Starmaid

Escrito por Lyra M. | Revisado por Lyra M.

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Capítulo Único

“Somos humanos porque contemplamos as estrelas ou as contemplamos porque somos humanos?”

  

(Stardust, Neil Gaiman)

     

tinha muito medo. Seus pais já haviam tentado tudo que era possível para ajudar o filho, e ele mesmo sabia que não havia necessidade de temer tudo e todos ao seu redor, mas não era algo que conseguia evitar. O medo vinha e ele não conseguia mandá-lo embora, só.
     Era só uma fase, seu pai dizia para acalmar tanto quanto a esposa, , que já começava a se preocupar seriamente com a saúde mental do filho. concordava com o pai – ele sentia medo de tudo, sim, mas algumas vezes sentia mais medo de algumas coisas do que de outras. Então, tecnicamente, era sim uma questão de fases.
     Quando era recém-nascido, chorava toda vez que era afastado da mãe, por mais rápido que fosse. Aos três anos, os vizinhos ganharam um cachorro, e o menor latido já o assustava. Aos quatro, parou de brincar no parquinho, pois tinha medo de altura. Aos seis, assistiu a um filme sobre dinossauros com o pai, e não dormiu por semanas. Agora, aos oito, tinha pavor do escuro.
     O problema era que já estava grandinho demais para dormir no quarto dos pais, e era filho único, de modo que precisava enfrentar o medo toda noite. O abajur aceso não era suficiente para acalmar o coraçãozinho da criança, então ele esperava a mãe sair depois de dar um beijo de boa noite e corria para a janela, onde abria as cortinas e deixava mais um pouco de luz invadir o ambiente. Quando não fazia isso, ficava na cama e puxava a coberta por cima da cabeça, como em uma barraca improvisada, e acendia uma lanterna até que pegasse – finalmente – no sono.
     Naquele dia, parecia ainda pior. Podia ser apenas impressão de , é claro, mas ele sentia como se a noite estivesse mais escura, com menos brilho do que o normal, e o coração dele batia apressado, ansioso com algo que a criança nem sabia o que era. O tempo parecia congelado. O silêncio era absoluto, com exceção do cricrilar de um ou outro grilo no quintal lá fora, parecia que a mãe de havia saído do quarto há uma eternidade, e ele estava sentado na cama, com a coberta puxada sobre a cabeça, a lanterna acesa no colo e a respiração pesada. Esperando.
     E então aconteceu.
     Um estrondo alto quebrou o silêncio da noite, e o susto quase fez com que gritasse ou caísse da cama. Mas graças a algum motivo desconhecido, ele se manteve lá, quieto e parado, imaginando o que fora aquilo. O resto da casa continuou em silêncio, então ele duvidava que os pais tivessem ouvido. Além do mais, fosse o que fosse, havia caído no quintal, ele tinha certeza. Bem debaixo da janela dele, talvez tivesse até batido na parede – tinha certeza que sentira os objetos no quarto balançarem um pouquinho.
     Tremendo de nervoso e usando uma coragem que ele não sabia que tinha, chutou a coberta para longe e se levantou, avançando em passos lentos até a janela.
     A casa de possuía apenas um andar, de modo que, para quem estivesse do lado de fora, a altura do chão até a janela não era muito grande. Mas de qualquer modo, a última coisa que esperava quando abriu a janela e olhou para baixo, procurando a fonte do barulho, era encontrar uma menina já se levantando, com uma expressão de dor e esfregando a cabeça com uma das mãos.
     O menino arquejou e recuou alguns passos, assustado. Ao mesmo tempo, o movimento brusco assustou a garota, que tentou afastar alguns passos e perdeu o equilíbrio, caindo mais uma vez no chão gramado do quintal. Ela reclamou baixinho da dor, mas não se levantou. Tentando não gaguejar e se aproximando aos pouquinhos, falou:
     — Você está bem?
     A voz dele saiu um pouco baixa demais, mas foi o suficiente para ela ouvir e balançar a cabeça positivamente. A menina devia ter a mesma idade que ele, ou talvez fosse apenas um ano mais velha, e era tão pálida que a pele parecia refletir o luar, perolada. Ela apoiou as mãos no chão com uma careta de dor, mas conseguiu tomar impulso para se levantar, e limpou a sujeira de terra e grama das palmas das mãos no vestido lilás rodado, de alças finas. Como ela não estava sentindo frio? Era quase inverno!
     Olhando para trás para checar se nenhum dos pais estava vindo e ignorando o que restava do seu medo de altura, engoliu em seco e apoiou as mãos no peitoril da janela, pegando impulso para pulá-la, e caiu com um baque surdo do lado de fora, quase perdendo o equilíbrio do mesmo jeito que a menina fizera há pouco.
     Ela olhou para ele, desconfiada, e recuou um passo, mas o garoto tinha outras coisas nas quais reparar. Agora, sob a luz da lua e com a certeza de que não era coisa da sua imaginação ou uma impressão causada pela luz do abajur, pôde reparar mesmo no cabelo da menina. Era azul.
     Não preto-azulado, e não pintado, mas naturalmente azul, uma cor tão clara quanto as águas cristalinas de um rio, e com poucas mexas em um tom de rosa que se aproximava do violeta. Os olhos eram grandes e expressivos, curiosos, em um tom de azul parecidíssimo com o do cabelo – talvez apenas um pouco mais claros.
     A menina o olhava, afastada, como se estivesse fazendo uma análise completa. Nem mesmo disfarçava ao olhá-lo dos pés a cabeça, e mantinha no rosto uma expressão desconfiada e, achava, um pouco amedrontada.
     — Não vou te machucar. — Ele falou hesitante. — Meu nome é , e o seu?
     A menina o encarou por mais alguns segundos, como se decidindo se era de fato confiável ou não. Ela o olhava com tanta atenção que era como se estivesse lendo sua alma – e talvez estivesse mesmo, não tinha como saber. Por fim, ela pareceu achar a apresentação boa o suficiente, e sorriu. Quando o fez, foi como se toda a luz que dera falta naquela noite tivesse voltado, e irradiava dela. Seu rosto era como o céu noturno, você quase podia traçar constelações em suas sardas, que se pareciam com estrelas. O frio deixava as bochechas da menina coradas, e o tom rosado apenas destacava mais as sardas, que quase pareciam ter brilho próprio. Ela ainda sorria quando respondeu, feliz:
     — Pode me chamar de Orie.
      queria perguntar o que ela estava fazendo no quintal de sua casa, ainda mais de noite. Queria perguntar de onde ela viera, e o que acontecera. Queria perguntar muitas outras coisas, aliás, pois era muito curioso, mas não teve oportunidade.
     O menino achou ter ouvido um barulho e, quando olhou para o lado, na direção do quintal da frente, conseguiu ver uma luz fraca através da janela do quarto dos seus pais. Será que haviam escutado alguma coisa? Orie havia feito um barulhão, e talvez eles estivessem falando alto...
     — Acho que meus pais estão vindo. — Ele comentou, meio assustado.
  — E daí? — A menina de cabelos azuis perguntou inocente.
  — Preciso entrar!
      olhou para a menina de novo, em um pedido de desculpas silencioso, e virou-se para a janela do próprio quarto, apoiando as mãos no parapeito e tomando impulso para subir. Tão rápido ele caiu no chão de carpete de seu quarto – sem fazer nenhum barulho, por um milagre – e fechou a janela, a luz do corredor se acendeu, e ele só teve tempo de correr para a cama antes que a porta do quarto se abrisse e seu pai entrasse, com um semblante meio desconfiado.
     — ? Está tudo bem? — O homem, , perguntou. — Achei ter ouvido um barulho.
  — Tudo, pai. — Ele respondeu. Podia sentir seu coração acelerado, e por algum motivo decidiu não contar sobre Orie. — Deixei a lanterna cair, só isso.
  — , achei que tinha dito para ir dormir. — Ele falou sério.
  — Mas eu estava com medo, aí acendi a lanterna. — A criança tentou se explicar. — Mas tudo bem, não estou mais com medo. Pode levar a lanterna se quiser.
      olhou para o filho com uma pontada de orgulho, antes de balançar a cabeça e dar um sorriso pequeno. Ele se aproximou, dando um beijo rápido na testa no menino e bagunçando seu cabelo, antes de murmurar “boa noite, campeão”, e sair do quarto. Deixou a lanterna onde estava, apesar de tudo.
      esperou alguns segundos depois de a luz do corredor se apagar, e embora não tivesse conseguido ouvir a porta do quarto dos pais se fechar, sabia que o pai já havia ido se deitar de novo. O menino mais do que depressa chutou a coberta para longe de novo, e correu em direção à janela. Ele a abriu de novo, e colocou a cabeça para fora, procurando por Orie e já se preparando para pedir desculpas, porque não, não podia ter esperado mais, e não, não sabia o que os pais fariam se a vissem lá. No entanto, o pedido de desculpas ficou entalado na garganta.
     Ela não estava lá.
      franziu o cenho, sem entender. Seu pai havia ficado no quarto por no máximo cinco minutos, aonde a estranha menina de cabelos coloridos poderia ter ido?
     — Orie? — Ele chamou, tentando manter a voz não muito alta. — Orie!
     A resposta não veio, então desistiu. Fechou a janela e voltou para a cama mais uma vez, preparando-se para dormir e ainda se perguntando onde a menina poderia estar e o que estava fazendo lá em primeiro lugar. A noite continuava parecendo mais escura que o normal, mas a lanterna continuou onde estava: esquecida no chão, apagada. pegou no sono poucos minutos depois, sem reparar nisso.

     
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O dia seguinte passou muito rápido, e a noite veio com igual rapidez. estava caindo de sono, mas se recusava a dormir; algo ainda o perturbava.
     Há cerca de 24 horas, ele havia vencido o medo do escuro pela primeira vez na vida, para investigar o que quer que fosse. E oras, ele nem gostava muito de histórias de detetives! No final, encontrara uma menina estranha no quintal da própria casa. Estranha em todos os sentidos – nunca a vira antes, embora conhecesse muitas crianças na escola, e ele bem sabia que o tom de azul que ela tinha nos olhos e nos cabelos não podia ser real. Bem, até podia, mas não natural.
     O problema era que ela havia sumido. Em menos de dez minutos ele a perdera de vista, e agora não sabia para onde ela havia ido ou se ao menos existia. Será que poderia ter sido um sonho? Ele podia jurar que não estava dormindo... Como um sonho poderia parecer tão real?
      se revirou na cama, inquieto. Quase perguntara à sua mãe se eles tinham vizinhos novos, mas mudou de ideia; achava que, se alguém tivesse se mudado para a rua ou bairro em que moravam, ele e os pais teriam visto o caminhão de mudanças, comentariam sobre durante o jantar, ou qualquer coisa do tipo. Talvez ele só devesse esquecer. Crianças costumam esquecer as coisas rápido, de qualquer forma – são muito jovens, têm mais coisas para ver e armazenar em seus pequenos cérebros.
     Ele estava sonolento, com os olhos quase se fechando para o mundo dos sonhos quando o som de pequenas batidinhas apressadas no vidro da janela o despertou. Com o coração acelerado, sentou-se na cama, e apertou os olhos na semi-escuridão do quarto, até conseguir enxergar melhor: o topo de uma cabeça aparecendo através do vidro, com cabelos azulados, e o bater ritmado de dedos pequeninos contra o vidro. Um som baixo, mas constante. Um, dois, três, pausa. Um, dois, três, pausa.
     “Eu sabia!”, disse para si mesmo enquanto se levantava. “Eu sabia que não foi imaginação minha!”
     Os grandes olhos azuis de Orie o encaravam quando ele abriu a janela, animado. Ela tentou olhar, ansiosa, por cima do ombro dele, embora fosse muito baixa para conseguir enxergar algo.
     — Meus pais estão dormindo. — Ele informou de prontidão. — Por que você foi embora ontem?
  — Não queria que me vissem. — Ela respondeu simplesmente, parecendo mais relaxada.
     Entrando de novo bem rápido, puxou a cadeira da escrivaninha, colocando-a abaixo da janela e usando-a como apoio para pular. Do lado de fora, exatamente como no dia anterior. Orie tinha um sorriso nos lábios, mas foi ele quem falou primeiro:
     — O que aconteceu com você? Ontem, antes de eu vir aqui fora.
  — Eu caí. — A resposta simples não o incomodou.
  — Machucou? Seus pais não brigaram com você?
  — Não. Meus pais não sabem que eu estou aqui.
  — Você fugiu? — perguntou, meio assustado, e se surpreendeu quando a menina balançou a cabeça positivamente. Ela parecia bem orgulhosa de si, e mais uma vez a noite pareceu mais clara, como se o sorriso dela iluminasse as estrelas disfarçadas de sardas que a menina tinha nas bochechas e no nariz.
  — Eu vou voltar. — Ela prometeu. — Só não agora. Quero conhecer as coisas, primeiro.
  — Você não é daqui da cidade? — O menino perguntou, e Orie balançou a cabeça, negando. A informação nem mesmo o chocou – as crianças, afinal, têm a tendência de acharem que as coisas são muito mais simples do que parecem. E qual seria o problema, na visão delas, em pegar um ônibus para outra cidade ou estado, sem um adulto por perto?
      abraçou a si mesmo, com frio. A noite estava fria e, além disso, era noite. O que ela estava fazendo lá aquela hora, por que não voltar de dia?
     — Por que você voltou?
  — Gostei daquilo. — Ela apontou para um ponto um pouco mais distante no quintal, onde havia um balanço de ferro. — O que é?
  — Você nunca brincou em um balanço? — ficou chocado quando ela balançou a cabeça, negando. — Quer brincar?
     Foi automático. Mal ele terminou de falar, Orie deu o maior sorriso que ele vira até então – agora ela parecia ter estrelas presas dentro dos olhos também, brilhantes como eram –, e correu em direção ao balanço. Ele foi atrás, com medo que ela fizesse algum barulho e chamasse a atenção de seus pais ou vizinhos.
     A menina parou assim que chegou perto o suficiente do balanço de metal, e sentou-se. esperou que ela fizesse algo, mas ela só ficou parada, com expectativa.
     — Você tem que balançar... — Ele comentou.
  — Ah. — Ela respondeu meio desconsertada. — Como?
  — Primeiro você senta, aí anda uns passos para trás, e depois tira os pés do chão. É só pra pegar impulso. — Ele explicou. — Depois é só inclinar as pernas para frente e para trás, até ir bem alto.
     Era estranho ter que explicar como se brinca em um balanço, mas era mais estranho ainda alguém não conhecer a brincadeira. De onde ela havia vindo, afinal? Hesitante, Orie fez o que ele mandou, segurando firme enquanto recuava os passos para pegar impulso.
     Quando ela sentou-se e permitiu que a gravidade empurrasse o balanço para frente, com rapidez, seu rosto passou por diversas expressões diferentes em uma fração de segundo. Primeiro a incerteza sobre o que estava fazendo, depois o susto, e então pura felicidade.
     Orie não sabia esconder seus sentimentos. Era tão transparente quanto um cristal, e naquele momento sabia que devia estar quase reluzindo de felicidade; nunca havia se sentindo tão livre em toda a sua vida, exceto, talvez, no momento em que deixara seu lar para trás. O que a deixava em dúvida entre qual das duas sensações era a mais libertadora era apenas um fato: ela sabia que teria que voltar para casa um dia, mas sentia que poderia ficar naquela coisa (qual era o nome mesmo? Balanço?) para sempre.
      observava um pouco afastado, sorrindo com a alegria da menina. Ficara com vontade de brincar também, mas preferiu deixá-la aproveitar – o balanço era dele, podia brincar quando quisesse, enquanto ela nunca nem tinha visto o objeto.
     Ambos perderam a noção do tempo, até que o que temia – e havia quase esquecido ser um risco real, é verdade – aconteceu. Orie, perdida em seu divertimento, deixou uma gargalhada alta escapar, repleta de alegria. O riso pareceu aumentar ainda mais seu contentamento, mas ela percebeu que não deveria ter feito isso quando viu, no mesmo instante, arregalar os olhos de susto. Ela levou a mão à boca no mesmo instante, saltando do balanço e caindo no chão suavemente, mas o estrago estava feito.
      olhou em volta, procurando se alguém havia ouvido algo, ao passo em que Orie parecia, de fato, arrependida, embora ainda tivesse um traço de alegria nos olhos. Não entendia porque precisavam fazer tanto silêncio durante a noite, mas era boa em seguir (quase sempre) as regras, e sabia que devia haver algum motivo para aquilo.
     — Desculpe. — Ela sussurrou por entre os dedos, que ainda tampavam a boca.
  — Tudo bem. — sussurrou em resposta. — Mas eu preciso entrar.
     Ela concordou com a cabeça, e os dois correram de volta, o mais silenciosamente que podiam, para a janela do quarto de . Tudo parecia em paz, apesar do pequeno escândalo dela.
     — Você volta amanhã? — O menino perguntou, já se preparando para pular a janela.
  — Volto. — Ela prometeu, sorrindo e acenando com a cabeça.
     Aquele, sentia, era o começo de uma grande amizade.

  
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era muito bom em guardar segredos. Não se lembrava de ter espalhado um só que lhe fora confidenciado em toda a sua vida, e se orgulhava muito disso. Além do mais, também era muito bom em saber o que deveria ser mantido em segredo, mesmo quando a pessoa que lhe confidenciava não pedia. E, em dez anos de vida, ele nunca arranjara problemas com isso, então achava que estava fazendo um bom trabalho.
     Especialmente, ele achava, com Orie.
     Ela vinha quase todas as noites, e os dois conversavam e brincavam. Às vezes ela se arriscava a entrar no quarto dele, onde eles dividiam alguns carrinhos ou quebra-cabeças – eram os preferidos dela –, mas nunca demorava muito, já que tinham medo de que ou aparecessem de surpresa. O que mais o deixava orgulhoso era isso, aliás: nem seus pais suspeitavam da existência dela. Era um segredo de , apenas de , e os dois pareciam felizes em manter daquele jeito.
     Aquela noite, no entanto, ela não viria – ou, pelo menos, não dissera nada na noite anterior. Ele não sabia por que as visitas dela eram inconstantes, sabia apenas que ela gostava de explorar outros lugares também, mas não se importava muito. Fora um acordo silencioso, que os dois cumpriam de bom grado.
     E, já que ela não viria, ele já estava pronto para dormir. Os olhos já estavam quase se fechando, com um livro de histórias infantis aberto e esquecido em cima do colo, e os óculos – que ele descobrira precisar para ler – repousando na mesa de cabeceira. Estava quase pegando no sono quando a porta do quarto abriu e entrou.
     — Ainda acordado, meu amor?
  — Estava lendo. — O menino respondeu, coçando os olhos.
  — Estava era quase dormindo sentado, isso sim. — A mulher respondeu, rindo de leve. Ela se aproximou e pegou o livro, deixando-o sob os óculos na mesa de cabeceira, e então perguntou, curiosa: — Por que as cortinas estão abertas?
  — Eu esqueci. — respondeu hesitante. A verdade é que se tornara um código: se estivessem abertas, Orie saberia que ele estava acordado. Se estivessem fechadas, ele já havia ido dormir.
     Ele olhou, hesitando, enquanto a mãe andava até lá e puxava o tecido, cobrindo o vidro da janela e a visão de o que quer que houvesse no quintal. Orie não havia falado nada sobre ir lá naquele dia, mas ele temia que, por algum motivo, ela resolvesse aparecer e a mãe visse. O medo era infundado, aparentemente, já que ela terminou de ajeitar as cortinas e virou-se, sem mencionar nada fora do normal.
     — Boa noite, meu amor. — Ela disse voltando a se aproximar da cama, dando um beijo na testa do filho e ligando o abajur na mesa ao lado da cama. Já estava seguindo em direção à porta quando chamou:
  — Mãe? — Ela virou-se para olhá-lo. — Não precisa mais acender o abajur. Não tenho mais medo do escuro.
      recebeu a notícia com uma leve surpresa, mas logo sorriu, orgulhosa. E, ao mesmo tempo em que ela fechou a porta atrás de si ao sair do quarto, apagou a luz, tendo a certeza de que dormiria bem assim mesmo.

  
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estava entediado. A euforia de finalmente perder o medo do escuro já se fora há meses, e ele bem gostaria de ter alguma novidade para distrair a mente – era bem chato não ter ninguém com quem brincar em casa, já que era filho único, e o menino nunca tivera muitos amigos. Orie não aparecia há quase uma semana. Era período de chuvas, e ela nunca aparecia quando estava chovendo, fossem quais fossem os motivos.
     Naquela noite, porém, lá estavam as três batidinhas constantes no vidro que anunciavam a presença dela. Assim que ouviu o som, jogou a bolinha com a qual brincava, jogando-a para cima apenas para pegá-la de volta logo em seguida, do outro lado do quarto, e correu para abrir a janela.
     Ele debruçou-se sobre o parapeito e Orie olhou ao redor, ambos analisando o jardim. Não havia chovido naquele dia, o que significava que havia apenas algumas poças de água aqui e ali, que ainda não haviam secado desde o dia anterior. No geral, o quintal já estava seco.
     — Acha que vai chover de novo amanhã? — Ele perguntou distraidamente.
  — Não. — Orie respondeu convicta.
  — As estrelas.
      olhou para cima, só então notando em como o céu estava bonito e estrelado. Não era algo que ele costumava reparar, mas agora estava se perguntando o porquê disso; era uma visão maravilhosa, e todas as pessoas deveriam apreciar mais, prestar atenção nesses pequenos detalhes.
     — Eu sei muito sobre as estrelas. — Ela contou em um tom de voz austero, enquanto ele ainda olhava para o céu.
  — Me ensina? — O menino pediu em um impulso. Não sabia de onde havia vindo a vontade súbita de aprender mais sobre o assunto, mas lá estava, e de repente ele queria muito aprender sobre o céu e as estrelas.
     Orie o encarou por um bom tempo, do mesmo jeito que fizera quando se conheceram, tanto tempo atrás. Parecia ler a alma do menino, e ela era boa nisso; franzia as sobrancelhas azuladas e apertava os olhos de um jeito que poderia deixar qualquer um nervoso com a sentença final, como se estivesse julgando o mais importante caso jurídico. Por fim, ela relaxou a postura e balançou a cabeça minimamente, antes de apontar para o céu:
     — Vê aquele conjunto de estrelas? É a constelação de Peixes. Ali do lado ficam Pégaso e Aquário. Aquela outra — A menina pausou por um segundo, com a voz falhada. — é Andrômeda.
  — Uau. — sussurrou para si mesmo, maravilhado. — Quem te ensinou tudo isso? Seus pais?
  — Não. — Ela respondeu em um fio de voz.
  — Orie... — chamou tímido. — De onde você vem?
  — Sabia que as pessoas costumam associar a constelação de Peixes à deusa grega Afrodite e a seu filho Eros? — Orie ignorou a pergunta. — É besteira, eu acho, a origem remete até aos babilônicos.
      não sabia dizer o que estava sentindo. Estava sem graça por ter sido ignorado tão descaradamente, mas aquela nova face de Orie era estranha, até um pouquinho assustadora, e ele não sabia o que pensar. Falando daquele jeito, ela parecia ter séculos de idade, mas ao mesmo tempo ainda parecia não ter mais do que nove anos. Mesmo seus olhos, azuis, grandes e brilhantes como o céu noturno, pareciam ter visto mais do que conseguiria imaginar; como isso era possível?
     Por fim, ele decidiu não teimar. Aquela era uma Orie que ele não conhecia, e ainda tinha um pouco de medo do desconhecido. Talvez com o tempo ela contasse o que estava escondendo, e até lá ele não poderia fazer muito mais do que esperar. Suspirando, ele deixou o assunto de lado, e voltou a prestar atenção nas explicações da menina. Ele preferia falar sobre as estrelas.

  
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      não conseguia dormir. Tudo bem, ele nunca tivera facilidade em pegar no sono, mas normalmente era por medo de alguma coisa. Naquele dia a causa da insônia era pura animação.
     Já passara da meia-noite, o que significava que, tecnicamente era seu aniversário. O menino, que agora completava 12 anos, passara o último ano inteiro pedindo apenas um presente para os pais: um telescópio. Nenhum deles sabia a origem do repentino amor do filho por astronomia, mas o próprio sabia muito bem. Desde a conversa com Orie dois anos antes, a fascinação dele pelo universo apenas cresceu.
     A mente de estava agitada demais para que ele notasse a luz do corredor se acendendo ou ouvisse os passos se aproximando, então quando a porta do quarto dele se abriu e o garoto fechou os olhos, já era tarde demais.
     — Nem pense em tentar. — Sua mãe falou. — Eu te vi fechar os olhos.
     O menino os abriu de novo lentamente, rindo sem graça.
     — Achei que tivesse mandado você dormir há horas, mocinho.
  — Mas é meu aniversário!
  — Não era quando eu mandei. — Ela ponderou, séria. No mesmo instante, apareceu na porta, com uma expressão mais suave:
  — Deixa o menino ficar acordado até mais tarde, . Só hoje. — Ele disse. — Além do mais, é bom ele ainda estar acordado.
      empertigou-se na cama, subitamente mais desperto, ao mesmo tempo em que reparava na expressão nos rostos de seus pais, expressão de quem guardava um segredo ou estava prestes a fazer uma surpresa. Seu pai, reparou, tinha um dos braços ao redor dos ombros da esposa, mas nem mesmo havia entrado completamente no quarto; estava apoiado no batente da porta, mantendo o outro braço fora da vista do filho, talvez escondendo algo.
     — Por quê? — Ele perguntou, ansioso, e seus pais abriram um grande sorriso antes de falarem em uníssono:
  — Feliz aniversário!
      sentou-se, maravilhado, quando sua mãe entrou no quarto, deixando espaço suficiente para que o pai do menino entrasse direito no quarto, puxando atrás de si uma embalagem longa e retangular, embrulhada em papel de presente escuro.
     Sorrindo de orelha a orelha, ele jogou as cobertas para longe e pulou da cama, correndo em direção aos pais, que também sorriam. Ele abraçou a mãe o mais apertado que podia, e sentiu-a beijar seus cabelos de leve. Ele se afastou e abraçou o pai, que ria com a empolgação do filho. Só então voltou-se para a caixa retangular embrulhada no papel que, só agora ele pôde ver direito, era preto e possuía pequenas estrelas estampadas. Com os olhos brilhando, ele rasgou o papel de presente sem dó nem piedade, e não se surpreendeu – embora tenha sentido uma grande satisfação – ao descobrir a caixa de um telescópio escondida sob o embrulho.
     — Ah! Obrigado! — Ele agradeceu, perdido em meio à própria emoção. — Posso abrir? E testar? Agora?
     A cada palavra, o garoto falava mais rápido, sendo tomado pela empolgação. Sua mãe sorria, satisfeita, enquanto seu pai permanecia mais calmo, e respondeu:
     — Se acalme! Mas sim, pode. — Ele tinha um sorriso no canto dos lábios, orgulhoso da surpresa que organizara com a esposa.
  — E não vá dormir muito tarde, sim? — completou. — Quer ajuda para montar?
  — Não precisa. — assegurou, arrastando a caixa até o outro lado do quarto, perto da janela. Ele parou subitamente e encarou os pais. — Vocês querem ajudar?
  — Divirta-se. — Sua mãe negou de leve com a cabeça, enquanto a abraçava pelos ombros e ela mantinha os próprios braços cruzados na altura do peito.
  — Não vá dormir muito tarde. — repetiu, embora só tenha murmurado um “aham” distraído, já imerso da montagem de seu tão esperado telescópio. Sorrindo, ambos os adultos saíram do quarto, deixando o filho perdido em seu mundo particular.
  
      estava deitado no chão de carpete, meio dormindo, meio acordado. Os sonhos quase o dominavam, mas ele queria se manter desperto por mais tempo. Agora que podia, queria observar as estrelas pelo máximo de tempo possível, e no fundo ainda tinha esperanças de que Orie aparecesse.
     Como se comandadas pelo subconsciente do menino, as batidinhas na janela o despertaram de súbito, e ele levantou fazendo uma careta por causa da dor que já começava a se instalar em suas costas. Logo a animação tomou conta, no entanto, e ele correu para destrancar a janela, ao mesmo tempo em que tentava conter a voz em um sussurro:
     — Orie! — Ele chamou animado. — Olha o que eu ganhei!
     A menina espichou o pescoço, tentando enxergar o quarto por cima do ombro dele e procurando algo de diferente. Ela arregalou os olhos quando viu o grande telescópio próximo à janela, mas o aniversariante pareceu não notar, pois continuou falando com animação:
     — Acho que nunca vou chegar muito perto das estrelas, mas pelo menos posso ver elas melhor agora. — Ele comentou, satisfeito. Orie manteve-se em silêncio por um momento, olhando para o telescópio com o que parecia ser culpa.
  — Eu... Eu tenho que ir embora. — Ela sussurrou.
  — Para onde? — perguntou, sem entender o que ela queria dizer com aquilo.
  — Minha casa.
     A resposta pairou no ar, tensa, até que perguntou de novo, hesitante:
     — Orie... Há quanto tempo você não vai para casa? — Ela não respondeu. — A gente se vê quase todos os dias. Parece que você nunca muda. Por que você não muda?
     Ela não respondeu de novo, apenas desviou o olhar para baixo. Na verdade, não conseguia falar, não sabia onde sua voz estava. também não falou, mas estava mais perdido em pensamentos do que esperando uma resposta da amiga.
     — Você não... cresce? — Ele perguntou em um fio de voz. Orie ofegou e olhou para cima, encarando nos olhos. O menino reparou que ela estava quase chorando; lágrimas grossas, cristalinas e brilhantes como cristais estavam acumuladas nos cantos dos olhos, quase escorrendo pela face pálida.
  — Eu tenho que ir. — Ela repetiu baixinho, com o olhar perdido vagando pelo ar, focando em pontos aleatórios. Já não conseguia encarar . Orie não respondeu a pergunta, mas não precisava; no fundo, o menino já sabia a resposta. Só não conseguia acreditar.
     Com a boca entreaberta expressando sua descrença, ele a viu dar as costas e se afastar, e soube que ficaria apenas com lembranças e uma sensação de nostalgia.

  
+++
     

Um, dois, três. Um, dois, três. As batidinhas na janela despertaram , que esfregou os olhos e olhou ao redor, tentando encontrar a origem do barulho. Ele procurou o quarto todo ainda confuso e com sono, até que a ficha caiu, e o jovem quase pôde ouvir o estalo em sua mente. Mas não podia ser, podia?
     Jogando o corpo magro de adolescente de quatorze anos para fora da cama, ele levantou-se e seguiu rumo à janela, uma rotina que não seguia há cerca dois anos. O sono que lhe restava desapareceu completamente quando ele pôs a cabeça para fora e sentiu o vento frio no rosto. Ele olhou para baixo e se deparou com Orie, do mesmo jeito que estava quando eles se conheceram anos antes: vestido lilás de alças fininhas, olhos azuis grandes e curiosos, e a face corada, repleta de sardas-estrelas.
     — Orie? — meio perguntou, meio afirmou, surpreso.
  — Você pode me ajudar? — Ela perguntou. Sua voz tremia de apreensão, talvez até fosse medo.
  — Com o quê? — O jovem perguntou com as sobrancelhas franzidas.
  — Aquilo. — Ela apontou por cima do ombro dele, para o telescópio que o jovem mantinha perto da janela. — Pode usar aquilo? Preciso achar Andrômeda.
      ficou surpreso. A menina parecia quase em desespero, e por causa de uma constelação que ela conhecia tão bem? Foi ela quem o ensinou, afinal! Mesmo sem entender, ele puxou com cuidado o telescópio para perto da janela, e ajustou-o em direção ao céu, em busca do conjunto de estrelas. Depois de alguns minutos tensos, no entanto, ele se afastou, chocado:
     — Ela... Ela não está lá. Andrômeda não está no céu. — informou, e Orie empalideceu, sua pele parecendo ainda mais perolada sob o luar.
  — Preciso ir pra lá. — Ela murmurou sozinha, agitada. — Preciso ir agora.
  — Ir aonde?
  — Para o campo de margaridas, aquele atrás do parque. — A menina explicou. — Adeus, .
  — Espera! — Ele chamou em um impulso. — Eu... Eu vou com você.
     Sem esperar uma resposta, ele apressou-se para vestir um casaco e calçar um par de tênis, jogado perto da porta. Em menos de três minutos, ele já estava do lado de fora, ao lado de Orie. A diferença de altura entre os dois era notável, mas nenhum dos dois deu atenção. Em vez disso ele pegou a bicicleta, que fora esquecida no jardim, e subiu, deixando que Orie sentasse na garupa.
     Sem esperar nem mais um minuto, o jovem começou a pedalar em direção à rua. estava, tecnicamente, fugindo de casa.

     
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   parou de pedalar assim que eles chegaram ao campo, um espaço amplo, coberto de pequenas margaridas brancas. Orie desceu da bicicleta assim que ele parou, e correu alguns metros, até parar no que parecia o centro do campo.
     — Foi aqui que eu caí. — Ela disse ansiosa assim que ele se aproximou. — Eu fugi e caí aqui, então me arrependi e tentei voltar para casa, mas caí de novo. No seu jardim.
  — O que estamos procurando? — perguntou confuso. A verdade é que não estava entendendo nada daquela história, então não sabia como ajudar.
  — Não é quem nós estamos procurando. É quem procura por nós. — Orie falou misteriosamente.
      não entendeu o que ela quis dizer, e estava prestes a perguntar, mas então ele viu.
     Uma luz colorida rasgou o céu, como uma aurora boreal fora de lugar. No entanto, em vez de permanecer no céu, a luz desceu, tão forte e brilhante que ele se obrigou a tampar os olhos com a mão. Orie não se incomodou. Quando ele sentiu o brilho diminuir e se arriscou a abrir os olhos de novo, foi inundado pela surpresa. À sua frente, bem onde a luz havia estado poucos segundos atrás, estava uma garota.
     Ela era mais velha, parecia beirar os dezessete anos, mas era muito parecida com Orie. As duas possuíam olhos grandes e azuis e uma pele tão pálida que chegava a ser perolada. A recém-chegada, no entanto, usava um vestido azul-escuro em vez de lilás, e possuía cabelos lisos e curtos, com franjinha, em um tom próximo do magenta, com poucas mexas azuis. Além disso, ao passo em que Orie parecia ter pequeninas estrelas no rosto, a mais velha parecia tê-las em meio aos cabelos.
     — Andie! — Orie gritou, com o que parecia ser alívio e uma boa dose de alegria. Foi só então que , em meio ao choque em que se encontrava, entendeu.
  — Andrômeda. — Ele sussurrou para si mesmo, e de repente tudo fez sentido. Orie não parecia ter estrelas espalhadas no rosto. Ela realmente as tinha. Ela não envelhecia, pois não era humana. E só então seu nome fez sentido.
     Orie. Orion.
     O jovem voltou a si quando a menina ao seu lado correu para abraçar a irmã. Um alívio tão grande emanava das duas que ele literalmente podia vê-las brilhando; uma aura prateada emanava de ambas as garotas.
     — Desculpe. — A mais nova pediu, quase chorando. — Eu não queria demorar tanto tempo. Queria ver as coisas mais de perto, mas acabei caindo, e não consegui voltar. Não queria demorar tanto tempo, eu juro.
  — Shhhh. — Andrômeda tentou acalmar a mais nova. — Sei disso, eu vi. Está tudo bem. Só achei que você pudesse querer voltar para casa. Já faz muito tempo.
     Orie fungou e olhou para trás, para , que ainda estava embasbacado. No fim, ela não passava de uma criança, fosse estrela ou menina. Vagando há tanto tempo pela Terra, não era de se espantar que ela estivesse com medo ou saudades.
     Ela acenou timidamente, e , sentindo uma mistura de tristeza e conformação, acenou de volta, mesmo sem saber exatamente o que fazer. Foi nesse momento que Andrômeda o olhou, como se reparasse pela primeira vez que ela e a irmã não estavam sozinhas. Andie o olhou com gratidão, e sussurrou tão baixo que ele quase não ouviu:
     — Obrigada.
     Tão logo ela agradeceu, a mesma luz colorida, pulsante e hipnotizante apareceu, como uma aurora boreal diminuta e perdida. O brilho as cobriu como uma cortina, aumentando de intensidade até que ficasse impossível para continuar olhando. Ele tampou os olhos até que a luz diminuísse um pouco e, quando os reabriu, estava sozinho no campo de margaridas. Sem luz, sem estrelas.
     Tão de repente quanto surgiu pela primeira vez, Orie se foi.

FIM



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