Seus Lados Opostos

Escrito por Lily Rose | Revisada por Juu

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Prólogo

  Olhos atentos os observaram por tempo o bastante para conhecer seus passos.

D  iante das luzes da mais linda virada de ano, ele jurou todo o amor do mundo.
  Eles estavam na sacada do hotel, observando as pessoas na areia da praia, felizes, saudando o ano que estava por vir. A sensação de renovação e esperança no ar, todos, ou quase todos, vestindo roupas brancas. Músicas animadas tocavam e deixavam tudo ainda mais feliz. Eles estavam ali juntos, pela primeira vez poderiam desfrutar da companhia um do outro em uma virada do ano. Sem contratempos, sem interrupções, apenas o amor de um jovem casal.
  — Hoje eu quero prometer tudo o que eu nunca pude prometer antes. Eu era um garoto bobo e imaturo, mas agora espero ser o homem que você precisa. — ele disse, segurando as mãos da jovem e bela namorada, encarando-a profundamente, mordendo o lábio inferior.
  Trocaram um beijo terno, sendo interrompidos pelo aviso de que a contagem regressiva começaria em um minuto.
  Ele se aproximou mais da moça, segurando sua cintura, aproximando os rostos.
  — Princesa, eu te amo. — sussurrou, fazendo-a corar levemente.
  — E eu amo você. — ela respondeu baixinho. Ele deixou um sorriso escapar, beijando-a outra vez.
  Um barulho bem alto os separou. Eles olharam para o interior do quarto, viram uma pessoa toda vestida de preto e com o rosto coberto invadir o lugar onde estavam, aproximando-se dos dois a passos rápidos, sem hesitar, chegando até onde estavam.
  — O que é iss... — antes que o jovem pudesse completar sua pergunta, o invasor deu uma pancada forte na cabeça dele, que desmaiou imediatamente.
  A garota, assustada, gritou por ajuda, mas teve uma arma apontada para seu rosto, então ela colocou as mãos para cima instintivamente, tentando mostrar que não ia reagir.
  A pessoa diante dela abaixou a arma por alguns segundos, apenas para apontá-la para o namorado da jovem.
  Dez... Nove...
  — Não! — ela disse, quase sem voz.
  Oito... Sete...
  — Por favor! É dinheiro que você quer? Pode pegar tudo! Nós não...
  Seis... A arma continuava apontada para o rapaz desacordado. Cinco...
  O invasor apenas direcionou o olhar para ela.
  Quatro...
  Então, com a voz claramente modificada por algum artifício que a deixava irreconhecível, ele disse:
  — Feliz Ano Novo.
  Três...
  O som surdo do tiro ecoou nos ouvidos da garota, que encarava a cena sem acreditar. O tiro atravessou seu namorado, na penumbra da varanda, pois todas as luzes estavam apagadas, os fogos logo surgiriam no céu.
  Dois...
   estava jogado no chão. Provavelmente morto. A pessoa que atirara nele já não estava mais lá, saiu tão rapidamente que a jovem nem conseguiu perceber. Ela estava em choque, as mãos ainda próximas aos ouvidos, que haviam sido tampados rapidamente para evitar ouvir o tiro.
  Um...
  Era um novo ano.

~~***~~

  

Todas as ruas estavam iluminadas, exceto por aquele canto da cidade. Por alguma razão, aquela parte havia sido esquecida por Deus e pelos homens. Era possível ver a lua no céu limpo do último dia do ano. Algumas nuvens cobriam pequenas partes, deixando a noite ainda mais bonita.
  Os passos apressados e o excesso de roupas tornavam difícil distinguir quem era e o que fazia ali, uma vez que todos comemoravam a vinda do novo ano. Mas a pessoa não parecia estar ali para comemorar. Estava atenta, movendo a cabeça ao redor rapidamente, como se temesse ser seguida ou observada. Era um desconhecido qualquer em quem ninguém se importara em prestar a atenção.
  Vários bares estavam abertos, gente sem um lugar para ir ou onde ficar conversavam animadamente, esquecendo-se dos problemas da vida. Nada importava em uma noite bonita como aquela. O novo ano realmente levantava os ânimos por toda parte.
  Aquela pessoa continuava a percorrer as ruas desertas a passos rápidos, ninguém saberia dizer o motivo de sua pressa. Uma cena estranha, incomum. Um vento frio em uma noite quente. Seus sapatos brancos batiam contra o concreto, o som era amortecido pelo material macio. A luz do único poste ao longe piscava, teimando em continuar acesa.
  O desconhecido parou. Os olhos focados em algum ponto adiante, mas na verdade era sua audição que forçava. Uma dor lancinante incomodou a pessoa solitária, que levou a mão esquerda discretamente à cabeça, massageando o local, logo se recompondo. Escutou um som ao longe, no silêncio da rua, contudo, não passava de um carro com mais pessoas felizes indo em direção à praia, provavelmente um casal apaixonado, provavelmente com filhos. Sentiu alívio, mas não se tranquilizou. Estava com os nervos à flor da pele; apesar de sua frieza, algo dentro de si tornava-se mais agitado a cada minuto.
  O pior já passou, de fato, mas ainda há muito a fazer.
  Essa frase fora tirada de um livro que lera havia algum tempo, guardara para si, pois era o que constantemente pensava. Enfrentar uma situação difícil deixa como rastro suas consequências — era a conclusão a que chegara. Quem olhasse de fora diria se tratar de uma pessoa forte, e seria um palpite correto, pois sua força mental era assustadora. Era uma pessoa com extrema coragem e sangue frio. Ainda assim, tinha uma parte de si que equilibrava o outro lado com sua sensibilidade e covardia. De vez em quando um dos lados vencia, e se tornava mais difícil a cada vez dizer qual.
  Continuou a caminhar para fora dali, sentia que aquelas ruas aprisionavam.
  — Ei... Ei, você! — alguém gritou no fim da rua, na direção oposta à qual seguia. Pela voz, era possível notar a embriaguez do sujeito. — Não tá c... caloooorr? Você tá com... é... umas...
  A pessoa não respondeu, permaneceu de costas para quem lhe dirigia a palavra. O sujeito embriagado parou para rir de algo que mantinha apenas em pensamento, sem ser capaz de completar o que dizia.
  — Não tá calor...? As roupas, sabe...? Quentes... — disse, gesticulando para ilustrar o que não conseguia externar muito bem, parando para pensar ou rir entre um fragmento de frase ou outro.
  O desconhecido ignorou, voltando a caminhar, não queria dar atenção a ninguém, mas deu graças por se tratar de um bêbado, alguém facilmente ignorável. Dali a pouco ele se esqueceria de tudo e continuaria bebendo e festejando.
  — Ei, você! — o bêbado insistiu, fazendo a pessoa com quem forçava um diálogo parar novamente onde estava, ainda sem se virar nem por um momento. — Eu te conheço... Não conheço? — perguntou, dando alguns passos para se aproximar, mas estava muito longe, então continuaram distantes. — Eu te conheço, sim... Você é... Quem mesmo?
  A outra pessoa sentiu o sangue gelar nas veias, adrenalina tomou conta de seu corpo, fazendo seu rosto endurecer com a falta de uma possível reação imediata. Apressou os passos, mas ouviu o bêbado gritar mais alguma coisa que não conseguiu compreender.
  Respirou fundo, virando à esquina e parando por um momento. Os becos estavam, de alguma forma, iluminados. Olhou para cima, tentando certificar-se de que ninguém estaria observando dos andares superiores, mas notou que não havia uma viva alma que não estivesse em algum outro lugar, esperando o ano novo.
  Precisava dormir, já era tarde demais, não costumava dormir tão tarde, muito menos estar na rua àquelas horas. Olhava ao redor a todo o momento, com medo de ser alvo de alguém que também estivesse naquelas ruas. Uma brisa soprou em meio ao calor, causando uma sensação de frescor. Reuniu suas forças e prosseguiu.
  Mais adiante, olhou as horas em um relógio público. Ainda dava tempo. Ainda podia chegar a tempo.

Capítulo Um

  Os olhos lentamente se fecharam e se mantiveram dessa forma por um instante, antes de voltarem a se abrir. Pouco a pouco as mesmas formas apareceram diante dela, a mesa de centro, a televisão, a estante de livros... Sob a fraca luz que atravessava os vidros, estava tudo de lado, mas o motivo era a posição em que se encontrava; estava deitada, a cabeça estava apoiada sobre a almofada confortável do sofá.
  A janela permanecera aberta havia horas, ela nem se dera ao trabalho de fechá-la. Uma leve brisa invadia o ambiente, movendo as cortinas, acompanhada dos primeiros raios do dia. O sol ainda despertava preguiçoso, trazendo a primeira manhã do ano.
   deixou que os olhos corressem pela sala, sentindo um pouco de frio. Estava tudo muito silencioso, nem parecia a noite anterior, quando todos gritavam e comemoravam animados pelas ruas, soltando fogos e gritando desejos de felicidade e paz. E era uma sensação estranha como quando se dorme na casa de um amigo com quem não se tem muita intimidade. Sensação de estar fora de lugar.
  Três batidas secas na porta a tiraram do transe. Nem fortes nem fracas, mas firmes.
  Era estranho alguém bater à porta tão cedo, ainda mais em época de ano novo, será que alguém se esquecera de ficar de ressaca? Isso era incômodo demais. Se fosse alguém querendo saber se ela ouvira a palavra de Jeová, ela provavelmente bateria a porta na cara da pessoa e voltaria para o sofá. Estaria irritadiça se não estivesse cansada e com a típica moleza corporal que a dominava pela manhã. Talvez fosse um amigo, o que a deixou um pouco mais animada. Ou, ainda, talvez fosse ele, depois de passar a noite com sua família.
  Não, certamente não seria ele, disso ela sabia.
  A preguiça a impediu de se levantar por alguns instantes, mas após mais três batidas, seguidas da campainha provavelmente recém-percebida, ela disse um "já vai" em tom alto e se moveu no sofá, de modo a relaxar os músculos, e enfim se levantou. As batidas inquietas não pareciam tão calmas, causavam uma sensação de desconhecido. Seus amigos chamavam seu nome junto das batidas.
  Caminhou a passos lentos até a porta, espreguiçando-se antes de parar em frente a ela, girando a chave na fechadura e em seguida a maçaneta, abrindo espaço o suficiente para ver quem era. Um homem alto, musculoso e com cara de poucos amigos. Seu rosto tinha ângulos definidos, seus pequenos olhos firmes e atentos se assemelhavam aos de um caçador.
  — Sim? — perguntou, deixando apenas uma fresta para que pudesse atender o visitante.   — Bom dia, por favor, se encontra?
  Ela piscou os olhos por um instante, tentando reconhecer aquele rosto, sem sucesso. Ao ouvir o próprio nome, ela abriu mais a porta e o observou de cima a baixo, notando seus trajes, o modo como estava posicionado, seu tom impessoal. Era um policial. Mais atrás havia mais uma outra policial, que olhava ao redor, como se buscasse algo ou não quisesse perder nada do que acontecesse atrás de si. não conseguiu ver muito mais, pois a porta não estava muito aberta e o policial tampava quase toda a visão dela através da fresta.
  — Sou eu mesma... Aconteceu algum problema? — ela perguntou, receosa.
  O homem respirou fundo, impassível, analisando-a friamente, não deixando emoção alguma transparecer, era quase robótico. não deixou de achar ridícula a postura do homem.
  — A senhora por acaso conhece ? — ele perguntou, no que ela assentiu, o policial prosseguiu. — Houve uma tentativa de homicídio. Precisamos fazer algumas perguntas.
  As duas informações não se encaixaram na mente dela de imediato, era como uma piada de mau gosto, uma pegadinha pela manhã. ficou encarando o policial sem dar resposta alguma ao que ouvira, mas em sua mente milhões de pensamentos se confundiam, mesmo que sua expressão facial permanecesse parada, em choque, esperando que ele dissesse que era um engano.
  — Meu Deus... — sussurrou ela. — ...? E... E como ele está...? — perguntou baixinho, soltando a porta, sem se preocupar com isso. — Tentaram matar o ? Onde ele está agora?
  Todos os pensamentos que ela teve praguejando-o por sumir na noite que ela planejava passar com ele voltaram à sua mente como um golpe certeiro. Ela imaginara milhares de coisas, mas jamais imaginaria nada daquilo.
  — Senhora, ele está no hospital... O estado dele é grave, mas estável, segundo foi informado pelo médico responsável — o policial respondeu, ainda sério.
  — Onde ele está? Preciso ver o ! — ela disse, se desesperando. — Por favor, me digam o nome do hospital! — pediu, dando passos rápidos até o interior da casa, pegando seu celular. — Vamos, digam algo!
  — Precisamos que a senhora nos acompanhe, é muito importante — ele falou, mas não deu mais informações, apenas esperou.
  — Claro! Por favor, vamos logo, me levem até ele! — ela pediu em desespero, acreditando ser esse o propósito da visita: levá-la até o hospital em que ele estava.
  — Senhora, por favor, se acalme — a policial que estava mais atrás se manifestou. — Precisamos que nos acompanhe até a delegacia para fazermos algumas perguntas sobre o caso antes de qualquer coisa, sim?
  — Perguntas? Mas por quê? O que querem saber de mim? — ela questionou. — O meu namorado está morrendo em uma cama de hospital! Não podem perguntar outra hora?
  Os policiais se entreolharam de modo estranho ao ouvir as palavras da moça. Por um instante, a postura de impassibilidade se desfez ao notarem o que tinham nas mãos. Aquelas informações certamente eram valiosas.
  — Precisamos fazer o nosso trabalho. É compreensível o seu estado de preocupação, mas é urgente, do contrário não poderemos ajudar a senhora nem seu namorado.
  — Me digam o que aconteceu... Eu preciso saber...
  Os policiais contaram por alto a história, que foi ouvida atentamente pela jovem.
  Uma jovem baleado, alguns suspeitos, estado estável no hospital, diversos conflitos ainda sem solução. Os policiais decidiram não contar certas partes, pois sabiam que seria melhor que o próprio delegado lidasse com isso. Certas situações exigiam a experiência dele, que os policiais sabiam que seria capaz de segurar as coisas da melhor forma e com profissionalismo.
  , em um misto de entendimento com desistência, cambaleou até o interior da casa, sentando-se sobre o sofá e apoiando a cabeça sobre as mãos, e os cotovelos sobre as coxas. Agora tudo fazia sentido. As ligações perdidas, o sumiço dele, até o comportamento estranho. Talvez ele estivesse escondendo problemas o tempo inteiro, mas não quis avisá-la para não metê-la na situação nem preocupá-la.
  Antes que pudesse se dar conta, estava chorando compulsivamente no sofá. O policial, ainda parado à porta da casa, não soube bem o que fazer, então esperou, sinalizando para sua parceira que deveriam esperar mais alguns segundos. A jovem ainda chorava e negava com a cabeça, puxando alguns fios de cabelo entre as mãos, sussurrando coisas inaudíveis a ele.
  Constrangido com a cena, o policial pigarreou antes de dizer algo, olhando para trás, provavelmente desejando que sua colega o auxiliasse naquela situação.
  — Senhora, precisa me acompanhar... — ele falou em um tom alto o bastante para que ela ouvisse, mas baixo o suficiente para evitar ser ouvido fora dali. — Então resolveremos tudo mais rápido para que possa visitá-lo.
   demorou alguns minutos para se recompor. Então olhou para trás, o rosto molhado pelas lágrimas que ela não se importou em secar, e assentiu com a cabeça.
  — Faz sentido — começou a falar com a voz fraca —, eu sou a namorada dele, é claro que querem me fazer perguntas... Eu... Eu só preciso de um momento, se o senhor não se importar... Eu...
   se interrompeu, atordoada, sentindo as lágrimas brotarem em seus olhos outra vez. Então se desculpou, estendendo a mão para indicar o sofá.
  — Por favor, podem entrar e se sentar... — ela conseguiu dizer. — Desejam algo para beber? Eu preciso, antes...
  Os dois, com leves traços de dó contida em suas expressões, recusaram e agradeceram silenciosamente, entrando.
  — Eu preciso de um banho antes... Se não se importam... Eu não vou demorar...
  O policial assentiu com a cabeça, incerto, então olhou de relance para sua parceira, que assumiu seu lugar e também concordou com a cabeça para , dizendo:
  — Como quiser, senhora, só peço que...
  — Não vou demorar, prometo — a jovem falou, sorrindo fracamente para a policial, que quase repetiu o gesto por pura empatia com a tristeza da outra.
   subiu as escadas rapidamente, indo até o banheiro dentro de seu quarto. Ela não conseguia parar de tentar montar a cena em sua mente, e a todo o momento buscava caminhos e soluções para a notícia que havia recebido. Não compreendia o que poderia ter acontecido, mas a junção de todos os dias anteriores fazia sentido agora com esse desfecho horrendo. Precisava se lembrar de contar isso ao delegado, pois talvez ajudasse nas investigações.
  Ela cumpriu com o que havia dito e não demorou muitos minutos, apenas queria tirar os resquícios do ano anterior em uma rápida chuveirada e escovar os dentes. Então saiu ao quarto, abrindo o guarda-roupa, escolhendo qualquer roupa que não chamasse a atenção. Seria mentira se dissesse que não estava nervosa, pois não sabia o que esperar, o que lhe diriam, o que aconteceria, e isso era o que a deixava ainda mais nervosa. Ela tentava manter a calma, não queria que suas palavras soassem de modo errado, tinha medo de trair a si mesma e dizer algo que parecesse suspeito. Não que tivesse motivo para tal, mas as coisas poderiam dar reviravoltas absurdas.
  Pensou em e em como ele estaria. Queria vê-lo, beijar seu rosto e dizer que tudo ficaria bem, como quando algo dava errado e eles se encontravam no café da cidade para conversar e aproveitar a companhia um do outro. Ela sentiu um vazio no peito e se sentou na cama, respirando fundo. Seria forte por ele.
  Ao descer as escadas, já estava recomposta, apesar das feições ainda tristes.
  — Desculpem pela espera... — falou, mesmo que não tenha demorado mais de dez minutos.
  Os policiais se posicionaram próximos à porta, que abriu e deixou que os policiais passassem, saindo logo atrás deles e trancando a porta. Lá fora, ela olhou ao redor por poucos segundos. O céu estava colorido pelo nascer do sol, e o dia estava iluminado e quente, os pássaros cantavam, tudo parecia animado, mas ainda não havia ninguém na rua, pois ainda era extremamente cedo.
  Então esse era o novo ano.

~~***~~

  Ninguém parecia notar sua presença ali, era como se estivesse invisível. Ela não tinha ideia do que estava esperando, mas não conseguiu ir embora. Havia levado consigo uma revista de caça-palavras, e ela nem gostava dessas porcarias tanto assim. Entretanto, era seu único meio de diversão no momento. Havia umas crônicas entre os passatempos, então aproveitou para lê-las também. Não se lembrava de ter destrinchado tanto uma revistinha barata de banca de jornal como estava fazendo ali.
  Os sons externos não a incomodaram pelo tempo em que ficou imersa em seus pensamentos. Havia tanta gente ali que ela nem conseguiria distinguir ninguém ou gravar rosto algum, mesmo que a pessoa falasse com ela face a face. Em estados de adrenalina e nervosismo, sua memória e sua concentração entravam em colapso.
  Para se distrair, gastou um tempo pensando nos vários livros que gostaria de comprar. Em todos os livros que havia lido e nos que ainda iria ler. Então passou a listar mentalmente suas séries favoritas, depois as menos favoritas, depois as que ainda gostaria de assistir. Por fim, começou a pensar em filmes. Filmes legais, filmes de comédia, filmes de romance, filmes de terror, filmes de drama, filmes ruins. Ela queria ir para casa fazer listas reais em papel — mania que não conseguia abandonar —, mas sabia bem que deveria esperar. Ainda não entendia por que não havia ido embora dali, mas uma voz no fundo de seu pensamento dizendo para ela permanecer ali. Na verdade, ela sabia bem por que estava naquele lugar. Esperaria um pouco mais.
  Mais uma pessoa passava pela porta e aquela já deveria ser a terceira pessoa ferida no local. A jovem apenas ergueu os olhos para constatar esse fato, voltando a olhar para a revista logo em seguida. Por alguma razão, as pessoas se viam obrigadas a exibir suas feridas enquanto prestavam queixa, do contrário acreditavam que seus depoimentos não seriam válidos. Em algum ponto talvez tivessem razão, foi sua conclusão, mas logo abandonou suas ideias e começou um novo desafio de palavras.
  Passos novos e apressados no local, mas dessa vez ela não abaixou os olhos logo em seguida. Pelo contrário, demorou um longo tempo analisando o rosto e o jeito daquela pessoa. Seus movimentos, o modo como mordia o lábio inferior, o hábito de apertar os polegares nas palmas das mãos... O nervosismo. Não precisou forçar muito a mente para entender o motivo de sua atenção.
  Finalmente havia chegado, ela tinha muito a dizer, muito a perguntar e muitas respostas a ouvir. Ela tinha certeza de que poderiam se ajudar dessa forma, pois não via muitas esperanças nas investigações, mesmo se tratando de um caso que envolvia pessoas abastadas, ideias se formavam em sua mente e então a centelha de uma delas acabara de incendiar de vez.
   não conseguiu mais se distrair.

~~***~~

   entrou mais rápido na sala do que pensou que seria. Achou estranho, mas não reclamou, pois jurava que teria que esperar longos minutos e até horas. “Essas coisas não costumam demorar?”, pensou.
  Ao entrar na sala de paredes brancas, ela se dirigiu diretamente à cadeira que lhe havia sido apontada, que ficava de frente para a mesa do delegado, e esperou um instante, pois ele ainda não estava lá. A sala era de tamanho médio, mas parecia ampla por causa da boa iluminação. A janela à esquerda estava coberta por uma persiana e acima da mesma havia um ar-condicionado bege meio envelhecido, mas impecavelmente limpo.
   repassara a noite do ano novo em sua mente diversas vezes, pois se lembrava de tudo o que precisava para responder às perguntas, mesmo que tivesse bebido um pouco naquela noite. Não fizera nada de mais, apenas encontrara com uns amigos e comera bastante carne de churrasco, só isso.
  Um homem entrou no recinto acompanhado por outras duas pessoas — que se acomodaram em uma mesa próxima à porta, atrás de —, cumprimentando a jovem e se sentando na cadeira em frente a ela, que logo entendeu quem era aquela pessoa. O “bom dia” dele foi firme, porém não tinha a intenção de intimidar, ele soou paciente e até simpático com ela. permaneceu com uma postura calma ao cumprimentá-lo de volta. Apesar da tranquilidade em sua face, ela estava enlouquecendo por dentro, sua cabeça estava um pouco pesada por causa da pressão; e as costas, doloridas. Então notou que não estava se apoiando no encosto da cadeira, chegando para trás e acertando sua postura para que pudesse relaxar um pouco o corpo.
  — Eu sou o delegado Jonas Coelho — ele se apresentou, meneando a cabeça, gesto que a jovem repetiu. — Bem, acredito que a senhora já tenha sido avisada de toda a situação que a trouxe aqui... — Ela concordou com a cabeça, esperando que ele prosseguisse. — Eu gostaria de fazer algumas perguntas se não for incomodá-la, dona... — ele leu o nome dela em um papel que estava diante de si — ...
  — De maneira nenhuma, eu... Eu também quero ajudar no que puder — respondeu ela.   — Qual é o seu relacionamento com ? — ele foi direto ao ponto.
  — Eu sou a namorada dele... Bem, nós namoramos há quatro meses... — ela respondeu.
  — Pois bem... No dia trinta e um de dezembro você saiu de casa? Onde passou a virada de ano?
   respirou para se acalmar antes de responder.
  — Eu saí com uns amigos para um restaurante em Ipanema, nós bebemos um pouco e ficamos comendo e conversando.
  Ele acenou positivamente com a cabeça, mostrando que havia entendido, brincando com a caneta, que estava sobre a mesa, entre os dedos. Anotando o que dizia de vez em quando.
  — E até que horas vocês ficaram por lá?
  — Bem, eu acho que... — pensou por um instante. — Nós ficamos lá até umas onze e dez, por aí, porque eu queria passar o ano novo em casa, na esperança de... Bem... De que aparecesse por lá... De surpresa...
  — Seria possível confirmar esse álibi? — ele perguntou.
  — Sim, senhor.
  Ele anotou algumas coisas no papel.
  Ela abaixou os olhos, sentindo uma tristeza descomunal apossar-se de si. Lembrou-se do dia anterior, quando ainda acreditava que estaria em algum lugar, vestido de branco, indo ao seu encontro. alimentou a esperança de que ele recebera sua mensagem e fingira que a ignoraria, mas iria até o lugar onde ela disse que estava.
  Na verdade, ele estava em Deus sabe onde, fazendo Deus sabe o quê.
  — E ele apareceu?
  — Não, senhor.
  — Quando se falaram pela última vez? — o delegado perguntou, deixando uma pausa no ar para que ela pensasse.
   esperou poucos segundos, antes de responder com precisão. Ela se lembrava bem da última mensagem de .
  — A última vez que nos falamos foi no dia vinte e três. Ele disse que passaria o Natal e a virada e ano com a família. Depois disso, nunca mais tive notícias dele.
  O homem acenou com a cabeça, olhando para os próprios dedos, ou para o papel sob eles, antes de encará-la e prosseguir perguntando.
  — A senhorita não estranhou? Seu namorado sumiu por oito dias.
   negou com a cabeça, dando de ombros.
  — Era típico dele sumir assim — respondeu a jovem.
  — Ele já fez isso alguma vez? De simplesmente sumir sem dar notícias?
  — Sim... Mesmo antes de namorarmos, quando éramos apenas amigos, ele sumia e ficava dias ou até semanas sem dar notícias. Depois que começamos a namorar, ele chegou a ficar sem dar notícias dois ou três dias aqui, dois ou três dias ali... É a primeira vez que ele fica mais de uma semana sem me mandar uma mensagem sequer, mas me lembrei de quando ele fazia o mesmo quando éramos apenas amigos.
  O delegado balançou a cabeça afirmativamente, anotando nos papeis o que ele ouvia.
  — Vocês costumavam conversar por mensagens com frequência?
  — Sim, conversávamos todos os dias.
   também afirmou com a cabeça.
  — Preciso dos nomes e dos contatos dos amigos que a acompanharam.
  Ele demorou algum tempo anotando e pedindo explicações e fazendo perguntas sobre o álibi, não parecia muito interessado em interrogá-la, dando a impressão de que estava apenas cumprindo com um protocolo que lhe era imposto pelo trabalho. O delegado apenas queria terminar o procedimento padrão e liberá-la, não tinha interesse em prendê-la mais do que o necessário naquela sala, mas prosseguiu com as perguntas.
  — A senhora já esteve no hotel Levi Barcellos?
   o olhou com estranhamento, vincando as sobrancelhas ao processar o que havia acabado de escutar. Sua mente buscou por aquele nome, sem sucesso.
  — O hotel Levi Barcellos? Não, senhor, nunca estive lá... — ela respondeu vagamente.
  — A senhora tem certeza? — ele perguntou. — Nem ao menos conhece o lugar?
  — Conheço só de nome, mas não tenho certeza de onde... Não me lembro se o próprio já me falou sobre...
  — Sim... E a senhora conhece alguma pessoa chamada ?
   pensou rapidamente, então negou, incerta.
  — Certo... E... — ele leu no papel diante de si — Juliana de Oliveira Silva?
  A jovem pensou mais um pouco, então negou novamente.
  — Não, não conheço essas pessoas...
  — Entendi...
  — O que elas têm? É algo a ver com ?
  O delegado concordou com a cabeça em silêncio após ouvir isso, ele parecia se preparar para contar algo para ela. Então levantou a cabeça, encarando-a nos olhos.
  — Senhora , infelizmente algo não está batendo — ele contou, fazendo-a encará-lo assustada. — A senhora se identificou como namorada de . Entretanto, estas duas jovens afirmaram o mesmo.
   negou com a cabeça, como se não estivesse mesmo ouvindo aquilo.
  — Como assim?
  — Duas outras jovens disseram o mesmo: que também são namoradas de , uma delas, inclusive, estava com ele no momento do crime e é a principal testemunha — ele falou.
  A jovem arregalou os olhos, negando com a cabeça.
  — Mas... Mas o não... Quem são elas?
  — Vocês namoram há quatro meses, não é? — ele a cortou. — Os familiares dele poderiam confirmar isso?
  Ela parou por uns segundos, pensando, então negou com a cabeça, suspirando em derrota. Ela nunca conhecera ninguém que fizesse parte da vida de , apenas os amigos dela poderiam confirmar isso, pois eram amigos dele também.
  — Infelizmente não, o não me apresentou a eles ainda... Eu os conheceria esse ano, mas... Bem...
  — E os amigos dele? Os amigos dele sabem disso, não sabem?
  — Eles sabiam que ficávamos de vez em quando, antes de namorarmos — a jovem contou. — Não sei o quanto eles sabem sobre nosso namoro, o não falava muito deles nesses meses de namoro... Apenas meus amigos podem confirmar.
  Ele apenas a fitava, balançando afirmativamente a cabeça.
  — Então? O que acontece? Eu não sabia de nada, não conheço essas duas pessoas, não sei quem são os familiares do , eles não sabem quem eu sou... Eu não tenho a menor ideia de onde ele esteja...
  O desespero era palpável na voz de , que tentava se controlar e não parecer estúpida na frente do delegado e dos dois policiais que a acompanharam até ali, contudo, não conseguia disfarçar o que sentiu ao ouvir aquela novidade estranha. O delegado apoiou a caneta sobre a mesa, soltando um profundo e longo suspiro, coçando a nuca e a encarando, agora com certa dó. A garota estava perdida, ele podia ver isso nela, ela provavelmente não ajudaria em nada, era só uma tola que mal conhecia o próprio namorado, essa era a visão dele. não era idiota, mas estava longe de saber o que se passava ali, e nisso o delegado provavelmente estava certo, ela mal conhecia , para falar a verdade.
  — O senhor pode me dizer quem são essas mulheres?
  — Juliana foi confirmada como a namorada dele pelos familiares. foi confirmada pelos amigos. Até aí esse é um problema de conduta do próprio rapaz. Já a senhora... Bem, infelizmente ninguém disse conhecê-la.
  — Eu... — ela começou, então parou de falar, sentindo as lágrimas brotarem nos olhos novamente. Ela nem tinha mais o que dizer, então se calou.
  O delegado acreditou que ela era carta fora do baralho. sequer sabia onde estava, quem eram as pessoas que estavam na vida dele. Tudo o que relacionava os dois era uma carta carinhosa enviada pelos Correios escrita por ela encontrada no bolso da calça que ele usava.
  — Vou ser franco com você, garota, nós chegamos até sua casa por causa de uma única carta encontrada nos pertences da vítima, o que de fato dava a entender diversas coisas, e nós precisamos nos certificar de tudo, por isso você está aqui. Não foi encontrada uma mensagem sua no celular dele. Nem o seu número de telefone. Até onde posso dizer, você não me é útil em nada aqui, é só uma pessoa com uma péssima sorte. Então vai pra casa, não saia da cidade até confirmarmos seu álibi e entrarmos em contato e siga em frente. Esse é problema na sua vida.
  Ela concordou com a cabeça, se esforçando muito para permanecer calma, mas havia uma explosão de pensamentos e emoções dentro de si, ela não sabia como devia agir, o que deveria dizer ou fazer. Era uma situação horrível, não poderia simplesmente acabar assim, se esquecer de sem nem saber o que estava acontecendo. O delegado provavelmente não queria falar mais nada, ele tinha que manter várias informações em sigilo, principalmente se não tivesse absolutamente nada a ver com o caso.
  O delegado fez mais algumas perguntas. Eles tinham o telefone dela para contato, então seria fácil encontrá-la. não queria relação alguma com nada daquilo, queria apenas que terminasse tudo logo, mas também não queria ser descartada de vez sem ter a chance de saber como estava.
  — Bem, precisamos investigar melhor o caso... — o delegado anunciou. — Averiguaremos seu álibi e entraremos em contato com a senhora. Agradeço seu tempo, dona .
   sentiu-se perdida por um instante, antes de agradecer e tentar se retirar dali o mais rápido que conseguiu, sentia seu coração palpitar, mas não conseguiu passar da porta, voltando-se e se sentando no pequeno sofá ao lado da mesma, apoiando a cabeça pesada sobre a mão.
  — Senhora, está tudo bem? — um dos policiais perguntou antes que o delegado o fizesse.
  — Sim... Eu... Estou bem...

~~***~~

  A mulher estava sentada com a postura reta e os olhos atentos a uma revista. Ela se movia muito pouco, o que fez se sentir bem desconfortável e distante, assumindo o assento ao lado, tentando recuperar o ar que lhe faltava para poder ir embora dali de uma vez por todas, pois não pretendia voltar. Ela pegou o celular e começou a buscar alguma ligação perdida ou mensagem ainda não visualizada, principalmente de . Então notou o olhar da outra sobre si, o que a fez encará-la de volta imediatamente, não com afronta, mas com surpresa, visto que acreditava estar sendo completamente ignorada por aquela pessoa. A jovem guardou o celular no bolso outra vez, levantando-se e indo até o bebedouro. Ela encheu o copo e bebeu até a metade; aproximando-se do lugar onde estava sentada, sorveu o restante do líquido e jogou o copo na lixeira que estava ao lado do assento da mulher, que ainda a observava.
  As unhas bem cuidadas pintadas de vermelho e o modo como ela estava sentada no banco da sala de espera da delegacia a faziam parecer uma figura completamente destoante. Era bela e misteriosa demais para se encaixar naquele cenário. Ela era muito mais segura e preenchia o lugar inteiro com sua presença. Isso incomodou , que odiava pessoas que a faziam se sentir intimidada. Além disso, ela tinha certeza de que aquele olhar carregava muito mais do que desdém, carregava um profundo desprezo, como se soubesse quem ela era e a culpasse pelo que aconteceu. Pelo menos essa era a impressão que tinha daquele modo enigmático como era observada.
  — , não é? — a outra mulher perguntou, erguendo uma sobrancelha. Havia um tom estranho em sua voz, mas ela a ignorou.
  Virando o rosto para o lado e cruzando os braços, trocou o peso de uma perna para a outra, dando de ombros. Aquela pessoa conseguiria irritá-la em níveis que ela não imaginava que sua impaciência conseguia atingir apenas com sua altivez e superioridade. Ainda assim, ela tentou manter a postura, havia algumas pessoas no lugar, policiais, civis e até mesmo duas crianças brincando de algum jogo em um canto próximo ao bebedouro.
  — E o que você tem com isso? — não conseguiu evitar a resposta ríspida. Ainda assim, seu tom baixo e calmo contrastava com suas palavras.
  — Vai mesmo fingir que não nos conhecemos? — a outra mulher perguntou quase sorrindo amargamente, sua voz era pouco mais que um sussurro, atraindo a atenção da outra imediatamente.
  Ao finalmente olhar melhor aquele rosto, se surpreendeu com as palavras e com o modo como elas se encaixavam à realidade. As feições daquela mulher adquiriram familiaridade. Ela piscou os olhos sem acreditar, os lábios estavam entreabertos, mas som algum escapou.
   .
  Ela não conseguiu negar, pois aquela era a mais pura verdade. Elas se conheciam havia um bom tempo.
  Há algum tempo, uma festa, amigos, amigas... Ela se lembrava bem daquele rosto, era alguém cujo rosto era facilmente lembrado e dificilmente esquecido. negou com a cabeça inconscientemente, ainda encarando-a com surpresa. O quanto aquela mulher sabia de si e o quanto lembraria das vezes em que se viram?
   pensou se deveria ir embora imediatamente e fingir que não havia ouvido, mas então se lembrou de que não sabia onde estava, e se nem ele nem ninguém atendia o telefone, então ela não tinha mais muitas alternativas. Talvez soubesse dizer o nome e o endereço do hospital.
  — Escuta, você pode conversar comigo lá fora? — perguntou.
   a fitou por um instante antes de se levantar e ir na frente, sendo seguida pela outra, que se perguntava o porquê de estar naquela situação. Ao saírem pela porta, deram mais alguns passos até se afastarem da delegacia e atravessaram a rua. apenas a seguia, sendo guiada até o parque que ficava a vários metros dali; a caminhada foi silenciosa e muito constrangedora, causando um nó na garganta da jovem. Chegaram e se sentaram em um banco de praça, próximo às poucas crianças que brincavam por ali àquelas horas do primeiro dia do ano.
  — Então? — começou. — O que você tem a dizer?
   respirou fundo e reuniu toda a sua coragem para poder fingir que não estava intimidada com a presença daquela pessoa diante de si nem com vergonha.
  — Você... Você por acaso sabe onde o está? — ela disse incerta.
   deu um suspiro, desviando o olhar para as pessoas que passavam antes de olhar para a outra jovem novamente, soltando um muxoxo.
  — Pensei que você fosse perguntar sobre mim. Não ficou surpresa por me ver aqui como eu fiquei surpresa por te reencontrar depois de tanto tempo? — perguntou calmamente com um sorriso debochado. — Tudo bem, então eu quero saber algumas coisas: por que você está aqui? Digo, eu ouvi algumas coisas, mas os policiais não são muito de falar, huh?
  A jovem a encarou incrédula, mas resolveu responder e evitar que mudasse de ideia e não dissesse nada sobre .
  — Eu... e eu estamos namorando tem alguns meses... — respondeu.
  — Impossível — sussurrou. — Aquele... — Ela parou e deu um suspiro, negando com a cabeça, parecendo decepcionada.
  — E vocês também, eu acho... — comentou.
  Quantas vezes e teriam passeado de mãos dadas pela praia? Mais do que poderia contar, provavelmente. Será que eles assistiam filmes juntos, ou será que ele cozinhava para ela pelas manhãs? A raiva crescia dentro de conforme ela pensava que todas as suas experiências com seu namorado provavelmente nada mais seriam do que um comportamento rotineiro que ele tinha com outras garotas.
  — Espero que você saiba que eu estou namorando com ele há mais tempo. Não quero criar caso por isso, mas gostaria de ressaltar isso — falou, virando o rosto para encarar a outra jovem novamente. — E eu não estou disposta a desistir do homem que eu amo. O é meu namorado e nós somos muito felizes há quase um ano, então acho muito bom você não interferir na nossa vida depois que ele...
   revirou os olhos para a cena ridícula, achando aquele papel dela extremamente idiota e novela das oito, então apenas a encarou de volta, tentando mostrar mais maturidade, suspirando exausta.
  — Escuta aqui, personagenzinha de novela mal escrita de emissora baixa-renda, não tem essa de “brigar por aquele que eu amo”, porque pelo amor de Deus, né? Quando o despertar desse coma, ele mesmo é quem vai ter que resolver esse probleminha que ele arrumou. Por enquanto, nós precisamos nos concentrar em outras coisas — falou, olhando ao redor para se certificar de que ninguém estaria as escutando, então, a sussurrar. — A vida dele ainda pode estar correndo perigo! Se a pessoa que tentou matar o descobrir que ele não morreu, ela pode tentar vir atrás dele! — Ela respirou fundo. — Então, vai me dizer onde ele está ou não vai?
   desviou o olhar, fazendo uma expressão séria que demonstrava sua raiva.
  — Eu digo com uma condição: eu te levo até lá no meu carro — ela falou.
   sabia que o motivo disso era que provavelmente usaria um caminho aleatório que ela não conhecia para que não pudesse gravar o caminho. Esse era um motivo possível, mas ainda assim a jovem não conseguiu parar de pensar que aquela pessoa estava tramando algo mais.
  — Nada feito. Como eu vou saber que você não vai me levar a uma armadilha? Nada feito mesmo! Eu não confio em você.
  — Azar o seu, então tenta descobrir sozinha...
   coçou a cabeça, bufando.
  — Então beleza, mas então nós vamos de transporte público, você pode usar o trajeto que quiser, desde que seja um transporte público ou um táxi.
  A mulher pensou por um instante, sem tirar os olhos da jovem, que não abaixou a cabeça nem por um instante, esperando a resposta.
  — Tudo bem, nós vamos amanhã, que é dia de visitas — falou. — Às dez.
  — E eles vão nos deixar entrar? — perguntou com desconfiança, notou um fio de desespero e esperança na voz dela.
   se levantou e respondeu:
  — Não se preocupe com isso, apenas esteja aqui.
  Então virou as costas e saiu andando pela rua até o lugar onde o seu carro estava estacionado. ficou um tempo no parque deixando que a cena passasse por sua mente diversas vezes, a voz dela ecoando ao fundo. A raiva que ela sentia de começou mínima no fundo do peito, crescendo de um simples incômodo até uma raiva cega. Aquela pessoa era muito mais irritante do que ela imaginava.
  — E ela ainda queria fazer ceninha aqui no parque! Isso tudo é falta do que fazer? Oras, faça-me um favor, né?! — exclamou em voz alta mesmo, atraindo alguns olhares das pessoas que estavam em volta.
  Resolveu levantar-se e ir para casa, ela ainda tinha muito a fazer no pior começo de ano de sua vida inteira. Era estranho imaginar que há apenas algumas horas tudo estava indo quase perfeitamente bem, mas do nada as coisas se transformaram em um filme de horror.

~~***~~

  A tarde do dia seguinte parecia com qualquer outra, não tinha aquele tom especial de tarde de ano novo, até porque era a primeira vez que passava os feriados longe da família e dos amigos. Não que ela fosse tão sentimental a ponto de chorar por conta disso, ela era bem desprendida quanto a isso. Seu único problema era ter que ficar nessa situação de tensão. Ela mal aproveitou o dia em casa. Apenas comeu pizza e bebeu refrigerante e assistiu TV. Reprisava um filme natalino que ela gostava, mas não conseguiu assistir, sua mente estava longe.
  A ligação do delegado foi o que a permitiu respirar um pouco mais tranquilamente. Após a confirmação de seu álibi e de todos os procedimentos habituais, ela estava livre das preocupações de seu nome relacionado ao caso. Ainda assim, sua cabeça não parava nem por um segundo, ela tentava entender tudo o que havia de errado, refazendo seus passos e os últimos momentos com .
  A sensação era que ele havia se transformado em um total desconhecido. Quem era aquela pessoa que dizia coisas bonitas, quem era aquele homem que a fazia rir nas tardes com os amigos ou nos passeios românticos? Aparentemente havia outras garotas que também tinham boas lembranças com seu namorado.
  Fazia muito calor, o ventilador estava ligado sobre ela, mas a jovem também se abanava com um leque. Ela estava acomodada no sofá, tentando não pensar, quando seu telefone tocou. Como ele estava longe, sua preguiça a fez levar alguns segundos antes de se levantar para, enfim, pegar o aparelho; ela respirou fundo antes de atendê-lo.
  — Alô?
  — ? Sou, eu... — ela respondeu do outro lado da linha. A ligação estava muito ruim, era possível ouvir um ruído estranho que não soube identificar. — Quero confirmar... Se você realmente vai estar em frente à delegacia... Amanhã...
  — Sim, vou, por quê? Espera, como você conseguiu o meu número?
  — Olha, não dá pra falar muito agora, só diz se sim ou se não.
  — Sim, sim, eu vou! — disse com nervosismo por não saber nem poder perguntar o que diabos estava acontecendo do outro lado da linha.
  — Ótimo... Eu só queria dizer que... Alguém... — a ligação saiu entrecortada.
  — O quê? Eu não entendi! Alguém o quê?
  — Não estaremos só nós... Teremos mais alguém como... Companhia...
  Então ela disse mais algumas coisas antes de desligarem. sentiu certo medo do que poderia acontecer, ela obviamente não deveria confiar em , mas ela sentia que aquela mulher sabia de algo que claramente tinha a ver com o caso de . Ela queria saber o que estava acontecendo com e com toda essa história, mesmo que para isso precisasse encarar as situações mal-explicadas de .

Continua...

Capítulo 02

   estava em frente ao prédio em que trabalhava. Com as mãos nos bolsos e um rosto sereno, ele esperava por sua garota. Ela seria dispensada mais cedo por ser um dia especial na empresa. Passava um pouco do meio-dia e o estava bem quente e ensolarado. Ao sair, sorriu, indo em sua direção e dando um abraço apertado, beijando o namorado.
  — Que surpresa! — ela disse, ainda abraçada a ele. — Você nunca aparece por aqui, isso é uma grande surpresa mesmo, sabia, moço?
  Ele deu uma risada de lado, acariciando as costas dela.
  — É que o idiota aqui não conseguia parar de pensar na mulher mais linda do mundo... — ele respondeu, beijando o canto da boca da namorada. — Senti saudades depois desse fim de semana sem nos vermos.
   não conteve o sorriso. Ouvir aquilo de era significativo. Ele geralmente era bom em expressar seus sentimentos sem medo de parecer ridículo nem nada do tipo, mas ele jamais dizia ter saudades, só quando ela dizia primeiro, então ele respondia "eu também, minha linda" ou algo do tipo. Apesar desses detalhes, ele era carinhoso.
  — Vamos voltar para casa? — falou, abrindo a porta do carro para que ela entrasse.
  — Antes, que tal comermos alguma coisa? — perguntou, olhando-o de um jeito fofo para convencê-lo.
  — Olha, mesmo você sabendo que não é boa nisso — ele comentou, referindo-se à expressão forçada de fofura que ela tentava fazer e sempre falhava —, eu vou me deixar convencer... Mas só porque eu estou morrendo de fome, hein?
  Ela riu do comentário dele, fazendo uma expressão desapontamento fingido e entrando no carro. assumiu a direção e os dois foram para um restaurante de que gostavam. Conforme seguiam o caminho até lá, a paisagem se modificava levemente, até que o ponto de partida e o local de destino apresentassem um tipo de ambiente totalmente distinto. O lugar em que estavam tinha um aspecto bem requintado, mas de modo simples, que eles apelidaram de "suburbano chique" para zombar de toda a pompa, que, eles jamais negariam, ambos adoravam.
   notou que dera um sorriso enquanto prestava atenção à estrada. Era estranho pensar que estariam ali, sem trânsito engarrafado nem buzinas irritantes, só os dois e alguns carros que passavam aqui e ali. E ele era lindo, era doce e fazia o coração dela palpitar quando ela se dava conta do quanto gostava dele, por mais piegas que isso pudesse soar. era o que definiria como "o amor da vida dela" ou "alma gêmea", apesar de não acreditar em nenhuma das duas coisas. Ela não era tão romântica quanto ele, mas sabia apreciar os momentos que tinham juntos.
  — O que foi, amor? — a jovem perguntou por conta do sorriso dele, sorrindo também.
  — Nada... É que eu pensei agora no quão sortudo eu sou por ter a mais bela garota do Rio de Janeiro sentada ao meu lado, a caminho do restaurante que serve a melhor comida que já provamos e depois me acompanhando até a minha casa.
  — Eu não sabia que a garota te acompanharia até em casa — comentou casualmente em tom de zombaria.   — E vamos passar o resto do dia fazendo absolutamente nada. Talvez cochilando à tarde... Ou, ainda, vendo um filme, mas não realmente assistindo, sabe? — explicou seus planos no mesmo tom brincalhão.
   riu, balançando a cabeça negativamente, sabendo que seria um ótimo dia.
  — Quero — comentou baixinho, e ambos riram.
  Era uma cidade bela, sem dúvidas, ela gostava de viver ali. Entretanto, algumas coisas não pareciam se encaixar. Toda a beleza da cidade contrastava com certa frieza humana com relação aos problemas alheios.
  Depois de um tempo observando a rua e as pessoas, começava a pensar sobre as coisas que via. Ao reduzirem a velocidade no cruzamento, ela viu um senhor de pele escura e olhos cansados esticando a mão para as pessoas que passavam. Muitas apenas desviavam, outras olhavam rapidamente, mas logo passavam direto, como se a pobreza fosse uma doença contagiosa e elas temessem se contaminar. Pessoas que sequer davam um olhar, apenas passavam longe, provavelmente aterrorizadas com o simples pensamento de um morador de rua encostar sua mão nas roupas delas. Era cruel e desumano, mas suficientemente real para se tornar ainda mais assustador como as pessoas conseguiam ser tão frias. Talvez não fosse de propósito, apenas somos ensinados a naturalizar certas coisas, a ignorar certas realidades, pois assim podemos deitar nossas cabeças em travesseiros macios à noite sem que o mal nos atinja. Isso é o que nossa sociedade se tornou.
  E aquele senhor não lhe era estranho, ele tinha o rosto familiar, a jovem sentiu que o conhecia. Talvez, inconscientemente, o visse sempre que passava por ali, mas não percebia realmente. Ou talvez ela de fato o conhecesse, mas não se lembrava de onde.
  O carro logo passou pela rua, mas o pensamento permaneceu na mente de durante o tempo em que ficaram em silêncio dentro do carro. passou a mão na perna dela, dando um sorriso. Ela correspondeu o sorriso, não queria iniciar uma conversa.
  — Tudo bem? — ele perguntou.
  — Tudo.
  — Nós vamos chegar daqui a pouco.
  — Aham.
  Ela se inclinou e beijou o rosto do namorado. era meio irreal. Eles dificilmente discutiam, nunca brigavam feio, sempre agia pela lógica, mas ao mesmo tempo era sentimental e carinhoso. Ele bebia pouco também, ao contrário da própria . Ter por perto era como ter um amigo que se importava durante o dia. Mas, é claro, ele era muito mais do que apenas carinho. era calmo, mas não perdia boas oportunidades de provocar a namorada. Ele gostava quando ela caía na pilha, mas logo estavam rindo novamente. E não era apenas esse tipo de provocação, é claro.
  Ao chegarem ao lugar, estacionou em uma das vagas livres ao lado do restaurante, onde havia alguns carros. Os dois já estavam com muita fome, mal podiam esperar para entrar, pois a comida ali era deliciosa.
  Saíram do carro e entraram no estabelecimento. Não havia muitos clientes, como acreditavam que haveria, talvez a maior parte das pessoas estivesse viajando ou a caminho de algum lugar. Por isso os dois conseguiram escolher uma mesa à janela, sentando-se e pegando o menu sobre a mesa.
  — Então, o que você vai pedir? — ele perguntou.
  — Deixa eu ver... Estou morrendo de fome, então acho que vou pedir daquele jeito, hein? — falou, fazendo o namorado rir. — Dois pratos só para mim!
  — É uma boa, e eu quero dos fundos, porque cabe mais comida.
  Os dois gargalharam com as palhaçadas que faziam naquele ambiente requintado demais para pagarem de esfomeados sem medo de ser feliz.
  Enquanto escolhiam o que comeriam, continuaram conversando sobre coisas do dia-a-dia. perguntava sobre o dia dela no trabalho, perguntava sobre as coisas que ele havia planejado fazer. Logo trataram de chamar o garçom e fazer o pedido.
  — Então, a gente estava conversando no outro dia sobre os seus pais... — falou como quem não quer nada. — Acho que seria legal conhecer as pessoas maravilhosas que você descreveu…
   sorriu para ela, assentindo com a cabeça, meio distraído com algo no celular, então pegou a mão dela e beijou.
  — Claro, meu amor, eles vão adorar te conhecer!
   sorriu satisfeita. Ela pegou o próprio celular, que estava em cima da mesa, e guardou no bolso da calça, olhando para ele, que ainda estava digitando alguma coisa. Ela achou que sua atitude de guardar o telefone refletiria na atitude dele, mas não funcionou, pois ele nem notou o que ela fizera. Às vezes, se irritava seriamente com essa mania de de não largar o celular nem em momentos como aquele, mas nem sempre reclamava, esperava que ele se desse conta por si só. Eles estavam se divertindo tanto, para que ficar no celular, ela se perguntava.
  Dessa vez não funcionou.
  — Quando você acha que seria bom? Eu realmente queria conhecê-los! — ela comentou, falando um pouquinho mais alto, pois era como se ele não ouvisse muito bem, o que era verdade.
  — Aham... — respondeu, como se não tivesse ouvido uma palavra.
  — ... Eu tô aqui! — ela chamou, sorrindo, acenando para ele. — Eu sei que é chato lembrar isso, mas nós não conseguimos um tempo assim para nós dois há muitos dias.
  — Eu sei, amor, desculpa. É que é importante, assunto do trabalho. Eu prometo que é só isso aqui e depois eu te dou toda a atenção do mundo, tá bom?
  — Tudo bem — ela respondeu, pegando o copo de água diante de si e bebendo um pouco.
  Esperavam a comida, ainda estava no celular e tentava não prestar atenção a isso, olhando para o lado de fora do restaurante. A rua estava calma, apenas algumas pessoas passavam. Uma mulher com uma criança, que apontava para alguns doces em uma loja, fazendo a mãe entrar ali. Uma jovem caminhando sozinha pelas ruas, ela andava despreocupadamente, mesmo com o sol e calor que fazia, ela parecia não se importar enquanto andava pelo lado da sombra. Era de estatura baixa e tinha um rosto muito bonito de se olhar.
  Entretanto, o que chamou a atenção de foi a jovem que vinha logo atrás, parecia mais apressada, logo ultrapassando a primeira garota, era de aparência elegante, tinha os cabelos escuros e usava belos sapatos brancos, além de ser alta. Com certeza precisava chegar a tempo, o que levou a jovem dentro do restaurante a criar algumas teorias em sua mente.
   teve sua atenção desviada para o garçom, que trazia os pedidos. Agradeceu e olhou para o namorado, esperando que ele tivesse alguma reação. apenas continuou no celular, muito entretido, falando um "obrigado" rápido, sem nem levantar os olhos. suspirou e pegou os talheres, então desligou a tela do celular, colocando o aparelho na mesa e olhando para ela.
  — Mil perdões, princesa. Sabe como é, assunto de trabalho.
  "Como se eu não trabalhasse também", pensou ela, que permaneceu em silêncio, dando um sorriso forçado e começando a comer.
  — Eu estava pensando — ela disse —, acho que seria legal passar o fim de semana naquela casa, o que você acha?
  — Esse fim de semana? Ih, acho que não vai dar... — deu uma garfada na carne em seu prato. — Eu tenho que fazer umas arrumações por lá, e pretendo fazer uma pequena obra, entende? Que tal no próximo? Eu prometo que vai ser ainda melhor!
  — Então tá, foi só uma ideia, se você não quiser mais que eu vá, você pode me dizer, amor, eu entendo…
  — Imagina, minha flor! — ele falou, largando os talheres e a encarando com doçura. — Não é nada disso. É que eu estou pretendendo resolver aqueles problemas que a gente listou no outro dia, então nosso cantinho vai ficar ainda melhor.
  O celular dele apitou, mas ele sequer olhou para o aparelho. suspirou, concordando com a cabeça. estava esquisito neste dia em particular, parecia nervoso e ocupado, mas ao mesmo tempo planejara um dia calmo para os dois.
  Continuaram a comer, e já pensava na sobremesa, mas não falou nada, só pensava no mousse que gostaria de pedir. puxava um assunto ou outro, ela respondia normalmente, sem querer estragar o clima, coisa que ela detestava fazer e detestava que fizessem também.
  A jovem resolveu não criar um caso bobo por conta da situação com , poderia passar o fim de semana na casa da melhor amiga, que já havia comentado sobre as duas ficarem juntas no feriado. Era uma excelente ideia, mas antes precisava confirmar que não a levaria pela terceira semana seguida para o chalé que ele tinha longe da cidade, coisa que ela achava incrível, pois não era algo comum de se ver por ali. Ultimamente, talvez seus pais não quisessem ninguém por lá, apesar de ele nunca mencionar os pais, uma vez que a casa era dele, ainda assim, era uma explicação que ela não conseguia largar.
  O celular de apitou novamente, mas ele ignorou mais uma vez.
  — Eu posso passar na sua casa no domingo, que tal? Podemos fazer aquele nosso combo de sempre, feijoada e suco de caju, o que você acha? — ele perguntou, tentando animá-la.
   sorriu para ele, deixando de lado a chateação.
  — Claro, claro. E a gente pode ouvir aqueles CDs antigos…
  — Ótima ideia — ele sorriu ainda mais para ela.
  Outra vez o celular dele apitou com novas mensagens, então ele decidiu atender de uma vez a pessoa insistente que os interrompia. Se desculpou diversas vezes com antes de pegar o aparelho telefônico para responder o que lhe haviam enviado. A namorada não demonstrou chateação, estava feliz por ele fazer um esforço e ir até a casa dela para que passassem o domingo juntos.
   fingiu não olhar para o namorado, mas notou que ele ficara quieto por um longo tempo, sem nem digitar, apenas lendo. Ela viu suas expressões se alterarem pouco a pouco, oscilando entre preocupadas e indecifráveis.
  — Amor, está tudo bem? — ela perguntou.
  Ele não respondeu de imediato, digitando algo rapidamente antes de fazê-lo.
  — Sim, sim... É... , me perdoa, mas eu vou ter que sair urgentemente agora. Eu... — ele conferiu o celular novamente. — Eu preciso resolver algo muito importante, então... Ah, droga! — ele praguejou a si mesmo. — Me perdoa, meu amor.
  Ele se levantou, indo até ela e depositando um beijo no topo de sua cabeça.
  — Eu te ligo mais tarde, tá bem? — ele perguntou, como se tentasse consolar uma criança. — Eu te amo.
   abaixou os olhos, assentindo.
  — Tudo bem, vai lá. Eu entendo. Mas o domingo ainda está de pé, né?
  — Claro, minha princesa — ele falou.
  Ela terminou de comer sozinha e saiu de lá. ainda perguntou se ela queria que ele deixasse o carro, mas ela negou, preferia andar um pouco, depois poderia pegar um ônibus. Tinha uma lojinha de cerâmica em que a jovem estava interessada, então ela poderia andar algumas poucas ruas até lá e comprar uns vasinhos de planta, coisa que ela amava.
  A lojinha ficava em uma rua meio estreita e iluminada, passando uma sensação agradável de lugar pequeno e confortável. Enquanto andava lentamente, se distraiu com uma mensagem de sua melhor amiga no celular, então olhou para baixo e parou na parte de sombra da calçada por uns segundos. Tempo o suficiente para alguém passar apressadamente por ela, quase correndo, e esbarrar em sua bolsa. se virou para olhar a pessoa.
  — Desculpe — a outra mulher falou desajeitadamente, voltando a andar de imediato.
  Era aquela garota que ela vira pela vitrine. A mesma garota de sapatos bonitos e cabelos escuros que ela vira do restaurante. Ela parecia apressada e preocupada, como se não prestasse atenção a nada além do que havia em sua mente. Ela andava rápido, olhando para o chão.
   continuou seu caminho até a lojinha, voltando a mexer no celular.

~~***~~

  Mais tarde, ela estava em casa vendo filmes de terror. Comia pizza e bebia suco com gelo, pois fazia muito calor. Estava deitada na cama com o ventilador de chão ligado. Ela pausou o filme e tentou ligar para o namorado.
  Já era quase cinco da tarde e ele sequer mandara uma mensagem avisando se estava tudo bem, então a jovem começou a se preocupar. tentou ligar para ele, mandou mensagens, mas caía na caixa postal e a mensagem não mostrava o sinal de confirmação de recebimento.
  Por último, a jovem mandou um SMS. Era sua última tentativa. Ela sabia bem que fazia isso de vez em quando, mas sempre dava um pretexto antes de seus "sumiços" esporádicos, mandava uma mensagem para dizer que estava tudo bem e que sentia saudades, mesmo que não respondesse as dela. Não durava muito tempo, geralmente dois ou três dias. Ainda assim, ela sabia que ele não simplesmente sumira nesses casos. Era estranho estar acostumada a isso, mas era como era.
  O toque de mensagem do celular chamou a atenção da jovem, que imediatamente o pegou e visualizou a mensagem. Era de .
  "Estou no lugar de sempre, princesa, estou te esperando."
   não entendeu a mensagem, eles não haviam combinado absolutamente nada, muito pelo contrário, ele simplesmente saíra do restaurante e dissera que ligaria depois. Coisa que ele não fez. O que a levou a tentar compreender a mensagem. Qual era o "lugar de sempre"? Pois eles não tinham algo parecido. E, considerando que eles não haviam marcado de sair, quem era essa "princesa" com quem se encontraria?
   sabia que aquela mensagem não era para ela.

Continua...



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