de Rob e sorriu.
  Eu tinha medo de que Robert estivesse fazendo a escolha errada. Apesar de tudo, eu nutria um carinho enorme por ele e Olivia, e por todo tempo que convivemos, eu conseguia ver que aquilo era o certo para Rob, mas ainda assim, havia uma pontinha de preocupação que me levava a crer que algo poderia dar errado. Era nítido que Robert estava extremamente mal e intimidado com toda aquela situação.
  — Eu não acho que ele queira continuar sendo tratado como o quarterback do Alabama. — soltei e todos me olharam sem expressão, apenas Robert sorriu — Sinceramente — comecei, me levantando do chão —, ele está saindo da universidade pra começar algo novo. — Sentei no braço da poltrona que Rob ocupava e o abracei pelos ombros.
  — É exatamente isso. — Ele olhou para mim e sorriu. Um sorriso triste. Eu esperava que ele ficasse bem logo.
  Um silêncio ainda mais desconfortável se instalou no ambiente. Eu não entendia qual era o problema em aceitar aquilo, mas Noah parecia ter recebido alguma notícia terrível, e talvez fosse por isso que meu pai me olhava como se me repreendesse. Mas, sinceramente, alguém precisava acordar o pai dos Cornwell para os fatos.
  — Vocês querem comer alguma coisa? — questionei, quebrando o silêncio.
  — Eu quero, — Liv respondeu prontamente enquanto os outros negaram. Com certeza ficariam remoendo ainda mais aquele assunto.
  — Vamos lá, então.
  Olivia me acompanhou até a cozinha sem dizer nada, mas o clima não era pesado como na sala. A nuvem negra era o pai deles, isso era mais do que claro. Eu adorava Noah e Ava desde que os conheci, mas não podia negar que ele estava sendo egoísta naquele momento, pensando na sua própria vontade e não na do seu filho, que era o que deveria ser mais importante.
  — Elas estão lá fora? — Olivia questionou assim que sentou-se em uma das banquetas em volta da ilha.
  — Sim, — respondi enquanto pegava as coisas para montar um sanduíche. — Seu pai deve estar me achando uma péssima companhia para o Rob agora. — Ri, depositando os alimentos em cima da grande pedra de granito.
  — Você fez bem em falar — Liv disse e começou a se servir —, ele precisava acordar.
E  u concordava totalmente com Olivia, era muito perceptível que seu pai estava vivendo em um mundo só dele em que estava tudo absolutamente bem com Robert. Mas as coisas iam mal pro lado do Cornwell e alguém de fora precisava alertá-lo, meu pai já deveria ter feito isto desde que a situação começou a se tornar insustentável, mas acabou sobrando para mim.
  — Posso te perguntar uma coisa? — Olivia falou após alguns minutos de silêncio em que estávamos comendo.
  — À vontade.
  — Como foi que o Tyler não surtou com a coisa sobre o ? — ela questionou e eu quase engasguei com o meu lanche — Eu esperava que ele ficasse mais revoltado. — riu.
  — O Tyler é mais racional do que a maioria das pessoas. — Soltei uma risada seca, esperando que ela entendesse o recado — Mas foi tranquilo, eu expliquei o que tinha acontecido. — fiz uma pausa para me servir com mais um pouco de suco — E ele ficou tranquilo, — finalizei.
  — Robert provavelmente surtaria, — comentou, distraída com a alface em seu pão.
  — Ainda bem que o Tyler não é o Robert, 'né? — rebati, percebendo que havia soado um pouco mais ríspida do que gostaria. Ri para amenizar o clima.
  — Sim, — Olivia respondeu simples e riu também.
  Eu não tinha ideia de que eles também já estavam sabendo, eu esperava que Tyler não tivesse contado para mais ninguém do time, porque apesar de não dever satisfação para ninguém além dos meus pais, eu não queria que viessem me aborrecer. Era praticamente impossível dizer com certeza o que aconteceria em três meses, mas nunca torci tanto para a temporada acabar logo. Só com o final dela eu estaria um pouco mais livre para qualquer tipo de relação com , mesmo não sabendo lidar com a nossa situação e com meus próprios sentimentos.

🏈🏈🏈

Continua...



Comentários da autora


Vocês acharam que ia ferrar tudo, não é mesmo? HAHAHAHAHAHAHA ainda não, galera.
Eu não sei o que vocês estão pensando sobre esse final, então me digam! Felizes pelo Rob? acham que isso vai dar certo? E AH, ANTES QUE EU ME ESQUEÇA: o próximo capítulo vai ter um crossover com “Amor Em Jogo”, da Dani, que está hospedada aqui no site também!!! É uma história maravilhosa que recomendo demais ❤
E para lembrar, temos um grupo no facebook e no whatsapp! Quem quiser entrar é só me avisar.
Beijos e até a próxima!