The Dark Side

Escrito por Kassi | Revisado por @

Tamanho da fonte: |


Prólogo

  

Londres, 25 de dezembro de 2012. Shoreditch.

  

Com coração acelerado, andando pelas ruas escuras e frias de uma típica noite natalina, Anna ia com seus passos compridos, na esperança de achar o barzinho em que os amigos diziam estar. “new N rd”, a garota conferiu a placa no início da rua, notando logo que o pub que ela estivera procurando poderia estar ao outro lado da cidade, se estivesse.
  Anna era doce, mas não inocente, e percebeu na hora que algo estava errado. Deu meia-volta, sacando o celular do casaco e discando o número de .
  — Graças a Deus. — Ela disse assim que percebeu a respiração do outro lado da linha.
  — Eu não acho que ele seja o seu maior aliado no momento. — A voz vacilante e desconhecida pela garota fez seu estômago congelar.
  Anna tirou o telefone lentamente do ouvido, olhando ao redor de si. Será que meu namorado está morto? Por que alguém faria isso? Os pensamentos pairavam sua cabeça quando ela sentiu o bruto golpe na nuca.

Capítulo 1

  

Londres, 26 de dezembro de 2012. 04h12

  

“Nessa madrugada de sexta-feira, o corpo da estudante Anna Craddok foi encontrado em um galpão no sul da cidade. Há indícios de que a jovem tenha sido drogada e torturada antes do delito. A perícia tenta descobrir pistas do suposto assassino, e você acompanha tudo aqui {...}”
  O telejornal anunciava, enquanto as malas permaneciam em cima da cama. A viagem para o meio do nada estava programada para as quatro horas da manhã. Os garotos já haviam resolvido tudo.
  — Acho que fugir não é a melhor das opções. — tagarelava enquanto andava de um lado para o outro.
  — Ficarmos aqui só vai piorar as coisas. E, só pra deixar claro, nós não estamos fugindo. Isso tudo já estava programado, lembra?
  — Ela tem razão, , relaxa. — passou o braço por volta de seu pescoço, confortando a garota.
  — , suas malas já estão no carro e – abriu a estreita porta, olhando para a garota, fitando reprovativamente – , saia de perto da minha garota.
  — Calma aí, . — afastou-se da garota ainda rindo, sem nenhum pingo de humor.
  — Ok, agora só falta voltar com o carro da revisão, para pegarmos estrada. Logo estaremos mais longe do que vocês imaginam.

  

[...]

  

— Os rádios transmissores já foram instalados em cada carro, então qualquer coisa, podemos nos comunicar sem precisar de sinal de torre ou bateria. — comentou entrando no carro, onde já o esperava.
  — Estamos esperando o quê? — O tom divertido de fora contagiante, fazendo todos irem para seus automóveis.
  A fila de três carros seguiu até a saída da garagem, ainda escura pela madrugada. O som do carro foi ligado assim que ele começou a andar. A música que tocava falava sobre alguém que sempre esteve atrás de você, em uma batida lenta, que me fez pegar no sono até a primeira parada. O movimento brusco do carro freando me fez despertar, assustada.
  — Porra, !
  — Calma, meu amor, eu não queria te assustar. — Ele apoiou a mão em minha coxa, no intuito de me acomodar.
  Abri a porta do veículo pequeno e vermelho e, quando dei por mim, já me encontrava totalmente alongada do lado de fora, junto de duas silhuetas ensaiando a entrada no banheiro.
  — Eu não vou fazer xixi aí, é nojento. — já ia falando, quando a cortou como se estivesse esperando por aquele momento há anos:
  — É isso ou o mato. — O garoto apontou, fazendo a cara da menina se revirar ainda mais.
  — Obrigada pela consideração, . — Ela virou o rosto, fazendo o garoto apertar suas maçãs do rosto rosadas.
  — Parem de ser frescas e andem logo, eu não quero adiar mais ainda minha chegada. — Segui para dentro, servindo de guia pelas cabeças curiosas e enojadas de e .
   O lugar era sujo, tinha cheiro de urina e prostituição, as paredes rabiscadas indicavam a história de cada um que já passou por ali. Iluminado apenas pela luz do sol, que já estava alto, e refletia a sombras dentro da cabine de acesso.
  — Meninas? — A voz vacilante de se deixou escapar. — Como vocês acham que está?
  — Ele vai ficar bem, . — falava, me fazendo apenas ouvir atentamente a conversa das duas.
  — Mas nós nem tivemos a decência de avisá-lo, ele ficará preocupado. — A garota insistia, me fazendo olhar para cima, em negação.
  — Ele com certeza está tendo coisas mais importantes para se preocupar. Nós termos dado essa folga a ele foi até um favor.
  — Vocês têm razão. — E essas foram as ultimas palavras da garota antes de puxar a descarga, sendo seguida por uma de cada vez, até que todas voltássemos para o carro novamente.
  Os meninos já esperavam no carro, cada um com um tipo de expressão: balançava os cabelos ao som de uma música qualquer, fitava o nada atenciosamente, enquanto apenas acompanhava o meu andar.
  — Tudo bem? — Perguntei assim que bati a porta, percebendo que o garoto ainda me olhava.
  — Está sim. Eu só... Deixa pra lá. — Eu apertei o cinto, pegando o travesseiro e me virando contra a janela.   Nesses últimos dois meses, eu e estamos indo de mal a pior, e digamos que os acontecimentos da noite passada não soaram nem um pouco ao nosso favor. Anna sempre foi o grande amor de , isso não era nenhum tipo de surpresa pra mim. Talvez fosse, se ele descobrisse que eu sei de todas as vezes que ele me traiu com a pequena e bronzeada garota dos olhos claros.
  Há dois anos, quando nós dois éramos apenas melhores amigos, ele comentara sobre ser apaixonado por uma garota – que eu sempre julguei ser eu –, para quem nunca teve coragem de se declarar. Depois de meses, ele me pediu em namoro de um jeito frio, que eu julguei ser nervosismo. Tivemos um longo ano de amor, com carícias e declarações, até eu descobrir que a garota a quem ele se referia era Anna, e não eu. Se ela fosse encontrada morta naquela madrugada de agosto, da qual eu nunca esqueci, eu até louvaria, mas na medida em que as coisas se acalmaram, eu resolvi viver junto de , o que eu julgava ainda ser felicidade. E, desde então, as coisas não vão bem.

Capítulo 2

  

Gloucestershire, 26 de dezembro de 2012 06h18min

  

.

  

Depois de duas longas e silenciosas horas de viagem, finalmente chegamos ao respectivo lugar onde ficaríamos por enquanto. A cidade era pequena, rústica. Alugamos três quartos em um simples hotel de beira de estrada.
  Número 214. A porta bege com o número estampado centralmente rangeu quando a empurrou. Ela havia exigido camas de solteiro, já que não dormíamos juntos há algumas semanas.
  O quarto era ajeitado, exceto pelo forte cheiro de naftalina e mofo que continha. Como se não hospedasse alguém por anos.
  — Até que é ajeitado. — Soltei em um suspiro, enquanto Ká apenas assentiu com um discreto aceno de cabeça e seguiu para o banheiro.
  — A cama da janela é minha! — Ela gritou de lá, ligando o chuveiro em seguida.
  Sentei-me na cama, sacando o celular e analisando o papel de parede. segurava minha cintura, olhando apaixonadamente para meu rosto, ela sorria. Há quanto tempo ela não sorria daquele jeito para mim? Eu até desisti de tentar. Eu fazia graça para a câmera, com o braço em volta de seu pescoço. Naquele dia estávamos todos em um tranquilo passeio pelas ruas de Londres, ela havia acabado de devorar um sorvete de duas bolas, e ria feito louco das piadas de .
  O barulho do chuveiro cessou, e só assim percebi quanto tempo eu havia ficado ali.
  Larguei o aparelho em cima do criado mudo que separava as duas camas, e fui em direção à escancarada porta do banheiro, me escorando na mesma.
  O lado de dentro não me impressionava. O vaso era branco, com uma pia e um espelho enorme, dando visão para o box do chuveiro, logo ao fundo do cômodo.
  — Droga, ! Quer me matar do coração? — Ela agora abrira a porta de vidro que nos separava, alcançando a toalha branca de cima do vaso. — O que você quer? — Ela tornou a falar, fazendo com que eu voltasse a atenção para seus olhos castanhos.
  — Só vim ver se você já havia terminado, eu também preciso de um banho.
  — À vontade. — Ela enrolou uma segunda toalha no cabelo. — As duas toalhas estão comigo, mas não se preocupe, eu pego uma pra você na recepção.
  Ela virou as costas, tornando-se para as malas e fazendo-me repensar a que ponto nossa relação havia chegado. Nós parecíamos com um casal de sessenta anos, unidos apenas por fotos, lembranças, e pelo afeto que um dia existiu.

  

.

  

O galpão era escuro, as portas largas e pesadas deixavam o sol entrar, servindo de holofote para o corpo atirado brutalmente no chão. O cheiro de ração e sangue era uma mistura melancólica e dominante na cena do crime.
  — Aconteceu um massacre aqui. — Giovanna, a delegada local, acabava de chegar ao meu lado, ainda com as mãos na cintura.
  — E, pelo modo de execução, quem fez tudo isso queria muito que ela morresse.
  Ao lado da garota estirada no chão, havia um macaco, que assimilei instantaneamente com as marcas em sua cabeça e na boca do estômago. Do outro lado, apenas seringas e um par de bisturis.
  — A equipe do IML já esta chegando, a família vai reconhecer o corpo ainda antes da perícia com ele.
  — Ok. Isolem o local, não quero que estraguem a cena do crime. — Disse por fim, ajustando a gola da camisa, e caminhando para fora.

  

...

  

Eu tentava raciocinar, mas a cena do crime continuava em minha cabeça. O corpo de Anna já deveria estar sendo velado a essa altura do campeonato, o que me preocupava ainda mais.
  — Já conseguiu a lista de principais suspeitos? — Giovanna entrou em minha sala sem pudor, retirando os flashes de minha cabeça.
  — Parece que os amigos da garota não estão mais na cidade, os pais mantinham um ótimo relacionamento com ela e, com o namorado, não era diferente. — conclui, tirando os óculos em seguida.
  — Nós não sabemos com quem estamos lidando, . Quero a ficha criminal de todos os amigos, e quero que providencie um mandato para a casa do , exigindo sua presença para um interrogatório. Esse garoto tem muito a nos contar.

  

.

  

Eu caminhava arrastando os pés em minha sandália, no intuito de chegar à recepção o mais rápido possível. Ela era pequena, com um balcão de madeira em verniz velho, um sofá creme e uma poltrona da mesma tonalidade. Na portaria – lugar onde eu me encontrava agora – uma placa de boas vindas fora pendurada com intenção de deixar o lugar mais hospitaleiro. Sem sucesso.
  Entrei na espécie de “salinha” já com vontade de sair; o ambiente mantinha um ar pesado, sem contar o cheiro de cigarros e velhice. Era possível ouvir a discussão vinda da porta atrás do balcão. Eu já estava prestes a me retirar, interromper brigas profissionais nunca fora meu forte. que use minhas toalhas molhadas, eu que não vou me meter nisso.” , pensei, sendo interrompida por uma silhueta gorda de uma senhora calva.
  — Precisa de alguma coisa, menina? — Ela foi rude, coisa que julguei ser municipal, ou apenas pelo stress de segundos atrás.
  — Eu só vim buscar mais toalhas para meu namorado. — Namorado, há quanto tempo eu não usava esse termo.
  A velha voltou para o que julguei ser uma “despensa”, saindo de lá segundos depois com três toalhas quase marrons, encardidas e mal lavadas.
  — E não me peça mais. Essas peças já estão acabando, caso contrário, eu vou ter de começar a cobrar. — O sangue fervilhou, digamos que eu não estava em um de meus melhores dias para aguentar desaforos.
  — Eu entendo. A senhora, com esse corpo, deve precisar de muito mais que duas toalhas. Presumo que seja por isso que estão em falta. — Atirei a ofensa, acertando-a em cheio. Ela cerrou os olhos, olhando-me prestes a retrucar, se não fosse por uma mão larga e calejada tocar seu ombro, fazendo-a estremecer.
  — Não é assim que se trata uma cliente, Candice. — O homem de cinquenta e poucos anos a afastou, tomando a frente. — Qualquer coisa que precisar, menina, temos um interfone no quarto. — Ele fitou diabolicamente a mulher, que se encolhera na tentativa de ser redimida.
  Apenas assenti com a cabeça me retirando o mais rápido dali. Não demorei em abrir a porta do quarto – que anunciava a todos que eu havia voltado, apenas com seu barulho – entrando logo no banheiro, e deixando a toalha sob a pia e vendo sair enrolado nela, minutos depois.
  — Você demorou, aconteceu alguma coisa? — Ele já estava com a toalha na cintura.
  — A velha da recepção me recusou a toalha, e digamos que eu não gostei nada do jeito que ela me tratou. — Ele arregalou os olhos.
  — Você não...
  — Não, , eu não bati nela. — Ele riu, pegando o celular no criado-mudo e me dando vista de seus dedos vazios. — , cadê a sua aliança?
  O garoto corou, fazendo minha cabeça bombear. “Há quanto tempo ele não a usava mais?“, “Por que não usava?”. Minha vontade era de arrancar seus dedos um a um, ali mesmo, antes mesmo de ele responder.
  — Eu tirei para tomar banho, ainda não pus de volta, mas está em cima da pia. — Ele contornou sorrindo brevemente com meu suspiro de alívio. — Você não pensou que eu...
  — Não, é só que... Deixa pra lá.
  Deitei em minha cama na tentativa de dormir até a hora do almoço. Seria uma longa temporada fora da cidade, e por mais divertido que isso pudesse se tornar, não passaria nem perto de ser uma colônia de férias.

Capítulo 3

  

.

  

O almoço foi tranquilo, o restaurante do hotel indicava que a comida era ruim demais para ser tragada ou que éramos apenas nós seis naquele lugar.
  — Acho que já podemos ir para os quartos. — balbuciava, mexendo com o mínimo de vontade a comida pegajosa que ela mesma havia pedido.
  — Ainda nem terminamos de comer, . — olhou diretamente para a garota, que não ergueu os olhos nem por um minuto.
  — Desculpa, , eu não me sinto muito bem. — O garoto apenas assentiu, voltando a atenção para seu prato.
  — Se você quiser, eu pego uma água pra você e te levo para o quarto, , eu já terminei de comer. Deixe o aqui com os garotos e com a , e vamos. — , como a boa amiga que era, ofereceu, me fazendo agradecer mentalmente.
  — Se você não for se incomodar, por favor.
   levantou da mesa, indo em direção ao freezer antigo, apanhando duas garrafas de água mineral.
  — Você acha que ela vai ficar bem? — O olhar preocupado de sobre mim era intrigante.
  — Claro que vai. Ela só está triste pela morte de Anna, mas é só uma fase. Um dia, todos nós vamos nos juntar a ela. — As palavras soaram tão desagradáveis e frias que me fizeram repensar.
  Anna e eu nunca fomos muito próximos, apesar de ela ser a melhor amiga de . Um tempo atrás, quando me contou sobre seu caso com , eu passei a repugná-la, sempre tentando alertar da maneira mais direta possível. Tinha medo de que A.C., como gostava de ser chamada, levasse minha namorada para o mesmo caminho.
  Quando comentei sobre a traição de que havia exercido sobre e alegou já saber, a raiva que senti de Anna conseguiu se tornar obsessiva. Ela praticamente corrompeu minha namorada, impedindo-a de me contar a verdade.
  Mais tarde, quando as coisas se ajeitaram e a poeira baixou, nossa convivência voltou a ser a de sempre, e por mais que ela fosse um alvo forte, realmente não precisava ter morrido daquela maneira.
  — Acho que vou fazer companhia para as meninas. — me tirou do transe, ajeitando os talheres diferentes e queimados lado a lado. — Tchau, galerinha, vejo vocês depois.
  — Tchau. — O conjunto de vozes saiu, fazendo a garota dar um breve selinho no namorado e se retirar em seguida.
  — Já decidiram pra onde vamos depois daqui? — disse baixo e abafado, essas foram as únicas palavras dele durante o almoço todo.
  — Ainda não, acho que podemos ficar aqui por mais uns dias. — se pronunciou, fazendo com que o menino olhasse diretamente para seus olhos.
  — Isso se não nos expulsar daqui.
  — Aconteceu alguma coisa? — Minha testa já se mantinha franzida.
  — Ela não quis me contar direito, mas parece que discutiu com a dona desse lugar.
  Rimos por um tempo, até sairmos daquele local escuro e sem ventilação, indo em direção ao meu quarto, onde as garotas se encontravam.

  

.

  

O sol já estava quase desaparecendo diante daqueles poucos prédios altos e defeituosos que a região apresentava. Depois que os meninos chegaram onde eu – juntamente de e – me encontrava, a conversa saiu do foco , passando para algo mais descontraído e menos penal. Daquele jeito o dia passou, até eu me ver trancada novamente com no quarto, me arrumando para o jantar grupal.
  — Vamos, , todos já estão nos esperando. — apressava ainda sentado na cama, enquanto eu acabava de amarrar o cadarço do meu tênis, ajeitando o cabelo pouco volumoso frente ao espelho.
  — Pegou a chave? — Eu já me encontrava ao lado da porta, vestida despojadamente com couro sintético e calças escuras.
  — Vamos. — O garoto concluiu, abrindo a porta e vendo a cara de alívio e ansiedade dos amigos.
  — Achei que tinham morrido lá dentro. — foi direta, e um tanto quanto inconveniente, fazendo com que nem eu nem respondêssemos.
  — Acho que agora finalmente podemos ir. — cortou o clima, se direcionando para o carro, seguido de todos os outros.
  Nós jantaríamos em um lugar diferente hoje; não que isso importasse agora, mas eu de fato não gostaria de voltar para a espelunca do almoço e, de cortesia, ganhar olhares indesejáveis e totalmente indiscretos da mulher gorda e mal amada e de seu marido alto e ameaçador, que mesmo de longe exalava um odor totalmente diferente de todos os que já senti, ele cheirava a açougue e perfume francês barato.
  Estacionamos na frente da lanchonete com um grande letreiro iluminado a sua frente, as estrelas já cobriam o céu sem nenhum pudor, e era possível notar o radiante brilho da lua do lado de fora do local.
  — Até que é ajeitado. – balbuciou as primeiras palavras da noite, fazendo com que todos a olhassem.
  — Com certeza é melhor do que o lugar em que almoçamos, se é que aquilo pode ser chamado de “lugar”. — desprezou o hotel de estrada onde estávamos, com a velha e conhecida cara de esnobe.
  A lanchonete era clara, com uma porta de vidro e cortinas de seda nas janelas. Era bonita, de primeiro mundo e, pelo tamanho da cidade, julguei ser uma filial de algo maior. Nos sentamos à uma mesa de canto, com sofás de couro marrom ao lado das janelas e cadeiras confortáveis do lado contrário.
  A garçonete com uma típica roupa rosa nos atendeu, levando vagarosamente os pedidos até o balcão, batendo em uma espécie de campainha, fazendo com que logo o cozinheiro rechonchudo pegasse os papeis e sumisse para dentro outra vez.

  

[...]

  

— Isso compensa a comida do almoço. — tagarelou em meio às mordidas, fazendo todos sorrirem ainda abalados para a garota.
  O clima não melhoraria tão cedo. Nós já não éramos como antes, não ríamos como antes, não nos falávamos como antes. A liberdade entre cada um parecia limitada. Cada um com sua opinião, cada um com suas diferenças, cada um com seus segredos. E era isso que me fazia sentir como se estivesse em uma mesa junto de estranhos, apenas pelo simples fato de não haver mais nenhuma mesa disponível no recinto.
  — , está tudo bem? — apertou minha coxa, olhando diretamente em meus olhos.
  — Está, eu só estava... Pensando. — olhou para o que eu chamava de namorado, indicando preocupação.
  — Acho melhor nós irmos embora. — Observei que todos já haviam acabado. — Eu estou cansada.
  — Vamos, , eu só vou acertar a conta.
  Nos dirigimos ao estacionamento sem pronunciar nada, chegando à nossa hospedagem em menos de dez minutos. Na recepção, a placa “voltamos em breve” me chamou atenção. Como eles poderiam deixar um hotel – por mais chulo que fosse – sozinho? E se alguém esquecesse a chave ou precisasse de toalhas?
  — Você anda totalmente aérea ultimamente, sabia? — A voz de ecoou dentro do carro já parado, me fazendo despertar.
  — Me desculpe. — Desci do carro, empurrando a porta praticamente emperrada da nossa atual moradia.
  Ele entrou logo em seguida, tirando os jeans, deixando-os no chão e vasculhando a mala, à procura da famosa calça de moletom cinza. Eu me encontrava exausta, sentada em minha estreita cama de solteiro, sem nenhum tipo de expressão no rosto, apenas observando cada movimento de à minha frente, até ele perceber e vir se sentar ao meu lado, me fazendo encostar automaticamente minha cabeça em seu ombro.
  — Eu sei que você está triste, .
  — Todos estão, . Ela foi amiga de todo mundo aqui.
  — Nem de todo mundo. — E essa foi a primeira vez que ele olhou para mim.
  — Como?
  — A.C. não era uma das melhores pessoas do mundo, tinha muitos inimigos também.
  — Você está querendo dizer que a Anna era uma — Ele já alterava o tom de voz abalado, me fazendo cortá-lo repentinamente.
  — , eu não quero brigar com você. — Ele me olhou e, a essa altura, minhas mãos já se enroscavam em seus cabelos atrás da nuca.
  Ele não disse nada, apenas jogou seus lábios nos meus, me permitindo sentir algo que já estava até desacostumada: o gosto de seu beijo, a textura de seus lábios, o hálito batendo contra o meu.
  Talvez essa fosse apenas uma trégua, ou mais uma das recaídas típicas de fraquezas. precisava de mim, e eu estaria ali, até na hora que ele menos desejasse que estivesse.

  

[...]

  

Os braços de já me envolviam na apertada cama de solteiro ao lado da parede. O barulho que havia me acordado vinha da porta, e achei que fosse apenas um pequeno espasmo de minha parte, até a madeira ranger seca novamente.
  — Tá esperando alguém, ? — sussurrou, arrancando a mão que antes permanecia em minha cintura, e coçando os olhos.
  — Quem eu estaria esperando a uma hora dessas?
  Levantei-me, colocando o roupão de cetim creme enquanto apenas procurou no chão algo para vestir. A porta continuou batendo, algo vagaroso e desesperado ao mesmo tempo.
  — , se você está querendo brincar comigo — gritava andando ligeiramente para perto da porta, puxando-a sem dó — É melhor que... — Ele calou.
  Não havia ninguém. Nada. Nada ocupava nossa visão do lado de fora, exceto pela pilha de toalhas – agora totalmente brancas – dobradas cuidadosamente e deixadas no chão, em frente a nossa porta.
  Nós não estávamos sozinhos.

FIM



Comentários da autora


[06/11/2017] Eai gente, tudo certo? Estou deixando mais um capítulo para vocês. Aproveitem para me contar a opinião de vocês nos comentários ou via twitter, críticas construtivas também são sempre levadas em consideração.
É isso, aproveitem a leitura e lembrem-se: não confiem em ninguém.
xoxo