Salém, 1692

Escrito por Maria Laura - Siga a autora no Twitter
Beta-Reader: Danne



A mente de clamava por um minuto de silêncio. Da sala vazia onde estava ouvia-se os gritos de euforia da praça onde tudo ocorria.
Não lembrava muito bem como tudo havia começado. Sabia de algumas histórias, onde a mais contada era que uma escrava contou para algumas garotas da casa onde trabalhava sobre sua religião, e sua cultura. As garotas tiveram pesadelos à noite com as histórias contadas, e um padre disse que elas estavam com uma maldição causada por bruxaria.
A mulher fora morta, como muitas delas. era a próxima e sabia disso, não havia escapatórias sobre aquilo. Ela era uma, eles eram vários que torciam para que fosse o corpo dela nas chamas, que fosse ela agonizando por mais um segundo de vida.

As lembranças vinham com as lágrimas que insistiam em cair sobre o vestido branco que usava. Aquilo era quase um uniforme que todas que seriam executadas usavam, junto com pés descalços e os cabelos, que antes eram longos, não passavam dos ombros.
Haviam tirado seu filho, e ela rezava para Deusa mãe que o protegesse de todo mal que aquele mundo continha, seu marido foi morto em seus braços pelos mesmos que agora a matariam e suas irmãs de luta viraram brasa diante dos seus olhos.
Lembrou-se dos ensinamentos da mãe, ‘’Mantenha-se forte, minha menina. Sua força vem do seu interior, e isso nunca irão tirar de ti’’, ela tinha tentado ser forte. Mas o momento não era oportuno para tentar algo que logo acabaria, sua força tinha sido passada para seu filho, ele sim precisaria ser forte. Não ela.
A porta de madeira logo fora aberta e uma figura um tanto conhecida adentrou o local. Era um dos guardas que a trouxera até ali e que mantinha o mesmo sorriso debochado no rosto marcado por cicatrizes. As botas continuavam sujas de barro, as calças com rasgos profundos nos joelhos, a camiseta encardida e com sangue em boa parte dela. Mas o mesmo semblante alegre continuava ali. Estava feliz por vê-las morrer.
pela primeira vez sentiu vontade de socar alguém com a mesma intensidade que se sentiu com medo. Estava sendo humilhada de todas as formas que alguém pode ser, pois a violência sofrida por ela na última semana estava tão banal quanto à saudade da família, e da vida que tivera antes. Da vida que logo lhe seria tirada.
Passou a mão pelos fios ruivos que insistiam em cair sobre seus olhos e mirou um pouco melhor a figura que se encontrava ali. Viu uma espécie de corda em suas mãos, o que indicava que era sua vez.
Respirou fundo e olhou para sala onde ela esteve nas últimas 9 horas. Era escura, a única iluminação vinha de algumas frestas na porta e paredes que eram feitas de pedra. Era um local úmido com um único banco quebrado em um canto. Todas as outras estiveram naquela sala que vira esvaziando-se aos poucos, agora só restava ela ali aguardando o mesmo futuro das que lhe antecederam.
– Vamos logo feiticeira, não tenho todo tempo do mundo! - a voz dele era tão odiosa quanto o mesmo. Levantou-se e logo sentiu algo prendendo seus pulsos tão forte que teve que segurar o grunhido de dor. Fora puxada dali em passos rápidos.
Ela voltou a ver a luz do Sol e conseguiu sorrir por um momento, até voltar seus olhos para o palco improvisado em uma parte da praça com um tronco amarrado com um tipo de fogueira abaixo do mesmo. Então aquele era seu fim? Acabaria virando pó e fumaça e então seria só mais uma entre centenas.
Logo os gritos começaram, ouviam-se muitos deles, ‘’bruxa’’, ‘’pagã’’, ‘’feiticeira’’, ‘’assassina’’. Assassina? Não matava nem animais para alimentar-se, não poderia ser chamada de tal coisa, mas via-se nos olhos dos que estavam ali que para eles era sua verdade absoluta. Quando colocou os pés na estrutura em que encontrava-se o tronco os gritos cessaram. O guarda pedira silêncio, para então começar seu discurso já ensaio e utilizado muitas vezes no mesmo dia com o mesmo entusiasmo.
– Estamos aqui hoje para termos a justiça divina. Essas pagãs amaldiçoaram com suas bruxarias feitas em cultos para estragar a vontade do nosso senhor. Mas não iremos permitir, aqui todas queimarão no fogo para o inferno! - mais gritos. - Últimas palavras. - avisou.
sorriu. Sabia que nada havia de ser feito, e que seu corpo morreria, mas sua alma era livre como a natureza, como os pássaros e bela como a flor.
– A injustiça do homem não é maior que a justiça dos Deuses. Então não coloquem a sua divindade entre sua vontade e covardia. Assuma que a vontade de nos ver mortas é sua, não do seu Deus. – suspirou - Uma de nós seu fogo não queimará, o seu desdém e suas mentiras não irão calar nossa voz!
Mais gritos foram ouvidos junto com ofensas que nunca imaginaria um dia ouvir. Sentiu seu corpo ser erguido por dois homens que ali estavam e, primeiro, suas mãos serem amarradas, depois os pés e então sua cintura. Um terceiro homem que ali estava segurou um pedaço de madeira que já estava em chamas. olhou dentro dos olhos de seu assassino procurando algum tipo de remorso ou compaixão. Mas ali não havia nada, nenhum pingo de sentimento.
Sentiu a ponta dos pés começarem a queimar, e logo o calor foi se estendendo por todo seu corpo. Ela queria correr, gritar, chorar com a sensação que aquilo lhe proporcionava. Estava sendo morta de uma maneira em que a dor era tão forte que não existiam forças nem para suas lágrimas. O fogo estava consumindo seu corpo.
Mas logo uma sensação boa voltou, os gritos e a dor cessaram. Era como se pássaros cantassem uma bela melodia, e lembrava-se dos olhos do filho, das palavras proferidas com paixão pelo marido, da infância e das rodas de dança. Lembrava-se das frutas que colhia com a mãe e das amigas do Coven que tanto lhe ajudaram em momentos difíceis.

FIM!

 

Comentários da autora



Nota da beta: Comentem! Não demora, deixa a autora feliz e animada para continuar escrevendo. Qualquer erro encontrado na fic é meu. Por favor, avise-me pelo e-mail ou Twitter.
xx, Danne