Power

Escrito por Agatha Mello | Revisado por Jubs

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Prólogo

  Nem todas as flores tem a mesma sorte, umas enfeitam a vida e outras enfeitam a morte.
  Nem todos os meses tem a mesma quantidade de dias.
  Nem todos os dias são iguais.
  O ar que escapou lentamente por meus lábios apenas levantou parte da poeira impregnada na terra fazendo com que alguns daqueles minúsculos flocos entrassem em contato com meus olhos, incomodando-os.
  O lado direito do meu rosto permanecia dormente com o contato gélido da terra e, aos poucos, minhas pálpebras começavam a pesar.
  Quando foi que perdi?
  Foi no momento em que fiz aquela maldita promessa? Ou foi quando decidi seguir meu tolo coração?
  Eu não deveria ter caído e, mesmo assim, aqui estou... Morrendo.

Capítulo 1

  "A chuva chocava-se contra meu rosto e corpo violentamente conforme corria perdidamente entre aquela floresta. Já não sabia mais para onde ir e a escuridão ao meu redor apenas pioravam a pouca - quase nula - visibilidade, mesmo com meus olhos mais acostumados. Decidi parar e respirar um pouco, porém quando o fiz a dor foi intensa demais. As costelas pareciam apertar meus pulmões, que por sua vez, ardiam intensamente, a falta da entrada de oxigênio naquele órgão tão importante do corpo humano finalmente estava cobrando por todo o esforço durante a corrida. Inspirei e expirei durante vários segundos, meu peito subia e descia velozmente, como se não houvesse oxigênio suficiente ou nunca mais tal ato fosse ser realizado.
  O som de folhas sendo quebradas por passos pesados assustaram-me e aceleraram as batidas cardíacas desregulares de meu coração, aumentando a minha vontade de respirar.
  Virei-me na direção daquele som assim que o mesmo parecia cada vez mais próximo, contudo enxergar algo era uma missão praticamente impossível no meio daquele breu. Prendi minha respiração com o intuito de afastar ou passar despercebida pelo que quer que fosse, porém foram apenas cinquenta segundo antes do som de um galho partindo-se atrás de meu corpo, soltei todo o ar de meus pulmões e arregalei meus olhos.
  Eu queria desesperadamente correr para o mais longe possível daquele lugar, mas meu corpo e mente estavam em colapso, um perfeito estado de choque.
  Outro barulho.
  E, então, como o gatilho de uma arma sendo destravado e a bala lançada, meu cérebro raciocinou que estava na hora de sair do estado de choque deplorável na qual estava afundando-me gradativamente.
  Apenas um piscar de olhos e minhas pernas voltaram a correr habilmente, apesar do começo de meu esgotamento físico, para o mais longe que conseguisse.
  Corri. Corri. E corri...
  Tornei a parar após tropeçar na raiz exposta de uma imensa árvore e ir de encontro com o chão, colocando meus braços frente ao corpo para tentar me proteger. Permaneci deitada de bruços contra a terra fofa e molhada pela chuva que não cessava antes de me virar e fechar meus olhos, enquanto deixava com que meu corpo fosse lavado e meus batimentos cardíacos fossem normalizadas, mas tal tentativa falhava sempre que o som de passos ou de algum galho partindo-se chegavam aos meus ouvidos, alarmando-me.
  Sentei-me e passei as mãos pelos fios de meus cabelos anteriormente compridos e tirei aqueles que grudavam em meu rosto, jogando-os para trás. Juro que tentei não deixar meu corpo relaxar, mas tal atitude falhou quando meu sangue esfriou e todas as dores fizeram-se presentes, demonstrando o quão esgotado meu corpo estava naquele momento.
  Outro galho sendo partido e o som de passos contra a terra fofa foram detectados por meus ouvidos.
  Levantei-me rapidamente e dei dois passos, voltando ao chão novamente. Mantive-me sobre meus joelhos, minhas pernas não queria colaborar naquele momento e, provavelmente, não colaborariam tão rapidamente assim. Encarei o chão firmemente antes de tirar as palmas de minhas mãos do mesmo e erguer meu olhar quando a sensação de estar sendo observada sufocou-me. Olhei ao meu redor, procurando por alguma pista, deixando com que minha intuição guisasse-me naquela hora, logo encontrando um par de olhos estudarem-me minunciosamente.
  "Droga!", foi meu único pensamento quando o ser a minha frente resolveu movimentar-se lentamente em minha direção, sentia-se me como uma pobre presa pronta para ser aniquilada por seu caçador.
  Soltei todo o ar por meus lábios quando as mãos firmes daquele homem seguraram em meus braços e ergueram-me do chão com facilidade, uma de suas mãos foram direito para a frente de meus lábios, tampando minha boca e impedindo a minha tentativa de gritar em um reflexo, afinal quem me escutaria? Ninguém!
  Entrar em choque estava virando a minha nova arma de defesa, pois o colapso mental tornaram a me paralisar por completo. Eu conseguia ver os belos pares de olhos verdes me analisarem, mas não conseguia fugir de modo algum. Aqueles olhos pareciam com dois imãs...
  Como em um Flashback lembrei-me das várias vezes em que esses mesmos pares de olhos perseguiam-me fazendo com que meu cérebro vencesse a batalha contra meu corpo e resolvesse fazer algo para se afastar e voltar a fugir.
  - Não grite, anjo! - Foi o que ele pediu com a voz rouca e extremamente calma, olhando no fundo de meus olhos, afrouxando sua mão em minha boca. - Jamais lhe farei algum mal. - Garantiu ele, mas como você acredita em alguém que pode te matar?
  Um sorriso sádico surgiu no canto de seus lábios, sua mão saiu da frente de minha boca e eu gritei, afinal era a oportunidade que precisava para fugir, talvez.
  Observei-o puxar uma faca de cabo preto com alguns símbolos gravados em branco de um suporte preso em sua cintura.
  "Eu sinto muito por não ter deixado vocês orgulhosos...", pensei com pesar lembrando-me de cada pessoa que consegui nutrir algum sentimento sincero, fechando meus olhos rapidamente quando a faca foi ao ar, esperando pelo primeiro golpe.
  Um...
  Dois...
  Três...
  Nada.
  Engoli em seco, criando coragem para abrir meus olhos. Soltei todo o ar de meus pulmões pela boca quando o fiz e encontrei o mesmo encarando-me seriamente, deixando-me inusitadamente aliviada.
  - Não gosto de repetir as coisas... - Alertou-me sério mantendo sua expressão fria, enquanto mantinha seus olhos fixos nos meus. - Mas, abrirei uma exceção. - Falou sarcástico. - Jamais lhe farei algum mal. - Repetiu suas palavras ditas minutos antes com mais firmeza, quase que rudemente.
  Eu que estava a sua mercê e ele que ficava irritado?
  O torpor rapidamente passou e quando abri minha boca para lhe dizer algo o som de uma enorme explosão atingiram meus tímpanos com violência. Aquele homem simplesmente colocou-se em minha frente, protegendo-me de algo que nem mesmo eu conseguia ver ou entender.
  Olhamos para mesma direção e apenas os pássaros arriscavam-se a voar naquela tempestade, assustados demais para manterem-se escondidos e protegidos, porém a enorme sombra que os seguia fizeram com que o homem a minha frente recuasse por alguns segundos antes de voltar a firmar-se.
  "Que diabos é isso?", pensei incrédula, olhando para a sombra que movia-se cada vez mais rápido de nossa direção, acelerando novamente o ritmo das batidas cardíacas de meu coração. "Estamos fodidos!", minha mente logo constatou aquilo.
  Maldade e morte... Estas eram as sensações que aquele negrume no céu exalava cada vez mais, porém o contraditório de toda a situação era o fato de que aquilo estava me mantendo fixa ali, como se chamasse por mim.
  - Você precisar sair daqui, agora! - Ordenou o homem após ter “sacudido-me” com força o suficiente para me despertar e gentileza para não me machucar. - Corra e não olhe para trás, entendeu? - Perguntou ele seriamente assim que instruiu-me no que deveria ser feito, assenti positivamente duas vezes com a cabeça, sendo surpreendida por um abraço apertado. Não tive tempo de retribuir o gesto, pois tão logo como começou, acabou. - Vai! - Exclamou autoritário antes de virar-me de costas para seu corpo e empurrar levemente. Respirei fundo contendo a vontade de olhar para trás e comecei a correr, sem acreditar que conseguiria ir muito longo, pois cada passo dado era uma luta interna contra a vontade de parar e sentar por um longo período.
  Parei de correr depois de um longo caminho percorrido, apoiando minhas mãos sobre meus joelhos, respirando pesadamente. Novamente a sensação de estar sendo observada se fez presente, deixando-me me alerta.
  Olhei ao meu redor e rapidamente encontrei meu telespectador, era aquela sombra.
  Pisquei lentamente e quando voltei a realidade sentia minha traqueia ser pressionada fortemente, sufocando-me. Comecei a me debater, lutar por minha vida.
  Os gritos que escapavam por meus lábios, tornaram-se cada vez mais baixos, foi então que algo acertou meu peito, logo acima de meu coração.
  Pisquei novamente e tentei olhar para baixo, mas a incompreensão impedia-me.
  Tudo aquilo era surreal demais para ser compreendido com facilidade, mas apenas quando minhas pálpebras pesaram que eu entendi que aquele era o meu fim.
  Minha respiração começava a falhar e minha pálpebras estavam pesadas por demasiado para manterem-se por mais alguns minutos abertas.
  Um...
  Dois...
  Três...
  Quatro...
  Cinco...
  Cinco segundos foi o tempo necessário para que eu finalmente entregasse-me de bandeja para a escuridão que a muito tempo me rondava.
  - Te achei... - Pronunciou-se a Sombra, apertando meu braço esquerdo antes de perder a lucidez."

  Abri meus olhos assustada, sentindo meu peito subir e descer rapidamente, enquanto encarava o teto branco de meu quarto. Passei as mãos pelos fios de meus cabelos, agora empapados de suor, sentando-me na cama. Prendi minha respiração imediatamente quando notei diversos objetos flutuarem no vácuo ao meu redor, se não fosse tão assustador seria fascinante.
  A porta de meu quarto abriu-se bruscamente, atraindo minha atenção para o lugar. Olhei para os meus pais com os olhos arregalados, perplexa o suficiente para não saber o que fazer, soltando todo o ar preso em meus pulmões de uma única vez por meus lábios, logo vendo todos os objetos irem ao chão.
  "Céus! O que estava acontecendo?", pensei confusa, tentando ter uma resposta lógica para tudo aquilo.
  - Pai... - Chamei baixo, vendo-o aproximar-se e me abraçar gentilmente, sentando-se ao meu lado sobre a cama, escondi meu rosto em seu peito, sentindo meus olhos encherem-se de lágrimas e a sensação de sufocamento voltar. - O que há de errado comigo? - Perguntei em um sussurro, sentindo a primeira lágrima rolando livremente por meu rosto. - Os pesadelos estão se tornando cada vez mais reais e piores. - Acrescentei pensativa, tentando entender minha própria nova linha de raciocínio.
  - Shiu... - Pediu ele, acariciando meus cabelos carinhosamente, puxando-me contra seu corpo. - Não há nada de errado com você. - Respondeu-me ele, afastando-se um pouco apenas para olhar em meus olhos, mostrando-me o quão sincera suas palavras eram. - Tudo ficará bem, sunshine. - Garantiu-me ele, passando uma de suas mãos por meu rosto, olhando no fundo de meus olhos, depositando um beijo demorado em minha testa antes que eu o abraçasse firmemente, deixando com que as lágrimas rolassem com toda a liberdade possível por meu rosto. O realismo de cada sensação, cena e situação vivida naquela fsta de meus pesadelos haviam me deixado em completo estado de choque, causando-me uma crise de nervos e lágrimas indesejadas.
  - O que houve com seu braço? - Perguntou minha mãe preocupada, tocando meu braço esquerdo com delicadeza, provavelmente com medo de me machucar mais. Desviei minha atenção para onde ela tocava e notei as marcas certeiras da palma de uma mão ali.
  - Não sei... - Respondi pensativa, analisando a marca e lembrando-me no instante seguinte como havia conseguido aquilo, sombra... Estremecendo com a lembrança.
  - Você está bem? - Perguntou Thomas, meu irmão mais velho e gêmeo, assim que percebeu a minha mudança.
  - Claro. - Menti descaradamente, mantendo-me firme para que nenhum dos três ali presentes notassem tal omissão. Sabia que mentir agora era como pegar um revólver e atirar para cima ou então atirar contra o peito do seu pé, o resultado poderia ser catastrófico ou, contraditoriamente a física, não. - Tudo está perfeitamente bem... - Acrescentei cinicamente, sorrindo forçada, vendo meu irmão arquear suas sobrancelhas em descrença e deboche.
  - Tem certeza? - Questionou meu pai calmamente, esperando que eu lhe desse a verdade, mas infelizmente aquilo não aconteceria, não tão cedo.
  - Absoluta! - Respondi firmemente. - Obrigada por estarem aqui, mas amanhã todos teremos de acordar cedo. - Comentei despreocupadamente, expulsando-os de meu quarto indiretamente.
  - Já entendi o recado! - Minha mãe pronunciou-se com um sorriso divertido emoldurando os cantos de seus lábios, enquanto erguia suas mãos para o alto, na altura de seus ombros, e fingia se render ao meu "pedido". - Vamos descansar, pois como a senhorita "quero vocês fora daqui, mas não quero ser grossa" disse temos, realmente, que acordar cedo amanhã. - Disse ela divertida fazendo com que um sorriso discreto surgisse no canto esquerdo de minha boca.
  - Mãe... - Murmurei baixo, revirando meus olhos, enquanto fingia não estar me divertindo, mantendo minha fama de "ovelha negra" da família inalterável.
  - Então, é melhor sairmos rápido, não? - Perguntou meu pai, entrando no mesmo ritmo que minha mãe, dando um beijo no topo de minha cabeça e se afastando tranquilamente, aproximando-me dela e passando um de seus braços por cima de seus ombros, puxando-a para perto de seu corpo. - Afinal, nunca poderemos prever quando a fera dentro de nossa amada filha se libertará. - Brincou ele, dando uma piscadela em minha direção.
  - E ela vai revirar os olhos... - Disse Tom no mesmo momento em que eu fazia o gesto, arrancando risadas contagiantes dos presente ali, inclusive a minha.
  - Patético! - Comentei calmamente, vendo-os caminharem até a porta e desejarem-me um "boa noite", porém Tom ficou parado em baixo do batente e de costas para mim, encarando algo no corredor. - Tom? - Chamei baixo e curiosa.
  - Você pode mentir para eles o quanto quiser, . - Começou ele sério, olhando-me por cima de seus ombros. - Só não esqueça de três fatos importante... Primeiro, eles te conhecem melhor do ninguém e ficam tristes quando você mente; Segundo, eles a amam de maneira intensa e verdadeira, como nenhum outro ser o fará; E terceiro, nunca pense que pode mentir para mim. - Constatou ele frio, voltando a encarar o corredor, soltando todo o ar de seus pulmões. - Boa noite, ! - Desejou ele antes de passar pela porta, apagar a luz e fechar a mesma.
  Permaneci encarando a porta em meio a escuridão, raciocinando cada palavra proferida por Thomas, tentando não me irritar ou me culpar por antecipação, afinal aquilo havia sido um conselho, não?
  Balancei a cabeça negativamente algumas vez, afastando as dúvidas cruéis que surgiam com o decorrer do tempo e apagando cada pensamento massacrante que me atormentaria no dia seguinte ou até mesmo em meus sonhos.
  Preciso dormir imediatamente e profundamente, sem ter a dúvida de que acordarei no meio da noite devido a outro pesadelo perturbador, mas tal ação era impossível de ser completada graças ao receio que meu corpo tinha de fechar os olhos e ser posto à prova de alguma outra ameaça mais assustadora.
  Cada noite que chegava trazia-me um pesadelo de brinde e nunca eram os mesmos, apenas a crueldade ou o terror... Deixei o ar sair por meus lábios levemente abertos que havia mantido preso em meus pulmões demoradamente, ignorando a sensação vazio que apossou-se de meu corpo fazendo com que eu me deitasse e cobrisse meu corpo até minha cintura, enquanto repousava uma mão sobre a outra em cima de minha barriga e mantinha minha atenção presa aos adesivos fluorescentes em formatos de estrelas, planetas e Lua que estavam colados no teto do quarto, minha constelação pessoal.
  Toda aquela ausência de luz estava me deixando com falta de ar e, ao mesmo tempo, alívio. Um completo complexo.
  Respirei fundo e fechei meus olhos, tentando manter todas as lembranças daquele recente pesadelo guardado no fundo de minha memória, relaxando aos poucos sobre a superfície macia de minha cama, adormecendo minutos depois.

  {...}

  Abri meus olhos com certa dificuldade e logo consegui perceber com uma precisão assustadora cada pequeno e mínimo detalhe de cada pedaço de poeira em volta de feixes de raios solares. Engoli em seco ao perceber que estava tornando a perder o controle, um perigo a todos.
  Espreguicei-me e levantei-me, saindo da cama e seguindo em direção ao banheiro.
  Olhei meu reflexo no espelho e percebi a quão cansada estava, os pesadelos destruíam-me gradativamente a cada noite. Balancei a cabeça negativamente, afastando todos os péssimos pensamentos que assumiam o comando de minha mente, logo tornando a realidade onde tinha uma bexiga apertada e um longo dia pela frente.
  Assim que sai do banheiro troquei aqueles pijamas por calça jeans e camisa preta, sentindo-me livre. Segui em direção a porta e respirei fundo, buscando forças para encarar minha família. Contei até dez mentalmente e, em instantes, dirigi-me até a sala de jantar.
  Encontrei a mesa servida e cada um comia despreocupadamente, murmurei um “Bom dia!”, e me sentei ao lado de Tom, vendo-o arquear as sobrancelhas quando encarei o prato a minha frente, começando a comer silenciosamente.
  - O que lhe preocupa? – Perguntou meu pai calmamente, prestando atenção em cada gesto que eu fazia.
  - Estou perdendo o controle.... Não sei se dessa vez terá volta. – Respondi simplesmente, levantando minha cabeça, ouvindo minha mãe deixar seu talher cair sobre o prato.
  - Por que acha isso? – Questionou ele tranquilamente, apoiando seus cotovelos na mesa, sem desviar seus olhos de minha direção.
  - Por que não deveria achar? – Retruquei rapidamente e o vi sorrir divertido. – Os pesadelos voltaram, assim como passei a enxergar tudo ao meu redor com toda a sua minúscula partícula e meus... Dons estão se tornando inconstantes. – Decidi responder assim que percebi o quão terrível seria se eles notassem o problema quando a solução se tornasse inalcançável.
  - Acha que está pronta? – Perguntou ele e eu soube que decisão tomar.
  - Acho que já passou da hora. – Respondi firmemente.
  - Então, você irá para aquele colégio aprender sobre seus poderes e como controlá-los. – Decidiu ele.
  E, então, meu companheiro de todas as épocas fez-se presente.
  O silêncio... Um dos poucos prazeres que alguém cheia de gostos excêntricos como eu consegue admirar.

Capítulo 2

  Domingo...
  O que e como descrever o último dia da semana e todo o tédio ou inércia que ele trazia?
  Se existia um dia na semana que conseguia me deixar com todo o desânimo existente era o domingo. Não sabia o motivo daquilo. Talvez seja o começo de mais uma semana ou o término dela dependendo de cada calendário, talvez seja meu lado religioso falando mais alto, talvez seja o tempo nublado do lado de fora da casa que deixava tudo mais opaco.
  Apesar de todo o tédio do sétimo dia havia a sensação de estar sendo observado em cada gesto, passo ou decisão que tomava naquele dia. Parecia que alguém estava me observando minunciosamente, aguardando por um descuido...
  Balancei minhas cabeça suavemente de um lado a outro, espantando tais pensamentos e voltando a focar minha atenção nas linhas do livro em minhas mãos. A história era simples. Um jovem casal havia sido criado juntos e com o tempo apaixonaram-se, contudo, uma guerra aproximou-se e os separou, demorou anos até que ambos se reencontrassem e ela contasse que eles tiveram um filho, mas antes que eles tivessem uma segunda chance, ela morria no final. Eu só não lembrava o motivo de sua morte e, por isso, relia a história pela terceira vez.

  [...]

  Ouvi meu estômago fazer um barulho estranho e alto o suficiente para encerrar com o silêncio do cômodo, fiz uma leve careta e coloquei o marcador de páginas no meio da que estava lendo, fechando o livro em segui e o deixando sobre a cama. Levantei-me com relutância e segui até o banheiro, olhei meu reflexo no espelho na parede em cima da pia e não me surpreendi ao ver as bolsas roxas embaixo de meus olhos, lembrando das noites mal dormidas e de cada pesadelo que tive. Passei a mão direita por meu rosto e apoiei a esquerda contra a pia gelada, respirando fundo com a catástrofe em que estava me tornando.
  - Tudo irá melhorar. Precisa melhorar. - Murmurei para mim mesma. Era uma espécie de mantra que deveria ajudar a manter minha mente em perfeito equilíbrio antes de cair em trevas e desordem que o pânico e paranoia ocasionavam, minha mente se tornava um caos e minha razão se extinguia por completo em cinco minutos tal como o nevoeiro da manhã em uma área próximo a serra.
  Contei até cinquenta antes de abrir a torneira e colocar minhas mãos embaixo d'água, suspirei pesadamente em um ato involuntário e olhei meu reflexo mais uma vez.
  - Você está uma merda hoje! - Disse irritada, logo enchendo minhas mãos com a água e a levando até meu rosto, lavando o mesmo repetidas vezes.
  Assim que me senti mais desperta, fechei a torneira e sequei meu rosto suavemente com a toalha, que só fui encontrar dentro do enorme gabinete que ficava suspenso na pia.
  Deixei a toalha em cima da pia mesmo e voltei para o quarto após realizar minhas higienes, olhei para o livro e arqueei minhas sobrancelhas ao ver que o mesmo não estava onde eu tinha deixado, não estava no mesmo lugar próximo ao travesseiro, agora estava no meio da cama.
  Engoli em seco e ignorei o arrepio que subiu pela minha espinha, caminhei até o criado mudo e abri a gaveta do mesmo, pegando ali dentro meu celular e um canivete. Podia ignorar arrepio, mas não iria ignorar minha intuição e ela me dizia para sair de casa o mais rápido possível.
  Saí do quarto em silêncio, prestando atenção em cada ruído que a casa fazia e me assustando com alguns sons no trajeto até a cozinha, precisava comer e aí pensaria o que faria em seguida, se permaneceria em meu quarto e ignoraria minha intuição, ou se sairia de casa e ligava para alguém da família.
  Bendito dia em que meus pais resolveram ir para a cidade vizinha e que Thomas foi encontrar os amigos em uma lanchonete do outro lado da cidade, eles não poderiam fazer algo por perto?
  Entrei na cozinha e deixei o canivete guardado no bolso de minha calça ao mesmo tempo em que começava a procurar algo para comer e olhava para as duas únicas saídas daquele cômodo com atenção.
  Achei algumas coisas na geladeira e decidi as esquentar no micro-ondas, enquanto aguardava minha comida ficar o suficientemente quente para ser comida, acabei deixando minhas lembranças assumirem o controle de meu cérebro, tirando minha atenção das portas e sons.
  "Detestava ter que ir ao parque próximo à casa para brincar ou apenas tomar um ar, como mamãe dizia. As pessoas não suportavam a minha presença e o passeio que deveria ser legal, tornava-se em algo infeliz.
  Ter seis anos de idade era algo indescritivelmente incrível. Era a idade em que podíamos descobrir o mundo ser sermos responsáveis por qualquer erro que ocasionasse em desastre, tínhamos a liberdade para brincar de qualquer brincadeira existente, sabíamos músicas que esqueceríamos futuramente, e acima de tudo isso, podíamos dormir à tarde.
  Essa idade era a melhor época para se criar laços e ter amizades duradouras, ao menos para as outras crianças.
  Para mim, ter seis anos era um castigo cruel do destino que por algum decreto escolheu me colocar em uma família maravilhosa e que me amava, mas que morava em uma cidade malvada. Claro que papai e mamãe tentavam de tudo para me proteger de certas coisas, mas eles não podiam ficar comigo vinte e quatro horas.
  Eu ainda precisava ir a escola, frequentar as aulas particulares dos cursos extracurriculares em que eles me colocavam para me manter ocupada e precisava dar tchau quando eles iam para seus respectivos trabalhos, deixando-me sozinha com o mundo ao meu redor.
  Engoli minha vontade de chorar mais uma vez após uma mãe tirar sua filha de perto de mim antes de me empurrar para longe de sua cria, como se eu fosse fazer algo cruel a ela... Olhei no espaço amplo verde ao meu redor e respirei fundo, tentando ver onde a nova babá havia ido para que pedir que ela me levasse para casa.
  Senti meu coração acelerar-se quando não a achei em lugar algum daquele parque e tudo só piorou quando três crianças mais velhas vieram em minha direção com pedaços de madeira.
  - Hey, monstro!? Acho melhor você correr. - Foi o que ouvi de um dos garotos. Minha única reação foi correr em direção as árvores, sem olhar para trás. Medo me definia naquele momento. O medo era minha única chance de sobreviver.
  Parei de correr apenas quando estava em uma área mais escura e as árvores mais densas, encolhi-me perto de uma das grandes raízes e escondi meu rosto entre meus joelhos, tentando controlar minha respiração para poder escutar o que estava ao meu redor, mas tal ato de me acalmar se tornava impossível já que eu podia ouvir o som das batidas de meu coração em meus ouvidos.
  O medo logo ganhou a companhia da angustia, do pavor e raiva. Angustia por não saber o que iria acontecer comigo. Pavor por estar tendo que me esconder no começo da Floresta Proibida. E Raiva por ter que passar por tudo isso sem saber o motivo, por precisar sofrer sem ter uma razão plausível, por não ter ninguém em quem confiar e pedir ajudar.
  Ouvi o som de um galho partindo-se próximo ao meu novo esconderijo, abracei meu corpo e fechei meus olhos, prendendo minha respiração enquanto pendia mentalmente para que aquilo acabasse rapidamente.
  Não merecia passar por tudo aquilo... Ou merecia?
  Por qual motivo?
  Dê-me o motivo e não irei me rebelar contra as consequências, mas condene um inocente que travará uma guerra.
  - ! - Ouvi meu nome ser gritado à plenos pulmões, mas minha mente vinha, recentemente, pregando-me peças que poderiam custar minha vida ou trazer-me mais problemas.
  Ultimamente, tenho me imaginado em outro cenário. Repleta de amigos, sendo recebida com sorrisos e olhares gentis em vez de raivosos ou hostis, sem ter que passar por um obstáculo a cada rua até chegar em casa com pedaços faltando. Quando não faltava mais nada, eu via minha vida totalmente diferente. Minha família e eu éramos recebidos com respeito, e não por medo. Mas, isso era só mais um fruto da minha mente fértil.
  Estava enlouquecendo gradativamente conforme os dias passavam e iria definhar no meio da loucura, sem amigos, sem compreensão, sem... paz.
  - ! - Ouvi meu nome ser gritado novamente e, desta vez, o desespero na voz era perceptível. - ! - Outra vez mais e o chamado continuou até começar a desaparecer para longe de mim. Pensei em gritar e ir atrás do som, mas quem me garantia que queriam me salvar e não me machucar?
  Eu sabia que não podiam me matar, mas quem iria os impedir de me machucar? Ninguém!
  Demorou alguns minutos até que minha coragem voltasse e eu conseguisse olhar o lugar ao meu redor, havia ali apenas a escuridão.
  O desespero começou a fazer-se presente, criando cenários ruins em que o final era pior. Eu morria em todos eles.
  Ter medo tornava-me humana, era o que meu avô vivia dizendo antes de partir desta para uma melhor. Mas, ter medo sempre me transformava em que? Covarde?
  Ouvi o som de um galho se parindo do meu lado esquerdo, tirando-me dos devaneios em que fui colocada por minha mente perturbadoramente abalada, enquanto sentia que o vento havia sumido. Só tinha uma coisa que poderia fazer naquele momento, me esconder.
  Ele estava vindo…
  Ele não falhava em me achar...
  Ele era mais forte e sabia como me machucar, sempre.
  Soltei todo o ar de meus pulmões silenciosamente e levei minhas mãos pequenas e gordinhas até meus olhos, tampando-os com força. Não podia ver.
  Engoli em seco quando senti aquela respiração quente tocar meu rosto e contive a vontade de gritar quando sua mão mais quente ainda, como o fogo ardente, tocou minha bochecha direita com leveza e suavidade, fazendo com que eu prendesse a respiração, aquilo era novo e assustador.
  Aos poucos senti que a sombra havia se afastado e fiz algo impensado.
  Tirei as mãos de meu rosto e abri meus olhos, travando quando seus olhos encontraram os meus e seu sorriso macabro surgiu em seus lábios.
  O que houve em seguida doeu e eu gritei o mais alto que consegui. Alto e agudo.
  Sua mão tocou meu pescoço e o apertou, asfixiando-me ao tempo em que me erguia contra o troco da arvore atrás de meu corpo. A falta de ar fez-se presente e antes que fechasse meus olhos pude ver quando ele se afastou com relutância e brutalidade.
  - Abra os olhos, ! - Ordenou alguém com uma voz conhecida por mim, em algum lugar distante de minha mente. - Por favor. - Pediu.
  E eu o fiz.
  Abri meus olhos e ainda estava escuro, então notei que minha mão permanecia em meus olhos. Estranhei tal situação e olhei para quem estava a minha frente, Chase.
  - Eu estou aqui agora. - Garantiu ele, olhando em meus olhos. E eu acreditei em suas palavras, em cada uma delas com todo o resto de esperança que havia em mim.
  Pulei para seus braços e o apertei com força, deixando com que as lágrimas finalmente fossem liberadas.”

  Eu era tola e ingênua naquela época, e parecia que fazia tanto tempo desde aquele ocorrido… Soltei um suspiro pesado e comecei a comer, prestando a atenção no: mastigar, sentir e engolir a comida, mantendo minha mente limpa de qualquer pensamento inoportuno.
  Então, ouvi o som novamente. Desta vez vinha da sala.
  Irritei-me e deixei minha comida recém tocada sobre a ilha central da enorme cozinha, seguindo para a sala em uma súbita coragem e congelando assim que vi a pessoa de costas à minha frente. Os anos haviam se passado, mas era impossível não o reconhecer.
  Chase...
  Disseram-me que ele tinha morrido.
   “- Papai, cadê o Chase? - Perguntei ingenuamente assim que não encontrei o mais velho em lugar algum da casa assim que cheguei da escola, querendo lhe contar as boas novas do dia, queria lhe contar sobre Henry, o meu mais novo e único amigo.
  - Conversamos daqui a pouco, filha. - Foi o que ouvi como resposta antes de ver o homem sair apressadamente do próprio escritório, não entendia o que estava acontecendo até o momento, então decidi procurar mamãe.
  Chamei a matriarca da casa por longos minutos até que a vi descendo as escadas chorando, ela me olhou e se sentou no final do caminho, escondeu o rosto e chorou desesperadamente.
  Eu a abracei e ela me afastou.
  Não entendi o gesto e o repeti, tendo o mesmo resultado. Não tentei aquilo novamente.
  - O que houve? - Perguntei a Thomas quando o mesmo entrou na sala, enquanto apontava para mamãe.
  - Chase… Ele morreu. - Foi o que ele respondeu.
  Então, meu mundo caiu.”

  Desde aquele dia deixei de ser a garota amável que todos queriam proteger a todo custo, aprendi da maneira mais difícil a dar adeus as coisas mais importantes antes de aceitar a dor a qual elas me infligiam, sabendo que no final toda reação tinha sua consequência.
  Perder pessoas que amo, era a minha consequência. Eu aprendi a lidar com a dor depois de muito sentir.
  - Chase… - Chamei com a voz falha e perdida, as lembranças começavam a surgir com afinco e mostravam que não iriam voltar para trás das portas que havia criado ao longo dos anos para me proteger.
  - Olá, irmãzinha. - Disse ele em um tom tão sarcástico e frio que foi ali que soube que aquele não era o cara que chamei de herói durante tanto tempo, ele não estava ali.
  Chase me trazia segurança, o homem a minha frente medo.
  E ter medo é recuar no momento errado, colocando tudo a perder.
  - O que faz aqui? - Perguntei rapidamente, enquanto pensava em um modo de sair dali e ir para um lugar seguro ou apenas conseguir sair da casa.
  - Esta é minha casa. Esqueceu? - Retrucou ele, dando um passo à frente após ter se virado por completo para mim. Meu erro foi ter me assustado com o gesto e recuado bruscamente.
  - Você está morto! - Disse perplexa. - Você deveria estar morto, foi o que me disseram. - Murmurei pensativa, entrando cada vez mais fundo nos lugares proibidos de minha mente, ficando desatenta ao ambiente ao meu redor por alguns instantes.
  - Você não pode acreditar em tudo o que dizem, irmãzinha… - O suspiro pesado que ele soltou foi audível o suficiente para me fazer engolir em seco. - Será que não te ensinei nada?! - Perguntou ele retoricamente, trazendo-me de volta a realidade quando sua mão tocou meu ombro esquerdo com firmeza.
  Assustei-me com o gesto e levei minha mão direita contra seu peito, logo vendo uma luz roxa surgir da mesma. No momento seguinte, Chase estava sendo jogado com velocidade para a outra extremidade da sala.
  Olhei minha mão direita com certo assombro antes de olhar na direção que em havia arremessado meu irmão mais velho, vendo-o se levantar com um pouco de dificuldade.
  Quando sua cabeça se voltou para mim, pude ver seus olhos tornarem-se vermelhos alaranjados, tal como a chama de uma fogueira crepitando em meio a uma festa junina.
  - Corra! - Avisou ele em um minuto de lucidez.
  Dei um passo atrás e comecei a correr escadas acima, olhando para trás e vendo Chase sumir diante dos meus olhos. O que? Como?
  Parei bruscamente quando o vi surgir a minha frente do corredor, fazendo-me escorrer no tapete e segurar o batente de uma das portas para parar a tempo, tornei a me equilibrar e dei meia volta sobre meus calcanhares, descendo as escadas novamente e seguindo em direção a cozinha. Por algum milagre, consegui descer as escadas de dois em dois degraus sem tropeçar.
  Assim que entrei na cozinha, corri até o faqueiro do outro lado da mesma. Aquela tarefa parecia algo impossível e inalcançável, contudo não desistiria tão fácil. Quanto mais eu corria, mais distante aquele faqueiro ficava. Uma daquelas facas era minha a minha maior chance de continuar vivendo. Meu pai, anos antes, tinha me dito que quando certas chances surgiam em nossas vidas, precisávamos agarrá-la com força, que não podíamos desperdiçar as melhores oportunidades por medo ou incertezas.
  Naquele momento, finalmente entendi a situação… Meu medo estava me impedindo de me livrar daquele domínio. Eu havia sido pega no momento em que ele tinha tocado meu ombro e não notei. Mas, agora existia uma chance, mesmo que mínima.
  Abri minhas duas mãos e as deixei esticada, sentindo aquele calor surgir novamente por meu corpo e reluzir em pequenas luzes circulares roxas em minhas mãos.
  - Chega! - Ordenei séria, fechando e abrindo minhas mãos rapidamente uma única vez, logo ficando cega com a intensa claridade, mas livrando-me daquela cena repetitiva e cansativa.
  Consegui correr até o faqueiro e peguei uma das facas, virando-me a tempo de ver Chase aproximando-se com tranquilidade. Ergui a faca na frente de meu corpo enquanto a segurava com as duas mãos, mantendo meus olhos fixos em cada um de seus movimentos.
  - Você está aprendendo a se controlar. Estou orgulhoso. - Disse ele com um sorriso sincero nos lábios, deixando-me desconcertada ao tempo em que lutava mentalmente para manter as lembranças longe pelo tempo que aquela situação de perigo durasse.
  - Não é graças a você. - Garanti em um tom ácido, controlando minha fúria crescente com dificuldade. Ele estava estragando tudo o que eu havia lutado para conseguir superar ou esconder no fundo de minha mente.
  - Não seja tão rancorosa. - Pediu ele, aproximando-se e com um gesto rápido segurou a lâmina afiada da faca. Por reflexo, eu a puxei e apenas vi o sangue manchar o chão da cozinha.
  Arregalei meus olhos e voltei a olhar para Chase, a bondade que havia conseguido localizar em seus olhos sumiu após um simples gesto. Não pude evitar ou prever o que veio a seguir.
  Um soco no estômago.
  Aquele gesto conseguiu me deixar desnorteada e com falta de ar por alguns segundos, quando meu cérebro voltou a raciocinar, fui acertada com outro soco desta vez no lado direito de meu corpo, tendo minhas três últimas costelas como alvo.
  Levantei meus braços e protegi meu rosto do golpe que viria a acertá-lo, empurrando o peito do outro com força, vendo-o se afastar minimamente, pois sua mão machucada segurou em meu braço e me puxou consigo.
  Em instantes, fui arremessada em direção a ilha central. Senti o impacto acertar minhas costas, prendi a respiração quando deslizei por cima da mesa, parando apenas quando acertei o chão do outro lado. Gemi de dor e fechei meus olhos com força enquanto sentava-me, tornando a abrir meus olhos e engatinhar para a esquerda quando ouvi o som de cacos sendo pisados do meu lado direito.
  Dei a volta naquela ilha e peguei a faca outra vez.
  Olhei para os dois lados, estrando a ausência de sons, engoli em seco e olhei para cima, dando de cara com Chase que possuía um sorriso sádico emoldurado em seus lábios.
  - Não é nada pessoal. - Disse ele antes de pular no espaço a minha frente. Voltei a engatinhar dessa vez para longe, assustada e surpresa demais para pensar com clareza ou seguir meus instintos de sobrevivência.
  Senti meu tornozelo direito ser segurado e então fui puxada para trás, escorregando de barriga e deixando a faca escorregar de minhas mãos, ficando cada vez mais distante conforme ele me puxava para a entrada da cozinha.
  - Foi aqui que ele me encontrou a primeira vez… - Murmurou ele, virando-me de barriga para cima, pisando em uma de minhas pernas, pude apenas ouvir o som do osso partindo-se em um “clac”, simples e opaco.
  Gritei.
  Gritei com todas as minhas forças, sentindo a dor crescer e se intensificar, ganhando espaço gradativamente, lentamente, bruscamente.
  Não havia me recuperado do golpe quando um chute do lado esquerdo de meu corpo foi desferido em minhas costelas, a falta de ar foi imediata e ali soube que tinha quebrado algumas delas.
  - Ele disse que se eu te machucasse, pouparia nossa família do trágico fim. Você me entende, não é? - Perguntou ele, mas não houve resposta, então ganhei outro chute dessa vez no rosto. Só consegui ver o sangue no chão do lado direito, graças ao sangramento no nariz. - O fim sempre justifica os meios. - Relembrou ele.
  - Farei questão de te machucar em dobro. - Consegui dizer em meio ao sangue e respiração irregular, e então ele me agrediu novamente.
  Pisquei uma vez mais e tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta, a dor havia sumido e o vulto branco acertou Chase com um único soco, jogando-o para longe de mim.
  Cuspi um pouco de sangue e senti minhas pálpebras cada vez mais pesadas, era cansativo manter-me acordada.
  Aquele vulto coberto pela luz branca, virou-se em minha direção e impediu-se de se aproximar. Eu vi quando o mesmo segurou Chase pelo pescoço e sumiu.
  Fechei meus olhos por alguns segundos e os abri rapidamente com medo de perder alguma coisa que pudesse ajudar a me manter consciente, mas só havia meu corpo quebrado juntamente de meu coração em frangalhos por ali. Meu amado irmão estava morto. No lugar, um monstro assumiu o controle.
  Uma lágrima grossa e dolorosa escorreu de meu olho esquerdo, deslizando pelo começo da maçã de meu rosto antes de encontrar-se com o chão gélido e manchado de vermelho.
  Permaneci deitada de bruços, com parte de meu rosto contra o chão, sem conseguir me mexer até finalmente desistir.
  E meu domingo, pela primeira vez, tornara-se mais do que movimentado, tornara-se uma lembrança macabra.
  Pisquei uma última vez, mais demorada, e não lembro de ter voltado a abrir os olhos.

  {…}

  Existia algo mágico no inverno que conseguia manter-me esperançosa e animada com absolutamente qualquer coisa, era uma reação quase que inconsciente de meu subconsciente que criava certas ilusões quando mais nova para suportar diversas atrocidades, porém sempre fora o inverno que conseguia renovar minhas energias perdidas durante o resto dos dias.
  Eu queria que a vida fosse dividida em quatro estágios, mas que não acabasse nunca.
  A primeira seria como a primavera, cheia de novidades e surpresas, criando lembranças inesquecíveis. A segunda o verão, repleta de incertezas e calor humano, trazendo novas amizades para sua vida. A terceira o outono, trazendo consigo um ar mais maduro com objetivos e metas. E a última, mas não menos importante, o inverno.
  Com ele, não há uma especificação porque dependerá da pessoa que o vivenciará definir o que é melhor para si, escolher quais lembranças se tornaram memórias incríveis e inesquecíveis e quais serão apagadas para sempre, viver cada momento como se fosse o único ou apenas não fazer nada.
  Quando acordei naquela cama de um quarto de hospital, que só reconheci pela luminosidade do lugar, precisei fechar meus olhos e contar até dez para repetir o gesto outras vezes até me acostumar. Olhei ao meu redor com dificuldade e notei que a sala estava vazia, soltei um suspiro aliviado e triste. Aliviado por não ter que explicar o que havia acontecido, sem ter certeza do que realmente ocorrerá. Triste por estar sozinha em um dos locais que mais odeio no mundo.
  Não me recordava do porquê, mas odiava aquele lugar.... Minhas lembranças sempre me mostravam um local com paredes e tetos cinzas, onde as crianças não demonstravam sentimentos. O ambiente do hospital das minhas lembranças eram sempre cinzas e monótonas.
  Tentei adivinhar por quanto tempo dormi, mas a tarefa era árdua sem nenhum parâmetro como base e logo levou-me ao cansaço mental, deixando-me desgastada e sem pique para continuar lutando. Aquela era uma luta que não havia outro resultado, eu iria sucumbir de um modo ou de outro, cedo ou tarde.
  E foi o que houve, fechei meus olhos, dessa vez, sem relutância alguma.

Continua...



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