Thinking Out Loud

Escrito por Lyra M. | Revisado por Lyra M.

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Capítulo Único

  

Price era um homem calmo. Ele nunca fora agitado, na verdade, sempre esteve dentro do limite aceitável, por assim dizer, mas agora estava ainda mais caseiro e sabia disso. Certo, considerando que já estava na casa dos 60 anos, não teria energia para fazer algo mais agitado nem se quisesse, mas no fundo ele sabia que aquela bolha de paz e tranquilidade em que vivia era apenas seu jeito. Nem tudo era apenas calmaria, claro, pois mesmo os mares mais tranquilos às vezes também precisavam enfrentar algumas tempestades. A dele era Ethan, seu neto. Ah, Deus, duvidava muito de que algum dia encontraria uma criança mais rebelde do que Ethan, mas ele o amava acima de todos os defeitos.
     Além do mais, agora ele tinha .
     Era quase impossível não sorrir ao se lembrar dela. tinha apenas oito anos, era cerca de 11 meses mais nova que Ethan, mas a amizade que ele compartilhava com a garotinha parecia ter décadas. Dois anos atrás, ela havia se mudado para a mesma rua em que ele morava, e se lembrava bem de, logo na primeira semana, tê-la encontrado na porta de sua casa, tocando a campainha e perguntando por Ethan.
     Naquele exato momento, simpatizou com ela. Não apenas por ter a coragem de bater na casa de pessoas desconhecias só por saber que lá havia uma criança quase da sua idade com quem podia brincar, mas porque, depois de levar um fora de Ethan – coisa que sabia que aconteceria, no fundo. Seu neto não tinha um temperamento fácil – ela não se deixou abater. Saiu com a cabeça erguida, e não pôde deixar de segurar uma risada. Parecia ser mais velha do que era, com toda aquela maturidade. Para falar a verdade, o lembrava de sua filha, Patricia, e parte dele suspeitava que era um dos maiores motivos para que se sentisse afeiçoado à menina. Bem, ele sabia que e Patricia não eram exatamente iguais – embora doesse, ele precisava admitir que era infinitamente mais doce do que Patricia sempre fora. Não era difícil identificar de onde viera o temperamento forte de Ethan.
     A menina não voltara mais nenhuma vez para chamar Ethan para brincar, apesar de serem as únicas crianças na rua onde moravam, e notou, divertido, que o orgulho da garotinha provavelmente estava ferido. E ainda assim, ele a pegou rondando sua casa algumas vezes depois, e foi com uma dose renovada de empatia que ele descobriu o motivo: seu jardim.
     Desde que se aposentara, se sentia um tanto quanto inútil. Tomar conta de Ethan não era exatamente fácil (por Deus, ele era idoso! Não tinha mais pique para cuidar de uma criança rebelde), mas não era a mesma coisa que ter algo em que trabalhar. Foi com prazer, então, que ele descobriu o gosto pela jardinagem. O jardim de sua casa se tornou o mais bonito da rua, ele notou com prazer, e não era tão difícil assim cuidar das plantas. A atividade seria mais fácil se ele tivesse prestado mais atenção nos cuidados de sua quando ela ainda era viva, mas era um obstáculo que ele podia vencer.
     Era um pouco engraçado uma menina de oito anos se interessar por jardinagem. Mas ora, o que poderia ser mais irônico ou engraçado do que um senhor de sessenta e poucos anos ser amigo de uma criança com quem nem mesmo compartilhava laços de sangue?
     — Bom dia, senhor Price! — A voz da menina ecoou enquanto ela abria o portão de madeira e entrava no quintal, com um sorriso enorme iluminando o rosto.
  — Bom dia, . — Ele devolveu o sorriso. Já estava na hora de ela aparecer. Sempre aparecia pouco depois do café-da-manhã, ao passo em que Ethan normalmente nunca deixava a casa antes do almoço. Passava a manhã inteira jogando (como era mesmo o nome daquilo?) videogames.
     Ela se aproximou de onde estava, trabalhando em um dos muitos canteiros de rosas. O silêncio caiu, singelo e tranquilo, enquanto os dois permaneciam imersos em pensamentos. Normalmente era sempre a primeira a puxar conversa, contando sobre as férias ou colégio, ou sobre as aulas de música que fazia. Naquela manhã, porém, permaneceu quieta por alguns bons minutos, antes de trazer à tona um assunto que deixou surpreso, mas um tanto quanto satisfeito.
     — Senhor Price... — Ela começou, pensativa, enquanto encarava as rosas. — Quando o senhor começou a gostar das plantas?
     Ele baixou a tesoura de poda que segurava, inconsciente do sorriso que se formava em seus lábios e distraído demais pensando em lembranças que estavam ali, como se esperando apenas a oportunidade perfeita para ressurgirem fortes e brilhantes, como um filme passando pelos seus olhos.
     — Diga-me, você gosta de histórias de amor? Porque esta é a mais bonita que conheço.


  

queria chorar.
     Simples assim. Ela nunca conseguia controlar as lágrimas e se detestava por isso, mas era forte demais para evitar. Além disso, pelo menos daquela vez possuía um bom motivo.
     Ela enxugou a primeira lágrima com raiva, enquanto observava o outro lado da rua através da vitrine da sorveteria em que estava. Estava tudo errado. Por Deus, em que mundo ela (justo ela!) estaria sentada em uma sorveteria sozinha e chorando enquanto, do outro lado da rua, todas as pessoas que participariam e assistiriam à final do concurso de dança mais importante da cidade já chegavam ao clube? deveria estar lá, se arrumando e preparando para a competição que, sabia bem, venceria com facilidade.
     A segunda lágrima veio, seguida da terceira e da quarta, e de repente ela estava ocupada demais tentando contê-las para se preocupar em não borrar a maquiagem ou esconder-se com o carápio da sorveteria, como fazia há alguns minutos. Ocupada demais para perceber que não estava mais sozinha na mesa, também.
     — Você está bem? — A voz interrompeu seus pensamentos, e passou as mãos na bochecha rapidamente, tentando secá-las e recuperar a pose – coisa que, certamente, não conseguiu.
  — Quem é você? — Ela perguntou, encarando o garoto à sua frente. Pareciam ter a mesma idade, dezessete, mas ela nunca o havia visto antes.
  — Price, salvador de donzelas indefesas. — Ele disse com um sorriso. Ela deu uma risada amarga, antes de responder:
  — Stuart, donzela indefesa sem chances de salvação. — O sarcasmo na voz dela era tão amargo quanto o meio-riso que ela deu pouco antes, mas a risada dele em resposta foi sincera.
  — Adoraria tentar, gosto desafios. Prazer em conhecê-la.
      não disse mais nada, dando para a moça tempo suficiente para que secasse uma última lágrima teimosa, e aceitasse o fato de que ele não parecia disposto a ir embora. Ela parecia estar distraída demais para reparar no tempo passando, mas a verdade é que o silêncio estava começando a incomodar . Com um pigarro, ele o quebrou:
     — Então... O que houve?
     Ela voltou a olhar para ele, com curiosidade, quase como se tivesse esquecido de que estava lá. Suspirou cansada antes de responder.
     — Estou perdendo a competição de dança. Deveria estar competindo, mas estou aqui. Não posso ir para lá. — Ela indicou o clube com a cabeça. respondeu com um franzir de sobrancelhas questionador, e a moça explicou melhor: — Quebrei o tornozelo cerca de dois meses atrás. Já se curou, mas não para de doer, e o médico falou que não posso fazer muito esforço. Não posso mais dançar. Não por muito tempo, não profissionalmente.
     O olhar dela tinha uma ponta de desafio, embora não conseguisse disfarçar a tristeza. O dele, no entanto, era pura bondade.
     — E por isso decidiu evitar a dança de todos os jeitos? — Ele fez uma pergunta retórica, mas fez questão de responder assim mesmo.
  — Continuar acompanhando de perto as competições não me faria bem. — A jovem disse, com ar de quem teve o orgulho ferido.
  — Mas é o que você gosta, não é? — Ele perguntou confuso. — Se não quer acompanhar a competição, pelo menos dance comigo. Uma dança não pode fazer mal, pode? Venha!
      levantou-se, estendendo uma mão para a moça, que o encarou como se ele fosse louco. Ela lançou um olhar rápido pela vidraça para o outro lado da rua, onde o movimento já começava a diminuir. Depois, passou para o jukebox no canto da sorveteria, não muito longe da mesa onde ela estava. Quando voltou a olhar para , viu que ele continuava com a mão estendida, e a olhava com expectativa.
     — Só se for uma música do Elvis. — Ela disse com um sorriso pequeno, aceitando a mão do rapaz.


  

— Foi assim que o senhor conheceu a Sra. Price? — A voz fina de tirou do devaneio, e o idoso continuou sorrindo, saudoso, por um breve momento antes de responder a mais jovem.
  — Sim. — Ele disse, em tom sonhador. — Foi assim que eu a conheci.
     Ele parou de falar, como se o assunto estivesse encerrado. continuava olhando com atenção tudo que ele fazia – como cortava cada galho sobressalente, para que outros pudessem nascer com mais força.
     O silêncio era agradável, e não se podia ouvir muitos sons na rua que já era tranquila por natureza. Sendo um domingo de manhã, era natural que as pessoas dormissem até um pouco mais tarde do que o normal, e mesmo o ar parecia preguiçoso. Não fazia sentido que algo mais agitado acontecesse naquele momento, e a simples hipótese de isso acontecer parecia ridícula demais para ser levada a sério.
      também tinha se perdido em pensamentos. Gostava de fazer isso, imaginar histórias a partis do que sabia sobre os fatos. Tinha uma imaginação fértil, era o que ouvira alguns adultos falarem sobre ela. Mesmo que não soubesse com exatidão o que aquilo significava. Só sabia que era uma coisa boa, pelo modo com que seus pais pareciam orgulhosos quando alguém falava isso.
     Não era difícil para ela imaginar histórias de romance com príncipes e princesas, ainda mais porque contos-de-fadas eram parte de sua rotina diária – ela os lia todas as noites antes de dormir, e se pudesse leria durante todo o dia também, mas tinha medo de enjoar. Naquele momento, ela imaginava o que teria acontecido no relacionamento entre o Sr. e a Sra. Price. Era engraçado imaginá-lo mais novo, e dançando com uma moça em uma sorveteria. Mas parecia romântico, de algum jeito. O problema era que tinha alguma falha naquilo tudo, e não conseguia enxergar o que era.
     De repente, foi como se uma luz iluminasse seu cérebro. Como era boba! A história que contou era bonita, mas não respondia a pergunta que ela fez. Talvez a ligação estivesse ali, clara, mas ela era curiosa demais para deixar de fora os detalhes.
     — Senhor Price... — Ela começou de novo, devagar. — O senhor não respondeu minha pergunta.
     Ele deu uma risada suave. Mas, ao invés de responder direto, ele comentou:
     — Sabe o que é engraçado, ? sempre falava sobre como eu trouxe a felicidade de volta para ela. Mas foi o contrário. Ela trouxe a felicidade para mim.


  

A risada de ecoava alta, e podia jurar que nunca tinha ouvido nada tão bonito. Ela apoiava o braço no dele, em busca de equilíbrio, enquanto enxugava uma lágrima de riso que teimava em escorrer.
     Eles haviam acabado de sair de uma das lanchonetes favoritas de , com música e uma pequena pista de dança. A noite havia sido calma, até o momento em que, quando uma das músicas que mais gostava começou a tocar, ela insistiu para que dançasse com ela. Claro, ele deveria ter previsto que isso aconteceria, mas não previu, e tampouco conseguiu recusar o pedido dela, acompanhado de um sorriso infantil e expectativa no olhar.
     Uma dança ela pediu, mas logo se transformou em duas, e as duas danças viraram três. Quando por fim pararam, praticamente todos os casais já estavam na pista, e o que começou como diversão estava a ponto de se tornar uma disputa de quem mostraria os melhores passos. sabia que venceria com facilidade se quisesse, mas ambos acharam melhor parar antes que o tornozelo da moça começasse a doer. Os braços de já estavam doloridos depois de todas as vezes em que ele tirou a jovem do chão, girando-a no ar, mas não se importava. A diversão tinha valido a pena, especialmente ao reparar no quão sério as pessoas pareciam estar levando a dança na lanchonete.
      percebeu, com um sorriso, que a namorada nem mesmo tentava ser a melhor – ela apenas era, e isso a fazia se divertir como nunca. não parecia notar toda a competitividade ao seu redor, era como se tudo fosse um grande jogo, que ela ganhava sem nem saber as regras direito.
     Sorrindo leve, a conduziu para um pequeno parque, na esquina da rua. Não queria ir para casa, ainda não. Mesmo depois de dois anos de namoro, todo e qualquer tempo que passava ao lado de ainda parecia pouco. Ela entrelaçou os dedos nos dele, e o seguiu sem pestanejar ou perguntar para onde estavam indo.
     — No que está pensando? — Ela perguntou, quando eles entraram na área gramada do parque. aumentou o sorriso minimamente antes de responder.
  — No futuro.
     Àquele ponto, eles já estavam caminhando entre os brinquedos, esquecidos pelas crianças desde que o sol se pôs. sentou-se em um dos balanços, com um sorriso que alcançava os olhos, mas não a boca.
     — É mesmo? E o que te aguarda no futuro?
  — O que
nos aguarda no futuro. Estive pensando e, já que você gosta tanto de dançar, teremos uma sala de estar bem grande quando nos casarmos.
      riu alto, o que fez o namorado sorrir ainda mais. Por algum motivo, aquele era um ato muito fácil quando ele estava com ela.
     — Não me deixe dançar muito, você sabe que não consigo parar. Acabou de ver isso, lá na lanchonete! — Ela argumentou, com uma expressão carinhosa.
  — Tem razão. — comentou, pensando no assunto. — Acho que você vai ter que arranjar algum outro passatempo.
  — Você está falando sério? — A moça virou para ele, como se a ideia fosse engraçada. — Vai se cansar de mim até termos idade para casar.
      desviou o olhar do céu noturno, carregado de estrelas, e olhou para a namorada, com um olhar divertido que sugeria que ela estava louca.
     — Temos dezenove, , mas não me importaria se tivéssemos quinze, vinte e três ou setenta. Vou te amar do mesmo jeito, mesmo quando meus cabelos começarem a cair ou suas pernas doam demais para dançar, porque você vai continuar a mesma, e eu também. Vou continuar vendo esse brilho nos seus olhos toda vez que você sorri, e vou me apaixonar de novo todos os dias, porque não vamos mudar. Vou continuar cometendo os mesmos erros estúpidos, e sua alma também nunca irá envelhecer, nunca mudará. Não vou me cansar de você jamais.
     Talvez fosse apenas a iluminação, mas ele achou ter visto algumas lágrimas nos olhos da jovem. Não havia como ter certeza, porém, pois ela os fechou quase imediatamente e se inclinou, depositando um beijo suave nos lábios do rapaz.
     Naquele momento, o beijo sob a luz de milhares de estrelas era como o selo de uma promessa. precisava confessar que não havia percebido o quão sério havia falado todas aquelas coisas, mas sabia que, dali em diante, se esforçaria para que todas elas se tornassem realidade.


  

— Como você deve ter imaginado — terminou a narração, com um riso leve. — achou mesmo outro hobby que não fosse a dança. Demorou um pouco, claro, e logo tínhamos Patricia para cuidar... mas ela se acostumou. Passou a adorar as flores, e eu a adorava. Quando ela se foi, o jardim foi a forma que encontrei de torná-la presente.
      não respondeu. Estava perdida em pensamentos desde o fim da história contada, ainda pensando em tudo que ouviu. deixou-a quieta, voltando mais uma vez a atenção para as rosas que podava. Naquele momento, na verdade, ele até preferia o silêncio, embora na maior parte do tempo sentisse falta de alguém para conversar.
     O caso era que falar sobre aquele assunto era uma das coisas que ele mais gostava de fazer, mas o deixava saudoso, e a nostalgia quase doía em seu peito. Os anos ao lado de foram os melhores de sua vida, e enquanto pudesse revivê-los em memória, o faria com prazer. Isso não significava, no entanto, atormentar uma pobre menina de oito anos, é claro. Ela mal tinha idade para entender aquelas coisas.
     Mas ela entendia. Talvez não tão bem e não nas mesmas circunstâncias que os adultos, mas conseguia entender muito bem os romances dos seus tão adorados contos de fadas, especialmente porque – aquele era um segredo que ela não revelaria em voz alta – sonhava um dia viver em um. E como poderia viver como uma princesa se não entendia como suas histórias funcionavam?
      não estava em silêncio por não ter entendido a história que o Sr. Price contou. Estava em silêncio justamente por ter entendido, e duvidava muito que já tivesse ouvido algo tão bonito antes. Contentou-se com o silêncio, então, por mais tempo do que foi capaz de perceber. Tudo parecia tão quieto e em paz que era quase como se o volume do mundo tivesse sido reduzido à zero.
     Ele só foi quebrado no momento em que a mãe de foi chamá-la para o almoço quase pronto, e só então a menina se pronunciou, despedindo-se de com um “até logo” apressado e um sorriso largo no rosto. Ele pareceu surpreso, tanto que a mais nova chegou a se perguntar se ele havia esquecido que ela estava lá. Parecia tão pensativo quanto ela mesma. Mas, mesmo que tivesse se esquecido dela, não o culparia. Se estivesse no lugar dele, também ficaria perdida no passado, de vez em quando. Era uma história bonita demais para ser esquecida assim tão fácil. E, enquanto voltava para casa, para sua família e suas histórias de princesas, teve certeza: não era tão difícil assim acreditar em contos de fadas, afinal.

FIM



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