Uma Noite Com O Rei

Maraíza Santos | Revisada por Angel

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Prólogo

Século VI a.C.

  

A pequena lia sentada no colo do seu pai com certo brilho em seus olhos. Tecer não era tão atrativo quanto ler e, mesmo sendo criança, entendia facilmente diversas frases escritas tanto em hebraico como persa.
  — ABIAIL! — Exclamou Mordecai entrando rapidamente dentro da casa.
  — O que há Mordecai? Aconteceu alguma coisa? — Perguntou Abiail preocupado.
  — Os amalequitas! Eles estão matando e saqueando toda Israel! Vamos temos que ir! Agora! — Disse ele os chamando para fora e saindo pela porta.
  — Vamos Lia! — Chamou Abiail levantando-se de solavanco. — Não temos tempo de levar nada! — Ele a puxou para perto com em seus braços.
  — Espera! Eu... — Ela perdeu a fala quando a porta de madeira foi escancarada.
  Um homem com manchas de sangue em suas vestes entrou na casa segurando a espada suja de vermelho em sua mão direita. Seus olhos esbanjavam maldade nunca vista antes pelo casal de judeus. Lia sentiu calafrio quando ele sussurrou.
  — Fica quietinha.
  Imediatamente, Abiail colocou nos braços de Lia, e se prontificou à frente do homem protegendo sua família. A criança olhava a cena assustada, não entendendo o porquê do que acontecia. Ela podia ver a roupa de seu pai molhada de suor em suas costas, demostrando o nervosismo que sentia. O judeu apertou os punhos mesmo sabendo que tinha poucas chances de sobreviver — naquele momento, sua família estava em primeiro lugar.
  O amalequita segurou os braços de Abiail sem dificuldade e, antes que pudesse se defender, o estrangeiro lhe enfiou a espada no peito empurrando cada vez mais fundo e descendo até os pés do pobre judeu.
  Entretanto, Lia e sua filha não viram aquela cena. O tempo em que o amalequita focava e atacar Abial fora suficiente para que ela saísse correndo com a menina de apenas cinco anos nos braços, acobertada pelo sobrinho de seu marido. O desespero pela cidade era enorme, os gritos de desespero ecoavam pelas ruas enquanto muitos corriam descalços tentando salvar suas vidas, em vão.
  Sentindo o sangue latejar nos ouvidos e o coração quase sair do peito pela corrida, Lia se escondeu em um beco, tirou rapidamente o colar de seu pescoço e pôs na sua filha.
  A menina chorava com os pequenos olhos arregalados. Estava tão eufórica quanto a mãe e a cena de mortes que vira no caminho era assustador.
  — Prometa a sua mãe que nunca vai esquecer-se de onde você veio. — Disse ela a . Olhando para os lados, a menina concordou — Pegue-a Mordecai! — Gritou Lia a entregando nos braços e o homem disparou e logo desapareceu no final do beco.
  A judia olhou pra trás ofegante, pronta para mais uma corrida, quando viu mais um amalequita com os olhos cheios de ódio e raiva andando em sua direção; em toda sua vida nunca havia visto alguém com tanta hostilidade em seus olhos. Ao tentar correr sentiu uma forte facada em suas costas e antes que caísse no chão sentira outras por diversas partes do corpo.
  — MAMÃE! — Berrou a criança quando percebeu que sua mãe não os seguia.
  Mordecai correu para não ser o próximo a morrer abaixando com a mão a cabeça de para que ela não visse aquele caos. Chegando perto dos portões da cidade, avistou uma carroça de mercadores que estava pronta para sair depois de perceberem o que acontecia. Escondeu-se entre a palha junto com a menina e, assim que se acomodou, sentiu-se sair do lugar depressa.
  — Calma, vai ficar tudo bem. — Falou Mordecai acariciando os cabelos de sua prima tentando acalmar a única pessoa da sua família que consegui se salvar.

Capítulo 1 - O banquete

15 Anos depois

  

Sentada em um pequeno banco, a jovem contava a história tão conhecida por ela para os pequeninos de diversos bairros de Susã. As crianças escutavam atentamente aquelas palavras, com medo de perder qualquer que seja o detalhe.
  —... E o Davi pegou uma pedrinha e rodou, rodou, rodou e foi bem na cabeça do gigante! – Disse dando ênfase a cada palavra que dizia.
  — E o que aconteceu? — Perguntou Ruben, um dos meninos ouvintes.
  — Ele tombou! — Ela disse fazendo caretas e as crianças riram.
  As mães das respectivas crianças se aproximaram de forma sincronizada chamando-os para o desfile que aconteceria em instantes. O imperador da Pérsia voltava de uma de suas campanhas com o exército e fazia questão de ostentar suas riquezas para todos. A cerimônia não passava de uma das suas demonstrações de grandeza e Susã – cidade capital da Pérsia — era seu lugar preferido para expô-la.
  — — Chamou — Você vai ver o rei?
   se apaixonara por ela ainda adolescente, desde que Mordecai havia se tornado um dos judeus mais fluentes entre seu povo. A jovem era bonita e dificilmente se achava alguém que não simpatizasse com a moça tão jeitosa. Entretanto, o homem não sabia se ela correspondia a seus sentimentos.
  — E eu tenho opção? — Indagou. Ela sempre achava aqueles desfiles supérfluos, mesmo que fosse interessante ver o rosto de quem era a autoridade de seu país. — Cadê a ? Ela não irá conosco? – Perguntou olhando pros lados à procura de sua melhor amiga.
  — Eu não a vi hoje... — Respondeu o homem, coçando sua barba. — Anda! Ou não conseguimos vê-lo de perto. — Apressou a fazendo dá os ombros e seguir a multidão para as principais ruas da cidade.
  Espremendo-se entre o povo, conseguiu ficar a frente para ver os cavalos dos principais generais do longo exército persa desfilarem a sua frente.
  — Salve o rei da Pérsia! — Gritava o povo. — Salve , o Grande!
  , porém, desviou a atenção para as crianças que corriam para a direita e esquerda, atravessando o espaço que deveria ser apenas para os cavalos do rei.
  — Viva ao imperador da Pérsia! — Ela pode ouvir exclamar animadamente.
  — Viva! — Responderam todos os outros rindo logo depois.
  O rei e seus conselheiros apareceram acenando pra multidão e os gritos se tornaram perturbadores fazendo as crianças pararem em seu canto. Porém, Ruben decidira correr para o outro lado bem a um metro de um dos cavalos. Sem pensar duas vezes, a jovem correu e abraçou Rubén o cobrindo com seu véu e transformando seu corpo em um grande casulo para proteger a criança. fechou os olhos com força já sentindo a pancada que levaria da ferradura do cavalo.
  Aos poucos ela abriu os olhos e olhou para cima, mirando a expressão confusa do rei que tentava controlar seu cavalo para que ele não avançasse. Ele se perguntava o que aquela mulher estava fazendo — fora questão de segundos, ou ele a esmagaria.
  Com o coração palpitando no peito, saiu devagar levando a criança até a mãe que parecia que morreria de susto a qualquer momento. A mulher agarrou seu menino, que parecia um pouco alheio ao que acontecia, agradeceu a jovem e passou a dá broncas a criança por causa daquela loucura.
  Não demorou muito e o desfile continuou como se nada houvesse acontecido antes, contudo, ainda se podia ver o rosto um tanto perturbado do rei.
  — você está bem? Eu fiquei preocupado! — Falou ao encontra-la em instantes, sentindo seu coração bombardear o sangue mais rápido que o normal.
  — Estou bem, nada pra se preocupar. — Ela respondeu sorrindo, mesmo que tivesse a impressão que seu corpo todo estava rodeado de placas de gelo.

  

...

  

olhava pros lados certificando-se que ninguém a vida. Entrou em vários becos, se afastando cada vez mais do centro da cidade onde a maioria das pessoas se encontrava no momento. Sozinha em uma rua sem saída e escura bastante conhecida pela jovem, sentiu ser abraçada por trás por braços fortes familiares.
  — Senti sua falta. — Escutou uma voz familiar. O hálito dele tocou em seu pescoço a fazendo se arrepiar. A judia fechou os olhos se acomodando em seus braços.
  — Também senti a sua falta, . — virou-se de frente para seu amado e esticou-se para tocar-lhe os lábios. Contudo, parou subitamente ao ver um corte sangrando na bochecha do amalequita.
  — ? Onde você conseguiu esse corte? — Ela disse preocupada. O oficial amalequita apenas sorriu ao ver a preocupação de .
  — Não é nada, foi uma brincadeira de mal gosto de Dalfom. — Justificou e selou seus lábios antes que ela falasse mais alguma coisa.
   necessitava sentir o gosto do beijo de e se deliciar com os carinhos que dava e recebia da judia. Deixou que seu corpo, o qual sempre estivera rígido e pronto para batalha, relaxasse ao sentir os dedos delicados de acariciar delicadamente seus bíceps.
  Então, os jovens escutaram alguém gritar o nome da mulher os fazendo se afastar rapidamente. Ao olharem para a entrada do beco o desespero se instalou nos dois — Rute, mãe da judia, encarava-os de boca aberta. Seu esposo, Joel, odiava os amalequitas e fazia questão de deixar bem claro; ver sua única filha nos braços de um deles o faria morrer de desgosto, na melhor das hipóteses.
  — Não, não, não! — correu em direção a mãe e quase se ajoelhou em seus pés. — Não fale ao meu pai, por favor! — Implorou desesperada.
   a acompanhou se aproximando. Seus olhos mostravam a tensão que sentia ao pensar em como o pai de reagiria ao saber sobre seu caso.
  — Por favor, senhora Rute, não fale nada para Joel, ele com certeza não aprovaria... — Ele pediu segurando os ombros de sua amada, tentando — em vão — acalmá-la.
  — Eu não posso mentir pra seu pai, ! Você sabe que isso é um pecado pro seu pai e... — Falava Rute com a voz trêmula, ainda nervosa pelo que viu.
  — Não, mãe, a senhora não vai mentir pra meu pai, só não vai falar nada sobre isso. — Ela assegurou tentando acalmar a mãe.
  Rute não tinha nada contra os amalequitas, mas o seu marido, Joel, ainda tinha ressentimentos do massacre passado e ela não queria despertar a sua ira. Para ele nenhum amalequita poderia tem bondade ou ser diferente.
  — Eu não falarei a ele. — Prometeu a judia. suspirou aliviada. — Agora você não se encontrará mais com esse amalequita! — Ela desfez o sorriso.
  Antes de replicar, contudo, olhou para que continuava atrás dela. O amalequita assendiu rapidamente.
  — Sim, mãe, eu não vou me encontrar mais com o . — Ela garantiu.
  A mulher sorriu satisfeita.
  — Vamos saí daqui! Eu quero você longe dele. — Ela puxou sua filha com força — Você sabe o que seu pai vai pensar de você se souber? Deus me livre se ele descobre.
  — Ele não vai, porque a senhora não vai contar. — Ela afirmou ainda nervosa; olhou pra trás e encontrou o olhar de .
  Com certeza ela não desistiria do homem da sua vida.

  

...

  

Ainda no desfile Mordecai, observava os sete conselheiros do rei passarem, e os primeiros ministros: Memucã e depois Amã, o amalequita. Vagamente, o judeu podia identificar Amã entre os envolvidos na matança de vários judeus onde morreu os pais de . O amalequita trazia consigo o ódio dos judeus e tentava passar aquela filosofia para cada um dos seus dez filhos, apenas um deles, , não parecia gostar da ideia e o homem não sabia ainda o motivo.
  Enquanto Amã passava todos se reverenciavam a ele, exceto Mordecai, Joel e entre outros judeus. Eles sabiam que o que o amalequita queria era uma adoração, não um simples ato de respeito, por isso não se abaixavam diante dele. Na crença dos judeus apenas Deus deveria ser reverenciado.
  “Judeus imundos” pensava Amã “Por mim estariam todos mortos”
  — Convido a toda cidade, dos pobres aos nobres, de soldados a generais, de escrivães a conselheiros para irem hoje ao banquete e comemoração da soberania da Pérsia! — Exclamou o imperador , todos gritaram entusiasmados. O jovem rei sorrira ao ver que seu povo estava satisfeito.

Capítulo 2 - Fim do reinado de Vasti

— Primo Mordecai, por favor! — Repetiu enquanto os dois entravam em casa.
  — , já lhe falei: você só vai pra Jerusalém se alguém te levar. Alguém de confiança. — Explicou Mordecai pela milésima vez.
  — Não se preocupe, Mordecai, eu irei me mudar junto com a minha família pra Jerusalém. — Falou Joel, um homem já com fios brancos em sua cabeça e de barba, um judeu nato. — Eu posso leva-la, prometo que cuidarei bem dela. sorriu.
  O escrivão fitou sua prima e a Joel e relaxou os ombros derrotado. Por mais que quisesse que a moça realizasse seus sonhos, sabia o quanto sentia falta da prima que era quase como filha agora.
  — Está bem. — Mordecai Rendeu-se. deu uns pulinhos em comemoração e , que parecia alheio a conversa, olhou-os assustado sentindo seu coração se apertar no peito.
  — Mas vocês vão quando? — Perguntou receoso pela reposta.
  — Quando a próxima caravana vier, isso vai ser a mais ou menos cinco meses – Respondeu Joel.
   e sua mãe entraram na casa quase automaticamente e a judia se assustou com a animação da sua melhor amiga.
  — O que houve pai? — Perguntou curiosa.
  — Nós vamos nos mudar pra Jerusalém , isso não é demais? — Respondeu animada.
  O rosto de se entristeceu no momento que escutou tais palavras; sua vida parecia se complicar cada vez mais.
  — Você não tá falando sério! — Ela arregalou os olhos — Pai, não podemos nos mudar!
  — Por que não? — Perguntou Joel estranhando a atitude da filha — Eu já cansei dessa cidade imunda cheio de amalequitas! — Ele disse com cara de nojo.
  — Bem, isso é muito bom, né, ? — Comentou Rute lançando um olhar de aviso a sua filha. — Joel, temos que ir pra casa, já está ficando tarde.
  — Você está certa, até breve, Mordecai. — Despediu-se Joel saindo.
  — Bem, eu também vou indo. — Disse cabisbaixo.
  Logo, apenas Mordecai e sua prima sobraram na casa. A única que parecia feliz com a notícia era que parecia não tirar o sorriso de seu rosto.

  

...

  

O rei entrava pelos corredores de seu palácio e cumprimentava seus oficiais com acenos enquanto entrava no salão real. O cômodo era grande e era repleto de cadeiras e colunas de pedra. Havia diversas janelas cobertas por cortinas do linho mais refinado e coloridos. No final da sala, acima de cinco degraus o trono do rei recoberto de ouro e atrás havia o símbolo persa marcado por gerações. O imperador andou até seu devido lugar.
  — Rei . — Reverenciou um dos seus oficiais de mais confiança, Ananias.
  — Ananias, quanto tempo não? — ele disse sentando-se em seu trono.
  — Senhor, a rainha Vasti deseja vê-lo. — Avisou Ananias.
  — Mande-a entrar. — Falou ele aconchegando-se.
  A rainha Vasti era uma das mulheres mais linda do reino e fazia por merecer. Cabelos ruivos e ondulados, olhos verdes e uma postura de se admirar, seu olhar esbanjava a soberania de uma rainha.
  — Meu amado — Disse ela o reverenciando. — Bom ver que está de volta.
  — Sim, claro que é. — Ele se levantou e foi em direção a sua esposa. Tocou no rosto sem nenhum defeito da rainha Vasti e a beijou.
  — Eu estive organizando um banquete só para as mulheres dos oficiais, assim como você me pediu por carta. — Ela falou sorrindo ao se afastarem.
  — Claro. — Respondeu o rei.
  Ele não havia prestado atenção em nada que ela disse, estava apenas admirando sua beleza.
  — Bem, eu preciso ir e descansar um pouco antes do banquete. — Falou o rei.
  — Está certo. — Ela disse – Vou me retirar. Com sua licença. – ela o reverenciou mais uma vez e saiu pela porta.

  

...

  

, tome cuidado! Você já sabe das regras, eu irei ao banquete do rei. — Falou Mordecai arrumando sua roupa e indo em direção à porta.
  — Sim. — Respondeu ela saindo dos seus pensamentos.
  Certificou que as portas estavam fechadas e foi ao seu quarto. tirou o colar que havia em seu pescoço, pôs perto da luz e viu seu quarto todo brilhando com o reflexo da estrela de Davi do colar. Então, lembrou-se da sua mãe e de toda aquela matança.

  

“Prometa a sua mãe que nunca vai esquecer-se de onde você veio”

  

...

  

, que cara é essa? Aproveite o banquete! — Disse Mordecai dando um gole em seu vinho.
  — Não estou muito a fim. — Falou desviando o olhar para o chão.
  — Eu sei o porquê de você está assim. — Comentou Mordecai colocando o copo na mesa.
  — Sabe? — Perguntou levantando os seus olhos.
  — — Mordecai suspirou — Você sabe que se a quisesse eu já havia lhe dado em casamento. Sei que você daria todo amor pra ela, nem precisaria você dá dote algum, mas eu quero que ela se apaixone, não quero que ela se case a força.
  — Eu entendo senhor, Mordecai. — Ele voltou a olhar para a comida.
  Dentro do palácio estavam os nobres e o rei comendo e bebendo, e no harém estava às mulheres dos supostos nobres e a rainha Vasti. O rei mostrava a todos sua grandeza e suas riquezas, cada bracelete, cada colar, cada pedaço de ouro, prata ou qualquer objeto de valor.
  — Mais vinho, por favor. — Disse o rei, já alterado pela bebida, ao Ananias.
  Ananias chamou o copeiro, , que experimenta o vinho, depois de alguns segundos ele acena de uma forma mostrando que o vinho não está contaminado.
  — Meu rei — Reverenciou Amã chegando perto dele.
  — Sim, Amã, o que deseja? — Perguntou o rei.
  — O senhor já nos mostrou todas as suas melhores riquezas, porém só falta uma. — Disse ele casualmente.
  — Qual, Amã? — Perguntou o rei confuso, ele tinha certeza que havia mostrado todas as riquezas.
  — Permita-me dizer, senhor rei, a sua mulher, rainha Vasti é uma das mulheres mais belas do reino persa, nós queríamos apreciar a beleza dela, não é? — Ele virou-se para os nobres que gritaram animados, muitos deles não haviam escutado o que Amã tinha falado apenas gritaram por estarem bêbados.
  — Pois bem, Ananias, chama a rainha Vasti. — Ordenou o rei.
  Ananias foi até a porta do harém e mandou chamar Hegai, chefe do harém, pelo fato dele não ser eunuco, nem mulher, Ananias não tinha permissão para entrar.
  — Sim, Ananias. — Disse Hegai
  — O rei manda chamar a senhora Vasti. — Disse Ananias.
  Hegai assendiu e entrou na casa das mulheres. Aproximou-se da rainha e se pôs ao seu lado.
  — Senhora Vasti. — Reverenciou Hegai — O rei manda a chamar.
  — Chamar? Agora? — ela o olhou com desdém — Desculpe-me Hegai, não posso deixar os meus convidados. Diga ao rei que não vou. — Ordenou Vasti mexendo as mãos para que fosse.
  O eunuco arregalou os olhos.
  — Mas rainha... — Ele foi interrompido.
  — Mas nada Hegai! Eu não sou um brinquedinho pra o rei mostrar aos seus súditos! Vá, vá logo! — Irritou-se Vasti balançando as mãos indicando a porta.
  — Sim, senhora. — Ele a reverenciou e saiu de sua presença imaginando o que aconteceria depois disso.
  — Ela não vai, não pode deixar seus convidados. — Avisou Hegai a Ananias imitando a voz da rainha.
  — Como não? Ela tem que obedecer ao rei! — Protestou Ananias.
  — Ela disse que não, não posso fazer nada. Aquela dali nunca me escuta. – Hegai deu os ombros e voltou ao harém.
  Ananias andou pelo pátio que separava o palácio do harém sentindo o estômago revoira. Ele sabia que algo de ruim estava para acontecer depois que a rainha rejeitou o pedido do rei. Resseoso, o servo entrou na sala real onde estava acontecendo o banquete.
  — Rei, a rainha Vasti disse que não viria. — Cochicou Ananias.
  — Como não? — O rei se levantou do seu trono, um pouco cambaleante, indignado.
  — Ela falou que não pode deixar seus convidados. — Completou o servo.
  — Isso é um absurdo! — exclamou Memucã — Como pode a mulher do rei não o obedecer? Se isso se espalhar pelo reino, as mulheres iram se revoltaram contra seus maridos, vão começar a desobedecê-los e quando forem alertadas usaram a desculpa que nem mesmo a rainha obedece a seu marido. — Completou Memucã — Sugiro que o senhor dê alguma punição a ela.
  — Sim. — Disse , a desobediência de Vasti havia despertado sua fúria — Eu quero Vasti fora do meu reino até amanhã! Ela está exilada de todas as 127 províncias da Pérsia. — Ordenou aos seus soldados, sentou-se de novo no seu trono, como pode desobedecer à ordem do rei?
  — Não! Vocês não podem! Eu sou a rainha Vasti! Obedeçam-me! — Por todo o palácio se ouvia os gritos da antiga rainha persa.
  E assim acabou o reinado de Vasti.

Capítulo 3 - Uma nova rainha para o rei

Algumas semanas depois

  

conseguia sentir o peso de ser copeiro do rei: um gole e ele estaria morto. Mas sabia que precisava daquele emprego. Precisava manter Raquel, sua esposa, e Manassés, seu filho, com comida em casa. Conseguir aquele trabalho fora deveras complicado, pois a maioria dos servos do rei eram eunucos ou tinha sua vida dedicada a ele — nada de famílias por fora. Não podia brincar com a sorte, principalmente por estar atrasado naquele dia. Com passadas rápidas, o beduíno atravessava a multidão em direção ao palácio quando sentiu alguém puxar seu manto.
  — Calma ! Por que dessa pressa? — Perguntou , sorrindo.
  — Estou atrasado! Se eu chegar tarde o rei me arranca a cabeça. — Explicou ele fazendo uma linha imaginária em seu pescoço. O copeiro olhava para seu amigo em relance já que seus passos estavam rápidos.
  — ? — Chamou , entrando na conversa. — Pensei que você já estivesse no palácio.
  — Eu já estou indo. Até mais! — Se despediu andando depressa.
   fitou a suas costas, observando o tecido de sua túnica bater em seus joelhos enquanto andava até vê-lo desaparecer no fim da rua. A judia virou-se para o amigo que desviou o olhar por encará-la sem discrição.
  — Como vai, ? Parece abatido... — Comentou a moça.
  — Nada. — Ele sorriu para ela, passando confiança. — As coisas estão indo bem, não é? Não tem o que se preocupar.
  — Que bom! — Disse ela aliviada começando a andar em direção as barracas de frutas que estavam perto. Arrumou o véu azul na cabeça enquanto via acompanha-la ao seu lado.

  

...

  

O salão real estava repleto dos homens mais nobres de toda Pérsia. Muitos não prestavam atenção no que o rei e seus conselheiros julgavam, preocupados demais como copo de vinho em suas mãos. O rei sentia-se exausto e, com isso, tombou a cabeça um pouco para direita e semicerrou os olhos tentando concentrar-se no que o primeiro ministro, Memucã, dizia.
  —... Então, propúnhamos que você divida suas terras igualmente para seus filhos, assim, nenhum deles vão ter mais ou menos. — Disse Memucã ao camponês. — Proxi... — ele foi interrompido
  — Não, Memucã. — Disse — Estou cansado. — E passou a mão pelo rosto coçando os olhos e sua barba.
  — Meu rei, desde que a o senhor expulsou Vasti do seu reino vejo a sua expressão tão cansada. — Comentou Amã, que estava do lado do primeiro ministro.
  — Realmente, tenho que concordar com você, Amã. — concordou outro conselheiro.
  — O rei deve está sentindo falta dos braços de uma mulher. – Completou Memucã sorrindo.
  O jovem rei riu envergonhado e se acomodou no trono.
  — Sim, Memucã, às vezes eu me arrependo de ter feito aquilo com Vasti... — Declarou o rei com o olhar distante.
  — Não, o senhor fez certo, oh rei! — Repreendeu o homem de cabelos e barba grisalhos.
  — Poderíamos procurar outra rainha para o senhor. – Propôs Amã.
  — Sim, mas como? — Perguntou mostrando interesse pela proposta.
  — Bem, — Amã respondeu tentando conter o sorriso venenoso. — O senhor poderia convocar todas as virgens bonitas do reino para escolher sua nova rainha. Se me permiti, peça para que uma pessoa em cada província escolha as mais belas para serem trazidas ao palácio. Assim, seguiria a lei que diz que a rainha deve ser do seu reino.
  — Essa me parece ser uma boa ideia. — Concordou o rei. Ele retirou o anel do dedo anelar da mão esquerda que continha o símbolo persa. — Memucã, tome meu anel real e sele esse decreto. — Ordenou entregando a joia na mão do conselheiro.
  — Sim, meu rei. — Reverenciou Memucã saindo logo em seguida.
  Amã sorriu diabólico, parecia que os deuses estavam ao seu favor.

  

...

  

Por toda cidade, via-se pessoas gritando desesperadamente. As moças eram tiradas das suas casas sem se despedir das suas famílias, iam à força pelos soldados. O caos envolvia toda Susã e, ao perceber o que acontecia, Mordecai correu até a sua casa a fim de esconder sua prima. Viu que ainda estava em casa pela janela e suspirou aliviado. O escrivão entrou desesperado dentro do seu lar assustando a jovem.
  — O que houve Mordecai? — Perguntou com o cenho franzido.
  — O rei está tirando todas as jovens virgens das suas casas, parece que quer torna-las todas suas concubinas! — Disse ele de forma desesperada — Se esconda, vamos! – Enquanto ele a empurrava olhava para porta à procura de um sinal de qualquer soldado.
   se escondeu atrás de uma das paredes da casa e no mesmo instante entrou alguns soldados com um baque, quase quebrando a porta em pedaços.
  — Onde está a jovem que mora aqui? — Perguntou o soldado carrancudo sem cerimônia.
  — Jovem? Que jovem? — Mordecai se fez de desentendido — Aqui só mora um pobre velho, você não vê?
  — Eu não estou brincando! — Ameaçou o soldado apertando com força o pescoço de Mordecai em um simples movimento. O escrivão começara a sentir falta de ar e seu rosto ficava todo vermelho, mas ele não cedia.
  Sentindo o coração palpitar de dor, não via outra opção a não ser sair do esconderijo.
  — NÃO, POR FAVOR! — Ela gritou. — Eu vou, mas não machuquem Mordecai.
  Com um sorriso satisfeito, o soldado soltou o homem que quase caiu com as pernas bambas.
  — Ótimo. — Respondeu o soldado ríspido pegando o braço de com força, arrastando-a para fora de casa.
  — Eu quero um minuto com ela. — Pediu Mordecai entregando alguns dracmas para o soldado.
  O homem do rei contou as moedas rapidamente.
  — Um minuto. — Confirmou o soldado andando em direção à porta.
  — , não diga a eles que é judia. — Ordenou Mordecai em um sussurro. — Quando alguém perguntar seu nome diga que é , que é seu nome traduzido para o persa, de Susã. Assim você estará mais segura e...
  — Vamos! — O soldado puxou a jovem sem pestanejar.
   tentou gritar alguma coisa pra Mordecai, mas desistiu logo quando o soldado fechou a porta com força em seu rosto.

  

...

  

Desde que fora arrancada dos seus braços, Joel andava de um lado para outro desesperado dentro da casa de Mordecai, enquanto Rute chorava. O escrivão, entretanto, fitava a demonstração de tristeza dos seus amigos pensativo.
  — Mordecai! — Gritava Joel em revolta — Como eles podem? Tirar nossas filhas como se elas não tivessem valor? Para depois se deitarem com o rei como prostitutas? Como pode?
  — Joel, ele é o rei. — Aquela desculpa amargava na boca de Mordecai, mas, infelizmente, aquela era a sua realidade. Ele era o rei,ele podia qualquer coisa.
  A porta foi aberta com um estrondo e o escrivão começou a perguntar se como a madeira ainda não estava estraçalhada — com certeza ela estava sendo mais forte do que qualquer um ali.
   entrou ofegante e com suas vestes pingando a suor. Tentando regularizar a respiração, o jovem perguntou aflito.
  — Onde está ?
  — Ela se foi. — Disse Rute com lágrimas nos olhos — Igual a . — Ela olhou pra ele caindo em um profundo choro outra vez.

  

...

  

segurava a mão de que chorava desde que a encontrou no harém, uma casa enorme perto do palácio do rei. Ela e algumas jovens tentavam acalmar as virgens que estavam abaladas por terem se separado tão violentamente de suas famílias sem saberem ao certo o que faziam ali. A única coisa que elas sabiam era que o rei havia a convocado as mais bonitas virgens do reino para ser escolhida como rainha, mas ninguém imaginava que seria daquele jeito tão bruto.
  — Olá moças! — Cumprimentou Hegai, um homem baixinho, de pele bronzeada e careca com pequenos brincos nas duas orelhas. — Por que desse chororô? Alegrem-se vocês podem ser a próxima rainha do reino!
  — Vocês passaram um tempo aprendendo a se comportar na frente do rei e irei tratar da sua beleza. — Disse Zeres, uma mulher claramente beduína, ajudante de Hegai.
   sentou-se e deitou em seu colo ainda em soluços. Cada virgem se acomodou em algum canto na sala para ouvi as instruções dos dois atentas e curiosas.
  — Parem de chorar! — Hegai reclamou colocando as mãos no ouvido — Você! Quem é você? – Disse Hegai a .
  A jovem olhou para os lados perdida e engoliu o seco ao responder.
  — . de Susã.
  — Acalme sua amiga! — ele ordenou — Bem, está tarde, amanhã começaremos as preparações. Ainda há muitas outras garotas para chegar! — Disse Hegai batendo palmas — Vão pra suas devidas camas.

  

...

  

O quarto das mulheres era enorme. Havia incontáveis camas cobertas de linho pelo cômodo e janelas abertas, cobertas apenas pelas cortinas. Havia tochas nas paredes para iluminar tudo e, aos poucos, uma a uma escolhiam o lugar mais confortável para elas.
  — “ de Susã” Puf, papo furado. — Debochou aconchegando-se na sua cama.
  — Você sabe que são ordens do Mordecai. — Explicou ela em sussurros para que ninguém ouvisse.
  — Eu estou com medo. — Suspirou engolindo o choro. — E minha família? E ?
  — Medo? Medo de quê? Tenho certeza que eles não vão fazer nada com nossas famílias... Ou fariam? — Perguntou confusa, quase já se desesperando.
  — Nada, nada, vamos dormir. – Falou de uma vez se cobrindo com o cobertor.

  

...

  

Quando ouviu aquele plano ridículo de seu pai para conquistar o trono através de uma nova rainha, ele riu. Sua casa fedia a incenso que sua mãe insistia em pôr todos os dias e ele só queria deitar e dormir. Aquela ordem do rei o deixou dopado e apenas de pensar em nos braços do rei uma dor de cabeça horrível o atacava.
  — Tafnes? Vocês só devem está brincando! — Comentou incrédulo — Com toda certeza ela não é virgem! Ah, faça-me um favor! – Completou revoltado.
  — Quieto! — Falou Harbona, mãe de — Eu conheço poções que deram impressão que ela é virgem.
  — Porque tanta revolta, filho? Você não quer ser um dos maiores oficiais do reino? — Perguntou Amã arqueando as sobrancelhas.
  — Sim, mas não desse jeito. — Ele respondeu.
  — Não se preocupe, pai, meu irmãozinho está se sentindo ameaçado já que a moça que ele se encontrava a semanas atrás agora será do rei. – Falou Dalfom, irmão do oficial, de forma provocante — Bem, se Tafnes não der certo temos essa moça que estava cortejando.
  O jovem amalequita sentiu o seu sangue borbulhar. Ele cerrou o punho pronto para socar seu irmão e descontar pelo corte em sua bochecha de mais cedo, mas ele sabia que não podia — não na frente de seus pais. Levantou-se irado e marchou sem dizer mais nenhuma palavra em direção ao quarto.

Capítulo 4 - Tafnes, a egípcia

, isso é suicídio! Eu não vou ajudá-lo. — disse pela milésima vez ao seu amigo.
  O descendente de beduíno balançava a cabeça para os lados negando toda a ideia absurda de seu amigo em invadir o harém para resgatar . Pior mesmo seria se alguém pelas ruas e becos de Susã escutasse tal plano e falasse ao rei.
  — É só você me dizer onde é o harém, eu mesmo vou até lá e salvo a . — Falou tentando convencer o amigo.
  Seu amor pela jovem lhe deixara cego para ver a realidade: ela não seria sua. Não importava o quanto se esforçasse, o coração da judia estava longe de ser alcançado por ele.
  — , nem a ia querer que você arriscasse sua vida assim por ela! E se os guardas te pegarem? O rei vai tirar a sua vida e a dela! Você quer isso? – Perguntou ainda incrédulo com a ideia do amigo.
  — Está bem. — Ele suspirou — Eu não vou fazer isso.
  O jovem desviou o olhar ao mentir. Não se esqueceria daquela missão nem tão cedo e, mesmo que não tivesse a ajuda de seu amigo, seguiria com seu plano.

  

...

  

Pelos jardins extensos do palácio, o brutamonte de cabelos cacheados e barba segurava o braço de Tafnes a fim de que ela andasse mais rápido. Dalfom olhava para os lados atento a qualquer som de guardas vindo. A egípcia de grandes olhos cobriu-se com seu véu assim que sentiu os lábios do amalequita lhe dá um beijo rápido.
  — Vá e tente se enturmar. — Ordenou a empurrando para frente em direção à porta do harém.
  Tafnes suspirou e entrou na porta que estava meio aberta junto com os eunucos pagos por Amã para se infiltrar. Foi em direção ao grupo de mulheres que estavam na sala principal do harém onde Hegai ensinava as garotas com tanto afinco que não percebera a pequena movimentação.
  — Ande levemente, como se estivesse pisando em penas. — Falava Hegai mexendo os quadris, fazendo as garotas soltarem uma gargalhada alta.
  O eunuco cruzou os braços emburrado.
  — O que é que há? Já aprenderam é? Então venha, você! — Ele apontou a que logo desfez o sorriso — Você mesmo, qual é o seu nome? E quem você é?
  — A-. — engoliu o seco — Sou judia. — Respondeu nervosa e se levantou olhando para os lados.
  — Venha cá e finja que eu sou o rei. — Falou ele levantando o queixo.
   andou até ele confiante, mas ao se distrair ouvindo risadinhas, tropeçou nos pés de Hegai e levantou o olhar para ele desajeitada.
  — Não é assim! Se você fizesse essa falta de respeito com o rei perderia a cabeça! – Repreendeu Hegai — Todas vocês vão fazer isso até aprenderem. Vamos, você – Apontou pra Tafnes — Venha cá!
  Tafnes levantou o olhar frio e saiu andando com passos pesados e, segura de si, curvou-se devagar e depois se levantou ainda sem olhar nos olhos dele. Hegai se surpreendeu com a classe daquela garota. O eunuco olhou-a com atenção e pediu para ela olhar em seus olhos.
  — Seu nome é? — Perguntou Zeres.
  — Tafnes, sou egípcia. – Respondeu ela.
  — Você anda muito confiante para uma virgem qualquer, você não acha? — Disse Hegai desconfiado a rodeando enquanto prestava atenção em cada detalhe dela.
  — Nós egípcias somos treinadas desde criança a andar com postura. — Explicou ela com firmeza.
  — Olhos de gato. — comentou Zeres ao prestar atenção nos olhos dela. — Beleza típica egípcia.
  Hegai a olhou desconfiado, mas deixou aquilo passar e semicerrou os olhos à procura de outra menina para intimidar.
   olhava para a janela triste, pensando em como sua vida mudara nos últimos dias. Todo o seu sonho de ir à Jerusalém havia ido por água a baixo; ela nunca voltaria a sua cidade natal. Um espírito de revolta se estalava nela.
  Quem o rei pensa que é? Ele é apenas um rei, não o dono do mundo! Ele não pode dormir com todas as mulheres virgens do reino como se fosse o único que importa nesse lugar!
  — , o Hegai está te chamando. – Falou a cutucando com o cotovelo.
  — Parece que de Susã anda viajando em no mundo da deusa Hidra. – Disse Hegai fazendo as garotas rirem.
  — Desculpe, senhor Hegai, não vai acontecer de novo. — Desculpou-se .
  Tafnes deu um sorriso venenoso.
  — São essas garotas que eu estou disputando o reino? — Perguntou a egípcia para ninguém em particular.
  — Venha cá, mostre o que você sabe! — Incentivou Hegai a chamando com as duas mãos.
   respirou fundo e andou calmamente olhando para o chão até o eunuco. Ao perceber que estava à frente dele, o reverenciou e ficou de cabeça abaixa. Hegai estendeu um pedaço de madeira que supostamente era o cedro do rei, tocou o objeto e olhou para ele. Sem saber exatamente o que fazer ao sentir o olhar meio pasmo do eunuco em sua frente, ela sorriu encantando todos que olhavam pra ela no momento.

  

...

  

O mês que se seguiu atormentou como nunca em sua vida. Ele conhecia bem ; ela era linda, atenciosa e adorável. Se o rei fosse burro o bastante, talvez ela virasse apenas uma concubina, mas o jovem tinha certeza que não — o imperador poderia ser qualquer coisa, menos idiota.
   seria rainha, ele tinha certeza disso.
  Mas ele não podia deixar a mulher da sua vida fugir sem lutar e, em um ato de impulsividade, se levantou batendo a poeira da roupa disposto a resgatar sua amada.
  Era noite, todas as moças do harém dormiam. não conseguia dormir; seus pensamentos estavam turbulentos naquela noite. Aquele tempo que passara não a fazia se conformar com sua posição; queria sair correndo, mas sabia que seria impossível. Bufou enquanto ficava pensando o porquê de Deus ter a colocado ali.
   pisava devagar pelos arredores do harém aproveitando a escuridão que o escondia e a falta de vigilância dos guardas. Pôs-se atrás de uma coluna quando alguns oficiais passaram, entrou devagar no harém e viu que estava tudo escuro.
  Andou com o máximo de cuidado possível para não fazer barulho e entrou em um corredor. As tochas estavam apagadas e ele entrou na primeira porta que encontrou; viu um número infinito de camas em um dos cômodos, pisou devagar e foi até uma das mulheres que dormia.
  — ? — Perguntou ele cutucando-a. A mulher não mexera nem um pouco, olhou melhor e viu que não era ela. E repetiu o ato até a segunda fileira de camas.
  — ? — Perguntou mais uma vez. estava quase caindo no sono quando ouviu o seu antigo nome. Abriu os olhos e se assustou ao ver .
  — ! — Ela sussurrou em desespero — O que faz aqui? Se te pegarem você será morto!
  — , eu vim te salvar! — Respondeu ele sorrindo ao vê-la segurando seu rosto com as duas mãos.
  — , meu nome é agora. — ele a olhou confuso. pôs suas mãos sobre as dele para que as tirasse de seu rosto. Sentou-se na cama.
  — , você não devia está aqui! Saia o quanto antes, não quero que... — sussurrou olhando para os lados, tentando certificar-se que ninguém acordara.
  Tafnes levantou-se assustada e ao ver soltou um grito de susto.
  — HOMEM NO HARÉM! HOMEM NO HARÉM! HOMEM NO HARÉM!
  Automaticamente, várias garotas acordaram exasperadas e Hegai entrou no quarto com Zeres em seu encalço.
  — O que está acontecendo aqui? — Gritou Hegai entrando no quarto segurando uma lamparina.
  Colocou a mão no peito sobressaltado ao ver em pé com os olhos arregalados e os pés presos ao chão.
  — Guardas prendam-no!
  Os oficiais, que nunca eram autorizados para entrar no harém, a não ser por um motivo supremo, entraram em um estrondo e agarraram os braços do judeu antes que ele conseguisse correr até a porta.
  — Não! Não! Por favor, não! — Gritou sendo pego pelos guardas.
  — Porque você veio aqui, garoto? Você sabe que é proibido, isso é suicídio. — Alertou Hegai balançando a cabeça;
  — Eu vim resgatar a minha noiva! — Disse ele nervoso, olhou pra que pôs a mãos na boca engolindo o choro.
  — Quem é ela? Me diga! — Urrou Hegai com aparência nem um pouco amigável.
  — , mas ela não está aqui, por favor, me deixe ir! – Implorou .
  — Leve-o para o rei ! — Ordenou o eunuco, se debatia em vão contra os guardas gritando por misericórdia.
   deixou lágrimas caírem sentindo uma dor insuportável no peito. seria morto, ela tinha certeza disso. Seus joelhos cederam e ela caiu sentada na cama.
  — , por que tá chorando? Você conhecia aquele rapaz? — Perguntou Tafnes desconfiada.
  — Não, ela só está com pena dele e assustada. – Mentiu , aparecendo do nada ao seu lado e abraçando a amiga. Tafnes lançou um olhar insatisfeito com a resposta. Ai tem coisa.
  A jovem judia deitou-se na cama e seus pensamentos foram à tona. Não conseguiria dormir naquela noite, pois perturbava seus pensamentos sobre a quase certeira morte do , seu melhor amigo.

Capítulo 5 - Amalequitas não são bem-vindos

As grandes portas do salão real foram abertas revelando dois soldados que ficava em serviço do harém. Suas pisadas fortes faziam barulho em toda sala chamando a atenção dos que estavam no recinto. Aquela hora da noite já haviam sido fechadas as grandes janelas que faziam a arquitetura do salão ficar cada vez mais tenebroso. O rei estava pronto para se retirar para seus aposentos e se assustou ao ver os soldados entrarem sem sua autorização.
  — O que está acontecendo aqui? — indagou com a testa franzida ao ver um homem tentando se soltar dos seus soldados em desespero.
  — Ele foi pego invadindo o harém, rei. Ele estava atrás da noiva dele. — Falou um dos soldados jogando o nos pés do rei sem nenhuma delicadeza.
  — Isso é um absurdo! — comentou Memucã indignado — Nenhum homem pode entrar no harém!
  O imperador apoiou seu cotovelo no joelho baixando um pouco a cabeça. tremia e estava incapaz de levantar o olhar.
  — Quem era sua noiva? — Perguntou.
  — ... — Ele engoliu o seco evitando o olhar do rei — Mas ela não estava lá, meu rei, por favor, eu imploro me deixe ir! — pôs seu rosto em terra desesperado.
  Ele sabia que morreria, a sentença que o rei dava a afrontas como aquela eram sempre desastrosas. Lamentou-se por não ter ouvido os conselhos de seu amigo e sentia o peso das consequências em suas costas.
  — Meu rei, se me permite... — Disse Memucã aparentando estar mais calmo — Tenha compaixão com o jovem, ele queria apenas resgatar sua amada, por mais que tenha sido idiotice.
  — Você está certo, Memucã. — Concordou o rei .
  — Mas não podemos o deixar impune, meu rei. – Acrescentou Amã.
  — Está certo. — O imperador coçou a barba. — Não irei manda-lo para à forca.
   não evitou sorrir por alivio. Entretanto, sabia que o rei não havia acabado de falar quando ele puxou um pouco do ar para continuar.
  — Por entrar no harém, o lugar onde apenas mulheres podem entrar, você será sentenciado a virar eunuco e trabalhar lá todo o resto de sua vida. — O jovem desfez o sorriso sentindo o coração palpitar de terror.
  — Não, por favor, isso não! Não! Não! — Gritava enquanto era levado pelos guardas para fora do salão.
   passava pelos corredores vendo-se como o homem mais miserável do mundo, sua vida praticamente acabaria ali. Entrou no cárcere escuro e sombrio e pensou como seria se ele não tivesse tido essa ideia absurda de salvar . Seus pensamentos foram interrompidos quando um soldado entrou na prisão com uma navalha em sua mão.

  

...

  

Era de manhã, como de costume, todas as garotas estavam do lado de fora do harém comendo e tomando banho de sol, apenas estava dentro da casa. Seus olhos estavam inchados por ter passado a noite toda chorando e, em vez enquanto, lágrimas ainda saiam do seu rosto. Ela desejava sair dali e ver pela ultima vez antes que fosse morto.
  — Senhora Zeres mandou-lhe essas frutas. — Ouviu a voz de um dos eunucos e levantou a cabeça já preparada para negar quando olhou para o rosto da pessoa atrás de você. De imediato, as lágrimas inundaram seus olhos quando o reconhecimento lhe atingiu.
  — ... — Ela sussurrou pondo suas mãos na boca para não voltar a chorar — Isso tudo é culpa minha! — Disse em prantos — Você devia casar, ser feliz, ter filhos e agora nem é considerado homem pela sociedade!
  — Eu escolhi isso, . — Ele se agachou na sua altura — Essa foi a minha escolha.
  — É agora. — Ela desviou o olhar decepcionado.
  — Eu queria te fazer feliz, queria que você me amasse, mas isso não é possível. – Ele segurou sua mão — Você nunca me amou do mesmo jeito, eu tenho que me contentar com isso. Agora percebo. — Ele se levantou — Coma, não quero que você fique fraca, com licença.
   queria que tudo aquilo não tivesse acontecendo; queria não ter que ser concubina do rei pra sempre, queria está em Jerusalém agora, queria que o casasse com alguém que o amasse de verdade, mas seus desejos não iriam se realizar, afinal, por que Deus a colocou naquele lugar?

  

...

  

andava pelo jardim do palácio se afastando aos poucos inconsciente. Observava as cores que deixavam tudo parecer mais colorido do que a barraca de tecidos de seus pais. Olhou pra trás por instinto e viu que já estava muito afastada das garotas a ponto de quase não vê-las mais. Enquanto andava de costa sentiu bater em algo, ou melhor, alguém.
  — ? — Ouviu uma voz familiar, a voz que ela havia apaixonado, a voz que tanto conhecia.
  — ? — Ela o abraçou com todas as forças.
  — Pensei que nunca mais ia vê-la! — Disse ele a segurando pelos braços com um semblante feliz.
   tocou no rosto de com as duas mãos e a beijou. O amalequita a empurrou em uma árvore tocando seus lábios com ferocidade. Não sabia o efeito que a saudades o causara até sentir as pequenas mãos de sua amada tocar-lhe. arquejava e soltava gemidos ao sentir os lábios macios dele beijarem seu pescoço.
   não aguentava mais aquele monte de tecido lhe impedindo de sentir o corpo da judia perto do seu e, assim que teve a oportunidade, desatou o nó da faixa que segurava seu vestido e se surpreendeu quando não o repeliu e sim o ajudou a se despir.

  

...

  

Depois de recompor-se e comer algumas tâmaras, decidiu conversar com e avisar para ela que continuava vivo; entretanto, mesmo esticando o pescoço e tentando encontra-la naquele mar de mulheres não tinha nenhum sinal de sua amiga. Distraída, não percebeu quando a egípcia se pôs ao seu lado.
  — , o que tanto procura? — Perguntou Tafnes.
  — Nada. — Respondeu mecanicamente ainda sem olhar pra a egípcia.
  Tafnes ainda estava pensando no que havia acontecido entre e o homem que havia entrado no harém. Aquilo estava a perturbando e a procura pelo “nada” da jovem apenas lhe fazia criar hipóteses em sua cabeça.
  O rosto da judia se iluminou ao ver arrumando seu vestido.
  — , onde você estava? — Perguntou indo em direção à sua amiga.
  — Eu? Por ai. — Ela respondeu ao ver que Tafnes mirava-as com seus olhos de gato.
  Quando virou-se para checar o que sua amiga tanto fitava, Tafnes desviou o olhar para a mesa a dois metros dela.
   puxou sua amiga para um lugar mais reservado no jardim onde ninguém poderia a escutar e sussurrou.
  — Eu estive com o . — Disse animada — Ele disse que vai me resgatar!
  — , você está maluca? Por que continua a se encontrar com esse rapaz? Se o senhor Hegai descobri? — Falou preocupada — Você quer que também seja eunuco é? Ou pior, que ele seja levado à forca?
  — Calma, ! — Respondeu — Relaxa. Espera! Eunuco... Também? O que você quer dizer com...
  — Garotas, vamos entrar! — Interrompeu Hegai — Banho de mirra pra todas! — Disse animado.
  As mulheres rapidamente entraram e foram até a grande piscina do harém. Apenas ao adentrar ao cômodo era possível sentir o delicioso perfume de mirra. Elas tiraram suas vestimentas com ajuda das servas e mergulhavam;
   fechou os olhos e enfiou-se por meio da água. A jovem tentava esquecer tudo que estava acontecendo, o fato do ser eunuco e que não iria pra Jerusalém. Ela sempre pensava que encontraria o amor da sua vida, que seu coração seria conquistado por alguém antes de tudo. Era horrível pensar que seria forçada a dormir uma vez com o rei e nunca mais o veria, afinal, porque ela seria rainha? Com certeza Tafnes seria coroada. Por mais que ela não gostasse a ideia de tê-la como imperatriz, admitia que ela tinha a beleza que uma rainha deveria ostentar.

  

...

  

O imperador bocejou e se sentou largado no trono. Olhou para o lado e percebeu que Ananias aparecera em frente da porta de trás, um snal discreto que alguém estava do lado de fora.
  — Quem está lá fora? — Perguntou.
  — O oficial veio da região do oeste falar com o senhor, meu rei. – Respondeu Ananias se retirando logo após para chama-lo.
   entrou no salão real com um sorriso no rosto, um sorriso bastante conhecido pelo que era amigo desde criança dele. Arrumou a espada que segurava na bainha e andou em passos decididos até o rei fazendo uma leve reverência ao chegar perto.
  — , quanto tempo não? — Disse se levantando para cumprimentar o amigo — Como vão as coisas por lá?
  — Vai bem, imperador. — Respondeu ele apertando sua mão.
  — Ótimo, porque tenho uma proposta para você. — Falou — Eu quero pedir pra que você fique aqui e seja o capitão da guarda real. — Sorriu de forma persuasiva.
  — Mas como ficarão as províncias do oeste? E Balak? Ele desistiu de seu trabalho? – Desatou em perguntar o oficial.
  — Balak está velho, é mais do que a hora de se aposentar. Você ficará responsável pela segurança do palácio e da fortaleza de Susã e qualquer homem que você indicar se tornará chefe da guarda das províncias do oeste. — Explicou o rei sorridente.
  — Tudo bem. Será uma honra servi-lo por aqui. — ele concordou profissionalmente.
  — Quero que more aqui no meu palácio o quanto antes. Bigtã e Teres lhe levará pra seus aposentos. Você e sua esposa serão bem recebidos... Já tem filhos?
  — Eu ainda não sou casado. — Disse o oficial um pouco constrangido.
  — Não? — O rei franziu o cenho — Você ainda não se agraciou por nenhuma mulher? Há tantas no reino... Quem sabe você não encontra alguma por aqui? — Sugeriu o rei cutucando o com o cotovelo — Bem, vá até e os seus aposentos, você deve está cansado de viagem. Bigtã! Teres! Vão! – Ordenou o rei chamando os respectivos eunucos que aguardavam suas ordens no canto do salão.

  

...

  

Joel carregava alguns tecidos novos para levar a sua venda quando avistou Dalfom, um dos amalequitas, na sua barraca. Ele conversava algo com sua esposa de forma quase ameaçadora despertando uma fúria no judeu. Determinado em expulsá-lo, apressou o passo.
  — O que faz aqui? Amalequitas não são bem-vindos! — Gritou Joel ao vê-lo.
  O amalequita olhou o judeu de cima pra baixo com nojo.
  — É uma pena que sua filha não pensa isso. — Ele coçou a barba — Eu só queria avisar que a sua querida filha estava se encontrando com meu irmão desde antes de entrar no harem. — Falou Dalfom extremamente sínico.
  — Impossível! Minha filha... — Joel olhou para sua mulher. Rute estava assustada e olhou desconfiada para ele — Você já sabia disso, Rute? Eu não acredito minha própria família está contra mim!
  — O ar daqui está ficando poluído. — Dalfom fez uma careta e se retirou em seu andar pomposo.
  O judeu fitou a sua esposa atônito.
  — Eu posso explicar... — Aquelas palavras a denunciaram.
   estava se encontrando com uma daquelas amalequitas que ele odiava. Aquele fato fez seu sangue ferver e a dor do desapontamento perfurar seu coração.
  — Cale a boca. — Resmunou o homem para sua mulher e jogou os tecidos em cima da barraca. Sentindo que iria explodir a qualquer momento, Joel saiu com passos pesados pela multidão do comércio deixando sua esposa falando sozinha.

  

...

  

andava pelas ruas de Susã despreocupado. O movimento estava grande e vez ou outra ele parava para checar algumas frutas que eram vendidas apenas para conhecer melhor a cidade. Parou subitamente quando um homem com quipá passou como um raio em sua frente. Alguém, no entanto, não teve o mesmo reflexo, batendo com força em suas costas. Rapidamente o oficial se virou e segurou os braços da mulher que segurava um jarro em uma das mãos.
  — Oh, desculpe-me. — Disse ele.
  — Não foi nada. — Falou ela evitando olhar nos olhos dele.
   moveu sua cabeça para ver melhor seu rosto e se perdeu em olhos marcantes e sombrios, cheios de temor da mulher. Ela tinha um corpo esbelto e não parecia ser muito nova.
  — Está tudo bem, não precisa ter medo. — Assegurou ele, a mulher soltou um sorriso tímido.
  — Obrigada. — Ela levantou seus olhos e finalmente encarou-o.
  — Eu... — Disse começando a se apresentar.
  — ! — Alguém a chamou, uma voz alta e forte. — ! Onde você está?
  — ? Esse é o seu nome? — Indagou o .
  — É, esse... — ela olhava pra trás parecendo nervosa — Eu tenho que ir. — apressou os passos segurando o jarro contra seu corpo.
   continuou olhando-a até se desaparecer em meio da multidão. Com certeza não tinha visto beleza igual em toda sua vida. Pensou em segui-la, mas juntou as peças: ela era uma moça casada só pelo fato de não está no harem junto com as outras mulheres virgens. Balançou a cabeça pensando que assim pararia de criar teorias sobre a mulher que tinha esbarrado.
  Não poderia estar mais enganado.

Capítulo 6 - A filha de Memucã

O jardim do palácio costumava ser sempre vigiado por guardas que perambulavam entre as árvores, porém na troca de guarda sempre possibilitava alguns minutos até que tudo normalizasse. Sabendo disso, olhava para os lados para ter certeza que estava sozinho naquela parte desértica do jardim. O amalequita caminhou a passos largos até a porta do harém repassando o plano para resgatar em sua cabeça — apenas conseguia pensar nela em seus braços desde a última vez que esteve a segurando como se sua vida dependesse dela.
  — Onde você pensa que vai? — Perguntou Dalfom com a mão no peito de , assustando-o.
  — A lugar nenhum. — Ele desviou de seu irmão e continuou andando.
  — Se você fazer qualquer gracinha com a judia eu conto tudo ao nosso pai, e com certeza ele fará tudo pra que ela morra. — Dalfom falou de cinicamente.
   estremeceu parando no meio do caminho. Virou o rosto e olhou para seu irmão com ódio. O amalequita nunca entender o porquê de seu irmão sempre querer estragar a sua vida.
  — E o rei ia adorar saber sobre a nossa querida Tafnes, não é? — Ele sorriu sem humor – A sua querida Tafnes, lembro-me do dia em que entrei em casa e você e Tafnes estavam, vamos dizer assim: com trajes deixando a desejar... — Ele soltou uma risada.
  — Faça isso e eu lhe matarei! — Ameaçou Dalfom apertando o pescoço de em um golpe rápido — Você acha que eu ligo se você é meu irmão ou não? Eu não sou nenhum religioso! — Ele soltou o pescoço do seu irmão fazendo o cair no chão e saiu andando sem olhar para trás.

  

...

  

olhava para os lados à procura da . Nas últimas três semanas, depois de comer, sumia e depois voltava com uma felicidade súbita. A judia sabia o que acontecia e não apoiava isso. Era bonito o amor dos dois, porém temia que alguém os descobrisse.
  Diferente dos outros dias, se aproximou de com uma feição decepcionada.
  — Aconteceu algo? — Perguntou a amiga preocupada.
  — não veio. — Ela bufou.
  — Vai ver entrou um pouco de juízo naquela cabecinha oca. — Comentou indo em direção à mesa de comida que havia no meio do pátio do harém.
   pegou um prato e olhou em volta da mesa ponderando no que comer; mas, ao ver que o atrativo principal era porco, ela sentiu o estômago revirar por ter um animal tão imundo como aquele para comer.
  — Arg, porco! — Resmungou ela colocando o parto de volta do lugar.
  — Não vai comer porco, ? — Perguntou Tafnes, curiosa. — tudo bem, porque ela é judia, mas e você?
  — Eu só não estou com fome, Tafnes. — Respondeu firme.
  Hegai bateu palmas atenção.
  — Meninas! — Ele disse — Entrem, vamos ensinar a vocês mais sobre comportamento, entrem! – Incentivou animado.

  

...

  

— Acredito que seja apenas isso, . — Concluiu o rei ao discutirem sobre a segurança do palácio durante a chegada dos líderes amonitas para uma reunião com o rei.
  — Tudo bem. — Falou o capitão fazendo um pequeno aceno com a cabeça.
  Entretanto, ele continuou ali encarando o jovem imperador, se perguntando se tirar suas dúvidas sobre a mulher misteriosa que rondava em sua mente nas últimas semanas.
  — Mais alguma coisa? — Indagou o rei, sugestivo.
  — Bem... — Ele coçou a garganta. — Estava imaginando se o senhor não conheceria algum oficial casado com uma mulher chamada .
  — ? — Memucã, que parecia alheio a conversa bebendo seu vinho, despertou um pequeno interesse. — Onde você a conheceu?
   coçou a garganta se sentindo desconfortável.
  — Há algumas semanas esbarrei nela sem querer. — Comentou tentando demonstrar desinteresse em seu tom de voz — Apenas fiquei curioso, ela parecia nobre.
  — A única que conheço dessa cidade é a filha de Memucã. — Respondeu o rei. — Mas ela não é casada. Talvez você confundiu o nome dela.
  — Tenho certeza que escutei chama-la de . — replicou.
  — Ela estava sozinha? — Perguntou o primeiro ministro curioso.
  — Sim, segurava um jarro de barro. — Explicou .
  — São poucas informações, não acha? — Comentou o homem. — Talvez lhe apresente minha filha e você me dirá se é ela ou não.
   assentiu.
  — Tenho certeza que gostará de conhecer , ela é uma mulher encantadora. — Disse um dos conselheiros mexendo o pouco que restava do vinho em seu cálice. — E é solteira, aliás.
  — Não se anime muito, capitão. Não é qualquer homem que casará com . — Advertiu Memucã, sádico.
  O rei soltou uma risada.
  — Bem, acho que isso é tudo.
— Finalizou o rei.    acenou e saiu pensando se comentar sobre naquele momento foi uma boa escolha.

  

...

  

Joel se sentia devastado — nunca imaginara que sua filha se envolveria com um amalequita. Aquele povo, desde a época de Moisés, perseguia os hebreus por pura ganância. Não havia um motivo para o ódio entre esses povos a não ser um sentimento de derrota que os filhos de Amaleque traziam em seu coração.
  O judeu sabia que em algum momento ele teria que perdoar sua filha. Não podia odiá-la, era a única que poderia continuar sua descendência. Entretanto, pensar em casando-se com um amalequita lhe causava nojo e mal estar.
  Por esse motivo, Joel decidira concentra-se em sua raiva e decepção pelas próximas semanas.

  

...

  

fitou as costas de sua amiga procurando o brinco pelos arredores do harém. Ela pensou em se oferecer para ajudar, mas as palavras de naquela manhã a deixaram pensativa.
  “Não aguento mais ter você comigo apenas às escondidas!” disse ele “Mas meu irmão não está me vigiando, não posso fugir com você.”
  Ainda podia senti as suas grandes mãos calejadas segurando seu rosto.
  ‘‘Eu te amo e vou tirá-la daqui.”
  Era o que a judia mais desejava nos últimos dias. Se sentia sufocada no harém, por mais que tivesse uma comida divina, não aguentava mais aquele lugar. Entretanto, pensar que estava arriscando-se depois do que tinha acontecido com a deixava apreensiva. Por ele, poderia esperar até a eternidade, desde que não machucassem seu amado.
  Dentro do salão do harém vazio, Este procurava um dos seus brincos que tinha caído impaciente. De repente, um gemido foi escutado pela judia. Curiosa, ela se aproximou das colunas do cômodo procurando de onde vinha aqueles barulhos. Sua curiosidade, no entanto, foi substituída por susto quando avistou Tafnes com o vestido levantado e as pernas ao redor da cintura de um oficial. Facilmente identificou-o com Dalfom, irmão de — conhecia aquele cabelo enroladinho de longe.
  — Tafnes? — Falou com os olhos arregalados.
  Dalfom afastou-se de Tafnes assustado sem saber o que falar para a judia.
  — O que vamos fazer? Ela vai nos dedurar! — Disse Dalfom receoso, ignorando a presença da garota.
  — Deixa que eu resolvo. — A egípcia falou entediada — Vai, vai, vai. – incentivou Tafnes empurrando o amalequita — E você — Ela se virou para — Se você contar ao senhor Hegai...
  — Não se preocupa, Tafnes, eu não contarei nada ao senhor Hegai. — Ela respondeu rapidamente. Nunca foi dedo duro e sabia que não ganharia nada com isso.
  — Que ótimo! Até porque imagina só a cara do Hegai ao saber que sua amiguinha judia está dando umas saidinhas, hein? — Falou Tafnes fazendo enrijecer. — Isso mesmo. Sei do que sua amiga tem com . — Concluiu saindo de lá e com um sorriso debochado.
  Com o coração acelerado, fitou as costas da egípcia desesperada. Ficar com a boca fechada nunca foi tão requisitado nos últimos tempos.

Capítulo 7 - Tempo

andava pelo jardim da casa de Memucã ansioso. Nunca tinha se posto àquela situação e ele só conseguia achar aquilo extremamente ridículo. Por que estava com as mãos suando, afinal? Por que estava exasperado enquanto pensava em uma mulher qualquer?
  Quis dá um soco em seu próprio rosto por ter escolhido aquelas palavras.
  Era claro que não era uma mulher qualquer.
  Ele primeira vez que vira uma mulher e desejava aquilo; queria a cortejar, pagar seu dote e casar-se com ela. Esse era seu plano.
  E depois do que o primeiro ministro alertou sua preocupação em o que fazer na presença da mulher aumentou gradualmente.
   não era virgem, mas isso ele já tinha deduzido. Por mais que se sentisse incomodado com a ideia da sociedade a considerando desonrada e a olhando com desprezo, o capitão não se incomodava, principalmente depois de descobrir que a sua falta de castidade não vinha de uma atitude para envergonhar a sua família.
   sentia o sangue ferver apenas ao imaginar que havia sido violentada ainda menina; uma criança! E o pior: por seu professor de harpa que pedira para casar-se com ela. Era confortador saber que Memucã não concordava com aquele costume e, por mais que ele não tenha confirmado, o capitão tinha quase certeza que fora ele quem encomendou a morte sem pistas do professor de música.
  Aos olhos de a morte era tudo que homens perversos como aqueles mereciam.
  Quando se virou deteve-se nos olhos da mulher. Não havia muito temor como da primeira vez que a vira e ao ver a expressão de curiosidade de soube na hora que ela o reconhecia.
  — Esse é o amigo que eu falei, minha filha. — Disse Memucã.
  — Capitão , prazer. — ele acenou — Mas prefiro que me chame se oficial. Não consigo me acostumar com essa formalidade. — comentou.
  — Prazer, meu nome é . — Respondeu segurando seu olhar.
  Os segundos se passaram constrangedores para o primeiro ministro que fitava a troca de olhar dos jovens em sua frente sem entender muita coisa. Era uma conversa silenciosa em busca de uma confiança pré-instalada neles.
   não esperava ver aquele homem de novo, mas deixara seus pensamentos levarem as possibilidades de encontro, contudo imaginava que o homem estranho era nada mais do que um mero oficial do rei que andava perdido pelas ruas de Susã. Seria mentira dizer que a mulher não sentiu feliz em saber que o reencontrara, principalmente porque ele fora o primeiro homem do rei que não a tratara de forma ofensiva. Não era de se admirar que ele era capitão, os outros soldados eram homens brutos e totalmente sem escrúpulos. Enquanto ouvia o diálogo entre seu pai e o homem não conseguiu desviar de seus olhos. sentia um coisa estranha no estômago ao perceber que ele a fitava do mesmo jeito e, mesmo com aquela postura séria, ela não se sentia repelida — pelo contrário, estava sendo atraída mais e mais a ele.
  — Acredito que a mudança do dia do festival é algo vantajoso. — Comentou Memucã.
  — Estou certo que sim — Respondeu o jovem capitão.
  A mulher sabia o porquê de seu pai ter o convidado para conhecê-la e ideia não era de toda ruim. já havia passado da hora de se casar e todos sabiam que ela não era mais virgem — uma vergonha para sua família — entretanto, o primeiro ministro nunca a entregaria para um homem qualquer apenas para tirar o peso da família.
   foi o primeiro pretendente que tivera que não a desagradara.
  Antes que perceber-se, ela estava lá aceitando sofrer aquilo de novo, mas pelo seu pai. Precisava retribuir o favor de ter cuidado dela por tanto anos, mas antes, precisava tirar a prova a limpo.
  — Oficial — chamou a mulher — O que você acha sobre o papel da mulher na socidade em que vivemos?
  O capitão levantou as sobrancelhas, surpreso pela pergunta, enquanto o primeiro ministro deu uma risadinha ao ver que sua filha entendera o recardo — bastava agora o oficial responder certo.
  — Acho que elas são cruciais para nossa sociedade. — disse ele lembrando-se vagamente de ouvir essas palavras de seu pai já morto — Não só na parte dos filhos e cuidar da casa, mas se elas não controlassem nós, homens, estaríamos perdidos. Aparentam ser frágeis, porém as aparências podem enganar.
  — Que pensamento modernista, capitão. — Disse Memucã fitando sua filha totalmente abalada pelas palavras do homem que acabara de conhecer.
  O homem virou-se para e se segurou para perguntar se ela estava bem. A filha de Memucã parecia perturbada e tinha um brilho quase insano no olhar. Nunca imaginou que um dia escutaria aquelas palavras e a simpatia que sentia pelo capitão aumentou graduadamente.
  Depois de se despedirem, no momento em que estava sozinha com seu pai, ela disse.
  — É ele.
  Seu pai coçou a barba branca com um sorriso conspiratório.
  — Eu já sabia.

  

...

  

Aquele tratamento de beleza que as mulheres do harém passavam deixava desconfortável. No começo era interessante e novo, mas com o tempo tudo ficou tediante. Sentia falta de passar as manhãs fazendo alguma coisa de útil em sua casa ou sentar para ler para as crianças da cidade. Ainda tinha a saudade que sentia de seu primo e pai adotivo. Não fazia a menor ideia de como estava lidando com a separação e o possível fato de nunca revê-lo.
  Apenas em pensar nisso, sentia um tremor em seu corpo.
  Estava ali para se deitar com o rei e depois ser esquecida pelos cantos do palácio. Nunca veria seu primo outra vez ou conheceria Jerusalém — aquela altura, não ir a sua cidade natal era o de menos. Pensar em ter que se entregar para um homem que não conhecia e idólatra.
  Ao seu lado, mantinha-se calada enquanto as servas passavam um tipo de óleo em seu corpo. Desde o dia que avisara que não poderiam mais se encontrar, a jovem começou a ser mais cautelosa.
  Tinha quase certeza que seus pais já sabiam sobre seu relacionamento; receio do que eles sentiam e falta que faziam lhe corroía por dentro. Entretanto, não perdera as esperanças em fugir do harém — nem mesmo cogitava a possibilidade de dormir com o rei, mesmo que já se passassem meses. Entretanto, havia uma pontada de medo de ser descoberta no fundo de seu coração, e ela faria de tudo para esconder.

  

...

  

Todo o dia Mordecai passava pelo pátio que separava o harém do palácio à procura de informações sobre e . havia se tornado o seu principal mensageiro, fazendo-o se sentir mais calma em relação a sua filha adotiva. Mesmo que não lhe chamasse de pai, fora criada como descendente seu. Desde sempre a menina tinha empatia com ele e, depois de perder seus pais, o primo foi tudo que restou de sua família.
  Naquele dia atípico, Mordecai levava alguns pergaminhos para os magos do palácio. Fazia apenas minutos que tinha se informado sobre como se sentia e estava grato por saber que ela estava bem.
  No caminho do corredor, cumprimentava conhecidos e aqueles que desconhecia acenava por educação. Chegando perto da sala do curandeiro chefe e sua assistente, Amã saiu de uma das salas. Rapidamente os guardas o reverenciar em respeito, mas Mordecai continuou ali de cabeça erguida.
  Havia algo em Amã que deixava o escrivão perturbado; talvez fosse aqueles olhos escuros e maldosos ou o seu andar pomposo pelos cantos. Nem mesmo o rei que ea considerado um homem orgulhoso andava com tanta avidez.
  Continuou andando ao seu destino quando sentiu a mão do ministro do rei segura-lhe o ombro.
  — Me reverencie! — Disse o homem com rispidez.
  O escrivão era baixinho perto daquele homem com porte de guerreiro e o símbolo persa que carregava no peito, entretanto, Mordecai não se abalou e fitou seus olhos sem hesitar.
  — Apenas devo-me reverenciar ao Deus vivo e ao meu rei em respeito. — Falou com a voz firme.
  O corredor ficou silencioso e Amã enviou olhares para o judeu contendo toda sorte de palavras torpes. Vendo que Mordecai não se abalava empurrou o seu ombro e saiu pisando duro pelo palácio.
  O escrivão teve um pouco de dificuldade para manter o equilíbrio e acabou deixando cair três pergaminhos. A assistente do curandeiro apareceu e o ajudou a juntá-los.
  — O senhor não deveria bater de frente com um homem como Amã, Mordecai. — Disse ela, assim que se levantaram.
   era uma mulher bonita de traços beduínos, entretanto, não sorria muito. Havia se tornado viúva cedo e logo fora trabalhar no palácio para ficar mais perto de seu irmão.
  — Tenho meus princípios, não vou me submeter a essa afronta ao que acredito por causa de um homem qualquer. — Respondeu o escrivão entregando todos os pergaminhos.
  — Obrigada. — Agradeceu a mulher — Saagaz prometeu me entregar pessoalmente, mas ele está muito ocupado.
  Mordecai deu um sorriso compreensivo se perguntando quando começaria a chamar seu irmão pelo nome que escolhera para si. Ananias um dia poderia se zangar por causa daquilo.

  

...

  

Memucã não se surpreendeu quando, semanas depois, o capitão da guarda real lhe procurou para saber qual o valor do dote de sua filha; também não ficou nem um pouco surpreso no momento em que dissera a e a vira fiar animada com aquela ideia.
  A única coisa que não esperava foi o desejo do jovem capitão ao querer cortejá-la por mais um tempo. O primeiro ministro sabia que a parte do cortejo era a mais deliciosa fase da juventude, mas tinha consciência que passar por ela era torturante e enchia qualquer um de ansiedade — ainda mais um oficial, que costumava sempre se envolver com diversas mulheres. Decidiu, então, que aquele era apenas mais um costume das bandas do oeste que o capitão trouxera para a capital do Reino Persa.
  , contudo, não poderia ter ficado mais encantada com a atitude do rapaz. Por mais que tivessem pouco tempo juntos, ele sempre mantivera as mãos atrás das costas, em uma distância razoável e mostrava gostar da companhia da mulher, mesmo em eventuais silêncios que os acompanhavam em seus encontros. tentava ser o mais cordial possível e amizade e companheirismo cresceram no casal sem que dessem conta.
  O capitão não estava com pressa para casar-se com ela, pois sabia que não se deitaria nem tão cedo com a mulher. Respeitaria seu tempo, seja ele qual for, pois, depois de conhecer a filha de Memucã, sentia uma necessidade estranha de protegê-la e a deixar confortável. Embora tivesse curiosidade de sentir o sabor de seus lábios e conhecer o que ela escondia debaixo de seus longos vestidos e véus, a boa educação que recebera do pai não o permitia tocar na moça sem seu consentimento.
  Na última noite como noivos, o minuto em que os servos que os acompanhavam se distraíram, o capitão confidenciou.
  — Esperarei o tempo que for preciso.
   fez o parar para fitá-la. A mulher sentiu um alívio tão grande no peito que não conseguiu evitar o suspiro.
  — Obrigada, oficial. — Dissera ela o chamando pelo nome sugerido, mesmo que senti-se que capitão era o nome perfeito para chamar alguém como ele.
   sorriu e esticou a mão para tocar seu braço para fazer um afago íntimo. Por reflexo, encolheu-se com aquele toque assim que sentiu os dedos calejados do homem toca-lhe pela primeira vez. Assustado e com um sentimento recluso dentro dele, o capitão afastou rapidamente.
  — Desculpe-me. — Disse às pressas.
  A mulher quase chorou de frustração, para ela, era ridículo ainda ter tanta dificuldade de receber um simples carinho, principalmente pelo homem que seria seu marido.
  No outro dia, na pequena festa que fizeram em comemoração ao casamento, passou a maior parte do tempo com o sentimento de está deslocada. O olhar acusatório que recebia das pessoas por não estar tendo um casamento de verdade lhe deixava desconfortável; mesmo que repetisse para si que não era sua culpa aquilo, às vezes achava que ela poderia ter evitado que tivesse acontecido isso.
  Decidiu, então, manter-se ao lado do seu futuro marido que sorria como nunca. Sua gargalhada era ouvida nas conversas entre seus amigos, antigos oficiais, ao contrário de seus homens, que eram sempre cumprimentados seriamente por ele. A mulher deduziu que aquilo era como lidava com a autoridade, entretanto, fazia questão de ser simpática com todos os convidados do noivo.
  Ela não poderia negar que sentia uma quentura entranha no peito quando, diante de todos, demonstrava orgulho em ter se casado com ela. Não sabia a mulher que cada vez que ela sorrira, fosse para os convidados ou para seu noivo, mais aumentava a certeza do capitão que casar com era a opção certa.
  Depois que a festa acabou e os dois receberam a bênção de Memucã e dos deuses, a levou para o palácio, onde estivera morando desde que se mudara para Susã. No caminho, em um silêncio confortável, não podia ficar mais nervosa. Sabia o que o capitão confidenciara, mas o medo de que ele tentasse alguma aproximação e ela recuasse como um filhote desprotegido lhe perturbava. Ao chegar aos aposentos de seu marido, admirou-se ao perceber que era quase do tamanho de uma casa — sabia que o palácio era enorme, mas não daquele jeito.
   apresentou os quartos, a pequena sala e uma cozinha pequena que aparentemente fora intocada. Explicou que geralmente comia com o rei, por isso os servos geralmente não cozinhavam apenas para ele.
  — Amanhã lhe apresentarei suas servas e elas buscaram suas coisas em sua casa, está bem? — Explicou o capitão.
  A mulher concordou sem dizer nenhuma palavra quando ficaram em frente ao quarto bem arrumado coberto por lençóis vermelhos como sangue; o lugar onde os dois dormiriam.
  Automaticamente sentiu seu corpo ficar tenso e o coração palpitar no peito, entretanto, não era uma sensação toda ruim. Dormir na mesma cama que alguém requeria uma intimidade e confiança que apenas marido, mulher, pais e filhos poderiam ter. Será que quando eles entrassem tentaria beijá-la ou agarrá-la? Ela sentiu um bolo subir a garganta com aquele pensamento.
  Contudo, arqueou as sobrancelhas quando saiu de frente da porta atravessando o corredor em direção ao outro quarto.
  — Boa noite. — Desejou ele abrindo a porta.
  — Mas... Você não vai dormir comigo? — Perguntou confusa.
  O capitão acompanhou sua expressão, não entendendo o porquê da sua pergunta.
  — Pensei que preferisse ficar sozinha. — Respondeu não entendendo a atitude de sua esposa.
  Ela hesitou, analisando o caso.
  Seu marido estava sendo tão cordial e bom com ela que parecia que ele era idealização de sua cabeça, não uma pessoa real. Aquele homem havia renunciado sua noite de núpcias por ela e logo constatou que nem mesmo a tocara! estava colocando os desejos dela acima de suas vontades e não havia atitude mais nobre do que aquela.
  Poderia muito bem fazer um esforço ao menos uma vez.
  — Acho que me sentiria mais segura se você dormisse comigo. — Comentou — Na mesma cama, quero dizer.
   travou uma luta interna para não comemorar na frente de sua esposa e parecer um idiota; manteu a expressão neutra e deu os ombros voltando ao quarto que pedira para separar para ela.
  Deitados na cama, cada um para seu lado, o capitão se encolheu pela esquerda querendo deixá-la mais confortável possível. Não sabia ele que fitava suas costas sem conseguir dormir nada, pois estava energética demais para pegar no sono. Pelo tecido fino da roupa de dormir, a mulher podia ver os músculos de seu marido tencionados de um jeito que nunca vira antes em outra pessoa e sem perceber, esticara a mão para tocar. Os dedos finos e delicados da mulher desenharam os contornos da pele do capitão que sentira um arrepio delicioso descer pela espinha. Nunca ansiara tanto por um toque quanto naquele momento, mas não sairia do lugar.
  Minutos depois o toque pareceu mais fraco e logo parou. havia pegado no sono mais rapidamente do que imaginara; a segurança de ter o corpo de alguém que confiava perto espantou seus pesadelos, enquanto seu marido se arrependia amargamente de ter aceitado dormir na mesma cama que ela.

  

  

estava altamente estressado nos últimos meses, mas a notícia que recebera mais cedo havia melhorado seu humor de forma que nem mesmo o vinho conseguia.
  De acordo com as leis de purificação das mulheres, se passaram seis meses de banhos de óleo de mirra e mais seis de banhos com especiarias para purificação; as virgens do harém estavam prontas para dormirem com o rei.
  Entretanto a animação do imperador foi momentânea. Se aquilo acontecesse há um ano ele estaria mais do que pronto para dormir com as mulheres mais lindas do reino, mas algo mudara em si; ele sentia uma responsabilidade maior em suas costas desde que passara a prestar mais atenção no seu povo. Não podia escolher uma mulher qualquer para ser sua esposa, embora fosse bonita, ter uma companheira ao seu lado era o principal objetivo; quem sabe até se apaixonar. Só de pensar em todas as mulheres que entrariam em seu quarto as têmporas doíam; queria voltar atrás e não ter exilado Vasti por aquele motivo tão supérfluo. Vasti foi uma rainha bonita e os persas pareciam gostar dela, mesmo que tiver uma postura pomposa. Deitado em sua cama com o quarto escurecido pela noite, o rei apenas decidiu esperar pelo que aconteceria.
  O harém, contudo, estava um caos. As moças corriam pelos lados apressadas para o salão principal desde que Hegai convocara todas elas; algumas ainda continham cremes coloridos pelo corpo ou no cabelo e as servas aos seus pés pedindo para que voltasse a sala de banho.
   flagrou a cena de Aisha, uma amonita, correr para o salão apenas com uma toalha que cobria até metade de suas coxas esbarrando em , que segurava uma bandeja vazia. O eunuco ficou sem reação e as bochechas vermelhas como pimenta ao ver as pernas alvas e sedosas da moça, porém, ela nem pareceu perceber sua vergonha — estavam todas acostumadas em ver a nudez uma das outras. andou calmamente até o salão com três das sete servas que ganhara de Hegai, inclusive , uma jovem que se tornou mais do que uma serva para ela, — a judia ainda não entendia o porquê da preferência do eunuco-chefe em relação a ela, mas estava grata por ter alguém tomar conta de si naquele lugar estranho.
  Percebendo que todas as garotas estavam no cômodo, Hegai bateu palmas para que se calassem. O silêncio ansioso se apoderou das meninas que olhavam o eunuco com expectativa para o que diria; , no entanto, não se importava com o que acontecia ao seu redor, só queria sair, pois estava se sentindo enjoada demais com cheiro de diversos perfumes no ambiente.
  — Como vocês sabem, hoje acaba o ritual de purificação de todas você. — Explicou o eunuco — Amanhã pelo final da tarde uma de vocês entrará no quarto do rei e terá a honra de dormir com ele, se tornando uma de suas concubinas; entretanto, se ele a chamar pelo nome para deitar-se com ele pela segunda vez, o rei a tornará rainha do Império Persa.
   mirou a animação das virgens se sentindo traída. No dia em que foram arrancadas de casa, as moças preferiam jogar suas cabeças aos cães em vez de se deitar com rei, mas era só colocar a coroa e a riqueza que receberiam a se entregarem como meretrizes que a avareza clamava mais alto.
  — Irei sortear o nome de quem vai ser primeira a se deitar com o rei. — Disse Hegai animado pedindo para que Zeres se aproximasse com uma caixa cheia de nomes.
  Um aperto frio em sua mão a fez vira-se para o lado fitando sua amiga com o olhar temeroso e então uma informação recorrente invadiu seu cérebro.
   não era virgem.
  Exasperada e com medo de que algo acontecesse com sua amiga, começou a preferi que seu nome saísse ao de .
  — E a nossa primeira garota é... — ele fez uma parada dramática — Tafnes!
   e soltaram um suspiro de alívio ao ouvir o nome da egípcia. Provavelmente nem precisariam se deitar com rei depois, pois, em suas cabeças, estavam diante da próxima rainha da Pérsia.

Capítulo 8 - Um plano: matar o rei

Tafnes passou a mão pela sua roupa vermelha enquanto olhava para o espelho da casa do tesouro. Seus braços faziam um pequeno barulho quando as pulseiras do pulso batiam umas contra as outras em seus movimentos. A egípcia estava repleta de joias e se sentia preparada para encontrar o rei. De postura ereta, Tafnes era relativamente alta e sua peruca preta batia em sua cintura.
  — Eu já estou pronta, Hegai. – Confirmou Tafnes ao ver o eunuco pelo reflexo do espelho.
  — O rei já vai lhe chamar, espere apenas alguns minutos que Ananias já vem junto com os soldados. — Avisou o eunuco ficando de lado de Tafnes.
  A mulher mantinha o sorriso perverso de lado, imaginando quais artifícios usaria para agradar o rei. Soltou uma gargalhada infame e o eunuco olhou para ela, sem entender o porquê do riso repentino. Tafnes não se intimidou com a careta confusa de Hegai e voltou a analisar o seu reflexo.
  Em sua cabeça aquela noite era a chance que estava esperando. Seria rainha da Pérsia e ninguém a impediria.

  

...

  

O rei sentia que sua cabeça poderia explodir a qualquer momento. Todos os problemas do povo o deixava agitado e o fato de que teria que escolher sua rainha também o deixava aos nervos, entretanto, não era lá uma atividade ruim. Depois de tomar banho, vestiu-se com uma túnica e deitou-se exausto.
  Ananias apareceu logo depois com as mãos escondidas atrás das costas e passos leves. Dispensou apresentações, pois o rei o direcionara um olhar assim que entrou no cômodo.
  — Senhor, posso trazer uma das moças do harém? — Perguntou Ananias na porta de seu quarto.
  — Sim. — Respondeu não sabendo o que esperar daquela noite.

  

...

  

Dalfom não imaginou que os deuses o escutaram quando, ainda menino, pedira que morrer-se. Sempre o preferido, sempre o privilegiado — seus outros oito irmãos, entretanto, por serem velhos demais e já tomarem conta de suas próprias vidas, nunca prestaram atenção no queridinho da mamãe. Sendo os únicos que ainda moravam com os pais, Dalfom presenciou diversas cenas patéticas onde sempre era passado para trás pelo seu irmão caçula.
  Seus pais eram cegos, não viam a fraude que seu irmão era.
  Anos atrás, quando decidira segui-lo após o treinamento, ele descobriu que os deuses lhe ouviam — e que a perdição de era uma judia imunda.
  Era difícil não olhar para seu irmão sem esboçar um sorriso malicioso, sabendo que sua vida estava em suas mãos. Durante todo aquele tempo se manter calado era penoso, contudo, esperar pelo momento certo era crucial.
  E, no dia em que as moças começariam a serem levadas ao rei, ele soube que aquele era o momento certo. Seu irmão parecia miserável apenas pela possibilidade de dormir com o rei naquela noite.
  Harbona mexia seus braceletes se mostrando tediosa, enquanto observava a sua casa repleta de velas e quase escura, revelando que a noite já estava chegando. Seu cabelo cacheado e quase cinza demonstrava que um dia fora uma mulher jovem e bonita, algo que Dalfom percebera há um tempo. Sua mãe deitou-se no sofá de lado fitando seu marido entrar na sala com um cálice de vinho.
  — Pai, adivinha o que eu descobri? – Dalfom se acomodou na cadeira chamando a atenção de todos na sala. , que permanecia calado, o olhou desconfiado.
  — O que há, Dalfom? — Amã sem um real interesse.
  — estava saindo com uma judia. — Seu irmão arregalou os olhos assustado ao ser exposto sem mais delongas — Dalfom fazia uma voz ridícula simplesmente tirando sarro de tudo que estava acontecendo. Gargalhou jogando seus cachos, que herdara da mãe, para trás e se preparou para o discurso do seu pai.
  Amã cuspiu o vinho que tomava e virou seu rosto com uma expressão raivosa. Seu sangue fervia e uma repugnância o atingia apenas ao imaginar seu filho trocando beijos com uma judia. Sua esposa, Harbona estava chocada e a decepção estampada na face. Havia criado um projeto espetacular para e aquele envolvimento com uma judia era jogar tudo no lixo.
  Raivosa, a amalequita virou seu rosto querendo acreditar que aquela história era mentira.
  — É verdade, ? — Os dentes cerrados e os olhos impiedosos da mulher lhe dava uma aparência assombrosa fazendo Amã e Dalfom desviar o olhar para o caçula da família.
  A boca de estava entreaberta, surpreso pela revelação de seu irmão. Depois de tanto tempo, ele pensava que Dalfom estava apenas lhe lançando ameaças vazias; mas ali estava seu segredo exposto aos seus pais.
  Entretanto, ele não fugiria. Era homem e guerreiro; sabia que não fez nada de errado. Amar não era crime.
  Fechando a boca, lançou o olhar desafiador para seus pais em silêncio; essa era a resposta.
  Não sabia ele que aquilo era apenas o começo de seu inferno pessoal.

  

...

  

O rei estava sentado em sua cama quando Ananias anunciou que havia uma das virgens o esperando. Após permitir sua entrada, continuou deitado na cama na mesma posição. Observou os passos da mulher e se levantou, aproximando-se. Seu rosto estava coberto por um véu creme e o barulho das suas joias se chocando uma contra as outras — nada efetivamente novo. O imperador não entendia, contudo, o porquê de seu incômodo por achar aquela cena tão comum.
  — Pode levantar o rosto. — Ordenou o rei e segurou com dois dedos o queixo para vê-la melhor.
  Ela tinha o rosto fino e pontudo que fazia seus grandes olhos pretos se destacarem mais ainda. Os lábios carnudos em uma linha fina demostrando seriedade; extremamente atraente.
  Beleza egípcia, constatou o rei.
  — Qual é seu nome? — Perguntou o rei mirando os seus olhos enquanto ela suavizava sua expressão
  — Tafnes, meu senhor. — Ela respondeu soltando um sorriso sedutor e, aparentemente, inocente ao rei. —Seria um prazer estar com o senhor essa noite.
  Lentamente, a egípcia tocou no abdômen de o fazendo seguir os movimentos da mulher com os olhos. Tafnes se esforçava para não demostrar que sabia o que estava fazendo; inocência, era o que deveria apresentar.
  — O senhor, oh rei, parece um pouco cansado. — Sussurrou o olhando nos olhos.
   pode sentir, naquele momento, o tanto que sentia falta de ter uma mulher tão perto de seu corpo. Calado, o rei segurou a mão da egípcia para que ela não continuasse. Assustada, buscou resposta nos olhos do imperador o que fizera de errado, mas o sorriso ladino a deixou aliviada.
  Segurando o queixo de Tafnes, lhe beijou com menos voracidade que gostaria, temendo parecer bruto demais para a mulher. A egípcia sorria enquanto seguia o ritmo do rei aumentar gradativamente.
  A excitação dominava as veias do imperador — o corpo implorando para que ele suprisse aquela necessidade de possuir uma mulher. Agarrou a cintura de Tafnes e apertando sua carne com os dedos fazendo-a arquejar seu corpo para mais perto, pedindo por mais.
  E o rei lhe daria mais e tudo o que ela pedisse naquela noite.

  

...

  

Tafnes foi acordada pelos sussurros de Ananias pedindo para que ela saísse. Seu desejo era proferir palavras rudes e o fazer deixar dormir mais um pouco — mas a visão do rei dormindo ao seu lado lhe encheu os olhos. Não perceberam qual parte da noite caíram no sono, pois estavam extremamente cansados. O eunuco do rei pediu para que ela pegasse os lençóis manchados de sangue no chão e o acompanhasse. Enquanto andava pelos corredores, enojada com o que carregava nos braços, se pôs a imaginar quais seriam suas primeiras ordens ao se tornar rainha.
  Depois daquela noite peculiar com o rei, ela tinha certeza que seria chamada de novo. Já podia sentir o gosto do poder que teria a partir do momento que a coroassem.
  No momento que pôs seus dois pés do salão, todos os rostos curiosos se viraram em direção a mulher. Com sorriso convencido, a egípcia andou tranquilamente até a mesa repleta de frutas perto das colunas do harém.
   observava a cena evitando não revirar os olhos. Não conseguia acreditar nos comentários que ouvia das virgens do harém desde que Tafnes fora escolhida para ser a primeira a deitar-se com o rei — onde estava sua revolta de terem sido arrancadas de casa para se deitar com um desconhecido? Era possível que o poder e a chance de viver para sempre no luxo cegar seu valores?
  Enquanto Tafnes era rodeada por garotas fazendo perguntas sobre sua noite com o rei, a judia se viu expondo seus pensamentos a suas criadas, especificamente a . Contudo, a resposta que recebeu da serva não foi o esperado.
  — Desculpe-me, senhora, mas não acho que seja um total absurdo sua mudança de pensamento. — explicou, tímida — Para algumas garotas isso não faria diferença: teriam que se casar com um desconhecido em troca de alguns talentos. Na verdade, muitas estão em vantagem; mesmo se não se tornarem rainha, vão ser concubina do poderoso rei da Pérsia e isso já é invejável bastante.
  Passeando seus olhos pelo salão, fitando sua amiga se mostrar desconfortável com a conversa das virgens com Tafnes, entendeu o ponto de vista de .
  Ás vezes ela esquecia que nem todas as garotas tiveram a sorte de ter um pai como Mordecai e que muitas eram entregues sem seu consentimento a um estranho; tudo em troca de dinheiro. Seu olhar, então, recaiu mais uma vez nas garotas, mas dessa vez continha pena.

  

...

  

— Então, rei, essa será a próxima rainha? – Perguntou Ananias ao entrar no quarto minutos depois de levar Tanes até o harém.
   sentou-se na beira da sua cama passando as mãos no rosto, tentando manter-se acordado. A noite fora pesada para o rei. Sentia como se todos os cavalos do palácio haviam passado por cima de suas costas.
  Ainda bagunçando seu cabelo, o imperador levantou o olhara para seu eunuco.
  — Qual é o nome dela mesmo? – Perguntou sonolento demais para pensar.
  — Acredito que seja Tafnes, senhor. – Respondeu o servo.
  — Tafnes... – Ele sibilou lentamente – Ela não é confiável o suficiente para esse cargo. Bonita mulher, tenho que concordar, mas ela é exatamente o que uma concubina deve ser, não uma rainha.
  Ele deitou-se mais uma vez massageando o pescoço.
  — Acho que ela não era virgem. — Confidenciou ao seu servo de maior confiança.   Ananias arregalou os olhos.
  — Mas como? — Ele lembrava de ver os lençóis sujos de sangue. Como ela não poderia ser virgem e ter sangrado mesmo assim?
  — Ela sabia o que estava fazendo o tempo todo. — Murmurou o rei sem muita importância. — Por isso ela não é confiável para ser rainha. Aliás, não acredito que a chamarei de novo.
  O servo assentiu ainda confuso com aquela acusação do rei. Se ela não fosse virgem seria um problema para Tafnes; morte na certa. Contudo, o rei não parecia se importar com a situação, algo bastante inusitado.
  — Diga aos conselheiros que apenas irei mais tarde. — balançou a mão para que ele fosse embora. — Estou cansado demais para fazer outra coisa a não ser dormir.
  Com aquela sentença, o imperador fechou os olhos relaxando o corpo para voltar a dormir.

  

...

  

Na primeira semana, dormir ao lado de foi extremamente difícil. Não que quisesse ter algo a mais com ela — esperaria o tempo de sua esposa. Ele havia sido apressado em casar porque a ideia de perdê-la para um novo pretendente o assustou por dias. Agora que a tinha, sentia uma vontade enorme de abraçá-la durante à noite, entretanto, parecia inconveniente para seus primeiros dias casados.
  Era horrível dormir na mesma cama que a filha de Memucã quando ele desejava tanto lhe proteger, mas ele deveria fazer isso sem tocá-la. Um problema enorme para o capitão da guarda real quando ele nunca precisou ser delicado ou cuidadoso com o que tocava.
  Destrutivo. Era o que era nas batalhas — ninguém o reconhecia quando havia uma espada em sua mão e um inimigo para enfrentar. Naquele momento, entretanto, ele estava sendo extremamente cuidadoso com como nunca imaginou ser com alguém em toda sua vida.
  A filha de Memucã adorava tudo em seu marido, menos, é claro, o fato de apenas o ver de manhã no desjejum e à noite. amava conversar com o capitão; ele se mostrava divertido quando não se escondia por trás da seriedade tão sempre destacada em suas feições. Estava sendo difícil, entretanto, ter que lidar com as servas do palácio. Quando morava com seu pai, era agia como a chefe da casa; mandava e desmandava, contudo, sempre estava fazendo alguma coisa. Os empregados do palácio, porém, queriam sempre fazer tudo sozinhos e isso a deixava cada vez mais irritada.
   rira de sua irritação, mas prometeu que resolveria aquilo para ela.
  E como ele havia prometido, aconteceu. Contudo, saber que seus desejos poderiam se realizar tão facilmente a surpreendeu — não sabia, entretanto, se isso era bom ou ruim.

  

...

  

Estava entardecendo, o rei e seus conselheiros estavam reunidos no salão resolvendo o ultimo caso daquele dia. Intrigados, todos escutavam com atenção o que Memucã dizia sobre a traição de dois eunucos.
  Antes de sair de seus aposentos ele recebeu uma visita inesperada do primeiro ministro. Como o imperador suspeitava, o motivo não era nada bom: dois de seus eunucos de confiança foram pegos dando informações das reuniões secretas a alguns príncipes das províncias. Nada com consequências extremamente difíceis de serem contidas, mas a ideia de ter segredos serem revelados antes da hora deixara o rei irritadiço.
  — Sinceramente eu não esperava isso de vocês. — Comentou o primeiro ministro — Eunucos de confiança do rei vendendo informações para os príncipes das províncias?
  — Eu estou realmente decepcionado com vocês. – Falou o rei, mesmo que seu rosto denunciasse o contrário. A vida daqueles dois servos eram como grãos de areia para o rei; facilmente ele poderia acabar com sua existência.
  Os dois eunucos se entreolharam, sem saída.
  — Meu rei, seja um pouco compreensivo. – Amã declarou fazendo todos os conselheiros lhe dessem atenção — Eles servem ao senhor há tanto tempo, e só foi essa vez que eles fizeram isso. Com certeza aprenderam a lição.
   semicerrou os olhos tentando entender a bondade repentina do segundo ministro.
  — É rei, tenha piedade! – Disse Bigtã, um dos eunucos, ajoelhando e com o rosto virado para o chão.
  — Nós não vamos fazer isso de novo. – Completou Teres com a voz falha como se cada palavra soasse como um tine que irritava o rei.
  O jovem imperador respirou fundo suavizando sua expressão. Encostou suas costas no trono e massageou suas têmporas.
  Sentiu vontade de correr para sua cama e ficar lá o resto do ano, o estresse em ser rei parecia ter se tornado um grande saco de pedras que foram jogados em seus ombros. Começara a pensar que estavam certos em dizer-lhe que era muito jovem para ser rei. Abriu os olhos e viu todos olhando para ele esperando uma sentença.
  — Pelos seus serviços no palácio e serem de confiança, acredito que essa será a única e última vez que vocês se envolvem com isso. – o rei lançou um olhar duro para os eunucos que assentiram – E como sentença terão que devolver todo dinheiro que conseguiram com esse ato.
  Olhou mais uma vez para Amã prestando bem atenção em sua expressão esperta. conhecia bem o seu tipo: loucos pelo poder, nunca satisfeitos por mais alto que estivesse. Poderia ser perigoso se não fosse sua ligação com os diversos povos recém conquistados; mantê-lo como aliado era a melhor opção — assim como manter o olho nele também era saudável.
  — Sim, meu rei, obrigado – Agradeceu Teres com a felicidade eminente.
  — Vão! — o rei mexeu uma das mãos os mandando embora. Bigtã e Teres se entreolharam mais uma vez e se viraram indo em direção à grande porta do palácio.

  

...

  

Dois homens altos e muito magros andavam em meio aos corredores do palácio, suas cabeças raspadas sinalizaram de longe que eram eunucos do rei. Algumas tochas já haviam sido acesas, avisando que a noite havia chegado. Em sussurros e passos apressados, eles pareciam nada satisfeitos com a sentença.
  — Como ele pode? — Perguntou Bigtã, um deles — Como se não bastasse ele ter nos tirado o direito de ter uma família!
  — Todo dinheiro que nós ganhamos jogado no ralo, já estou farto desse rei. – Falou Teres entre dentes e fechando os seus dedos finos em sua mão.
  — Nós podíamos matá-lo, não? — Sugeriu Bigtã em uma animação repentina.
  — Colocaríamos veneno Oyad no vinho dele, pois demora para atacar, assim o tal do não morreria antes dele. – Projetou Teres rindo junto com Bigtã.
  — Matar o rei? – Perguntou Amã aparecendo de forma ameaçadora no meio do corredor.
  Bigtã e Teres sentiram seus corações na boca ao vê-lo.
  — Senhor, me desculpe, eu não queria falar isso – Disse Teres tentando se desculpar. Se alguém soubesse desse plano seriam mortos de uma vez por tentativa de assassinato.
  — Eu ouvi muito bem o que vocês disseram! – Amã sorriu de lado coçando sua barba rala — Esse veneno de quem vocês falam é caro? — Indagou Amã interessado com voz baixa.
  — É um pouco, senhor, por quê? – Teres levantou uma das sobrancelhas ainda temeroso.
  — Eu pago a vocês, eu também quero a morte do rei. — Falou Amã olhando pros lados — Aqui está. – Ele entregou os dracmas que segurava.
  — Não podemos fazer isso de graça. – Falou Bigtã sorrindo, interessado naquele acordo.
  — E eu posso dizer ao rei sobre o plano de vocês. – Amã riu sínico fazendo os eunucos voltarem a ficar sérios. – Eu pagarei 10 mil talentos pra vocês, se fizerem tudo certo.
  — 10 mil pra cada um? – Perguntou Bigtã ganancioso.
  — Não. – Respondeu Amã frio — E saibam que se algo der errado, vocês estão sozinhos nessa.
  Amã se virou dando o assunto como encerrado e foi andando sabendo que havia dois pares de olhos o observando sumir entre os corredores do palácio.

Capítulo 9 - É a sua vez!

Sentada entre uma das árvores, olhava para cima tentando sentir-se menos enjoada. No céu não havia nenhuma nuvem aparecera emele se pôs a pensar naquele dia.
  Faziam dois meses que seu sangramento não viera e aqueles enjoos durante partes dos seus dias eram suspeitos. Nas últimas semanas haviam acordado altas horas da madrugada sentindo um calor infeliz quando todas meninas morriam de frio.
  Piscou os olhos tentando evitar as lágrimas repentinas.
  Estaria ela grávida?
  Carregar um bebê de um soldado em um harém de mulheres que supostamente eram virgens poderia ser sua sentença de morte.
   segurou o rosto com as duas mãos ao chegar naquela conclusão. Desde aquele decreto do imperador tudo em sua vida começou a desmoronar. Sentia falta da sua família de e de como a única preocupação que tinha era esconder seu cortejo com o amalequita de seu pai.

     

...

  

não entendia o porquê de certas vezes se sentir tão ansiosa ou nervosa na presença de . Para ela já havia se passado o tempo de não está confortável perto dele, mas ela sempre demorava um pouco escolhendo as palavras que referiria para seu marido. Às vezes ela passava o dia colecionando assuntos para conversar com ele mais tarde, porém ao vê-lo entrar no quarto para tirar as sandálias sua mente se tornava vazia.
  — Como você está? — perguntava o oficial.
  — Bem. — ela respondia se encolhendo na cama na esperança de lembrar de qualquer assunto, tirando assim o costumeiro silêncio.
  — Ótimo. — ele dizia com um sorriso polido, deixando a desconcertada.
  E depois, ele saia para se banhar.
  Naquele dia não foi diferente — a cena repetira como nas últimas semanas, contudo, um pensamento diferente pairava sobre : por que seu marido não tentara toca-lhe desde o seu casamento? Ela arregalou os olhos assim que percebeu que ansiava calor humano
  — Espera.— Falou impulsivamente fazendo dá meia volta.
  — Sim? — Respondeu solicito, totalmente alheio aos pensamentos de sua esposa.
   levantou-se e andou em direção a ele. O capitão tinha uma careta de confusão no rosto até sentir a mão delicada dela tocar sua pele. Era uma cena estranha: os dois em pé no meio do cômodo, a mulher hipnotizada pelo calor e o suor da face de sem explicações ou objetivos. Aos poucos os dois se aproximavam fazendo o homem estremecer por dentro. não fazia ideia quanta falta ele sentia de está tão perto de alguém daquele jeito. Por mais que dormissem em uma na mesma cama todas as noites, o capitão nunca se sentira em um momento tão íntimo como aquele. Logo, a palma da mão da mulher acariciava a barba crescida e soltou um suspiro de aprovação, inalando o perfume de rosas que ela exalava.
  Impulsivamente, o capitão agachou o rosto para a pele do pescoço de sua esposa disposto a embriagasse com seu cheiro. Os segundos que se passaram foram surreais para ela: nada de repulsa. Apenas o toque delicado do nariz de e a descarga elétrica que percorreu pelo seu corpo. Ela se viu fechando os olhos e abraçando-o para que ele continuasse. Energizado pela presença daquela maravilhosa mulher, o capitão beijou a pele macia lentamente.
  O ato, entretanto, fez todo o corpo de enrijecer e acordar para a realidade. Era como se transformasse uma criança de novo e o professor de música lhe tocasse com suas mãos sujas. Empurrou com força o corpo de , assustando o mesmo. Ao perceber que quem estava à sua frente era seu marido seu corpo encheu se de vergonha.
  — Dee-eesculpa. E-eu... — A voz tremia e, sem encontrar uma desculpa plausível, se viu correndo para fora do cômodo procurando ficar sozinha deixando um homem desolado e se sentindo culpado para trás.

  

...

  

O chefe da enfermaria do palácio sabia o quanto odiava sair do escritório e andar pelo vasto território persa. Ela fora a primeira pessoa estrangeira que não pareceu impressionada com a grandeza da cidade de Susã. A verdade era que a mulher havia mergulhado tanto no mar de tristeza desde que seu marido morrera que não conseguia encontrar um caminho para a superfície - e está naquele país que transformara seu povo em escravos lhe deixava resignada. Não importava o fato de não ter sido o rei responsável pelo ataque ao seu povo ou quão generoso ele fora com ela e seu irmão, ela não conseguia se sentir em casa naquele lugar.
  Naquele dia atípico os serventes demoraram para levar seu jantar a deixando irritada e com fome. Decidida a não ter que dormir de estômago vazio, a mulher fora em direção a cozinha buscar qualquer coisa para comer. Os corredores estavam silenciosos e apenas se viam guardas que haviam acabado de trocar de turno olhar para frente seriamente. A cozinha estava quase totalmente escura, apenas uma tocha acesa no fundo do cômodo. Curiosa, andou em direção a chama, encontrando um homem de traços beduínos andando para um lado e por outro tentando organizar três bandejas com comida.
  A irmã de Ananias coçou a garganta chamando-lhe a atenção.
  — Não quero parecer grossa, mas a comida está demorando um pouco hoje, não é? — Comentou cautelosamente.
  — Desculpe, senhora, apenas estou em um momento complicado pois estou sozinho. — Explicou o homem ainda trabalhando eficientemente.
  — Então, vou esperar. — Disse sentando-se em uma das cadeiras ao redor da mesa da cozinha.
  A mulher cruzou as pernas e fitou as costas do servo batendo os dedos freneticamente em sua perna. Minutos se passaram em silêncio até que ele virasse segurando duas bandejas.
  — Deseja que leve isso até seu quarto? — Perguntou o homem virando-se para ela, revelando seu rosto.
   abriu a boca, mas por alguns segundos nada saiu. O beduíno continha uma beleza única nunca vista antes por ela. Ele parecia um pouco mais jovem que ela, mas, ainda assim, não era um tipo de pessoa que era visto todos os dias no palácio onde os servos eram de sua maioria eunucos.
  — Não precisa, eu posso levar sozinha. — Levantou-se pegando a bandeja.
  O servo agradeceu pelo gesto de gentileza e pediu desculpas mais uma vez, entretanto, suas palavras mal foram ouvidas por .
  — Qual o seu nome? — Ela perguntou antes de seguir em direção aos seus aposentos.
  — , senhora. — O homem segurou o olhar a fazendo sentir um incômodo na barriga.
  — Obrigada, .
  Então, ela se virou e continuou andando deixando o homem com a mesma sensação estranha e a voz da mulher desconhecida ecoando em sua cabeça.

  

...

  

Naquele momento em que o sol sumia, geralmente, uma virgem já estava pronta para ir até os átrios do rei, contudo, naquele dia estavam todos atrasados, deixando o harém em um caos horrível. tentava conversar com suas servas, mas o barulho das mulheres tentando saber o que acontecera com Hegai ou quem seria a próxima a dormir com o rei estava atrapalhando a comunicação. Ela não via a hora que o eunuco entrasse e dissesse alguma coisa — a cabeça parecia explodir a qualquer momento com aquele barulho.
  — , posso falar a sós com você? — pediu depois de cutucar o ombro de sua amiga.
  — Claro. — Respondeu levantando-se e indo até uma das colunas um pouco afastadas do salão.
   engoliu o seco e olhou para os lados, certificando-se que ninguém prestava atenção nas duas.
  — Está tudo bem? — Perguntou estranhando o comportamento da amiga.
  — Mais ou menos. — Respondeu a judia — O negócio é que ultimamente eu...
  — Meninas! — Hegai apareceu eufórico na porta do harém batendo palmas para chamar atenção.
  As duas mulheres viraram-se para ver melhor o eunuco, interrompendo a conversa por um momento.
  — O rei chamou uma mulher pelo nome? — uma delas indagou com esperança.
  — Infelizmente não, Diana. Demoramos porque o rei estava em um vilarejo e pareci não chegar a tempo para dormir no palácio, entretanto, cá estamos. — Falou Hegai. — Nós faremos o sorteio agora; não podemos deixar o rei esperando.
  Zeres apareceu com uma tigela repleta de papiros com os nomes das moças; papiros que diminuíram consideravelmente nos últimos dois meses. A sala se tornou silenciosa quando Hegai pegou um dos nomes delicadamente fazendo muitas prenderem a respiração de expectativa — exceto , que prendera a respiração de medo.
  O rosto do eunuco se iluminou ao ler o nome e ele demorara alguns segundos para finalmente dizê-lo.
  — , querida, é a sua vez! — ele disse com uma felicidade no rosto mostrando seu favoritismo sem disfarce.
  O barulho da bandeja caindo fez muitas mulheres gritarem de susto e , responsável pelo acontecido, pediu desculpas envergonhado. soltou a respiração aliviada e ao mesmo tempo preocupada com sua amiga. Muitas das já concubinas do rei cochicharam com desprezo, certos de que a garota seria mais uma e as virgens ficavam ressentidas por não terem sua chance chegada ainda.
  No entanto, era a única que não se movera; nem uma expressão em seu roto arriscou. O coração estava acelerado e ela se sentia como um animal em um matadouro.
  Naquela noite dormiria com o rei.
  Naquela noite ela pedia sua virgindade.
  Naquela noite todos os seus sonhos seriam enterrados.

Capítulo 10 - A noite com o rei

ainda não conseguia acreditar nas palavras de Hegai. Ela vira tantas garotas irem e voltarem depois de dormirem com o rei que ela cogitara a possibilidade de que sue nome fora totalmente esquecido entre os papéis; mas lá fora dito seu nome alto e claro. Às vezes, tinha esperanças que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo e que de manhã acordaria cedo para ir em direção à Jerusalém. Sentiu um tremor atravessar ao seu corpo ao lembrar que teria que entregar seu corpo ao rei.
  Voltou a sua realidade ao prestar atenção no lugar onde Hegai a levava. A judia arregalou os olhos admirada quando entrou em um grande quarto cheio de brilhantes. As tapeçarias eram de pano branco, verde e azul celeste, pendentes de cordões de linho fino e púrpura; nas colunas de mármore viu que havia prateleiras de madeira segurando pequenos baús cada um carregando um tipo de joia com pedras preciosas: rubis, esmeraldas, ouro, prata, bronze e mais umas outras que ela não conhecia brilhavam como um dia ensolarado na cidade de Susã.
  — , todas as mulheres que irão se apresentar ao rei devem estar deslumbrantes, ou seja, — Explicou Hegai — escolha a joia que lhe agradar para encontra-se com o rei, ela será sua.
  — Qual eu escolheria? — Disse ela com um pouco de desânimo, o êxtase de estar no meio de tantas preciosidades se esvaindo ao lembrar-se do porquê que estava ali. Suspirou pesado.
  — Você vai dormir com o rei, ânimo garota! — Animou Hegai, balançando seus ombros — Vamos, eu escolherei as jóias pra você. — Ele a puxou pela mão para mais adentro da sala.

  

...

  

usava um vestido roxo com detalhes em branco na barra, uma pulseira de ouro da casa do tesouro em cada pulso, sem esquecer, do seu colar que havia ganhado de sua mãe. Era um colar simples: tinha um cordão fino de couro segurando uma pequena pedra de mármore que continha algumas listras em azul; se olhasse mais de perto, viria que essas listras eram pedaços de vidro que, aproximando-se da luz, enfeitava uma sala repleta de estrelas de Davi. Em sua testa carregava uma tiara de prata que segurava seu véu lilás, cobrindo seu rosto.
  Enquanto seguia Hegai por meio do dormitório, arrancava olhares de todas as garotas que já se arrumavam para ir à cama. Ignorou o olhar de deboche que Tafnes a dera e seguiu Ananias, como Hegai a instruiu, em direção para dentro do palácio. Sentiu o estômago revirar ao ver o servo do rei parar em uma das portas, sair de sua frente e estender a mão apontando para que ela entrasse. Ananias sorriu singelo para a garota que respirou fundo tentando não sair correndo. Fugir não resolveria nada, apenas lhe daria mais problemas.
   entrou no quarto de com a cabeça abaixada. Sentiu um cheiro similar de mirra, seu perfume favorito, e passou a imaginar se os lençóis do rei eram mergulhados nesse cheiro magnífico. Sua mão suava frio, esperava um rei duro e arrogante. Sentiu um pequena dor em seu coração em pensar que era assim que perderia sua virgindade; era como ser violada, mas, dessa vez, com a benção dos deuses pagãos perça.
  O rei lia concentrado algo em seus papiros sentado em sua mesa, as costas amplas tensionadas e retas como um verdadeiro nobre. respirou fundo e caminhou em direção ao homem, lembrando-se de todas as aulas que Hegai havia lhe dado. Talvez se ficasse quieta e seguisse todas as instruções do eunuco o imperador seria carinhoso com ela.
   olhou de lado e viu a moça que havia chegado ao ouvir o barulho dos passos e as roupas roxas balançando no chão. O rosto da garota era coberto por cortinas de véu dificultado-o de ver bem seu rosto. Levantou-se, deixando de lado sua leitura e fechou os olhos ao sentir o cheiro de especiarias que ela exalava. Era uma mistura de perfumes difícil de identificar, totalmente diferente do que as moças costumavam ter, pois não era muito doce. sentiu seu coração palpitar mais rápido quando o rei se posicionou em sua frente. Ele segurou o seu véu com cuidado tirando de seus olhos e segurou a respiração inconscientemente: os olhar ao chão como em respeito era o contraste ao seu maxilar trincado, resignado por estar ali. Seu rosto era bem desenhado e familiar. Com a ponta dos dedos àsperos segurou o queixo da mulher e levantou delicadamente. A jovem judia segurou o olhar com uma expressão séria, forçou um sorriso que logo desapareceu pela tensão que o silêncio do rei trouxera. A expressão do imperador era indecifrável; segundos pareciam horas. Contudo, não se via hostilidade no seu jeito, apenas curiosidade. sentiu o nervosismo aumentar ao constatar a aproximação do imperador.
  — Eu me lembro de você — Disse o rei, o tom de voz baixo e hipnotisado. — do dia do desfile.
   piscou rápido ao entender o que lhe dizia. Viu o rei sorri de lado e ela o acompanhou sem perceber, seduzida por segundos pela sua simpatia. Apenas com aquela frase viu-se tentando entender onde estava a arrogância que sempre presenciava na face do rei — aliás, ela nunca admitiria também que sentiu um arrepio bom ao ouvir sua voz.
  — O imperador se lembra de mim? — Perguntou ela franzindo o cenho.
  — Claro que sim. — Afirmou dando um passo para trás e soltando o rosto da moça — Seu rosto brilhava em meio aquela multidão e você salvou um menino, foi muito corajosa. No começo, até pensei em ser loucura o que fizera. Como poderia esquecê-la? — Indagou o rei de forma serena.
   desviou o olhar dele sem acreditar.
  — Estou lisonjeada! — Falou tentando entender o porquê o rei conhecido pela sua impaciência estava naquele estado de quietude — Não imaginei que o senhor guarda-se a fisionomia dos súditos do seu reino.
  — Eu não guardo. — Confessou — Mas eu me lembro muito bem do seu semblante. Pensei que estivesse casada, mulheres formosas como você não costumam ser solteiras.
  Ela sentiu as maçãs do rosto corarem com aquele elogio repentino. Murmurou um agradecimento evitando seus olhos.
  — Qual é o seu nome? — Perguntou ele curioso.
  — É , de Susã. — Respondeu ela mirando-o com desconforto.
  — Jamais me esquecerei do seu rosto, . — Disse o rei, o nome da judia em persa soando como doce em sua boca.
  A jovem judia sentiu um leve tremor na sua mão ao escutar tais palavras de forma tão sedutora. O rei, para ela, seria um grande tirano que só pensava em si mesmo, entretanto, ele se esforçava para ser agradável; ou talvez ele tratasse suas amantes carinhosamente? Cerrou o punho para conter o tremor repentino com aquele pensamento.
  — Pensei que o senhor tinha olhos apenas para a nobreza. — Comentou , mordendo a língua logo depois pelo sua frase totalmente infeliz.
  — Por que diz isso, ? — Perguntou o rei arqueando uma das sobrancelhas.
   sentiu-se incomodado em saber que ele se mostrava rei apenas dos ricos — era bem verdade que ele não era a pessoa mais paciente e misericordiosa do reino, porém ele era muito mais justo do quê seus antepassados e abertamente resolvia casos do povo. Pensar agora que a moça que estava a sua frente poderia o detestar fez ele sentir certo desânimo estranho.
  — Por acaso, as minhas ações como rei tem feito duvidar a minha competência como tal? — Reformulou sua pergunta, soando mais hostil do que gostaria.
   lembrou-se rapidamente de Hegai instruindo que evitassem discutir pontos políticos ao rei, já que as suas opniões eram facilmente ignoradas e podiam ser interpretadas como ofensa. Poderia ser extremamente perigoso para ela. Receosa, a judia logo tratou de desconversar.
  — Acho melhor não continuarmos com essa conversa. — Recuou ela, apertando os lábios.
  — Fale, você acha que eu sou um rei injusto? — Perguntou , abrandando a expressão do rosto. — Diga! — Incentivou.
  — O senhor quer mesmo saber? — Ela indagou temerosa.
   concordou com a cabeça. Seus olhos estavam vidrados naquela mulher à sua frente. A garota sentia que havia uma pedra em sua garganta, mas, como era a pedido do rei, se pôs a dizer o que guardava em sua mente durante os últimos meses.
  — Eu acho um absurdo e bastante injusto à forma que as moças foram levadas para o harém. — Disse ela olhando diretamente nos olhos do — Nós fomos arrancadas de nossas casas e não podemos ter contato com a nossa família!
   arregalou os olhos tão assustado como deslumbrado; nunca ouvira uma mulher tão firme no que dizia como . Quanto mais a conhecia, mais a apreciava.
  — Mas a lei é assim ! — Argumentou o rei — O rei deve encontrar no meio do povo uma rainha, e veja por outro ângulo, os filhos do rei serão os filhos do povo também.
  — Não acho uma troca justa entre o senhor e seu povo. — Afirmou decidindo que se pudesse sofrer as consequências não ia esconder seu ponto de vista.
  — Quer dizer que você não está feliz em ter sido trazida ao palácio? – Concluiu o rei enquanto andava em sua direção. — E ter a honra de passar uma noite com o seu rei?
   deu os ombros se aproximando mais um pouco com a cara e a coragem.
  — De que adianta talvez ter uma noite maravilhosa, se amanhã eu serei só mais uma jogada nos cantos do palácio enquanto se diverte com tantas outras que o senhor mandou sequestrar? — Indagou esperando que o rei gritasse o a mandasse para fora.
  Contudo, o rei riu.
  — Você é bem direta com as palavras. — Comentou.
  O imperador da Pérsia estava admirado pela forma em como ela expressava e se mostrava a par de tudo que acontecia a sua volta.
  — Por isso que eu disse que era melhor ficar calada. — Ela encolheu os ombros, se sentindo estranhamente cômoda com aquela conversa. Como se um peso de shas costas tivesse diminuido.
  A mulher começou a andar devagar pelo amplo quarto do rei e passou os olhos rapidamente pela mesa em que o mesmo estava sentado e se aproximou encantada com todos aqueles papiros. Já tinha passado bastante tempo que não lia nada e aquilo tudo parecia doce para seus olhos. Franzindo o cenho, o imperador a acompanhou seus movimentos confuso.
  — O que foi, ? — Perguntou.
  — Nada. — Ela respondeu rapidamente como se fosse pega fazendo algo de errado.
  — Nunca vi uma mulher interessada em papiros. Vai me dizer que sabe ler? —Comentou o rei incrédulo.
   olhou para o rei e sorriu sem graça.
  — Um pouco. — Respondeu ela.
  — Uma mulher que ler? — soltou uma risada não acreditando nem um pouco em suas palavras — Está brincando comigo, não?
  — Claro que não, senhor, eu jamais faria isso. — Respondeu mostrando está ofendida com isso, afinal, ela nunca mentiria pro rei apenas para agradá-lo.
  — Pois bem. — Ele aproximou-se da mesa — Vamos ver se sabe mesmo.Conhece isso? — Perguntou o rei mostrando um dos papiros, balançou a cabeça negativamente — É uma cópia do cilindro de Ciro. Aqui tem os maiores decretos do rei Ciro e da libertação dos judeus os permitindo de ir a Judá, conhece?
  — Não. — respondeu, omitindo que tinha escutado sobre, mas não lera o decreto.
  — Então, venha, leia pra mim. — Ele a chamou para que sentar-se em sua cadeira.
  — Eu posso tocá-lo? Uma raridade como essa? — Perguntou ela maravilhada com um sorriso de menina.
  — Claro, quero ver se sabe mesmo. — Ele entregou em suas mãos com um sorriso travesso.
   pegou o papiro em suas mãos delicadamente como se estivesse com medo de a qualquer momento desmanchar transformando-se poeira em suas mãos. Coçou a garganta e viu pelo canto do olho o rei observá-la atentamente a fazendo senti um pequeno frio na barriga.
  — Assim diz Ciro, rei da Pérsia, o senhor, Deus dos céus e que me deu toda essa terra, me encarregou de edificar uma casa na fortaleza de Judá. Quem dentre vós é, de todo o seu povo, seja seu povo com ele vá até Belém de Judá e edifique sua casa pra ele, ele é o Deus que habita em Jerusalém... lia com um sorriso no rosto, sentia falta de ler. a analisava e escutava a doce voz de ecoar sobre todo o quarto, desejando ouvi-la recitar versos mais vezes.
  — Impressionante! — Comentou quando ela pôs os papiros na mesa — Onde você aprendeu a ler? — Perguntou o rei interessado.
  — Meu pai era escriba e me ensinou umas coisas quando eu era pequena, depois que cresci eu comecei a estudar por conta própria. — Afirmou deixando os papiros na mesa e levantando-se da cadeira.
   via no rosto de nervosismo e apreensão. Ela olhava para os lados quero mais rápido dali. Seu rosto delicado que chamava atenção por quem a via se mostrava desconfortável. A mulher sabia que a qualquer momento aquela conversa acabaria e logo o rei tentaria algo com ela. A jovem judia sentia seu estômago embrulhar só de pensar.
  — Você não esta feliz aqui, ? — Indagou enfim.
  — Antes de ser trazida para o harém, senhor, eu estava de partida. Ia realizar o sonho de rever a minha terra. — Respondeu com um olhar vago.
  — Qual é a sua terra? — Perguntou o imperador.
  — De que isso importa? Estou presa agora no palácio, esse é o meu destino. —Respondeu deixando os ombros caírem em desânimo.
  Pensar que nunca mais poderia ir a Jerusalém deixava a jovem pesarosa.
  — É assim que você se sente? Uma prisioneira? — O rei perguntou intrigado.
  Nunca lhe ocorrera pensar que havia o lado ruim da história. O que adiantaria escolher uma mulher para amar e ficar do seu lado no reino se não fosse essa sua vontade? Todas as mulheres mostravam-se ansiosas e bastante honradas por estarem nos braços do rei.
  — Eu não escolhi está aqui. — Ela falou revelando o desânimo em seu tom de voz — Por mim, já teria ido embora de Susã.
  O rei constatou um novo sentimento: insegurança. Aquilo embrulhava eu estômago e o fazia se sentir incômodo. Nunca lhe acontecera de estar nervoso à frente de alguém, muito menos de uma mulher. Como imperador da Pérsia, era considerado um deus que deveria ser adorado e todas suas vontades deveriam ser saciadas e engolidas, a única coisa que estava acima dele era a lei. Por mais poderoso que fosse, fazer a pergunta que o estava engasgando fora mais difícil do que esperava.
  — Você não quer conhecer o amor? — Pigarreou — Com o seu rei?
  — O senhor é que decide. — Ela encolheu os ombros — Eu sou apenas uma concubina.
  — Olhe nos meus olhos, . — Ordenou o rei — Você quer ou não passar a noite com o imperador? — Questionou ansioso pela resposta.
   sentiu como se tivesse passado por um banho gelado. Suas mãos suaram enquanto ela engolia o seco. Ela tinha a resposta na ponta da língua, porém tinha medo do que aconteceria com sua vida depois de proferir tais palavras.
  Ainda em silêncio, o rei fitava seus olhos com inquietude. Sabia muito bem que não precisava perguntá-la, afinal, não era nenhuma novidade do motivo dela está ali, porém queria que com fosse diferente.
  E ele não fazia ideia do porquê.
  — Diga-me... — Sussurrou o rei sem perceber que havia pensado alto.
  — A verdade é que não, senhor. — Respondeu ela, engolindo o seco — Me perdoe, mas a minha vontade era de me entregar para alguém que eu amasse. — Justificou.
  O rei sentiu-se empurrado para trás da mesma forma que seu pai havia feito no dia em que fora lutar contra Grécia. Lembrava de ouvi-lo gritar “não” pra que ele voltasse para o palácio e não fosse junto, dizendo que ele não era bom o suficiente para aquela batalha. Agora, estava sendo rejeitado pela mulher que chamara sua atenção depois de ter várias moças em sua cama. Embora desconfortável com a rejeição, já sabia como lidar-se com tal circunstância.
  — Muito bem. — Respirou fundo, engolindo o orgulho — mandarei você de volta à casa das mulheres.
  — Ah, meu senhor! — curvou-se em submissão com os olhos arregalados — Desculpe-me se eu o ofendi.
  O medo de que algo pior acontecesse lhe fez agir de desespero. Admitiria que entregaria seu corpo, já que não tinha como deixar de ser concubina do rei, desde que manter-se viva.
  — Não sou homem de fugir de um desafio. — Ele sorriu de lado, agachou-se para segurar nas mãos de e levantá-la para olhar em seu rosto. — Se quer que eu conquiste o seu coração, graciosa , assim o farei.

  

...

  De passos silenciosos, entrava na casa das mulheres atenciosa para não acordar ninguém. Seu coração ainda batia rápido demais e as palavras do rei ecoavam em sua mente; aquele encontro fora totalmente o que ela não esperava: o rei não agira de todo pomposo ou orgulhoso — até a respeitou, tanto suas opiniões como sua escolha.
  Até naquele momento a ideia de que ele a deixou sair de seu quarto sem nem ao menos beijá-la, com a promessa que lhe conquistaria parecia loucura.
  Uma loucura que ela estava disposta a ver.
  Quando entrou no dormitório e percebeu que a tentativa de ser discreta havia sido em vão: todas as garotas ainda estavam arrumando-se para dormir. A jovem corou quando entrou no cômodo e viu todos os olhares assustados para ela.
  — ? — Hegai foi em sua direção, aparecendo por entre a multidão de mulheres — O que faz aqui? Veio buscar algum acessório? O rei não gostou do vestido? Oh, pelos deuses, eu estou perdido! O rei vai pedi minha cabeça pro jantar! — Desatou em falar desesperado ao vê-la.
  — Não é isso, senhor Hegai. — Tentava acalmá-lo, segurando seus braços em um carinho de leve.
  — Então é o quê? Vai me dizer que o rei não se encantou com sua beleza? — Perguntou Hegai nervoso. — Logo o soberano que sempre teve bom gosto!
  — É que...
  — Foi expulsa dos aposentos reais por entrar com essas roupas de escrava. — Afirmou Tafnes debochando — Quando viu você assim queria voltar pra mim. — soltou uma risada.
  — Por que você não guarda suas suposições pra você? — Falou irritada.
  — Fala logo, menina! — Exclamou Hegai balançando a judia como se fosse uma boneca.
  — O rei perguntou diretamente se eu queria dormir com ele e eu disse que não. — Ela resumiu toda a história em uma frase.
  — Ai minha Mitra, — Hegai viu tudo em sua volta girar — você disse que... — Hegai pôs a mão em sua testa, desmaiando dramaticamente e caiu no chão.
  Servas gritaram assustadas e correram para tentar acordá-lo enquanto outros gritos horrorisados com o fato de ter se negado ao rei. Louca era a palavra que mais se ouvia entre os burbúrios.
   arregalou os olhos assustada com o que acontecia. Ao ir em direção as outras serva para acordar o eunuco, sentiu alguém puxar seu braço e encontrou parecendo animada.
  — , o rei ficou revoltado? — Perguntou curiosa parecendo feliz em saber que sua amiga ofendera o imperador.
  — Não, , muito pelo contrário! O rei foi educado. Ele disse que preferia tentar me conquistar. — Disse tentando conter um sorriso surpreso nos lábios.
  — Nunca vi uma atitude parecida com o rei e suas concubinas. – Comentou , uma das suas servas que escutava a conversa.
  — Eu também fiquei muito surpresa. Nem sei mais o que pensar sobre o rei. — Ela suspirou — Deixa ele tentar, amanhã é outro dia. — Comentou e sorriu para sua amiga.

Capítulo 11 - Papiros e poemas

— Papai!
      segurou seu filho nos braços com um sorriso maior que o rosto. Sentindo uma quentura em seu peito, beijou-lhe a testa suada da criança que estava brincando minutos atrás. Manassés falava sobre uma aventura que fizera entre as barracas de tecidos quando seu pai entrara em casa e fitara Raquel lavando a louça.
  Colocou o filho no chão, alarmado.
     — Raquel. — disse em censura. — Já falei que não é bom que fique fazendo trabalhos de casa quando está em meio a uma crise! Deixe isso aqui que eu faço…
     — , você sempre volta pra casa cansado! Não é justo que faça coisas de servo no seu lar também. — protestou a mulher segurando firme a panela de barro molhada em suas mãos.
     — Você é minha esposa e minha responsabilidade. — ele a olhou nos olhos severamente — Se depender de mim você não vai morrer nem tão cedo, aliás, se para isso eu tenha que fazê-la ficar o dia todo na cama, é isso que será feito.
     Ela deixou seus ombros caírem em desânimo. A mulher sabia que estava totalmente sem razão ao insistir em fazer o trabalho pesado quando ainda não se sentia bem, entretanto, passar o dia todo deitada e se levantando apenas para gritar pelo nome de seu filho era no mínimo tedioso.
     Era bem verdade que a crise que tivera ainda aquela noite foi uma das piores — nem mesmo conseguia respirar. gritara em desespero sem saber o que fazer ao ser acordado pela sua esposa que não mais apresentava palidez em sua pele, mas sim um roxo sombrio.
     Deixou-se ser empurrada até uma cadeira e sentou tentando disfarçar a dor repentina de garganta que sentira. Acomodada no assento observou terminar seu trabalho enquanto pedia ajuda de Manassés para enxugar as panelas. Apertou os lábios olhando para a situação de sua casa: uma bagunça sem tamanho em todos os cantos e um filho que não tomara banho ainda. Sua doença a fazia sempre negligenciar suas responsabilidades e seu marido carregava o peso das suas obrigações nas costas.
     Raquel se perguntava se ele se arrependeu de ter se casado com uma judia doente.
     Sabia que não a amava daquele jeito — e o sentimento era recíproco. Entretanto, eles se comprometeram em cuidar um do outro assim como a de dá o melhor para o filho dos dois. Casar-se com a judia podia ter começado com um simples negócio para que ele deixasse a vida de nômade, mas criou-se uma amizade entre os dois que o impedia de não ser leal com a mãe do seu filho, o ser humano que ele mais amava em todo o mundo.
  O antigo beduíno sorriu para uma pálida Raquel e ao vê-la tão frágil lhe doeu o coração constatando que, talvez, aquela lealdade não a conservaria por muito tempo.
     .      Na manhã seguinte ao dia que o rei conhecera , um grupo de dançarinos foram chamados para dançar em honra ao líder da Pérsia. A maioria deles eram mulheres com vestidos rosa e repleto de joias que faziam um barulho sincronizado com os tambores. Enquanto saboreava seu vinho, se concentrava no balançar de suas cinturas e nas conversas ladinas que Amã fazia com seu filho Dalfom.
     Aceitar o amalequita no conselho foi uma estratégia política bastante óbvia para o rei. Todos os filhos de Amã eram excelentes guerreiros e estavam ligados diretamente as lideranças das várias províncias que eram dos Medo-persas, entretanto, era de se desconfiar sua dedicação ao reino. apostava metade das suas riquezas que o maior objetivo de Amã era arrumar uma forma de que Memucã se aposentar, o que ele pagava para ver já que seu primeiro ministro era o homem mais teimoso de toda Pérsia. Contudo, se algo de perigoso ameaça-se Memucã ele não hesitaria e ficaria ao seu lado.
      — Senhor, Simut, seu antigo instrutor egípcio, está a espera de seu consentimento para entrar no salão real. — um dos servos alertou ao rei em seu ouvido.
     — Ora, o que está esperando? Mande-o entrar!
     A figura egípcia era bastante singular e conhecida. Tinha a pele dourada pelo sol e os olhos marcados de preto. Não usava peruca e esbanjava uma cabeça calva e brilhosa; andava pomposo mesmo sendo baixinho. costumava assemelhar seu físico a Hegai e tinha suas suspeitas em relação ao parentesco dos dois.
     — Meu soberano. — cumprimentou Simut com uma breve reverência, o sotaque egípcio carregado.
     O rei estendeu seu cetro em direção a ele como ela de costume, consentindo que ele discursasse.
  — Traz boas novas, Simut? — disse apoiando de forma nobre os cotovelos nos braços da cadeira.
     — Não há mudanças, meu rei. — balançou a cabeça, cético — Nem acredito que possa haver. O Egito perdeu toda a sua glória há muitos anos atrás quando…
     — Poupe-me de aulas de história. — Interrompeu o rei com indiferença. — Acredito que os mercadores trouxeram a carga de cerveja dessa vez, não é? Meus súditos estão ficando impacientes.
     — Sim, meu rei, eles trouxeram. — explicou Simut acostumado com o temperamento de — Desculpe o infortúnio. Aliás, trouxe os papiros que pediu, os autores egípcios. É claro que há algumas poesias, mas podem ser facilmente esquecidas se…
     — Poesias? — o rei levantou a sobrancelha interessado. — São românticas?
     O servo concordou confuso com a curiosidade de . Rapidamente, o rei chamou a Ananias e sussurrou uma ordem peculiar que deixara o jovem imperador com um sorriso presunçoso no rosto.

     

...

     

Quando Aysha sentou ao lado de e naquela manhã, as judias sentiram cheiro de confusão. A mulher, por ser uma beldade e saber disso, era um perigo e seu péssimo hábito de ter uma língua solta fazia com que até aqueles que não tinham nada a ver com a história entrarem em brigas desnecessárias. Foi com os olhos claros cheios de malícia que ela comentou:
      — É verdade que o rei a despiu e a mandou embora assustado?
      se remexeu desconfortável e virou o rosto para o lado a fim de ignorar aquele comentário impertinente, entretanto, não fizera o mesmo.
     — O rei ficou tão assustado que falou que queria conquistar . Que susto ela o deu! — Respondeu com ironia.
     — E é? O Maravilhoso quer te conquistar? — seus olhos brilharam de divertimento — Você deveria falar para Tafnes, então. Faz mais de um mês que o rei chamou ela e mesmo assim e a sonsa jura que vai ser rainha!
     — E você não quer ser rainha também, Aysha? — perguntou se pronunciando pela primeira vez naquela conversa.
     — Eu até queria, mas perdi as esperanças. — deu os ombros — Por mais que o rei tenha sido um ótimo amante, sei que não foi só comigo. Sua fama apenas foi comprovada. Ganho mais sendo concubina do rei.
     — Pois eu serei rainha! — comentou Bianca, uma das concubinas que ainda não conhecera o rei.
     Ela tinha a pele escura que faziam muitos homens perderem a cabeça. Certa dessa sua característica, duvidava muito que o imperador não se impressiona-se com a beleza exótica que carregava.
      remexeu-se sentindo um embrulho no estômago ao pensar no rei casado com Bianca. Todavia nunca admitiria o que passava em sua cabeça — orgulho era a única coisa que ela gostaria de manter no momento.
     Em meio de seu devaneio a conversa crescera e gritos cheios de cólera e ultraje dominaram o salão das mulheres. Assustada com a mudança brusca de clima, a judia chamou suas servas para darem um passeio pelo jardim.
     O ar ficara pesado demais para respirar.

     

...

     

O rosto de estava iluminado; parecia uma criança que acabara de ganhar um presente almejado por muito tempo. Sempre em que a caravana de sacerdotisas chegavam para a adoração dos deuses e cortejo do rei, ela se mostrava eufórica para encontrar as mulheres que eram suas vizinhas na infância.
     Está morando no palácio era uma vantagem, pois não precisaria ficar juntos com as servas tentando visualizar no tumulto as lindas mulheres de rosa, as quais possuíam o mais encantador balançar que a menina vira.
     Desejara ser uma delas quando pequena. Queria ser dedicada aos sacerdotes e dançar para os deuses que tornaram a terra fértil para os medo-persas e os ajudaram a conquistar quase dois terços da Terra.
     Foi, então, que os deuses a abandonaram.
     Hoje não desejava adorar aqueles malditos que não escutaram o choro de uma criança quando ela mais precisara; tudo que queria era ter a felicidade estampada nos rostos das dançarinas.
      ficou imensamente feliz em trazê-la naquele meio. A mulher parecia voltar a ser menina de tanta alegria e ele sentia que estava cumprindo seu papel de marido. No entanto o jeito em que ela batia o pé no chão no ritmo dos tambores fazia sua mente fértil lhe pregar fantasias inoportunas.
     E se ela dança-se para ele?
     As delicadas mãos balançando simultaneamente no ar, o quadril fino mexendo para um lado e outro, os pequenos pés girando pelo quarto… E o sorriso carregado de inocência enquanto seus olhos claros exalassem luxúria.
     Apenas para ele.
     Era óbvio que a filha de Memucã não tinha ideia do porquê dos constantes olhares que recebia dos homens. Não sabia que possuía um corpo e um gingado que as mulheres pediam em suas orações todos os dias.
     Engolindo o seco ao perceber quão incomodado ficou com o fetiche criado pela sua cabeça, o homem deu a desculpa de que precisava de mais vinho.
     E talvez, pensou, precisava de um banho no rio Tigre também.

     

...

     

olhou para o céu quando uma brisa fresca rara atravessou o jardim.
     — Senhora, está com fome? Estamos a um bom tempo aqui.
     Virou-se para a sua serva que fora extremamente solicita.
     — foi buscar faz alguns minutos um pouco de manjar para mim, mas acho que seria melhor voltarmos. — respondeu — Obrigada mesmo assim.
     A mulher assentiu e juntas andaram em direção ao harém. A judia batia os dedos na saia do vestido nervosa; e se o alvoroço de mais cedo ainda acontecia? Odiava ver aquelas mulheres que antes eram tão amigas discutirem por causa do rei. Mesmo ele sendo gentil com ela e a fazendo rever o preconceito que tinha com , não achava que ele merecia ser tão valorizado. Quem dissera ao imperador que era algum tipo de deus na terra estava mais do que equivocado; ele poderia ser o homem mais poderoso da Terra, mas ainda era um homem.
     — Posso fazer uma pergunta constrangedora, senhora?
     A moça franziu o cenho e concordou com a cabeça diante a curiosa serva de cabelos negros.
     — O rei… Hm… é bonito de perto? Apenas o vi duas vezes em um cortejo e considero sua opinião mais sincera do que as mulheres do harém.
     Ela levantou as sobrancelhas lisonjeada.
     — Agradeço o elogio. — falou assim que perceberam que já chegavam na escada do harém. — Quanto a sua pergunta…
      parou no primeiro degrau e pensou pela enésima vez naquele dia sobre a noite que tivera com o rei. Lembrava da face bem desenhada de e a forma como seus olhos sumiam ao sorrir.
      — Ele é…
     — Querida ! Você não vai acreditar o que acabei de receber! — Hegai a interrompeu, para a tristeza das suas acompanhantes — O rei lhe mandou presentes! Por mais que eu ache estranho presentear uma mulher com papiros quando elas não sabem ler…
     Os olhos da judia se iluminaram como as estrelas no céu. O sorriso era o mais largo que o eunuco a vira dá.
     — Onde estão? Deixe-me ver! — ela disparou pelos degraus segurando o vestido para facilitar a corrida.
     Hegai se atrapalhou para acompanhá-la, por isso gritou por Zeres.
     — Oras, parece que não esteve presente em todas as aulas que lhe dei! Cadê a educação? — resmungou o eunuco tentando voltar a respirar regularmente assim que se pôs ao lado da mulher.
     — , tenha pena do pobre Hegai. — disse Zeres em um ar de divertimento — Já não corre como antigamente.
     A face da judia se iluminou ao ver que a serva carregava em seus braços dois pergaminhos bem enrolados e lacrados.
     — São esses que o rei mandou? — indagou em deleite.
     Zeres assentiu e estendeu para que ela os visse, fazendo o enfeite em sua testa balançarem. A moça os segurou com cuidado sentindo um comichão bom no estômago e o pulso se acelerar com a ideia de que o soberano persa lhe enviara tais presentes. A conhecia em menos de 24 horas e já atingira no seu ponto fraco.
     — mandou papiros para ? — perguntou Tafnes rindo em escárnio — Passaram a noite discutindo política? Não me admiraria se ele a chamasse para ser um mísero ministro, não uma rainha.
     As risadas das mulheres que acompanhavam-na ecoou pelo harém, entretanto, estava deslumbrada demais para escutar tais provocações.

     

...

     

nunca passara tanto tempo longe de .
     Sabia que aquilo era por precaução — sentia-se vigiado o tempo todo, mas a preocupação e a ansiedade o impediam de pensar em outra coisa. Os dias se passavam e nada do rei escolher sua próxima esposa. poderia já ter se deitado com o imperador, entretanto, ele preferia manter a esperança que não. A ideia do rei tocando na pele sedosa e convidativa do amor de sua vida lhe enojava e fazia seu sangue ferver.
     Se arrependia por não ter fugido com ela como planejara antes. Tinha esperança que conseguiria convencer aos pais da mulher que era digno de casar-se com sua filha e se mudar para a província mais longe possível de Susã. Sua família, ao contrário dos judeus, nunca aceitaria ter uma judia como parente e ele não permitiria que fosse constantemente assediada pelo preconceito dos amalequitas.
     Em um ato impulsivo, o soldado se viu andando no castelo em direção ao harém do rei. Não era necessário ter a conversa privada com ela — tudo que precisava era olhar para seu rosto e ter certeza que ela estava bem.
     Foi impedido por uma mão forte em seu ombro, algo de repente. Quando virou-se pronto para dizer algo piamente mal educado, calou a boca ao ver Dalfom com um dos seus sorrisos maldosos.
     — Ora, ora, vejo que meu irmãozinho está indo para um lugar perigoso.
      sentiu o sangue latejar. Sentia certa distância em relação ao seu irmão durante toda vida, contudo, sempre achou que a falta de intimidade se vinha do fato de que eram de idades diferentes. Agora que Dalfom conspirara contra ele e seu romance algo puramente ruim despertara nele.
     — Se eu fosse você saia da minha frente. — sussurrou entre dentes.
     Ele levantou a sobrancelha.
     — Sabe que isso vai chegar nos ouvidos do papai, não sabe?
     — Eu não me importo. — Respondeu rude e empurrou o irmão com o ombro, voltando logo em seguida para seu caminho.
     Todavia, o amalequita mais novo tinha consciência de que Dalfom o acompanhava e decidiu desviar-se em direção ao jardim extenso do palácio.
     Que os deuses o ajudasse a segurar a saudade que sentia por e a vontade de socar a cara de seu irmão.
     Ele saciaria aqueles dois desejos, mas, infelizmente, não hoje.

     

     

Deitada entre os travesseiros coloridos do harém, lia apertando os lábios. A jovem temia que o sorriso denuncia-se a felicidade que sentia ao receber o presente inusitado do imperador — odiava ter que admitir que apenas com o pequeno gesto ele conseguira conquistar sua atenção.
     Ainda o achava arrogante e extremamente egoísta, mas sabia que seus pensamentos mudariam no futuro. Sua natureza tendia a sempre dá uma segunda chance às pessoas que queriam se redimir; até mesmo reis em seu esplendor e glória.
     Não queria compartilhar a cama do imperador, contudo. Por mais belo que fosse, e Deus sabia que ela tinha curiosidade para com o lado amante dele, não tinha certeza que disputar o coração do imperador fosse uma atividade sadia para ela — aliás, pela primeira vez percebera que estava a mercê daquele homem de verdade. Ainda quando não havia o encontrado conseguia apenas se sentir revoltada por estar ali contra sua vontade, porém, agora via que não tinha nenhuma escolha. Era concubina do soberano da Pérsia e nada alteraria isso.
     De longe, hesitou ao ver a amiga tão absorta em pensamentos. Julgava que seu possível distanciamento se devia a um homem cuja coroa era do tamanho do seu ego. Decidiu, então, dá meia volta para explorar os jardins mais uma vez e tentar achar uma forma de revelar a que estava com os dias contados.
     No fundo ela sabia que não faria diferença; seu final estava traçado de qualquer maneira.

Capítulo 12 - Passado do Capitão

Quando acordou naquela manhã, foi até os aposentos de sua esposa cumprimentá-la e encontrou vestidos jogados por todo lado. andava de um lado para outro com suas criadas no encalço segurando tecidos em seus braços magricelas.
   — Bom dia. — Disse ele chamando sua atenção.
   — Bom dia. — Respondeu ela com seu habitual sorriso reluzente.
  Não era todo mundo que poderia ter aquele tipo de cortesia vindo da filha de Memucã. Descobrira tardiamente que por mais que chamasse atenção pela sua indiscutível beleza, muitos cavalheiros achavam terrivelmente grossa e não maleável, diferente do que se esperava de uma mulher. gostava de saber que ela tinha algum sentimento por ele, mesmo que fosse apenas respeito.
  — Acordou cedo, hein? Qual é o motivo dessa bagunça? — Perguntou curioso.
  — Um vez por ano eu costumo doar parte das minhas roupas antigas para algumas pessoas que não podem comprar nada novo. — explicou — Ganhei muita coisa no meu enxoval e alguns nunca usei.
  Seu marido sentiu um calor no peito, um orgulho bom de sua esposa. Nunca se arrependeria de ter escolhido a filha de Memucã como companheira. Não importava se compartilhavam a mesma cama ou não — aquele tipo de amor e desejo poderia ser plantado ao longo do casamento. Contudo, o respeito e o caráter que uma mulher como , a qual nasceu e viveu no luxo, eram intactos, por mais que ela tivesse tendência a ser fútil.
  O homem cruzou os braços e encostou o ombro na parede em uma posição relaxada.
  — Você me lembra minha mãe.
   falara pouquíssimas vezes de sua família e o pequeno comentário despertou a curiosidade de sua esposa. Na verdade, apenas sabia que nenhum de seus familiares compareceram ao casamento, o que era estranho para um homem importante como ele.
  — Ah, é? Por quê?
  — Ela adorava ajudar as pessoas que necessitavam, mesmo a gente não sendo uma família rica. — respondeu.
  O seu olhar vagava pelo cômodo alheio ao presente — sua mente viajava pelo passado que tivera.
  — Éramos uma família não muito pobre de Éfeso. Eu tinha dois irmãos: Felix, o mais velho e Raiana, a mais nova. Eu era do meio. — continuou — Meu pai era sapateiro na época em que a cidade foi atacada pelos babilônios reivindicando sua terra... — soltou um suspiro pesaroso — Sinto falta deles.
  Sua voz saiu carregada de um sentimento de luto pouco valorizado por homens como que enfrentavam a morte todos os dias e principalmente nos campos da batalha.
  Por instinto, soltou a seda que segurava nas mãos e se aproximou de seu esposo.
  Os braços o rodearam hesitantes. O capitão não percebeu até ver-se com a cabeça deitada ao seu ombro e o aroma ameixa lhe dominar. O abraço de era quente e confortador, entretanto algo que lhe dizia que quem estava sendo reconfortado não era ele.

  

...

  

Havia momentos que se tornava excessiva em seus pensamentos. Enquanto as mulheres corriam pelo jardim e conversavam em uma cacofonia inteligível, ela mergulhava nas memórias que um dia faziam parte da sua identidade.
  Poucas coisas conseguia lembrar de sua infância e da época que se sentia parte de alguma coisa. Era menina quando se mudou para Susã e teve que aprender a língua persa para se comunicar com as outras crianças. Fazia muito tempo desde que falara em hebraico — costumava ter conversas esporádicas com Mordecai antes de se tornar concubina do rei — e já não tinha mais o sotaque judaico como . Ademais, as pessoas apenas sabiam que ela era judia pelas vestes em tempos de celebração da páscoa ou quando acompanhava seu primo até as reuniões para adoração a Deus. Não obstante, os traços de seu rosto não denunciavam mais de onde ela vinha.
  Planejara ir à Jerusalém, pois sempre achou que lá encontraria seu verdadeiro "eu". Imaginaria que ali se sentiria livre para expor sua fé e planejava casar-se com um autêntico judeu de sua tribo.
  De preferência um escrivão como seu pai.
  Entretanto, não poderia se ater a tantos sonhos que nunca se tornariam reais. Estava dependente de um rei gentio e era concubina dele. Podia compartilhar sua cama, mas não tinha poder de dizer que era sua esposa; ou mesmo ter seu coração.
  O pior de tudo era que não sentia mais aquele ódio estrondoso que alimentava pelo rei. O imperador fora gentil e até mesmo não a forçou a deitar-se com ele, a escutou e não a enviou para a forca por desafiar seu orgulho.
  A verdade é que aquela ideia de que ele queria a conquistar lhe animava. Finalmente sairia da monotonia que vivia no harém.
  Dar-lhe os papiros foi golpe de mestre; ela reconhecia. Qualquer outro homem que premedita seduzir uma mulher procuraria entregar jóias e todos os tipos de vestidos luxuosos — todavia, o imperador prestou atenção na conversa que tiveram e se mostrou atencioso com ela.
  Só com aquele gesto quase conseguiu fazê-la esquecer que estava ali contra a sua vontade.

  

  

A cozinha real podia ser facilmente comparado com o tamanho do salão principal. Se levasse em consideração o depósito de comida, ela era considerada maior que qualquer aposento do resto do castelo. Durante o dia era comum ver a cozinha congestionada, porém, nos dias de treino do rei e seus melhores guerreiros, o caos que dominava o cômodo poderia ser igualado ao centro da cidade de Susã no começo da primavera.
  A função principal de era servir comida e vinho ao rei e ter certeza que ele não chegaria envenenado ao soberano. O beduíno costumava apenas ser um mero ajudante na cozinha e carregava para cima e para baixo os sacos de cereais e frutas para o depósito antes de ser promovido. Era normal vê-lo dando ordens e evitando que a bagunça transforma-se em algo sem resultado.
  Naquele dia, entretanto, andava mais calado. foi o primeiro a perceber a diferença de comportamento de seu amigo, mas não teve tempo para puxar assunto. Ele, junto a um quinteto, carregava bandejas cheias de frutas e água para os homens do imperador.
   estava encostado em uma coluna com os olhos fechados. Quem não o conhecia diria que o homem dormia em pé, porém seu amigo sabia que a um homem sempre alerta como o beduíno dormir em serviço era algo que nunca aconteceria.
  — Quanto tempo até você me dizer o que está acontecendo?
  Ao abrir os olhos preguiçosamente e fitar o judeu molhado de suor e com a respiração pesada, pensou em ignorá-lo e voltar ao trabalho, contudo conhecia muito bem para acreditar que ele insistiria. Resignado, o homem suspirou.
  — Raquel está muito mal. — Ele passou a mão no rosto e coçou a barba — Acho que ela não vai sobreviver por muito tempo.
  O olhar complacente do judeu significou muito para ele. Seu amigo não precisava dizer palavras de conforto que só serviriam naquele momento. O simples mirar carregado e o balançar da cabeça em afirmação de era tudo que ele precisava.
  — E eu me lamentando por ter perdido . — falou ensaiando um sorriso — Realmente não sei o que é sofrimento.
  — Não se pode perder o que nunca teve. — Disse em tom de zombaria.    fechou a cara automaticamente.
  — Você não tem nada para fazer não? Vai trabalhar! — Falou com uma falsa chateação enquanto seu amigo ria.
  — Algum dia terá que aceitar a verdade. — Comentou dando tapinhas em suas costas e voltando ao trabalho.

  

  

O barulho das espadas era relaxante para o rei e segurar uma lhe dava uma paz e sensação de controle experimentada de vez em quando. Era bem mais cômodo está vestido com armadura a usar roupas de linho. O sol era castigante como todos os dias e o cheiro do pátio de treinamento era uma mistura das frutas e suor de seus homens — uma péssima combinação no ponto de vista do imperador, entretanto ele se via mais concentrado em derrotar seu capitão real no duelo do que ordenar que seus guerreiros fossem se banhar antes que as árvores do seu jardim morressem de desgosto por causa do fedor.
  Não é como ele estivesse cheirando a rosas por certo.
   sempre fora um oponente difícil. Durante uma batalha em pouco se importava se era o rei da Pérsia ou o padeiro fracassado de Nínive: quando ele lutava era para ganhar. Por esse motivo o imperador insistia em gladiar com ele. Acostumado a ser sempre bajulado pelos seus melhores guerreiros, era normal duelar com homens que na sua presença pareciam uma moça virgem durante seu sangramento. Não demorou para seu orgulho se acostumar com isso, contudo.
  — Chega. — Disse o rei de repente — Preciso de água.
  Como um servo obediente, abaixou a guarda e deu um sorriso desdenhoso para que guardava sua espada.
  — Está cansado, meu rei? — Perguntou ele de forma provocativa.
  — Homens hidratados têm mais chance de ganhar uma guerra do que homens orgulhosos, .
  O capitão riu e o acompanhou até a mesa onde estavam os vasos. Enquanto se refrescavam, o rei observava seus guerreiros mais jovens duelarem em uma afobação típica de soldados inexperientes. Não deveriam ter presenciado mais do que duas batalhas.
  Demorou apenas alguns segundos até que Ananias aparece-se avisando a chegada de Iasmim, a sacerdotisa de Mitra e Ur, sumo-sacerdote de Ormuzd. Como de costume, o rei chamava-os para ter uma conversa superficial sobre o que os deuses achavam como ele governava, escutava alguns conselhos e depois esquecia totalmente do que eles disseram.
  Ur já era um homem idoso, talvez até mais velho do que Memucã. Ele carregava um olhar cansado e cheio de desprezo que direcionava até para sua sombra. Suas roupas de sacerdote costumava assustar crianças que não entendiam sobre as crenças persas.
  Iasmim era exatamente o que se esperava de uma sacerdotisa: sensual, de olhos dissimuladas e devota ao deuses. Tinha os cabelos muito escuros e usava maquiagem que se assemelhava à das mulheres egípcias. Os olhos eram verdes e costumavam dar uma sensação nostálgica ao rei da sua adolescência.
  O aniversário de de 15 anos coincidiu com o dia de consagração de sacerdotisas, algo bastante proveitoso para o rei Dário, seu pai. era novo, inexperiente e tinha ataques de raiva que ninguém sabia como controlar. Como ritual de consagração dos deuses, Iasmim iria entregar seu corpo intocado ao herdeiro do trono, vulgo . Ele lembrava vagamente daquela tarde e as poucas lembranças que existiam apenas não fugiram da sua mente por causa da constante presença dela no palácio.
  — Meu soberano. — Disseram os dois e o reverenciavam categoricamente.
  — Espero que os deuses estejam felizes ultimamente. — Comentou sem rodeios — Eu ao menos me sinto satisfeito.
  — Viemos falar sobre o sacrifício anual. — Disse Ur levantando levemente seu nariz — Precisamos de uma virgem para sacrificar e sem defeito algum.
  — Nós acreditamos que o soberano se sentiria honrado em nos oferecer uma das virgens de seu harém, facilitando assim nosso trabalho. — Concluiu Iasmim serenamente.
  O imperador não era conhecido por reações escandalosas, então, quando ele soltou uma gargalhada e jogou a cabeça para trás, os dois sacerdotes acharam por bem acompanhar seu riso, embora fosse óbvio que era algo forçado. O capitão real observava aquilo com cuidado — conhecia o rei o bastante para saber que dali não sairia algo bom.
  — Você não toca nas minhas mulheres. — Respondeu o imperador empurrando o copo contra a mão do sacerdote. — Existe um monte de moças que estão dispostas as abrir as pernas para os deuses. Com certeza vai ter algumas que morreriam por eles.
  Sem olhá-los mais, voltou para o lugar de combate e tirou sua espada da bainha.
  — O que está esperando, ? Venha aqui experimentar o gosto da derrota.
  O capitão sorriu para o rei e correu em sua direção já com a espada em mãos. Sem cerimônias soltou um grunhido e o atacou. Enquanto se defendia rapidamente, esqueceu-se da presença dos sacerdotes.

  

  

Era final da tarde quando chamou para andarem sozinhas pelo jardim. A maiorias das moças estavam dentro do harém e as poucas que estavam do lado de fora ainda beliscavam o lanche da tarde. O céu estava começando a escurecer e se tornar laranja. As mulheres andavam em silêncio e pode sentir o nervosismo da amiga.
  Algo estava muito errado.
  Ela havia percebido antes, mas não gostava de pressionar ninguém. era uma pessoa bastante entusiasmada e tagarela, mas nas últimas semanas ela estava cada vez mais pensativa e reservada.
  — Está ficando frio aqui, não é? — Falou , uma indireta para que ela se apressa-se.
  —
  — . — Corrigiu automaticamente.
  E começou a perceber que a muito tempo não sentia-se como , a filha adotiva de Mordecai. O pensamento, contudo, a deprimiu.
  — Eu acho que estou grávida.
  A judia segurou o fôlego e sua face se tornou tão assustada que temeu que ela tivesse visto um fantasma.
  — Não pode ser! Como você e ...? Oh, meu Deus, não me diga! — Disparou em falar e segurou em seus braços. — Você precisa dormir com o rei! Irei dar um jeito pra que seu nome seja sorteado. Provavelmente ele vai chamar mais uma concubina hoje e eu…
  — Não mesmo! Você está se ouvindo, ? — Ela balançou seus ombros — Isso só me deixaria mais culpada. Meu filho seria herdeiro do trono sendo que o pai é um soldado! Como eu viveria sabendo..?
  Quando percebeu que ela não tinha muitas opções e que aquela seria a única opção que conservaria sua vida e a do bebê. O choro veio sem cerimônias e de forma bastante escandalosa. a segurou e acariciou seu cabelo enquanto ouvia balbuciar frases aleatórias em hebraico. Com o coração apertado, as judias se abraçaram com a incerteza do futuro pairando sobre elas.

  

  

A família de Amã jantava quando atravessou a casa. Ele podia facilmente sentir a tensão no ar; aquele silêncio era conhecido, mas não deixava de ser desconfortável. Para ir até o seu quarto era necessário cruzar a cozinha, então, respirando fundo, o amalequita andou da forma mais serena que podia.
  Foi impossível não sentir o olhar carregado de sua família o acompanhando. Não obstante, quase cheirava a fumaça que saía de suas narinas de raiva.
  — Onde esteve?
   parou devagar enquanto seu sangue ficava tão frio quanto gelo. A voz de seu pai vibrou em seu corpo o deixando aterrorizado.
  — Estive fazendo ronda com os outros soldados.
  Dalfom, que roía um osso de galinha e tinha os dedos melecados de gordura, levantou a sobrancelha alerta.
  — Até onde eu sei você não foi convocado para a ronda hoje. — Desafiou seu irmão.
  — Estava à procura de outra judia para se divertir? — Indagou sua mãe levantando o queixo com desdém.
  O amalequita caçula cerrou os pulsos.
  — Ao contrário da senhora eu sou fiel a quem amo.
  Sua mãe o olhou horrorizada e Amã bateu com força na mesa.
  — Basta, seu bastardo! Você não valoriza o sangue que tem e merece morrer junto com aqueles cães sarnentos dos judeus. — Disse ele de forma hostil. — Pegue as suas coisas e saía dessa casa. De preferência esqueça que é da descendência de Amaleque!
  Raivoso, pegou todas as suas coisas e fez uma trouxa rapidamente. Marchou para fora de casa com tanta força que quase fez um buraco no chão. Apenas depois de cinco minutos zanzando pelas ruas o vento gélido esfriou sua cabeça e ele percebeu que não tinha para onde ir.

  

  

Já fazia muito tempo desde que conseguiu dormir cedo. Sua mente estava agitada: não conseguia parar de pensar na situação de . Entregar-se o mais rápido possível para o rei para que ele assumisse o bebê era a melhor opção, porém aquela ideia fazia seu estômago revirar. Não queria pensar que tudo isso era por causa de um sentimento egoísta que sentia em relação ao imperador. Um sentimento que ela mesma desconhecia.
  — ? Está acordada?
  Na breu que dominava o grande quarto das mulheres, a judia se assustou ao ouvir a voz de Hegai.
   — Sim, sim. — Respondeu — O que houve?
  — O rei quer alguém para ler para ele e pensei em levá-la! Já conversei com Maquir, o escriba. Ele costuma nem ver quem está lendo. O que acha?
  A voz do eunuco era extremamente ansiosa e mesmo não conseguindo ver sua face bem por causa da escuridão da noite, podia imaginar que estava com os olhos brilhando de excitação.
  — Você acha que o rei vai aceitar sem problemas? Não deve haver um monte de mulheres que leem por aqui… Não é contra lei?
  — Eu sou homem, , apesar que muitos não o considerem isso. — Falou ele firme — Sei que o rei gostará dessa surpresa e nem se lembrará da lei. Pegue os presentinhos que ele te deu!
  Relutante, a judia levantou-se e pegou os papiros que guardara abaixo de sua cama. Com cuidado, segurando a mão do eunuco, atravessou o salão nervosa e pedindo a Deus que aquela ideia não custa-se o seu pescoço e o do chefe do harém.
  Entretanto, bem no fundo, ela sentia animação por fazer algo que tecnicamente desafiava o rei .

Capítulo 13 - Contar Cavalos

O único lugar que pode pensar em ir ao ser expulso de casa foi a Taberna do Senhor Sazar. O homem já era um senhorio e embora fosse acostumado com a presença predominante de homens, não costumava encher seu estabelecimento com prostitutas. Alguns diziam que ele se apaixonara por uma meretriz que trabalhava para ele uma vez e o resultado fora uma tragédia sem igual e por isso não aceitava seus serviços na Taberna. Boatos que não importavam ao jovem amalequita que apenas procurava um lugar tranquilo para beber.
  Se estivesse do lado de fora e visse um soldado chorando as pitangas enquanto gastava seu dinheiro com a cerveja egípcia, ele riria. Era um estado bastante deplorável para alguém que deveria ter orgulho de participar do mais poderoso exército do oriente.
  Mesmo não sendo o maior fã de seus pais, eles ainda eram sua família e ser excluído por causa de um amor fora um duro golpe para o rapaz. Por outro lado havia a dor de imponência que fervilhava em seu peito ao saber que estava subjugada aos desejos do rei .
  A bebida era sua única escapatória naquele momento.

  

  

— Não sei se posso…
  — Quieta, ! — Repreendeu Hegai. — Se você está aqui é porque eu sei o que estou fazendo.
  A judia apertou os lábios tentando calar-se. Nunca foi uma mulher desobediente, mas ainda não acreditava que o rei ia sentir honrado quando percebesse que havia uma intrusa em seu quarto.
  — E se eu morrer?
  O eunuco colocou a mão na boca para que a sua gargalhada não vibrasse por todo o palácio.
  — Não seja boba, senhora.
   sentiu seu corpo gelar ao ouvir uma voz grave e profunda que não pertencia a ninguém que conhecia. Ananias estava na frente dos átrios do rei como um soldado pronto para batalha. Ao seu lado havia dois guardas que eram menos ameaçadores que o servo de maior escalão do imperador.
  — O rei a chamou e parece bastante impaciente com sua demora. — Completou ele.
  Seu nervosismo se tornou mais evidente ao escutar aquelas palavras. Sem mesmo lhe dar tempo para indagar o porquê de ter sido induzida a acreditar que a ideia vinha de Hegai, viu-se ser empurrada para dentro do quarto.
  As cortinas estavam todas abertas e a noite ventosa as mantinham balançando de uma forma quase terapêutica. As tochas que iluminavam o cômodo não se apagavam com facilidade. sentiu seu coração saltar para fora do corpo quando avistou o rei deitado na cama relaxado.
  Será que ele tinha desistido de conquistá-la e ia reclamar o que era seu?
   estava deitado de lado na cama e parecia bastante concentrado nos anéis que tinha na mão direita. Não demorou muito para ele escutar os passos da mulher e seu rosto se encheu de júbilo ao mirá-la no cômodo.
  A judia estremeceu quando seus olhos se encontraram e automaticamente baixou o olhar em uma expressão submissa. Com delicadeza dobrou os joelhos em rápida reverência.
  — Não sabia que o senhor me esperava. — Disse ela tentando parecer casual.
  O imperador não podia se sentir mais satisfeito. Iluminada apenas pelas luzes das tochas e sem todo luxo, parecia mais bonita. Ela usava uma camisola longa, folgada e bastante virginal. Os longos cabelos estavam rebeldes e bagunçados enquanto o rosto estava lívido sem nenhuma maquiagem.
  A sua concubina tinha uma aparência quase angelical e ele morria de vontade de corrompê-la.
  — Se correr pelo harém que a chamei pela segunda vez talvez você não volte como apenas minha concubina. — Respondeu — Mas é verdade que quero que leia para mim. Venha cá.
  No passo hesitante, a moça andou devagar até o imperador no momento em que ele ofereceu dois pergaminhos que estavam jogados em cima da cama.
  — Você tem dificuldade de ler números? — Ele indagou.
  — Não, senhor. — Falou ela segurando os documentos com cuidado.
  — Então sente-se.
   direcionou-se para a cadeira ao lado da cama que era perto o suficiente de uma das tochas para que ela conseguisse ler e com calma abriu o pergaminho. Ela coçou a garganta e com os olhos semicerrados para decodificar a caligrafia começou a ler. Logo a judia estava emersa a um mundo cheios de dados sobre os suprimentos enviados para o norte do país e as cidades vizinhas.
  O rei mal prestava atenção no que ela lia. A voz de era aveludada e lhe dava uma sensação de torpor que poucos lhe proporcionaram. sempre teve dificuldade para dormir por ser energético demais, mas naquela noite seus olhos pesaram rapidamente.
  Quando faltavam apenas duas linhas para o fim do primeiro papiro, a judia levantou o olhar para certificar se o rei ainda a escutava e se surpreendeu ao vê-lo dormir. Os braços fortes estavam estirados pela cama e seu rosto demonstrava uma fragilidade que acordado o rei nunca mostraria. Ouvindo sua respiração regulada e um tanto pesada, se levantou com cuidado e deixou os papiros em cima da mesa que havia no quarto.
  Atenta aos movimentos do imperador, ela soltou um suspiro resignado tentando manter os pensamentos em ordem. Em um ato impulsivo, a moça estendeu a mão e acariciou seu cabelo. Em silêncio saiu do quarto e foi de volta ao harém balbuciando uma oração; a vantagem de ser levada por um dos soldados responsáveis pela segurança do rei era sua total discrição, então, a aparente loucura da judia não seria comentada por eles.
  “Jeová, eu não conheço esse homem bem. Ele é o tipo de marido que o Senhor nos advertiu para não ter, porém aqui estou eu como concubina dele. Não sei qual o seu caminho para mim e o rei, por isso peço que sua vontade prevaleça.”
  Ela hesitou por um segundo sentindo um aperto no peito. Deveria ser sincera para com Deus.
  “Por favor, não coloque meu coração em risco.”

  

  

A luz expandiu-se da janela para iluminar todo o quarto anunciando que era manhã. olhou para o teto e sorriu ao lembrar de sua conversa no dia antes. Ele havia aberto o seu coração de uma forma que não fazia há anos e se sentia confortável em confiar a sua esposa a origem de sua família. Poucos sabiam de onde o capitão vinha — nem mesmo seu sogro sabia de toda a história. Depois de se levantar, lavar-se e vestir-se para começar mais um dia de trabalho, andou com destreza até a pequena mesa que havia nos seus aposentos.
  — Bom dia. — Disse assim que encontrou sua mulher carregando um guisado pesado nas mãos. — Vejo que acordou cedo.
  — Bom dia. — sorriu tímida — Queria fazer alguma coisa especial para você hoje… Sei que costumamos comer com o rei e…
   tocou em seu ombro e deu um sorriso singelo a mulher.
  — Tudo bem. — Ele a interrompeu — Podemos tomar o desjejum juntos sem nobres nos incomodando, não é verdade?
   balançou a cabeça esperançosa e animada para ter um momento à sós com seu marido. Conhecer mais sobre sua história se tornou mais que desejável aos seus olhos, trazendo assim uma intimidade que nenhum dos dois experimentaram antes.

  

...

  

Havia um pequeno murmurar nos salões do harém na manhã seguinte a noite em que lera para o rei. Algumas moças perceberam a saída da judia e se interrogavam o que ela tinha ido fazer. Tafnes, assim como suas seguidoras cabeça de vento — como chamava carinhosamente — dizia que provavelmente estava sendo mimada pelo eunuco chefe como sempre.
  Sentada em uma cadeira confortável e de pernas cruzadas, a judia, porém, percorria seus olhos atentamente pelos papiros que ganhara do rei e não se cansava de ler cada verso, seus olhos brilhando cada linha. Ela pouco se importava em ser objeto de fofoca. O barulhinho irritante sumiu de repente quando Hegai entrou com um sorriso que não lhe cabia no rosto e foi em direção a ela.
  — Bom dia, querida! Você já comeu? – Perguntou o eunuco.
  Ainda mergulhada em seus pensamentos, a moça sorriu meio desorientada.
  — Pra falar a verdade, não. Estou sem fome, senhor.
  — Ótimo, o rei a chama para um piquenique. – Disse ele batendo palminhas.
  Ela olhou para os lados surpresa. Hesitante levantou-se da cadeira e logo foi puxada por Hegai pelos corredores com os olhares femininos fitos na movimentação.

  

  

vomitaria de nervosismo se tivesse algo dentro do estômago. Enquanto Ananias a conduzia até o local onde o rei havia falado, ela tentava se distrair com as grandes árvores e flores que embelezavam o jardim do palácio. Assim que avistou o imperador sentiu um grande calor no peito e ao se aproximar reverenciou e continuou de cabeça inclinada, exatamente do jeito que Hegai lhe ensinara. tocou em seu queixo para que ela levantar-se em seu olhar e sentiu um grande prazer em ver aquela beleza singela. Ele ficara muito frustrado ao ver que perdera a chance de conversar com a concubina na noite anterior; quem diria que uma voz feminina lhe daria o sono reparador que costumava lhe escapar todos os dias!
  Ela estava linda, pensou o rei, azul lhe caia bem. E então ficaram em silêncio.
  — Gostaria de agradecer pelos papiros, senhor. – Disse quando encontrou as palavras em sua boca — Esqueci-me completamente de dizê-lo o quão feliz fiquei ao receber os presentes.
  — Gostou do que leu? — Perguntou o imperador estendendo o braço para que ela o segurasse.
  — Claro, os versos são realmente lindos, embora são de um autor desconhecido. — Ela sorriu para ele.
  — Fico feliz que você tenha gostado. — Fez uma pausa observando-a. Os dedos formigam para que tocar-se a pele de , mas ele preferiu ser mais cauteloso. — Agora lhe convido para uma aventura menos lírica. – Sugeriu estendendo a mão em direção a dois cavalos de raça pura. Animada, a moça balançou a cabeça concordando.

  

  

e andavam pelo jardim segurando as rédeas dos seus cavalos enquanto conversavam. O ar puro, o cantar dos passarinhos e a beleza do céu pareciam casar com o clima do diálogo. Os dois pareciam tão relaxados na presença um do outro que os espectadores de fora dificilmente acreditariam que alguém poderia baixar a guarda do grande rei . O bate-papo se estendeu a tópicos bastante peculiares para o imperador — ele não tinha ideia de como seria o olhar de uma simples virgem no meio do caos do comércio de Susã ou mesmo como os escrivães se assemelhavam com monges quando trabalhavam. Cada detalhe da vida de , por minúsculo que fosse, era algo valioso para o rei.
  — Me fale sobre seus pais. — Pediu o rei.
  — Meus pais foram... — hesitou — morreram quando eu ainda era criança. – suspirou, ressentida.
  — Sinto muito. — Lamentou o imperador da Pérsia.
  Segundos se passaram até que ela continuasse.
  — Lembro que meu pai adorava contar histórias, ele me colocava no colo e passava horas falando sobre nossos antepassados; sinto falta disso... Já minha mãe queria que eu aprendesse a tecer, mas não levava nenhum jeito pra coisa. — Os dois riram — O que eu amava mesmo era ir pra cidade com meu pai e ficava contando quantos cavalos entravam e saiam.
  — Eu também contava cavalos. — Disse o rei estranhando a coincidência.
  — Mesmo? — Ela franziu o cenho, curiosa.
  — Os cavalos do palácio, claro.
  — Ah, eu achei que só eu brincava disso! – E eles riram com uma familiaridade rara.
  — Seus pais pareciam ser pessoas maravilhosas, . – Comentou o rei.
  — E eles eram. Eram pessoas simples, pobres, mas nunca se deixavam abater; tinham sempre um sorriso no rosto. – sentia-se confortável em falar daquele assunto. Os anos de boa conversa com Mordecai não deixou que seus pais fossem esquecidos, porém nunca alimentara o ódio pelos seus assassinos. Não era ela que viria com justiça perante eles.
  A mágoa podia ser um veneno fatal para quem sentia, dizia Mordecai.
  — Iguais a você. – Disse o rei, desviou o olhar envergonhada. — Acho que se os seus pais estivessem vivos estariam muito orgulhosos da mulher que se tornou. – A moça sorriu agradecida.
  — Já chegamos. – Disse apontando para o pequeno piquenique que havia a alguns metros.
  — O seu pai deve ter sido um ótimo homem, todos do palácio falam bem do grande rei Dário. – Falou a jovem moça se sentando na toalha na toalha.
  — Tudo que sou, tudo que eu sei, tudo que eu penso é graças a ele. – Afirmou o rei.
  — Você não tinha medo de ir às guerras com seu pai? – Indagou olhando para cima para encará-lo.
  — Nunca. Fui preparado desde pequeno para batalhar, eu sentia orgulho de lutar ao lado do meu pai. — Ele suspirou. — Não éramos próximos, contudo. Ele era o rei, afinal.
   não evitou sentir um pouco de pena do imperador — por mais que ela não tenha tido seus pais por perto por toda sua vida, podia se agarrar a momentos vagos de sua infância e ao amor que Mordecai sentia por ela. , porém, não tivera a mesma sorte.
  O rei se pôs a amarrar as rédeas dos cavalos em uma árvore e se viu observando os pequenos gestos do imperador. E, mesmo que nunca admitisse em voz alta, começou a imaginar o que havia por trás daquele semblante tão sério e determinado. Qual seria a fraqueza do rei da Pérsia?

  

  

Depois de se deliciarem com a comida e a conversa fluía sobre as flores do jardim. Fazia tempo em que tinha oportunidade de falar coisas supérfluas e se sentia cada vez mais envolvida com o charme do rei. Os dois só perceberam que estavam conversando por muito tempo quando Ananias apareceu perto dos guardas que o acompanhavam de longe.
  — ? – Chamou o rei – Está ficando tarde, temos que ir. – ele se levantou e estendeu a mão ajudando-a a se equilibrar.
  — Aqui é um lugar lindo. – Disse ela olhando para os lados. — Nunca tinha vindo para essa parte do jardim.
  Eles desamarraram as rédeas dos cavalos e voltaram andando para o palácio. De longe eles poderiam ver as portas para a entrada para os corredores que levavam a lugares que não poderia ir. Hegai e Ananias esperavam pacientemente por perto e logo o sentimento de está de volta a realidade começou a dominar o casal.
  — , lembra do que conversamos naquela noite que nos conhecemos? – Ela concordou com a cabeça — Eu não quero que você se sinta como uma prisioneira aqui. – Ele respirou fundo e pausou a caminhada.
  A moça parou devagar e o olhou curiosa. O que era aquilo que o rei apenas queria contar no momento em que voltavam para o mundo real?
  Engolindo uma parcela de seu orgulho, percebeu que aquela era a proposta certa a se fazer. Uma mulher tão singular como merecia mais do que o reino — ela merecia liberdade para que realizasse seus sonhos. Com este pensamento, o rei disse:
  — Se quiser sair do palácio e seguir para sua terra, você pode. Está livre de mim, .

Capítulo 14 - O colar perdido

O pulsar de seu coração podia ser sentido desde a garganta. O vento quase fizera seu véu voar para longe e por instinto ela segurou-o na cabeça.
     Enquanto olhava a perturbação de , o imperador parecia sereno. Por dentro, contudo, quase ordenava rudemente para que ela lhe dar uma resposta.
     A judia desceu os olhos para o chão e coçou a garganta. Deixar de ser concubina do rei seria uma boa escolha? Ela iria a Jerusalém assim que pudesse e viveria a vida que sempre sonhou?
     Contudo, a imagem de brilhou em sua mente. Ela seria egoísta o bastante para deixar sua melhor amiga com ninguém para defendê-la?
     E ainda havia aquele homem tão diferente do que ela imaginara. O soberano da Pérsia conhecido por sua falta de misericórdia estava lhe dando um passe livre para a liberdade que ela queria.
     — Não sabia que tinha lhe desinteressado tão rápido, majestade. — Comentou depois de um tempo.
     — Não mesmo. — Replicou — Apenas não quero ter que lhe forçar a um relacionamento que não é do seu desejo.
     Um sorriso singelo alumiou-se no rosto da jovem.
     — Isso foi muito gentil de sua parte, meu rei.
     Algo dentro do imperador tremeu de prazer e orgulho de si mesmo. Acertara bem nas palavras que usara e de bônus ouviu atentamente a forma carinhosa que ela o chamara. A expressão “meu rei” nunca significou tanto para ele.
     — Diante disso não posso evitar confessar que há muito não venho ao seu encontro por ser sua ordem. — Explicou — A verdade é que tenho adorado conhecê-lo melhor.
     — Então, ficará comigo? — Indagou o rei ansioso.
      respondeu com um simples acenar, tentando não dá muita importância àquela escolha, mas o sorriso que se desenhou em seu rosto lhe denunciou.
     — Posso chamá-la para ler pra mim essa noite? — Disse o rei galanteador.
     Envergonhada por não estar acostumada com tamanha atenção, pôs a mão no pescoço procurando pelo colar da sua mãe. Aquele acessório tão especial lhe trazia uma confiança que pouquíssimas pessoas com toda a destreza do mundo conseguiria transmitir — então, foi óbvio o desespero quando ela percebeu que a joia não estava mais ali.
     — O que foi? — Perguntou o rei alarmado.
     — Meu colar. — Respondeu ela olhando para o chão à procura do objeto.
     — Ah, não se preocupe. — Replicou relaxando os ombros — Posso lhe dar um muito melhor e mais bonito que aquele.
      apertou os lábios frustrada.
     — Não precisa, senhor. — Falou — Esse colar foi o que minha mãe me deu e tem um significado grandioso para mim. Receio que nenhum outro pode substituí-lo.
     O imperador sentiu seu coração diminuir no peito quando viu os olhos de encher-se de lágrimas, porém ela não se mostrou fraca em sua frente. A jovem engoliu o seco e se recompôs.
     — Foi muito bom passar esse tempo com o senhor, meu rei. — Comentou firme — Não vamos deixar que um imprevisto tire o brilho dessa manhã.
      sorriu admirado com a facilidade em que a concubina lidou com isso. Era óbvio que o objeto significava muito, mas ela não se mostraria frágil na frente do homem mais poderoso do oriente. O imperador cada vez tinha mais certeza que era a mulher certa para ser sua rainha.
     Depois de se despedirem, o rei fitou as costas de e o par de guardas que a seguia e Hegai indo até o harém. Ananias já se posicionara ao lado de esperando seu comando e, sem olhá-lo, ordenou o imperador:
     — Mande os servos para procurar no bosque um colar simples com uma pedra azul. Quero-o daqui a dois dias.

     

     

tentava ignorar o fato de saber que o fitava estava o incomodando. Não que não a amasse, — longe disso acontecer algum dia — mas talvez se ela soubesse o que se passava pela sua cabeça a machucaria e, da forma como ela o olhava, sentia que poderia ler seus pensamentos em um instante. Levou o pão a boca e desviou o olhar para a janela suspirando frustrada. Ela estava entediada e não ficava para trás quanto a isso. Seus pensamentos estavam conturbados quanto a seu casamento.
     Certo, ele disse que esperaria o tempo que fosse, mas... Ele se sentia carente. Era vergonhoso, o oficial sabia disso. Um dos homens mais importantes do rei estaria necessitado dos braços de uma mulher? Patético! Qualquer pessoa que soubesse do que se passava diria para que ele devolvesse a Memucã e se casasse com uma mulher qualquer ou ele poderia simplesmente contratar uma prostituta, afinal, nunca o acusariam de adultério.
     Contudo, cogitar trai ou deixá-la ir era um ato covarde que ele não ousaria cometer. Não imaginava outra mulher a sua frente a não ser a que via. E então, avistou a sorrir educadamente para uma serva e toda sua concepção parecera esvair radicalmente.
     Ele esticou a mão e acariciou a bochecha da sua esposa que sorriu para ele de forma dócil e percebera que esperar seria algo difícil, mas por ele faria esse esforço.
     A filha de Memucã beijou a palma do oficial e lhe fitou sorridente. sentiu suas pernas vacilarem, e agradeceu aos deuses por não estar em pé. Se soubesse o quanto provocava-o com aquele olhar... Talvez ela soubesse e fazia de propósito. O oficial não tinha ideia, mas um dia gostaria de descobrir.

  

...

     

Sentado em uma das esquinas, encostou suas costas na parede de uma casa qualquer se abraçando por causa do frio. Era mais um daqueles dias difíceis em que seu estômago clamava por comida e seu corpo por um lugar mais quente. De repente lembrou-se poderia pedir ao rei abrigo, com certeza ele não negaria. Mas, isso comprometeria seu pai em relação ao imperador e não queria ter mais problema do que já arranjara. Com a cabeça virada para cima, fechou os olhos e imaginou-se ao lado de . Deixou um sorriso escapar ao lembrar-se de como a conheceu.
     Ela era apenas uma jovem garota andando pelas ruas de Susã enquanto falava sozinha. Seu jeito maluco e inusitado de ser o encantara, tanto quanto o seu rosto inocente lhe deixara apaixonado. Lembrava muito bem da primeira vez que a teve em seus braços; sua pele macia e sedosa com um cheiro de jasmim característico, já que sua mãe banhava os tecidos usados pelo perfume dessa planta. Recordava segurar seu rosto e sussurra um “eu te amo” antes de ter partido para guerra. Eram momentos tão dóceis e agradáveis para que pensar que talvez nunca mais tivesse chance de tê-los outra vez uma dor no peito lhe acertava em cheio.
     Sentiu-se alguém tocar seu ombro e abriu os olhos alarmantes. Virou o rosto rapidamente e fitou o senhor Joel. O judeu lhe olhava com uma carranca que era conhecida por todos; alguém já o vira sorri? Se perguntava o amalequita.
     — Jovem, venha. — Falou ele — Não vou chamar de novo. Siga-me, eu lhe darei abrigo.
      levantou-se subitamente animado. Joel virou-se andando e o jovem oficial o seguiu em seu encalço. Depois de tantas noites ruins, finalmente algo bom acontecia com ele.

     

...

     

Nos corredores do palácio aconteciam as melhores brincadeiras da infância de . Antes, quando não os conhecia bem, eles eram um labirinto a ser desvendado e depois passou a ser o lugar favorito para jogar esconde-esconde. Ela lembrava de vez ou outra ser acompanhada pelo herdeiro do trono e de ficarem presos dentro de um armário juntos. achara que um dia podia ser a esposa de , mas quando a realidade lhe apareceu, ser rainha e compartilhar a cama de alguém que ela considerava um irmão era loucura para seus olhos.
     Ela conhecia os corredores mais desertos, entretanto escolheu andar perto do salão real com suas servas. A mulher estava entediada demais para ficar sentada em seus aposentos vendo criadas correndo para manter tudo organizado.
     — Veja só quem eu encontrei aqui.
      assustou-se ao escutar uma voz grave e carregada de sabedoria fazer aquele comentário. Seu coração encheu-se de júbilo ao ver seu pai, Memucã, com a face corada de felicidade em rever sua filha.
     — Papai. — Murmurou ela em deleite ao abraçá-lo.
     — Pensei que nunca a veria por aqui. Mesmo morando no palácio parece que você está longe de Susã! — Comentou o pai.
     — falou que está querendo comprar uma casa pelos arredores. Está tão sufocado com o palácio quanto eu.
     — Falando em seu marido. — Seu pai passou o braço por seus ombros — Como está indo a vida de casada?
     — Ah, papai… — Respondeu encabulada — Acho que normal.
     — Vocês já tiveram alguma briga? Casamento pode ser mais complicado do que parece.
     Ela negou com a cabeça.
     — tem sido mais atencioso do que qualquer homem em sua situação, papai. — Respondeu ela suspirando — Tenho medo que ele se frustre com o casamento depois.
     O velho arregalou os olhos.
     — Do que você está falando? — Indagou — Vocês não consumaram o casamento?
      baixou o rosto constrangida.
     Memucã olhou para os lados hesitante para certificar-se que ninguém os escutava. Aquela informação podia vazar e trazer comentários maldosos sobre sua filha e genro.
     — Não comentou com ninguém, não foi? Ninguém? — Indagou ele em sussurros.
     Sua filha balançou a cabeça negando nervosamente.
     — Quando dei minha benção para esse casamento foi porque você disse que gostava dele. Pensei que não haveria nenhum problema quanto a isso. — Censurou o primeiro ministro.
     — Papai, isso é algo que diz respeito a mim e a . — Replicou ela — Eu gosto dele. De verdade. Mas acredito que devemos dar tempo ao tempo.
     Memucã lhe lançou um olhar gelado para que ela tomasse cuidado.
     — Você não é criança, . A realidade é que se você não der o que seu marido quer, ele vai procurar em outro lugar. É questão de tempo. — Alertou o ancião.
     Sua filha quis retrucar e dizer que aquele pensamento era injusto; ela não tina culpa de nada. Se a traísse quem estava errado era o capitão! Porém ela conhecia Memucã o bastante para saber que ele não ia escutá-la e que seus princípios não eram comuns na sociedade Persa.
     — Tudo bem. — Respondeu a contragosto.
     Depois de se despedi do seu pai, resolveu que era melhor voltar aos seus aposentos com a ideia do capitão desistindo de tentar fazer o casamento funcionar lhe pertubando a cabeça.

     

     

O peito de doía. O sofrimento tinha sido adiado o tanto que ele pode, entretanto não havia como adiar mais. sorria para o rei daquele jeito que ele desejara por tanto tempo — a judia estava corando enquanto conversava com o imperador animadamente.
      era para ser sua esposa. Ele a conquistaria e depois de um ano de trabalho, os dois se mudariam para Jerusalém e realizaria o sonho dela. Eles teriam três meninos, fortes guerreiros da tribo de Benjamim.
     Aquele sonho projetado em sua mente por tantos anos havia sido destruído quando ela foi levada ao harém e desapareceu de vez quando o transformaram em eunuco. empurrou com a barriga o sentimento ruim que aquilo lhe dava, mas agora não tinha para onde correr.
     Ele xingou seu destino, as circunstâncias e reclamou para Deus a sua situação.
      derramou lágrimas de amargura, lembrando-se de seus sonhos e planos destruídos ao se tornar eunuco; nem mesmo homem ele era considerado, tudo por lutar pelo amor que ele achava ser real.
     Após uma longa caminhada solitária pelo enorme jardim do palácio, o jovem encontrou algo que pensava não rever jamais. Entre um arbusto e outro havia o colar de com o cordão quebrado ao meio. Sentindo que estava no direito de retaliação, guardou o objeto na bolsa que carregava o odre de água.
     Não sabia ele que estava sendo observado por que saira para passear com as outras servas. A pequena mulher sentiu o coração quase sair pela boca ao vê-lo enxugar as lágrimas e andar apressado pelas árvores temendo ser visto. Não precisava de muito para perceber que ela havia adquirido, sem querer, o poder de saber um grande segredo sobre o “eunuco apaixonado”.

Capítulo 15 - Promessas mentirosas

entrou na cozinha em passos largos. Em sua mão segurava um pequeno jarro que antes estava com o vinho que e haviam tomado durante seu passeio. Viu sentado em uma cadeira olhando para a sua mão enquanto brincava com algum objeto que seu amigo não pode identificar. A cozinha estava silenciosa já que a maioria dos servos estava arrumando a bagunça do jardim.
     — Você estava no jardim? – Perguntou colocando o jarro em cima da mesa.
  — Sim. – Respondeu o eunuco tediosamente.
  — Então... Você sabe com quem ele estava, não é?
  — . – Respondeu revelando em suas mãos o colar da judia.
  — , você sabe que o rei está à procura desse colar. – olhou para trás certificando-se que ninguém estava vindo. — Devolva isso ao rei.
  — Não devo nada ao rei! – Fechou a mão com força. – Na verdade, ele que me deve! Ele me deve uma família!
  — Você sabe que o certo a se fazer é...
  — Já sei pra quem vou dá isso. – Falou o eunuco sem prestar atenção nas palavras de seu amigo. – Você acha que iria gostar?
  — , se afaste da ! Ela é serva de Hegai e logo vai ser da futura rainha. É perigoso, você sabe que eunucos...
  — Por que todo mundo fica me lembrando o tempo todo que sou eunuco? – Ele se levantou da cadeira raivoso.
  — Porque você é! Olhe pra você, não é nenhum eunuco de confiança do rei, como Ananias, o rei nunca daria uma das suas servas para você!
  — E é claro, Ananias escolheu ser “eunuco” e eu não. – Ele revirou os olhos. – Poupe—me. – Ele foi andando em direção a porta.
      balançou a cabeça. nunca aprenderia, agora era orar para que ele não fizesse mais nenhuma burrada. Desde que o conhecera era assim: inconsequente, exasperado e imaturo. Mas um dia ele aprenderia.

     

...

     

acordara cedo naquela manhã com a sensação que algo estava errado. Ou que daria errado. Não sabia ao certo, mas a dor súbita que lhe apertava ao peito parecia não querer deixá-la. Sentou em uma cadeira perto da mesa enquanto observava as servas andarem por todos os lados na casa. Então, ouvira risadas e cochichos diferentes naquele recinto. Com o maxilar rígido, olhou severamente para as garotas que conversavam aos risos olhando de lado para ela.
     — O que há de tão engraçado? — Perguntou a filha de Memucã e as criadas pararam de rir instantaneamente e calaram—se. — Conte—me o que cochichavam!
  Uma delas de cabelos castanhos e cacheados olhara para outra em desespero, enquanto a outra parecia mais corajosa. Respirando fundo, a serva passou a mão no cabelo e engoliu o seco.
  — Perdoe-me, senhora, — explicou-se — só estávamos comentando que achamos estranho a falta de afeto da senhora e o oficial como casados e lembramos do fato que aconteceu com uma tia nossa... Ela passou pela mesma coisa e acabou que o seu marido a deixou e... —
      sentiu lágrimas subirem para seus olhos, mas as segurou.
     — Basta! — bradara — Saiam daqui! Saiam todos!
     Servos de passos rápidos passeavam pela cozinha e logo não se tinha mais ninguém naquele cômodo além da morena. colocou a mão no rosto para reprimir o choro e lágrimas desceram em seus olhos. O que ela fizera de errado? Por que ela não conseguia simplesmente se entregar para os braços de ? Eles estavam começando a ficar distantes, será que já desistira dela?
  A conversa que tivera no dia anterior com seu pai também não lhe ajudava em muita coisa. O que fazer?
  Passou a mãos bruscamente enxugando as lágrimas, segurou as pontas da mesa e suspirou de cabeça baixa tentando parar de chorar. Ela seria forte dessa vez, ela conseguia ser forte.
     — ? — A voz de soou tão familiar e reconfortante que seu coração derretera. — Não irei tomar café com você hoje, quero chegar mais cedo para tratar um assunto com seu pai.
     A mulher se recompôs e levantou-se para cumprimentar-lo. observou os olhos vermelhos e mostrou-se preocupado.
     — O que aconteceu? , por que você estava chorando? — o oficial foi ao seu encontro e a sua esposa desviou o olhar para o chão.
      segurou seu rosto para que ela o olhasse e ficou hipnotizado com seus lábios. observava seus olhos fitarem sua boca e passou a fitar os do seu marido também; eles eram vermelhos e carnudos e, com hesitação, ela roçou seus lábios com os dele. Por instinto deixou-se levar e fechou os olhos quando segurou sua nuca aprofundando o beijo. Ela sentia seu sangue correr como lava em seu corpo, fogo se alastrou pelas veias bombeadas pelo seu coração que não parava de bater. segurou-lhe pela cintura fazendo um pequeno carinho no lugar e tudo que ela sentiu-se em paz. Era um sentimento tão bom que nem mesmo os fantasmas do seu passado lhe incomodavam.   O oficial afastou seus lábios por falta de fôlego e manteu suas testas coladas, olhos fechados e a respiração batendo de leve no rosto de . sorriu de lado e lhe deu um pequeno beijo.
     — Não ache que isso vai me convencer, quero saber o porquê de você está chorando. — Ele falou num tom mais libertino. apenas assentiu e suspirou confusa.

  

...

     

“O que ele falou pra você?” “Onde vocês estavam? Não tivemos notícia do rei a manhã inteira!” “Conte-nos tudo!” “Ele falou coisas bonitas pra você?” “Ele segurou a sua mão?”
  , enquanto entrava no harém, sorriu envergonhada por todas aquelas indagações e estendeu a mão pedindo calma.
     — Fiquem calmas! Se continuarem assim, não poderei contar nada. — Ela deu os ombros.
  — Verdade meninas. Fiquem caladas. — Advertiu Hegai vibrando de curiosidade.
  — Nós passeamos com os cavalos pelo jardim... Inclusive, pra mim aquilo estar mais para um bosque. — Ela fez uma observação.
  — Continua! – disse ansiosamente.
  — Ficamos perto de um canteiro lindo, que é o lugar favorito do rei, nós conversamos e então...
  — E então... – repetiu arqueando a sobrancelha.
  — Ele me libertou.
   escutou as respirações de boa parte da sala falhar ou pararam de vez. Hegai e Zeres mudaram sua feição de alegria para seriedade e sua voz vacilou.
  — O quê? – Foi o que o eunuco conseguiu pronunciar.
  — Eu estou livre! — Ela vibrou de felicidade. – Posso sair do harém se quiser.
  — Pelos deuses... – Sussurrou Zeres assustada com tal atitude do rei.
  — Mas eu decidi ficar. – O sorriso da judia continuava em seu rosto. — Acho que possa valer a pena continuar aqui.
  — Hm. – riu e cutucou a barriga da amiga — Alguém estar se apaixonando.
     Tafnes cerrou o punho ao escutar a suas palavras. Tinha certeza que fizera tudo certo, não tinha como o rei se apaixonar com uma mulher tão sem graça como . Sentiu alguém segurar seu braço e viu Teres junto com Bigtã. Acenou com a cabeça e os seguiu para fora. Percebera que não havia ninguém nos arredores da casa das mulheres e que todos estavam escutando falar sobre seu encontro com o rei. Revirou os olhos e quando menos percebeu viu Dalfom com uma cara nada boa. O amalequita agarrou seu braço a puxando bruscamente para perto de si.
     — Eu disse que você teria que seduzir o rei. Você. Eu falei você, não essa garota! – Disse entre dentes.
  — Eu fiz o que eu pude. – Ele apertou mais o braço dela.
  — Você sabe que se ela se tornar rainha você nunca sairá do palácio. – Ele a jogou no chão. – Levem—na – Ordenou ele já se virando para sair.
  Tafnes se levantou com uma carranca no rosto. Arrumou o cabelo e foi andando para dentro do harém. Se direcionou ao quarto e esbarrou em propositalmente.
  — Está com algum problema, Tafnes? – Perguntou irritada — Ah, claro, está com dor de cotovelo por causada . – Debochou ela.
  Tafnes sorriu diabólica e sussurrou no ouvido de .
  — Como está a futura mamãe? – Ela sorriu.

     

...

     

jogara um saco de tecidos nas costas com facilidade e foi andando no encalço de Rute pelas ruas apertadas de Susã. Desde que nascera naquela cidade conhecia bem os becos, atalhos e saídas que levavam até a praça onde ficavam todos os comerciantes. Ele sabia que estavam indo por um caminho mais longo, porém preferiu ficar calado e apenas seguir a mulher a sua frente. Estava eternamente grato pelo casal de judeus que o acolhera mesmo sabendo que Joel não apoiava totalmente sua estadia. Devia ser difícil ter um descendente de um povo que apenas o maltratou, mas sabia que pela religião dos judeus deveriam perdoar. Isso era o que admirava neles de qualquer forma. E ainda tinha o fato de influenciar grandemente nisso, afinal, eles amavam muito a filha tanto quanto ele a amava.
  Colocou o saco de tecidos em cima de uma pequena mesa na barraca e Rute deu um pequeno sorriso agradecido. pôs as duas mãos na cintura e enxugou a testa suada com as costas da mão. Olhando para o céu, o amalequita percebeu que não havia sinais de nuvens e que o calor parecia ter aumentado significadamente para uma manhã como aquela.
     — Você acha que consegue? – Perguntou Rute fazendo-o abaixar o rosto para olhá-la.   Sempre percebera a semelhança de com sua mãe, mas nunca tinha certeza do que era exatamente. Fitando-a de perto, via o mesmo olhar inocente de menina nela que via em . Uma pontada em seu peito lhe atingiu e a saudade resolvera dar as caras.
     — Digo, você acha que consegue trazer-la para casa? — Remendou Rute.
      segurou o olhar em seus olhos e sentiu vontade de dizer-la que era praticamente impossível. Queria poder falar que ainda não tivera notícias da judia e que, talvez, o rei já tivera dormido com ela e assumido que o filho que ela carregava em seu ventre era dele. Só de pensar nessa situação o amalequita sentia repulsa e ânsia. Dizer a verdade parecia viável, porém os olhos esperançosos da mulher a sua frente o fizera esquecer essa ideia.
     — Sim. — Respondera — Eu consigo resgatar .
     Sorriu para ela aumentando a felicidade da judia e viu a satisfação em seus olhos, entretanto nunca se sentira tão quebrado por dentro.

     

...

     

andava pelas ruas de Susã junto com alguns outros soldados. Eles conversavam algo sobre um boato de que a Grécia estaria se preparando para um ataque surpresa contra a Pérsia. Parou de escutar o que seus companheiros falavam quando viu uma mulher de costas, parecida com sua esposa. Percebera que era ela quando a viu ajudar uma das servas com uma cesta repleta de maçãs. Em meio à multidão, encontrou os olhos de seu marido que murmurou alguma deixa e foi em sua direção.
     — Oficial . – Falou junto com as servas.
  — Oi, – Respondeu ele olhando diretamente para seus olhos.
  — Bem. – ele pigarreou – Hoje farei uma ronda até mais tarde. Não me espere acordada. Talvez eu vá para outras províncias, assunto do rei. – Disse ele seriamente. Ele estava estranhamente irresistível, percebeu a mulher. Nunca havia conhecido o lado oficial de seu marido.
  — Está bem. – Ela sorriu conformada. Olhou para trás dele e viu alguns oficiais os fitando. – Acho melhor eu ir.
  — Tudo bem. – Ele assendiu e segurou seu rosto com as duas mãos beijando sua bochecha.
   corou subitamente ao lembrar que estavam em público e seus olhos se encontraram. O beijo daquela manhã ainda era muito recente, mas de alguma forma aquilo quebrou qualquer distância que os separava fisicamente. afagou a bochecha de sua esposa e se afastou.
     — Até logo. – Ele se despediu e o viu desaparecer na multidão com uma ansiedade velada.

     

     

parara subitamente na porta da cozinha, coçou as têmporas preocupado e se perdeu observando cada detalhe do cômodo. Eram mesas enormes cheias de frutas e pessoas andando para todos os lados organizando tudo em uma bandeja. Mulheres, homens e eunucos lavavam panelas e pratos em um lado enquanto outros enxugavam. Queria ter permissão para ter ficado em casa e cuidado de sua esposa, Raquel e seu filho, Manassés. Eles dois eram os bens mais precioso que tivera. Por mais que nunca sentira-se realmente apaixonado pela sua esposa, o jovem tinha um grande carisma pela mulher e sempre a tratara bem. Raquel fora o motivo pela qual fora convertido para o judaísmo, e desde que casara lembrara-se dela ser muito doente e frágil, o que não passou para seu filho Manassés, um garoto de cinco anos que parecia uma pequena cópia dela. Sorriu ainda tenso e se preparou para entrar, mas a imagem a sua frente lhe perturbou.
      fitava , enquanto ela sorria tímida da mesma forma para ele. Os dois trocavam entre si olhares de amantes e via que aquilo era perigoso. Sempre se perguntava por que era tão imaturo e inconseqüente. Depois de ter se tornado eunuco por causa das suas ações ele não aprendera que a se apaixonar estava fora de cogitação. , pensava ele, era um homem romântico e revoltado, além do seu tempo e, talvez, isso pudesse ser um problema maior mais tarde.

     

...

     

O rei olhava para os lados do seu quarto se perguntando o porquê de depois de tantas noites, sentia-se tão sozinho. Deitara com diversas mulheres, passara noites acordado por simplesmente não consegui dormir. Ele poderia chamar outra concubina e logo ela entraria em seus aposentos. Hegai não rejeitaria o pedido do imperador da Pérsia. Mas, o que queria era ter ao seu lado. Gostaria de vê-la falar sobre seus pais, ou ouvi-la dizer o quão feliz ela se sentia ao seu lado. Se esse fosse o sentimento que ela vivenciava em sua presença. O rei não sabia ao certo dos sentimentos que sentia em relação a ele, mas por rejeitar a sua liberdade naquele passeio o fazia manter as expectativas.
     Não sabia ele que no harém, também não conseguia dormir. Deitada, olhando para o teto, tudo estava escuro e ela tentava conter o sorriso ao lembra-se do rei. E pensar em como sua mente mudou durante os últimos dias desde que conhecera melhor o rei e a imagem que tinha do rei mudou gradativamente.
     O rei chamara Ananias e esperava pacientemente enquanto batia seus dedos no lençol de linho em que estava deitado.
     — Chamou, senhor rei? – Ananias aparecera na porta. O rei sentou em sua cama e encarou seu servo.
     Lembrara que ele havia sido trazido cativo em uma das guerras que seu pai batalhara. Ananias era um homem alto e moreno, tinha características típicas de árabe e seu cabelo estava começando a crescer de novo. De cabeça raspada, ele prometera se tornar eunuco e nunca casar e apenas servir ao rei em troca de poder viver. Sua fidelidade foi tão sincera que com os anos se passando ele se tornara um dos homens de confiança do rei.
     — Encontraram o colar? – Indagou o rei.
  — Não, senhor, estamos ainda à procura. – Ele assegurou.
  — Intensifiquem as buscas. – Ordenou o rei. – Ah, Ananias, pode chamar algum escriba para ler para mim? O sono me foge essa noite.
  — Claro, oh rei. – Ananias assendiu.
  — Não, não. – ele balançou a cabeça negativamente — Eu lembrei de uma coisa. – O imperador riu presunçoso.

     

...

     

A maioria das lamparinas do harém estavam apagadas e as jovens dormiam em suas camas, fazendo o silêncio predominar o recinto, porém não conseguia dormir naquela noite. Seus pensamentos apenas iam para aquela manhã maravilhosa que tivera, lembrava dos sorrisos e da forma cuidadosa e prestativa que o rei a tratava. Não sabia que um rei conhecido por ser violento poderia ter seu lado bom. A jovem sentiu alguém cutucá-la na cintura a fazendo acordar para realidade, olhou para trás e viu Hegai com um sorriso cativante no rosto.
     — Ainda bem que você está acordada! – Disse aliviado.
  — Aconteceu alguma coisa? – Ela perguntou em um sussurro.
  — Saia devagar, tente não acordar ninguém. O rei mandou chamá-la para você ler para ele.
  — Agora? De novo? – Perguntou ela com a testa franzida tentando conter o sorriso do rosto. Não ia demonstrar que já sabia de seu chamado.
  — Sim, agora mesmo. – Ele assentiu – Dessa vez não se esqueça de levar aqueles presentinhos que ele te deu. Vamos, menina!
      se levantou sentindo seu corpo agitar-se com a ideia de ver o rei mais uma vez. Segurando a mão de Hegai, a jovem judia carregava em uma das mãos os seus papiros enquanto o seguia em direção aos aposentos do rei. Chegando a porta, Hegai acenou com a cabeça para ela que entrou no quarto lentamente. Tentava ser mais silenciosa possível, por mais que seu coração estivesse batendo alto o bastante para ser escutado por todo palácio.
     Viu o rei deitado em sua cama e sentiu os pêlos de seu braço se arrepiarem. Sentia-se confusa com tais sentimentos que nunca tivera. A adrenalina tomava conta de seu corpo e tudo isso era fruto de ter o rei bem a sua frente. Curvou-se em reverência ao imperador e falou enquanto sua garganta formigava.
     — Grande rei . – Disse cordialmente fazendo o jovem se levantar no solavanco.
  — ? — O rei sentou-se em cima de sua cama. se aproximou para vê-lo melhor, as lamparinas não parecia iluminar o suficiente. — Desculpe-me ter demorado.
  — Não há nenhum problema, meu rei.
  — Se importa de ler para mim? — Pediu o rei gentilmente.
  — De maneira alguma. — a jovem respondeu sorridente. — Será um prazer ler um dos papiros que o senhor me deu de presente.
  — Quem sabe essa leitura pode me trazer de volta o sono que me foge periodicamente. São tantos problemas e preocupações. — falou apoiando-se melhor na cama.
  — Eu imagino, o Império Persa é tão grande. — Comentou . — Espero que a beleza desses versos possam lhe devolver o sono.
  — Eu também. – ele suspirou.
      sentou-se em uma cadeira que havia perto da cama do rei tentando ignorar os olhos do rei a seguindo em cada passo. Um pouco atrás da cadeira, havia uma pequena mesa com uma lamparina facilitando sua visão. A jovem pigarreou enquanto abria um dos papiros delicadamente, o rei sorriu ao ouvir as palavras daqueles cânticos sendo proferidas pela voz doce de .
     — Ó, única, irmã sem igual, de todas a mais bela! Ela é como a estrela da manhã ao nascer no começo de um ditoso ano. — ela leu.
     O rei fechou os olhos sentindo seu corpo relaxar, se dependesse dele, todas as noites antes de dormir escutaria ler para si. Sua voz lhe acalmava de maneira que o sono lhe voltava, mas ele não queria dormir. Não antes de ouvir a mulher ao seu lado acabar de ler.
     — Brilha radiosa a sua pele resplandece, sedutor é o fitar de seu olhar, doce a palavra de seus lábios. — dissera vislumbrada com a beleza do poema. Deu uma olhadela no rei e percebera que sua expressão estava suavizada e estava quase caindo no sono e, então, continuou a ler.
     —...seu cabelo é de verdadeiro lápis-lazúli, mais belo que ouro são os seus braços e seus dedos como lotos a desabrocharem. — uma pequena dor veio ao seu peito em pensar que o rei poderia deixá-la de lado a qualquer momento.
     Como rei, ele poderia ter uma concubina diferente todo dia e esquece-se dela. Afinal, poderia ela ser apenas um troféu para o imperador? se perturbou com seus pensamentos, porém pôs-se a continuar a ler o papiro em sua mão.
     — Gracioso é seu porte ao andar no chão, cativa meu coração (só) ao mover-se.
     , por inexperiência, não sabia que aquelas palavras eram o que o rei sentia por ela. O mesmo havia lido antes de enviar às suas mãos e sentiu-se assim como Ramsés II.
     — Feliz aquele que ela abraça, torna-se o primeiro dos homens! Ao sair de tua casa   ela é como a outra.... — Olhou para o imperador da Pérsia esperando um sorriso singelo que ele sempre lhe apresentava, porém, só encontrou um homem dormindo calmamente. Seu abdômen subindo e descendo com a respiração compassada.
     Continuava belo, isso concordava. Era estranho pensar que as vezes aquele homem deitado era severo. A judia esticou seu braço e acariciou a bochecha do rei com as costas da mão delicadamente e teve um dejavu de alguns dias atrás. Em um ato impensado, quase espontâneo, ela beijou seu rosto de forma carinhosa e assustou quando o rei se remexeu na cama quase lhe tocando nos lábios. Levantando exaspera e deixando cair os papiros no chão, fechou os olhos torcendo para que o rei não acordasse; abriu-os devagar e percebeu que o imperador permanecia dormindo, então, apanhou seus papiros do chão, com o coração batendo a mil, e se retirou do quarto devagar voltando para o harém.   No quarto, depois de certificar que não estava mais lá, o rei abriu os olhos com um sorriso presunçoso nos lábios. Apoiou as mãos atrás da cabeça não podendo conter o riso e fechou os olhos tentando lembrar-se da sensação dos lábios de em seu rosto. Ele queria mais; ele a queria em seus braços. Mas aquele momento fora tão amável que o desejo não ardia como a quentura em seu peito.
     Talvez, o rei percebeu, estivesse amando pela primeira vez.

     

*Trechos retirados do Papiro de Chester Beatty I (da vigésima Dinastia).

Capítulo 16 - Ele é todo seu

acordara diferente naquele dia. Para ela as cores estavam mais fortes e vivas, o canto dos pássaros estava mais melódico e o sol parecia acariciar a sua pele. Em seu peito, sentia uma pequena dor que lhe trazia uma sensação boa. Experimentava certa insegurança, mas aquilo não parecia nada comparada a alegria em lembrar-se do sorriso do rei. A forma como seus olhos se estreitaram e as pequenas rugas, quase invisíveis que tinha no rosto quando sorria, era para a jovem judia a sua imagem favorita. Sentada na grama verde, observava vagamente o movimentos dos servos e das moças pelo jardim imaginando quando teria a oportunidade de confessar ao rei o que sentia. A relva era macia e a sensação mostrava ter se intensificado naquela manhã. escolheria ficar o dia todo afundando-se naquelas sensações se Hegai não tivesse chamado-a para entrar, pois tinha um recado para todas as mulheres do harém. levantou-se e passou a mão pela roupa para tirar a poeira enquanto via suas jovens companheiras entrarem e as acompanhou. Em seguida sentou-se ao lado de que escovava seus cabelos.
  — Você tem ideia do que seja? — Perguntou curiosa.
  Sua amiga balançou a cabeça negando.
  Hegai materializou no meio das mulheres sentindo um pouco de claustrofobia, quase se esquecera que eram inúmeras mulheres predispostas a ser rainha. Com um sorriso, ele observou em poucos segundos todos os rostinhos curiosos para saber o que se tratava.
  — Bem, tenho uma novidade. — ele sorriu travesso — O rei chamou uma das garotas pelo nome. Pela segunda vez.
  O ar do recinto parecia ter se retirado. As garotas olhavam umas para as outras boquiabertas com o que o eunuco dissera. sentiu um leve tremor em seu corpo; o rei não ia chamá-la, afinal, ele não se deitou com ela. Então, tinha desistido tão rápido do desafio? Se ele soubesse que ela possivelmente estivesse apaixonada a escolheria? Olhou para a multidão de garotas e encontrou o rosto de Tafnes com um sorriso vitorioso contido. Seu estômago se embrulhou ao pensar que talvez ela fosse a próxima rainha.
  

Deus, pode ser qualquer pessoa, menos Tafnes.
  — Viram, suas idiotas? Eu vou ser rainha! — Disse Tafnes arrogantemente para as garotas ao seu lado. Hegai franziu o cenho.
  — Cala-te Tafnes! Comporte-se com uma concubina do rei que você é! — Repreendeu o eunuco fazendo a egípcia o olhar incrédula.
  — O rei escolheu... — ele suspirou dramaticamente. — Você, querida!
  A jovem judia não escutou ou percebeu nada ao seu redor depois daquelas palavras. O caos, moças a parabenizando, jovens torcendo o rosto para ela, Tafnes gritando que algo estava errado... Tá aquilo parecia longe e ela escutava apenas os pequenos ruídos. As únicas coisas que passavam na cabeça da jovem judia era que ela seria rainha, que iria casar com o imperador de quase o mundo todo, que agora seria conhecida por todo reino e, o mais importante, ela estaria ao lado de o homem que ela estava perdidamente apaixonada.

  

...

  

olhou para o céu com os olhos semicerrados e constatou nenhuma nuvem como sempre acontecia em Susã. Passou a mão pelos cabelos e então voltou à atenção para o jovem soldado ao seu lado, o mesmo alertava que já havia avisado aos companheiros sobre a segurança reforçada durante o casamento do rei.
  — Está certo. — Respondeu o oficial. — Obrigado, pode se retirar. Amanhã cedo nos encontramos.
  O soldado assentiu e se misturou em meio a multidão que havia no centro da cidade de Susã. Assim que perdeu o homem com qual conversava de vista, se viu procurando por sua esposa. havia dito que compraria um vestido novo naquele dia e por mais que ela pensasse ser era uma atividade para as mulheres, gostaria de acompanhá-la. Depois de fazer uma varredura, a avistou sorrindo para uma senhora com o pano azul em suas mãos. Aproximou-se dela e sorriu quando olhou para ele radiante. A mulher segurou o tecido sedoso em suas mãos e mostrou ao marido.
  — Então, o que acha? — Perguntou ela animadamente.
  Ele observou rapidamente, mas achava aquilo uma grande besteira. simplesmente não se entendia sobre o assunto. O tecido parecia ser de boa qualidade e ver os olhos felizes de sua esposa era uma boa combinação.
  — Combina com os seus olhos — sorriu de lado.
  — Eu vou levar. — Respondeu a mulher virando-se para a vendedora entregando três talentos de prata para ela segurando o tecido em suas mãos. Virou e foi andando em direção ao palácio com o oficial ao seu lado.
  — Você tem ideia de quem será a próxima rainha? — Perguntou .
  — Há especulações no palácio de que talvez seja uma garota daqui de Susã. Parece que é a mesma que o rei levou ao bosque — Respondeu.
  — Ela é uma mulher sortuda. Nunca o vi fazer tal coisa até mesmo com Vasti. — Comentou.
  — Como sabe que ele não fez isso com a antiga rainha?
  — Eu sei de muita coisa por causa do meu pai e... — A voz dela foi diminuindo como se estivesse envergonhada e riu.
  — Tudo bem. — ele pôs a mão em seu ombro e beijou-lhe a bochecha. — Agora me deixe levar esse tecido. Você deve estar exausta, já faz horas que estava à procura de algum produto.
  — Eu estava esperando o olhar de um perito no assunto. — ela piscou para seu marido. — Inclusive, acho que o tecido combina mais com os seus olhos.
  E com aquela afirmação, os dois sorriram como em uma piada interna, compartilhado segredos que nem mesmo eles conheciam.

  

...

  

Estava ventando naquele fim de tarde, sentia a brisa fria toca-lhe a pele quando andava pelo pátio em direção aos átrios do rei.
  Depois de passada a euforia da notícia, a judia começou a meditar sobre a decisão que ela não teve participação. O rei anunciou o casamento dos dois, mesmo antes de perguntar o seu desejo.
  E se ela dissesse não?
   já havia negado de forma imprudente antes, o que a impedia de rejeitar o pedido? O que fazia o rei senti-se tão confiante dos seus sentimento a ponto de planejar o casamento sem antes conversar com ela.
  O quarto do rei estava vazio no momento em que Hegai levou a jovem, as cortinas balançavam conforme as janelas estavam abertas. olhou para os lados e percebera quão estranho era aquele cômodo sem a presença do rei; tudo ao seu redor parecia carregar uma parte desde, desde ao cheiro característico de mirra e sua essência masculina quanto os papiros devidamente arrumados em cima da mesa.
  — . — Hegai chamou-lhe a atenção. — Meu coração está batendo igual a camelo no deserto! Até parece que sou eu que será rainha!
  — Calma, senhor Hegai! — ela riu das palavras do eunuco. — Assim você me deixa mais nervosa do que estou.
  — Tudo bem. — ele sorriu — Quero que você me prometa que irá contar-me tudo amanhã. — assendiu. — E, por favor, dê uma chance ao rei dessa vez.
  — Eu prometo. — Ela segurou as duas mãos do eunuco em sua frente.
  — Agora eu vou ter que ir. — Ele olhou para os lados como se procurasse alguém — Boa noite, querida!
  — Boa noite, senhor Hegai — Respondeu a judia enquanto via o eunuco sair andando até a porta.
  Ela andou em direção a janela cruzando os braços pensando se o rei demoraria. O frio na barriga estava se tornando agonizante e cada vez mais que pensava em vê-lo. Ouviu passos de alguém entrando no quarto e antes que se virasse para certifica-se que era o rei, escutou uma voz conhecida.
  — Com licença. — se materializou na porta.
  O servo mantinha a cabeça baixa, mas deu uma olhada curioso para saber quem o rei escolhera para ser sua rainha. O beduíno arregalou os olhos assim que reconheceu a amiga.
  — ! — Gritou o copeiro.
  — . — ela advertiu em sussurros — Esse é o meu nome. — foi em sua direção e o abraçou alegremente.
  — Meu Deus! Você está bem? E , como ela está? Não temos notícias suas há tanto tempo! — Falou rapidamente.
  — Eu estou bem e também. — Respondeu . — Como vai Raquel? E Manassés? Tem notícias de Mordecai? Sinto tanta falta...
  Outro barulho de passos se fez ouvir pelo cômodo fazendo se afastar de subitamente e abaixou a cabeça colocando-se perto da mesa. Ananias apareceu com as mãos entrelaçadas para trás e a expressão taciturna de sempre.
  — O rei já está à caminho, senhora. — Avisou o servo. — , você já pegou a bandeja?
  O beduíno pegou a bandeja cautelosamente e coçou a garganta olhando para seu superior.
  — Sim. — respondeu hesitantemente.
  — Está bem, pode sair. O rei não quer vinho esta noite. Com licença, senhora. — Ananias avisou e seguiu pela porta.
   o acompanhou não esquecendo de antes dá uma última olhadela para sua amiga que sorriu mostrando que estava tudo bem.
  Percebendo que estava sozinha novamente, a mulher mostrou-se apavorada. O frio que sentia em seu corpo parecia aumentar cada vez e o embrulho no estômago lhe incomodava. Ela se perguntava o porquê de sentir tanta vontade de ver o rei e ouvir sua voz. Desejava está cada vez mais perto dele, e então, prometera a si mesmo que, quando visse o rei mais uma vez, diria o que sentia.
  — ? — O rei chamou fazendo-a virar rapidamente. Contendo a vontade de correr na direção dele, a jovem apenas abaixou a cabeça em respeito.
  — Grande rei . — falou cordialmente com uma reverência.
  O jovem imperador andou lentamente à que continuava parada evitando o olhar do rei. tocou levemente o queixo da judia com os olhos hipnotizados pelo rosto da concubina em sua frente. Era como ver um homem poderoso e imbatível se perde pelos olhos de uma mulher.
  — Você está deslumbrante essa noite. — Comentou o rei.
  — Obrigada. — Respondeu. — O senhor Hegai ficará feliz, ele caprichou desta vez.
  — Hegai é sempre... — ele hesitou. — eficiente, mas a sua beleza não requer nenhuma joia ou enfeite.
   sentiu o ar de seus pulmões sumirem por um momento; apenas respirava as palavras ditas pelo rei. O único homem que conhecia que era tão bom com as palavras era Mordecai, até encontra-se com o jovem imperador. Ela se perguntava como o rei conseguia ter tanta facilidade com seus dizeres — sempre dizia o que sentia sem temer.
  Todavia o encanto do imperador não era suficiente para apagar as dúvidas que ecoavam em sua mente. Cuidadosa como um gato, se afastou um pouco e comentou:
  — Acredito que deve segurar tais elogios para sua esposa, meu rei.
  , que estava com um sorriso largo no rosto, desfez a expressão transformando-a em uma careta de confusão. Do que aquela mulher falava afinal? Hegai não contou-lhe a novidade?
  — Oras, você será minha esposa.
  A judia o olhou com um falso ar de inocente.
  — Não me lembro do pedido. — murmurou.
  O rei soltou uma risada. Era uma coisa apaixonante para a moça e ela sentiu seu íntimo tremer. aproximou-se devagar e deixou seu rosto bem perto da concubina. Sentiu-se vitorioso quando viu nos olhos dela o brilho perigoso da paixão.
  — , querida, eu não peço. Eu mando. — disse com a voz um pouco mais sombria do que calculou.
  Um arrepio desconhecido atravessou as costas da moça. Seu instinto levou-a estender a mão até o peito do rei e um sorriso pequeno desenhou-se em seus lábios.
  — Receio que não posso fazer algo que não fora nem mesmo ordenado a mim diretamente. — respondeu mordaz.
   levantou a sobrancelha em descrença. Jovenzinha infeliz; a antiga rainha fora expulsa do reino por muito menos se ele realizasse a situação, mas ao contrário de antes, ele gostava de ser desafiado por . Aquilo deixaria tudo mais delicioso quando finalmente ela confessasse seu amor por ele.
   não era Vasti, afinal.
  — Prefere que eu diga diretamente, é?
  Viu-a assenti, afastou o véu e o cabelo para o lado e encostou sua boca na orelha dela. A judia tremeu sobre o toque repentino do rei, os pêlos se eriçando quando os dedos calejados do imperador segurou seus braços. Ela podia escutar o barulho do seu coração batendo forte no peito.
  — Eu quero... — sussurrou o imperador — Eu quero que você seja a minha esposa e minha rainha. Quero que me dê o seu coração.
   sentia que havia algo engasgado em sua garganta, sabia que a sua resposta ia mudar totalmente o rumo de sua vida, mas não hesitaria. A verdade escorregou lentamente pela sua língua.
  — Por que pedes algo que já sabes que é seu?
  O homem persa não esperava que ao ouvir as palavras que tanto desejou nos últimos dias ele sentiria tanta ternura quando finalmente aconteceu. tinha traços inocentes de uma jovem solteira, mas mantinha uma sagacidade no olhar que a tornava diferente. Apesar de querer mostrar para todos os seu súditos quão bonita Vasti era, queria esconder sua próxima rainha para si.
  Ele tinha caído em uma armadilha, concluiu. Assim que disse que o coração dela era seu, a mulher se tornou seu maior tesouro e consequentemente sua maior fraqueza. Ai de quem ousasse tocar em .
  Com mais liberdade, o imperador desceu sua boca até a bochecha e com a voz levemente rouca sussurrou fazendo os pelos da jovem se arrepiarem:
  — Ela é como a estrela da manhã ao nascer no começo de um ditoso ano.
  Com um sorriso tímido, lembrava vagamente daquele verso. Fitou o rei que pedia permissão para avançar, ela assentiu e fechou olhos. A jovem judia sentiu a respiração do rei bater em seu rosto cada vez mais forte e ele beijou seus lábios. Eram macios, confirmou . segurou seu rosto com as duas mãos e aprofundou o beijo lentamente passando a língua devagar. Podia perceber sua inexperiência, mas ela foi ousada ao tentar acompanhar seus movimentos, o que fez sorrir entre o beijo.
  Ao se afastar, passou seus braços ao redor dos ombros do rei hesitante. Não sabia se estava fazendo certo, mas desejava ficar mais perto dele. apertou seus braços indicando para que ela o abraçasse com mais força e ela suspirou prazerosa. O imperador segurou sua cintura delicadamente e roçou sua boca perto dos lábios da judia antes de beijá-la mais uma vez. O frio daquela noite parecia ter sumido subitamente dando lugar para o calor intenso do corpo do rei.
  A felicidade que aquecia o coração do imperador era deliciosa e cada vez mais ele sentia vontade de acariciar o corpo de ; sua pele era macia como carmesim e seu cheiro era semelhante ao jardim real durante a primavera.
  Abraçou-a por fim quando um calor estranho dominou seu peito e a vontade de declarar-se para ela lhe ocorreu. Todavia, o rei foi dominado pelo medo do que aquilo era, pois nunca havia sentido antes.
  Ele não fazia ideia de que sentiu também.
  Aquele calor e exasperação era algo divino.

  

...

  

O palácio era repleto de corredores que a maior parte do tempo estavam vazios ou com guardas andando tranquilamente, porém, naquela manhã, a confirmação que o rei se casaria mais uma vez deixaou e agitados, já que o rei marcou o começo do casamento para a semana seguinte e eles precisavam de tudo pronto o mais rápido possível. Servos e servas corriam pelo recinto, assim como também pelo harém; as coisas pareciam cada vez mais conturbadas. Hegai andava para os lados extremamente preocupado com o vestido que usaria, enquanto a garota ria de algo que a falava. A futura rainha do reino Persa parecia estar relaxada, apesar de saber que ela não devia — que responsabilidades lhe acompanharia? E se ela caísse na frente de todos?
  Naquele dia o imperador da Pérsia resolveu ficar no quarto apenas descansando. O salão real estaria repleto de pessoas organizando os enfeites, assim como os conselheiros estariam se arrumando para o grande dia. Ninguém estava com cabeça para resolver problemas do povo ou qualquer coisa que envolvesse política. Deitado em sua cama, sorriu ao lembra-se de quão tensos os mensageiros ficaram ao saber que tinham apenas uma semana para avisar a todas as províncias e seus líderes sobre o casamento do rei. Mas era de se esperar que ele fizesse algo assim, todos sabiam. era conhecido por ser um rei rígido e exigente, se ele queria algo agora, seria agora. Era o imperador que não queria nada que não fosse a perfeição — quase totalmente imensurável. A chegada de em sua vida fora um choque para seu ego, mas a sensação de ter alguém como seus pais de volta lhe ocorrera ao perceber que ela o tratava do mesmo jeito que realmente quis: como um ser humano normal. Considerando que muitos o idolatravam como um deus, ser tratado normalmente era um alívio.
  Abriu a mão fitando o colar de em sua palma e pensou no quanto aquilo significava para ela, mas não queria entregá-la. Talvez ter algo que fizesse parte de tudo que a sua futura esposa era fosse o motivo pelo qual ele quisesse tanto ficar com aquilo. Lembrou-se de ter ficado surpreendido ao saber que Ananias achou o colar jogado na cozinha do palácio — era estranho demais pensar que ninguém antes o vira. Passou os dedos pela pedra de mármore sentindo o relevo fino e então decidiu que guardá-lo; com certeza nem se lembrava mais daquela joia.

  

...

  

provou mais uma vez o vinho que trouxeram e a sua cabeça já estava começando a ficar turva. O fato de experimentar antes do rei e seus convidados nunca o fizera ficar quase bêbado. Se não fosse um homem difícil de se embebedar, provavelmente estaria falando coisas sem sentido. Sentou ereto na cadeira que estava sentado e mostrou a língua indicando que havia tomado tudo para que apenas assentiu.
  — Então, você entregou o colar a Ananias? — Perguntou .
  — Na verdade, eu deixei jogado por ai pra que alguém achasse e parece que acharam, não é? — ele sorriu tristonho. — Apesar de tudo, espero que ela seja muito feliz, merece.
  — Exatamente, meu amigo. — concordou compreensivamente. — Mas não se preocupe algo bom vai acontecer em sua vida, eu lhe garanto.
   sorriu agradecido mesmo não concordando, pois para ele não tinha mais esperança de um futuro bom. Ali ele envelheceria e ali ele morreria. Foi despertado de seus devaneios quando apareceu na entrada já se mostrando exausta com um sorriso conhecido em seu rosto.
  — Segaaz está chamando-o para experimentar a comida.— Suspirou pesadamente.— Parece que lhe deram uma pausa das bebidas.

Capítulo 17 - Conheçam a nova rainha

— Rei, eles estão à sua espera. — Alertou Ananias segurando suas mãos à frente do seu corpo.
     — Está bem. — Disse o rei enquanto colocava a coroa em sua cabeça. — Soube que há cochichos pela cidade sobre hoje, é verdade?
     — Sim, meu rei. — disse Ananias hesitante — Dizem que Vasti, a antiga rainha, estava grávida quando o deixou. Assim que o seu casamento foi anunciado, a fofoca de que o menino seja herdeiro do trono se alastrou mais do que o enlace.
      sentiu um frio súbito preencher seu corpo. Sabia que Vasti estava grávida, mas pouco se importava se o filho era seu ou não. Agora que o povo espalhava aquele boato, o pensamento de que já estaria ciente disso fez sentir-se alarmado por alguns segundos. O que pensaria ao saber desses boatos? Ela ignoraria e apenas acreditaria se essa informação saísse de sua boca? Ou acreditaria e não se importaria? Ou pior, ela chegaria a crer nesse negócio e desistiria de casar-se com ele?
     — Rei, receio que eu disse algo de errado, me desculpe. São apenas fofocas. — Repreendeu-se o servo ao ver a expressão vazia do rei.
     — Não, você fez o certo. Daqui a pouco estarei indo, Sadraque. — Falou o imperador distraidamente o bastante para pronunciar o nome antigo de Ananias.
     O eunuco o fitou por alguns segundos, mas logo se virou e foi em direção ao salão real.
     O rei passou as mãos em seu rosto tentando acordar. Talvez aquela criança não fosse seu filho, a não ser que ela estava grávida desde antes de ser expulsa do palácio. Mas se ela esteve todo esse tempo grávida, porque não soubera nenhuma novidade de Vasti ou muito menos que ela estivesse esperando um filho? Por que ela não usou esse argumento para voltar a ser rainha?
     Caindo em si, o imperador entendeu que de forma indireta Vasti tentava desestabilizar a próxima rainha da Pérsia. O sangue subiu a cabeça e socou a mesa raivoso. Ninguém machucaria , não se ele pudesse impedir.
     Então imaginou que talvez isso fosse um motivo para que sua noiva não aparecesse. Embora fosse rei, sabia que não seria controlada; foi por aquele motivo que escolhera ela entre tantas moças. Tragou a saliva e foi em direção ao local onde aconteceria a coroação pedindo aos deuses para que entrasse, assim como ele, no salão real.

     

...

        

Hegai gritava alguma coisa sobre não sujar o vestido que usava, mas ela não parecia se incomodar. Sua feição amedrontada e as pernas balançando indicava o seu nervosismo alarmante e as frases da sacerdotisa lhe cumprimentando rodeavam sua mente.
     As pessoas fitavam a nova rainha de lado como se tivessem medo de vê-la antes do evento, mas a curiosidade falava mais alto em seus ouvidos. Vestida de branco, como pedia a tradição, ela se vira repleta de joias que julgava desnecessárias; as tais faziam um pequeno barulho quando a mulher se mexia.
     Quando o rei entrou no salão com seu traje também branco, o silêncio passou a existir no recinto. A expressão severa do imperador fizera todos lhe reverenciarem com temor. Assim que pareceu satisfeito com a atenção que os seus conselheiros, oficiais e escribas, junto com suas esposas e filhos, lhe davam, ele suspirou e falou em alta voz:
     — Senhores, hoje convidei-os aqui para comemorar a coroação da sua nova rainha e meu casamento. Depois de quase dois anos, eu encontrei a minha nova esposa. — Ele sorriu suavizando sua expressão. — Pérsia, contemplem sua nova rainha. Rainha de Susã.
      apareceu na porta do salão e, assim que todos se viraram para olhar-lá, suspirou nervosamente sentindo todo seu corpo gelar e o frio na barriga lhe atingir em cheio; e ao rolar os olhos observando as pessoas que estavam no evento, sentiu vontade de virar-se e correr para longe dali.
     Algumas mulheres a olhavam de canto de olho perguntando-se o porquê de não ser elas; outras acreditavam que aquilo era tudo encenado e que o imperador na verdade estivesse ainda se encontrando com Vasti às escondidas, já que ele estivera bêbado quando decretou seu exilo do palácio; e outras, a minoria, pareciam felizes com tal casamento. Assim que chegou a frente do rei, a jovem ajoelhou-se no primeiro degrau perto do trono e abaixou a cabeça em reverência.
     O rei virou-se aliviado para o lado fitando a coroa da rainha; segurou a em suas mãos e colocou delicadamente na cabeça da jovem.
     — Proclamo você, de Susã, minha esposa e rainha do Império Persa.
     A nova rainha levantou-se sendo ajudada pelo rei e não conseguiu se concentrar em mais nada em que ele falara. Tudo que a jovem via era o sorriso de felicidade que o homem em que ela estava apaixonada exibia em seu rosto.
     O que se passara nas próximas horas durante a festa e a entrega de presentes dos oficiais estava na mente de como borrão. Por mais que eu sua cabeça havia decorado o nome dos principais conselheiros do rei, vulgos Amã e Memucã, não conseguia se lembrar de mais nenhum nome dos homens que estavam ao lado do rei, exceto o Oficial , por lhe chamar atenção a sua graciosa esposa, filha de Memucã. Lembrava também do sorriso discreto que o rei dava aos seus companheiros e o balançar de compreensão que ele sempre dava, embora mantesse uma carranca aborrecida; também não podia se esquecer dos olhares que trocara com toda vez que ele oferecia vinho ao imperador ou quando ela avistara , estranhamente longe de sua família saboreando o vinho.
     Todos os olhares eram curtos e perigosos demais para se darem a nova rainha, olhares que não fora percebidos pelo rei que estava concentrado analisando a feição de seus súditos. Cada homem que se ajoelhava perante o jovem imperador e lhe oferecia seu presente sentia-o fitar seus olhos como pudesse ler suas mentes, o que os assustava ligeiramente.
     No entanto, perto do final da cerimônia, os convidados reais tinham uma opinião em consenso: a nova rainha era tão ou mais bela do que Vasti.

     

     

se sentia relaxado por saber que a nova rainha não era , mas ele tinha consciência que a chance de fugir com a mulher do harém a cada dia diminuía.   Planejava um resgate: Seria fácil conseguir subornar um dos guardas que ficavam no harém e poderia torcer pela falta de informação que havia no palácio, podia dizer que a estava levando ao quarto do rei. Claro, o plano estava sujeito a muitas falhas, principalmente pelo fato de seu irmão e seu pai ainda estarem em seu encalço, mas ele precisava ser rápido. Logo, não ia conseguir esconder sua gravidez. O jovem amalequita imaginava que ela estava comendo um pouco além da conta para simplesmente falar que estava engordando.
     Foi acordado de seus pensamentos pelo bafo de vinho de seu irmão batendo sua orelha. Repudiado, ele encolheu os ombros com uma careta e se afastou.
     — Você acha que sua judia já se deitou com o rei antes da nova rainha? — provocou Dalfom — Quem sabe o rei ache que o filho que carrega no ventre seja dele? Um herdeiro novo para o rei, que no fim, é filho de um simples oficial da guarda...
     — E como vai sua preciosa Tafnes? Pensei que ela estaria sentada ali. — falou com um sorriso e deboche em seus lábios apontando para o trono onde sentava.
     — Se você quer saber, meu pai vai tirá-la de lá. — Sorriu o amalequita mais velho.
     — Você é um tolo mesmo. — riu das palavras do seu irmão balançando a cabeça e em passos lentos saiu da frente do irmão.
     Inconformado com as palavras proferidas por , Dalfom foi em direção à sua família com uma careta confusa. Harbona fitava pensando em como poderia fazer para se aproximar da rainha enquanto seu marido bebia mais vinho pensando até que ponto seu plano havia fracassado.
     — Pai, mãe. — Chamou atenção Dalfom. — E Tafnes? O que faremos para tirá-la do harém?
     — Nada. — Respondeu friamente Amã dando mais um gole de sua bebida.
     — Mas...
     — Ela vai continuar lá como castigo por não fazer as coisas direito! — Interrompeu Harbona. — Esqueça essa garota, Dalfom. Você pode ter outras. Qualquer uma. Não importa.
     O amalequita sentiu sem chão por alguns instantes. Tafnes fora a única mulher em que ele se permitira viciar. Ele era viciado pelo seu toque, seu cheiro, seus lábios e em seus olhos. Mesmo com a frieza que seus pais a trataram, ele não a deixaria no harém; Dalfom ia tirá-la de lá nem mesmo que, para isso, precisasse matar o rei com suas próprias mãos.

     

     

observava suspirar pesadamente antes de entrar mais uma vez no salão segurando um vaso com vinho. Ele entendia a tensão que seu amigo estava passando, Raquel estava cada vez mais doente e seu filho estava sozinho em sua casa vendo a mãe morrer.
     A vida era, no mínimo, injusta com o jovem beduíno que além de se casar com alguém apenas por negócios, sofria risco de vida todos os dias pelo rei. E para piorar, como regra do palácio, um servo não deveria demonstrar seus sentimentos diante do rei. Tudo parecia ir contra ele, mesmo assim “desistir” não estava em seu vocabulário. Talvez aquilo fizesse admirá-lo tanto e perceber que havia um homem muito maior atrás de todas aquelas marcas em seu corpo.
     Mesmo consciente de que havia pessoas ao seu redor desamparadas e com problemas reais, se deixou levar pelo resto de sentimento que lhe restara por . Ele, assim como outros eunucos ”desocupados”, foi cotado para trabalhar diretamente para rainha, então, a veria todos os dias até o fim de sua vida. Ele tinha plena certeza que escolher fora uma das melhores coisas que o rei fizera, ela seria a rainha que o Império Persa queria e precisava. Cruzou os dedos das mãos parecendo entediado deixando se levar a pensamentos alheios e não percebendo bem a sua frente.
     — Era ela, não era? — Perguntou a serva.
  — Não entendi. — Disse confuso.
  — Quando você chegou ao palácio todos conheciam a sua história. — desviou o olhar. — Chamavam você de “O eunuco apaixonado”.
     Ele riu.
     — Era ela, não era? Sua noiva? — Perguntou mais uma vez . Ela parecia receosa em perguntar isso, o que deixava seu rosto e jeito jovem mais adorável aos olhos de .
  — Ela não era minha noiva, , eu menti. — Ele passou a mão na cabeça sentindo a ausência dos fios lisos e castanhos que um dia já estivera lá. — Ela era apenas minha amiga.
     — Então, vocês não eram apaixonados?
     Ele suspirou.
     — Eu era. Ela não. — Respondeu o eunuco.
  — Sinto muito, não devia ter tocado no assunto... — desculpou-se .
  — Não, tudo bem. — Ele falou olhando para os lados. — Acho que é melhor irmos. Algumas mesas já estão ficando vazias.

     

     

sempre tivera consciência de ser um homem sortudo por casar-se com ; sua beleza era incomum comparada às outras mulheres do reino, ela não precisava de roupas ou joias para destacar seu corpo. O oficial sentia o olhar dos homens do rei em sua esposa e estava sentindo o ciúme dominar seu peito. Enquanto cumprimentava alguns conhecidos, mantinha sua mão segurando a cintura de estando ela bem ao seu lado. Ela estava deslumbrante com aquele novo vestido e começou a admitir que gostaria que toda aquela produção fosse para ele. Depois de tê-la beijado na cozinha, tudo voltou ao normal como se nada tivesse acontecido.
     A ideia de saber que o motivo do choro de naquele dia fora por causa de um comentário maldoso de uma serva sobre seu casamento, lhe fazia entender que ela também estava lutando contra si mesmo; ele tinha quase certeza que ela se culpava.   Assim que se distanciaram de um dos conselheiros do rei, suspirou pegando um copo com vinho com as duas mãos. olhou para os lados checando os soldados que estavam nos cantos principais do salão, deixando sua esposa frustrada.
     — Nem em uma festa como essa você para de trabalhar? — perguntou — Tenho impressão que até dormindo você está trabalhando.
     — Você quer que eu pare de trabalhar? — Indagou já pensando no discurso que faria caso ela afirmasse.
     — Não, quero que você relaxe. — Ela sorriu massageando seu ombro levemente. — E, por favor... — Sussurrou tirando a mão de seu marido de sua cintura. — Isso... — tragou a saliva. — Incomoda...
      tirou rapidamente seu braço e a olhou suplicando por desculpas. Era por isso que ciúme é considerado um sentimento egoísta, supôs , já que busca apenas seus próprios interesses. Em nenhum momento o oficial havia parado para pensar sobre o quanto poderia incomodar sua esposa a aproximação repentina.
     — Tudo bem. — tranquilizou com um meio sorriso antes que ele falasse.
  — Eu não... — falou ele já se lamentando.
  — Esqueça isso. — Ela respirou pela boca. — Vamos apenas aproveitar a festa, aliás, a nova rainha parece ser diferente de Vasti. Acho que ela é boa o bastante para o rei. — Comentou sorrindo e tomando mais um gole de vinho.
     …      Na frente do palácio estava a multidão de pessoas de regiões e crenças diferentes todos em um só objetivo: conhecer a nova rainha. Os rostos ansiosos e os cochichos denunciavam a expectativa de muitos. Como fogo em um celeiro, o boato de que Vasti estava com um filho do rei se espalhara pela multidão. Mordecai parecia incomodado com a movimentação e as cotoveladas que recebia, mas logo todos pararam instintivamente e olharam para a sacada do palácio. Avistaram o rei ao lado de com suas respectivas coroas.
     Mordecai sorriu alegremente ao vê-la ali. Era isso que Deus queria; queria como rainha. Talvez, aquilo fosse maior do que ele conseguia enxergar, mas, naquele momento, ele via a admiração e felicidade que ela sorria. Sua garota iria ser feliz e era isso que ele desejava. O rei segurou a cintura da sua esposa a abraçando e beijou-lhe a testa, logo depois os dois acenaram para multidão com sorrisos simpáticos.
     — Obrigado, . — O imperador sussurrou.
     — Disponha, mas por que exatamente? — Ela disse virando-se para ele.
     — Por escolher ficar ao meu lado.
     Seus olhos brilhavam e naquele momento sentiu-se a mulher mais feliz de todo o Império Persa.

Capítulo 18 - Prometa-me

  A coroa pesava na cabeça de alertando-a de tudo que havia acontecido nas últimas horas; ela sentia como se lhe tivessem colocado duas pedras enormes nas costas agora que se tornara rainha. Ela repetia incansavelmente cada frase que a definia naquele momento.
  Eu sou de Susã.
  Eu estou casada.
  Eu sou a rainha do reino Persa.
  O rei é meu marido e eu estou apaixonada por ele.
  Eu estou apavorada.

  Saiu dos seus devaneios ao senti Hegai acariciar seu braço casualmente enquanto a levava aos aposentos do imperador. O medo começou a dissipar-se quando a jovem lembrou-se que não passaria nada sozinha. estaria com ela. Logo que fitou o rei sentado em sua cama de costas a ela, tudo ao seu redor pareceu sumir. Hegai havia se despedido, mas ela não percebeu. mordeu o lábio inferior ao senti a sensação de calor percorrer pelo corpo ao ver o rei mais belo do que o costume. Ele apenas usava uma calça vermelha de seda, uma peça estranha para época, deixando a mostra seus músculos bem trabalhados. Ele tinha corpo de guerreiro e, se dependesse dela, ficaria o observando por toda noite. O silêncio do local fora cortado quando o eunuco estava saindo com suas passadas rápidas, porém fortes. O rei levantou-se e virou-se para a sua esposa com um sorriso em seus lábios. Contendo a vontade de correr até seus braços, a rainha apenas fez uma pequena reverência com a cabeça com cuidado para não derrubar a coroa. Conforme o imperador aproximava-se, ela sentia seu coração bater mais rápido e, ao ver o brilho dos olhos de seu esposo enquanto a mirava, suas pernas bambearam.
  O rei passou a mão em seu cabelo, já sem a coroa, sentindo uma felicidade súbita lhe invadir a partir do momento que viu em seus aposentos. O que Ananias tivera falado para ele sumia de seus pensamentos a cada passo que dava em direção a sua esposa. Ela era linda, e isso nunca negaria; os olhos inocentes, mas determinados, o sorriso tímido e calmo lhe fazia perceber que era o homem mais feliz de todo o mundo. Sem dizer nada, apenas com um sorriso esperto desenhado nos lábios, ele retirou a coroa da cabeça da rainha delicadamente que riu segurando as suas mãos.
  — Deixe que eu faço isso. — Comentou a mulher tentando impedi-lo de continuar. — Isso não é trabalho para um rei.
  — Shhh.— Disse retirando de uma vez a coroa. — Hoje serei seu servo ao menos essa noite.
   riu sentindo seu estômago embrulhar de um jeito bom e arregalou levemente os olhos ao ver o rei se ajoelhando diante dela.
  — Rei ... — Advertiu. Com os braços abertos e um sorriso maior que seu rosto, o imperador lambeu os lábios antes de falar.
  — Eu me ajoelho aos teus pés, belíssima Rainha . — Sua voz rouca a atingiu em cheio e outra vez a jovem evitou o impulso de se jogar nos braços fortes de seu marido.
  Ele pegou sua mão e beijou seus dedos cordialmente.
  — Eu quero cuidar de você. — Ele sussurrou enquanto se levantava. Os olhos de faiscavam acompanhando cada movimento do homem em sua frente. O imperador fechou os olhos quando a rainha acariciou sua barba mal feita; o toque suave de suas mãos pequenas e delicadas lhe davam um êxtase inagualável. Ele aproximou-se e beijou a parte sensível de sua orelha fazendo o corpo da jovem se arrepiar. Os lábios macios do rei lhe tocavam com ternura distribuindo beijos pelo seu rosto, descendo até sua clavícula.
  — Meu rei...— Ela murmurou fazendo o mesmo senti um arrepio cruzando sua coluna. Aquelas palavras que ele escutava o tempo todo soava divino nos lábios de .
  — Eu a amo, . — Ele sussurrou em seu ouvido.
  — Eu amo você também, rei. — Ela ofegou.
   O rei abaixou-se um pouco para passar os braços pelos joelhos de e a erguer enquanto distribuía beijinhos pelo seu rosto e ela ria em direção à cama. Quando a apoiou no lençol de linho, com o seu rosto bem perto do dela, ele sussurrou:
  — Você confia em mim?
  Ela segurou seu rosto com as duas mãos olhando bem em seus olhos como se lê-se sua alma.
  — Sim, eu confio em você.
  E eles se entregaram um ao outro. O rei havia achado a felicidade e o amor que um dia pensara não existir e , a rainha da Pérsia, se fez saber aquilo que almejava em seus sonhos. Ela o amava e enfrentaria o mundo por ele. Naquela noite eles se entregaram as carícias e as juras de amor que levariam em seu peito até o dia da sua morte. Mas, como disse um sábio escritor, do restante guardarei em silêncio; são coisas que não se devem falar. Os melhores prazeres são aqueles que o narrador não conta.

  ...

segurava a lamparina com cuidado enquanto saia do pequeno quarto do seu filho que dormia. Os cabelos caindo em seu rosto sujo de poeira denunciavam o mal estar do servo; ele sentia que a comida que havia ingerido não lhe fizera bem e logo colocaria tudo para fora. Seu corpo enrijeceu ao ouvi tosses vindo de seu quarto; era Raquel. Com os passos rápidos correu até onde ela estava e ficou apavorado ao vê-la no chão com as mãos em terra e o rosto mais pálido que o normal. Rapidamente o beduíno abaixou-se para ajudá-la quando viu que sangue escorria de sua boca.
  — Eu não vou sobreviver, . — Ela disse que segurando as mãos de seu marido com o pouco de força que tinha e ele a levantou em seus braços.
  O líquido vermelho tingia a sua pele e a dela; cada vez mais sangue escorria pela sua boca conforme ela tossia. Raquel sentia que poderia cuspir seu pulmão. Ela via o olhar desesperado de seu esposo e as lágrimas molhando a sua face; era certo, ela não sobreviveria.
   — Meu amor... — Ela disse com a voz falha. — Cuide de Manassés.
   — Eu irei. — Lágrimas desceram sobre sua face limpando a poeira de seu rosto.
   — E case-se de novo. Seja feliz. — Ela deu uma risada fraca a fazendo tossi mais ainda.
   aconchegou em seus braços para que ela sentisse mais confortável, nem que fosse apenas um pouco antes da sua morte. — Prometa-me.
   — Eu prometo. — Ele apertou a mão de sua esposa com força enquanto acariciava seu outro braço para acalmá-la.
  Raquel fechou os olhos respirando fundo pela pausa repentina de tosse aproveitando um pouco de paz que seu corpo lhe causara; e, então, sentiu seu pescoço formigar mais uma vez.
  Perdendo as forças aos poucos e enquanto a dor pelo tronco até a garganta lhe sucumbia. Em sua mente, ela se mantinha pensando que tudo iria ficar bem, tudo ficaria bem. Ela iria ao seio de Abraão.
  E, logo, ela deu seu último suspiro.
  As lágrimas nos olhos do jovem beduíno embaçava sua visão enquanto ele apertava o corpo sem vida de sua esposa. O choro desesperado, porém silencioso, era a única coisa que ele poderia fazer. Ele estava sozinho mais uma vez e não sabia para onde seguir. desejava que Raquel voltasse, não era justo a ida dela, ele não estava preparado para perder alguém tão importante em sua vida. Mas, afinal, ninguém nunca está preparado para morte de um ente querido.

...

Deitada, com o quarto iluminado apenas com a luz da lua que saia de uma das incríveis janelas do palácio, observava as costas de seu marido. Ele dormia no outro lado da cama, quase na beirada para que ela tivesse mais espaço. O oficial estava sofrendo, ela sabia que se culpava pelo ocorrido durante a festa do rei e isso lhe doía. A culpa não era dele, era toda dela. Precisava consertar isso e já sabia o que fazer.
  Se acomodando em posição de sentido, fechou os olhos coçando as pálpebras enquanto sua mente vagava nos rostos de cada uma de suas servas, desde a mais velha até a mais nova, ela se lembrou da jovem que havia sido designada a ela há pouco tempo. A serva tinha cabelos escuros e era de corpo esbelto, a garota era ainda jovem e poderia dá belíssimos filhos. sentiu seus olhos arderem e as lágrimas descerem queimando sua bochecha apenas por imaginar com outra mulher. Aquilo machucava lhe o coração de forma agoniante e desconhecida, porém era necessário. Não podia simplesmente atrapalhar a vida de alguém que se importava daquele jeito. Passou a mão no rosto para limpar as lágrimas, se virou-se de costas para seu marido e fechou os olhos esperando que o sono viesse e junto com ele seus pesadelos.

...

Os quartos do harém estavam escuros e o barulho das respirações compassadas invadiam o lugar como um grupo de músicos em sinfonia. Em uma daquelas camas, repousava Tafnes com um plano de vingança em mente. Não conseguiria atingir diretamente por ter roubado a sua coroa, até porque ela não tinha no que ser culpada, porém havia quem Tafnes podia prejudicar em resposta.
   estava domindo do outro lado do quarto alheia aos planos da egípcia contra sua amiga; mesmo assim, o sorriso presunçoso dominava os lábios de Tafnes. Amanhã Hegai saberia por ela sobre a gravidez da jovem judia, atingindo assim a rainha da Pérsia.
  Tafnes se lembrava do dia em que Dalfom lhe disse da situação daquela garota e o quanto achava aquela informação preciosa. O que a rainha pensaria sobre seu esposo ordenando a sua melhor amiga a morte? Isso era só o começo, ela faria qualquer coisa para tirar do seu caminho.

Capítulo 19 - Liberdade

  A semana passou de forma tão efêmera que as garotas do harém mal sentiam falta da presença de . Rapidamente, a escolha do rei foi aceita por cada uma das concubinas, as quais sabiam que ainda tinham chance de se deitar com rei, se ele o quisesse. O rei não era propriedade única da sua esposa e as mulheres ainda tinham direito a proteção real e ganhavam presentes periodicamente do imperador, afinal, elas pertenciam a eles.
     Tafnes, porém, não conseguia aceitar aquela condição. Sendo sua revolta justificável, a egípcia acabou por focar no peão da jogada, ao invés de ver que todo jogo era corrupto. Tafnes queria ser rainha e atacaria de todas as formas possíveis para sentir o gosto da vingança.
     Após dias e mais dias do falatório sobre a união do rei com , Hegai finalmente voltou para suas atividades normais, para deleite da egípcia. Para ela, aquele seria o momento oportuno.
     ー Devemos voltar às aulas de etiqueta hoje ー comentou o eunuco ー Na última vez que as vi comendo pareciam um bando de porcas grávidas que não veem comida a dias.
     ー Levando em consideração de que uma de nós está grávida… ー disse Tafnes com desinteresse.
     ー Grávida? ー indagou Hegai assustado ー Há alguém grávida do rei por aqui?
     ー Do rei? ー ela soltou uma risada ー Como ela estaria se nunca deitou-se com o imperador e deveria ser virgem?
      sentiu o corpo todo congelar ao ver os olhos de gato de Tafnes recaindo sobre si. Seu rosto não escondeu o pânico que apoderou-se dela. A judia engoliu o seco quando viu Hegai soltar um grito de fúria exigindo que quem quer que fosse a mulher grávida de um bastardo aparecesse logo. As mulheres entraram em uma discussão desenfreada, uma culpando a outra sem provas, apenas para provar que não eram elas mesmas a grávida.
     No entanto, ao abrir a boca para denunciar o nome de , as mulheres calaram de súbito e aquelas que estavam de pé fizeram uma reverência impecável.
     — O que está acontecendo aqui? Eu quero saber… — exclamava Hegai, ainda de costas para a porta.
     — Não acho que gritar com as mulheres do harém seja uma boa forma de fazê-las o escutar, Hegai. — a voz de ecoou sobre o salão deixando o rosto do eunuco branco como papel.
      usava um vestido real vermelho e um véu da mesma cor. Por cima deste, havia uma tiara que segurava-o junto ao cabelo longo e esbelto. Ainda mantinha o ar humilde, embora sua elegância mostrasse mais destacada após a coroação.
     — Minha senhora, não foi minha intenção…
     — Esqueça isso, querido servo. Sei que não fez por mal. Eu o conheço. — comentou dando-lhe tapinhas em seus ombros.
     A rainha andou devagar até sua amiga com a paciência de quem tinha todo o tempo do mundo. Ela não podia conter o sorriso enquanto fitava o choro silencioso estampado no rosto rechonchudo de sua amiga. Com a mão estendida, enxugou as lágrimas que haviam descido segundos antes de se aproximar.
     — O rei deu-me a permissão de liberar uma das concubinas. — anunciou em alto bom som — Um bom homem, o nosso imperador — adicionou aquele elogio sorrateiro, apenas para que não houvesse murmúrios de crítica a ele. Apenas , sua esposa, tinha direito de fazer algo do tipo — Estás livre, minha amiga.
      abraçou a rainha com tanta força que sentiu que quebraria ao meio.
     — Que o Deus de Israel, o nosso Deus, a abençoe, minha rainha. — disse ela ajoelhando em seus pés de agradecimento.
     — Ora, pare com isso — reclamou levantando-a — Sou sua amiga ainda, apesar da coroa.
      sorriu para ela.
     — O casamento lhe caíu bem, querida.
     O rosto de ficou vermelho ante aquela afirmação. Era bem verdade que os últimos dias tinham sido os mais felizes de sua vida. Apesar de estranhar ter tamanha intimidade com um homem, a rainha já havia percebido certas características de seu marido que a encantava. Ela tinha consciência que em breve conheceria seus defeitos, mas, até lá, desfrutaria do lado romântico e gentil que o rei nunca expôs em público.
     Enquanto voltava aos seus aposentos, relembrava do que conversaram naquela manhã ainda envoltos pelos lençóis de linho. Ao citar sobre a situação da sua amiga, a rainha foi bem cuidadosa com as palavras. Omitindo a gravidez dela, falou de uma amiga que sentia falta da família de forma que viver no harém estava sendo um castigo para ela. O rei estava mais preocupado em prestar atenção nas curvas do corpo de sua mulher do que ela falava, o que facilitou conseguir sua permissão para dar liberdade a sua amiga.
   estava livre para voltar para casa, ter o seu filho e viver com o homem que amava. No entanto, aquele era o começo de mais uma jornada da jovem judia.

     …

     Mesmo em seus dias ruins, não demonstrava sua tristeza. Usava roupas de luto, mas agia de modo mais profissional possível desde a morte de sua mulher. Como copeiro do rei era necessário agir de forma mais fria possível para que seu humor não atingisse o imperador da Pérsia. Ainda assim, perder Raquel foi um golpe forte demais para ele.
     Na última semana, antes de vir ao palácio do rei, deixava seu filho com a vizinha e, ao voltar para casa, encontrava seu filho sujo e todo desarrumado. Não sabia o quanto Raquel era importante para sua rotina até perdê-la de vez.
      o encontrou recolhendo pratos da mesa para que o cozinheiro chefe dispuser-se os ingredientes do manjar para aquele dia. Com o ar de altivez, a viúva aproximou do homem.
     — Vejo que a viuvez não o impede de trabalhar — disse ela ao ver suas roupas mais sóbrias do que o costume.
      a fitou por longos segundos antes de responder:
     — Com todo respeito, não vejo como isso seja de seu consentimento, senhora.
     A mulher mordeu a parte interna da bochecha sentindo o golpe como se fosse físico. Aisha não costumava ser intrometida, mas aquele homem, a quem só vira uma vez, a inquietava de modo que seu desejo era saber quem ele era. Ao descobrir que perdera a esposa, imaginou que essa era a oportunidade perfeita. Sendo ela viúva, eles tinha uma dor que poderia ser compartilhava.
     — Pois bem. O curandeiro está pedindo alguns materiais da cozinha, onde posso encontrar?
      sabia a localização que perguntou, mas ela não daria o braço a torcer tão facilmente. Andando com graça, andou em direção a dispensa depois que lhe explicou onde era.
     O beduíno fitou a mulher frívola rebolar com altivez até desaparecer de sua vista. Embora fosse polido e discreto, não estava disposto a receber comentários impertinentes de alguém que não conhecia e nem dava a mínima para conhecer, por mais bonita que fosse. Por que era tão difícil deixar um homem sofrer seu luto sozinho?

     🌄🌄🌄

         tecia com delicadeza o manto que preparava para seu marido. Era um robe de tons pastéis e leve como uma pluma, embora este tipo de vestimenta costumava ser mais rústico. Era um tipo de roupa para dormir que com ousadia pensará em fazer assim que encontrou uma boa lã que vinha de uma das cidades babilônicas.
     Com ajuda de suas criadas, começou bordar o símbolo que havia visto apenas uma vez nos papiros do pai. Era o símbolo de Éfeso, um bastão em pé rodeado por duas serpentes. Ela carecia de detalhes, pois não tinha uma memória aguçada, mas era suficientemente bonita. Iria entregar a ele assim que ficasse pronta.
     Quando ouviu passos fortes que deduzia ser de seu esposo, escondeu a tele rapidamente junto com suas criadas. Ao aparecer no que seria uma sala de visitas, identificou a feição de quem escondia algo em sua mulher.
     — O que está acontecendo?
     — Estou preparando uma surpresa. — sorriu tentando parecer não muito animada ante a ideia, mas falhou não contendo uma risadinha.
     O oficial levantou a sobrancelha, mas deixou-se relaxar com a felicidade da sua esposa. Visando ter mais privacidade com ele, ordenou que suas criadas prepara um banho para seu marido. Assim que elas sumiram do cômodo, aproximou-se dela.
     — Isso foi uma indireta? — disse referindo-se ao pedido rápido feito por .
     — Não! Claro que não — falou com as bochechas coradas em embaraço. — Apenas queria… Eu queria…
     — Não precisa de tanto espanto, querida. — ele riu segurando-a pelos braços. — Estava apenas brincando. Se bem que realmente preciso tomar um banho e tirar a sujeira do corpo.
     — Como foi seu dia? — indagou ela docemente.
     — Pesado. Cansativo. Um dia normal — disse e sua esposa percebeu quão humano ele parecia naquele momento. Não era mais o implacável capitão do exército do rei. Era apenas de Éfeso, seu marido.
  — Bem, então vou deixá-lo mais cômodo possível. — por instinto, se esticou e beijou-lhe o rosto antes de desaparecer pela porta à procura das criadas para que fosse preparado um banquete para .
     O oficial fitou o ar embasbacado, a quentura dos lábios de ainda marcados em seu rosto. Sorriu com um comichão bom no peito.
     Estava perto de quebrar a barreira invisível que estava rodeada.

     ...

     — Aonde você está indo sozinha?
      deu um pulo de susto e pôs a mão o peito ao ver que quem falara era .
     — Desculpe, não quis assustá-la. — ela sorriu em resposta e fitou a barba por fazer do eunuco.
     — Estou indo visitar minha irmã, . Me enrolei com as coisas no palácio e acabei saindo mais tarde — justificou-se olhando para o céu escuro — Você pode me acompanhar até lá? É pertinho.
     Ele assentiu feliz por ser útil. Um meio homem para defendê-la dos perigos da noite era melhor do que homem nenhum, afinal.
     — Não sabia que tinha uma irmã — comentou interessado.
     — Somos cinco filhos, na verdade. Duas mulheres, três homens. Meus irmãos estão no exército — acrescentou ela com um sorriso pequeno. — E você? Tem irmãos?
      possuía traços de ingenuidade, embora já deveria ter passado dessa fase a essa altura. Agora que trabalhava para a rainha ainda mais.
     — Tenho dois irmãos mais velhos e eles estão muito longe daqui. Não os vejo há anos — falou nostálgico. Eles nem mesmo sabiam que havia se tornado eunuco. Era como se eles estivessem mortos, mas os irmãos não podiam suportar viver no centro do império que dizimou Jerusalém.
     — Sinto muito — falou com empatia. — Vai deixar a barba crescer? — indagou depois de longos segundos em silêncio.
     — Minha barba? — ele coçou os pêlos que cresciam no rosto — Sempre deixei-a crescer antes e pensei em mantê-la agora.
     Era uma vaidade sua já que, como eunuco do rei, nunca seria respeitado e barba era para homens que tinham honra.
     — Eu gosto — falou em sussurros , vermelha como um tomate.
     Nunca ficara tão desconcertada diante de homens, levando em consideração que tinha sido criada no meio de meninos, porém, era perigosamente charmoso para um eunuco. Ao contrário da maioria dos serventes do rei, o judeu ainda agia como um homem repleto de toda a sua masculinidade e suas atitudes a atingia diretamente.
      mordeu o sorriso antes de dizer:
     — Então, manterei a barba se isso lhe agrada.
     E os dois continuaram em silêncio enquanto andavam pelas principais ruas de Susã.

     …

     As costas de Mordecai doíam e o cansaço do trabalho e da velhice já o abatia. Seus dias de juventude havia acabado e tudo que lhe restava era dores e resmungos. Embora ele possuísse uma das profissões que não exigia muito esforço físico, a idade atingia a todos. Por isso, escolher ir pelas vielas mais perigosas e curtas para chegar em casa pareceu uma boa ideia no final daquela noite.
     Na sua cabeça, uma música em hebraico que não escutava a muito tempo lhe tirava o sono. Era um salmo de Davi, mas ele não conseguia lembrar de toda a letra.
     Encontrou uma ou duas pessoas que conhecia, mas boa parte daqueles que encontrava eram mal-encarados. Agarrando a bolsa com alguns papiros importante perto do peito, o judeu apressou o passo para chegar o mais rápido em casa, no entanto, uma conversa acalorada o deteve em uma das curtas esquinas.
     — Fale baixo, por Tistrya! — ralhou um homem — Você só precisa colocar três gotas desse veneno. Nem mais, nem menos. Entendeu, Teres? Se passar disso, o copeiro irá cair duro no chão antes do rei tomá-lo e tudo será em vão. Está me escutando?
     — Mas, Bigtã, e eles vão desconfiar se nós estivermos na coxinha — falou outro homem com receio.
     — Claro que não, seu idiota. Tome isso, você vai se sentir menos covarde…
     Desesperado, Mordecai passou a andar mais rápido ainda, porém em outra direção. Se o que aqueles homens estavam falando era verdade, a rainha seria a primeira a saber sobre o plano para matar o rei.

Continua...



Comentários da autora


  Após muita demora, finalmente voltei para cá! Passei um tempo empacada com a história, mas acredito que agora as atualizações serão mais frequentes. Vamos passar por algumas reviravoltas, então, fiquem ligados.
     Para quem quiser acompanhar mais sobre minhas histórias e deseja receber spoilers e etc, tenho o grupo do Facebook. O link está na área de rede sociais no canto esquerdo. Deixe seu comentário com suas teorias e sua opinião. Elas são muito importante para mim!
     Até breve.