Shadow

Escrito por Alessandra Soares - Siga a autora no Twitter
Beta-Reader: Francielle



Era errado estar apaixonado pela sua melhor amiga? Não? E se ela tivesse namorado? Continuaria sendo certo? Mas eu tenho certeza que esse sentimento passou do estágio "paixão" já tem um tempo.
Bufei colocando as mãos no rosto, ainda deitado em minha cama. Eram 5h30 a.m. e meu sono foi embora. Por que eu insistia em manter esse sentimento por ela? Por que logo por ela?

- Droga - sussurrei e coloquei meu antebraço sob os olhos. - Você é um idiota ! Um completo idiota! - bufei e continuei deitado.

Eu já tive muitas chances de mostrar a ela o que eu sentia, mas eu simplesmente travava. Não conseguia fazer isso e me sentia um fraco. Coloquei meu braço acima da minha cabeça e fitei o teto respirando fundo algumas vezes.
Como eu sentia falta dela... Do seu abraço, seus cabelos longos com aroma de morango, os olhos , conversas que eu só conseguia ter com ela... Tudo isso me fazia falta.
Faz um ano e meio que ela foi embora. Mudou de país. Já a vi sofrer tanto por um cara que não merecia seu amor, quando ela finalmente deu um fim no seu relacionamento decidiu ir morar com seu pai no Canadá. Por que tão longe? Só de lembrar desse dia meu coração se despedaça. Eu tive a chance se dizê-la mais uma vez, mas o medo tomou conta de mim de novo. Fraco. Isso que eu era. Um fraco!

~flashback on~
- ! - disse me aproximando dela, cumprimentando-a com um beijo na bochecha. Ela havia me pedido para encontrá-la em frente a uma cafeteria, a preferida dela. - Vim o mais rápido que pude, você disse que era importante.
- E é, . - ela forçou um sorriso.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntei preocupado, ela não é de forçar sorrisos. Pelo menos não comigo.
- Eu terminei com o David. - suspirou, fazendo com que a esperança que eu estava alimentando crescesse um pouco mais. - E... Eu vou ir morar com meu pai. - continuou, me olhando diretamente nos olhos, fazendo com que o pequeno sorriso que se formava em meus lábios sumisse rapidamente.

Puff. Meu mundo caiu.

- Você vai para o Canadá? - ela afirmou com a cabeça - P-Por que? - vacilei com o bolo que se formou em minha garganta e a limpei em seguida.
- Começar... Uma vida nova. - bufou e passou as mãos no rosto, ela queria chorar. Já a conhecia há tanto tempo que tudo o que ela fazia eu sabia o porque. - Renascer - disse sorrindo com os olhos marejados.
- , é que... - fala idiota! É a sua chance e provavelmente a última! Fala! - Que...
- Que...? - ela repetiu me fazendo engolir seco.
- Que... Eu vou sentir sua falta. - fraco!
Ela olhou pro chão e sorriu, voltando a me olhar depois de alguns segundos.
- Também vou sentir sua falta . - disse me abraçando apertado e eu retribui. Apertei os olhos e coloquei meu rosto na curva de seu pescoço.
- Quando você vai? - pergunto ainda segurando o bolo na garganta sentindo o perfume de seus cabelos, me fazendo apertá-la mais no abraço.
- Hoje. - a voz dela tremia, assim como a minha.
- Então isso é um adeus?
- Sim, .
~flashback off~

O último abraço, a última conversa, os últimos sorrisos mesmo que forçados... A última vez que eu vi a minha menina e não lhe disse nada. Não disse que a amava, que não queria que ela fosse embora... Fraco.
Desde esse dia, fico me perguntando se ela está bem, se fez novas amizades, teve novas paixões... Olha que ironia. Eu aqui morrendo de amores por ela e pensando se ela está ficando com outros caras. Ri com isso e finalmente me levantei. Fui para o banheiro e fiz minha higiene, voltei para o quarto e coloquei uma calça jeans, um casaco por cima da camisa que usava, normalmente, para dormir e um tênis. Peguei meu celular, 6h30. Passei as mãos nos cabelos e desci as escadas indo até a porta principal. Suspirei com a mão na maçaneta e saí. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco e comecei a andar até uma praça que tinha perto de casa e, detalhe, ela ficava em frente aquela bendita cafeteria. É , você gosta de se fazer sofrer. Me sentei em um dos bancos olhando em volta. Estava vazia, obviamente, por ainda ser muito cedo. Suspirei e olhei para meus pés, chutando algumas pedrinhas que tinham ali. Fechei os olhos por um momento e as lembranças me atingiram em cheio, me fazendo dar um leve sorriso de canto.

~flashback on~
- Para! - eu disse pela terceira vez sentindo meu rosto queimar ainda mais e voltei a rir.
- O tá apaixonado, tá apaixonado! - ela cantarolava e ria enquanto batia palmas. Estávamos na praça em frente à cafeteria preferida de .
- É, eu tô mesmo. - disse por fim, respirando fundo para controlar o riso.
- Me conta! Por favor! - ela insistiu de novo se jogando em cima de mim naquele banco.
- Não.
- Então me fala como ela é.
- Ela é simplesmente a garota mais incrível que eu já conheci. - disse olhando diretamente em seus olhos. - Ela tem o sorriso mais lindo de todos, os olhos dela são hipnotizantes, ela tenta ser perfeita em tudo o que faz, sem saber que ela já é perfeita por ser ela mesma... - parei quando ela quebrou o contato visual, me fazendo corar um pouco e sorrir para meus pés.
- Nossa... - ela disse se arrumando. - Você seria o namorado perfeito . Se o David falasse assim de mim eu estaria feliz. - disse voltando a me olhar e sorrindo de lado.
- Eu já disse que você merece pessoa melhor, .
- Eu sei, é que... - ela parou de falar quando eu coloquei minha mão no seu rosto, acariciando sua bochecha com o polegar. Ela sorriu e fechou os olhos aproveitando o toque, o que me fez sorrir. Ela abriu os olhos de novo e eu comecei a me aproximar dela, seus olhos pareciam imãs e isso não era justo comigo. Ela também começou a se mover, fazendo meu coração acelerar.
- ! - quando nossos lábios estavam quase se tocando alguém a chamou e eu conhecia aquela voz. Ela virou o rosto para onde vinha o som, fazendo-a sorrir decepcionada.
- Bom, eu... Tenho que ir. - disse se levantando enquanto eu permanecia sentado apenas confirmando com a cabeça. - Nos falamos depois?
- Claro. - respondi sorrindo e ela retribuiu bagunçando um pouco meus cabelos antes de ir ao encontro de seu namorado.
~flashback off~

- Only my shadow knows how I feel about you - cantei baixinho esse trecho de olhos fechados. - Only my shadow goes where I dream of you and me. - funguei secando a lágrima que caiu. Esse trecho definia minha situação. Eu falava sozinho sobre meus sentimentos por ela, o que eu pensava dela e o que eu imaginava e sonhava em ter com ela e só minha sombra estava lá para presenciar isso. Só minha sombra sabia.
Um aroma muito conhecido por mim invadiu minhas narinas, me fazendo abrir os olhos e olhar levemente para o lado. Uma moça havia sentado ali comigo. Voltei a encarar meus pés suspirando algumas vezes.
- Esse lugar não mudou nada. - ela disse, me fazendo levantar a cabeça para olhá-la, ela estava com a cabeça abaixada e com os cabelos cobrindo o rosto.
- Realmente. - respondi e olhei para frente ouvindo e ela rir suavemente.
- E você também não mudou, continua o mesmo lento de sempre.
Franzi a testa e a olhei confuso.
- Me desculpe, mas... - antes que eu terminasse a frase ela virou o rosto para mim, me fazendo arregalar um pouco os olhos de surpresa. Ela sorriu para mim e eu não tinha reação, apenas fiquei com a boca entreaberta e os olhos arregalados. Eu estava sonhando? Mas o que...?
- Eu não vou ganhar um "oi"? - perguntou fazendo uma cara de decepcionada e eu pisquei algumas vezes para acordar do meu transe.
- ? - perguntei ainda surpreso e ela sorriu.
- Em carne e osso.
- Caramba! - exclamei e a puxei para um abraço apertado. - Que saudades!
- Eu também. - ela disse rindo e me soltando. - Você não mudou nada. - disse sorrindo e balançando a cabeça.
- Já você... - sorri. Ela estava mais linda que o normal! Os cabelos longos foram cortados na altura dos ombros, estava usando um vestido azul escuro que ia na altura dos joelhos, sapatilha e uma jaqueta preta, o perfume continuava o mesmo... Por que quando você está apaixonado vê o lindo como uma coisa perfeita? Ela sorriu corada me fazendo alargar o sorriso, se fosse possível.
- Resolvi fazer um visita. Estava sentindo falta de tudo aqui. - disse olhando ao redor e suspirando.
- Como está à vida por lá? - perguntei por perguntar, só para continuar ouvindo a voz dela.
- Ah, nada muito diferente daqui. Só... O sotaque, pessoas e tal. E você, como passou?
- Do mesmo jeito que antes, nada de diferente. - sorri.
- Manteve contato com... - ela parou no meio da frase, esperando uma resposta.
- Com quem? David? - ela confirmou com a cabeça. - Não, desse o dia que você me disse que tinham terminado nunca mais o vi.
- Ah. - disse e abaixou a cabeça.
- Você ainda sente algo por ele? - perguntei inseguro com a resposta.
- Bom, na verdade não. Só queria saber mesmo. - respondeu voltando a me olhar e sorrindo. - Acho que eu nunca "amei" ele. - fez o sinal de aspas com os dedos. - Era só uma atração.
- Como assim?
- Ah, normalmente quando você ama alguém você sente seu coração disparar só pelo pronunciamento do nome, sente borboletas no estômago com cada toque, olhar e palavra... Eu não sentia isso com ele. Me sentia bem, claro, mas não ao ponto de ter essas sensações.
- Certo. - disse e olhei para o chão.
- Já superei isso. - ela disse me fazendo ficar sério, ainda olhando para o chão. - Até conheci um menino super fofo lá e...
- Olha, eu realmente não quero saber. - a cortei, encarando-a nos olhos. - Não quero.
- Nossa... - respondeu assustada. - O que aconteceu?
- , eu já vi você sofrer muito por aquele babaca. Eu, sinceramente, não quero saber dos meninos que você conheceu ou teve um rolo lá. Isso não me importa. - disse tentando parecer o mais calmo possível, gesticulando com as mãos. - A única coisa que importa, é o que eu venho escondendo por muito tempo. Uma coisa que eu nunca contei para ninguém. - ela apenas me olhava, parecendo surpresa. - Uma coisa que eu tento te falar, mas nunca consigo e, dessa vez, eu não vou deixar essa chance passar como fiz com as outras - suspirei. - Eu via você falando sobre todas as suas "paixonites" com um aperto no coração, via seus olhos brilharem quando você avistava outros meninos e querendo que esse brilho fosse causado quando você me visse, te via chorar várias e várias vezes sempre que um deles quebrava seu coração, imaginando que eu nunca faria isso por estar realmente apaixonado por você. - ela arregalou um pouco os olhos com algumas lágrimas, eu suspirei e voltei a encarar meus pés. - Eu percebia cada mudança sua. Quando você mudava a cor das unhas, o perfume, o shampoo, até quando seu humor não estava muito bom... Eu reparava em tudo, absolutamente tudo! - voltei a olhá-la, as lágrimas escorrendo por seu rosto. - Quando você me disse, naquele lugar -apontei para a cafeteria-, que ia embora, uma ferida foi aberta no meu coração e até hoje ela não foi fechada. Eu venho sofrendo por você, fico amando e pensado em você pra você aparecer do nada e querendo saber se eu mantive contato com aquele idiota? Me falando que conheceu outros meninos por lá? Olha isso não me... - fui interrompido quando senti lábios macios sendo encostados nos meus. Arregalei um pouco os olhos com o susto, ela separou-se e eu pisquei algumas vezes, ainda tentando processar tudo aquilo.
- Me desculpa. - ela disse, quando eu abri a boca para responder ela continuou. - Me desculpe por ter te deixado, por não perceber seus sentimentos por mim, por falar de outros garotos para você... Me desculpe por ser uma idiota. - aquilo fez meu coração congelar por alguns segundos. - Mas é que... - ela desviou o olhar. - Eu também não queria aceitar certos sentimentos por você, .
Espera... O que? Eu passei esse tempo todo achando que ela não gostava de mim sendo que...
- Eu sinto muito. - essas palavras me tiraram dos meus pensamentos, a voz dela falhava. - É que... - ela me encarou com os olhos e nariz avermelhados. - Eu não tenho culpa de te amar .
A partir daí, tudo começou a passar em câmera lenta. O vento bagunçou um pouco os cabelos dela, fazendo com que alguns fios grudassem em suas bochechas por conta das lágrimas. Ela passou as mãos nos cabelos e tudo voltou à velocidade normal.
- Eu... - a interrompi do mesmo jeito que ela fez antes, juntando nossos lábios e sendo retribuído. Coloquei minha mão em sua nuca enquanto sentia as suas nas laterais do meu rosto. Nos separamos depois de determinado tempo por falta de ar.
- A culpa não é só sua. - comecei. - Eu devia ter te contado antes. - ela apenas sorriu e sussurrou um "eu também devia" me fazendo sorrir de canto. - Fica comigo. - pedi. - Eu não aguento mais ficar longe de você. Eu prometo tentar fazer tudo dar certo, eu só... Preciso de você aqui para isso e...
- Eu fico. - respondeu me interrompendo. - Não só pra ficar com você, mas também para voltar a minha vida de antes. - disse colando nossas testas. - Eu estou voltando pra Londres hoje, amor. - ela corou automaticamente com o que disse e eu ri levemente, acariciando seu rosto e ela sorriu. - Eu te amo.
- Eu também te amo, amor. - sorri largamente e a beijei de novo. Ah, eu iria fazer isso mais vezes a partir de hoje. Nunca pensei que sentir esse frio na barriga durante um beijo seria tão bom.

**********

Depois desse dia, começamos a namorar sério. Ta tivemos algumas brigas por ciúmes vindos da minha parte, mas isso é normal. Como estamos? Muito bem, obrigado.
Mas, me respondam... Vocês não ficariam felizes quando a pessoa que você ama te fala todos os dias e todo momento que também te ama muito? Então... Acho que posso me considerar um cara de sorte por isso.
Afinal, toda minha espera e momentos de fraqueza até que valeram a pena. E uma dica, não esperem a pessoa que você ama ir embora para depois ficarem sofrendo como eu.
Nunca cometam o mesmo erro. A minha voltou, mas talvez a sua não volte e você ficara conversando com a sua sombra pelo resto da vida.

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Only my shadow knows... (8)

 

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