Strange Boy

Escrito por Hanna Bluenakes - Siga a autora no Twitter
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Era apenas mais uma festa. Só mais uma festa. Uma tentativa de minhas amigas e de me tirarem da frente do maldito laptop em que eu escrevia tão desesperadamente para terminar de revisar o roteiro do livro que tinha escrito e feito um "sucesso mundial". Refazer aquele roteiro mais vezes que qualquer um faria tinha se tornado minha obsessão particular. É triste ver o seu livro, que deu tanto trabalho de escrever, reduzir-se a quase pó em mãos de um roteirista qualquer. Entramos na casa de um amigo de que ficava em Soho, Londres. Eu já estava morando lá a quase um ano e ainda não saia o suficiente, de acordo com elas. O local estava cheio, mas não o suficiente para não conseguir me locomover ou respirar desconfortavelmente, mas ainda assim, era desconfortável estar no meio daquelas pessoas ricas, influentes e famosas do ciclo de amizade delas.

Ambas foram uma para cada lado, me deixando sozinha. Ah, ótimo, agora sim eu estava mais do que desconfortável, estava entrando em pânico. Talvez eu tenha Antropofobia, ou simplesmente seja antissocial. Não demorei muito a achar um ou dois conhecidos. Vi , um integrante de uma banda que eu gostava, conhecia-o pelo fato de ser primo de , já tinha encontrado-o em várias festas, e essa não parecia ser diferente. Fui até ele, cumprimentando os amigos junto e logo já estavam todos conversando comigo como se me conhecessem a anos. Mas não era ali que eu queria estar, então disse que iria ao banheiro, mas na verdade, fui procurar um lugar vazio, o que foi difícil de achar. No final, encontrei a lavanderia, com uma enorme janela e nada pendurado em seus varais.

Ascendi um cigarro e me apoiei na janela. Pensando em qual seria o personagem que iria matar assim que chegasse em casa, para o novo romance que estava vindo. Não tinha nada realmente pronto, apenas alguns rabiscos e desenhos em meus cadernos. Estava querendo mudar meu estilo, então tinha começado projetos particulares - tão particulares que eu nem sabia o que estava fazendo até ter metade do material necessário.

- Ótimo, pelo visto não sou o único que não gosta de muita gente. - ouvi uma voz vindo pela porta e fechando-a, abafando o som da música eletrônica que tinha da sala.

Era um garoto, não muito mais novo que eu, mas o suficiente para notar. Alto, magro, de cabelos negros como a noite que eu via pela janela. Vestia jeans e uma camiseta azul, normal, como todos naquela festa, mas seu rosto era familiar. Como todos ali tinham algum tipo de ligação com o ramo do entretenimento, não achei algo tão surpreendente. Não tanto quanto os olhos que ele tinha. Um azul tão bonito quanto os mares que eu via da janela da casa da minha avó quando era pequena. E também tinha um pouco de verde, como raios de partiam do céu, tão mortais quanto qualquer descarga elétrica que eu poderia pensar.

- Ah, não é como se eu não gostasse de pessoas, eu só não gosto delas quando podem beber e eu não.
- Motorista da rodada também? - um sorriso de canto veio dos tímidos lábios dele.
- Não, tenho que buscar meu irmão e minha mãe no aeroporto para passar as férias deles comigo em algumas horas. - respondi e deu mais uma tragada no cigarro que tinha em minha mão esquerda, dando alivio ao turbilhão de ideias que vinham a minha mente fértil e doentia. - Não posso aparecer lá bêbada.
- Então... Não podemos beber e não gostamos de pessoas que bebem quando não podemos... Pena que temos tão pouco em comum.

Sorri com aquele comentário irônico e voltei a dar atenção ao meu cigarro. Ele se colocou ao meu lado, com os braços cruzados no apoio da janela, assim como eu. Pude sentir a sua pele quente tocando sutilmente a minha. Ficamos admirando a vista da janela. Era uma casa em um lugar alto, então enxergávamos as ruas do bairro de pubs e festas mais frequentado de Londres. Era de certa forma, inspirador olhar as pessoas passeando sem preocupação por volta das três da manhã ali. Ficamos em silêncio até meu estomago roncar. Senti meu rosto ficar vermelho quando o garoto olhou para mim com um sorriso grande na boca.

- Então, quer sair daqui e tomar um café? - ele disse. - Conheço um lugar ótimo aqui perto.

E foi assim que começou. Não tive a intenção de fazer alguma amizade com ele, sequer gostar daquele estranho. Fomos até a cafeteria, nos sentamos perto da janela e começamos a conversar sobre os mais diversos assuntos. Um café, dois três, nenhum de nós queria sair dali tão cedo. A conversa era boa demais, as risadas eram contagiantes, assim como o amor que ambos tinham por Ficção Científica. Tudo parecia colidir em perfeita harmonia. Até que o tempo passou, e eu tinha que ir embora. Ele me levou até o carro, trocamos telefones, mas o beijo que veio a seguir me pegou de surpresa tanto quanto aquela personalidade forte e flexível que o garoto tinha. Um beijo com gosto de café fora me dado por um estranho, eu não sabia muito dele, mas com certeza iria descobrir. Entrei no carro e fui até o aeroporto com um sorriso bobo nos lábios. Peguei meu telefone e olhei o nome que ele tinha digitado em seu contato. Lancaster. Claro que ele era familiar. Ele era um dos atores que estava na lista para fazer o personagem principal do roteiro que eu estava reescrevendo com tanta obsessão para ficar perfeito. Eu tinha certeza, ainda o veria muitas vezes.

FIM

 

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