The F Word

Escrito por Effy Stanfield | Editado por Lyra M.

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Chapter I — Monday

  

Muitas pessoas têm algo supersticioso em suas vidas o qual acreditam trazer sorte ou azar, seja um número, uma peça de roupa, um objeto, um dia da semana... Bem, eu tenho uma letra. A letra F.
    Não posso afirmar se me trouxe coisas boas ou ruins, talvez um pouco dos dois, mas certamente me presenteou com muita diversão.
  Quer um exemplo? Sou membro da família Fletcher, uma das famílias mais ricas da Flórida – estado onde fui nascida e criada –, e atualmente estudo Fotografia. Bizarro, eu sei, parece um trava-línguas.
  No entanto, para a minha infelicidade, nenhum dos termos citados é o maior dos meus problemas. Em meio a todas as palavras iniciadas pela letra F, o destino resolveu acabar com a minha vida por intermédio de apenas uma; com somente quatro letras, porém com grandes chances de ser fatal e infelizmente eu não estava falando de fama.  
  F–U–C–K. Essa é a palavra que sai com maior frequência da minha boca.
  Todos sempre me dizem: "você é uma moça tão bela para pronunciar tantas palavras sujas!", mas o que posso fazer se, não importa o quanto eu me esforce para evitar, um palavrão sempre define exatamente como me sinto? Como expressar surpresa sem usar "Fucking Hell"? Como dar intensidade a algo sem aplicar "As Fuck"? Sem esquecer, é claro, o famoso "Fuck You", que resolvia boa parte dos meus problemas.  
  A questão era que pelo fato de eu ser mulher e membro da alta sociedade, dizer expressões como essas ao longo do meu dia-a-dia era quase considerado um crime. Principalmente para minha mãe, que precisava manter a imagem de família feliz e muito bem educada. Então ela simplesmente resolveu ameaçar tirar tudo que eu tenho e prezo caso eu não me "comportasse".
  Você deve estar pensando: "O que uma garota que provavelmente passou todos os seus aniversários na Disney tem a reclamar?" 
  E eu, Fletcher, concordo com isso, de verdade. Reclamar por ser privilegiada nunca fora um costume meu. Normalmente eu diria "foda-se" e ignoraria mais um dos caprichos de minha mãe; no entanto, ela havia posto meu curso de Fotografia em jogo e isso eu não poderia admitir. Sendo assim, eu teria de acatar as ordens dela.
  E sabia exatamente quem poderia me ajudar com isso.
   , mais conhecido como , meu quase — porque temos personalidades diferentes demais para nos darmos bem o tempo todo — melhor amigo. Com seus cabelos ruivos naturais, devido sua descendência irlandesa — enquanto eu quase precisava fazer um pacto e vender minha alma a um demônio para manter o tom dos meus, o filho da puta simplesmente tinha nascido assim. Rostinho de garoto respeitoso que vai à igreja aos domingos e pose de badboy, sempre esbanjando sorrisos encantadores e cavalheirismo por onde passa, conquista qualquer mulher.
  Parece que estou fazendo a propaganda do cara, contudo, lamentavelmente, é a mais pura verdade. Por algum motivo que eu não compreendo, ele é o homem que a maioria das garotas que conheço considera perfeito e o genro dos sonhos de muitas mães, inclusive a minha. Por obra desse fato, ela tentou por anos nos juntar e, graças à Afrodite, nunca deu certo. Visto que ela não conseguia fazer isso sentimentalmente, praticamente nos obrigou a viver juntos, comprando um apartamento para dividirmos quando descobriu que ambos estudaríamos na University of Central Florida.
  Foi um pouco difícil no começo, pois brigávamos quase todos os dias graças ao intenso passado de rivalidade e provocações, mas, com o tempo, aprendemos a conviver em paz e até descobrimos algumas coisas em comum.
  Vislumbro o motivo do meu estresse de quase todas as manhãs sentado à escada do prédio principal da College of Arts and Humanities e marcho apressadamente em sua direção.
  — Preciso falar com você, !
  — Bom dia, Princesa! — ele exclama com um daqueles sorrisos idiotas.
  — Já tenho de olhar para a sua cara todas as manhãs, não sou obrigada a te dar bom dia!
  — Uh, a garota do pântano está nervosinha hoje! — um de seus amigos babacas diz.
  — Não me lembro de a conversa ter chegado ao circo! — Sorrio irônica. — Preciso falar com você, ... — repito e encaro o idiota que fez a piadinha. — A sós!
  O garoto troca olhares com os amigos, como se pedisse desculpas, e eles soltam um muxoxo de protesto antes de se levantarem e seguirem para dentro do edifício.
  — Então, ao que devo sua ilustre presença?
  — Preciso da sua ajuda!
  — Uau! Você deve estar desesperada mesmo! — o rapaz ri, fazendo-me revirar os olhos.
  — Estou falando sério, ! — o automaticamente tira o sorriso do rosto ao ouvir seu nome inteiro — o qual ele odiava.
  — Diga. O que aconteceu dessa vez?
  — Minha mãe aconteceu! — Jogo as mãos para o alto, irritada. — Ela está ameaçando cortar o pagamento da universidade caso eu não pare de dizer palavrões e comece a agir da maneira que ela quer!
  — E por que você não arranja um emprego, como qualquer outra pessoa normal faria, ?
  — Até parece que você não conhece a Senhora Fletcher! É capaz dela dar um jeito de ligar para todas as pessoas do mundo e ameaçá-las se alguma me oferecer um emprego! E vender as minhas artes não é uma opção!
  — E onde eu entro nessa história? — ele questiona com uma sobrancelha arqueada.
  — Você é a pessoa mais educada que eu conheço. — Dou de ombros.
  — Não deve conhecer muitas pessoas então! — o garoto brinca, fazendo-me lançar um olhar fulminante em sua direção. — Foi mal! O que quer que eu faça?
  — Sei lá! Você prestou atenção nas aulas de etiqueta, me ensina a ser mais polida! Preciso me transformar em uma garota fresca e recatada até o Dia de Ação de Graças!
  — Sabe que só falta um pouco mais de uma semana, né?
  — É claro que sei! É por isso que estou desesperada, porra!
  O Dia de Ação de Graças é a data a qual todo ano minha mãe organiza uma festa beneficente para o Lar Sunshine, um abrigo para crianças abandonadas. Engana-se quem pensa que ela faz isso por pura bondade. Na verdade, seu único objetivo é inflar ainda mais seu próprio ego, uma vez que esse evento é considerado um dos mais esperados do ano e é sempre noticiado em diversos jornais e revistas, mantendo sempre sua imagem de boa mãe, boa esposa e grande ativista social. Tudo besteira.
  — Vamos fazer um trato: Eu te ajudo com o seu comportamento e você terá um limite de duzentos palavrões de hoje até o final da festa. A cada palavrão dito, terá de me dar um beijo e deve ser no exato momento depois que você disser, não importando o lugar onde estivermos.
  — Mesmo se tiver várias pessoas em volta? — questiono, indignada, e o concorda com a cabeça.
  — Uma palavra suja, um selinho. Duas palavras, um beijo de verdade. E quando atingir as duzentas palavras... — Um sorriso travesso surge em seus lábios.
  — O quê? — pergunto, já não gostando do que estava por vir.
  — Você não quer que eu diga em voz alta, não é?
  — Ai, meu Deus, você vai mesmo se aproveitar dessa situação? — Rio, incrédula.
  — Não existe almoço grátis, Princesa! — o garoto ergue os ombros em sinal de indiferença. — E confesso que no fundo sempre quis saber o que você esconde por trás de toda essa rebeldia então, sim, vou me aproveitar dessa situação.
  Bufo, ainda não acreditando que ele estava me propondo aquilo. Mas que opções eu tinha, afinal?
  — Tudo bem. Eu aceito.
  — Sério? Fácil assim? — eleva uma de suas sobrancelhas e balanço a cabeça, afirmando. — Pensei que você fosse relutar um pouco e deixar as coisas mais interessantes.
  — Tempos desesperados exigem medidas desesperadas. — Estendo minha mão direita. — Trato fechado?
  O encara meu rosto por alguns segundos, como se esperasse eu voltar atrás, em seguida, os cantos de sua boca se erguem em um sorriso carregado em divertimento e ele cobre minha mão com a sua.
  — Trato fechado.

**********
  

Com o corpo estirado sobre o sofá do nosso apartamento, completamente entediada, eu esperava terminar de montar sua "aula" de etiqueta. Ele tentava atrapalhadamente posicionar o Flip-Chart no centro da sala — eu não fazia a menor ideia de onde ele havia retirado aquilo. Após muita luta, o garoto suspira e se vira em minha direção.
  — Ok... Regra número um: Nada de se sentar toda largada assim! — O usa a régua em suas mãos para golpear minhas pernas.
  — Caralho, ! Essa porra dói! — queixo-me.
  Estranho sua aproximação repentina e só me dou conta do que estava acontecendo quando ele já estava perto demais para que eu pudesse impedir. segura ambos os lados da minha cabeça e pressiona seus lábios sobre os meus. Não sabia como reagir, então simplesmente fiz o óbvio: Correspondi. Embrenhei meus dedos em suas madeixas rubras e acariciei sua língua com a minha.
  Agora eu entendia perfeitamente o porquê de o considerarem "molhador de calcinhas". Só aquela porra de beijo já fazia você querer tirar a roupa inteira.
O garoto se afasta com um sorriso travesso estampado em sua face. Provavelmente estava se divertindo com a minha expressão embasbacada. Quando finalmente volto à consciência, uma onda de irritação sobe pelo meu rosto.
  — Que merda foi essa!?
  — Nosso acordo já está valendo, lembra? — O rapaz ri e volta a se posicionar ao lado do quadro. — Sabe o que me impressiona? Começamos isso não tem nem vinte minutos e você já soltou três palavrões!
  — Três o cacete! Merda não é palavrão! — rebato e ele emite uma risada. — E não me agarre desse jeito novamente, espere que eu tome a atitude!
  — Tudo bem. Você quem manda! — levanta as mãos em sinal de rendição. O garoto se vira para o quadro e começo a escrever, enumerando as normas. — Regra número dois: Não importa como esteja o seu humor, sempre sorria e cumprimente as pessoas com quem se deparar. Sempre dê bom dia, boa tarde ou boa noite.
  — Por que eu mentiria dizendo que algo está bom, quando claramente não está? — pergunto transbordando obviedade em minha voz e o garoto rola seus orbes.
  — Você não está dizendo, está desejando! Isso é uma regra básica da educação, nem deveria ser necessário eu lhe dizer isso, !
  — Grande parte das pessoas com quem encontro geralmente está indo trabalhar ou estudar em lugares que elas odeiam e provavelmente não terá um dia bom. Mas, claro, a sociedade nos impõe que devemos ignorar como nos sentimos e fingir que está tudo maravilhosamente bem!
  — Meu Deus, ! Você está mesmo problematizando um cumprimento?
  — Talvez eu esteja! — cruzo os braços sob o peito, provocando uma risada no garoto.
  — Continuando... — aponta para o quadro. — Regra número três: Use "por favor" e "obrigada" sempre que necessário e peça desculpas, mesmo quando não foi culpa sua! — Abro a boca, preparando-me para protestar, porém o garoto me corta antes mesmo que eu pudesse concluir a ação. — Você pediu para que eu te ajudasse nisso, então não venha reclamar agora!
  Emito uma audível bufada de ar e faço gestos com as mãos para que ele prosseguisse. O garoto volta a escrever na lousa.
  — Regra número quatro: Nunca interrompa uma conversa e sempre peça licença ao entrar em um assunto, um lugar ou quando alguém estiver atrapalhando sua passagem. — Balanço a cabeça, demonstrando compreensão. — Regra número cinco: Converse olhando nos olhos das pessoas. Isso passa imagem de segurança e interesse.
  — Não consigo fazer isso sem ter vontade de rir! Me dá nervoso! — protesto.
  — Você não precisa olhar diretamente nos olhos. Pode focar em outro ponto do rosto e dar impressão de estar olhando para eles.
  — E se a pessoa tiver um nariz engraçado ou a sobrancelha falhada? — O rapaz me lança um olhar tão severo que fez meu corpo estremecer. Ergo as mãos, rendendo-me. — Está bem! Não está mais aqui quem falou! Continue!
  — Por último e não menos importante, regra número seis: Não falar palavrões! — O faz dois grandes riscos abaixo da frase após escrever — Mas como ambos sabemos que essa tarefa será imensamente dificultosa para você cumprir, principalmente durante a festa, sugiro fingirmos estarmos namorando. Isso vai aliviar um pouco as coisas, sobretudo com a sua mãe, você sabe o quanto ela me ama!
  — Meu Deus! Você é um narcisista de merda! Como pode caber tanto ego dentro de uma pessoa?
  — Não é ego! Não tenho culpa se as pessoas me amam! — o garoto diz em tom quase ofendido.
  — Por favor, pare! Está me deixando nauseada! — cubro a boca com uma mão, fazendo expressão de nojo e ele revira os olhos.
   desmonta o cavalete e recolhe todo o material da sua aula, caminhando sentido ao corredor, adentrando seu quarto. Sinto meu estômago reclamar de fome e me levanto, seguindo para a cozinha. Abro a porta do armário, tendo a decepcionante visão de um enorme vazio. Em seguida, abro a geladeira, encontrando apenas garrafas de água e restos de pizza fora da validade. Bufo e jogo-os na lata de lixo.
  — Amanhã vou lhe ensinar os modos à mesa. Tenho a impressão de que isso será muito divertido. — O garoto parado à porta sorri maroto. — Não se preocupe, irei deixar lembretes das regras em todos os lugares facilmente visíveis para você, especialmente a porta da geladeira.
  — Não tem nada para comer nesse lugar? — questiono irritada.
  — Desculpe, não tive tempo de fazer compras essa semana e nós estamos de saída mesmo.
  — Saída para onde? — pergunto confusa.
   sorri de uma forma que eu já sabia que não gostaria nada do que estava para sair de sua boca.
  — Nós vamos praticar o que você aprendeu hoje!

**********
  

Ao decorrer de todo o trajeto que fizemos pelo Campus até a Cafeteria, me obrigou a sorrir e saudar quase todas as pessoas com quem topamos. A maioria me olhava estranho ao ver aquele simples "bom dia!" escapar por entre meus lábios, como se eu fosse incapaz de pronunciar aquilo. A minha sorte era que os xingamentos mentais não contavam, porém provavelmente sabia o que se passava dentro da minha mente, pois sorria divertido a todo o momento.
  Ás vezes me impressionava o quanto podemos ser parecidos e completamente diferentes ao mesmo tempo. Quando chegamos à UCF, éramos conhecidos como "duplo F", devido aos nomes e aparência parecida. Muitas pessoas já chegaram a nos perguntar se éramos irmãos — e, acredite, até eu cheguei duvidar deste fato algumas vezes. Enquanto nossos gostos eram semelhantes, nossas personalidades se divergiam em vários aspectos. é recatado e tem lábia, sabe conquistar as pessoas. Já eu, mal sabia me expressar sem soltar algum tipo de xingamento. Pelo menos tínhamos algo em comum: Ambos eram teimosos e adoravam um desafio.
  Ao adentrarmos a Cafeteria, avisto Jake e Summer sentados a uma mesa no canto e arrasto até eles. Jacob Rivers era o único amigo de que prestava. Ele é estudante de Música, assim como Summer; ambos se conheceram através de um trabalho e começaram a namorar desde então. Devido à garota estar constantemente em nosso apartamento e frequentarmos o mesmo pub onde a Atomic Mess, banda de indie rock a qual Jake faz parte, se apresenta, acabamos nos tornando melhores amigas.
  — Bom dia! — saúdo-os animadamente e me sento na cadeira vazia. A garota negra me fita com a sobrancelha direita arqueada.
  — Está se sentindo bem, ? Não bateu a cabeça ao se levantar da cama hoje? — minha amiga põe uma de umas mãos sobre minha testa.
  — E por que eu não estaria? Não posso ser alegre e educada?
  — Poder até pode, mas não faz muito o seu feitio! — Summer conclui, provocando risos nos outros dois à mesa.
  — Vai se foder, Summer! — exclamo enfurecida.
  Só me dou conta do que tinha acabado de fazer quando já era tarde demais.
  Porra. Caralho. Puta que pariu!
  Encaro e percebo um sorriso presunçoso desenhado em seu rosto. Praticamente imploro com o olhar para ele não me submeter aquilo, pelo menos não antes de eu explicar toda a situação à Summer, porém o garoto balança a cabeça negativamente e dá leves toques sobre os lábios com o dedo indicador.
  Suspiro frustrada, levanto parcialmente meu tronco e inclino-me sobre a mesa, pressionando meus lábios rapidamente sobre os dele.
  Ao voltar ao meu lugar de origem, noto minha melhor amiga com os olhos castanhos arregalados e a boca aberta em surpresa.
  — Vocês estão namorando!? — a garota vocifera.
  — Não! — respondo.
  — Sim! — diz ao mesmo tempo. Disparo um olhar impetuoso em sua direção. — Estamos só... Nos divertindo.
  — Essa juventude de hoje em dia! — Jake brinca, provocando uma rodada de risos em todos à mesa.
  Sinto meu estômago roncar novamente e peço licença para me levantar da mesa. Caminho até o balcão de atendimento e peço um frapuccino de chocolate acompanhado de dois donuts. Digo por favor e agradeço, como fui instruída. A atendente me fita como se eu fosse um extraterrestre falando em outra língua.
  Qual é? Era tão estranho assim eu usar simples expressões de gentileza!?
  Quando volto à companhia de meus amigos, Jacob estava falando sobre suas novas composições, o que eu particularmente não entendia, então opto por basicamente comer e observar a conversa, dando uma risada ou outra. Jake era um cara legal, mas às vezes viajava demais e dizia coisas complexas demais para minha capacidade intelectual. Summer já admitiu que nem sempre o entende também, então não me sentia tão burra.
  — , vem ao banheiro comigo? — Summer pergunta e eu assinto, já me levantando.
  — Fico imaginando o que as mulheres tanto fazem no banheiro juntas. — Jake comenta.
  — Com certeza falar mal de caras idiotas como você! — a menina rebate e segura em meu braço guiando-nos até o banheiro.
  Vou direto ao espelho checar minha aparência. Não via como estava o meu rosto desde a primeira vez que saí de casa a procura de . Eu provavelmente estava parecendo uma Nimbus 2000 depois de ser estraçalhada pelo Salgueiro Lutador.
  — Agora me conta o que está acontecendo entre você e o !
  — Não está acontecendo nada, ué. Só estamos ficando, como ele disse!
  — Ah, claro! Você acha que eu nasci ontem, ? Ele seria a última pessoa que você ficaria sem me consultar antes! Vocês estão aprontando alguma coisa!
  — Tudo bem! Eu conto! — bufo, apoiando meu corpo sobre a bancada da pia. — Nós fizemos um acordo de ele me ajudar com algumas aulas de etiquetas porque a tão esperada festa está chegando e você sabe como minha mãe é! E uso palavrão quase como vírgula, né? Então toda vez que eu disser um, preciso beijá-lo.
  — Meu Deus, então o que dizem é realmente verdade! — a menina cobre a boca com a mão, fingindo espanto. — Pessoas brancas são loucas!
  Emito uma risada e dou um leve empurrão no ombro de minha amiga, provocando riso na mesma. Summer se vira para o espelho e afunda os dedos em seus cabelos negros, afagando-os até ficar da forma que desejava e em seguida retira seu pequeno kit de maquiagem da bolsa — o qual ela não saía de casa sem.
  — Você e o Jake estão brigados?
  — Nah. Só precisei colocá-lo em seu devido lugar! — A garota contorna os lábios com o batom vermelho e sorri para o seu reflexo.
  — Vocês são um casal bem inusitado.
  — É tudo uma questão de ótica. — Ela dá de ombros.
  E foi então que tudo passou como um flash em minha mente.
  Ótica. Visão. Visualização. Aula de Visualização Fotográfica!
  — Puta merda! — praguejo antes de correr porta afora.
  Atravesso o interior da lanchonete como uma bala, resgato minha bolsa sobre a mesa e sem dizer uma palavra sequer, disparo rumo à saída do estabelecimento. Logo ouço meu nome ser chamando e sinto meu braço ser puxado, fazendo-me parar. Era .
  — Espera aí! Por que essa pressa toda? O que aconteceu?
  — Gostaria muito de poder ficar aqui vagabundeando com vocês, mas estou atrasada pra caralho! — envolvo sua nuca com a mão direita, aproximando seu rosto do meu.
  — Espera! — o garoto me impede de concretizar o ato. — Queria te parabenizar por hoje, você se mostrou uma ótima aluna, .
  Sorrio e trago seu rosto de volta para perto do meu, finalmente fazendo com que nossos lábios se encontrassem.
  — Obrigada! E... Bom, o que posso fazer? Eu aprendo rápido demais!
  Lanço-lhe uma piscadela e me viro de costas, voltando a percorrer o caminho que fazia antes.

Chapter II — Tuesday

  

Após as aulas pela manhã, encontro-me com no estacionamento para irmos ao mercado — porque não dá para viver a vida inteira pedindo delivery. Na verdade, basicamente vivíamos de comida congelada, pois ambos eram preguiçosos demais para tentar preparar algo comível ou saudável. Eram raros os momentos em que eu me dava ao trabalho de ir até o fogão.
  Temos o costume de cada um fazer a sua lista de produtos pessoais e itens que consideram necessários para a casa e ao final nos encontramos no caixa, para dividirmos a despesa igualmente.
  Apanho meu carrinho e vou diretamente para a seção mais importante do mercado: Os doces. Encho o carrinho com os mais variados tipos de biscoitos e guloseimas repletas de açúcar, glúten e muito chocolate. Em seguida, parto para as massas, que era outro ponto fraco meu. Empilho diversas caixas contendo lasanhas, pizzas, hambúrguers, ou qualquer espécie de alimento que para consumir só era necessário esquentar no microondas.
  Summer sempre tentava me alertar de que algum dia eu sentiria os efeitos que uma alimentação não-saudável poderia me causar, seja com aquela gordurinha a mais na barriga ou com alguma doença que futuramente se desenvolveria, porém, eu nunca lhe dava ouvidos. Se todos nós vamos partir um dia, eu preferia ao menos morrer sabendo que aproveitei bem tudo de mais gostoso existente no mundo.
  Avisto uma pilha triangular de latinhas de coca-cola entre duas seções e me aproximo. Tento alcançar o topo da pirâmide, porém, mesmo que minha estatura fosse mediana, ainda não era suficiente para alcançar as latas de cima, então opto por simplesmente pegar a que estava ao meu alcance.
  E foi neste exato momento que tudo começou a desmoronar como as torres feitas de peças de lego que eu tentava montar quando criança e um idiota sempre derrubava — nesse caso a idiota era eu. Várias latinhas caindo e rolando pelo chão em câmera lenta — na verdade, elas caíam em uma velocidade impressionante, mas como eu estava parada igual uma tonta encarando a cena, boquiaberta, qualquer coisa se tornava lento demais dentro do cérebro em pane.
  — Puta que pariu! — As palavras saem por entre meus lábios quase como um sussurro.
  Antes que minha mente pudesse pifar novamente, minhas pernas estavam correndo o mais rápido que conseguiam em direção contrária a que vim. De repente avisto ao final de um corredor, provocando a sensação de alívio em meu peito meu peito. Desacelerei o passo ao mesmo tempo em que observava com o cenho franzido a cena à minha frente: O estava recostado à prateleira, ao passo que uma loira vestindo uniforme de líder de torcida praticamente o comia pelos olhos enquanto conversavam. Reviro os olhos nas órbitas e me aproximo.
  — Olá, querida, boa tarde! Como vai? Se importa se eu pegar o meu amigo emprestado um pouquinho? Obrigada! — Seguro no braço do garoto e o arrasto para outro corredor, ignorando a feição indignada da loira.
  Sem pensar duas vezes, empurro seu corpo contra a primeira coisa sólida que encontro e grudo meus lábios aos seus com ferocidade. Fora mais intenso do que eu planejava, todavia, estava me sentindo desesperada demais para dar importância a isso.
  — Agora... Vamos... Embora! — exprimo, ofegante, e volto a agarrar seu braço, guiando-nos em direção à saída.
  — Mas eu não peguei nem metade das coisas ainda! — para de andar, desvencilhando-se de mim. — O que você aprontou, !?
  O rapaz me lança um olhar acusador, fazendo que meu nervosismo aumentasse. Começo a andar de um lado ao outro, aflita.
  — !
  — Ok... Vamos usar uma situação hipotética: Digamos que talvez, e só talvez, eu tenha derrubado uma pilha inteira de latinhas de coca-cola!
  — Você o quê?
  — Não se faça de idiota, eu não vou repetir! — suspira e passeia uma das mãos pelos fios de seus cabelos.
  — Sabe se alguém viu?
  — Ah, claro que eu iria ficar olhando em volta enquanto faço merda! — respondo, irônica. — Óbvio que não! Saí correndo de lá o mais possível!
  — Você deixou seu carrinho de compras lá? — Balanço a cabeça, afirmando. — Certo. Espere aqui enquanto vou buscar e, por favor, não encoste em nada, pois as chances de você fazer outra besteira ainda são grandes!
  O garoto some pelo corredor, deixando-me ainda mais apreensiva. Volto a caminhar para lá e para cá, desejando mais do que nunca poder aparatar para o mais longe possível daqui. Alguns minutos — que pareceram horas — e várias unhas roídas depois, ressurge carregando o meu carrinho de compras abandonado. Mesmo estando um tanto distante, pude perceber que ele ria de alguma coisa.
  — Como você conseguiu fazer aquilo? Foi um estrago e tanto! — emite mais uma risada.
  — Se soubesse que você ia rir da minha cara, eu não teria pedido a droga da sua ajuda! — exclamo, irritada.
  — Foi mal! Vamos terminar isso logo para podermos meter o pé daqui! — Concordo com a cabeça e resgato meu carrinho de suas mãos.
  A hora que se seguiu pode ser basicamente resumida por: me seguindo por todo o mercado, como se fosse minha sombra. Ele alegou que não poderia me deixar sozinha nem por um segundo, pois eu poderia facilmente fazer alguma outra idiotice. Quase o mandei ir tomar no cu e só não o fiz de fato porque seria obrigada a beijá-lo e eu não estava com paciência para tal.
  Ao chegarmos em casa, jogo meu corpo exausto sobre o sofá e suspiro. O dia mal havia começado e eu já estava estressada pra caralho. Minha cabeça estava a mil e tudo que eu mais queria era poder deitar na minha cama quentinha e dormir.
  — Pode levantar a bunda daí! Vamos começar nossa aula de modos à mesa agora mesmo! — vocifera e emito um murmuro de insatisfação. — E nem adianta rosnar para mim!
  — Olha! Tenho um presentinho para você! — Enfio a mão dentro do bolso da minha calça jeans, simulando pegar algo, e em seguida ergo-a lentamente, exibindo meu dedo médio em riste.
  — Ei! Isso foi rude e obsceno!
  Levanto-me do sofá, ignorando o semblante falsamente indignado do rapaz.
  — Bom, o trato falava sobre limitar palavras obscenas, mas não dizia nada sobre os gestos! — Pisco o olho direito em sua direção e sigo rumo à sala de jantar.
  Logo sou acompanhada pelo , que avança até o armário de louças, retira de lá uma pilha de pratos e põe sobre a mesa, logo em seguida, apanha quatro taças de tamanhos diferentes e um conjunto de talheres. Ele faz menção para eu me sentar e eu obedeço. organiza os utensílios de jantar sobre a mesa à minha frente, separando garfos e facas para cada lado e coloca um guardanapo sobre o meu colo.
  — Vamos começar! — O garoto diz empolgado. — Essa taça é usada para champanhe — Ele aponta para a mais comprida. —, a mais gordinha é para vinho tinto, a seguinte para vinho branco e a última para água. Não é algo com que você precise se preocupar realmente, pois o garçom irá servir da maneira correta, mas é bom saber. É crucial que você dê goladas leves no vinho e sempre beba um pouco de água entre elas.
  — E qual é a graça em tomar vinho com água? — questiono, irônica.
  — Bem, graça não tem, porém impede que você fique bêbada no meio da refeição e faça alguma besteira. — O rapaz da de ombros.
  Eu odiava admitir — e nunca iria fazê-lo em voz alta —, mas ele tinha razão. Assinto com a cabeça e faço gesto para ele continuar.
  — Como estamos em uma época ainda relativamente quente, provavelmente não teremos sopa, o que é uma grande vantagem, já que evita que você cometa alguma gafe. — Lanço-lhe um olhar fulminante. — Ao usar os talheres, sempre comece de fora para dentro. Eles estarão organizados na ordem em que os pratos serão servidos e cada um tem sua função; os um pouco mais curvados são usados para peixe, essa faca que parece uma espátula facilita na hora de retirar a espinha; os outros, você pode usar para a próxima refeição que vier.
   “É de extrema importância lembrar que você deve cortar a carne ou o que for servido com a mão direita, descansar a faca e levar o garfo à boca com a mesma mão, uma vez que esta é a qual você tem maior controle. Os talheres acima do prato são para sobremesa, eles são menores então são fáceis de identificar. Sempre mantenha a postura ereta, seu corpo não deve ir até a comida e sim a comida ir até você. Nunca, em hipótese alguma, apóie os cotovelos sobre a mesa.”
  — Ei! Devagar! É muita informação para absorver! A droga da minha cabeça está dando nó! — protesto, exasperada.
  — Relaxa, você vai pegar o jeito à medida que formos treinando! O que, aliás, começa agora.
  — Beleza, então cadê a comida? — questiono e ouço a risada do . — Ah, então você quer que eu coma comida imaginária?
  — Isso é só uma simulação de jantar! — o garoto rola suas íris esverdeadas. — Nós vamos treinar em um restaurante de verdade depois, não se preocupe. Neste momento você apenas precisa se preocupar em aprender as técnicas.
  — Com comida invisível?
  — Você precisa mesmo complicar tudo?
  — Ah, sim, é um dos meus maiores hobbies! Depois de irritar você, é claro! — Sorrio.
  — Quer comida de verdade? Ok, então! — O garoto caminha irritado até as sacolas do mercado que deixamos no chão da cozinha e retira de lá uma maçã, colocando-a sobre o meu prato em seguida. — Pronto!
  — Isso não é uma carne, é uma fruta, aliás, uma que eu nem gosto de comer. Me dá prisão de ventre.
  — Puta que pariu, ! — o enterra as mãos nos próprios cabelos, irritado. Aquela era a primeira vez em meses que eu o ouvia xingar.
  — Uh, alguém está ficando nervosinho! — provoco.
  — Você realmente está testando minha paciência, não é?
  — Oh, não! — Cubro a boca com a mão, fingindo espanto. — Você descobriu minha missão na Terra! Agora terei de matá-lo!
  — Será que podemos focar aqui? Quanto mais rápido fizermos isso, menos tempo vamos gastar um com outro!
  — Tudo bem! Vou cortar essa linda maçã, fingindo ser um belo e suculento pedaço de bife!
  Enfio o garfo no meio da maçã e, com a faca posicionada na mão direito, corto um pedaço dela. Tento imediatamente inverter as mãos que seguravam os talheres, porém, falho, deixando-os caírem de volta ao prato. Bufo, frustrada.
  — Não dá para fazer isso rápido! Sempre vou me atrapalhar!
  — Você não tem de comer rápido! Dê garfadas pequenas e mastigue devagar. A comida não vai fugir do seu prato!
  — Você quer que eu me transforme em uma merda de tartaruga agora?
  — Não, , quero que você saboreie a comida. Cada pedacinho dela.
  — Para isso eu preciso comê-la, não ficar só olhando! — exclamo, indignada.
  — Escuta, você não pode comer como uma mulher das cavernas no jantar chique da sua mãe! Não adiantará nada todo o progresso que fizemos até agora se o mais importante for por água abaixo!
  Solto uma bufada de ar, irritada, e seguro o garfo com a mão direita, começando a levá-lo até a boca.
  — Mantenha a coluna reta. — o garoto usa a régua do outro dia para empurrar meu corpo para trás.
  — Encosta essa porra em mim de novo e vou enfiá-la em um lugar que você não vai gostar!
   ri, se inclina sobre mim e me rouba um selinho, afastando-se rapidamente, antes que eu fosse capaz de lhe acertar um tapa.
Disposta a acabar logo com aquela merda, volto minha atenção ao garfo e finalmente o introduzo em minha boca, saboreando o pedaço de maçã como se fosse o último no planeta Terra.
  — Agora beba um pouco do vinho.
  — Não dá para colocar algo de verdade ali dentro também?
  — ...
  — Tudo bem! — apanho a taça vazia e levo-a até os lábios.
  — Enxuguem os lábios com o guardanapo em seu colo. — Ele ordena e eu o faço. — Parabéns! Agora você só precisa repetir todo esse processo durante todo o jantar, a noite inteira! — o diz em falso tom de animação e eu reviro os olhos.
  O rapaz pega a maçã, que tinha seu pequeno pedaço faltando, e segue em direção à porta do cômodo.
  — Ei, ! — chamo, fazendo-o se virar para mim. — Obrigada pela paciência para me ensinar e desculpa ter atrapalhado seu flerte hoje cedo.
  — Eu não estava realmente flertando. Ela estava me convidando para uma festa que vai acontecer na fraternidade do namorado dela hoje à noite.
  — Ela tem namorado e estava quase te devorando daquele jeito? Uau! — finjo surpresa.
  — Sabe que a maioria dos relacionamentos aqui só serve para aumentar popularidade. Ninguém é realmente de ninguém. — Ele ergue os ombros.
  — Sorte a minha que a gente não namora de verdade, então!
  — Não sou esse tipo de cara. Quando firmo um compromisso, eu cumpro.
  Ele lança uma piscadela para mim, antes de dar uma mordida na fruta e sair da sala.

**********
  

Depois de passar quase a porra do dia inteiro decorando as regras idiotas que havia estabelecido, resolvi tirar meu tempo de descanso. E por “descanso” eu me referia a “me divertir noite adentro com jogos extremamente violentos, sanguinários e repletos de tiroteios e mortes”.
  Não que eu seja uma psicopata ou algo do tipo, porém, por ser a única menina entre todos os primos — e consequentemente a mais paparicada. — eu aprendi que jogar videogame, futebol, basebol, bola de gude e soltar pipa eram mais divertidos do que brincar de boneca. Foi aí que minha história com o começou, eu sempre tentava me enturmar entre as brincadeiras dele com meus primos e ele me odiava por isso, mas nunca foi um motivo que me fizesse desistir, na verdade, sempre achei muito divertido provocá-lo e irritá-lo.
  Eu jogava tranquilamente — se considerarmos pular, gritar e xingar a televisão uma forma de tranquilidade.— meu recém adquirido Call of Duty: Infinite Warfare e durante toda a minha agitação acabei deixando meu celular cair e rolar pelo chão e automaticamente tive o impulso de resgatá-lo. Quando volto minha atenção para a tela, já era tarde demais; uma granada havia sido jogada em minha direção e eu não tinha tempo de fugir.
  — FILHO DA PUTA! ENFIA ESSA PORRA DE GRANADA NO CU, SEU BOSTA! — grito contra a tela ao ver as palavras “gameover” estampadas nela.
  Arremesso o controle do aparelho sobre o assento do sofá e cruzo os braços, exasperada. Levanto-me, ainda mais irritada por lembrar que, graças àquele maldito trato, agora eu deveria ir atrás daquele desgraçado e ser obrigada a trocar saliva com ele.
  Caminho até seu quarto e bato na porta. Ao obter nenhuma resposta, resolvo simplesmente abri-la — torcendo para que ele não estivesse pelado ou fazendo algo que eu não gostaria de ver — e encontro o cômodo completamente vazio. Procuro-o no escritório, no estúdio, no banheiro, na varanda e nada.
  Ah, ótimo, agora você vai ter de procurá-lo por aí ás uma e pouca da manhã, no escuro e sozinha, correndo o risco de ser espancada, assaltada, estuprada ou assassinada! Parabéns, !
  Marcho até a cozinha, em busca da minha última refeição, e encontro um bilhete colado à porta da geladeira que dizia:
  “Fui a uma festa na KS e não sei que horas volto.
  Tem lasanha no microondas, use as regras quando for comê-la.
  Não faça nenhuma besteira até eu voltar.
  Xx

  Reviro os olhos, liberando uma gargalhada em seguida. Quem, em pleno século XXI, ainda deixa bilhetes? Qual é! Uma mensagem de texto teria me poupado bastante tempo! Pensando bem, existia grande probabilidade de eu ignorar por pura preguiça.
Retiro um pedaço da lasanha, coloco em um prato e me posto a comer, seguindo as devidas regras de etiqueta. Me enrolei um pouco de início, mas depois me saí bem. Nunca pensei que me sentiria tão realizada de novo em conseguir cortar uma lasanha desde quando eu tinha quatro anos e fiz isso pela primeira vez.
  Ponho uma calça jeans e um cardigan, devido à brisa fria da madrugada e dou uma ajeitada em meus cabelos — apesar de não planejar ficar na festa, eu precisava estar ao menos apresentável. Resgato minha chave — a qual eu sempre mantinha um spray de pimenta atado para o caso de algum idiota tentar alguma gracinha para cima de mim — sobre a bancada da cozinha e deixo o apartamento.
  Atravesso o estacionamento do prédio, seguindo pela rua Aquarium Agora, rumo à Greek Park, onde são localizadas as casas das fraternidades e irmandades. Eram aproximadamente nove minutos de caminhada, mas ainda assim eu estava com o cu na mão, uma vez que a rua estava completamente escura e deserta. Se eu nunca havia manifestado qualquer comportamento religioso antes, naquele momento eu estava rezando para todos os deuses que poderiam existir.

  

Suspiro ao me ver parada frente à mansão em arquitetura grega da Kappa Sigma — mas não foi necessariamente de alivio. Eu odiava ir às festas em fraternidades. Todos aqueles machos brancos e ricos, carregados em testosterona e ego, que não conseguem ouvir um “não” e acham que todo ser humano do sexo feminino está à sua disposição não são pessoas com o qual tenho muita paciência.
  Antes de adentrar a casa, já era possível perceber o que encontraria lá dentro: Gente bêbada passando vergonha e casais se pegando pelos cantos sem nenhum pudor. Eu nem havia entrado e já queria dar o fora dali.
  Abro a porta, sendo recebida pelo som de uma música eletrônica exageradamente alta e gritos vindos de quem estava perto da porta. Um rapaz com jaqueta dos Knights põe um cordão de lírios do vale ao redor do meu pescoço — aquela era a forma deles de dar boas vindas.— e me entrega um copo vermelho com líquido suspeito.
  — Você viu o por aí!? — praticamente berro em seu ouvido.
  O moreno aponta para a parede ao lado da porta da cozinha, onde o era prensado pela mesma loira de hoje cedo. O garoto tinha um copo parecido com o meu em mãos e sorria sedutor para a menina à sua frente, que tinha o rosto a poucos centímetros do seu. Levo o copo em minha mão à boca, virando todo o conteúdo garganta abaixo e entrego-o de volta ao rapaz.
  — Obrigada! — vocifero antes de marchar a passos firmes em direção ao meu amigo.
  — Com licença, querida! — Seguro no ombro da loira, afastando-a do , que me encara surpreso.
  Antes que pudesse dizer alguma coisa, envolto sua nuca com a mão e junto minha boca a dele. O envolve minha cintura com o braço direito, pressionando meu corpo contra o seu, e pede passagem para sua língua por entre meus lábios. A boca dele tinha o gosto da mistura perfeita de frutas vermelhas.
  Caralho! Era ainda melhor do que da primeira vez!
  Afasto-me lentamente do garoto, em busca de ar. Um sorriso enviesado se forma em seu rosto, fazendo com que seus lábios avermelhados se tornassem ainda mais atrativos.
  — Uau! Essas aulas estão dando certo mesmo! Estou me sentindo orgulhoso!
  Como sempre ele tinha que fazer alguma piada e estragar o momento. Reviro os olhos, impaciente, pego o copo em sua mão esquerda e tomo todo o seu conteúdo, sentindo o líquido queimar minha garganta.
  — Cala a porra da boca! — ordeno e volto a colar nossos lábios, impedindo-o de proferir qualquer tipo de protesto.
  Exploro o interior de sua boca com minha língua, sugando o máximo que consigo do seu sabor. Eu não sabia se era aquela porra de bebida ou a essência daquele maldito garoto, mas alguma coisa fazia aquele beijo se tornar cada vez mais gostoso e viciante.
  — Vai buscar mais bebida para mim! — ordeno-o assim que nos separamos.
  — Como é? Não foi assim que eu te ensinei!
  — Você poderia, por favor, ir buscar mais bebida para mim?
  — Essa é a minha garota! — O garoto sorri e me rouba um selinho. — Já volto!
  Viro-me de costas e constato que a loira ainda continuava ali parada, com os braços cruzados e o olhar carregado em um misto de raiva e indignação, provavelmente esperando que eu me explicasse.
  — Desculpe! Foi ele quem me obrigou a fazer isso! — Dou de ombros e sigo para a área externa da casa, onde não tinha tanta gente e nem música alta.
  Encontro algumas pessoas desmaiadas pela grama, enquanto outras brincavam do que parecia o jogo da garrafa em um canto. Encaro a piscina, com sua água cristalina refletindo a imagem da lua. Não entendia o porquê de ninguém estar dentro dela. Fazia uns vinte e poucos graus, o que era típico para essa época do ano, além disso, gente bêbada sempre gosta de fazer idiotice.
  Sorrio com a ideia que se passava em minha cabeça e retiro os sapatos, a calça e o casaco, pulando na piscina em seguida. Meu corpo reage à mudança de temperatura por alguns segundos, mas logo depois a sensação da água gelada contra minha pele se torna imensamente agradável. Relaxo o corpo até que ele estivesse completamente flutuando, me posto a observar o céu parcialmente estrelado e sorrio.
  Talvez esse tipo de ambiente não fosse tão ruim, afinal de contas.

Chapter III — Wednesday

  

Eu caminhava pelo campus ao lado em direção ao prédio da College of Arts and Humanities para minha aula de Técnicas de Iluminação Fotográfica e reparo que alguns alunos olhavam em nossa direção enquanto conversavam. Para ser sincera, eu havia percebido pessoas me olhando estranho desde que havia saído de casa, mas não dei real importância; eu não tinha muita paciência para aquele bando de gente fútil às oito da manhã — ou em qualquer outra hora do dia —, ainda mais quando estava em uma semi-ressaca.
   Avisto Summer conversando com Jake frente ao edifício e sorrio, cumprimentando-a e lhe envolvendo em um abraço. Minha melhor amiga é um dos raros seres humanos capazes de me tirar um sorriso sem nem ao menos precisar fazer qualquer tipo de esforço. — depois de Jesse Rutherford, é claro. Ela entende o meu jeito revoltado de ser e não me julga por isso.
  — Por favor, me diz que eu não estou ficando paranoica e realmente tem gente olhando para cá e cochichando! — praticamente imploro.
  — Então ainda não estão sabendo?
  — Sabendo de quê? — encaro-a com o cenho franzido.
  — Vocês se tornaram o novo assunto do campus inteiro depois do show que deram naquela festa ontem à noite! — Jake responde.
  — Está todo mundo comentando sobre o possível namoro de vocês. Estão até criando nomes de ship, acredita?
  A negra resgata seu celular da bolsa, revira o seu conteúdo e me entrega o aparelho em seguida. Nele era possível ver um tweet de uma conta de fofocas — sim, em pleno 2016 e em meio à graduação, as pessoas ainda acham que a vida é um episódio de Gossip Girl. —, com uma foto minha beijando, dizendo:
  “Que nome de ship daremos ao casal duplo F mais querido da universidade? Dêem suas sugestões!”
  Rolo meus olhos esverdeados nas órbitas, não acreditando naquela merda.
  — Só podem estar zoando com a porra da minha cara! — vocifero, furiosa.
  Marcho com passos firmes em direção à escadaria do prédio e subo-a mais rápido do que eu achei que fosse capaz.
  — O que está fazendo? — pergunta atrás de mim. Ignoro-o e sigo para a sacada, virando-me de frente para a área externa.
  — Todos vocês prestem atenção porque direi isso apenas uma vez: Eu e o não estamos namorando! Sim, nos beijamos às vezes, mas é daí? Isso é normal! Pessoas se beijam o tempo todo e isso não quer dizer que elas estejam em um relacionamento! Você! — Aponto para o garoto que estava encostado à parede. — Estava beijando ela — Indico a garota mais atrás. — ontem à noite e ninguém está fazendo grande caso disso! Então se alguém aqui tem algum interesse em mim ou no , é só dizer! O restante pode calar a porra da boca e cuidar da própria vida! Agradeço pela atenção! — Viro-me, ignorando as faces que me olhava surpresa.
  — Você é louca! A gente tinha combin...
  Envolvo sua nuca com a mão esquerda e puxo seu rosto para mim, calando-o com um beijo.
   Caralho. Calar alguém nunca foi tão prático e ao mesmo tempo tão gostoso.
  Nota mental: Utilizar esse recurso com maior frequência.
  — Você achou mesmo que seria o único privilegiado a beijar esses belos lábios? Oh, querido! Você ainda tem muito que aprender sobre mim! — dou dois leves tapinhas em sua bochecha e lanço uma piscadela em sua direção.
  Summer me encarava do topo da escada com o olhar carregado em orgulho e admiração. Sorrio para minha melhor amiga, encaixando meu braço ao seu e finalmente adentramos o edifício.

************
  

Eu havia acabado de sair da última aula da parte da manhã — infelizmente quartas-feiras são os dias que eu também tenho aula à tarde — e caminhava em direção à Students Union, onde são localizadas as lanchonetes e restaurantes do campus; marquei com Summer de almoçarmos juntas.
   Ouço uma voz masculina clamar pelo meu nome ao longe e me viro para descobrir quem era. Avisto uma figura alta e forte caminhando em minha direção e acenando; franzo o cenho em estranhamento.
  Espera aquele era... Scott McKibben? O líder dos Knights?
  — Ei, ! — o rapaz chama mais uma vez, deixando-me surpresa ao constatar que ele realmente falava comigo.
  — Scott! Oi!
  — Uau! Você corre rápido, garota! Deveria considerar entrar para o time!
  — Só se for para um time de maratonistas correndo em direção à lanchonete mais próxima! — ironizo e o moreno ri.
  — Você é realmente tão engraçada quanto dizem! — Ele comenta, fazendo-me erguer uma sobrancelha, desconfiada. — Então... Ouvi dizer que você está solteira de novo...
  — Na verdade, nunca deixei de estar!
  — Sim, claro. Desculpe, é que... — O homem passa as mãos pelos cabelos, demonstrando nervosismo. — Venho observando-a de longe, . Você não liga para o que as pessoas pensam, tem personalidade forte, é engraçada... Gosto de você.
  Meu queixo provavelmente atravessava o concreto do chão naquele momento de tão surpresa que eu estava. Que porra estava acontecendo?
  — Estão eu estava pensando se você quer sair comigo ou sei lá...
  — Está me convidando para um encontro!? — questiono, ainda incrédula.
  — Sim, quer dizer, se não tiver nenhum problema, é claro.
  — Não, não! Problema nenhum! — sorrio.
  — Ótimo! Que tal cinema hoje à noite?
  — Eu adoraria!
  — Beleza! Me passa seu número e endereço? Às oito horas está bom para você?
  Espanto a cara de babaca que eu fazia e retiro um pedaço de papel da bolsa, tentando escrever da forma mais legível possível e lhe entrego.
  — Às oito está ótimo!
  — Excelente! Então... — o rapaz segura minha mão direita, levantando até a altura de seus lábios e depositando um beijo no dorso. — Nos vemos à noite, .
  Assisto Scott se afastar até estar fora do meu campo de visão e permaneço estática, tentando assimilar o que havia acabado de acontecer.
   O cara mais desejado da universidade e o melhor jogador de futebol americano da Flórida realmente tinha acabado de dizer que gosta de mim e me chamou para um encontro!?
  Em um estalo, meu cérebro acorda do transe em que estava e envia comandos às minhas pernas, que automaticamente começando a correr em rumo ao prédio central da instituição. Avisto Summer sentada à mesa no canto e acelero o passo sentido à minha melhor amiga.
  — Advinha quem me convidou para sair! — exclamo, arfante.
  — Aquele esquisito da sua aula de Videografia? — Summer faz careta, provocando meu revirar de olhos. — Esqueci minha bola de cristal em casa, então não faço a menor ideia!
  — Scott Fucking McKibben! — respondo animada e me sento na cadeira a sua frente.
  — Tipo O Scott McKibben? O Quarterback?
  — A não ser que você conheça outro. — Dou de ombros. — Óbvio que sim!
  — Caramba! Ele é gostoso, tipo, muito, muito gostoso.
  — Eu sei! Mas não vou sair com ele só por isso, você sabe!
  — Sei, sei. Você é louca por aquele time e acha ele o Deus do futebol! — minha amiga diz com desdém.
  — Não é bem assim! — protesto, indignada. — Eu só o acho um ótimo jogador!
  — Claro! E passaria um dia inteiro falando de suas incríveis habilidade, se fosse possível! — Summer ironiza, fazendo-me revirar os olhos novamente. — Mas, tudo bem, ainda é um encontro e você precisa estar estonteante! Sabe o que isso significa, não é?
  Summer sorri para mim de uma forma que apenas nós duas entendíamos o significado. Sorrio de volta da mesma maneira, sabendo exatamente o que se passava dentro da cabeça da minha melhor amiga.
  — COMPRAS! — gritamos juntas.
  — Mas, espera... ambas temos aula à tarde hoje, então vamos simplesmente matar aula como duas adolescentes inconsequentes?
  — Não é como se você ligasse muito para isso, .
  — Essa é uma coisa muito ofensiva a se dizer! — finjo indignação. — Eu dou muito importância à minha educação! Mas como é uma situação de emergência, posso abrir essa exceção. — Minha melhor amiga rola os olhos castanhos. — E já vou logo avisando: Nada de vestidos! Essa porra me deixa toda assada e não vou usar algo em que fico desconfortável só porque um macho acha bonito!
  — Tudo bem! Mas não vou perder a oportunidade de te fazer usar cropped e exibir essa barriga maravilhosa!
  — Barriga maravilhosa que eu vou encher de gordura nesse exato momento porque estou com uma fome do caralho!
  — Eu não entendo como você consegue comer tanta porcaria e mesmo assim continuar em forma! — A garota joga as mãos para cima, exasperada.
  — Pelo menos para alguma merda os genes da minha mãe serviram. — Dou de ombros. Summer abre a boca para retrucar, porém a interrompo. — E nem venha me dar sermões, Senhorita Eu-Sou-Saudável-Mas-Adoro-Sanduíche-do-Subway!
  — Mas é saudável! — ela responde com indignação. — E tem salada!
  — Claro, continue se iludindo achando que todo aquele queijo e molho são saudáveis. Pelo menos eu não minto sobre o que gosto e, amiga, até cheeseburger tem salada!
  Levanto-me da mesa e caminho em direção ao Nathan's Famous. Peço uma porção grande de batata-frita coberta de bastante queijo e bacon e uma latinha de coca-cola — como já havia dito, eu estava com muita fome. Uso mais uma vez o máximo de educação que consigo me lembrar (eu estava ficando boa nessa coisa). Apanho a bandeja com o lanche e volto à mesa. Fui forçada a ouvir pelos próximos dez minutos os argumentos de Summer sobre a diferença calórica entre o sanduíche do Subway e as outras redes de fast-food; eu apenas ri e lhe disse que aquilo tudo era besteira e voltei a saborear minhas batatas. Ela ficou um pouco irritada, mas não durou muito, pois logo em seguida partimos em direção ao Mall at Millenia, cantando A Thousand Miles o mais alto que conseguíamos como duas idiotas.
  Summer me obrigou a entrar em praticamente todas as lojas — mesmo aquelas que não tinham nada do que eu precisava, mas acabamos parando na Forever 21. Após algumas — milhares — trocas de roupas, acabei optando por um top cropped tomara-que-caia branco e de manga longa, uma calça jeans de cintura alta e uma ankle boot, que estava em liquidação — bendita seja a Black Friday!
   Minha melhor amiga tentou me convencer a levar saia, porém, me recusei até o último segundo; sabia que não me sentiria bem e como minha mãe sempre dizia, eu não tinha “modos” para usar esse tipo de roupa. E então ela insistiu que eu comprasse novas lingeries, pois de acordo com ela “nunca se sabe como sua noite vai terminar”. Revirei os olhos e lhe disse que não pretendia ir além de alguns beijos, mas isso não foi o suficiente para convencê-la.
  Chego em casa por volta das seis da tarde e encontro tão concentrado em algo que passava na televisão que nem ao menos percebeu minha presença ali. Largo as sacolas no chão e corro em sua direção, pulando em seu colo e grudando meus lábios aos seus. O garoto ficou sem reação por alguns instantes, mas não demorou a envolver meu corpo e retribuir o beijo com intensidade.
  — Ok... Acho que preciso te ensinar a regra sobre avisar quando você chega a algum lugar.
  — Não seja dramático, porque eu sei que você gostou!
  — É, isso eu não posso negar. — O ri. — Quantos foram?
  — Uns cinco ou seis no máximo.
  — Uau! Que evolução!
  — Eu sei! Sou uma ótima aluna, hum? Acho que mereço uma recompensa.
  Sorrio maliciosa e o rapaz retribui sorrindo da mesma maneira. Ele passeia os dedos pelos fios acobreados de minha cabeça, afastando-os do meu pescoço e percorre vagarosamente seus lábios úmidos pela minha pele cálida, provocando arrepios na região. Cerro os olhos em satisfação e embrenho meus dedos em suas madeixas rubras. De repente cessa a carícia, fazendo com que um suspiro frustrado escapasse por entre meus lábios. Merda! Estava tão bom!
  — O que é tudo aquilo? — Desvio o olhar para onde o garoto apontava.
  — Ah, fiz algumas compras no shopping com a Summer. — Ergo os ombros em indiferença. —Tenho um encontro hoje à noite.
  — Um encontro? — eleva uma de suas sobrancelhas. — Com quem?
  — Scott McKibben.
  — Scott? Do time? — balanço a cabeça, afirmando. — Não sabia que ele fazia o seu tipo.
  — Eu não tenho um tipo, . Gosto de beijar bocas e você está seriamente atrapalhando isso enquanto fica fazendo pergunta idiota ao invés de me beijar!
  — Está admitindo que gosta de me beijar? — um sorriso presunçoso se forma em seus lábios.
  — Puta que pariu! Lá vem você com essa porra de ego de novo! — exclamo, irritada, e começo a me afastar, porém segura em minha cintura, mantendo-me na mesma posição.
  — Ei, calma! Eu estava só brincando!
  — Que tal menos brincadeiras estúpidas e mais beijos, hum?
  O garoto emite uma risada e leva sua mão esquerda até minha nuca, realizando um leve afago no local.
  — É pra já, senhorita! — aproxima meu rosto do seu, finalmente unindo nossos lábios novamente.

**********
  

Às oito horas em ponto, desço até a portaria do prédio para esperar Scott e felizmente descubro que ele já estava lá. Ele é pontual. Um ponto positivo.
   O rapaz tinha o corpo encostado ao seu Porsche e vestia uma camisa pólo branca — que transparecia perfeitamente os músculos sob o tecido. —, jaqueta e jeans. Ótimo, vamos ficar combinando igual um casal de héteros retardados.
   Scott se aproxima de mim, deposita um beijo em minha bochecha e segura em minha mão.
  — Você está absolutamente linda, !
  — Obrigada! Você também não está de se jogar fora! — brinco, arrancando uma risada dele.
  O jogador me conduz até o carro e abre a porta do carona para que eu me sentasse e eu o faço, esperando o rapaz entrar e dar partida no carro.
  — Então, o que gostaria de assistir? — Scott pergunta assim que o carro começa a se movimentar. — A escolha é toda sua!
  Hum. Deixa a mulher decidir. Mais um ponto.
  — Ah, bom, tem um filme em cartaz que eu queria muito assistir. Se chama Animais Fantásticos e Onde Habitam.
  — Ah, aquele novo do garoto com raio na testa? Pensei que essa babaquice tinha acabado há anos atrás!
  Encaro-o boquiaberta. Que porra ele acabou de dizer!??
  — Não é sobre o Harry, é sobre uma geração setenta anos antes de ele nascer! O universo mágico é infinito e ainda há milhares de histórias que precisam ser exploradas!
  — Sei lá! Essa coisa toda de bruxo é pra criancinha!
  — Não é pra criança! Não existe idade para gostar e admirar o mundo da magia!
  — Tudo bem, foi mal! Nós vamos assistir ao filme.
  Bufo, ainda indignada com suas palavras, mas no fundo feliz por sua decisão.
  É um trouxa. Menos cem pontos para a Babacanória!
  Seguimos o resto do caminho em silêncio. Não fiz questão de trocar mais nenhuma palavra com Scott; felizmente ele parece perceber o desconforto da situação e liga o rádio, deixando que uma playlist de músicas de estilos variados tocasse.
Quando enfim chegamos ao cinema, saio do carro, sem nenhuma delicadeza, e marcho em direção à entrada do local. Nem ao menos espero meu “par”. Prometi a mim mesma que não iria me estressar hoje.
  Finalmente entro no imenso e luxuoso cinema, que percebo estar relativamente vazio, mesmo sendo pré-estreia — provavelmente por estarmos no meio da semana — e isso me deixa um pouco mais satisfeita, uma vez que não suporto lugares muito cheios — com exceção de bares e shows — e sessões lotadas onde as pessoas conversam o tempo todo.
  — Baby, por que você não vai comprar algo para comermos enquanto eu cuido os ingressos?
  Baby!? Quem diabos esse projeto de Justin Bieber pensa que eu sou?
  — Claro! — respondo brevemente e sigo para o Snack Bar.
  Compro o maior balde de pipoca caramelada com pedaços de KitKat, pois sabia que precisaria de muito chocolate e muita energia para aguentar a noite que ainda estava por vir.
  — Ingressos para última fileira! — o rapaz diz sorridente assim que me aproximo.
  Última fileira é onde os casais normalmente se sentam para... PUTA QUE PARIU!
  Apenas pego um dos ingressos e caminho até a entrada da sessão. O filme nem havia começado e eu já sabia que teria dor de cabeça — e infelizmente não era por causa dos óculos 3D. Nos sentamos e esperamos o filme começar. Poucos minutos depois sinto a respiração de Scott perto demais da pele exporta de meu ombro esquerdo e seus lábios são pressionados na região. Não, não era a mesma coisa.

  — Scott, eu quero ver o filme! — reclamo.
  — Esse filme é chato, tenho algo bem melhor a te oferecer.
  — Mas acontece que nós viemos ao cinema assistir ao filme! É para isso que ele é feito!
  O rapaz bufa e se afasta, contudo, poucos instantes depois, sinto sua mão percorrer a área exposta de minha barriga, causando-me ira.
  — Você vai parar ou vou precisar gritar?
  O jogador parece entender o recado e não volta a me perturbar. Porém as duas horas que se seguiram foram resumidas em eu tentando prestar o máximo de atenção no filme enquanto Scott praticamente dormia — lê-se roncava — em cima de mim. Foi necessário muito autocontrole para que eu não o derrubasse no chão e saísse daquele lugar o mais rápido possível; só não o fiz porque queria demais assistir àquele filme; esperei cinco longos anos para poder voltar ao cinema e assistir algo relacionado ao mundo da magia e homem nenhum iria me impedir!
  Após o final do filme, Scott sugere irmos a um restaurante comer algo — até que enfim uma ideia boa! — e me leva até o Duffy's Sports Grill, lugar onde os homens normalmente vão para assistir jogos e conversar “coisas de macho”. Tinha capacetes e imagens de jogadores que marcaram o futebol americano e televisões de plasma espalhados por todo o lugar. O ambiente era até agradável, mas não sei se poderia dizer o mesmo da companhia.
  Scott pede uma grande porção de asinhas de frango e batata doce frita e uma cerveja, eu peço anéis de cebola fritos — queria mantê-lo o mais longe possível da minha boca.
  — Fiquei surpreso quando você aceitou o meu convite. A maioria dos caras da universidade quer você, mas tem medo de te chamar para sair.
  — E por quê?
  — Você tem gênio forte e é bem difícil de se aproximar. Antes de você beijar o publicamente, todo mundo pensava que você fosse lésbica ou sei lá. Nunca a vimos com ninguém e você tem um jeito meio... não-feminino.
  Abro a boca em uma mistura de surpresa e exasperação. Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
  — Não que minha sexualidade seja da conta de alguém, mas, não, eu não sou lésbica e mesmo se fosse, não teria absolutamente nada a ver a minha forma de agir. Isso é só um estereótipo estúpido que a sociedade ainda insiste em acreditar! — rebato, furiosa.
  — Foi mal! Não quis ofender! — Scott levanta as mãos em sua própria defesa.
  — Você não me ofende me chamando de lésbica, o que me ofende é a sua ignorância! — rebato e ele me fita surpreso.
  Os nossos pedidos chegam e o rapaz muda de assunto, falando sobre sua incrível performance no último jogo. Eu estava a ponto de explodir, não conseguia aguentar nem mais um segundo ali. Já estava me sentindo nauseando assistindo o jogador devorar aquelas asinhas daquela forma grotesca, sem contar que ele só abria a boca para falar merda, o que só deixava a imagem ainda pior.
  — Preciso ir ao banheiro. — levanto-me dá mesa, interrompendo um dos seus discursos narcisista e caminho em direção à porta do cômodo sem esperar por uma resposta do jogador.
  Adentro o banheiro em uma velocidade tão grande quanto a de alguém em meio a um apocalipse zumbi quando encontra um lugar seguro. Caminho até a pia e apoio minhas mãos sobre o mármore, tentando controlar a respiração.
  Inspira. Expira. Inspira. Expira.
  Mantenha a calma. Vai ficar tudo bem. Não pira. Não pira. NÃO PIRA, PORRA!

  Retiro meu celular do bolso traseiro da calça e disco com um tanto de dificuldade — devido às mãos trêmulas — o número da única pessoa que poderia me salvar naquele momento — por mais que eu odiasse admitir.
  — Alô? — a voz rouca, indicando que provavelmente estava dormindo, do indaga do outro lado da linha.
  — , vem me buscar, pelo amor de Deus! — imploro, desesperada.
  — ?
  — É claro que sou eu, idiota! Venha me buscar!
  — Agora?
  — Não, amanhã! Claro que é agora, porra! — retruco, exasperada, e ouço um suspiro vindo do rapaz.
  — Onde você está?
  — No Duffy's da Waterford Lakes!
  — Certo. Chego aí em... — um breve silêncio se faz do outro lado. — Dez minutos. Não faça nenhuma besteira.
  A ligação é encerrada e suspiro de alívio atravessa meus lábios. Sabia que mesmo sendo um completo idiota a maior parte do tempo, não me deixaria na mão.
   Encaro meu reflexo no espelho, constatando que eu estava parecendo bem demais para alguém que interpretaria a cena que eu estava prestes a fazer. Jogo água no rosto e esfrego os olhos para simular choro — quem disse que eu também não poderia ser uma boa atriz?
   Saio do banheiro com uma feição triste totalmente fingida e caminho até a mesa onde Scott ainda estava sentado. O moreno arregala seus olhos em minha direção e se levanta da cadeira.
  — O que aconteceu?
  — Minha melhor amiga acabou de me ligar dizendo que a avó dela faleceu. Eu tenho de ir, ela precisa de mim.
  — Claro, só vou pedir a conta e te levo lá.
  — Não! — praticamente berro. — Já estão vindo me buscar. Obrigada por se importar e pelo encontro de hoje. Foi bem... Incomum.
  — Também gostei de sair com você e gostaria muito de repetir. — O rapaz enfia a mão no bolso e retira de lá dois tickets. — Esses são ingressos para o jogo de sábado. Vai lá me ver e quem sabe animar um pouco sua amiga.
  Babaca narcisista!
  — Claro! Estarei lá! — Sorrio falsamente, pego os ingressos de sua mão e me inclino sobre a mesa, depositando um beijo em seu rosto. — Tchau, Scott!
  Quase me senti mal por fingir tanto daquela maneira — eu disse quase —, porém no exato momento em que ele sorriu para mim, exibindo um pedaço de alguma coisa que ele havia comido grudado em seu dente, eu desisti.
Saio correndo do restaurante como se minha vida dependesse disso — talvez realmente fosse verdade — e espero impacientemente aparecer.
  — Puta que pariu, ! Cadê você? — praguejo.
  Como uma prece sendo atendida, avisto o SUV branco do estacionar frente a porta do estabelecimento e rapidamente corro até o veículo, abro sua porta com brutalidade e me jogo dentro dele.
  — O que está acont—
  Antes que pudesse terminar sua frase, lanço meu corpo sobre o dele, agarrando sua nuca e silenciando-o com um beijo ardente. Estranhamente aquele beijo agressivo me transmitiu um pouco de calma.
  — Por favor, só dirige e eu conto no caminho!
  O garoto bufa, no entanto atende ao meu pedido, dando partida no carro. A cada metro de distância percorrido, maior era o sentimento de alivio em meu peito.
  — Vai contar que merda está acontecendo agora?
  — Eu não acredito que fui a um encontro com aquele babaca! Estou decepcionada e traumatizada!
  — Espera aí... Eu saí igual louco pelas ruas dirigindo a mais de cem quilômetros por hora e ultrapassando todos os sinais vermelhos porque achei que você estava, sei lá, sendo assaltada, espancada ou estuprada e você está simplesmente fugindo de uma porra de encontro!?
  — Mas aquilo não era um encontro, era uma forma de tortura psicológica moderna! — respondo com indignação. — E foi você quem tirou conclusões precipitadas, eu não disse nada!
  — Puta que pariu, !
  Uau. Presenciei xingar por três vezes em menos de uma semana e ainda por minha causa; eu deveria ganhar um prêmio por ser capaz de irritá-lo a tal ponto.
  — Não acredito que caí naquele truquezinho de merda do cara educado e sorridente! Me sinto uma otária! — exclamo, revoltada, e ouço a risada do . — Do que está rindo, imbecil?
  — Eu sabia que seria assim. Ele é a exata representação de tudo que você despreza.
  — E por que não me avisou antes, idiota!?
  — Você não pediu minha opinião. — O dá de ombros, como se não fosse nada.
  Fulmino-o com os olhos, sentindo uma intensa onda de ódio subir pelo meu corpo e antes que algo pudesse me parar, eu já havia partido para cima do garoto, estapeando-o em todos os lugares possíveis.
  — Pare com isso! Estou dirigindo, você vai acabar me fazendo bater o carro!
  — Você é um cuzão, !
  O se inclina em minha direção, como se esperasse que eu lhe desse um beijo, porém empurro seu corpo para longe.
  — Nem vem! Você está dirigindo, lembra? Presta atenção na merda da estrada!
   volta a rir, provocando ainda mais minha ira. Cruzo os braços sobre o peito, controlando-me para não xingá-lo de todos os nomes existentes. Fecho os olhos na tentativa de conseguir relaxar, mas tudo que vinha a cabeça eram as cenas de todo aquele desastre que aconteceu mais cedo.
  — Merda, não consigo ao menos fechar os olhos sem ver flashes daquele ogro atacando um prato enorme de asinhas de frango. Meu estômago chega embrulhar.
  — Você o beijou? — Balanço a cabeça em negação. — Ótimo! Provavelmente tem gosto de frango com batata doce! — o brinca, provocando inevitavelmente a minha risada. — Mas pensa pelo lado bom, pelo menos você assistiu ao filme.
  — Acredita que ele disse que Harry Potter é coisa de criança!?
  — Então ele é bem mais idiota do que eu imaginava.
  — É isso que estou tentando dizer! Mas o filme foi incrível, ! Vale cada segundo! A personalidade do Newt é adorável e a relação entre ele é os animais é tão pura! Eles são tão extraordinário, coloridos e vivos, e a ligação de amizade que os personagens têm em tão pouco tempo é inacreditável! Fantástico! Não existe palavra melhor para descrever!
  Quando retorno minha atenção ao , ele me fitava com um sorriso estampado no rosto.
  — Por que está me olhando assim? — pergunto com o cenho franzido.
  — Sei lá, é legal te ver animada com alguma coisa uma vez na vida. — o garoto dá de ombros.
  — Eu fico animada com as coisas, só não demonstro muito!
  — Você passa a maior parte do tempo reclamando e problematizando! — rola seus olhos verdes.
  — Não é culpa minha se o mundo está todo errado! Alguém tem de dizer alguma coisa!
  — Mas não cabe a você tentar mudá-lo sozinha!
  — Não, cabe a todos nós, mas cada um deve exercer sua parte. Imagine se tivessem desistido toda vez que algumas pessoas não contribuíssem? Nada teria evoluído!
  — Tudo bem. Acho que vou calar minha boca.
  — Essa é a melhor coisa que você disse até agora! — Jogo as mãos para o alto em exasperação.
   não diz mais nenhuma palavra e eu também opto por ficar em silêncio, até eu me inclinar para ligar o rádio e sentir minha barriga roncar.
  — Estou com fome! — queixo-me.
  — Pensei ter dito que estava com o estômago embrulhado...
  — Eu estava enquanto assistia aquele ogro comer, agora que estou longe daquele babaca me deu fome de novo!
  — Que tal comida japonesa? — o sugere.
  — Sim, por favor! — Respondo animada.
  Começo a procurar o endereço do restaurante mais próximo no GPS e o aproveita minha distração para segurar meu rosto entre o polegar e o indicador, virá-lo para si e me roubar um beijo.
  — Eca! Você tem gosto de cebola! — reclama.
  Abro a boca para protestar e tento fazer cara de brava, mas acabo caindo na gargalha, sendo acompanhada por ele.
  Se esse já não for o começo, juro que algum dia esse garoto ainda vai me enlouquecer.

Chapter IV — Thursday

  

O som estridente do despertador invade meus ouvidos, provocando um resmungo de minha parte. Tento tampá-los com o travesseiro, porém era uma atitude inútil. Emito uma bufada de ar e desligo o maldito aparelho. Levanto da cama, ainda um pouco zonza devido ao sono, prendo os cabelos e arrasto meu corpo lentamente em direção a cozinha — foda-se a porra da higiene matinal, eu estava com uma fome do caralho!
  Antes de atingir o meio do corredor, ouço a voz de vindo do cômodo em que eu me dirigia e ele parecia estar... Cantando? Enrugo o cenho em estranhamento e me aproximo mais.
  — Hakuna Matata! É lindo dizer! Hakuna Matata! Sim, vai entender!
  Profiro uma risada ao constatar o que ele estava “cantando”. Adentro a cozinha e encontro o dançando desengonçadamente enquanto... Prepara um sanduíche?
  — Os seus problemas! Você deve esquecer! Isso é viver! É aprender! Hakuna Matata!
  Começo a bater palmas,como se estivesse assistindo a um espetáculo, e o garoto finalmente percebe que foi pego no flagra e me encara surpreso.
  — Uau! Que belo show! Faria qualquer ator da Broadway sentir inveja! — ironizo. — Você tem mesmo vinte anos? Não parece muito.
  — Bom dia para você também, ! E olha só quem fala, a menina que chora toda vez que assiste Up e Toy Story 3 e fez questão de ir na pré-estreia de Procurando Dory!
  — Ei, a cena em que o Andy dá seus brinquedos é triste pra caralho, ok? — defendo-me.
  — Nem vou fazer questão de te beijar dessa vez, porque, pelo seu estado, você provavelmente nem escovou os dentes ainda! — diz com expressão de nojo, fazendo-me revirar os olhos.
  — Vou fingir que esse foi só o seu ego falando. E eu não vejo sentido algum em escovar os dentes antes de tomar café, já que irei sujá-los depois. — Caminho até a bancada e me sento em um das cadeiras.
  — Não precisa ter sentido! É questão de higiene!
  — Oh, assim como mulheres serem obrigadas a andarem depiladas enquanto homens exibem pernas e peitos cabeludos por aí também é “questão de higiene”? — Faço aspas com os dedos e o garoto rola os olhos.
  — Sério? Problematização a essa hora da manhã? — ele questiona.
  — Sério? Você me irritando a essa hora da manhã? — reviro.
   bufa e volta sua atenção ao lanche que preparava, demonstrando desistir da discussão. Sorrio, satisfeita por ter a palavra final.
  Levanto-me da bancada e caminho até o armário, retirando de lá uma caneca e enchendo-a na cafeteira em seguida. Aproveito a distração do procurando algo na geladeira para surrupiar seu sanduíche recém preparado.
  — Ei! Isso é meu! — o garoto protesta com indignação.
  — Você preparou esse, pode preparar outro... Simba. — Lanço-lhe uma piscadela e deixo o cômodo com um sorriso travesso estampado no rosto.

**********
  

Pode-se dizer que minha manhã foi bastante agitada, mas nãopor causa das aulas ou algo do tipo. Basicamente passei a manhã inteira me escondendo de Scott — sabia que estudávamos em prédios diferentes, porém a probabilidade de ele estar por aí cercando alguma de suas peguetes ou querendo me cercar ainda era grande —, eu corria de uma sala à outra como se minha vida dependesse disso e me escorava nas paredes em lugares escuros quando via alguém se aproximar, em uma imitação ridícula das Três Espiãs Demais.
  Quando o sinal anunciando o fim da aula de Fotografia Contemporânea tocou, juntei minhas coisas com a maior agilidade possível e disparei como o Flash rumo ao meu apartamento — nem pode desconfiar que esbarrei em várias pessoas sem ao menos pedir desculpas.
  Adentro o apartamento e bato rapidamente a porta, recostando-me nela.Tento controlar minha respiração ofegante, todavia, uma repentina crise de risos me atinge, agravando ainda mais minha situação e provocando que minhas pernas, já enfraquecidas, cedessem, derrubando-me ao chão.
   surge na entrada entre a sala e a cozinha, fitando-me com o cenho franzido.
  — O que aconteceu? Você estava correndo?
  — Correndo, não! Fugindo!
  — Scott? — O pergunta com uma sobrancelha arqueado e eu balanço a cabeça, afirmando.
  — Não quero correr o risco de ele me encontrar e me chamar para sair de novo.
  — Por que você não simplesmente recusa? — ele diz como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
  — Como se macho fosse capaz de aceitar algum tipo de rejeição, né? Ainda mais alguém como ele, que provavelmente nunca ouviu um “não” na vida!
  Faço gestos para que ele segurasse minhas mãos e me ajudasse a levar e solta uma bufada antes de se aproximar e erguer meu corpo do chão.
  —Você não pode fugir para sempre, sabe disso, não é?
  — Não precisa ser para sempre, só até ele me esquecer e achar outra “garota especial”. — finjo uma voz aguda. — Não duvido que vá demorar no máximo um dia.
  Recolho minhas coisas e sigo para o meu quarto, onde largo meu material. Decido tomar um banho, pois toda aquela correria me fez suar pra caralho e eu precisava relaxar um pouco. Posteriormente, visto uma calcinha boxer e uma camiseta confortável — se pode perambular por aí exibindo aquele abdômen branquelo e perfeitamente definido, eu posso andar de calcinha em minha própria casa.
  Parto para a cozinha em busca de algo para saciar minha fome e encontro o preparando algo que parecia ser macarrão com bastante queijo — ele raramente preparava algo com as próprias mãos, mas quando o fazia, não decepcionava —, que automaticamente fez meu estômago roncar. Apanho um garfo na gaveta do armário, giro-o sobre seu prato, filando a maior quantidade da massa possível, e enfio-o na boca.
  — Ei! Você nunca vai parar de roubar minha comida!?
  — Nós compartilhamos a casa e as despesas, portanto, a comida também deve ser compartilhada! — aponto.
  — Isso quer dizer que posso comer sua Nutella quando eu quiser?
  — Se também quiser morrer depois. — ergo os ombros em indiferença. — Não vejo problema algum!
  O garoto emite uma risada e empurra o prato em minha direção, iniciando a preparação de outro logo em seguida. Sento-me no banco e começo a comer.
  — Esqueci de avisar que nós iremos jantar fora hoje — anuncia enquanto se sentava na cadeira à minha frente.
  — Está me chamando para um encontro? — questiono, incrédula.
  — Hum, eu chamaria de “teste das suas habilidades comportamentais”, mas levando em consideração o encontro desastroso que você teve na noite passada, pode chamar do que quiser.
  — Haha, muito engraçado!
  — Enfim, marquei a reserva para às nove horas e não podemos nos atrasar, pois é um restaurante caro e muito requisitado. Terá de usar vestido.
  — Não! — protesto.
  —Vai ter de se acostumar, . Vai me agradecer por isso depois.
  Bufo, não gostando nada da ideia, porém sabendo que estava sem opções. Termino de comer, já sem a mesma vontade de antes. Levanto-me e ponho o prato dentro da pia, seguindo para a saída da cozinha, contudo, antes de deixar o cômodo, viro-me e digo:
  — E, ah, se eu pegar você olhando para os meus seios, da forma que fez quando achou que eu não prestava atenção, mais uma vez, não hesitarei em arrancar seu pênis fora e fazer churrasquinho!
  Vejo a expressão de espanto se formar no rosto do e sorrio satisfeita, finalmente deixando o local.
  A primeira coisa que fiz após descansar o almoço foi terminar os exercícios do professor Warren, uma vez que tinha certeza de que, se deixasse para depois, a preguiça iria tomar conta de mim e a procrastinação seria inevitável.
  Para relaxar, comecei uma maratona mais do que merecida de Sense8, minha mais nova série favorita, até uma pessoa chata e inconveniente — também conhecida por — desligar a televisão de repente. Merda, bem na hora da suruba!
  Encaro-o indignada e abro a boca para protestar, porém o me cala antes que eu pudesse argumentar:
  — Acabou a diversão. Vou começar a me arrumar e sugiro que você faça o mesmo ou vamos nos atrasar!
  Contrariada, levanto-me marcho a passos firmes até meu quarto, caminho irritada em direção ao closet, no entanto, acabo topando o dedo mindinho na quina de minha penteadeira.
  — Puta que pariu! — grito, furiosa. — Quem foi que deixou essa porra aqui no meio do caminho!?
  Era uma pergunta retórica, obviamente. Eu tinha plena consciência de que o móvel era meu, o quarto era meu, então a culpa daquela estupidez também era minha.
  Sento-me em minha cama, segurando o pé machucado, cujo dedo menor latejava, enquanto praguejava — mentalmente — todos os nomes possíveis. Volto mancando para a sala a procura de , contudo, ele não se encontrava mais lá. Adentro seu quarto e também não o encontro, então escuto um barulho vindo do banheiro e sorrio maliciosa devido o pensamento que havia acabado de passar por minha mente.
  Caminho em direção ao banheiro e escancaro a porta. O garoto nu me olha surpreso e tenta inutilmente cobrir seu corpo com a toalha.
  — Você é louca!? Não pode simplesmente invadir o ban—
  Empurro seu corpo contra o vidro externo do box e o calo com um beijo. O me pressiona contra si, fazendo-me sentir sua ereção crescente. Hum, alguém está ficando animadinho. Levo minha mão direita até sua excitação, dando um leve aperto e arrancando-lhe um gemido abafado contra a minha boca. Ah, , queria tanto poder terminar isso devidamente, mas você precisa aprender que não deve tentar me controlar. Afasto-me, provocando um suspiro insatisfeito no .
  — Não tem nada aí que eu já não tenha visto antes, aliás, já vi maiores, mas você não fica muito na desvantagem! Está de parabéns!
  Dou dois leves tapinhas em sua bochecha e sorrio enquanto o me encarava com indignação. Deixo o cômodo, emitindo uma gargalhada logo após a porta se fechar atrás de mim.

  

Depois de passar quase uma hora e meia tomando banho, escovando o cabelo e fazendo a maquiagem — o dobro do tempo que levo usualmente —, eu finalmente estava pronta. Encaro meu reflexo no espelho pela última vez e sorrio, seguindo para a sala ao encontro de em seguida. Apesar de estar espalhafatosa demais comparada à maneira que me arrumo normalmente, eu havia gostado do resultado.
  — Finalmente! Pensei que você não fo—
  , que agora tinha o semblante embasbacado, se levanta e caminha em minha direção. Ele segura em minha mão e faz gesto para que eu girasse o corpo, e eu o faço.
  — Uau! — o garoto exclama, abismado, enquanto admirava meu corpo coberto pelo vestido branco rendado.
  —Sem piadinhas! Já estou a ponto de te matar por me fazer usar vestido!
  — Você está... Eu nunca a vi tão... Elegante.
  — Eu estou linda pra caralho, você quer dizer! — digo em tom pomposo.
  O garoto sorri e enlaça a minha cintura, observando meu rosto por alguns instantes. O cheiro de seu perfume amadeirado rapidamente me atinge, deixando-me entorpecida. Seus cabelos penteados para o lado e o traje social lhe dava um ar sofisticado e sedutor. E aquele maldito sorriso o deixava ainda mais irresistível.
  Merda, por que ele não podia ser feio e ignorante e facilitar minha vida?
  Em um súbito momento de lucidez, ponho minhas mãos sobre o peito de quando seu rosto estava a milímetros do meu e afasto-o.
  — Eu levei quase uma hora para acertar esse delineador e deixar a cor do batom uniforme, você não vai borrar minha maquiagem, não!
  — Agora sim você está parecendo uma garota rica e mimada! — o provoca, fazendo-me revirar os olhos.
  — Vamos logo, já estou ficando com fome!
  — E quando é que você não está com fome, ?
  — Quando estou dormindo! — exclamo com obviedade.
  O garoto balança a cabeça, como forma de repreensão, apanha seus pertences pessoais e finalmente deixamos o apartamento.
  Durante todo o caminho até o restaurante, perturbei para me dizer aonde diabosestávamosindo. Ele apenas ria e dizia que em breve eu saberia, o que só me deixava ainda mais curiosa e irritada.
  Menos de trinta minutos de sofrimento depois, finalmente estaciona frente ao tal restaurante. Na fachadado lugar — que era tão simples que cheguei cogitar estarmos no lugar errado — pude ler os dizeres “Le Coq Au Vin”.
   O manobrista abre a porta e me oferece ajuda, que aceito por educação — se fosse em outra ocasião, o mandaria para o quinto dos infernos. Não sou inválida, posso muito bem sair de um carro sozinha. entrega a chave nas mãos do homem e adentramos o estabelecimento. O diz nossos nomes à recepcionista, que confirma a reserva e rapidamente chama um dos funcionários para nos guiar até uma mesa ao canto, um pouco afastada e ao ar livre.

  — Só tem gente velha aqui, ! — reclamo após observar ao nosso redor.
  — É um restaurante requintado, , acha que gente da nossa idade o frequentaria?
  — Então o que diabos estamos fazendo aqui!? — questiono, exasperada.
   ignora a minha pergunta, puxa uma cadeira e faz menção para que eu me sentasse. Emito uma bufada de ar e obedeço, puxando a cadeira furiosamente para frente, quando minha real vontade era mandá-lo ir se foder, porém, infelizmente teriam consequências se eu o fizesse.
  — Acho que vou tentar umas vagas de emprego como manobrista — comento depois de um tempo. — Deve ser legal passear por aí com o carro dos outros e depois entregar como se nada tivesse acontecido.
  — Você acha que eles fazem isso? — o garoto questiona com a sobrancelha arqueada em desconfiança.
  — Não sei, mas seestivesse no lugar deles, eu faria. —dou de ombros.
  O ri e concorda com a cabeça. Decido enfim abrir o cardápio e ver o que eles têm a oferecer. O menu estava totalmente em francês.
  — Pelo menos é algo que eu consigo ler.
  — Você fala francês? — questiona com o cenho franzido.
  — É uma das poucas coisas que minha mãe me obrigou a fazer que realmente possa me ser útil. Se ela encher muito minha paciência, posso fugir para a França a qualquer momento.
  — Você diz como se ela fosse um monstro.
  — Ela é um monstro. — rebato.
  — Boa noite, meu nome é Sarah e eu irei servi-los essa noite. — Uma garçonete loira para frente a nossa mesa. — Os senhores já têm algum pedido em mente?
  — Hum... Eu vou querer Tarte a L'Oignon e peça ao sommelier para mandar uma garrafa do melhor vinho francês que vocês tiverem.
  A garota assente, anota o pedido de e se vira para mim, esperando que eu dissesse algo. Sua expressão não era mais tão convidativa como antes.
  Por que ela está me olhando assim? Por acaso andou chupando limão ou algo do tipo?
  — Não tem Ratatouille aqui? Mas que tipo de restaurante francês é esse que não tem um dos pratos mais famosos da culinária francesa? — me lança um olhar repressor. — Está bem! Vou querer Tournedos e Gateau de Crabe!
  A loira volta a anotar em seu bloquinho e pede licença para se retirar.
  — Você tem noção de que pediu torta de cebola, certo? — questiono.
  — É sempre bom experimentar coisas novas. — O dá de ombros. — Algum problema para você?
  — Não, nenhum! Eu definitivamente não direi mais nenhum palavrão hoje. — Afirmo, provocando uma risada em .
  — Pensei que você gostasse de cebola, afinal, vocês têm algo em comum: fazem pessoas chorarem. — o garoto brinca e eu reviro os olhos.
  — Gosto de usar como repelente para idiotas!
  — E eu gosto de usar para evitar que você diga palavrões.
  — Meu Deus! — Jogo as mãos para o alto, irritada. — Por que você é sempre tão perfeito!? Sabe se comportar à mesa, não fala palavrões e não fuma! Aliás, que tipo de badboy não fuma!? — exclamo com indignação e o ri.
  — Eu não sou um badboy, !
  — É claro que é! Você está sempre andando por aí com os seus amiguinhos populares, indo à festinhas e todas as meninas ficam cochichando e suspirando quando vocês passam, o que, particularmente, me dá náuseas. Sem esquecer esse seu topete que não sai do lugar e a jaqueta de couro sempre a espera de uma donzela indefesa precisando ser aquecida! — refuto, irônica.
  — Para alguém que odeia estereótipo, você se baseia demais neles. Não fumo porque quero aproveitar minha vida e não acho que me matar lentamente faça parte disso. Quando saio para festas, vou para curtir e não para competir ou apostar quantas garotas consigo ficar em uma noite. Meus amigos fazem estupidez às vezes, mas isso não quer dizer que eu devo agir como eles. Pensei que me conhecesse melhor.
  Não posso negar que por um segundo — e só por um segundo — eu tenha me sentido estúpida por tê-lo acusado daquela maneira.
  — Tudo bem, me desculpe. Talvez eu tenha exagerado um pouco.
  — Como é? Eu ouvi direito? Você acabou de admitir que está errada?
  — Não abuse, ! — lanço-lhe um olhar furioso.
  — Já falei para não me chamar assim, é feio! — o protesta.
  — Minha mãe te chama assim.
  — Sua mãe não me dá suéter estampado com uma rena do nariz vermelho de presente de Natal!
  — Ei, aquele era um suéter muito fofo e confortável e ficou ótimo em você! — respondo, ultrajada.
  — Claro e agora eu sou zoado de Rudolph em todo maldito Natal por causa dele!
  — Ops...?
  — Ops? Você vai ver o ops quando eu...
   automaticamente para de falar quando vê o garçom se aproximar carregando nossos pratos e sorrio divertida. O homem põe os pratos sobre a mesa e nos deseja “bon appétit!” e apenas sorrio em agradecimento. Encaro o pedaço de bife em meu prato e os variados talheres em sua volta sem saber por onde começar. Merda, qual faca usa para o que mesmo?
  Consigo sentir o olhar de sobre mim, esperando uma atitude minha. Eu me sentia um daqueles caras do esquadrão antibombas, um corte errado e seria fatal — na verdade eu só teria de deixar meu orgulho de lado, o que, para mim, seria fatal.
   Agarro os talheres mais próximos ao prato e opto por começar pelo mais fácil: O bolo de siri.
  — , você não precisa cortar o bolo com garfo e faca, ele é como pão, então você pode fazer com a mão mesmo.
  Involuntariamente largo os talheres sobre o prato, provocando um barulho alto, e sinto meu rosto esquenta. Fazia tempo que eu não me sentia tão envergonhada. Será que alguma dessas facas está afiada o suficiente para eu cortar o meu pescoço e acabar logo com isso?
  — Eu deveria tê-la avisado antes. Desculpa.
  — Não, tudo bem, eu só... Como você consegue se lembrar de tudo isso e seguir sem dificuldade? Quer dizer, você me ensinou tudo faz dois dias e eu não lembro mais nada! Acho que sofro de perda de memória recente!
  — É uma questão de prática, com o tempo vai se tornar algo tão comum que você nem vai perceber. Eu pratico bastante desde criança, minha mãe costumava me dar prêmios por cada coisa que eu decorava ou fazia certo.
  — Uau! Pelo menos você era reconhecido! Uma vez, quando tinha cinco anos, decorei todas as falas de uma história infantil em francês e minha mãe apenas riu e disse “Que fofa!”
  Volto minha atenção para o pedaço de carne em meu prato, cortando-o e enfiando em minha boca. Falar sobre Eleanor Fletcher sempre me deixa nervosa — e ficar nervosa me deixa faminta.
  —Talvez realmente tenha sido fofo. — o ergue os ombros.
  — Ela me odeia, !
  — Ela não te odeia! Ela é sua mãe, só quer o melhor para você!
  — Você sabe quão frustrante é a pessoa que te pôs no mundo estar constantemente tentando te mudar só para manter as aparências e seguir um padrão estúpido? Acho que não! — solto os talheres sobre o prato novamente, exasperada.
  — Você precisa conversar com ela! Diga como se sente e como isso afeta o laço de vocês!
  — E você acha que eu nunca tentei!?
  — Já tentou uma conversa sem gritaria, palavrões e dedos apontados? — questiona e permaneço em silêncio. — Por favor, promete que vai tentar ter uma conversa civilizada com sua mãe no dia do jantar de Ação de Graças?
  Sinto a mão de tocar a minha sobre a mesa, porém não me afasto ou demonstro qualquer reação. Eu apenas conseguia fitar o prato quase intocado à minha frente. Iria mesmo valera pena ter essa conversa?
  — ... — O faz uma leve carícia sobre o dorso de minha mão e finalmente ergo os olhos para encarar a imensidão esverdeada em seus olhos e suspiro.
  — Tudo bem, vou tentar! — Um sorriso satisfeito se forma em seus lábios.
  — Quero te ajudar, , mas você é a única que realmente pode fazer isso.
  Concordo com a cabeça e sorrio levemente. Logo depois voltamos a comer e engatamos em uma conversa sobre nosso progresso na faculdade. conta que não foi bem na prova de Cena e Dramaturgia, por conta do excesso de matéria para estudar, e não pude deixar de rir e zoá-lo por não ser mais o aluno exemplar, o que o deixou bastante chateado.
  Para sobremesa, pedimos torta de maçã e terminamos a garrafa de vinho enquanto o estraga prazeres do constantemente me mandava beber água depois. Apesar de tudo, o jantar fora divertido — ou talvez era eu quem estava alegre demais.
  Chegamos em casa por voltar de meia-noite. Assim que abro a porta, trato de correr para o sofá e me livrar da sandália que apertava e machucava meus dedos — quem diz que ser mulher é fácil, nunca teve de usar salto alto — e suspiro aliviada. logo se junta a mim e também larga seu corpo sobre o móvel.
  — Você se saiu bem hoje, soub...
  Subitamente ponho uma mão em cada lado do rosto de e, antes que meu cérebro pudesse me impedir, grudo meus lábios aos seus. Involuntariamente o corpo do garoto responde, abraçando o meu com firmeza. Ainda era possível sentir o gosto adocicado do vinho e da maçã em sua boca.
  Mas que merda, será que beijar esse maldito nunca se tornará ruim?
  Afasto-me lentamente, sentindo meus lábios formigarem e sorrio satisfeita. Confesso que estava tentada a fazer isso desde que o vi vestindo aquele smoking. me encara com total confusão estampada em seu rosto.
  — Por que você me beijou sem ter dito palavrão?
  — Primeiro: Porque você fala demais. Segundo: Para agradecer por hoje e terceiro: Estávamos devendo beijo um ao outro, então agora estamos quites. — Dou dois tapinhas sobre seu peito e me levanto do sofá. — Boa noite, !

Chapter V — Friday

  

Sou acordada aquela manhã por mensagens de Summer praticamente me intimando a encontrá-la na cafeteria do campus. Deixo meu apartamento com o pensamento de que o que estava por vir não seria algo bom. Até eu, Fletcher, uma pessoa que nunca esteve em um relacionamento, tenho plena consciência de que quando você recebe uma mensagem dizendo “precisamos conversar”, é algo sério.
  Inúmeras possibilidades circulam por minha mente enquanto eu caminho rumo ao prédio principal da UCF.Cogito ela ter terminado com Jake ou talvez estivesse grávida dele. Chego a temer que ela tenha descoberto que peguei seu delineador emprestado há mais de um mês e ainda não havia devolvido — e talvez nunca vá — ou que eu manchei com ketchup uma de suas blusas favoritas.
   Adentro o estabelecimento, avisto minha melhor amiga sentada à habitual mesa no canto e vou ao seu encontro.
  — Bom dia, Summer! – cumprimento-a e me sento na cadeira à sua frente.
  — Por que você está tão feliz a essa hora da manhã? – a negra questiona com uma sobrancelha arqueada.
  — Porque é sexta-feira! Noite das garotas, lembra?
  — É, lembro.
  — Qual é! Você adora as noites em que passamos juntas, bebendo, dançando ou assistindo filmes e nos divertindo até o dia amanhecer. Vou comprar algo para comer e espero ter minha melhor amiga de volta quando voltar.
  Levanto-me, vou até o balcão, peço um latte e dois croissants. Solicito também garfo e faca, o que fez a atendente me olhar estranho, mas atender ao pedido. Quando volto a mesa, Summer continuava com a mesma cara de quem comeu presunto estragado e agora estava com dor de barriga — falo por experiência própria.
  — Da para explicar o porquê de você estar com essa cara?— questiono, irritada, enquanto me sentava à mesa. — Hoje supostamente é para ser nosso dia!
  — Encontrei com Scott quando vinha para cá hoje — Minha melhor amiga diz,calmamente. Agradeço a todos os deuses existentes por não estar tomando meu café ainda, pois provavelmente teria cuspido tudo em cima dela. – Ele disse que sentia muito pela minha avó, o que me deixou bastante confusa, já que ela morreu há dois anos!
  Bebo um pouco do meu café, na intenção de manter minha boca ocupada para que eu não tenha como responde-la, e Summer cruza os braços, me encarando com uma expressão nada boa.
  — Você não vai dizer nada sobre isso?
  — Foi mal? — Tento a primeira desculpa que me vêm à mente.
  — Foi mal!? Você sai matando meus parentes por aí e tudo que tem a dizer é isso!? — minha melhor amiga vocifera, transbordando indignação.
  — Ela já está morta, não achei que teria algum problema! Foi a única desculpa que consegui pensar para fugir daquele encontro!
  — Fugir? Você parecia animada em sair com Scott, por que fugiria?
  Corto um pedaço do croissant, enfiando-o na boca logo em seguida.
  — Pare de comer para não ter de me responder, ! — Summer puxa meu prato para si.
  Merda. A pior parte de ter uma melhor amiga, é ela conhecer todos os seus truques.
  — Ele é um completo babaca narcisista!
  — Ah, não, ...
  — Juro que não estou exagerando ou problematizando demais, eu realmente pensei que fosse ser diferente. Tentei não julgá-lo pelo estereótipo de que, por ser um homem branco, rico, famoso e heterossexual, ele só pensa com a cabeça de baixo, mas é a mais pura verdade! Scott só pensa em si mesmo e só sabe falar sobre suas incríveis habilidades em campo e prêmios que ganhou por isso e como é um homem forte, bonito, desejado e macho alfa, mas duvido que saiba encontrar um clitóris! — digo, revoltada, e Summer ri.
  — Então você resolveu simplesmente matar minha avó e sair correndo?
  — Falando dessa forma parece ser algo muito cruel, porém, sim, foi exatamente isso. Liguei para o ir me buscar e...
  — Você ligou para o ao invés de mim!? — ela grita, indignada.
  — Porque sabia que se ligasse para você, iria receber sermões, como está acontecendo agora!
  — Tudo bem, desculpa, acho que me alterei um pouco. Você sabe o quanto eu odeio mentiras.
  — Eu sei. Juro que foi por uma boa causa.
  — Foi tão ruim assim?
  — Foi quase tão ruim quanto o Mike, a única diferença é que eu não deu tempo de eu vomitar nele. — Faço uma careta ao relembrar o momento.
  Mike foi um cara com quem saí no primeiro ano da faculdade e que não era muito adepto à higiene e ainda beijava mal.
  — Meu Deus, não dá para imaginar quão ruim deve ser reviver o episódio do Mike. Melhor mudarmos de assunto, o que você fez ontem? Não a vi o dia inteiro.
  — Eu, hum, tive um dia bem corrido.
  — E à noite? Você não estava online para fazermos FaceTime.
  — Eu saí para jantar com o ... — digo em um quase sussurro.
  — Vocês tiveram um encontro!? — a garota praticamente berra.
  — Não foi um encontro, foi um treinamento!
  — Treinamento só se for para o futuro relacionamento de vocês, né? — Abro a boca para protestar, porém ela me interrompe. — Não venha com desculpas, porque isso que está acontecendo entre vocês não é amizade. Amigos não fazem acordos em que precisam beijar a boca um do outro!
  — Você 'tá exagerando. Eu preciso da ajuda dele e essa foi a única condição. Falta menos de uma semana para o Dia de Ação de Graças e eu preciso desesperadamente aprender essa merda de etiqueta.
  — Você está comendo pão com garfo e faca, , acho que já aprendeu o suficiente!
  — Eu preciso praticar! Assim como o jantar de ontem foi exatamente pra isso: praticar.
  — Ok, não vamos mais discutir sobre isso,você é adulta e sabe o que está fazendo, só não diga que não avisei. O que vamos fazer hoje?
  — Sei lá, entraram alguns filmes novos na Netflix e...
  — Netflix? Quem é você e o que fez com minha melhor amiga? — Summer me fita com o cenho franzido.
  — Não posso sair hoje, preciso poupar energia para o jogo de amanhã, você sabe quão intensa eu posso ser.
  — Você vai ao jogo? Pensei que não gostasse mais do Scott.
  — Ele pode ser um idiota, mas ainda é um bom jogador, seria desperdício não usar os ingressos que ele me deu e você sabe o quanto eu odeio desperdício. Além do mais, tem o show do Jake amanhã e a comemoração pós-jogo, então não perderemos nada se não sairmos hoje. — dou de ombros. — Agora vamos comer, por favor, porque essa conversa me deixou faminta eu tenho aula em vinte minutos.
  Summer concorda e voltamos a comer enquanto discutimos quais serão os filmes que assistiremos à noite. Fico feliz por finalmente estar em uma conversa pacífica, sem estresse, e, principalmente, sem .

**********
  

Durante a aula de Visualização Fotográfica, Professor Alderson nos deu a tarefa de literalmente observar o campus. Cada aluno deveria escolher um local e fazer relatório sobre ângulo, iluminação, efeitos e filtros que seriam usados, para só então tirar a foto. Escolho o prédio da Student Union, pois o acho bonito e é o segundo lugar em que mais frequento dentro da Universidade.
  Para a minha surpresa, estava parado exatamente na entrada do edifício, então procuro manter uma boa distância – não que eu estivesse fugindo dele, porém passar um dia inteiro sem e esse impulso idiota de querer beijá-lo seria muito bom, obrigada. Ignoro sua presença e mantenho o foco no trabalho. Anoto o que acho necessário no bloco de notas do celular, ajusto a sensibilidade ISO aproveito a própria luz do Sol e abertura do diafragma da câmera para dar profundidade ao fundo e destacar o prédio.
   Após registrar a fotografia, vou direto para casa aproveitar o tempo que me resta sozinha. Tomo um longo banho de banheira, para me livrar do estresse acumulado durante a semana – e talvez tenha cantado Sweater Weather um pouco mais alto que o recomendado – e peço delivery de Yakisoba. Termino o relatório e logo envio para o professor, porque eu definitivamente não queria perder ponto por atraso, e aproveito o tempo livre para tirar um cochilo.
  Por volta das oito da noite, o interfone toca e o porteiro anuncia que Summer havia chegado, permito sua entrada e coloco a pipoca para estourar no microondas. Logo ela bate à porta e vou direto atende-la. A negra vestia seu pijama de coração — que me fez rir. — e carregava uma sacola em uma das mãos.
  — Pronta para mais uma noite das garotas?
  — Não acredito que você andou na rua vestida assim — Dou espaço para que ela pudesse entrar.
  — O corpo é meu, se quiser andar pelada por aí, ninguém tem nada a ver com isso. — ela dá de ombros.
  — É, você realmente é minha melhor amiga — digo, arrancando-lhe uma risada. — 'Tô fazendo pipoca!
  Viro-me para a cozinha e faço menção para que ela me acompanhe. Summer põe a sacola sobre a bancada e retira de lá uma garrafa de vinho e algumas barras de chocolate.
  — Diga que me ama.
  — Estou te amando tanto agora que poderia te beijar. — Praticamente pulo em cima dela, envolvendo-a em um abraço e minha melhor amiga me empurra, com a expressão enojada.
  — Não, obrigada, guarde sua saliva para o . Aliás, cadê ele?
  — Não sei, não o vi o dia inteiro e gostaria que continuasse assim. — o microondas apita e eu caminho até o aparelho, retirando o pacote com a pipoca de lá.
  — Isso é por causa do que conversamos hoje cedo? — Summer pergunta com uma sobrancelha arqueada.
  — Podemos não falar sobre isso? É noite das garotas, vamos falar sobre nós. Homens. Não. São. Permitidos!
  — Está bem! Vou derreter o chocolate, porque essa pipoca está muito sem graça.
  Summer vai até o armário, pega uma panela e depois leva ao fogo. Não me intrometo, pois cozinhar nunca fora uma especialidade minha, então apenas observo enquanto me servia de uma taça do vinho.
  Poucos minutos depois já estávamos acomodadas em minha cama king-size, cercadas por comida. E então começamos novamente a discussão sobre qual filme seria o primeiro e a saga se repete: consideramos milhares de filmes, no entanto, sempre acabamos assistindo o velho e clássico Mean Girls – cujo assistimos tantas vezes que já havíamos decorado todas as falas e, inclusive, dividimos em: Summer dublar as falas de Regina e Karen e eu dublo Cady e Gretchen — que, na minha opinião, sempre foi a melhor personagem. Contudo, nada se compara ao momento mais esperado: A dança do Jingle Bell Rock – tínhamos os passos todos ensaiados, obviamente.
  — What a bright time! it's the right time! To rock the night away! — começo, imitando a coreografia.
  — Jingle bell time is a swell time! To go gliding in a one-horse sleigh! — Summer completa.
  — Giddy-up jingle horse, pick up your feet! Jingle around the clock! — cantamos juntas. — Mix and a-mingle in the jingling feet! That's the jingle bell, that's the jingle bell, that's the jingle bell rock! – Finalizamos e caímos na gargalhada.
  — A gente precisa parar com essa merda! Não temos mais dezessete anos! – digo, voltando a rir.
  — E acabar com meu sonho adolescente de ser Regina George? – Summer fala em falso tom ofendido. — De jeito nenhum!
  — O que você acha que minha mãe faria se eu chegasse na casa dela no Natal dançando essa música e vestindo apenas um gorro?
  — Ela iria ter um ataque do coração ou te matar, mas com certeza você já teria morrido devido ao frio.
  — Droga, era uma ideia fantástica! – reclamo, realmente aborrecida, e volto a deitar em minha cama. Summer me acompanha e pausa o filme.
  — Por que toda essa implicância com a sua mãe? Ela não é tão ruim quanto você diz.
  — Não é ruim com você e com todas as outras pessoas, menos comigo!
...
  — Quer saber o porquê de eu não ter um carro próprio? — questiono e ela assente. — Todos os meus amigos ganharam um quando completaram seus dezesseis anos, e eu estava tão esperançosa em também conseguir um que pedi um jipe, porque sabia que se pedisse uma moto ela iria surtar. Dona Eleanor virou para mim e disse: “isso não é um automóvel para uma moça de família. Não é feminino”, então ela proibiu meu pai em cogitar me dar um carro até que eu quisesse algo mais feminino. Comecei a juntar dinheiro por conta própria e ela simplesmente bloqueou minha conta! Ela quer que eu tenha, sei lá, um conversível rosa! - Seria legal ter em um conversível rosa... — Summer murmura, fazendo-me fita-la, enfurecida.
  — Ela só me deixou fazer esse curso e estudar aqui porque o também veio pra cá estudar Teatro e tudo que ele faz é perfeito! Eu sei que todas essas coisas que eu disse são totalmente white girl problems, mas eu juro que parece que ela me odeia e faz de tudo me irritar!
  — Olha, Fee, eu nunca tive uma mãe, então não sei como é passar por essas, mas sei que o único jeito de você conseguir se livrar da sua mãe pegando no pé será arrumando um emprego.
  — Eu tento, mas ninguém quer contratar uma garota universitária que só sabe tirar fotos e lutar contra o patriarcado! E estamos no meio do semestre, não há possibilidade de conseguir um estágio agora!
  — Você pode começar a vender maconha. — Minha melhor amiga dá de ombros. Encaramo-nos por alguns segundos até que subitamente começamos a rir de novo. Abraço-a, feliz por saber que poderia contar com ela em qualquer momento.
  — Vamos continuar nossa noite das garotas. Que tal As Branquelas? — sugiro.
  — Sim, por favor!
  Seleciono o filme e dou play, iniciamos mais uma sessão de dublagens, danças de coradas e muitas risadas.

*********
  

Acordo por voltadas três da manhã, sentindo minha garganta seca, e após alguns minutos de batalha interna entre me levantar e ir tomar um copo d'água — aproveitando para comer alguma coisa — ou simplesmente continuar no conforto da minha cama e voltar a dormir, decido por fim deixar a preguiça de lado e arrastar meu corpo até a cozinha. Abro a geladeira, retiro de lá uma garrafa com água e sigo para o armário, retirando um copo do seu interior — normalmente eu beberia direto da garrafa mesmo, mas como estou em fase de treinamento para ser educada, preciso de um copo. Ponho-o sobre a bancada, porém o objeto acaba balançando e rolando sobre a superfície de mármore, espatifando-se no chão.
  — Que barulho foi esse? — A voz de surge da entrada da cozinha.
  Devido ao susto, dou um passo para trás e sinto uma leve ardência sob meu pé direito. Um gemido escapa pelos meus lábios, direciono o olhar para o chão e vejo uma trilha de gotas de sangue; apoio-me na bancada, sentindo minhas pernas amolecerem, e uma onda de desespero subir pelo meu corpo, junto à sensação de que uma pedra enorme se instalara em meu peito, esmagando meus pulmões.
  — Você está bem? – o se pronuncia mais uma vez, porém minha angústia era grande demais para lhe dar devida atenção. — ?
  — Não... Consigo... Respirar! — digo, arfante.
  Sem hesitar, o garoto segura em minhas mãos e me auxilia a me sentar sobre um das cadeiras rente à bancada, afastada dos cacos de vidro.
  — Está tudo bem, provavelmente foi só um susto.
  — Você não entende! Eu não... — Minha voz falha e sinto lágrimas se acumularem em meus olhos.
  — , olhe para mim. — o ordena e eu obedeço. — Quero que tente respirar fundo, prenda a respiração por alguns segundos e solte, depois repita mais quatro vezes, ok? Não se preocupe, estarei aqui, contando com você.
  Concordo com a cabeça e sorri encorajador, apertando minhas mãos com as suas. Inspiro profundamente, seguro a respiração por cinco segundo e inspiro vagarosamente.
  — Um... — O garoto inicia.
  Encaro o mar esverdeado de seus olhos e repito o processo anterior.
  — Dois... — eu mesma anuncio. Respiro fundo mais uma vez.
  — Três... — continua.
  A medida que o ar entrava e saía por minhas narinas, as batidas do descompassadas do meu coração iam se acalmando e voltando ao normal. O sentimento de que eu iria morrer sufocada a qualquer instante também se dissipava.
  — Quatro...
  Repito os movimentos respiratórios pela última vez, sentindo a tranquilidade tomar meu corpo.
  — Cinco! — O garoto retira um copo do armário e preenche com água que eu havia retirado da geladeira. — Toma. Copo de plástico, só por precaução. Sente-se melhor?
  — Sim, obrigada — respondo com um sorriso e pego o copo de sua mão, dando um generoso gole.
  — Posso dar uma olhada? — aponta para o meu pé e eu apenas assinto.
  O se ajoelha no chão à minha frente e segura cuidadosamente em meu calcanhar, elevando um pouco minha perna para que pudesse analisar melhor. O movimento faz com que eu sinta uma pequena pontada de dor, porém não demonstro e apenas mordo o lábio inferior.
  — Foi um corte superficial, não precisa se preocupar, mas vamos precisar limpar e desinfetar.
  Antes que eu pudesse abrir a boca para lhe responder algo, já estava de pé e tinha um de seus braços posicionado atrás de meus joelhos e o outro apoiava minhas costas enquanto ele tentava erguer meu corpo.
  — ! — exclamo, irritada.
  — Que foi? Você não vai conseguir ir andando mesmo!
  Emito uma bufada de ar, em desaprovação, contudo, permito o sustentar e conduzir o meu corpo corredor adentro, até o banheiro de seu quarto, onde ele me assenta sobre o mármore da pia. Observo-o procurar por algo dentro do armarinho – para evitar qualquer contato, mesmo que acidental, com meu pé ensanguentado. Só em pensar naquele líquido vermelho escorrendo pela minha pele, o sentimento de pleno pavor voltava a se apossar de meu corpo, então decido distrair a mente iniciando uma conversa:
  — Eu tenho hemofobia. — explico.
  — Você tem medo de pessoas emos? — questiona com a expressão confusa.
  — Não, idiota, de sangue! Quer dizer, não somente de sangue, mas de qualquer coisa que posso machucar ou fazer sangrar, incluindo agulhas.
  O garoto parece finalmente ter achado o que procurava e põe uma pequena maleta vermelha sobre a pia, erguendo seu corpo em seguida. Ele me encarava como se tivesse acabado de descobrir a coisa mais incrível do mundo.
  — Então é por isso que você não tem tatuagem! Sempre achei estranho você nunca ter feito uma para provocar sua mãe. - Acredite, eu gostaria muito de poder.
   ri e balança a cabeça, desaprovando minha atitude, lava as mãos na água corrente da torneira e pega um pedaço de gaze. Em seguida, ele se senta sobre a tampa da privada, apoia meu pé sobre seu colo e pressiona sobre o corte, fazendo com que um leve gemido de dor escapasse por entre meus lábios. Escoro meu corpo na parede e direciono o olhar para o teto, tentando espairecer.
  — Começou quando eu quebrei a perna andando de skate. Acabei com todo o sonho da minha em me ver cursando Medicina.
  — Eu me lembro desse dia! Foi louco, sua perna parecia o braço do Harry depois do feitiço Brancchium Emendo!
  — Você não deveria me provocar quando posso facilmente acertar um chute bem no meio da sua cara! — ameaço, arrancando uma risada do garoto.
  O pede para eu molhar um pedaço de algodão e lhe entregar e eu obedeço. Sinto o matéria gélido e úmido contra minha pele, o que, de certa forma, me acalma.
  — Dormi no hospital aquele dia — admite, deixando-me surpresa. – Eu e seu primo Noah, nos sentimos culpados porque você estava na pista de skate por nossa causa e eu até deixei um pluto de pelúcia de presente para você.
  — Meu Deus, eu ainda tenho aquele pluto! Minha mãe disse que foi Steve Miller! — exclamo, incrédula. — Bem que eu estranhei ela estar feliz demais por causa de um bicho de pelúcia!
  — É, eu pedi para ela não dizer que fui eu.
  — Steve foi meu primeiro beijo por causa daquele bichinho de pelúcia.
  — Droga, preciso ir à casa daqueles bastardo e pedir meu dinheiro de volta! — reclama e eu rio.
  — Pensei que você me odiasse quando éramos crianças.
  — Nunca te odiei de verdade. Eu tinha dez anos, garotas não eram algo muito interessante naquela época. Você também não facilitava, sempre se intrometendo nas nossas brincadeiras.
  — Eu não tinha com quem brincar! Todas as garotas do quarteirão preferiam brincar de boneca e idealizar uma vida de contos de fadas! Além disso, te irritar sempre foi algo muito divertido, aliás, continua sendo. – sorrio.
  — Você não deveria me provocar quando posso facilmente deixá-la aqui sangrando. — o revida e cruzo os braços, emitindo uma bufada de ar.
  Permaneço calada pelos próximos minutos, esperando ele terminar seja lá o que estivesse fazendo com meu pé. Para me livrar do tédio, agarro a pequena bolsinha de primeiros-socorros e começo a revirar seu conteúdo, até encontrar algo que me faz gargalhar.
  — Você usa band-aid do Homem-Aranha!? – questiono, entre risadas.
  — Foi o mais barato que encontrei, ok? O que eu acho uma grande injustiça, já que ele é um dos poucos super-heróis que realmente tem problemas e contas a pagar.
  — Olha, vou ter de concordar com você!
  O se levanta e arranca o kit de minhas mãos, retirando de lá um pequeno frasco de spray. Meus olhos automaticamente se arregalam em pavor.
  — Não! — protesto. — Essa porra arde pra cacete! - Se eu não aplicar isso, existe uma grande chance do corte infeccionar, a dor será maior e você terá de enfrentar um hospital cheio de pessoas feridas e agulhas de todos os tamanhos. É isso que quer? - Balanço a cabeça negativamente. – Então seja uma boa menina e fique quietinha. Bufo, impaciente, e permito que volte a apoiar meu pé sobre sua perna. Ele borrifa o antisséptico sobre o machucado, provocando uma intensa ardência no local. Seguro fortemente a beirada da pia, descontando ali minha dor.
  — Ai! Caralho, ! – reclamo, lutando contra o impulso de puxar o pé.
  — Estou fazendo o melhor que posso! Fique parada!
  — Onde você aprendeu tudo isso, afinal? — questiono enquanto ele cobria o corte com o curativo.
  — Acampamento de verão. — o da de ombro. — Tinha de servir para alguma coisa.
   recolhe todo o material usado, jogando fora o que não servia mais, e guarda o Kit, em seguida se posiciona entre minhas pernas.
  — Agora você vai fazer o mínimo esforço possível para não correr o risco de abrir o machucado, não é, princesa desastrada? – assinto com a cabeça e aperta meu nariz entre seus dedos indicador e médio, fazendo-me enrugar o rosto.
  — Então... — agarro a barra de sua camisa, puxando-o para mais perto. — Não vou ganhar um pirulito por ser uma boa paciente?
  — Não devia pedir isso no mesmo lugar onde você simplesmente agarrou meu pênis, . — O garoto diz após emitir uma risada.
  — Aquilo foi acidente! – exprimo em falso tom indignado.
  — Oh, é mesmo? – Murmuro “uhum” e circulo seu pescoço com meus braços. — Então se eu fizer isso aqui também será um acidente?
  O segura em ambos os lados do meu rosto e pressiona seus lábios contra os meus. Agarro os fios acobreados de seus cabelos e afasto os lábios, permitindo a passagem de sua língua, que não demora a se encontrar com a minha. Apesar de intenso, o beijo também é carinhoso, suas mãos não deixaram de acariciar meu rosto nem por um segundo. Era quase como se ele tivesse medo de que eu fosse desaparecer a qualquer momento.
  Afastamo-nos lentamente – só porque ainda somos seres humanos que necessitam de oxigênio para viver -, porém continuamos a poucos centímetros um do outro.
  — Essa coisa fica melhor a cada dia – sussurra exatamente o que se passava em minha mente, e eu solto uma risada, concordando com a cabeça.
  Ponho as mãos sobre seu peito, afastando-o um pouco mais, pois estava ficando quase impossível raciocinar àquela distância — e o cheiro de cerveja emanando de seu hálito também estava um tanto forte. Só então percebo o que ele vestia: Calça jeans, camisa gola V — que agora talvez estivesse um pouco suja com meu sangue — e jaqueta, e chego a conclusão de que ele estava em algum lugar bebendo com os babacas dos amigos dele.
  Só para ficar claro, isso não é uma crise de ciúmes ou algo do tipo, eu apenas sou muito perceptiva e curiosa.
  — Como foi sua noite de sexta-feira? — pergunto.
  — Foi legal. Fomos ao bar, bebemos algumas cervejas e jogamos sinuca... Até o Greg brigar com um cara e nós sermos expulsos. Eles queriam continuar a bebedeira na casa do Alex, mas eu preferi vir embora.
  — Nunca agradeci tanto por aquele garoto ser um idiota. — confesso, provocando uma risada em .
  — Posso te fazer uma pergunta? Promete que não vai me bater?
  — Tenho uma leve impressão de que não vou gostar nada dessa pergunta, mas vou me esforçar ao máximo.
  — Se você tem fobia de sangue, como faz quando está menstruada?
  Fito-o por alguns segundos, esperando ele admitir estar brincando, porém o também me olhava à espera de resposta. Minha expressão muda de séria para revoltada.
  — Você 'tá brincando, né?
  — Não, é uma curiosidade. — o garoto ergue os ombros em indiferença.
  — Cala a porra boca antes que eu volte à cozinha, pegue um daqueles cacos de vidro e enfie no seu cu! — ameaço, furiosa. — E para a sua informação, os ataques só acontecem quando representa algum perigo e não quando é algo natural do corpo. Mas confesso que fiquei apavorada quando aconteceu pela primeira vez, nenhuma criança acha normal começar a sangrar pela vagina de repente. Fazia tempo que eu não tinha um ataque, fiz anos de terapia, eu realmente achava que tinha superado essa merda.
  — Todo mundo tem seus medos, . É o que nos torna humanos.
  — Não é um medo racional, ! É agonizante, te deixa frágil e impotente!
  — Se você quiser voltar a fazer terapia, tenho amigos da área de Psicologia que podem te ajudar. Só não deixe isso te definir, ok? Você é Fletcher, lembra? Nada pode te derrubar.
  — É, você tem razão — sorrio. -, porém tem uma coisa que ainda pode me derrubar: O sono.
   ri e concorda com a cabeça.
  — Vou levá-la de volta ao seu quarto. Ainda preciso limpar aquela bagunça na cozinha, tomar um banho e tirar esse cheiro de cerveja de mim.
  Me contive para não soltar um “não me importaria de ficar mais um pouco e assistir”.
  O novamente ampara meu corpo com seus braços e círculo seu pedaço com os meus — não vou mentir e dizer que não me aproveitei do momento para aspirar seu cheiro. Atravessamos o corredor em silêncio e me põe de pé frente a minha porta.
  — A princesa está entregue aos seus aposentos. — brinca, fazendo-me rir. — Quer que eu a leve lá dentro?
  — Não precisa, eu me viro. Se Summer acordar e te ver aqui ou descobrir o que aconteceu hoje, não vai me deixar em paz por um bom tempo.
  — Tudo bem, acho que vou voltar pro meu quarto. Qualquer coisa estou do outro lado do corredor. — Ele aponta para a própria porta. — Boa noite, .
  — Boa noite, . — respondo.
  Viro-mede frente para o meu quarto e seguro a maçaneta, porém hesito por alguns segundos. Por algum motivo, eu não queria entrar. Sinto meu braço ser puxado e meu corpo é prensado contra a porta e só percebo realmente o que estava acontecendo quando encontro os olhos verdes de . Brilhantes. Luxuriosos. Sedentos.
  Sem dizer palavra alguma, no instante seguinte sua boca já estava sobre a minha em um beijo ardente e desesperado. Não importa as vezes que repetimos aquilo, nunca parecia suficiente. Nunca era suficiente. Nos separamos, ofegantes.
  — Você disse... Um palavrão a mais.
  — Sério? Porque... Acho que... Foram dois. Melhor não... Deixar... Dúvidas. — Sorrio maliciosa e retribui, logo iniciando outro beijo.
  — Ok... Eu realmente preciso de um banho frio. — conclui e ambos rimos. - Agora é sério. Até amanhã, .
   volta a caminhar em direção ao seu quarto, contudo, novamente algo me impedia de entrar no meu.
  — Obrigada — digo, de repente. – Não pelo beijo, mas por tudo que tem feito até agora. Provavelmente eu já teria enlouquecido se não fosse por você. E não estou dizendo isso só para ser educada.
  — Dessa vez você não precisa agradecer. É para isso que os amigos servem, certo?
  — Certo. — Sorrio levemente. — Até amanhã, .
  Finalmente adentro meu quarto, caminho mancando até a cama, me deito ao lado de Summer – que ainda roncava -, fecho os olhos e aos poucos meu corpo relaxa até que, por fim, caio no sono com um sorriso no rosto.

Chapter VI (Part I) — Saturday

  

Sinto meu corpo balançar como se o colchão abaixo de mim fosse feito d’água. Abro os olhos lentamente, me arrependendo no segundo em que eles encontram minha melhor amiga literalmente pulando sobre a minha cama. Emito uma bufada de ar e cubro minha cabeça com o edredom, protegendo-me da claridade.
  — Me deixa dormir! — resmungo enquanto tentava impedir que Summer retirasse o edredom sobre mim.
  — Nada disso! Nós temos um jogo para ir! Tem um time inteiro de caras usando roupas coladas, prontos para se matarem atrás de uma bola oval, esperando por você! — Permaneço imóvel. — !
  Minha melhor amiga puxa o pedaço de pano para si, descobrindo meu corpo, e eu agarro um travesseiro, escondendo minha cabeça embaixo dele.
  — Meu Deus! O que houve com o seu pé?
  Automaticamente após ouvir aquelas palavras, meu corpo inteiro entrou em alerta, fazendo com que meus olhos se arregalassem e eu pulasse sobre a cama, sentando-me em posição de índio e tentando a todo custo esconder meus pés sob mim.
  —N-nada! Não ouve nada!
  — Como nada? Tem um curativo enorme aí! — ela aponta para mim, exalando indignação.
— Eu acabei me cortando de madrugada quando fui beber água. Foi superficial, nada demais. — dou de ombros, tentando soar o mais natural possível — o que obviamente não deu certo.
  — Mesmo sendo um corte pequeno, você não conseguiria fazer o curativo sozinha. —Summer me encara com os olhos semicerrados e eu praguejo mentalmente.   — te ajudou, não foi?
  Abro a boca para inventar alguma desculpa, porém, antes que eu pudesse formular uma frase, alguém bate na porta. Summer me lança um sorriso malicioso e corre até ela para abri-la.
  — Eu vim trocar o curativo — enuncia, erguendo a caixa de primeiros-socorros.
  Summer dá espaço para que ele pudesse entrar, lançando-me um olhar sugestivo em seguida.
  — Vou tomar banho e deixar os pombinhos da madrugada a sós! — ela sorri, provocando o meu revirar de olhos, e segue para o banheiro.
  — Você tem um timing perfeito — debocho.
  — Não precisa me agradecer! — o ruivo diz, antes de se sentar ao meu lado, puxar meu pé para o seu colo e retirar o curativo. — Como está o pé? Dói? — ele questiona, pressionando a região ao redor do corte.
  — Ai! Um pouco! — reclamo.
  — Consegue apoiar no chão? — coloco metade do pé sobre o chão, que faz meu rosto se contorcer em dor, não era forte, mais parecia uma fisgada incomoda.
  — Puta que pariu! — exclamo. me encara alarmado, procurando o que havia de errado. — Não posso ir ao jogo assim!
  — E por que não? — ele pergunta visivelmente confuso.
  — Tá brincando? Olha o estado do meu pé! — digo, indignada.
  — E desde quando isso te impede de alguma coisa? — questiona como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
  — Está me incentivando a fazer algo imprudente? — questiono com uma das sobrancelhas arqueadas em desconfiança. — Quem é você e o que fez com Foster?
  — Só estou dizendo que talvez a gente possa se divertir um pouco depois... — ele ergue os ombros e um sorriso começa a se formar em meu rosto. — Mas não se preocupe porque estarei lá para garantir que você não seja tão... você!
  Meu sorriso automaticamente se desmanchou, dando lugar a uma expressão entediada, enquanto eu cruzava os braços abaixo do peito em indignação. Ele tinha mesmo que ter sugerido aquilo e acabar com todas as minhas expectativas segundos depois?
  — E por um segundo achei que você finalmente tinha se tornado uma pessoa divertida!
  — Você me ama desse jeito e sabe disso! — O ruivo lança um sorriso em minha direção, que me fez querer bater nele por ser tão ridiculamente bonito.
  Aguardei impacientemente enquanto limpava o corte, aplicava a pomada e o cobria novamente com outro curativo.
  — Você realmente vai ao jogo só para me supervisionar?
  — Não, serei obrigado a ir de qualquer jeito porque me inscrevi para o time reserva — ele responde, fazendo-me olha-lo surpresa.
  — Você tá no time? Desde quando? — pergunto com o cenho franzido.
  — Desde que conta como atividade extracurricular. Eu só fui a dois treinos, não há chance alguma de eu entrar em campo, só preciso vestir aquele uniforme ridículo, e ficar no canto esperando o jogo acabar. — O garoto retira meu pé de seu colo. — Aliás, já estou atrasado para a apresentação do time!
  Sem que eu esperasse, o ruivo segura meu queixo entre o polegar e o indicador, se inclina em minha direção e cola seus lábios aos meus. se levanta e caminha até a porta ao passo que eu ainda tentava digerir os últimos segundos.
  — Ei, espera aí! — chamo e o garoto se vira em minha direção. — Você realmente me beijou sem eu ter escovado os dentes? — questiono e sorrio assim que vejo a expressão incrédula em seu rosto.
  — Sério, ? Você tinha que dizer isso agora?
  — Eu disse para não sair me agarrando! — Ergo os ombros.
  — Você é inacreditável! — ele joga as mãos para o alto.
  — E você me ama desse jeito e sabe disso! — Lanço-o uma piscadela, emitindo uma gargalhada enquanto assistia o ruivo sair do quarto.

●●●
  

Após tomar banho, vestir minha camisa preta e dourada estampada com número vinte e quatro — que felizmente não era mais o da camisa de Scott —, o boné da mesma cor, o short jeans, o tênis e ouvir muita zombaria vinda de Summer, finalmente saímos de casa.
  Chegamos ao The Bounce House por volta das duas e quarenta. Nossos lugares eram frente à linha de cinco jardas, que era um pouco melhor do que os assentos reservados para estudantes.
  — Que lugar péssimo! — Summer comenta ao olhar em volta e ver um bando de caras sem camisas formando “GO, KNIGHTS!” de tinta preta em seus tórax. — Pensei que por ser quarterback Scott conseguiria lugares VIPs ou algo assim!
  — Nada diferente do que eu esperava daquele idiota! — respondo irritada.
  — Nossa, você está mesmo muito irritada com ele! Parece que todo o encanto do superjogador realmente passou! — ela debocha.
  — Superjogador é o caralho! Ele é um cuzão!
  — Ei, , alguém acabou de dizer dois palavrões! — Summer grita.
  Viro-me para frente e avisto o ruivo dentro do campo caminhando em nossa direção. Ele me chama com um aceno de mão e eu volto minha atenção para minha melhor amiga, lançando-a um olhar furioso.
  — Mas que merda!? Isso é um complô contra mim!?
  — Você fez o acordo, só estou garantindo que você o cumpra! — Ela dá de ombros. — Pode me agradecer depois!
  Emito uma bufada de ar e mesmo contrariada desço os três degraus até a barreira que separa a arquibancada e o campo, tendo de ouvir um alerta para ter cuidado com meu pé, vindo do ruivo. O garoto sorri e segura ambos os lados de minha cabeça, grudando sua boca na minha. Eu estava tão irritada que fiz daquele beijo algo bem violento e grotesco de se ver.
  — Você não consegue ficar mais de meia hora sem me beijar, né? — diz, pomposo.
  — Não consigo ficar mais de meia hora sem te mandar ir pro inferno! — respondo, exasperada. — Eu vou matar a Summer, essa Judas do caralho!
   emite uma risada e me dá um rápido selinho.
  — Não aja como se não gostasse! — ele debocha e eu o empurro para longe.
  —Você não deveria estar no vestiário ou sei lá?
  — Prefiro ficar aqui a ter de ver um bando de caras nus. Minha presença não faz falta de qualquer maneira. — ergue de ombros.
  Abro a boca para zombar de sua frágil masculinidade, porém sou interrompida pela voz do treinador:
  — Foster, vestiário! Agora! Você vai entrar em campo hoje!
  O garoto automaticamente se vira para o homem com a expressão assustada.
  — O quê? — ele berra. — Treinador, eu nem participei dos treinos! Eu nã...
  — Você sabe como chutar a porra de uma bola? — balança a cabeça, meio incerto. — Ótimo! Então pode substituir o Rogers como kicker! Vá se preparar, agora!
  O ruivo se direciona novamente para mim, com o semblante mais branco que papel e completamente carregado em pavor. Não consegui evitar a forte onda de gargalhadas que explodiu pela minha garganta.
  —Você deveria ver a sua cara! — comento apontando para seu rosto, entre risadas. — Tá hilária! Se eu pudesse tiraria uma foto, daria um ótimo meme!
  — Isso não é engraçado, ! — ele rebate, enfurecido. — Não jogo futebol desde, sei lá, meus doze anos! Se eu fizer merda hoje, todos vão me odiar ou zoar com a minha cara!
  —Pense pelo lado bom: Se você for bem, todas as líderes de torcida vão querer você! — ironizo.
  — Quem disse que quero as líderes de torcida? Só a sua boca já é o suficiente pra mim.
  Dou uma risada nasalada e dois tapas levemente em seu peito.
  — Continue sonhando, bebê, quem sabe não se realiza! — lanço lhe uma picadela.
  Mais uma vez a voz do treinador se faz presente, mandando parar de "flertar" e ir para o vestiário antes que ele mesmo o carregasse. O ruivo emite uma bufada de ar em descontentamento.
  — Um beijo de boa sorte? — sugere.
  — Nem fodendo! — respondo, fazendo o garoto ri e colar sua boca rapidamente na minha. — Lembre-se: Você é um ator, pode ser quem caralhos você quiser, então ponha seu uniforme, vá para o meio daquele campo, finja ser Stephen Gostkowski e chute as bundas daqueles filhos da puta!
   concorda com a cabeça e sorri abertamente, antes de segurar em minha nuca e puxar meu rosto para si, unindo novamente nossos lábios em um beijo ardente. Em seguida, ele se despede e segue rumo ao vestiário.
  — Quebre a perna! — vocifero e depois lembro de que não estávamos no teatro e ele poderia realmente sair dali com uma perna quebrada. — Não literalmente!
  — Vou tentar o meu melhor! — ele responde.
  Emito uma risada e me viro de volta para a arquibancada, encontrando Summer com o celular levantado em minha direção. Subo novamente a escada e paro ao seu lado, arrancando o aparelho de suas mãos e descobrindo que ela havia tirado fotos minhas com .
  — Que porra é essa!? — questiono, irritada.
  — Estava tirando fotos do meu OTP! — Ela ergue os ombros e ri.
  — É mesmo, engraçadinha? Então agora você vai ficar responsável por contar quantos palavrões eu disser e também tirar as fotos do jogo! — digo e me jogo na cadeira ao lado dela.
  — Ah, não, ! Minha especialidade é tocar piano e não fotografia! Essa é a sua praia!
  — Estarei muito focada no jogo para conseguir fazer isso. Você posta boas fotos de paisagens no instagram, vai conseguir se virar! — dou de ombros, roubando o pacote de salgadinhos do colo de minha melhor amiga enquanto ela me encara indignada.
  Summer aproveita minha distração e resgata seu telefone, postando em seu instagram e facebook uma foto em que me beijava com a legenda "Duplo F <3". Quase parti para cima dela, mas a desgraçada conseguiu fugir, rindo da minha cara por estar impossibilitada de correr atrás dela.
  Aproximadamente quarenta minutos depois, uma música animada começa a tocar e as lideres de torcida entram em campo dando suas estrelinhas e cambalhotas. Elas continuam a performance com movimentos que me davam preguiça só em pensar em reproduzir. Ao final elas montam duas pirâmides e levantam plaquinha representando as cores do time: preto e dourado. Em seguida o nosso mascote — um cara vestido de cavaleiro medieval — entra acompanhado de dois garotos carregando a bandeira com a sigla "UCF" e começa a dançar de forma bizarra, arrancando gritos da plateia.
  Kernkraft 400 começa a tocar enquanto o time entrava em campo e, como manda a tradição, todos começam a pular — menos eu por estar com a porra do pé machucado —, fazendo o estádio inteiro tremer enquanto batem palmas e gritam para os jogadores — alguns para jogadores em particular.
  Os lideres dos times se reúnem no centro do estádio, é tirado no cara e coroa quem ficará com a bola e os Tulsa Golden Hurricane acabam ganhando, o que quer dizer que os Knights, mais especificamente , deveriam dar o chute inicial. Não pude deixar de pensar no quão fodido ele estava e ao mesmo tempo me sentir como uma mãe orgulhosa ao ver seu filho jogar pela primeira vez.
  Os jogadores se posicionam em seus lugares e se prepara para chutar a bola. Eu poderia jurar que antes de dar o chute ele olhou diretamente para mim, todavia, digo a mim mesma que era só mais uma paranoia da minha cabeça. O kickoff é dado e a bola é agarrada pelo retornador dos Tulsa, que começa a correr e é derrubado logo na linha de 15 jardas, porém se recupera e avança mais 10 jardas, passando a bola para o quarterback e esse por sua vez lança a bola no ar para um Wide Receiver que estava à 20 jardas da Endzone.
  — Esses cornerbacks estão dormindo, caralho? Interceptem essa porra! — vocifero, irritada.
  Mas como eu previa, o corredor consegue agarrar a bola e correr a distância que faltava para marcar o Touchdown, abrindo o placar dos Tulsa e a torcida deles comemora.
  — Vão se foder, seus filhos da puta! Eu defenderia essa porra de campo melhor do que vocês!
  — Vai pra casa lavar louça! Aqui não é lugar de mulher! — um idiota, que estava algumas fileiras atrás, diz.
  Viro-me bruscamente em direção ao babaca que havia dito aquele monte de merda e fuzilo-o com os olhos — só não voei em cima dele porque senti meu pé doer e Summer não permitiu que eu saísse do lugar.
  — É mesmo, imbecil? Então porque você não vai, sei lá, trocar um pneu, carregar sacos de cimento, morrer na guerra...? Ah, lembrei! Têm mulheres que fazem isso bem melhor do que você, né? Lugar de mulher é onde ela quiser, seu cuzão! — replico e outras mulheres em volta me apoiam, então ele não volta a dizer nada.
  Perco a conversão de dois pontos por estar discutindo com aquele idiota e volto minha atenção ao jogo, Scott está com posse da bola e mesmo estando cercado se recusa a passar a bola e por um milagre — ou talvez seja só o ego inflado dele — consegue desviar e marcar um TD.
  — TOUCHDOWN, PORRA! — grito abraçando Summer, que não entendia muita coisa, mas comemora junto.
  Após a marcação do Ponto Extra, o primeiro quarter termina com os Tulsa em vantagem de um ponto. No segundo quarter conseguimos mais um Touchdown, todavia as três descidas para o próximo TD falham e um Field Goal é necessário. Meu corpo inteiro se tenciona quando me dou conta de que quem terá de chutar a bola é . Eu nunca fui uma pessoa religiosa, porém naquele exato momento peço para todos deuses possíveis para que fizesse ele acertar a bola no meio das traves. Ele consegue e eu vibro como se minha vida dependesse disso. O time adversário consegue marcar um Touchdown e o primeiro tempo termina com o placar Knight 18 x Tulsa 16.
  Penso em ir até parabenizá-lo pelo chute e Summer me impede, dizendo que eu não deveria distrai-lo por prazeres sexuais, o que me deixou bastante ofendida porque a minha intenção era puramente apoiá-lo. A fome me atinge e minha melhor amiga me proíbe de me levantar para buscar algo para comer, então assim que avisto o vendedor de cachorro-quente minha única opção foi:
  — Ei, você, moço do cachorro-quente! — grito. — Ei, moço!
  — , pare com isso! — Summer me repreende.
  — Você não me deixa levanta, então preciso gritar! — retruco e volto a atenção ao homem. — Tá surdo, porra?
  O rapaz me olha feio, porém caminha em minha direção. Compro dois sanduiches para mim e Summer me olha com expressão de nojo, dizendo que havia muita gordura saturada ali e eu ergo os ombros em indiferença.
  O terceiro quarter se inicia e logo de início Scott sofre um fumble após o snap e os Tulsa marcam um Touchdown de defesa. Os Knights logo recuperam a bola através de uma interceptação e o Running Back marca mais um TD, empatando o jogo. Os próximos trinta minutos que se seguiram foram intensos, houve três faltas, dois pedidos de tempo de cada time e por fim Touchdown, que deixa o placar Knights 32 x Tulsa 24, garantindo a nossa vitória.
  Toda a arquibancada vibra em urros de comemoração e cantam em uníssono UCF Fight Song. Vejo o ruivo retirar o capacete e ser parabenizado, até mesmo por Scott e me senti orgulhosa não somente por e sim por todo o time, pois mesmo sendo um babaca, Scott ainda é nosso principal jogador.
  — Pelas minhas contas você disse dez palavrões, mas não posso afirmar nada porque sou péssima em cálculo — Summer declara e eu me viro de costa, começando a me afastar. — Aonde você vai? !
  Ignoro os chamados de minha melhor amiga porque olhava fixamente para o ruivo que se movia em minha direção. Desço os degraus restantes até o local que nos encontramos mais cedo, tento ultrapassar a pequena cerca, no entanto falho vergonhosamente e me ajuda. Ele sorri, fazendo-me retribuir e me preparo para elogiar sua performance, no entanto o ruivo me interrompe:
  — Como está o pé? — ele questiona e eu reviro os olhos.
  — Foda-se a porra do meu pé! Você foi foda pra caralho hoje e... ah, só cala a boca! — Seguro o rosto do ruivo entre as mãos e sem hesitar colo meus lábios aos dele.
   abraça meu corpo e me suspende no ar, obrigando-me a circular seu tronco com as pernas e agarrar em seus cabelos molhados de suor. Afasto-me e encaro seu rosto por alguns segundos. Suas bochechas estão coradas e pintadas por duas listras pretas e douradas, os cabelos alaranjados completamente desgrenhado e colados ao rosto e me senti na obrigação de afasta-los, fazendo o garoto sorrir.
  Filho da puta lindo do caralho!
  Não resisto e colo novamente a minha boca a dele, bagunçando ainda mais os seus fios com os dedos, mas o garoto também não ficou para trás, puxando os fios em minha nuca. Separamos após alguns minutos e rimos do estado deplorável em que nos encontrávamos.
  — Quantos foram? — ele indaga.
  — Summer disse dez, mas eu aposto que foram mais. — Empurro o peito do ruivo e ele me põe de volta ao chão. — Acho que alguém merece um prêmio por ter representado tão bem o nosso time...
  Sorrio marota e seguro o pulso do garoto, na intenção de carrega-lo para fora dali, no entanto me impede.
  — Você não pode andar estando assim! — ele exclama e se vira de costas. — Sobe aí!
  Dou de ombros e pulo sobre seu dorso, apoiando-me nas ombreiras. O ruivo agarra minhas pernas e começa a correr em direção à abertura onde os atletas entravam e saíam de campo. Indico um corredor à direita que tem uma porta ao fundo, ele segue minhas instruções e acabamos frente a um banheiro feminino. A porta mal havia sido aberta e meu corpo já estava prensado contra ela. Os lábios de atacam os meus com ferocidade e nossas línguas dançam com volúpia. As mãos do ruivo avançam até minhas coxas, apertando-as e suspendendo-as até a altura de sua cintura, que não demoro a circular com minhas pernas, agravando a proximidade de nossos corpos.
  Levo minhas mãos à barra da camisa de e ergo-a até a estatura do tórax, interrompendo o beijo para poder retirá-la, e o garoto logo trata de se livrar das ombreiras e camiseta abaixo dela. Percorro os dedos sobre sua barriga, contemplando seu abdômen perfeitamente definido e mordo o lábio inferior, cogitando quão maravilhoso seria arranhá-lo enquanto rebolo sem pudor algum sobre o seu pau. Porra, , por que você tem que ser tão gostoso?
  — Sinto como se tivesse literalmente tirado o mundo das costas — o ruivo brinca, e eu solto uma risada, balançando a cabeça negativamente.
  Ponho os pés de volta ao chão, giro a chave na porta — para o caso de algum inconveniente tentar entrar — e pouso as mãos sobre seu peito, afastando-o. me olha confuso, porém continuo empurrando-o até adentrarmos a cabine mais próxima e ele cair sentado sobre a tampa da privada.
  Acomodo-me sobre seu colo e impulsiono meu quadril de encontro ao dele. Percebo que teve o exato efeito desejado quando ouço um gemido escapar por entre seus lábios, e sorrio, grudando minha boca na dele. Repito o movimento, com um pouco mais de força, e embrenha seus dedos em meus cabelos, puxando-os levemente. Continuo rebolando com os olhos fechados, indo para frente e para trás e algumas vezes em sentido circular, enquanto distribui lambidas, beijos e chupões por toda a extensão do meu pescoço.
  O atrito contra o pano do meu short jeans e o volume na calça de fazia minha buceta latejar cada vez mais, provocando o aumento da intensidade de minhas reboladas e gemidos sôfregos saírem por minha garganta. Subitamente se afasta, fazendo-me suspirar em reprovação e abrir os olhos, mas logo constato que algo estava errado ao ver sua expressão de dor.
  — O que foi? Eu fiz algo errado? — questiono, olhando preocupada para onde nossos corpos se encontravam. Nunca tinha ouvido sobre isso, mas e se eu tivesse machucado o amiguinho dele?
  — Não, não tem nada a ver com você, aliás, você estava ótima! São essas roupas apertadas que machucam! Não dá para... — o ruivo passeia as mãos pelo rosto em frustração e seu rosto fica mais vermelho.
  Sério que ele está com vergonha de dizer que o pau dele precisa respirar?
  — Ok, já entendi! Vou te dar uma mãozinha!
  Levanto-me de seu colo e me ajoelho ao chão — que felizmente estava razoavelmente limpo. Agarro a barra da calça e tento puxá-la, porém, além de muito justa, também é um tanto quanto pesada devido aos protetores nos bolso. me auxilia e juntos conseguimos retirá-la até abaixo do joelho, repetindo o mesmo processo com a calça elástica em seguida. Finalmente, apenas uma cueca boxer branca cobria seu corpo e eu faço questão de tirar sozinha, revelando seu pênis duro.
  — Awn, você é ruivo aqui embaixo também! Que fofo!
  — ! — O garoto me censura. — Sério que, no meio de toda essa situação que estamos agora, você diz que meu pau ruivo é fofo!?
  — Relaxa, estava apenas tentando descontrair! E sou quem está ajoelhada no chão de um banheiro público com limpeza de caráter duvidoso, encarando essa coisa esquisita que você tem no meio das pernas, e não estou reclamando! Então cale a porra da boca e curte o momento! — vocifero.
   não se pronuncia novamente, então deduzo que ele havia sido convencido — não é como se ele tivesse muitas opções, ou calava a boca e me deixava fazer as coisas do meu jeito, ou iria para casa de pau duro, e eu tenho certeza absoluta de que ele não quer a segunda opção.
  Prendo meus cabelos atrás das orelhas e jogo-os para trás dos ombros, de maneira que não me atrapalharia. Agarro a base do pênis dele e faço movimento de vai e vem lentamente, ouvindo um suspiro vindo do ruivo. Passeio a língua por toda a sua extensão até que ele estivesse inteiramente umedecido.
  Levo meu olhar ao rosto do ruivo e ele aparentava não estar satisfeito com a minha lentidão proposital e sorrio antes de abocanhá-lo quase por completo. Início o processo de subida e descida, sugando as bochechas enquanto arrastava os lábios sobre sua pele. Sinto seus dedos agarrarem fortemente os fios em minha nuca e me empurrarem contra ele. Interrompo imediatamente o que estava fazendo e retiro sua mão de minha cabeça, encarando furiosamente.
  — Tira a porra da mão de mim! Eu sei muito bem o que estou fazendo, não preciso de ajuda! — esbravejo e o ruivo me fita confuso.
  Eu bem sabia que sua atitude era uma consequência do extinto de macho alfa querendo ter controle sobre tudo. Mas aqui macho alfa não tem vez. Não comigo.
  — Só... Continua... Por favor! — suplica, provocando um sorriso satisfeito em meu rosto.
  Volto minha atenção ao seu pau e introduzo somente a cabeça em minha boca, sugando-o com veemência e fazendo movimentos circulares com a língua. Vejo que obtive sucesso quando um grunhido de prazer invade meus ouvidos, servindo de estímulo para que eu repetisse o ato e aumentasse a velocidade. Continuo chupando-o com afinco e meu nome escapar da maneira mais rouca e erótica possível por entre seus lábios, em um aviso de que ele estava chegando ao seu limite. Dou mais algumas chupadas e sinto seu gozo invadir minha boca, que eu saboreio até a última gota.
  Levanto-me do chão e saio da cabine, parando frente ao espelho; começo a ajustar minhas roupas de volta ao corpo, penteio os cabelos rapidamente com os dedos e jogo uma água em meu rosto corado. Não posso andar por aí com cara de quem acabou de pagar um boquete.
  Volto para onde estava e ele continuava da mesma maneira que o deixei: Nu, com os cabelos bagunçados, a respiração ofegante e o rosto completamente vermelho. Sorrio em satisfação com meu trabalho muito bem feito.
  — Levanta logo daí! — ordeno. — Temos um show a ir e ainda há muito que comemorar! Vou te esperar lá fora, Cenourinha! — aviso e me viro, seguindo para fora do cômodo.

Chapter VI (Part II) — Saturday

N/A: Antes de seguirmos em frente, queria avisar que essa é a música oficial do capítulo e seria bom ouvir quando ela é mencionada, porém também temos uma playlist no Spotify onde estão todas as músicas citadas nesse capítulo. Enfim, sem mais delongas, enjoy it!

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Chegamos ao Knight Library faltava pouco para a Atomic Mess começar a se apresentar, Jake e seus companheiros de banda montavam o equipamento no palco ao fundo do local, enquanto You Only Live Once saía pelas caixas de som. O lugar estava um pouco cheio e tinha uma fila quilométrica do lado de fora, porém, como somos praticamente de casa, conseguimos entrar sem dificuldade.
  Arrasto até uma mesa perto do bar, onde Summer estava sentada com cara de que comeu pizza estragada e agora estava com dor de barriga.
  — Que cara é essa? — questiono.
  — Cara de quem foi abandonada pela melhor amiga sem explicação! — a garota responde, irritada. — Eu fiquei mais de meia hora te esperando e nem pude te ligar para saber onde estava, já que você simplesmente largou o seu celular comigo!
  Merda, bem que eu achei estranho ele não ter tocado o dia inteiro...
  — Ah, eu estive ajudando o com... uma... coisa.
  — Sei bem o tipo de “ajuda” que você estava dando! — Ela olha desconfiada de mim para o ruivo e ele solta uma risada, fazendo-me lançar um olhar feio em sua direção. — E toma as suas coisas, não sou sua empregada para ficar carregando elas! — Summer empurra o celular e câmera em minha direção.
  — Jesus, quanto estresse! Você não costuma ficar assim por coisa boba, tem mais alguma coisa acontecendo.
  — Bem, talvez o fato de que meu namorado não me dá atenção há semanas e vive em função de uma banda esteja irritando um pouco — a negra ironiza.
  — Ah, não! Você não vai ficar aí sofrendo por macho, hoje é dia de comemoração! — Pego a bolsa de suas mãos, voltando a guardar minhas coisas dentro, agarro no pulso de minha melhor amiga e puxo-a para fora da mesa, guiando-a até o bar. — Hoje vamos nos divertir como se não houvesse amanhã e beber até dar PT!
  Paro frente ao balcão do bar e peço dois shots de tequila, que o barman prontamente atende. Depositamos juntas o sal entre o polegar e indicador, lambendo-o em seguida. Brindamos com um sorriso, viramos os shots da bebida e sem demora chupamos o limão que estava sobre o balcão. Ambas fazemos caretas e soltamos uma risada; emito um grito em comemoração, fazendo minha melhor amiga rir ainda mais. A música que tocava cessa e um barulho de microfonia vem do palco, chamando nossa atenção. Jake estava frente ao pedestal, segurando sua guitarra.
  — Boa noite, galera! — todos respondem com um grito. — Meu nome é Jake, nós somos a Atomic Mess e iremos tocar para vocês hoje! Espero que gostem!
  Ele faz sinal de contagem com a mão para os amigos e sem demora os primeiros acordes, que constato serem de Naive dos The Kooks, são ouvidos.
  — I'm not saying it was your fault, Although you could have done more! — Canto junto. — Oh, you’re so naïve yet so!
  Seguro as mãos de Summer e puxo-a para uma dança desengonçada bem estilo anos oitenta. Ouço uma risada vinda do meu lado direito e encontro segurando uma garrafa de Heineken e se divertindo com nossa cena. Pego a bolsa das mãos de minha melhor amiga e lanço sobre o peitoral do ruivo, ignorando sua face indignada e conduzindo Summer até a pista de dança frente ao palco. Dançamos como duas lunáticas que acabaram de fugir de um hospício e não damos a mínima se alguém estava olhando; havia uma boa quantidade de pessoas na pista, então não era um mico completo. Além disso, pagar mico com a sua melhor amiga sempre fora melhor do que sozinha.
  Voltamos ao bar e peço para que o bartender nos surpreendesse, ele sorri abertamente — se fosse uma outra ocasião e eu estivesse um pouco mais alterada, flertaria com ele sem dúvida alguma — e recomendou A Fada Azul, um shot feito de absinto, tequila e licor azul. Topamos, mas quando ele disse que deveria ser ingerido flamejante Summer desistiu, então tive que assumir o shot dela. O liquido desce queimando minha garganta, no entanto, não hesito em tomar a segunda dose. Minha melhor amiga diz que iria cumprimentar suas colegas de classe, que estavam sentadas em uma mesa próxima e eu apenas anui a cabeça.
  Bad Habit — uma das minhas músicas favoritas — começa a tocar e eu obviamente não perderia a oportunidade de voltar à pista de dança e balançar a minha bunda ao som daquela batida maravilhosa.
  Eu caminhava de volta à área do bar para tomar mais uma bebida e procurar por Summer quando de repente dou de cara com algo corpulento. Quase xinguei por subitamente uma pilastra ter se materializado no meio do pub, porém, no momento seguinte ao que ouço a tal pilastra chamar meu nome e levanto a cabeça para atender, arrependo-me profundamente. Parado à minha frente, trajando uma camisa tão apertada que transparecia perfeitamente cada músculo do seu peitoral, estava ninguém mais, ninguém menos que Scott Babaca Narcisista McKibben!
  Contenho-me para não soltar um “puta que pariu!”, mas depois me repreendo por não ter feito, pois pelo menos eu poderia ter usado como desculpa para sair correndo dali. Engulo em seco tentando formular uma frase que não fosse idiota demais, porém falho vergonhosamente.
  — S-Scott! O-Oi! Nossa, que surpresa! — tento soar mais animada possível.
  Esse é um pub dedicado ao time em que ele joga, sua idiota, é claro, que não é uma surpresa ele estar aqui!
  — Faz tempo que não te vejo e você não respondeu nenhuma das minhas mensagens... — ele diz em tom de desconfiança.
  — Ah, foi mal, meu carregador quebrou! É uma merda vivermos nesse mundo capitalista onde as coisas não duram! — Dou de ombros. — E, bem, eu ando bastante ocupada com trabalhos e provas, sabe como é, né?
  — Sei, sei. Mas você não está ocupada agora, não é? — ele diz em tom de malicia e agarra minha cintura com brutalidade, puxando meu corpo de encontro ao seu tronco.
  Uma onda de irritação se apossa do meu corpo, fazendo com que eu reúna toda a minha força para afastá-lo de mim. Eu preciso pôr um ponto final nessa situação e terá de ser agora!
  — Ok, precisamos conversar! — exclamo, exasperada, e agarro o braço de Scott, arrastando-o para um canto mais afastado, onde a música não era alta.
  O babaca entende errado a minha atitude e assim que paramos de andar, ele mais uma vez tenta me agarrar, porém impeço pousando as mãos sobre o seu peito.
  — Olha, vou ser bem clara e direta: Eu não quero mais sair com você!
  O moreno me encara como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda do mundo.
  — O quê? Por quê? — ele questiona. — É por causa do ? Gata, eu não me importo se você quiser ficar com ele também, não sou ciumento!
  — Isso não tem nada a ver com o ! Eu não tenho nada com ele, nós apenas nos beijamos de vez em quando por causa de um acordo idiota que fizemos, aliás, isso não vem ao caso e muito menos é da sua conta! — exprimo, enraivecida. — A questão aqui sou eu e você, eu não quero mais ter qualquer tipo de envolvimento com você! Você não faz meu tipo, eu não gosto de você dessa maneira e não te quero na minha vida e muito menos na minha cama!
  — Você é louca! — Scott grita.
  Cruzo os braços sob o peito, não contendo a alta gargalhada sarcástica que automaticamente saiu pela minha garganta.
  — Vocês homens são tão patéticos! Sempre acusando mulheres de loucas quando não concordam ou não fazem o que vocês querem! — emito mais uma risada. — Sei que deve ser difícil para você ser rejeitado quando vivemos em uma sociedade machista e patriarcal que o faz acreditar que, por ser um homem branco, rico e famoso, todas as mulheres do mundo o desejam, mas advinha só, baby? O mundo não gira em torno da porra do seu pau! Quando uma mulher diz NÃO, ela não está confusa ou quer que você insista, ela realmente quer dizer não! Seu cérebrozinho de merda precisa entender que isso significa que você deve deixá-la em paz! Agora, se me der licença, eu tenho uma festa para aproveitar e não será um macho egocêntrico como você que irá me impedir! — termino o meu discurso enquanto tocava Mr Brightside e saio marchando novamente em direção ao bar.
  Antes de atingir metade do caminho, sinto meu pulso esquerdo ser segurado e já estava me preparando para acertar o babaca bem no meio do rosto com a outra mão, quando me assusto ao constatar que quem havia me a agarrado era .
  — Mas que porra, ! Pensei que fosse o idiota do Scott, já ia lhe dar uma porrada na cara! — praticamente berro.
  — Ei, calma! Eu vi vocês discutindo e vim saber se tá tudo bem! — ele se defende após largar meu braço.
  — Agora tá, coloquei aquele babaca em seu devido lugar! — digo, orgulhosa.
  — Ele não parecia feliz com o que você disse. Eu estava pensando seriamente em interromper se ele chegasse um pouquinho mais perto de você!
  — Obrigada, mas sua ajuda não seria de grande ajuda. Ele precisa me respeitar porque sou uma mulher que tem o direito de não querer ficar com ele, e não porque tem um cara o intimidando! — aproximo-me, envolvendo seu pescoço com os braços. — Mas você pode me ajudar em outra coisa...
  Sorrio maldosa e retribui, colando seus lábios aos meus em seguida. Seu braço direito circula minha cintura, puxando-me para perto com rapidez, mas sem aplicar muita força.
  Ah, sim, esse é o jeito certo de pegar uma mulher: ágil, preciso e não violento. Algumas pessoas precisam aprender o que é ter pegada.
  Enterro as mãos em seus cabelos e peço passagem com língua, aprofundando o beijo. Hum... Eu poderia fazer isso por um dia inteiro...
  — Porra, ! Estava te procurado por todos os cantos e você está aqui trocando saliva com o ! — ouço a voz da minha melhor amiga atrás de mim.
  Afasto-me do ruivo e me giro meu corpo, encontrando Summer com os braços cruzados abaixo do peito e uma expressão bastante medonha.
  — Foi mal! Eu ia te procurar, mas o Scott apareceu e...
  — Ok, já entendi! Vocês combinaram um ménage e agora estão fazendo um esquenta, poupe-me dos detalhes! — ela me corta, fazendo-me fita-la com indignação.
  — Nem se eu tivesse louca faria uma coisa dessas! Prefiro virar freira a ter qualquer coisa com aquele bosta! Vamos logo conhecer essas suas novas amigas pelas quais você sempre me troca, se elas não forem tão maravilhosas quanto eu, vou ficar ofendida!
  Agarro o pulso de e arrasto-o junto comigo enquanto seguia Summer pelo canto menos movimento, até chegarmos a uma mesa onde estavam sentadas quatro mulheres e um homem: a primeira garota tinha os cabelos blackpower e conversava animadamente com o cara ao seu lado, a segunda tinha um sidecut maravilhoso, bebia um liquido azul pelo canudo e parecia entediada, a terceira usava dreads e falava algo no ouvido da garota ao seu lado, que carregava madeixas cor de rosa. Todos negros.
  Jogo meu corpo sobre uma das cadeiras disponíveis e consequentemente obrigo a se sentar na que estava ao lado.
  — E ai, galera! — cumprimento e todos à mesa param o que estavam fazendo para olhar em minha direção.
  — Meninas, essa é a , a amiga louca de quem eu falei! , essas são, Serena, Luna, Mylene e Alessia, elas são parte do coral Black Soul! — Summer aponta para cada uma na ordem em que estavam sentadas.
  — Ei, você esqueceu de mim! — o rapaz entre as duas mulheres reclama.
  — Ah, e esse é o Jeff — a garota diz com desdém.
  — Ele é insignificante. — Alessia dá de ombros.
  — Insignificante!? — Jeff exprime, indignado. — Eu sou muito importante! Eu...
  — Você toca bateria, ajuda na batida da música e blábláblá, a gente já sabe! — Mylene se pronuncia. — Que macho chato do caralho!
  Emito uma risada. Em menos de cinco minutos de conversa eu já as adorava mais do que noventa e nove porcento das pessoas com quem convivo diariamente.
  — Esse outro ser insignificante aqui é o , mas ele gosta que o chamem de — anuncio e círculo os ombros do ruivo com um. — E ele vai fazer a gentileza de ir buscar umas bebidas pra gente junto com o Jeff.
  — Eu não sou o seu capacho, ! — ele vocifera com irritação.
  — Você me interrompeu enquanto eu ia para o bar, então estou pedindo, com muita educação que você sabe que eu não tenho, para que use seu cavalheirismo e faça a gentileza de buscar uma bebida para mim e minhas amigas.
   me encara por alguns segundos, analisando-me com uma das sobrancelhas arqueadas.
  — Vamos, cara, não somos bem-vindo aqui mesmo. — Jeff sugere.
  O ruivo bufa e se levanta, seguindo o mais alto até o bar.
  — Garota, você é das minhas! — Serena diz. — Definitivamente pode sentar com a gente!
  — Nas quartas usamos lágrimas de macho! — Mylene debocha e todas riem.
  Elas engatam em uma discussão sobre qual música da Aretha Franklin iriam cantar na próxima apresentação e eu obviamente fiquei deslocada por não entender absolutamente nada de Soul, então a única coisa que realmente estava me entretendo era balançar a cabeça no ritmo de Ruby. Finalmente o ruivo retorna a mesa, depositando um copo de Long Island Iced Tea — que na verdade é só uma mistura bem louca de várias bebidas — em minha frente e se acomoda ao meu lado.
  — Há quanto tempo vocês namoram? — Luna questiona e quase me faz engasgar com o drink.
  — NÓS!? — indago apontando de mim para e a garota maneia a cabeça.
  — Não somos namorados, só... — paro de falar, sem saber o que responder.
  — Se beijam “casualmente”.— Summer responde, fazendo aspas com os dedos.
  — Mas só quando eu digo um palavrão! — defendo-me e elas me fitam como se eu fosse um ET.
  — Pessoas brancas são loucas! — Serena comenta.
  — Pessoas brancas e héteros são mais loucas ainda! — Alessia complementa, provocando risada nas amigas. Why'd You Only Call Me When You're High? começa a tocar e a uso de pretexto para sair dali e voltar para a pista de dança. Não sei se foi em homenagem a música, porém sinto um forte cheiro de erva e uma garota da minha turma de Videografia me oferece um baseado, que acabo aceitando. Rapidamente o efeito se fez presente, pois sinto a leveza tomar meu corpo e uma extrema sensação de alegria me preencher, fazendo-me gargalhar.
  Caminho cambaleante e um pouco grogue rumo à mesa em que meus amigos estavam sentados, jogando-me sobre a primeira superfície solida que vejo — que coincidentemente acabou sendo o colo de .
  — Eu tô feliz pra caralhoooo! — anuncio.
  — Garota, você tá muito chapada! — Luna diz.
  Viro o copo que estava sobre a mesa goela abaixo, sem me de quem era ou o que tinha dentro, e aproveito para roubar o que seria o milionésimo beijo do ruivo apenas no dia de hoje. Se tem algum recorde no Guinners Book sobre a maior quantidade de vezes uma pessoa beijou outra em menos de vinte e quatro horas, eu com certeza já tinha ganhado. De repente Left Hand Free se inicia, provocando minha empolgação e me fazendo levantar novamente.
  — Preciso dançar essa música! Vamos, Sum! — seguro em sua mão, tentando puxá-la e falhando miseravelmente.
  — Você não acha que deveria pegar leve e descansar um pouco? — minha melhor amiga pergunta. — Por causa do seu pé e tal.
  — E beber um pouco d’água... — sugere.
  — Puta que pariu, vocês são chatos pra cacete! — Volto a sentar no colo do garoto. — Você precisa parar de assistir Grey’s Anatomy, Summer! Eu não vou morrer ou pegar uma infecção e ter que amputar a porra do meu pé! É só um cortezinho de nada, nem tá doendo mais!
  — Eu paro se você admitir que tá dizendo um palavrão atrás do outro de propósito só para beijar o ! — ela debocha, fazendo-me revirar os olhos.
  — Tô porra nenhuma! Foi ele que inventou essa merda de acordo, então vai ter que me aguentar!
  — Ei, se você não percebeu, eu ainda estou bem aqui... Embaixo de você... Servindo de cadeira! — o ruivo reclama.
  — Eu já percebi pelo seu pau duro encostando bem no meio da minha bunda — remexo-me no lugar e viro-me de lado para encarar o rosto do ruivo — assim como todos à mesa faziam — e o encontro sem reação. — Caralho, você fica tão lindo de boca calada, vamos mantê-la assim!
  Seguro em sua nuca, puxando seu rosto de encontro ao meu e selando nossos lábios. Minha língua procura desesperadamente por contato com a de e logo elas se encontraram e iniciaram um ritmo lento e gostoso. Interrompo rapidamente o beijo apenas para me sentar devidamente, de frente para o ruivo com seu tronco entre minhas pernas, e sem demora retorno a grudar minha boca na dele. Recebemos vaias e comentários do tipo: “arrumem um quarto!” e "eu odeio casal hétero!", no entanto, estávamos envolvidos demais para dar atenção. Porém, o que ouvi depois disso foi impossível ignorar:
  — Olha só o se dando bem com a nervosinha!
  — Ele tá quase estuprando ela!
  — Mas aposto que ela tá gostando!
  Automaticamente empurro o ruivo e me ponho de pé, encarando furiosamente os idiotas que haviam acabado de dizer aquele monte de merda — que sem surpresa alguma eram os amiguinhos de que eu sempre desprezei.
  — Que porra você disse!? — indago.
  — Calma aí, a gente só tava brincando! — Greg se defende.
  — ... — tenta segurar minha mão, porém puxo-a de volta.
  — é o caralho! Eu não vou ficar quieta ouvindo esses filhos da puta fazerem piadas escrotas! — rebato, enfurecida. — Então você gosta de fazer piada sobre estupro? Também acha engraçado o fato de que uma em cada cinco mulheres universitárias é estuprada por um babaca como você no nosso país?
  — Mas caras também são estuprados! — outro imbecil — que nem faço questão de lembrar o nome — diz.
  Não pude conter a intensa gargalhada que insistia em sair por minha garganta.
  — É claro que não iriam perder a oportunidade de fazer com que isso também seja sobre vocês, né? — Solto mais uma risada. — Bem, sim, homens também são vitimas de estupro, mas o percentual é tão pequeno quanto o seu cérebro de ervilha!
  — Homens não saem na rua com medo de qualquer homem que encontram. Homens não são julgados pelo tamanho da roupa que vestem. Homens não são questionados com “Você provocou?” “O que estava fazendo fora de casa sozinho àquela hora?” “Tem certeza que você não está confuso?” quando denunciam um abuso. Homens não são chamados de vadios por saírem com mais de uma pessoa. Homens não são ditos que devem se dar ao respeito. — Summer se manifesta, fazendo-me fitá-la surpresa. — Homens não são tratados como objetos cuja única função é proporcionar prazer. Essa é a porra da diferença!
  Todos que estavam presenciando ou participando da discussão ficaram boquiabertos — inclusive eu. Summer sempre fora tão feminista quanto eu, porém raramente tomava frente de uma discussão. Questões que envolvem assédios e estupro sempre a abalavam, principalmente pelo fato dela quase ter sido estuprada durante um trote idiota em uma fraternidade no seu primeiro ano. Ela denunciou para a polícia do campus, porém eles disseram que não poderiam fazer nada a respeito sem provas.
  Agiram como se a palavra dela valesse nada, tudo para proteger um bando de marmanjos filhinhos de papai que enchem o cu da universidade de dinheiro e patrocínio para acobertar as merdas que eles fazem. Ainda não nos conhecíamos na época, quando Summer me contou a história eu chorei de ódio e quis pôr fogo naquele lugar — e só não o fiz realmente porque ela não permitiu. Desde então temos organizado campanhas para ajudar mulheres a não andarem sozinhas à noite pelo campus ou saírem de uma festa desacompanhadas e só pegarem carona, Táxi ou Uber se for dirigido por uma mulher. Já que — por enquanto — não conseguimos derrubar o sistema patriarcal que nos oprime, precisamos nos unir e nos defender dele. Isso se chama sororidade.
  — Você não sabe quão desesperador é ter uma pessoa invadindo o seu corpo e a sua privacidade sem a sua permissão e não poder fazer nada sobre isso, então cale a sua boca! — Summer continua. — No dia em que souber como é se sentir assim, o que eu acho quase impossível, pode fazer piada o quanto quiser, mas acho que não é tão engraçado quando você é a piada, não é?
  — A gente não queria arrumar confusão. — Alex toma a frente quando o amigo fez menção de abrir a caçamba de lixo que tinha no lugar da boca. — Vamos embora, Greg. Foi mal aí, .
  — Por que está pedindo desculpas a ele se você me ofendeu!? — indago em indignação. — De qualquer jeito, não quero suas desculpas. Quero que calem a boca quando não for seu lugar de fala, não faça piadinhas sobre coisas que não sabem e reconheçam seus privilégios. Não é tão difícil assim, só é preciso usar um pouquinho o cérebro!
  Alex balança a cabeça em concordância e impede Greg de avançar em minha direção, dizendo “vamos embora, cara”. Mesmo relutante, ele acaba cedendo e seguindo o amigo e sua trupe, recebendo vaias das outras meninas à mesa. Suspiro e me viro para minha melhor amiga, sorrindo abertamente e caminhando em sua direção para abraçá-la.
  — Ai meu Deus, Sum! Você foi maravilhosa! — digo em meio ao abraço.
  — Alguém tinha que dizer a verdade àqueles idiotas! — ela responde.
  — Eu tô tão orgulhosa! Te criei direitinho! — exclamo, fazendo a garota rir.
  Girls do The 1975 começa a tocar e eu não contive o grito em comemoração.
  — Essa é a nossa música! Vamos dançar! — agarro a mão de minha melhor amiga e me viro para suas amigas. — Venham, meninas!
  Guio todas as mulheres do grupo até o meio da pista de dança e juntas começamos a dançar. Embalo meu corpo no ritmo da música, ondulando o corpo e jogando o quadril de um lado para o outro. Eu estava tão envolvida com a música que mal percebi quando eu e minha melhor amiga havíamos trocado de pares. Agora em minha frente se localizava Luna.
  Aproximo-me da garota e começamos balançar nossos corpos em sintonia. Não sei se era devido à bebida ou a agitação com a música, mas meu corpo parecia pegar fogo. Levo os olhos em encontro aos caramelados de Luna e em seguida eles descem até a boca carnuda e avermelhada dela. Os lábios de uma garota nunca me pareceram tão atraente antes.
  Eu já estava bem alta e não tinha nada a perder, então não hesitei em segurar os dois lados da cabeça da menina e colar minha boca à dela. Uma intensa explosão de sensações se formou dentro de mim. Eu não sabia definir muito bem o que estava sentindo, mas gostava da nova sensação. Eu nunca havia beijado uma garota antes e muito menos tinha a curiosidade de fazê-lo, porém, naquele momento eu descobri que queria sentir o gosto de seus lábios mais uma vez. Então eu o fiz de novo e de novo, até a música acabar e o sabor de morango de sua língua estar impregnado na minha.
  Sorrio para Luna e a convido a tomar alguma coisa no bar — de morango é claro. Após tomarmos uma dose de caipirinha de morango, ela pergunta se eu já tinha experiência com garotas e eu explico que foi minha primeira vez, mas que tinha gostado bastante. A menina sorri, diz que não tinha problema e me chama para acompanhá-la até o banheiro, que eu aceito de prontidão. Antes que eu pudesse concluir o trajeto, meu braço é puxado e meu corpo prensado à parede mais próxima. Não demoro a perceber quem era quando meus olhos fitam os verdes intensos do ruivo.
  — Você tá me devendo uma coisa e eu vim cobrar!
  — Pede ao seu amigo Gregory, ele sabe abrir a boca para defecar, deve saber fazer outras coisas também. — Dou de ombros.
  — Eu não acredito que você tá brava comigo por isso! — ele passa as mãos no cabelo em sinal de impaciência. — Eu não disse nada porque você vive dizendo para eu não falar por você e tirar a sua voz!
  — Mas você tentou me impedir para defender seus amiguinhos! — rebato.
  — É claro que não! Eu fiz isso porque sabia que seria uma total perda de tempo discutir com eles! — posiciona sua mão direita entre meu pescoço e nuca. — Eles são só caras com quem ando, não são importantes pra mim. Não como você.
  — Não vem com esse papo de macho manipulador pra eu ceder e te beijar porque não vai rolar! — retruco com firmeza.
  — Tem certeza disso? — ele sorri maroto, acariciando a região em que sua mão estava, fazendo meus pelos se eriçarem.
   percorre seus lábios úmidos por minhas bochechas e vai descendo até o pescoço, onde ele deixa várias lambidas e chupadas, chegando até o decote de minha blusa e repetindo o mesmo processo. Meus dedos agarram em seus cabelos, puxando-os com impetuosidade enquanto suspiros sôfregos escapavam por entre meus lábios. Ter de ouvir a letra de Sex on Fire enquanto tudo aquilo acontecia não melhorava em nada minha situação. Droga de ruivo maldito!
  Os beijos começam a ascender ao longo de minha garganta, chegando até o queixo, porém, felizmente eu ainda não estava totalmente entregue para permitir que seus lábios tomassem os meus — por mais que eu quisesse muito que isso acontecesse —, então cubro a boca dele com minha mão.
  — Se quer mesmo provar essa boquinha de novo, terá de dançar conforme minha música! — aviso e o garoto bufa.
  — Tudo bem, vamos dançar a sua música então!
  O ruivo agarra em minha mão e me arrasta pela multidão sentido ao palco novamente. No meio do caminho encontro Luna, que me fita com um misto de raiva e confusão, e apenas movimento os lábios com um pedido de desculpas. finalmente me solta e caminha até o palco, trocando algumas palavras com Jake, que olha para mim, balança a cabeça em concordância e sorri. O ruivo se afasta do palco e caminha em minha direção.
  — O que está aprontando? — pergunto com os olhos semicerrados.
  — Espere e verá, ou melhor, ouvirá! — ele sorri.
  Eu estava quase indo até o Jake e arrancando dele o que merda estava acontecendo, quando ele pega o microfone e diz:
  — Essa próxima música foi pedida por um grande amigo meu, em dedicatória à garota perfeita!
  No momento em que eles começaram a tocar, minha boca se abriu em um perfeito “O”. Eu conheço essa introdução! É a minha música! É a porra da minha música favorita!
She planned ahead for a year, he said, "Let's play it by ear"
  Viro-me para o ruivo e ele tinha um perfeito sorriso cafajeste desenhado em seu rosto. Filho da puta! Canalha! Trapaceiro! Ele quer provocação? Ele vai ter provocação! Apanho o pulso esquerdo de , carregando-o até o meio da pista da dança. Viro-me de costas e rebolo minha bunda bem em cima do pau dele. Se o que ele queria era chamar atenção, então agora seremos atração principal.
  I fell in love today,
  There aren't any words that you can say
  That could ever get my mind to change
  She's enough for me, she's in love with me

  — Você não deveria brincar com fogo quando sabe que eu posso ser a própria Daenarys!
  O ruivo ri e afasta meu cabelo do ombro direito, jogando-o para o outro lado. Sua respiração quente bate em minha pele, fazendo todo o meu corpo se arrepiar.
  — Você não sabe o quanto eu tô louco pra te foder, Khaleesi — ele diz bem ao pé da minha orelha. Sorrio, balançando meu quadril de um lado ao outro.
  You're a doll, you are flawless
  But I just can't wait for love to destroy us
  I just can't wait for love

  — Uau, quem diria! Foster é bom no dirtytalk! — debocho.
  — São as coisas que você faz comigo! Meu pau lateja toda vez que você está por perto. Não aguento mais isso! — o garoto confessa.
  — Pelo menos você se aliviou. Minha buceta tá chorando por atenção desde hoje à tarde! — reclamo.
  — Podemos dar um jeito nisso... — sugere, subindo sua mão direita pela minha coxa e em seguida adentrando o short.
  — Você me surpreende mais a cada dia — admito e o ruivo emite uma risada.
  — Você ainda não viu nada!
  The only flaw – you are flawless
  But I just can't wait for love to destroy us
  I just can't wait for love

  Dois de seus dedos afastam minha calcinha e separam meus grandes lábios, encontrando-me completamente encharcada. Pude sentir os cantos da boca do ruivo se curvarem em um sorriso de tão próximos que estava do meu ouvido.
  — Bom saber que tenho o mesmo efeito sobre você!
  So, she put his heart in a bag, he wouldn't ask for it back
   impulsiona a mão, indo mais fundo e brincando com a minha entrada em um lento movimento de vai e vem, fazendo-me arfar em resposta e agarrar seu pulso, em uma tentativa de fazê-lo ir mais rápido.
  Meu pedido é prontamente atendido e para me provocar ainda mais, o ruivo começa a passear os beiços úmidos por toda a pele cálida do meu pescoço e reveza entre se afundar em minha entrada e estimular em círculos o carocinho duro no topo da vulva. Mordo fortemente o lábio inferior para que nenhum som escapasse de minha boca e rebolo contra sua mão em busca de maior fricção.
  This shit'll be fucked for days and weeks and months, but...
  O sangue em minhas veias parecia correr como lava e meu corpo inteiro prestes a entrar em erupção a qualquer momento. Precisei apoiar praticamente todo meu peso sobre para evitar que os espasmos fizessem com que minhas pernas fraquejassem e eu caísse ajoelhada sobre o chão. Estava pouco me fodendo se tinha alguém em volta nos assistindo, tudo que eu queria naquele momento era que meu corpo parasse de tremer e a tensão abaixo do meu ventre se desfizesse.
  Quando senti que já estava no meu limite, cravei as unhas na nuca de e puxei seu rosto de encontro ao meu, abafando meu gemido de prazer em sua boca e me desfazendo em seus dedos. Esse foi potencialmente um dos melhores orgasmos que eu tive na vida. Viro-me para o ruivo e assisto-o levar os dedos lambuzados com meu gozo até a boca e chupá-los enquanto suas íris verdes escuras e luxuriosos miravam as minhas.
  — Você é deliciosa — declara e um sorriso lascivo brota em seus lábios. — Estamos quites agora?
  Não digo uma palavra, pois a minha resposta vem no minuto seguinte, quando minhas mãos se entranham em suas madeixas e tomo seus lábios com os meus, sentindo meu próprio gosto em sua boca.
  Add it all up, I can find it
  The problem with love is I'm blinded by
  It rattles my lungs, but my mind is
  Tangled between your little flaws

  Mesmo com tudo que havia acontecido nos últimos minutos, meu corpo queimava por completo em desejo por mais de seu toque e calor. É como se ele fosse o combustível que alimenta o fogo dentro de mim e quanto maior for o contato, maior será o desejo. Como uma droga.
  Your flaws, your flaws, your flaws
  Empurro bruscamente o ruivo para longe de mim e ele me fita com o cenho franzido, sem entender minha atitude, porém, antes que ele abrisse a boca para dizer algo, explico:
  — Preciso de álcool!
  Viro-me e começo a me esgueirar entre a multidão de pessoas em direção ao bar, não me importando em checar se estava sendo seguida por ou não. Logo após atingir a área menos movimentada, o ruivo segura em minha mão e me vira para si, todavia, novamente não teve tempo de me questionar, pois fomos interrompidos:
  — Ei, duplo F, querem jogar beerpong com a gente? — um dos garotos do time pergunta.
  Agradeço mentalmente a todos os deuses existentes por ter minhas preces atendidas e logo a animação tomou meu corpo. Mais uma desculpa para beber e ainda acabar com o orgulho do ao mesmo tempo!
  — Vaaaamos!? — pergunto, empolgada.
  — Não acho que seja uma boa ideia... — diz incerto.
  — A sua frágil masculinidade está com medo de ter a bunda chutada por uma garota, Foster? — finjo cara triste em deboche.
  — Não é isso...
  — Medrooooso! — cantarolo em provocação. — Foster é um frouxo!
  — Ah, agora você vai se arrepender de ter dito isso! — o ruivo agarra meu pulso e nos guia até a mesa que era simulada o jogo de pingpong. — Pode mandar ver!
  Os garotos ali presentes comemoram e enchem dois grupo de dez copos vermelhos com cerveja pela metade, posicionando-os em formato triangular em cada extremidade da mesa.
  — Qual é o prêmio? — questiono.
  — Nós estamos deixando o ganhador decidir, mas se quiserem podemos arrumar um quarto e vocês entram em acordo lá! — o rapaz dá de ombros e sorri ladino. — Só queria deixar claro que estou torcendo por você!
  Olho para o jogador, exalando irritação. Ele está mesmo me cantando assim na cara de pau?
  — Não precisa, obrigada, confio na minha capacidade! — respondo, direta, arrancando gritos de zoação dos outros rapazes em volta.
  Tiramos cara ou coroa para decidir quem começaria, escolho coroa e acabo ganhando. Sorrio marota para o ruivo e arremesso a pequena bola, acertando em cheio um copo no meio e solto um grito em comemoração, sendo acompanhada por um bando de garotos. resgata a bolinha de dentro do copo e bebe o conteúdo dele.
  — Prepare-se para perder, meu querido ! — aviso.
  — Eu não teria tanta certeza, minha querida ! — ele rebate e sorri, antes de lançar a bola em minha direção e acertar um dos meus copos.
  Ouço urros de comemoração e repito o mesmo processo que o ruivo. Lanço novamente a bola, porém erro dessa vez e o garoto comemora. acerta a próxima, deixando-o em vantagem e fazendo-me revirar os olhos. Não fiquei para trás, na investida seguinte, atinjo certeiramente o copo na ponta direita do triângulo, empatando o jogo.
  — Drink, motherfucker! — berro, vibrante.
   engole a cerveja do copo sem se lamentar. O sorriso convencido desenhavam seus lábios, mas logo ele se desfez quando o ruivo errou sua tacada. Continuamos a brincadeira até restar apenas um copo para cada e a decisão estava praticamente em minhas mãos: Eu acertava e vencia ou errava e dava a vitória de mãos beijadas ao ruivo, e a segunda opção estava completamente fora de questão para mim.
  Fecho um dos olhos, na tentativa de tornar minha mira mais precisa, e arremesso o objeto esférico. Tudo ao meu redor parece parar enquanto a bolinha se movia em câmera lenta, até por fim atingir uma superfície, que para a minha alegria foi o interior do copo de . Emito um grito de comemoração junto a minha “torcida” e vejo o ruivo sorrir enquanto bate palmas pra mim em congratulação. Foi simplesmente espetacular acabar com o ego dele ao som de Lonely Boy.
  Caminho vagarosamente em direção ao garoto do outro lado da mesa e afasto os copos vários, sentando-me sobre o objeto de madeira.
  — Eu disse que iria vencer! — declaro em tom pomposo.
  — O que vai querer? — ele questiona, provocador.
  Analiso o ruivo desde a ponto do pé até o ultimo fio de cabelo, e prendo o lábio entre os dentes no exato momento em que Do I Wanna Know? se inicia. Agarro o cinto de sua calça e puxo-o para perto, encaixando-o perfeitamente entre minhas pernas.
  — Acho que você sabe exatamente que eu quero.
  Os cantos dos lábios do ruivo se curvam em um sorriso carregado de segundas intenções e ele leva uma de suas mãos até minha nuca, aproximando-se, e sem demora gruda sua boca a minha.

Chapter VI BONUS — The Puss In Boots Trick

  

Às duas horas da manhã em ponto, todos que ainda se encontravam presentes dentro do Pub foram postos para fora e o local foi fechado. Diversas pessoas inconformadas continuaram por ali, combinando com os amigos onde continuariam a festa ou se pegando em algum canto sem pudor algum. Alguns estavam jogados na calçada e arrisco dizer que nem forças para levantar tinham de tão bêbados que estavam. Jake terminava de guardar seus equipamentos na van junto com Thomas, Dave e Jonas e eu estava à espera do Uber para levar para casa — ela estava tão bêbada que se eu não estivesse segurando-a pela cintura, provavelmente ela seria mais um daqueles miseráveis desmaiados no chão. Summer tinha os braços cruzados e parecia nada feliz e lembrei de que Jake havia me dito que a situação entre eles não estava muito boa e era bastante provável que eles iriam terminar. O carro do Uber chega, buzina para nós e Summer se aproxima para tirar a amiga dos meus braços. Jacob me lança um daqueles olhares do gato de botas e meu instinto de bom amigo não me deixou ignorá-lo.
  — Escuta, Summer, acho que posso cuidar dela dessa vez... — sugiro e a garota me encara como se eu tivesse dito a coisa mais bizarra do mundo. — Vocês dois claramente têm coisas a resolver e tenho certeza que não quer atrapalhar isso. Eu me responsabilizo por ela.
  — Não sei se é uma boa ideia. — ela olha de mim para a amiga. — Você sabe que pelo estado em que ela está vai ter que dar banho e tudo mais, né?
  — Hum... Finnzinho vai tomar banho comigo! — diz e se vira para mim, circulando minha nuca com os braços e me fazendo rir.
  — Ainda não acho uma boa ideia... — Summer volta a dizer.
  — Não confia em mim? Acha que vou abusar dela ou algo assim!? — questiono com indignação. — Nós moramos juntos por quase três anos, se eu fosse realmente fazer algo, já teria feito!
  A garota olha para a melhor amiga, que agora tinha o rosto enterrado em meu pescoço e sua respiração estava provocando arrepios em minha pele.
  — Tudo bem pra você, ? — a garota pergunta.
   se desprende de mim e gira o corpo para atender à amiga.
  — Siiiim! Podem ir pra casa e trepar muuuuito! — ela responde e ri. — E você! — aponta para Jake. — Trate de dar um orgasmo maravilhoso pra minha amiga, ok? Brincar bastaaaaante com o clitóris! CLI-TÓ-RIS! Sabe o que é isso? O sabe, el-
  Cubro sua boca com a minha mão antes que ela pudesse falar mais alguma besteira e piorar a situação.
  — A gente se vira, né, ? — A garota concorda com a cabeça e morde a palma da minha mão, provocando um reclamar de dor da minha parte e afasto-a de seu rosto.
  O som da buzina se fez presente mais uma vez e aponto para o automóvel, indicando que deveríamos partir logo. Summer fita novamente o meu rosto, depois o da melhor amiga e então o do namorado.
  — Ela mesma concordou! — Jake se pronuncia, erguendo os ombros em indiferença e a garota suspira.
  — Ok, tudo bem! Mas me avise quando chegarem em casa!
  — Vou fazer isso. Vamos, — Começo a arrastá-la em direção ao carro.
  — Tchau, Jake! Tchau, Sum! Usem camisinha! — ela berra.
  Abro a porta traseira do veículo e auxílio a entrar. Logo após a porta ser fechada ao meu lado e a motorista dar partida, a garota praticamente pula sobre o meu colo e gruda seus lábios aos meus. Não pude pará-la e muito menos iria afastá-la, então simplesmente prendo seu rosto entre as mãos e correspondo com veemência. Eu nunca iria me cansar de beijá-la.
  — Já imaginou como seria transar no banco de trás de um carro? — ela sussurra no meu ouvido.
   começa a distribuir beijos pelo meu pescoço e levo minhas mãos até sua cintura, mordendo o lábio inferior e tentando me controlar. A cada novo centímetro que o rastro molhado de seus lábios atingia, meus dedos eram pressionados com mais intensidade em sua pele.
  Puta que pariu, essa garota vai me enlouquecer!
Controle-se, ! Ela está bêbada e você também, não vá fazer algo que possa se arrepender depois, são apenas hormônios!
  — Ei, nada de agarração dentro do meu carro! — a motorista vocifera, tirando-me dos meus devaneios.
  Reúno o pouquíssimo autocontrole que ainda me restava e afasto o corpo dela do meu, sentando-a sobre o banco ao meu lado. Mas é claro que é de Fletcher quem estamos falando e ela nunca desistiria tão facilmente, então a garota leva suas mãos até a barra da minha calça, tentando abrir o cinto, no entanto, consigo impedi-la.
  — Você 'tá possuída, garota!? — indago e ela emite uma risada. — Comporte-se ou seremos jogados no meio da rua!
  — Não vou expulsá-los nem dar nota ruim porque você parece ser legal e já a conheço de outras viagens e sei que não é fácil de lidar — a mulher diz. — Mas, por favor, não fodam no meu banco de trás, troquei o estofado essa semana!
  — Chatoooo! — reclama e cruza os braços sob o peito.
  Subitamente o rosto dela adquire um tom demasiadamente pálido, seus olhos verdes se arregalam e ela cobre a boca com uma das mãos.
  — Eu vou vomitar! — ela avisa e meu corpo é tomado pelo desespero.
  — Pare o carro, por favor! — peço à motorista.
  — Tenho horário a cumprir, não posso ficar parando!
  — Dane-se, eu pago o dobro! Só para a droga do carro, por favor!
  A mulher emite uma bufada de ar em descontentamento, porém atende o meu pedido e diminui a velocidade do veículo até ele ficar inerte. Abro a porta do lado de e ela inclina o corpo para fora, despejando sobre o asfalto todo o conteúdo que ansiava sair por sua garganta, antes que eu ao menos tivesse tempo de segurar seus cabelos e impedi-los de serem atingidos pela onda de vômito.
  — Eca! — a garota exclama ao voltar para dentro do veículo e constatar que estava com as madeixas e roupas cobertas pelo líquido estranho que saíra de sua boca e em seguida explode em gargalhadas como se toda aquela situação fosse hilária.
  — Sua namorada está realmente muito mal — a motorista comenta ao dar partida novamente no carro.
  Rio ironicamente ao ouvir aquela palavra. Namorada. Quem me dera.
  — Ela não é minha namorada — respondo enquanto tentava limpar o rosto de com a barra da minha camisa.
  — Não é o que parece... — a mulher me entrega uma caixa de lenços e me olha de maneira sugestiva. Decido entrar na brincadeira.
  — E o que parece? — questiono.
  — Que você gosta dela mais do que deveria.
  Não nego ou afirmo, apenas permaneço calado, voltando minha atenção a limpar ao máximo enquanto ela resmungava e a mulher sorri como se eu tivesse dado a exata resposta que ela queria.
  — Ele não gosta de mim, ele só quer me comeeeer! — enuncia. — Maaaas não me importo se ele fizer!
  Ela sorri marota e volta a gargalhar, arrancando uma risada da motorista.
  — Dê um desses chocolates que estão entre os bancos pra ela comer, o açúcar ajuda a cortar o efeito do álcool. — A mulher sugere. — Espero que ela não se lembre de tudo isso amanhã.
  — Eu também — respondo e suspiro.
  Durante todo o caminho restante até em casa, precisei insistir para que comesse o maldito chocolate e bebesse água, além de ter de sacudi-la para que não caísse no sono — e é claro que ela me xingou de todos os nomes possíveis. Ajudo-a a sair do automóvel e pago a motorista — agradeço pela assistência e ela me diz em tom zombeteiro para eu cuidar bem da minha "não-namorada" — enquanto a garota vomitava entre as plantas do edifício.
  Pego a garota no colo, ignorando todos xingamentos e “eu posso andar sozinha, filho da puta, tenho duas pernas!” e seguindo para o nosso apartamento. Ao chegarmos na porta do banheiro do quarto dela, coloca-a no chão e a garota dispara desesperadamente para dentro do cômodo e enfia sua cabeça dentro do vaso sanitário, expulsando mais uma golfada de seu corpo. Avanço em sua direção e coloco seus cabelos para trás, na tentativa de evitar que algum estrago maior fosse feito. Estico-me até a banheira, tampando o ralo e abrindo ambas as torneiras, de modo que a água ficaria nem muito quente, nem muito fria.
  — Por que você bebeu tanto desse jeito? Que droga, ! — indago com irritação.
  — Porque eu quis, porra! — ela rebate. — E você me desafiou!
  Passeio as mãos pelo meu rosto e cabelo em nervosismo, sentindo vontade de colidir incessantemente minha cabeça contra a parede mais próxima ao lembrar que caso eu não tivesse aceitado participar daquele jogo idiota, ela não estaria desse jeito e eu não teria todo esse trabalho. A garota fecha a tampa da privada e aperta o botão de descarga, apoiando-se sobre o objeto e reunindo toda sua escassa energia — e me impedindo de prestar qualquer auxílio — para se levantar e ir até a pia lavar a boca. Volto meu olhar à banheira e observo que ela já havia enchido o suficiente, então desligo o registro, derramando os sais que estavam sobre a bancada ao lado e espalhando com as mãos.
  — Vamos, , tire as roupas e entre na banheira — ordeno.
  Os cantos de seus lábios se curvam em um sorriso libidinoso e a garota agarra a barra da camisa em seu corpo, erguendo-a vagarosamente e exibindo sua barriga, em uma tentativa de dança sensual.
  — Você quer me ver peladinha, ? — ela demanda em tom de malícia.
  — Não, , eu quero que tire suas roupas e entre na banheira! — replico com rigidez e ela bufa.
  — Estraga prazeres! — a garota resmunga.
  Ela termina de retirar a peça de roupa que segurava e se apoia em mim para desamarrar e chutar os sapatos em um canto qualquer, prontamente também se livra dos shorts e quando chega a vez da lingerie, preciso desviar o olhar para outra direção, porque por mais que esteja tentando conter meus pensamentos sujos, eu ainda sou um cara com uma generosa quantidade de álcool correndo nas veias, trancafiado dentro de um banheiro com a garota que eu mais desejo desde o início da minha adolescência sem um misero pedaço de pano cobrindo seu corpo.
  Ouço o barulho da água e uma reclamação sobre a temperatura vinda de e me sento sobre a borda de mármore ao redor do recipiente oval, resgato a esponja que se encontravam ao outro lado e entrego-a.
  — Entra aqui comigoooo! — suplica, puxando meu braço para si e fazendo biquinho.
  — Não! — tomo minha mão de volta. — Vamos acabar logo com isso, se esfrega aí, anda!
  Obviamente ela não perderia a oportunidade de me irritar mais uma vez e eu tive certeza de que estava tramando algo quando ela sorri marota, no entanto, antes que eu pudesse repreendê-la ou impedi-la, sinto uma onda de água fria atingir meu tronco.
  — Puta que pariu, ! — vocifero, enraivecido.
  Sim, eu havia acabado de pronunciar um palavrão. Não é um dos meus hobbies favoritos dizer palavras de baixo calão, aliás, nunca fora do meu feitio. Desde criança sempre segui à risca as regras de bom comportamento e isso já me fez ser alvo de chacota diversas vezes, meus amigos me acusavam de ser "marica" e "filhinho de mamãe" e me perguntavam se eu era gay. Nunca dei importância a esse tipo de comentário, pois ao contrário do que sempre me acusa, não tenho uma "masculinidade frágil", sei que independente do meu comportamento minha sexualidade continuará a mesma, mas se pelo senso comum agir como um completo idiota é ser "macho" e ter educação é ser gay, que me considerem gay então.
  Volto minha atenção à garota e ela se divertia do estado ensopado em que eu me encontrava, gargalhando como uma garotinha. Naquele momento eu realmente me senti uma babá cuidando de uma criança arteira, mas toda aquela situação estava me exigindo muito mais paciência do eu normalmente tinha, tinha uma incrível capacidade de acabar inteiramente com a minha sanidade — e digo isso no sentido bom e também no ruim. Ah, as coisas que nos obrigamos a aguentar por quem gostamos.
  Seguro a beira da minha camisa encharcada e a arranco do meu corpo em somente um impulso. As risadas da garota cessam e em seu lugar surge um sorriso lascivo. A garota se ajoelha dentro da banheira, expondo grande parte do seu tronco; dessa vez não tive a capacidade de olhar para longe porque estava hipnotizado pela visão do seu corpo, principalmente os seios redondos parcialmente cobertos pela espuma. Puta merda.
   prende o lábio inferior entre os dentes, encarando-me como se fosse um suculento pedaço de bife coberto por molho barbecue, e estica as mãos em minha direção com a intenção de tocar meu abdômen.
  — Você é gostoso pra caralho, sabia? — ela anuncia me examinando com os dedos. — Não vejo a hora de finalmente foder com você!
  A garota prende a barra da minha calça entre os dedos e permito que ela me aproximasse de si. Para provocá-la, aprisiono seus cabelos entre os dedos e inclino o rosto em sua direção até que a proximidade fosse tanta que poderíamos sentir perfeitamente a respiração um do outro.
  — Você pode dizer o que quiser e xingar o quanto quiser... — afasto uma mecha grudada em sua bochecha e roço nossos lábios. — Eu não vou te beijar até você terminar esse banho!
  A garota me fita com um misto de indignação e fúria e me empurra para longe, voltando a se sentar na banheira. Ela apanha a esponja de novo e começa a fricciona-la com exuberância sobre o próprio braço.
  — Assim você vai se machucar... — aviso.
  — Foda-se! — ela responde, sua voz carregada em raiva.
  Respiro fundo e balanço a cabeça, reprovando sua atitude, porém me contenho para não falar mais nada e piorar seu comportamento. Alcanço o vidro de shampoo e deposito uma pequena porção na palma de minha mão e esfrego-a na outra, levando-as até as madeixas de , espalhando por todas as mechas e iniciando uma massagem com os dedos. Isso parece acalma-la e a garota permite seu corpo relaxar, recostando-se contra a borda da banheira.
  — Quero meu patinho! — ela pronuncia de repente.
  — Que patinho, ? — questiono entediado e ela aponta para o pequeno armário abaixo da pia.
  Para não travar uma discussão e gerar mais um episódio de irritação da garota, suspiro e me levanto e agacho frente ao bendito armário. Escancaro ambas as portas e encontro o que seria normal em um banheiro feminino: Sabonetes, sais de banho, pasta de dente, hidratante, produtos para cabelo, produtos para depilação, absorventes... E então meus olhos bateram sobre o patinho e eu por pouco não caí sentado no chão quando constatei o que era.
  ERA A PORRA DE UM VIBRADOR EM FORMATO DE PATO!
  Ela pretendia... Se masturbar? NA MINHA FRENTE!?
  Levanto-me prontamente e giro meu corpo, sentindo completo pavor me consumir e pronto para começar a gritar, todavia, desisto no momento em que meus olhos se deparam com a cena de se divertindo com os próprios cabelos e fazendo um penteado bem esquisito que se assemelhava a um moicano.
  Foi inevitável sorrir. Uma das coisas que eu admiro e me faz gostar tanto de é a forma como ela consegue conquistar qualquer um com detalhes simples. Ela pode ser um pé no saco boa parte do tempo, mas tem certas coisas que ela faz que a torna impossível de odiar.
  Ah, merda! Eu não deveria estar pensando nela! Não desse jeito. Não de novo.
  Chacoalho a cabeça, espantando meus pensamentos e me aproximo lentamente da garota, agarro ambos os lados de seu rosto e uno minha boca à dela sem pensar duas vezes.
  Ótima tática, ! Tentar parar de pensar nela beijando ela!
  A garota me fita sem entender, porém, antes que ela questionasse minha atitude, digo:
  — Isso foi um estimulo para que seja uma boa menina, então nada de patinho para você!
   ri e concorda, me convidando para terminar de cuidar de suas madeixas. Ajudo-a a se livrar do shampoo e quando percebo que estava ficando relaxada demais e provavelmente acabaria dormindo, sugiro dar o banho por encerrado. Entrego uma toalha para ela se enxugar e auxilio-a a secar e pentear os cabelos enquanto ela cantava uma música que viu em um desenho animado o qual jurava que os faria brilhar. Cubro-a com o roupão e deixo-a fora do banheiro, para que ela pudesse se vestir e eu arrumar a bagunça que havia ficado. Esvazio e limpo a banheira, recolho as roupas sujas e enxugo o máximo que consigo do chão, além de ter que remover rastros de vomito que ela havia deixado. Quando volto ao quarto, estava literalmente pulando sobre a própria cama, completamente nua.
  Puta merda, eu não sei de onde essa garota tira tanta energia!

  — Mas que merda, ? Por que não se vestiu ainda!?
  A garota para de pular e se joga entre os lençóis, gargalhando em seguida.
  — Hoje vou dormir do jeitinho que vim ao mundo! — ela me fita com um sorriso travesso. — Quer dormir comigo?
  — Não, obrigado, você já me deu trabalho demais por hoje! — pego o edredom que havia caído no chão e estiro-o sobre o corpo dela.
  — Você não fez mais do que sua obrigação como amigo! — ela rebate.
  — Ok, então agora que cumpri com minha obrigação, vou dar o fora daqui e tomar o meu banho — digo e me viro para a porta.
  — Nãaaao! — protesta. — Eu não consigo dormir!
  — E o que diabos você quer que eu faça!? — indago, exasperado.
  — Cafuné!
  Encaro-a por alguns segundos, esperando-a admitir que estava brincando, no entanto o que eu recebo são grandes olhos brilhantes em expectativa.
  Merda, preciso parar de cair nesse maldito truque do gato de botas!
  Suspiro profundamente e faço gesto para que ela me desse espaço na cama. tenta afastar o cobertor de seu corpo, todavia, impeço-a. Não preciso de mais dor de cabeça — e infelizmente não estou falando da que está sobre do meu pescoço. Deito-me ao seu lado, por cima do pano, e ela se aconchega em meu peito. Percorro os dedos ligeiramente por entre os fios de seus cabelos e ela sorri em deleite e cerra os olhos. Permaneço assim por mais alguns instantes, em silêncio, até que a respiração dela se acalmasse ao ponto de eu saber que havia pegado no sono. Afasto-me cautelosamente e deposito um rápido selinho em seus lábio; ela se mexe no lugar, resmunga algo ininteligível e cobre a cabeça. Sorrio e deixo o quarto com a certeza de que eu estava muito mais encantado por essa maldita ogra do que eu imaginava.

Continua...



Comentários da autora
N/A 09/08/2017: O que estão achando desse comecinho? Essa é minha primeira long totalmente original, então eu gostaria muito de saber a opinião de vocês, então não esqueçam de deixar um comentáriozinho dizendo o que acharam! Se quiserem podem me chamar no twitter também é @effywrites. Beijos e até a próxima!