Passionate For My Dad

Escrito por Sâmela Ferpisou | Revisada por Jubs


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Capítulo 1 - Inicio

– Hey, gata. Vamos lá. Levante um pouco. O dia está lindo lá fora.
Eu ouço uma voz terna masculina falar ao meu lado. Identifico Martin, meu assessor. Ele está sendo muito compreensivo comigo nessa semana. Sua proteção exacerbada deveria me trazer algum conforto, porém eu não podia evitar me sentir mal.
– Nenhum dia é lindo se minha mãe não estiver nele. – Eu choraminguei sentido as lágrimas brotando nos meus olhos. Era impressionante como eu mal acordava e já caía no choro novamente. A sensação de estar sozinha para sempre era uma vacina letal que me matava pouco a pouco. E eu nunca pensei que passaria por isso tão cedo, na verdade nunca pensei. Ter minha mãe longe de mim era algo agonizante, uma dor que sufocava meu peito não me dando chance para superação. Tudo bem que Ella era uma mulher ausente, estava sempre viajando expondo suas obras de artes, mas eu entendia. Ela fora batalhadora desde cedo, pois teve que trabalhar duro para me dá uma criação boa, já que ela exercia o cargo de mãe e pai. Tê-la distante era diferente de tê-la para sempre longe. Eu realmente não estava preparada para sua morte tão repentina. Seu corpo havia sido velado há uma semana, e desde tal dia eu estava trancafiada em meu quarto escuro. Só levantava da cama para fazer minhas necessidades higiênicas. A mídia vivia na porta de nossa mansão espreitando, esperando por uma aparição minha.
Não era justo isso acontecer no momento mais importante de nossas vidas. Enquanto minha mãe fazia sucesso com suas artes plásticas, eu começava uma carreira de atriz em HollyWood. Meu primeiro filme havia ultrapassado as expectativas criadas pelos críticos, e eu me senti lisonjeada por saber que ele havia faturado mais do que o esperado. A história girava em torno de uma adolescente desengonçada que se vê perdidamente apaixonada por seu professor substituto de história. Escondida por de baixo de roupas largas e estranhas e óculos grandes, ela sabia que jamais chamaria a atenção dele, por isso resolveu mudar. O período das férias chegou e ela aproveitou a oportunidade para começar a se acostumar com seu novo estilo. Ela se destacava por ser a mais estudiosa e sempre responder pronta e corretamente as perguntas que os professores faziam, mas com a chegada do segundo bimestre, ela passou a se destacar pela beleza exacerbada que se mesclava a sua inteligência. Não demorou muito para que o professor favorito dela caísse em suas graças. Até aí era tudo muito clichê, mas o sexo sem tabu, a linguagem chula e informal e o atrevimento dos personagens fez com que o filme fosse sucesso total. E eu estava feliz, muito, muito feliz e minha mãe também, mas como todos sabemos, quando a felicidade é muita, devemos nos preparar para decepções. E foi o que aconteceu. Minha mãe acabou falecendo devido a um ataque fulminante no coração. Ela estava em Paris quando tudo aconteceu, e eu em Los Angeles gravando uma entrevista. Receber a notícia foi como ser banhada com um balde de água fria, e eu me vi quase morrendo junto com ela. Agora aqui estou eu, em meu mundo sombrio rodeado por lembranças agridoces.
– Docinho, a vida segue em frente. E eu tenho certeza que sua mãe não gostaria de te ver desse jeito. – Tentou me animar, fracassando.
– Eu não posso fingir estar bem quando não estou, Martin. Entenda isso, por favor. – Eu pedi. Os soluços querendo se libertar de minha garganta enquanto eu tentava controlá-los ao máximo.
– Por favor, se alimente. Você não comeu nada desde a semana passada. – Pediu ele. Eu senti meu estômago embrulhar só de ouvir que tinha que me alimentar.
– Não estou com fome. – Rebati. Uma lágrima escapando pelo canto do meu olho direito.
– Mas precisa comer. – Martin assumiu um tom mais grosseiro. Eu não fiquei com raiva porque sabia que ele apenas estava preocupado comigo.
– Se você não fosse gay, eu provavelmente me interessaria por você, Martin. – Eu declarei tentando brincar um pouco. Escutei a risada de meu assessor sair gostosa. Aquilo me deu ânimo para levantar minha cabeça para olhar para ele.
– Hey, meu amor. O fato de eu ser gay não significa que eu não possa enfiar meu pau em você. E se é isso que você quer para sair um pouco dessa cama, eu começo agora mesmo a tirar a minha roupa. – Seu tom era sério, mas seus olhos estavam divertidos. Eu me sentei na cama rapidamente ao que ele fez menção de abrir o zíper de sua calça jeans.
– Não, Martin. Hey. – Eu briguei removendo suas mãos que estavam sobre sua pélvis. Ele riu de mim e me puxou para si. – Eu te amo, Martin.
– Oh, minha princesa. Não me faça chorar. – Ele comentou no topo da minha cabeça. – Vamos superar isso juntos, amor. Eu vou estar sempre do seu lado. – Ele era muito apegado à minha mãe, e eu sabia que eles ficavam de vez em quando. Era estranho porque ele é gay e minha mãe era lésbica. Eu não conseguia entender como a relação deles funcionava, mas eu ficava feliz quando escutava os dois gemendo, trancados no quarto. Eles nem sonhavam que eu estava por dentro de suas escapas pela noite. – Me promete que vai voltar a viver sua vida?
– Martin, eu não sei se consigo. – Eu sussurrei agarrada a gola da camisa social preta que ele usava.
– Se você não fizer por você, faça pela sua mãe. Promete?
Eu pensei. Minha mãe se sentiria feliz se eu desse continuidade ao meu sonho, e focar no meu trabalho a deixaria orgulhosa.
– Sim. Por minha mãe. – Eu anunciei.
– Por ela e por você. – Completou Martin. Eu lhe beijei o pescoço e me aconcheguei nele um pouco mais. Precisava de calor humano e ele era o ser mais próximo que eu tinha.

__X__

~ Uma Semana Depois ~

– Vocês só podem está de brincadeira comigo! – Eu chiei, lançando um olhar enviesado de Martin para o advogado bem vestido e mal humorado. – Isso só pode ser uma maldita brincadeira.
– Não vir até aqui para brincadeiras, Srta . Você é menor de idade, e sua mãe não assinou um termo de emancipação antes de morrer, o que a deixa sob responsabilidade de um parente próximo. Como seus avós já morreram e sua mãe era filha única, só lhe resta ficar com seu pai, como já lhe falei. – Declarou o advogado da lei.
Eu senti cada célula do meu corpo se consumindo em ódio.
– Isso é inaceitável. Eu não tenho contato com ele e nem faço a menor ideia de quem ele seja. Ele nunca procurou saber de mim, e ele abandonou minha mãe quando soube que ela estava grávida. Se ele não me quis quando pequena, não irá querer depois de 17 anos. – Eu comentei andando de um lado para o outro na imensa sala de estar da grande mansão .
– Pelo contrário, Srta. Seu pai ficou muito excitado com a ideia de tê-la sob custódia.
Eu lhe lancei um olhar irônico.
– Isso deve ser um maldito engano. Por favor, Martin. Me diz que esse homem aí foi enviado pela equipe de pegadinha daquele programa de humor do canal 17. – Meu assessor apenas me lançou um olhar piedoso. Eu murchei. – Sr James, não posso ficar com Martin? – Eu perguntei com uma ponta de esperança.
– Não, Srta. Ele não é um parente. Você está sendo obrigada a ir morar com seu pai. Quanto aos bens de sua mãe, tais como dinheiro no banco, imóveis, veículos dentre outros, você só receberá quando completar a maior idade. Já o dinheiro que está em sua conta, fruto de seus trabalhos, você poderá usar normalmente. Você irá morar com seu pai na Flórida.
– O QUÊ? – Eu gritei. – Além de eu ter que ficar com ele, eu ainda vou ter que deixar Nova York? Merda. Ele não pode vir para cá simplesmente? – Eu questionei, sentindo que poderia explodir a qualquer momento.
– Não, ele não poderá se locomover devido seu trabalho em Flórida City. – O advogado respondeu-me.
– Espera aí. Eu ouvi direito mesmo? Ele mora em Flórida City. Não é na Flórida?
– É no interior do Estado. – Explicou ele.
– Por que não me mandam diretamente para o inferno? – Eu esbravejei virando de costa para os homens. Minha mente fervilhando com a ideia de conviver com um ser estranho que eu sempre julguei ser um imbecil de merda. – Martin. – Choraminguei.
– Não posso fazer nada, meu amor. – Seu tom era de tristeza.
– E como vai ficar minha carreira? – Eu questionei, preocupada.
– Sua carreira está nas mãos de seu pai.
Eu fechei os olhos com a última declaração. Minha vida não poderia piorar. Não poderia mesmo.

__X__

~ Uma Semana Depois – Aeroporto de Flórida City ~

Eu acabava de desembarcar naquela porra de cidade. Usava óculos estilo aviador, calça, jaqueta e botas de couro e uma regata branca. Meus longos cabelos castanhos estavam em um rabo de cavalo desarrumado e eu claramente estava muito puta da vida. Eu apenas trazia comigo uma maleta de mãos com alguns utensílios importantes. As treze malas gigantes seriam desembarcadas depois. O pior de tudo era que eu estava sozinha. Martin não estava comigo porque precisou ficar com sua mãe, que estava doente.
Eu primeiramente me apavorei por estar em um lugar que eu nunca tinha visitado antes, e o fluxo de pessoas me deixou um pouco apreensiva. Como eu iria encontrar um homem que eu nunca tinha visto em minha vida? Eu andei, andei e andei até ver algumas pessoas com placas ridículas contendo nomes. Eu revirei os olhos e esperei que o meu “pai” não estivesse pagando esse mico. Foi quando vi uma placa verde neon, com a escritura em letras garrafais: . Eu observei o ser que segurava o médio cartaz e quase tive um troço ao avaliá-lo.
Por favor, que não seja meu pai. Por favor, que não seja meu pai. – Eu pedi mentalmente. O homem era loiro, tinha um corte de cabelo estilo militar com topete. Os olhos estavam cobertos por óculos escuros, o nariz era afilado e a barba estava começando a crescer. Usava uma camisa simples com um pequeno “v”, calça jeans escura e botas. Rapaz. Ele era lindo.
Caminhei lentamente até ele, parando cerca de um metro de distância.
– Sou . – Declarei. Meu tom carregado de preguiça e tédio. Percebi que ele me olhou de cima a baixo. Suas mãos grandes enrolaram o cartaz, então ele removeu os óculos revelando intensos olhos azuis, o mesmo azul que eu via quando me olhava no espelho. Droga. Não pode ser!
– Sou . É um prazer. – Ele estendeu sua mão para me cumprimentar, mas eu me neguei a tocá-lo. Ele permaneceu como um idiota com a mão levantada por vários segundos, e quando percebeu que eu não o cumprimentaria, recolheu a mão levando-a para seus cabelos. – Pelo jeito você sabe quem eu sou.
– Sim. Sei. Você é o idiota covarde que largou a minha mãe. – Meu tom acusatório e ferido fez com que as feições descontraídas dele se tornassem seríssimas.
– Olha... – Ele tentou falar, mas eu logo o cortei.
– Não importa o que você vai me dizer. Não importa se você é meu pai. Foda-se essa porra toda. Eu só preciso aguentar um ano com você, então serei livre desse inferno.
Virei de costas para ele para ir até minhas malas. Não houve diálogos, apenas silêncio. Era bom que ele se acostumasse com meu comportamento, porque eu não estava disposta a cooperar com ele.

Capítulo 2 - Primeira briga

Você não acha que vai morrer de tédio até sentir a famosa sensação. Eu esperei séculos para que minhas malas chegassem, e quando elas finalmente foram desembarcadas, eu ainda tive que aguentar as piadinhas sem graças do tal do .
– Nossa. Trouxe Nova York inteira nas suas malas? – Eu rolei os olhos, mordendo a língua para não dá uma resposta torta a ele. Tinha decidido que falaria o mínimo, não mais que isso, então fiquei calada. – Quantas malas têm aqui? – Questionou ele.
Dessa vez não conseguir ficar calada.
– Não sabe contar? – Rebati secamente. Ele observou o monte de malas, depois me lançou um olhar surpreso.
– Treze malas! Meu Deus. Pra que você quer tudo isso? – Eu preferi o silêncio, e ele vendo que eu não abriria minha boca tão cedo, também calou-se. Solicitamos o serviço de bagagens para que este levasse as treze malas até o carro do meu “pai”. O caminho até o carro tinha ocorrido completamente bem, até eu descobrir que não era um carro, e sim uma caminhonete quase caindo aos pedaços. Eu quis morrer, ou enfiar minha cara no chão de tanta vergonha que eu estava sentindo. Preocupada que eu estivesse sendo seguida por paparazzi's, eu olhei de um lado para o outro procurando por eles. Seria humilhação demais se me vissem entrando naquela charanga velha. Ah, mas eu daria um jeito. Naquela banheira enferrujada eu só entrava uma vez. – Que foi, ? Tá preocupada com alguma coisa? – questionou.
– Estou preocupada se vou chegar viva em sua casa depois que entrar nessa porcaria. – Eu respondi. O carregador de malas deu um riso baixo. olhou feio para ele.
– Eu andei por dez anos e nunca sofri um dano, você não irá sofrer também. – Comentou com um pouco de humor. Mas quem disse que eu ri? Eu apenas o ignorei.
– Ai meu Deus. Mentira que é você! – Eu ouvi uma voz bem excitada um pouco distante de mim. Eu, juntamente com e o carregador de malas olhamos para ver quem era, e eu me arrependi imediatamente. – Meu Deus! Meu Deus! , a Princesinha SuperStar. Me dá um abraço? Eu sou muito sua fã. – E sem esperar qualquer resposta minha, a garota se jogou em meus braços. Eu tive que abraçá-la e fingi ser simpática. – Ai, nossa. Eu nunca pensei que eu fosse te encontrar. Era meu sonho te conhecer. Tira uma foto comigo?
Eu não tinha chance de resposta, e é claro que e o carregador de malas estavam confusos.
– Claro. – Eu assenti um pouco envergonhada. Sabia que onde quer que eu fosse, algumas pessoas iriam me reconhecer.
A garota que até agora eu não sabia o nome entregou a máquina a para que ele fotografasse. Meio incerto ele pegou o celular e registrou a imagem, depois devolveu o aparelho a garota que sorria de orelha a orelha. Depois que ela visualizou a imagem, ela me lançou um olhar interrogativo.
, o que você tá fazendo em Flórida City? E por que estão colocando suas malas nesse carro velho?
Ai. Meu. Deus.
O que responder agora?
Pensa rápido, .
– Ahn. É... Eu estou em um programa que você troca de ambiente por um tempo. Eu estou no lugar de uma menina, enquanto ela vai ficar no meu lugar lá em Nova York.
– Nossa. – Ela suspirou. – Pensei que você tivesse largado sua carreira de sucesso pra viver uma vida medíocre aqui nesse inferno de interior. E quem é esse homem? – Ela apontou para . Eu empalideci. Jamais o apresentaria como meu pai. Quando abriu a boca para responder, eu logo o cortei.
– É o pai da garota com quem troquei de lugar. – Recebi um olhar muito dos seus enraivados de , mas não me deixei levar por aquilo.
– Ah. Desculpe por ter chamado seu carro de velho, senhor. – A menina olhou para . Ele deu de ombros. – Como eu disse, eu sou sua fã. E saiba que eu sinto muito por você não ter um pai. Pelo menos agora, com esse homem você vai ter uma noção de como é ter uma pessoa cuidando de você.
Eu não sabia quem era aquela garota, mas de uma coisa eu tinha certeza. Ela era muito inconveniente. Mas eu me aproveitei daquilo para alfinetar .
– Bem, eu só vir fazer meu trabalho. Quando nascemos sem um pai, morremos sem eles. Não importa se eles estejam vivos, ou de alguma forma se estão tentando recuperar o tempo perdido. O abandono é uma dor que nunca deixará de doer, e comigo é assim, sabe? – Eu fingi está confessando uma coisa. - Mesmo se eu encontrasse meu pai um dia, eu nunca o perdoaria por ele ter largado minha mãe num momento tão difícil. Mas isso você já sabe, porque eu sempre comentei a respeito em entrevistas. – Dei de ombros, forçando-me a ser forte.
– Querem saber minha opinião? – se meteu na conversa. “Lá vem merda” – Pensei. A menina assentiu. Eu fiquei na minha.
– Se isso ocorresse comigo, se eu fosse o filho em questão, eu daria uma chance ao meu pai. Porque, avaliem comigo: Se eu morei toda a minha vida com a minha mãe, é óbvio que eu só sei a versão dela e o que ela contou. Eu deveria dá uma chance ao meu pai para saber a versão dele também. – Ele concluiu como se fosse óbvio.
– Mas eu acho que se foi ele quem abandonou, ele é total merecedor de desprezo. Porque quando ele fez o ato, ele não se importou nem um pouco com a mãe ou com o filho, e isso é papel de babaca. Se fosse comigo eu jamais o perdoaria, mesmo se ele tivesse arrependido. – A menina falou. Eu sorri.
– Eu concordo plenamente com você. Nunca devemos chorar sobre o leite derramado. Mas foi um prazer conhecê-la. Agora eu tenho que ir porque estão me esperando para as gravações lá na casa dele. – Menti. A menina entendeu.
– Obrigada por me dar um minuto do seu tempo, e desculpe se falei algo que a incomodou. E ah, meus sentimentos quanto a sua mãe. – Ela disse. Feições entristecidas, ombros curvados e cabeça baixa. Sim, ela sentia muito, mas não tanto quanto eu.
– Obrigada, eu fico muito contente quando encontro pessoas que se importam comigo, que gostam de mim além do meu trabalho. Obrigada mesmo. – Ela era irritante, mas olhando em seus olhos dava para ler sinceridade neles, e ela não mentia quando dizia que era minha fã. Embora eu estivesse com raiva do rumo que minha vida estava tomando, envergonhada que tivesse que mentir sobre estar em um programa, e triste por minha mãe ter falecido, todo o amor e carinho que eu recebia de fãs me impulsionava cada vez mais a continuar, não por mim, mas por eles. – Agora eu realmente tenho que ir. – Dei um passo em sua direção e ela veio na minha, trocamos abraços e eu lhe beijei no rosto. – Quem sabe a gente não se esbarra por aí. – Sorri para ela.
As malas já estavam todas na carroceria da parte de trás da caminhonete e estava à minha espera. Quando me virei para entrar no carro, ele abriu a porta para mim. Em vez de ficar agradecida pelo seu gesto galante, eu apenas revirei os olhos e fechei a porta com força. Minha boca se abriu em um perfeito “O” quando a porta caiu no chão. Quando eu penso que não vai ficar pior...
– Eita! – Eu exclamei, pasma pelo carro está praticamente se desmontando. apenas deixou a cabeça cair para trás e riu em silêncio. Riu de mim. Desgraçado! – Eu não quero mais ir aqui! – Saí do carro, cruzando meus braços sobre o peito em forma de birra. – Eu vou andando, mas não entro nessa joça de novo.
– É só a porta, . Isso acontece de vez em quando. É só travar que ela não cai. Vem. Ó. Eu já ajeitei. – Ele mostrou a porta, agora em seu lugar. – E a porta só caiu porque você bateu com força.
– A culpa não é minha, Ok? É até vergonha pra você me levar nessa porcaria pra sua casa. E eu não entro aí nem morta. – Bati o pé no chão. Era infantil demais, eu sei, mas minha birra era para garantir a minha segurança. E como se Deus sentisse pena de mim, um táxi foi chegando no estacionamento, e eu encontrei nele uma válvula de escape. Fiz sinal para que ele parasse. – Hey, amigão. Tá livre? – Perguntei. O homem assentiu.
– Você pode vir comigo, . Só não te garanto conforto, mas segurança sim. – interveio. Eu lhe lancei um olhar irônico.
– Vá na frente com seu carro, eu sigo você. – Eu disse, decidida.

...

O táxi parou um metro atrás da caminhonete velha de . Eu primeiramente paguei a corrida - que deu cinquenta dólares, já que a casa de era um pouco distante do aeroporto – e desci do veículo. À primeira vista, embora a casa parecesse singela, era até bonitinha. Só havia um problema: (ao meu ver) – A casa era muito pequena.
– Gostou? – Eu sobressaltei ao ouvir atrás de mim. Senti uma forte vontade de me virar para ele, mas como meu auto controle era mais forte que minhas vontades, eu simplesmente permaneci no meu lugar, encarando a casa.
– Quer minha opinião sincera? – Eu devolvi. Ele ficou ao meu lado, olhando para a habitação também.
– Eu já sei o que você vai dizer, mas eu quero ouvi-la. – Deu de ombros.
– Minha casa é o triplo do tamanho desta, e embora ela seja pequena, me parece muito acolhedora. – Fui sincera. Na minha escola, em Nova York eu tinha uma amiga, que era sobrinha de uma governanta que trabalhava na mansão da minha mãe. Ela era de índole simples, da mesma forma que seus pais. Eu não tinha amigos, exceto ela, com quem eu brincava todo dia, pois ela morava nos fundos de minha mansão. E quando ela estava livre, ela vinha até meu quarto me chamar para brincar, e ela sempre dizia que era fascinada por todas as coisas que eu tinha no meu quarto. Já eu, era doida para ter as coisas que ela tinha, as bonecas que ela tinha e até mesmo as roupinhas que sua mãe mesmo confeccionava. Quando eu pedia para minha mãe roupas novas para minhas bonecas, mamãe sempre comprava e eu não gostava. Eu queria roupinhas iguais às que Isa tinha. E quando íamos brincar, eu sempre queria brincar na casa dela, porque me dava uma certa sensação de conforto. Na mansão eu me sentia muito sozinha, já na humilde casa de Isa, eu me sentia bem. E eu esperava, no mínimo, me sentir bem na casa de , mesmo odiando ele.
me lançou um olhar surpreso. Acho que ele pensou que eu fosse reclamar, mal sabia ele que eu não era essa pessoa cheia de frescura que eu demonstrava ser. Agia assim apenas para evitar contato com ele. Eu nunca o perdoaria por ele ter nos abandonado, isso nunca mudaria.
– E então? Vai me mostrar sua casa? – Eu questionei. Ele pareceu sair de seu estado de surpresa.
– Ah, claro. Vem. Depois nós guardamos suas coisas. - me ofereceu sua mão, e eu obviamente neguei-me tocar nele. Demonstrando cansaço, ele passou na frente e seguiu por um caminho de pedras e cascalhos que levava até o hall de entrada de sua casa, que tinha uma pequena varanda em cores brancas e azuis. Havia também um pequeno banco e uma rede-balanço que se movimentava conforme a força do vento. Depois que destrancou a porta, ele deu um passo atrás, para que eu entrasse na frente. Eu o fiz, meio desconcertada. – Seja bem vinda ao seu novo lar. - Sorriu de modo acolhedor. O interior da casa era humilde, em tons pastéis. Na sala havia apenas um conjunto de sofás marrons, uma mesa de centro de cristal, e uma TV ultrapassada de geração. Nas paredes havia alguns pôsteres de jogadores de futebol e retratos. Um chamou minha atenção. Era de um casal. Eu a avaliei. Os dois estavam sorridentes. – São meus pais. – contou. Eu olhei para ele.
– Estão vivos ainda? – Questionei.
– Oh, sim. Moram um pouco mais no interior de Flórida City. Eles preferem a calmaria do campo que o movimento das cidades. Era para eles estarem aqui, mas meu pai estava resfriado e eles resolveram vir visitar você outro dia. Espero que não fique com raiva por isso.
– Não. Eu não fiquei. Agora que você mencionou sobre seus pais, eu me lembrei dos meus avós. Foi difícil pra mim e pra minha mãe perde-los. – Eu suspirei, agora sentindo saudade da minha família inteira. – Eu os amava muito. – Uma mão em meu ombro acariciando-me fez com que meus pelos se eriçassem completamente. O calafrio veio rápido o suficiente para que eu me afastasse de . – Não faça mais isso! – Eu o adverti. Ele ficou confuso.
– O quê? Acalentar você? – Indagou ele.
– Não toque nunca mais em mim. Eu vou deixar claro uma coisa novamente pra você. Não te considero meu pai e nunca vou considerar. Não pense que só porque vir morar com você, estou me submetendo a uma relação de pai e filha. Só estou aqui por causa da maldita lei que não me permite ser independente. Agora se não for muito incômodo, eu gostaria que mostrasse o quarto onde eu vou ficar.
Ele me olhou, simplesmente. Sua mandíbula cerrou-se, como se ele estivesse com raiva de algo. Se era de mim eu não sabia, só posso afirmar que uma pequena parte minha estremeceu ao que suas feições se tornaram sombrias.
– Venha por aqui. – Chamou ele, indo até a escada. Quando chegamos ao topo, visualizei um largo corredor que levava a duas portas. Ele andou até a porta da direita, a abriu e entrou primeiro. Eu apenas fiquei na porta. – Esse é o seu quarto. Não é grande, mas dá pra viver. – No cômodo só havia uma cama de casal pequena coberta por um lençol branco e uma penteadeira velha. Havia uma porta que eu achava que levava ao banheiro. me viu encarando aquela parte. – É um closet. – Disse ele.
– E onde fica o banheiro? – Eu rebati tão rápido que duvidei se ele tinha compreendido a minha pergunta.
– Lá em baixo. – Respondeu.
– E você dorme aonde? – Questionei novamente.
– No quarto a frente.
Eu assenti.
– Eu posso mexer no quarto se eu quiser? – Perguntei, porque se ele permitisse, eu mudaria tudo ali. Desde a cor das paredes até o tamanho do quarto. Mandaria aumenta-lo.
– Fique à vontade. Eu irei descer e pegar suas coisas. Você pode descansar se quiser. Mais tarde mostro o restante da casa pra você. – E ele saiu sem mais palavras. Sua nova postura rude até que tinha me agradado, porque parecia que ele faria igual a mim, falaria só o necessário comigo. Era bom que fossemos iguais, assim um entenderia o outro e ninguém ultrapassaria limites.
Aproveitei sua ida e logo pesquei meu celular em minha bolsa. Digitei os números já decorados e esperei que o ser atendesse.
? – Não contive o suspiro de alivio que saiu de mim quando escutei a voz de Martin.
– Ai, Martin. Eu estou sufocando aqui. – Dramatizei. Ele riu.
– Eu acredito que não seja tão ruim assim. Não seja exagerada. Me conta como ele é. Ele é bonito? Ele é gostoso? Conta, vai. – Pediu.
Eu ri.
– Martin. Ele é meu pai, apesar dos pesares. Eu não posso vê-lo com olhos de mulher, imbecil. – Eu rolei os olhos, embora tivesse sim achado muito lindo. Removi o lençol da cama e me deitei nela.
– Ah, mas eu só quero saber como ele é. – Rebateu.
– Ele não é gay, Martin. Pelo menos é o que eu acho. Ele tem pose de macho.
– Hum. É desses que eu gosto. Será que ele vai me aceitar aí se eu quiser ir morar com você. Ou melhor, você está preparada para me aceitar como sua madrasta?
Eu soltei uma gargalhada alta, ciente que o bairro todo escutaria.
– Ai, Ai. Martin. Você não presta. Mas pode vir. Quem sabe ele não se agrade de você. – Brinquei também.
– Que Deus te ouça. – Martin estava de muito bom humor. – Mas me conta as características dele, e o que você gostou e o que não gostou desde que chegou aí.
– Bom. Ele é loiro, tem o perfil de um atleta e eu acho que ele tem o corpo malhado. Ele tem olhos azuis, e é bonito, assumo. Você iria gostar dele de cara, pois ele faz o tipo molha-calcinha, sacas? E eu confesso, se não fosse meu pai, eu pegava. Mas eu o odeio demais pra ter algum sentimento por ele. – Comentei. Martin soltou um risinho. - Eu não gostei de nada até agora. E o que me desagradou é que ele tem um carro caindo aos pedaços que pôs em risco minha vida hoje. Ainda bem que eu vim de táxi até a casa dele.
– Deve estar tenso aí. Coitada de você. Mas se serve de consolo, pretendo te fazer uma visita, não pelo seu pai gato, mas só pra ver se está tudo bem mesmo com você. Tudo bem?
– Sim. Agora eu queria que você providenciasse algumas coisas pra mim, ok? – Martin assentiu do outro lado. – Eu quero meu Lamborghin, e também quero que contrate uma equipe de pedreiros pra fazer uma obra aqui na casa do . Eu quero aumentar o meu quarto, porque do jeito que ele é, não irá caber minhas coisas.
– Muito bem. Eu anotei tudo. Possa ser que sua Lamborghin chegue aí em três ou quatro dias, porque você sabe, tem toda aquela burocracia de transporte. E eu vou contratar uma empresa que seja daí mesmo, ok, minha deusa?
– Ok. Mas se você tiver que pagar mais caro pra que o carro venha mais rápido, faça. Eu preciso do meu carro porque corro o risco de pegar tétano se entrar na lata velha do . – Martin riu.
– Princesa, eu tenho que desligar. Mamãe tá chamando. Mas não se preocupe que eu ligo mais tarde pra conversarmos mais. Beijão, amor.
– Beijo.
Eu suspirei profundamente. Eu não sabia que estava cansada até meu corpo reclamar, mas eu também estava com fome, então antes de dormir, eu resolvi descer para me alimentar.
A casa estava silenciosa na parte inferior e como eu não conhecia nada ali, eu fui descobrindo sozinha. Eu descobri o banheiro, e depois um cômodo que parecia um escritório, então achei a cozinha, e estava lá, mexendo em algo que parecia uma peça de carro. Ele sabia que eu estava lá, mas não me olhou.
, eu estou com fome. – Anunciei.
– Tem comida na geladeira. Coloque no forno e esquente. – Uh, ele estava sendo durão comigo.
, eu não sei cozinhar. – Rebati, tentando manter minha voz neutra.
– Já está cozinhado. Você só vai esquentar. – Ele poderia ter me dado um tapa que doeria menos que sua resposta.
– Eu não sei mexer com essas coisas. – Falei, minha voz querendo sair mais grossa, mais ignorante.
– Quem manda viver como uma patricinha. Aí cai na realidade e se torna inútil até pra fazer algo pra comer.
Eu senti os meus olhos arderem com as lágrimas que eu refreei. Minhas mãos se fecharam em punho, as unhas furando a palma da minha mão. Eu queria manda-lo a merda, mas a resposta que apareceu em minha mente pareceu ser melhor.
– Prefiro pensar que vivi como uma patricinha porque minha mãe batalhou duro pra me dá tudo do bom e do melhor, porque se dependesse do meu pai, nem viva eu estava. E quer saber mais, eu nunca precisei de você pra nada, não é agora que eu vou precisar. – E nisso eu virei de costas para ele e segui para o meu quarto. Ao entrar, eu tranquei a porta e me joguei na cama. As lágrimas tomaram meu rosto, deixando minha boca com um gosto amargo.
– Eu sinto tanto a sua falta, mamãe. Tudo seria melhor se você estivesse comigo. – Eu sussurrei dolorosamente. Meus olhos começaram a pesar e eu quase já não podia mantê-los aberto. Foi nesse momento que eu entrei em um estado inconsciente.

OBS: Reação do Pai após a garota sair.

Capítulo 3 - Uma Rachadura No Muro De Concreto

Quando abri meus olhos, o quarto estava em penumbra. Eu virei para o lado, sentindo minha barriga reclamar de fome. Meus olhos estavam pesados e meu corpo parecia cansado devido a cama dura. Eu obriguei-me a sentar, espreguiçando-me por completo. Andei até o interruptor para acender a lâmpada, então voltei a me sentar na cama novamente. Visualizei minha maleta ao pé da cama, peguei-a e tirei de lá um tablet. Usando a função GPS, eu procurei saber que rua era aquela que eu agora moraria, descobrindo que seu nome era BC-45. Eu pesquisei também alguns lugares que servissem comida por perto da rua, e encontrei uma apenas há uma quadra. Não me faria mal algum se eu fosse até lá. Era perto e eu alongaria minhas pernas um pouco com a caminhada.
Receosa, eu girei a maçaneta do quarto para sair, ao chegar ao corredor, vi minhas malas em fileira bem perto da porta do meu quarto. Uma por uma eu fui puxando para dentro do meu recanto, e quando terminei, estava ofegante e suada por causa do esforço. Só as malas tomaram o espaço do meu quarto completamente. Abri todas treze, e procurei por toalhas, roupas e utensílios para minha higiene. Separei a roupa que usaria em cima da cama, deixando também sobre ela pente, perfume e creme hidratante. Joguei a toalha felpuda rosa sobre meu ombro e em minhas mãos levei shampoo, condicionador e sabonete. Saí do quarto rumo ao banheiro, e pedindo a Deus que durante este caminho eu não encontrasse .

...

Após meia hora, eu já estava pronta. Meu visual era simples, desde os cabelos ainda molhados até o tênis Nike desgasto. Numa bolsinha de lado guardei meus documentos, dinheiro e o celular, já com as coordenadas do bairro para caso eu me perdesse. Saí do quarto e desci as escadas, dessa vez tendo o azar de encontrar na sala, assistindo TV.
– Tem comida na panela. Acabei de preparar pra você. – Ele não tirou o olhar um minuto sequer do jogo que passava. Eu me senti tentada a simplesmente ir na cozinha e jantar, mas ele tinha me magoado tanto quando me chamou de inútil que eu decidi que não aceitaria nada que ele fizesse para mim.
Eu preferi o silêncio, andei até a porta e a abri. Quando já estava na calçada da rua, gritou da porta:
– Aonde você pensa que vai? - Eu dei de ombros, sem parar de caminhar. – , volte aqui. – Eu sorri. Quando ele iria perceber que não mandava em mim? – , você não conhece nada aqui. Volte. – Eu ignorei como sempre. Ao que eu andava, sua voz ficava cada vez mais distante. Eu resolvi apreciar a rua, que era banhada em cores pelos postes. Eu sorri para algumas pessoas que passavam por mim sendo simpática. Até parei para comprar um saquinho de pipoca que o pipoqueiro vendia no parquinho de crianças. Estava indo tudo relativamente bem até uma charanga laranjada começar a me seguir pelo meio fio. Eu quis morrer de vergonha porque a impressão que dava era que todo mundo estava olhando para mim sendo perseguida por aquele ser idiota. Eu tentei ignorar, eu juro que tentei, mas estava difícil. Se ele pensava que ia voltar, ele estava enganado. Eu posso ir longe quando estou com fome, e o meu destino já estava bem próximo, e já se mostrava através de uma placa de neon que reluzia longe.
não pediu que eu entrasse em seu carro, porém me seguia como meus seguranças sempre faziam. Eu apenas tentei fingir que quem estava naquela caminhonete velha era o Edward Cullen espreitando Bella Swan. Se bem que o carro lembrava bastante a caminhonete do filme. Eu sorri para mim mesma, zombando dos meus próprios pensamentos. A lanchonete estava apenas a seis metros de distância, e eu apressei o passo, já que meus vermes pareciam comer meu estômago a cada segundo que se passava. Eu sorri para uma menina que acabava de sair do Fast-Food e entrei no ambiente, que era bem moderno por sinal. As cores predominantes eram verde, vermelho e branco e não demorou muito para eu perceber que tratava-se de uma lanchonete italiana. Eu andei até o balcão e sentei-me, esperando que alguém me atendesse. Não demorou muito até um rapaz jovem aparecer, ostentando um belo sorriso metálico. Era dono de grandes olhos verdes, que contrastavam com seus cabelos negros e sua pele branca. Um belo garoto. – Pensei.
– Boa noite, Senhorita. Em que posso ajudá-la? – Questionou ele, cordial.
– Eu gostaria de ver o cardápio de hambúrgueres e pratos feitos. – Pedi. Ele assentiu, andando para longe de mim para pegar um menu envelopado de plástico. Entregou-me e sorriu novamente. Eu dei uma rápida olhada. – Ahn... Eu vou querer para comer aqui um sanduiche Va Bene acompanhado de um suco de laranja sem açúcar. Para levar eu vou querer um Tortellini de Bolonha acompanhado de uma latinha de coca. E de sobremesa também para levar eu vou querer dois Gelatos de cappuccino e morango com champagne, ok? – Eu olhei para o garçom que ainda escrevia em seu bloco de nota. Ao finalizar, ele me olhou com uma sobrancelha erguida.
– Senhorita, perdoe-me se eu estiver sendo intrometido, mas... Tudo isso é para você? – Questionou ele. Espanto passando em seus olhos.
– Sim. – Sorri para ele. – É que passei o dia todo sem comer nada. Por isso estou com fome. – Ele assentiu compreendendo.
– Seu sanduiche sai em quinze minutos, ok? Quer que já traga seu suco ou vai esperar até que o sanduiche esteja pronto? – Questionou ele.
– Eu irei esperar. – Respondi.
– Ok. Fique à vontade. – E saiu.
Eu apenas fiquei observando o movimento. A lanchonete não estava cheia, porém a maioria das mesas estavam ocupadas, e eu reparei que aqui era muito diferente de Nova York. Geralmente, as lanchonetes de lá são muito barulhentas, essa aqui não. Embora as pessoas conversem, elas falam baixo para não incomodar os outros. Eu passo tanto tempo olhando ambiente que nem reparo que estou a um bom tempo com o olhar fixo em apenas um lugar, ou melhor, numa pessoa. A garota de cabelos loiros me encara meio esquisito. Eu sinto minhas bochechas pinicarem de vergonha. Merda. Ela deve achar que eu quero alguma coisa com ela. Balanço a cabeça e desvio meu rosto para o lado. Estou prestes a dar um tapa em mim mesma quando o garçom chega com meu lanche. Eu olho para ele agradecida. Quando ele sai, eu começo a saborear meu sanduiche que é feito com pão ciabatta, peito de peru defumado, queijo, rúcula e tomate fresco. É gostoso e saudável. O suco está do jeito que eu gosto e como a fome é muita, eu logo acabo de comer. Alguns minutos se passam e o restante do pedido chega. Deu um pouco mais que vinte dólares. Encaminho-me até o caixa e pago pelas comidas, logo em seguida recendo uma pequena notinha que tem em letras de negrito um agradecimento e um pedido para sempre voltar à lanchonete. Eu caminho rumo a porta, contudo antes de sair, eu envio um olhar a menina que eu estava encarando mais cedo. Ela tem seu olhar voltado para mim, eu não posso evitar ficar corada novamente. Eu sinto como se eu tivesse invadido a privacidade dela, e agora sim eu dou um tapa na testa. Sua idiota! – Eu sussurro para mim mesma.
Não me surpreendo ao ver que o carro da Bella Swan está me esperando. Faço o que eu sei fazer de melhor, ignoro-o. Passo a refazer o caminho que percorri, só há um probleminha. Estava mais escuro e a rua estava ficando um pouco deserta, e eu assumo, fiquei com um pouco de medo. Tudo bem que estava lá, mas ele teria que seguir do outro lado da pista, um pouco distante de mim. Vamos lá, garota. Você não pode fraquejar agora! – Meu subconsciente advertiu-me. Eu concordei com ele. Suspirando profundamente, eu passei a caminhar de volta para casa, sentindo que poderia congelar a qualquer instante. Maldito momento em que decidi vesti regata e short, merda!
A cada pessoa mal encarada que passava por mim, era um calafrio horroroso que eu sentia no corpo. Eu até pensei em conectar meus fones e ir ouvindo música até chegar em casa, mas logo descartei a ideia. Meu celular era precioso demais para eu esbanjá-lo em um lugar que eu mal conhecia. A caminhonete continuava me seguindo lentamente, e vez ou outra buzinava para alguém em gesto de cumprimento, mas em momento algum ele pediu para que eu entrasse no veículo, e eu comecei a achar que agora ele realmente estava percebendo que manter distância seria melhor para nós dois.
Enfim cheguei em casa, após uma boa caminhada. Tive que esperar estacionar o carro em frente a garagem para poder abrir a porta, afinal só ele tinha a chave da casa. Quando eu entrei, senti-me aliviada devido ao calor que aqueceu meu corpo. Andei até a cozinha onde guardei a sobremesa na geladeira. Sentei-me a mesa e retirei da sacola o meu jantar. Provei o Tortellini de Bolonha, feito de pedacinhos de massa fresca com ovos recheados com uma mistura moída de prosciutto, mortadela, queijo parmesão e noz-moscada. Simplesmente delicioso. Tudo estava indo perfeitamente bem até eu sentir que alguém me olhava. Virando a cabeça para o lado eu contemplei encostado na pia a me olhar. Suas feições estavam duras, e ele parecia tenso. Eu me senti desconfortável com sua atenção voltada para mim.
– Por que foi comprar comida em um Fast-Food se eu tinha acabado de preparar algo pra você comer? – Questionou ele, quebrando o silêncio. Embora ele parecesse calmo, não pude deixar de notar certa autoridade em sua voz.
Dei de ombros.
– Há dois tipos de pessoas. – Eu comecei, continuando a comer meu jantar. – Os que sabem fazer algo, e os que não sabem. Eu faço parte dos que não sabem, os que você considera inúteis. – Não o olhei, mas sabia que ele tinha ficado um pouco mais tenso. – Como sou inútil pra fazer minha própria comida, gozo do benefício de ter dinheiro ao menos pra comprá-la. Não quero que você faça nada por mim, nem comida, nem porra nenhuma. Nunca dependi de você pra nada, e não vai ser agora que vou depender. Posso me sustentar sozinha, sem que você precise mover um dedo pra me ajudar. – Levantei a cabeça para encontrá-lo com a mandíbula cerrada. – , sinceramente, não é necessário que você tente se aproximar de mim. Não vai dá certo. Eu já tenho minha opinião formada sobre você e ela nunca vai mudar. Não faça nada por mim, ok? Eu sei me cuidar. Eu vou bancar meus luxos, eu vou bancar tudo que eu gastar aqui dentro, e se você quiser, até te ajudo com a conta da luz. Mas pare, ok? Viva sua vida, e me deixe viver a minha. Vamos encarar este um ano que vamos passar juntos como um... Ahn... Um intercambio. Você vai me abrigar, eu irei completar meu ensino médio, então quando tudo acabar, eu parto, você fica e tudo volta a ser como era antes, certo?
– Em um intercambio, a família receptora sempre tem algum tipo de sentimento com a pessoa que será abrigada. – interveio. Eu lhe lancei um olhar sarcástico. – Deveria ser assim conosco também.
– E quem disse que eu não tenho algum sentimento por você, ? – Eu questionei. – Ódio, mágoa... Isso são sentimentos que eu nutro por você.
– Se você ao menos me deixasse explicar. – Ele se desencostou da pia e veio andando até a mesa, puxou a cadeira e se sentou ao meu lado. Eu senti como se ele tivesse roubando meu oxigênio. – Você saberia que eu não sou o vilão que você pinta.
, pelo amor de Deus. Entende uma coisa. Você abandonou a minha mãe no momento em que ela mais precisou de você, droga. Não tem explicação pra sua covardia. – Rapaz, eu me surpreendi por estar controlada. Fúria estava tirando férias de mim, só podia.
, não é assim. Eu queria você, Ok? Eu tentei lutar por você, mas seus avós me afastaram. Eles... Eles mandaram sua mãe pra longe de mim, e eu não tinha dinheiro para viajar o mundo inteiro pra achar a sua mãe. Deus. Eu amava Ella, e eu até te confesso que ela foi a única mulher que eu amei em toda a minha vida, mesmo depois de tudo que ela fez. Eu a amava, merda. Eu não sou o culpado dessa história. – E debruçou-se sobre a mesa, escondendo seu rosto que estava ficando vermelho. Eu apenas parei de mastigar sentindo que a comida começava a formar um nó na minha garganta. Eu senti um aperto forte no coração ao vê-lo daquele jeito, mas a dor que eu sentia era duas vezes pior que a dele. E eu nem sabia se ele estava falando a verdade ou não. Era bom não confiar, até porque de boas pessoas o inferno está cheio. – Quando eu soube através de um amigo que eu tinha em comum com a sua mãe que ela esperava uma menina, eu... eu fiquei tão feliz, mas ao mesmo tempo tão triste por saber que você estaria longe de mim. Então você nasceu e eu estava doido para saber como você era, então esse meu amigo conseguiu uma foto sua e ele me deu ela. Foi com essa foto que eu fiz uma tatuagem sua no meu corpo. – Eu senti um soco forte no estômago, e foi como se eu não conseguisse respirar. Espera, ele disse que fez uma tatuagem minha no corpo?
E sem que eu esperasse se levantou da cadeira e ficou de pé diante de mim, removeu a blusa que usava e virou de costa, revelando a imagem de um bebê desenhado bem perto de seu ombro. A cor da tinta indicava que a tatuagem tinha sido feita há anos.
– Veja. É você com um ano, e você estava linda no seu aniversário. - Meus olhos imediatamente marejaram. Eu contive a vontade de arrastar meus dedos por cada traço que aquela tatuagem tinha, e eu me senti horrível por ter falado coisas tão duras a ele. No final das contas, dar uma chance a ele para que ele explicasse tudo não me parecia uma má ideia. Aliás, de má ali só havia eu, eu e meu rancor. Levei as duas mãos ao rosto, sem saber o que fazer. As lágrimas queriam pular dos meus olhos, e eu estava pronta para cair no choro quando senti seu corpo se chocar contra o meu. Ele me apertou forte matando a saudade que sentia há tempos, seu corpo se alinhando a cada curva do meu. Eu deveria ter sentido algo relacionado a sentimento familiar, mas o que senti foi muito pior que isso. Eu senti meu corpo se arrepiando, meus sentidos foram ofuscados pelo seu cheiro amadeirado, e um único sentimento tomou meu corpo: Desejo.
Me sentindo imunda, eu o afastei. As lágrimas agora desciam como cachoeira, e eu me senti impura para olhar em seus olhos.
– Des-Desculpe. Eu... Eu preciso ficar sozinha. – E eu não esperei respostas ou atos, apenas corri para o meu quarto, que parecia ser o único lugar que mantinha protegida de tudo, inclusive, distante dele.

OBS: Reação de Oliver após correr para seu quarto.

Capítulo 4 - Conversas

Agonia resumia grande parte da minha noite. Já eram 03h11min e eu não conseguia pregar o olho. Aquela sensação ruim que mesclava culpa com sentimentos proibidos não me deixava, e eu sinceramente já não aguentava mais sentir aquilo. Eu já não estava bem pela morte da mamãe, agora ainda tinha mais isso. Tudo bem que eu tinha brincado com Martin que pegaria , mas realmente só estava brincando, em hipótese alguma durante aquela conversa com meu assessor eu havia falado sério. Eu não sei de onde diabos surgiu aquele sentimento de desejo, sendo que a única coisa que eu sentia por era raiva e rancor. Deus. Era proibido sentir algo carnal por uma pessoa da família, principalmente quando ele é seu pai. “Ah, , mas não era você que não considerava como pai?” – Meu subconsciente questionou. Eu lhe lancei um olhar mortal. “Cale a boca!” – Eu gritei para ele que apenas riu em escárnio. Minha mente não ajuda em nada! Como ficar remoendo o sentimento não me levava a lugar nenhum a não ser à ideia de tomar banho em álcool e atear fogo em mim mesma para ver se aquele sentimento libertino e imundo desimpregnava das minhas entranhas, eu resolvi que deveria comer. Momentos de gordices espaireciam minha mente e eu conseguia pensar mais claramente sobre assuntos que estavam me deixando nervosa ou apreensiva. Eu só esperava que já estivesse dormindo, para não ter o desprazer – ou nem tanto assim – de encontrá-lo zanzando pela casa.
Eu ainda vestia os trajes da noite anterior quando silenciosamente saí do quarto, e com passos de pena desci cada lance da escada tendo um cuidado absurdo para não fazer barulho. A sala estava em penumbra e a entrada da cozinha indicava que a mesma estava solitária. Eu apressei o passo até chegar ao ambiente e quis voltar na mesma rapidez, porém era tarde demais e ele já havia me visto.
. – Ele disse ao que eu tentei dar meia volta e sair dali. Eu girei nos calcanhares ficando de frente para ele, que estava sentado na cadeira que horas antes eu estava sentada. Em suas mãos estava a embalagem de um dos Gelatos que eu havia trazido para a sobremesa. Eu deveria ter ficado irritada por ele está comendo algo que não era seu sem pedir, porém eu não senti nada além de nada. Ele percebeu meu olhar fixo em suas mãos, então começou a falar: - Desculpe pelo sorvete. Eu só estava sentindo vontade de comer algo doce e no momento isso era a única coisa que tinha na geladeira. Prometo que amanhã compro outro pra você.
– Tudo bem. Eu comprei dois, você pode ficar com esse. – Eu tentei sorri, e duvidei se deu certo. Com a colher, apontou a cadeira ao seu lado num pedido mudo para que eu sentasse. Eu não sabia se estava preparada para ficar tão perto dele novamente sem sentir aquelas coisas estranhas. Entre a razão, que me mandava ficar onde eu estava e a emoção que me mandava ir sentar, eu escolhi a segunda opção, contudo, sentei-me no outro lado da mesa, de frente para sua pessoa. Ele levou a colher cheia de sorvete a boca e o movimento embrulhou a minha barriga. Neste momento eu senti todos os pelos do meu corpo se eriçando, e eu fiquei receada caso ele percebesse o estremecimento que eu senti. Na expectativa de diminuir a grande tensão que estava se formando no ar, eu resolvi que conversaria banalidades com ele. – Esse Gelato é de quê? – Questionei, tão natural quanto podia ser.
– Cappuccino. E tá uma delícia. Quer provar? – Ele ofereceu a colher e o pote para mim. Eu senti outro calafrio percorrer meu corpo ao imaginar minha boca deslizando pelas curvas de aço da colher que segundos antes esteve na boca de . Por um breve momento, eu senti minhas bochechas pinicando, e eu sabia que o maldito escarlate estava tomando minha face. arqueou uma sobrancelha ao reparar no meu rubor, e seus olhos tornaram-se tão ternos, que eu novamente me senti o pior ser do mundo por ter sensações proibidas. – O que foi? Tá vermelhinha por quê? - Rapaz, ele não deveria ter perguntado aquilo, porque só piorou a situação. Agora eu estava totalmente vermelha, e era como se minha face estivesse pegando fogo. Envergonhada, eu abaixei a cabeça e a escondi entre as mãos. Um sorriso sem permissão tomou minha face, fazendo-me questionar o real motivo de estar sorrindo. Ou eu tinha algum tipo de problema mental, ou meu corpo estava começando a submeter-se mesmo que inconscientemente aos caprichos de . – Você fica tão bonitinha com as bochechas rosadas. Até parece uma princesa. – Declarou ele. Eu levantei a cabeça para olhá-lo e revirei os olhos perante seu comentário.
– Fala sério, . Isso foi estranho. – Eu falei a ele, que apenas soltou uma gargalhada descontraída, deixando o peso de seu corpo cair para trás. Eu observei o movimento, e mesmo que a cozinha estivesse escura, eu pude ver alguns músculos de seu corpo se retesando, e meus dedos queimaram para acariciar sua barba por fazer. Deus. Isso está ficando muito pior. Assim que seu acesso de riso passou, ele endireitou-se em postura reta e tornou a me oferecer o sorvete. Eu neguei com a cabeça, mas ele era insistente e permaneceu com o pote erguido no ar, na esperança que eu o retirasse de sua mão para provar um pouco do conteúdo. Eu queria negar, Deus, eu queria, mas minha força de vontade se esvaia com o brilho auspicioso que ele me enviava, comparando-se a um filhote de cachorro esperando para ser adotado. Novamente rolei os olhos, pegando de uma vez o Gelato de cappuccino de sua mão. Eu enfiei a colher no sorvete e puxei uma grande quantidade da sobremesa, e sem perda de tempo levei-a até minha boca. Eu não quis pensar em nada enquanto executava estes movimentos, só após saborear o delicioso gosto de café que ficou em minha língua eu lembrei que aquela colher já esteve perambulando pela boca de . Eu me belisquei mentalmente e me ordenei a parar de pensar naquilo. Devolvi o doce para o homem a minha frente que parecia orgulhoso com alguma coisa. – Pronto. Satisfeito? – Eu questionei, lhe enviando um olhar seco, escondendo meu desespero. apenas arqueou a sobrancelha esquerda para mim.
– Não muito. Só estarei satisfeito quando você comer tudo. – Ele sorriu, e eu devolvi da mesma forma com o pensamento que tive.
– Tive uma ideia. Quer saber qual é? – Eu perguntei, novamente tentando agir naturalmente com ele. Ele estava sendo super legal comigo e embora eu estivesse sentindo coisas estranhas por ele, eu acho que deveria ao menos tentar ceder um pouco. Enquanto eu me controlasse e mantivesse meus pensamentos e sentimentos somente para mim, meu – digamos que – segredo obscuro estaria seguro. fez uma careta engraçada, logo em seguida sorriu, assentindo. – Que tal comermos juntos o outro Gelato de morango com champagne? Você me dá um pouco do seu e eu te dou um pouco do meu. Topa? – fez cara de pensativo.
– Topo. - Eu levantei da cadeira e fui até a geladeira, pegando o outro Gelato. Voltei ao meu lugar onde, com auxílio de uma colher coloquei metade do meu sorvete no pote de . Ele repetiu o mesmo processo comigo. Nós começamos a comer em silêncio. Finalmente nós não estávamos em um clima tenso. Eu preferi ignorar os sentimentos abstrusos que queriam me corromper e pensei em começar a agir como uma filha deve agir. De fato, seria muito difícil nossa jornada, entretanto se tivéssemos paciência um com o outro, o caminho se tornaria menos tempestuoso. – Estive pensando. – começou após um longa pausa de silêncio. Eu voltei minha atenção para sua pessoa. - Talvez você não queira falar sobre isso, mas eu realmente fiquei confuso. Pode me dizer a razão de você ter corrido para o quarto após eu ter te abraçado?
“Porque eu senti desejo ao invés de amor paternal.” – A resposta estava na ponta da língua e em letras de neon na minha mente. Eu não sei como a porra daquela frase não deixou minha boca, sendo que eu sempre fui muito impulsiva e sempre falava o que não devia, e quando posta sobre pressão, eu falava pelos cotovelos. Aquele, sem sombra de dúvidas era um momento de pressão e tensão. Eu senti como se o oxigênio estivesse me sufocando. Eu mordi os lábios, perdendo-me em suas íris azuis cristalinas. Porra. Eu não queria que ele visse minhas imundices internas, porque sabia que ele poderia contemplá-las através dos meus olhos, porém era tão difícil afastar meu olhar para outra coisa. Ele parecia ter algum tipo de poder relacionado a hipnose, bem como eu tentei fitar outro canto, mas não consegui.
– É... – Eu puxei a maior quantidade de ar que pude antes de começar realmente a falar. – Entenda que eu vivi escutando sobre você ser o maior idiota do mundo, tanto da parte dos meus avós quanto da parte da minha mãe, e após tanto tempo vivendo com isso você me mostrar que era tudo diferente me deixou um pouco balançada. Eu vivi quase que uma mentira achando que tudo era verdade. Quando você me disse que minha mãe foi afastada pelos meus avós e que você até tentou me procurar, eu senti algo ruim por ter te tratado mal, e a tatuagem me ajudou a compreender que você não era nada do que a minha mãe falava. Eu fiquei assustada, sei lá. – Dei de ombros, mentido. Rapaz, eu acho que posso ganhar um Oscar por essa minha atuação. Não estava mentindo sobre nada, contudo estava omitindo certas sensações e pensamentos. Ele realmente não precisava saber das minhas sujeiras.
– Isso significa que você está me deixando entrar em sua vida, como pai? – Questionou ele, seriamente. O cenho franzido e o queixo tencionado. Incapaz de falar, eu apenas assenti. Ele claramente relaxou. – Você quer conversar a respeito de quando eu soube que Ella estava grávida? – Perguntou, deixando de lado seu sorvete.
– Não. Eu acho melhor aceitarmos tudo sem querer voltar ao passado. Todos merecem uma chance, e conosco não será diferente. Vamos apenas deixar o passado para trás e vamos nos concentrar no presente e no futuro. O que você fez ou minha mãe, ou meus avós fizeram não tem mais importância. O que importa agora é que eu estou aqui e você também. Eu vou aprender a ter um pai, e você vai aprender a ter uma filha. – Eu sorri ternamente para ele, que apenas esticou sua mão até a minha, cobrindo-a. Ele acariciou o dorso da mesma com movimentos circulares. Eu sorri para ele novamente.
– Obrigado. – Ele agradeceu. Eu apenas dei uma piscadela a ele. Sua mão se distanciou de mim e ele voltou a pegar o pote de sorvete. – Sabe, eu lembrei que devo te matricular no colégio. Se não estiver muito cansada, podemos ir amanhã pela parte da tarde na escola onde sua mãe e eu estudávamos. Tudo bem pra você? - Eu pensei. Seria legar estudar na mesma escola que meus pais. Assenti, levando uma boa quantidade de Gelato a boca. – Ótimo. Você vai gostar de lá. Somos um povo bastante acolhedor.
– Lá tem gatinhos? – Eu perguntei enquanto ingeria mais uma porção de sorvete. Depois que realmente assimilei a pergunta que fiz, olhei rapidamente para , vendo-o ficar um pouco estranho. – Ai, desculpe. É que eu sempre perguntava isso a minha mãe quando ela dizia que eu ia mudar de escola. Foi apenas o costume. Não leve a sério. – Sorri sem graça, vendo que ele não relaxou.
– Você já namorou alguma vez na sua vida? – Ele perguntou. Eu me senti desconfortável, como sempre ficava quando alguns repórteres de revistas ou sites de celebridades me questionavam. Eu só achava meio estranho conversar a respeito dessas coisas com um homem, principalmente com ele que além de tudo era meu pai.
– Ahn... , não quero falar sobre isso. – Eu desconversei. Ele não aceitou.
– Basta apenas dizer se sim ou não.
– Eu não quero conversar sobre isso, ok? – Eu falei novamente.
– Você realmente ficou nua nas cenas de sexo daquele filme?
Eu senti meu estômago apertando e logo em seguida dando voltas. Eu me senti quente e sabia que estava totalmente vermelha. Mas que merda de pergunta foi essa? Parei de comer no mesmo momento.
– É um trabalho profissional. – Respondi.
– Ficou ou não? – Rebateu ele usando um tom de voz quase rude.
– Não. Eu tinha proteção nas áreas intimas.
– E nos seios?
Quê?
Dessa vez eu tive que olhar para ele, para vê-lo com as feições sinistras.
– Que porra é essa, ? – Eu questionei. – Isso é um pouco constrangedor, ok? Não é assunto para se falar com o pai.
Ele suspirou, coçando as têmporas. De repente ele parecia tão cansado.
– Desculpe. Eu só não gostei daquele filme. Achei muito... Muito forte para uma adolescente fazer. Pareceu quase um filme pornô, só não por que não apareciam as partes intimas. E graças a Deus por isso. – Ele me olhou, não relaxado.
– Foi profissional, ok? Estávamos apenas seguindo um roteiro. Nada foi espontâneo da minha parte ou da parte do outro ator. Estávamos contracenando, e apenas tentamos dar nosso melhor. Agora, por favor, eu não quero falar sobre isso com você. Eu me sinto um pouco cansada, então vou subir e dormir um pouco. Não me acorde para o café, só para o almoço, tudo bem? – Eu não esperei resposta. – Boa noite. - E eu subi, me sentindo ofegante. Saber que assistiu ao meu filme me deixou um pouco inquieta e constrangida. Em minha mente, um questionamento começava a me deixar com dor de cabeça. Será que ele se excitou com alguma parte hot do filme?

Reação da enquanto subia para seu quarto.

Capítulo 5 - Primeiro dia - Parte I

Eu tentei. Eu juro que eu tentei voltar para o sonho onde eu e o lindíssimo do ator Henry Cavill contracenávamos. Ele me tinha presa contra o seu corpo e seu olhar era letal sobre mim. E ele estava se aproximando. Ele vinha, vinha, seus lábios próximos o suficiente para com um movimento acabar com a distância de nossas bocas. Ele me apertou mais e me...
– Vamos lá. Levante-se. Tá um dia lindo lá fora. - Enquanto a voz falava, eu sentia leves cutucadas na minha perna esquerda. Eu queria morrer naquele momento. Eu fiquei imóvel, na expectativa de que simplesmente desistisse e me deixasse dormir. Porra. Eu tinha sido bem clara quando lhe pedi para me acordar só na hora do almoço. Deus sabe que eu não sou uma pessoa matutina. - Eu não vou desistir até que você levante, e eu posso ser a pessoa mais paciente do mundo quando desafiado. – Ele declarou novamente. Eu apertei o lençol entre as unhas.
– Eu não penso direito pela manhã, . Me deixa dormir, ou não terei rendimento pela tarde. – Eu falei, duvidando muito se ele havia compreendido o que eu tinha falado, devido ao fato da minha cara estar enfiada no travesseiro. Eu o ouvi rir, logo em seguida ele voltou a me cutucar novamente. Uma parte exposta da minha coxa fez com que eu sentisse um pequeno calafrio pela área. Me cobri totalmente com o lençol, deixando apenas minha cabeça para o lado de fora.
– Se você não levantar, eu vou puxar esse lençol para longe de você, . – Ele ameaçou.
– Não. Eu não quero. Eu só quero dormir, porra. Me deixa. – Eu protestei, virando minha cara para o lado que não estava tão claro. A minha cama estava tão aconchegante e depois de tanto tempo, esta era a primeira vez que eu conseguia dormir bem, quer dizer, um pouco né, porque eu passei metade da noite acordada, mas as horas de sono que eu consegui dormir foram boas o suficiente para me fazerem sentir bem.
De repente meu corpo esfriou malditamente e a sensação era de estar nua em pleno Alaska. Mentira. Exagerei um pouco, mas era parecido. Eu levantei a cabeça vendo com os braços cruzados, olhando para mim com um sorriso irritante nos lábios. Vestia calça de moletom azul marinho que combinava com seus belos olhos azuis e uma camiseta cinza claro. Eu senti cada parte do meu corpo esquentando com a ponta de raiva que se alastrou rapidamente por mim.
– Eu não acredito que você fez isso, . – Eu chiei. Minha cara devia estar péssima, ainda sim ele continuava rindo de mim. Filho de uma grande cadela. Enraivada, eu me levantei da cama e calcei minhas pantufas com intuito de ir até o banheiro. Não queria nem saber se só estava apenas de pijama. Ao passar pela porta, esbarrei propositalmente contra o ombro de que fez um pequeno barulho de zombaria com a boca que me deixou mais puta do que eu já estava. Desci as escadas pisando duro, adentrei ao banheiro e fiz minha higienização. Eu praticamente estava soltando fogo pela venta quando saí do cômodo. – No melhor momento, droga. No melhor. – Eu reclamei. estava no primeiro degrau da escada, com os braços cruzados. Eu tentei passar por ele, mas não consegui. – Olha aqui, . – Eu comecei, apontado nos dedos tudo que sentia e pensava. – Eu tô com uma puta dor de cabeça porque você me acordou. Eu tô muito irritada com você. Nesse exato momento a única coisa que eu quero fazer e dar um soco na sua cara. Você me acordou na melhor parte do meu sonho, no único dia em que eu consegui dormir melhor que as outras vezes, então se você tem amor à vida, e não quer ganhar uma inimiga é melhor sair da minha frente.
– Está me ameaçando? – Ele questionou.
– Saia da minha frente ou vou te chutar no meio das pernas. E só pra ressaltar... Agora sim estou te ameaçando. – Sorri cínica. apenas arqueou a boca, mostrando estar falsamente impressionado, ainda assim não moveu-se para longe da escada. Aquilo me irritou ainda mais. - Parece que você gosta de me irritar. Você pode, por favor, sair da minha frente? – Eu pedi, forçando sutileza. Ele negou. Frustrada e cansada, eu me joguei contra o sofá, dramatizando um choro. Sim, eu era boa nisso. – Meu Deus. Por quê?
– Nem parece que tem 17 anos e já é uma mulher. – Ele comentou.
– Nem parece um homem se trocando com uma adolescente. – Eu rebati. Escutei sua risada.
– Eu só estava tentando ter um momento com a minha filha pela manhã, como sair, te levar ao parque pra gente conversar. Um momento pra gente se conhecer melhor.
Eu levantei do sofá.
– O problema é que eu não saio pela manhã, . Eu sou uma pessoa vespertina e noturna. Eu não me sinto bem pela parte da manhã. – Eu expliquei.
– Oxê. Minha filha é algum tipo de vampira? – Ele brincou. Eu fiz bico pra ele. – Eu entendo isso, . Olha, me deixe te contar algo. Quando eu recebi a ligação sobre o falecimento de sua mãe e que você iria vir morar comigo, eu pensei em te mostrar um pouco sobre a minha vida. Desde que você nasceu eu sempre ouvi que você tinha sido criada em berço de ouro. O que eu quero agora é que você experimente um pouco da vida simples que temos aqui, mas você precisa tentar ao menos se adaptar. Eu sei que você agora é uma atriz famosa e tal, mas deveria aproveitar este momento pra conhecer coisas novas. E eu sei sobre seus hábitos, aliás, fui bastante instruído sobre isso, que não deveria te forçar a fazer nada, que só tinha que te aceitar, deixar você num canto que você saberia se cuidar. Só que ser pai não é isso, e se eu fizesse o que eles tinham me pedido eu estaria sendo um cretino. Eu só estou tentando recuperar os 17 anos que perdemos. Por favor, não tire isso de mim.
Eu olhei com dó para ele, o problema era que eu já tinha uma rotina boa e acordar cedo todos os dias não fazia parte dos meus planos. Talvez eu pudesse mudar, não radicalmente, porém eu poderia ao menos tentar. me olhava com expectativa. Deus. Em apenas um dia eu já tinha cedido a suas vontades. Parecia até um milagre, dado o fato de que eu o odiava e não queria vê-lo nem pintado de ouro.
– Tudo bem. – Eu assenti. deu um soquinho no ar. – Mas eu tenho uma coisa pra te dizer e outra pra te pedir. – Ele concordou. – Eu vou tentar me adaptar, mas não prometo ter disposição todos os dias. E pare de me chamar de .
– Só?
– Só.
– Então eu vou aproveitar que você tá aceitando tudo e vou te convidar pra tomar um delicioso café que eu preparei especialmente pra você. Topa?
Eu olhei para ele. Fazia tanto tempo que eu não me alimentava pela manhã, desde a morte de minha mãe, e parecia que eu já estava acostumada sobre isso já que só de ouvi-lo falar sobre alimentação meu estômago revirou em desgosto. Se eu dissesse que não queria comer, então eu estaria estragando sua tentativa de me proporcionar o melhor que ele podia fazer, no entanto se eu aceitasse, eu estaria me forçando a fazer algo que eu realmente não queria, e também, eu não poderia ceder a tudo que queria, certo? Ele também tinha que ceder as minhas necessidades.
– O que aconteceria se eu te dissesse que não sinto fome pela parte da manhã e que meu corpo já se adaptou a isso? – Eu perguntei. franziu o cenho para mim.
– Você não toma café da manhã? – Rebateu ele.
– Não desde que mamãe morreu. – Eu respondi.
– Então faz muito tempo mesmo, mas isso não é saudável pra você. Você tem que se alimentar corretamente pra não adoecer. Eu posso não ter PHD em Nutrição, mas sei que café da manhã além de ser quase obrigatório é indispensável para um metabolismo em bom funcionamento. Aliás, Senhorita , chegou aos meus ouvidos que você é sedentária, e que só se mobilizou pra fazer academia quando foi contratada para fazer o filme porque era necessário que a personagem tivesse um corpo perfeito, e que ainda reclamava quando o seu personal trainer lhe mandava fazer exercícios mais pesados. E eu já vou logo te avisando que isso vai acabar, porque aqui comigo, você vai aprender a gostar de exercícios.
Eu sabia que ele estava falando sério apesar de um sorriso está brincando em seus lábios, e eu não me imaginava correndo antes do amanhecer pelas ruas deste bairro, mas eu poderia tentar porque mamãe sempre me disse que se eu quisesse ter um marido bonito, teria que cuidar do meu corpo, haja visto que os homens primeiramente se interessam pelo exterior para depois se apaixonar pelo conteúdo, e eu definitivamente não queria ficar para titia por não cuidar do meu corpo. Eu resolvi brincar um pouco também.
– Não pode me forçar. – Eu disse. – E além do mais posso lhe denunciar por, hum... – Pensei. – Por atividades “exercícicas” pesadas para menores de idades. – Finalizei com uma jogada de cabelo para trás e um bico de superioridade. soltou uma gargalhada divertida que me contagiou.
– Faça o seu melhor, queridinha. – Enquanto falava, movia o pescoço e falava igualmente a um gay. Não pude deixar de compará-lo a Martin. Eu ri com ele, sentindo um pouco do meu luto se esvaindo. – Pelo o que eu saiba a palavra “exercícica” não existe.
– Querido, ela vem do dicionário que eu inventei. – Levantei-me do sofá. – Agora arraste esse seu corpo branco para longe dessa escada para que eu possa subir e voltar a dormir.
– Nem pensar. – Ele agarrou em meu antebraço, puxando-me com um pouco de força para a cozinha. – Vamos nos alimentar, então você vai colocar uma roupa de ginástica e nós vamos sair para caminhar, e eu vou aproveitar para te mostrar onde eu trabalho e alguns lugares legais pela redondeza. Certo?
– Han. – Eu lastimei, sentando em uma cadeira. A mesa estava repleta de alimentos. – , sério. Eu não sinto fome. Por favor, entenda ao menos isso.
– O que você disse? Que não vê a hora em atacar a mesa? Isso aí, querida. Sinta-se livre para comer bastante. – Ele ignorou o que eu falei. – Eu comprei pão integral, manteiga light, queijo branco e presunto de peito de peru pra você comer sem medo de engordar. O suco é natural e a salada de frutas também. Os ovos foram feitos com azeite de oliva e temperados com ervas, e para completar o seu café, eu comprei o iogurte que você mais gosta. Mamão com banana. – Ele mostrou o pote e eu senti o meu queixo ir ao chão. Nossa. Isso foi tão amoroso da parte dele. Comprou todas aquelas coisas só para me agradar. Então eu entendi. Ele queria que eu me adaptasse a ele, mas era ele quem estava se adaptando a mim, e estava fazendo de tudo para que eu sempre me sentisse bem e satisfeita. O ato era, sem dúvida, muito bonito, e merecia reconhecimento.
– Obrigada, . Você está sendo muito amável comigo, e sem sombra de dúvidas está mudando todos os conceitos que eu tinha a seu respeito. E se continuarmos assim, você realmente irá me provar que é um ótimo pai. – Sorri agradecida.
– Eu esperei por isso muito tempo, e mal posso me conter em começar realmente a viver em família com você. Sei que hoje é apenas o primeiro dia, mas que os outros sejam igualmente a este, que comecem bem, com um bom diálogo, sem brigas, entendeu? – Eu assenti. – Agora vamos comer.
Eu despejei um pouco de suco de melancia no meu copo e preparei um sanduiche. fez o mesmo, mas em vez de suco ele preferiu café com leite. Nós começamos a comer, enquanto ele me contava o que faríamos o restante do dia após nossa refeição.

...

Eu já estava em trajes próprios para uma caminhada. Usava um short de látex verde musgo, regata branca que cobria um pouco o short e tênis de corrida. Meu cabelo estava em um rabo de cavalo alto, contudo alguns fios soltos teimavam em perambular pelo meu rosto. estava ao meu lado, usando calça de moletom cinza, camiseta branca e tênis. Estávamos nos alongando para iniciarmos uma corrida pelo bairro. Eu conectei os fones no ouvido, e os primeiros acordes de You Give Love A Bad Name do Bon Jovi começaram.
– Vamos começar. – me olhou. – Primeiro uma corrida lenta pra você acostumar suas pernas. Quando seu corpo já estiver aquecido, começamos algo mais rápido, certo?
– Certo.
Demos início à caminhada, onde sempre me apontava alguns pontos, como a casa onde uma senhora vendia Geladinho, o que eu não fazia ideia do que era, mas assenti assim mesmo. Nós dobramos a quadra e eu logo visualizei um mercadinho, e eu logo fiz uma nota mental de ir fazer umas comprinhas por lá. Uma senhora em uma bicicleta vermelha deu tchau para e ele retribuiu sorrindo, mas o olhar que ela me lançou me deixou um pouco desconfortável. Eu pensei que se ele tinha uma rotina de exercícios físicos diurno, ele era bem conhecido pela região, e eu acho que ninguém ali era acostumado a vê-lo correr com uma garota, principalmente se ela for bem mais nova que ele. Tudo bem que ele podia ter namoradas, mas pela cara que a mulher fez deu a entender que não era muito comum estar acompanhado.
Ele me mostrou a casa de alguns amigos, um estúdio de tatuagens, uma franquia de sorvete caseiros e uma casa onde lá dentro tinha uma quadra de vôlei. Eu já sentia as gotículas de suor escorrendo pelo meu rosto e corpo, e percebendo que eu já estava com as pernas aquecidas, propôs que corrêssemos mais rápido. Uma outra quadra surgiu ao atravessarmos a rua onde um espaço recreativo juntava-se a um pequeno parque arborizado. Era uma área enorme, e vários outros caminhantes praticavam exercícios físicos.
– Nós vamos dar quatro voltas, então vamos voltar pelo mesmo caminho e vamos parar lá na casa da dona Beth.
– A senhora que vende Geladinho? – Eu questionei, agora um pouco mais ofegante. Estava começando a ficar cansada.
– Isso mesmo. Como se sente agora? – Ele perguntou me olhando. Nesse meio tempo um homem passou e gritou seu nome. sorriu para ele. – Fala, Peter. – Cumprimentou de volta. - É um dos caras que joga pelada comigo. Ele tem uma filha de 15 anos. Acho que vocês se dariam bem.
– Hum. A propósito, sinto que estou prestes a ter um infarto. Não dá pra ser apenas uma volta? – Eu pedi. negou. Eu choraminguei porque a preguiça já estava tomando conta de mim. – Lembre-se que é a minha primeira vez. Você deveria ir mais devagar comigo. - cessou um pouco sua corrida e me lançou um olhar estranho. – Que foi? Eu disse algo?
– Deixa pra lá. Volte a correr. Já que é pra eu ir devagar, então vamos dar duas, tudo bem?
– Tá.
Eu comecei a pensar sobre o que eu tinha falado para ele ter aquela reação. Aí eu me toquei sobre o que eu tinha dito. Rapaz. Foi quase que uma alusão a perder a virgindade. Inferno. E ele ainda respondeu que íamos dar duas. Porra. Da próxima vez eu devo avaliar o que eu vou falar antes de dizer. Mortificada comigo mesma, eu dei um tapa na minha testa. novamente me olhou.
– O que foi isso? – Questionou ele.
– Um mosquito. – Eu menti.
– Não perca o ritmo, . Mantenha-se assim. Puxe a respiração pelo nariz e solte devagar pela boca.
– Tá.

Capítulo 6 - Dias / Compras / Escola

Eu estava sentada em um dos bancos daquele parque mexendo em minhas redes sociais, esperando terminar as suas quatro voltas. Eu já tinha corrido as minhas, e a coisa que eu mais necessitava naquele momento era de um banho frio e a minha cama. Eu só queria descansar. Correr aquelas duas voltas me deixou muitíssimo cansada, porque realmente não era uma coisa a qual eu estava acostumada a fazer, mesmo quando fiz o filme, eu só ficava na academia e nem esteira eu fazia.
Uma mensagem de texto chega no meu celular, e eu fico surpresa ao ver que era do ator que fez o filme comigo. Ethan Greene era seu nome. É estranho porque não tínhamos muito contato durante a gravação e nem após o lançamento. Curiosa, eu abro a mensagem.

“Oi, . Tudo bem? =D Tô te enviando esse sms pra saber como você tá, afinal a gente não se vê desde o lançamento do filme. Me responda, ok? Beijo.”

Por essa eu não esperava. Por que ele quer saber de mim somente agora? Fico um pouco confusa por ele está usando o apelido que o pessoal da produção me deu, sendo que ele nunca me chamou por ele. Não me lembro de ter intimidade com Ethan. Respondo sua mensagem:

“Oi. Eu estou bem, e você?”

É o mínimo que eu posso enviar para ele. Espero que ele vá me responder pela tarde, porém logo outra mensagem sua chega.

“Bem melhor, querida. Posso te ligar?”

Eu sinto uma pontada de nervosismo no estômago. Não consigo entender aonde ele quer chegar com aquilo.

“Sim”

Eu envio a resposta. Um minuto se passa e o meu telefone começa espernear ao som de “Don’t Cha” da Pussycat Dolls, mostrando em letras grandes nome e sobrenome do meu parceiro de filme. Apreensiva e um pouco nervosa, eu atendo.
Bom dia, . – Ele me cumprimenta.
– Bom dia, Ethan. – Eu digo.
Tudo bem, querida? – Ele pergunta afável.
– Sim, e você... Como está? – Eu questiono de volta.
Com saudade de você. – Ele responde, galanteador. Eu enrubesço e fico aliviada por ele não está me vendo. – Sabe, , eu fui ontem na sua mansão te fazer uma visita. Encontrei Martin abatido, triste e solitário. Eu perguntei sobre você e ele disse que você tinha sido obrigada a ir morar com seu pai. Deve estar sendo uma barra pesada pra você, né?
Eu não me senti confortável sabendo que Martin tinha revelado estas coisas para Ethan. Eu ligaria para ele e pediria para que não comentasse sobre este assunto com mais ninguém. Era pessoal e também envolvia a vida de . Sei muito bem que se descobrissem onde ele mora, viriam atormentá-lo e eu não queria que nada disso acontecesse.
– Nem tanto. O meu pai é um cara bacana. – Eu disse, somente.
Mas você sempre não dizia que o odiava? – Ele questiona de volta.
– Sim, mas depois que o conheci, ele se mostrou ser outra pessoa. Eu lhe dei uma chance.
Você está morando no interior da Flórida, né?
– Sim.
Bem, eu estou de folga. Queria saber se posso te visitar. Posso? – Sua voz transmitia expectativa. Já eu, estava nervosa. Não queria que ele viesse, no entanto eu não poderia ser tão grossa e lhe dizer não.
– Tá, tudo bem. Só me avise quando vem, ok?
Sim. Martin me deu seu endereço, então será fácil encontrá-la. Sabe, eu quero te falar umas coisas, mas quero que seja pessoalmente, entende? Mas me conta, vai abandonar a sua carreira?
Eu sinto um novo aperto no estômago. O que ele quer me falar? Porque seu tom é tão... meloso? Por que de repente ele resolveu entrar em contato comigo? Acho que devo perguntar isso a ele.
– Não. Na verdade ainda não conversei com sobre isso. – Eu respondo.
? – Ethan rebate.
– Meu pai. – Eu digo. – Ele trabalha aqui, então vou conversar com ele pra ver se posso retornar a Nova York caso apareça algum trabalho, se bem que eu estava quase sendo chamada pra um novo projeto. Eu não sei como ficou a minha situação, estou esperando pelo Martin pra me contar se temos novidades. E você, tem projeto novo? – Eu quero mudar de assunto. Não gosto de falar de mim.
Sim, uma série de TV. Mas ainda estou estudando. É sobre comédia, e eu não gosto muito. Prefiro ação, suspense, sabe?
Alguém pousa a mão sobre a minha cintura e eu me sobressalto. Viro o mais rápido que posso dando de cara com um sorridente.
– Merda. Que susto! – Eu digo para ele que apenas sorri.
O que foi, ? – Ethan pergunta ao telefone.
– Vamos voltar. Agora caminhando. Já nos exercitamos um pouco. Não quero que amanhã você não consiga mexer uma parte do corpo por causa do meu exagero. Vem. – começa a caminhar na frente.
– Nada, Ethan. Foi só o meu... – Engulo em seco. – Pai que me assustou.
Ao ouvir a forma que me referi a ele, me olha. Eu olho para o lado.
– Quem é Ethan? – Ele pergunta.
Ah, sim. Tá ocupada, querida? – Ethan questiona.
– Sim, eu tenho que desligar, outro dia a gente conversa. Beijo, Ethan.
Tá, tudo bem. Beijo, .
E a ligação se encerra.
– Quem é Ethan? – novamente questiona.
– Um amigo. – Eu respondo enquanto aperto stop no reprodutor de música. – Você tem bolsos? – Eu pergunto a ele.
– Sim.
– Guarda isso pra mim. – Eu entrego o meu celular a ele.
– Mas o que é isso? Uma tábua? – Ele brinca olhando o tamanho do celular. Eu arqueios as sobrancelhas para ele que apenas sorri e o guarda. – Mas então... Ethan é só um amigo mesmo?
Eu fecho os olhos, exasperada.
– Você é meu pai ou meu namorado? Que coisa. Você sente ciúmes, é isso? – Eu questiono. não me olha.
– Não é ciúme. É preocupação. Eu não quero nenhum moleque mexendo com a minha filha. – Seu tom realmente é de um pai preocupado, mas notei certa posse ao que ele pronunciou “minha filha”.
– Quanto a isso pode ficar aliviado porque ele não é nenhum moleque. Tem 28 anos. – Eu digo. Um homem vem caminhando com um pastor alemão todo negro preso a uma corrente. Eu o acho lindo. – Que lindo seu cachorro. – Eu falo para o homem que para diante de nós.
– Pode tocar nele se quiser. – Diz o homem que já aparentava ter mais de cinquenta anos, no entanto estava em boa forma, e sem dúvida era muito simpático. Eu me curvo e toco na cabeça do cachorro, lhe fazendo carinho. O animal inclina sua cabeça para o meu toque e eu fico super encantada com a sua mansidão. – Sou Alan. – O homem nos cumprimenta. – Você é o , o mecânico, né? – rapidamente empalidece.
Eu olhei para ele. Não sabia que ele era mecânico. Quando aquele advogado disse que ele não podia ir morar em Nova York por causa de seu trabalho, eu pensei que ele trabalhava em alguma empresa ou algo do tipo, não que ele era mecânico. E eu tenho certeza que se ele fosse morar comigo, ele encontraria uma profissão sem sombra de dúvidas muito melhor.
– É. – fala meio sem jeito. – Vamos, . – Me chama. Eu faço uma nota mental de quando chegarmos em casa conversarmos sobre esse assunto. Eu acaricio uma última vez o cachorro, então voltamos a seguir nosso caminho. Mais pessoas passam por nós e sempre as cumprimenta, contudo percebi que ele estava um pouco calado. Estaria ele com vergonha de mim por ser mecânico? Uma coisa era certa, eu não gostava daquele silêncio, por isso resolvi quebra-lo.
, o que vamos fazer pela tarde?
– Vamos te matricular na escola.
– Mas eu já vou estudar?
– Sim.
– Oh, meu Deus. – Eu chio. – Então eu tenho que comprar meus materiais. Você pode me levar ao centro pra fazermos essas compras? – Eu olho para ele.
– Claro. Sempre imaginei como seria te levar pra escola um dia. Vou realizar um dos meus sonhos hoje. – Ele sorri amplamente.
me deslumbra com todo esse sentimento paternal que ele tem comigo. É bonito alguém que nem te conhece direito te amar tanto, só era triste porque ainda não era recíproco.
. – Uma voz masculina gritou chamando nossa atenção. Virei-me para olhar em sua direção, vendo um homem alto acenando.
– Merda. – praguejou baixo, porém ainda o ouvi. Eu soube pela expressão que tomou a sua face que ele não gostava daquele cara que agora corria em nossa direção.
– E aí, cara?! Faz tempo que a gente não se vê. – Disse ele sorrindo, estendendo a mão para , que mesmo desconfortável a apertou. O homem tinha cabelos castanhos e olhos tão azuis que chegavam a doer só de olhá-los. Ele tinha um risinho desdenhoso nos lábios como se quisesse irritar . – Namorada nova. Gostei. Ela é linda. – Comentou olhando para mim. tencionou o maxilar, estava irritado.
– Ela não é minha namorada, Carter. É a minha filha. – O tom de era duro, seco. Ele nem estava falando comigo e eu já estava com um pouco de medo.
Carter pareceu – de alguma forma – surpreso. Seus olhos arregalaram-se minimamente e a pupila dilatou duas vezes. Igualmente a , ele tencionou seu maxilar, parecendo desconfortável com algo. Eu não entendi porque ele me olhava daquele jeito estranho, mas estava incomodada, e quando isso acontecia, eu começava a me coçar toda. Algo no meu pescoço começou a pinicar. Após um ficar encarando o outro sem saber o que fazer, Carter pareceu se recompor e o ar de desdenho que ele ostentava sumiu.
– De qualquer forma ela é linda. Eu tenho que ir. A gente se vê outro dia. – E como se nada tivesse acontecido ele simplesmente se foi. Confusa, eu olhei para , mas ele ainda estava de cara fechada.
– Tudo bem, ? – Eu perguntei. Ele não me respondeu, apenas assentiu e continuou andando. Eu me senti um pouco mal por sua distância, mas resolvi ficar na minha.

...

– Anda, . Vamos. A gente tem que voltar cedo pra eu preparar o almoço. – resmungou batendo na porta do meu quarto.
– Calma, . Eu estou calçando o tênis.
– Posso entrar então?
– Pode.
A porta se abriu.
– WOW. Tá indo pra um desfile de moda com essa roupa, é? - Perguntou ele. Eu lhe lancei um olhar crítico.
– Qual é o problema dela? – Eu questionei me levantando da cama para ir me olhar no espelho que ficava na porta do closet.
– O short tá curto. Troca. – Ele mandou. O rosto sério. Eu desdenhei.
– Sonhou que eu vou trocar de roupa só porque você achou o short curto. Anda, vamos. – Eu peguei minha bolsa e me virei para . – O quê?
– Não gosto dessa roupa. Troca, por favor. – Pediu.
, não. E além do mais, a camisa cobre, ó. – Eu virei de costas para ele ver. Eu usei seu apelido para causa certa comoção nele.
Pigarreando, ele assentiu.
– Tudo bem, mas não venha reclamar quando eu partir pra cima de cada desgraçado que olhar pra você. – Ele saiu do quarto pisando duro. Eu sorri. Era fácil convencê-lo. Bastava usar o meu charme e minha inocência e ele caía feito um patinho.
– Sabe, estava pensando. Não precisamos almoçar em casa hoje. Podemos comer em algum restaurante, não sei. O que acha? – Eu perguntei ao pisar no último degrau da escada.
– Vai demorar tanto tempo assim apenas pra comprar materiais escolares? – Me olhou espantado.
– Não. É porque parece melhor, assim a gente não fica apressado. Tudo bem?
– Vamos ver. Agora vem logo.
Nós saímos da casa e eu quis morrer ao ver a caminhonete dele lá na frente.
– Nós vamos nisso? – Eu apontei para ela.
– Ou vamos nela ou você vai a pé.
Rolei os olhos. Como eu queria o meu Lamborghin.

...

– Meu Deus. Que exagero é esse de caneta, ? Tenho certeza que você não vai usar nem metade delas. – resmungou do meu lado, aliás, já estava a mais de uma hora ranzinzando. Eu, por outro lado preferia apenas ignorá-lo porque se começássemos a discutir o negócio iria ficar feio. – Não é melhor comprarmos logo o caderno que é o mais importante?
– Vamos chegar lá. Calma. – Coloquei um pacote com seis lápis coloridos no carrinho de compra e borrachas de várias cores. – Qual dessas agendas você acha mais bonita? A rosa com branco ou a rosa com preto? – Eu perguntei para ele.
– Não sou eu quem vai usar. – Eu franzi a testa para ele. Custava ele apenas me dá sua opinião? – Ai. – Suspirou. – A preta com rosa.
– Vou ficar com a branca com rosa. – Eu disse para irritá-lo. Só faltou ele arrancar os cabelos com a força ao qual os puxou. Eu ri. Irritá-lo era algo engraçado. Chegamos a parte de cadernos. Eram tantos, porém somente um me encantou. Era do Bob Esponja. Tinha a capa branca com a imagem do Bob com o Patrick abraçados. As páginas eram amarelas e rosas. Era lindo. – Vou ficar com esse. O que acha? – Eu mostrei o caderno a que o pegou e o abriu.
– Diferente. As páginas são coloridas. Combina com você. – Me entregou de volta e eu o pus no carrinho. – O que falta mais agora?
– Mochila. É no outro corredor. Vem. – suspirou e começou a empurrar o carrinho. – Dá pra desfazer essa cara de tédio? Estamos nos divertindo fazendo compras em família. – Eu comentei sarcástica. riu sem humor.
– Se você demora tanto pra fazer apenas algumas comprinhas, imagine no dia que for se casar. Todo mundo vai dormir na igreja só te esperando. – Seu tom era mórbido carregado de humor.
– Rá. Rá. Tão engraçado que dava pra fazer Stand Up. – Eu disse seca. Dessa vez riu amplamente. Nós olhamos algumas mochilas e eu resolvi levar duas sob muita reclamação de dizendo que não era desnecessário, só que ele não sabe como é ser mulher e como é chato ficar usando a mesma coisa sempre. Após muito protesto da parte dele, nós caminhamos até ao caixa para efetuarmos o pagamento das compras. Ele insistiu em pagar, contudo óbvio que eu não aceitei. – Você paga o almoço e tudo fica certo. – Eu lhe disse. Mesmo com raiva ele aceitou.

...

– Você quer ir mesmo hoje? Eu posso ir apenas te matricular e você vem só amanhã. – questionou olhando-me. Eu olhei para todas aquelas pessoas na frente do colégio. Era primeira vez que eu iria estudar numa escola pública e eu estava me sentindo um pouco nervosa. Pensava sobre o que achariam de mim ou se já haviam visto meu filme. Eu esperava que não.
– Não. Tudo bem. Eu quero ir. – Eu suspirei.
– Tá.
Juntos, nós descemos do carro. Eu ajeitei a mochila nas costas e dei uma rápida olhada no meu visual.
– Essa roupa tá mesmo boa, ? - Eu perguntei para ele, nervosa.
– É a milésima vez que me pergunta isso. Você está linda, não se preocupe. Vamos. – Nós começamos a andar por um caminho de concreto que levava até o hall de entrada da escola. Conforme íamos caminhando, eu percebia que muita gente estava olhando para nós e a sensação era de puro desconforto. No exato momento em que atravessamos as portas, o sinal tocou e uma turma imensa começou a entrar. Alguns garotos entravam em seus skates, outros brincavam de jogar bolas de basquete um no outro no meio do povo. O fato era que eles falavam alto e era uma baderna completa. O meu primeiro pensamento após presenciar aquela bagunça era de voltar para o carro e sair o mais depressa possível daquele lugar, mas por outro lado eu achava desnecessário pagar para estudar em uma escola particular, então resolvi que tentaria me adaptar àquele ambiente.
Nós seguimos amplos corredores e depois encontramos mais outros até, enfim, chegarmos a sala do diretor. Ele nos atendeu com um amplo sorriso fazendo-nos sentir bem recepcionados.
– Eu fico feliz que tenha escolhido a nossa escola pra matricular a sua filha. – Senhor Evans falou.
– Eu é que fico. É um prazer pra mim que a estude na mesma escola que os pais. – sorriu para ele.
– Sabe, Senhorita , seu pai era muito travesso em sua época de colegial. Lembro-me que diversas vezes ele ficou de castigo por infligir as regras desta instituição. – O diretor contou olhando para mim. Eu olhei para que apenas balançou a cabeça em negação como se quisesse desmentir o Senhor Evans.
– Regras foram feitas para serem quebradas, Senhor Evans. – Eu entrei no clima divertido. O homem sorriu amplamente.
– Espero sinceramente que não faça o mesmo que seu pai e sua mãe faziam. Que seja uma moça comportada e estudiosa, afinal este é seu último ano, certo? – Eu concordei.
– Minha mãe era tão danada assim, Senhor Evans? – Ele concordou. – Mas o que ela fazia pra ser assim, tão arteira? – Eu queria saber.
– Sua mãe e seu pai não se desgrudavam. Era diferente vê-los juntos, pois enquanto sua mãe já estava no último ano do ensino médio, seu pai ainda estava no fundamental. Lembro que sua mãe tinha 17 e seu pai 13 e os alunos sempre comentavam a respeito por ele ser mais novo. Era estranho, confesso, mas ninguém realmente chegava a comentar com eles, preferiam falar pelas costas. Mas voltando ao assunto, seus pais faltavam aula pra namorar e às vezes até fugiam, e veja só no que resultou. – Ele apontou para mim. – Sua mãe engravidou. Os jovens daquela época só queriam saber de curtir e deixavam muito a desejar nos estudos, mas graças a Deus os tempos mudaram um pouco.
Eu olhei para . Ele estava vermelho, possivelmente envergonhado. Eu ri silenciosamente dele. De fato eu sabia que a mamãe era mais velha que , só que eu nunca tinha parado para pensar sobre o assunto. Como que pode uma quase mulher namorar com uma criança de 13 anos? O único fato que poderia explicar isso era que poderia ser mais desenvolvido que os outros porque ao pensar num garoto de 13 anos, eu imagino um moleque franzino e pequeno. Mas enfim... Preferi não pensar mais sobre isso.
não vai fazer nada do que eu fiz, não é? – me olhou sério.
– Depende. – Eu brinquei. Ele arqueou a sobrancelha para mim. – Tá. Eu não vou fazer nada que ele fez.
– Boa menina. – sorriu.
– Muito bem, querida. Aqui está o papel para você entregar aos professores para que eles a incluam na lista de chamada. – Entregou-me. – Você já pode começar a estudar. Eu mesmo irei leva-la até sua primeira aula. Espere apenas eu...
O diretor foi interrompido por fortes batidas na porta. Logo um homem de óculos entrou e empurrou um garoto com violência para dentro da sala. Arisco, o menino puxou o braço que o homem segurava e ajeitou a jaqueta de couro que estava toda repuxada. Eu olhei para o Senhor Evans que parecia exausto e irritado ao mesmo tempo. Todo o ar descontraído de antes havia sumido.
– O que foi que ele fez dessa vez, Senhor Miller? – Perguntou o diretor ao homem de óculos.
– Briga na parte de trás da escola.
– Céus, Senhor Gonzáles. Você não se cansa de se meter em confusão? – Senhor Evans olhou para o garoto, e eu também.
– Elas me procuram, Senhor Evans. E não adianta eu me esconder porque elas sempre me acham. – Ele sorriu, zombando do diretor.
Ele era bonito, no entanto era um cretino e ainda por cima era o retrato falado de um bad boy.
– Pergunto-me se um dia você ainda vai me dá alguma felicidade nessa vida. – O diretor declarou. – Mas enfim... Fique aqui que depois eu vejo o que eu faço com você. Agora, Senhorita , queira me acompanhar, por gentileza. – Eu me levantei da cadeira e saí por trás de . Quando fui passar pelo garoto eu o olhei. Ele me encarou de um jeito diferente. Um pouco sexy, não pude negar. Minha única resposta foi o rubor que tomou completamente a minha face. O idiota riu e foi sentar-se na cadeira do Senhor Evans. Ele pareceu não se importar. Após este episódio, seguiu para casa enquanto eu, muito nervosa seguia para o meu primeiro dia de aula.

Capítulo 7 - Abraço

Nervosa. Extremamente nervosa era como eu me sentia naquele momento. A porta se abriu, o diretor entrou e por alguns segundos falou sobre algo com a professora de cabelos ruivos e sardas, então ele voltou-se para mim e me chamou com um movimento de mão. Eu respirei fundo. Por que eu sentia algo que espetava minhas entranhas? Por que eu estava tão nervosa? Afinal, eu já tinha passado por aquilo tantas vezes na minha vida. Eu iniciei minha caminhada até atravessar a porta da sala.
– Senhores e senhoritas, é com imenso prazer que nós recebemos mais uma aluna na nossa escola. Conheçam a Senhorita . – O Diretor pôs uma mão no meu ombro, obrigando-me a olhar para os demais alunos. Constrangida, eu corei até o dedo do pé por ter tantas atenções voltadas para mim. A maioria das meninas me olhavam normais, no entanto os meninos tinham caras estranhas. – Deem boas-vindas a ela, pessoal. – Senhor Evans pediu.
– Seja bem-vinda. – A turma falou, cheios de tédio. Eu só pude sorri ligeiramente para eles.
O diretor deu dois tapinhas na minha costa, disse algo que eu não pude ouvir para a professora e logo em seguida saiu da sala. A professore me olhou, sorridente.
– Eu sou a Senhorita Elena Collins, professora de história. Conte-nos algo sobre você, como seu nome, de onde você veio, essas coisas. – Pediu ela. Eu assenti.
– Sou . Vim de Nova York passar um tempo com meu pai aqui. – Dei de ombros. – Não há nada mais a falar. – Eu olhei para Elena. Ela viu meu desconforto e pediu que eu fosse sentar em algumas das cadeiras que estavam vazias. Para minha sorte, havia duas no fundo. Eu andei até lá evitando olhar para as pessoas ao redor. Acomodei-me e retirei o caderno da mochila, pondo-o sobre a mesa. A professora continuou sua aula normalmente explicando sobre as antigas civilizações que povoaram a América. Eu anotei tudo e prestei bastante atenção em sua explicação. Antes que a aula acabasse eu peguei o papel que o diretor havia me dado para me orientar sobre a aula seguinte a da senhorita Collins. Era biologia. A aula terminou, eu guardei minhas coisas e segui para a segunda aula.
Tudo se repetiu com o Senhor Nicholas. Tive que me apresentar novamente. Não gostei muito dele, pois além de meio velho ele escrevia e falava demais. Após sua aula terminar aconteceu o intervalo para o lanche. Eu segui o fluxo de alunos até a cantina e novamente me assustei com a quantidade de pessoas naquele lugar. Mas nada se comparou ao olhar que várias pessoas me lançavam. Me senti como um alienígena ali, porém sabia que era só porque era o meu primeiro dia. Uma semana lá e eles se esqueceriam de mim. Segui até onde as merendeiras serviam comida. Recebi primeiramente uma maçã, então uma caixa de leite, logo em seguida uma mulher com feições ranzinzas pôs um prato descartável na minha bandeja e despejou seguidamente no mesmo algo assemelhado a gororoba. Eu olhei para ela.
– O que é isso? – Questionei.
– Purê de batata com carne desfiada. – Respondeu seca.
Aquilo não parecia purê de jeito nenhum. Estava mais para mingau vencido. Assim que passei por uma lixeira joguei aquela coisa fora. Nem morta comeria aquilo. Agora eu precisava de um lugar para sentar, e não tinha muitas opções. Tinham as mesas, mas eu não me sentaria nelas afinal eu não conhecia ninguém na escola ainda. Só me restava sentar de baixo das árvores, e foi o que eu fiz. Acomodei-me sob uma, peguei o celular e me conectei à redes sociais. Infelizmente a paz que eu sentia sumiu assim que uns garotos resolveram brincar de arremessar bola bem perto de mim. Eles riam alto e falavam sobre as meninas que estavam pegando. Sinceramente, homens são horríveis. Homens não, moleques. Só falam merda. Num certo momento, a bola caiu bem perto de mim. Um dos idiotas que parecia mais idiota ainda por vestir camisa de time veio pegá-la, e não hesitou em falar comigo.
– Oi, gatinha. – Disse ele. Eu forcei um sorriso. – Nova aqui? – Questionou. Eu assenti. – Qual ano?
– Terceiro 03. – Respondi.
– Hum. Sou do terceiro 01. Aí, já que está com o celular na mão porque não anota o meu número? – Ele me lançou um sorriso achando que estava me seduzindo, no entanto ele só parecia um retardado entortando a boca tentando parecer sedutor.
– Não, obrigada. – Eu falei. Voltei minha atenção para o meu celular. Achava que já estava livre do cara até ele vir mexer no meu cabelo.
– Tem certeza, gata, que não quer meu número? A gente podia sair e quem sabe trocar uns beijinhos. – Eu puxei a mecha de cabelo que ele segurava e neguei. – Eu sou insistente quando quero algo. – Sussurrou próximo ao meu ouvido.
Minhas mãos se fecharam em punho para lhe acertar em cheio bem nada cara, e quando eu ia executar o ato, uma voz parou o meu movimento:
– Deixa ela em paz, Tristan. Que coisa. Não pode ver uma garota nova que já fica urubuzando.
Eu me surpreendi ao perceber que a garota era a mesma loira que eu estava encarado no Fast-Food. O babaca ao meu lado ficou de pé e cruzou os braços, tentando parecer intimidador.
– Olha se não é macho-fêmea. Veio competir também? – Indagou ele. A garota riu.
– Te garanto que se fosse para ela escolher entre um de nós, com certeza não seria você. – Ela finalizou com um sorrisinho de canto que irritou o outro. – Cai fora, imbecil.
– Isso não vai ficar assim, Cooper. Tenha certeza. – Ele ameaçou, ante de sair pisando duro.
– Idiota. – A loira resmungou, então olhou-me. – Tudo bem com você, Princesinha SuperStar? – Questionou. Eu enrubesci.
Ela sabia quem eu era. Ela viu meu filme. Na escola, nas duas vezes que me apresentei ninguém pareceu me reconhecer. Ela estava sendo a primeira.
– Sabe quem eu sou? – Perguntei.
– Sim. Você é a maluca que ficou me encarando na lanchonete italiana ontem. Também te vi naquele filme hot que você fez. – Sorriu.
– Só você até agora me reconheceu, e sinceramente espero que seja só você mesmo. Não quero ninguém sabendo que eu fiz aquele filme. – Falei. Ela sentou-se em minha frente. – Ah, obrigada por expulsar aquele idiota de perto de mim. Eu já ia dar um soco na cara dele.
– E ser suspensa no seu primeiro dia de aula? – Ela riu. – Isso seria hilário.
Eu ri junto.
– Seria mesmo. Meu pai iria me matar. Qual seu nome?
– Emily. Emily Cooper. Você é , certo? – Eu assenti. – Somos colegas de classe. – Declarou.
– Serio? – Questionei. – Não te vi em nenhuma das duas aulas.
– Você estava tão concentrada nos professores que nem mexia a cabeça direito. Eu estava a duas cadeiras horizontalmente da sua. Então, seja bem vinda a vida real. Aqui nós não temos professores bonitos, só velhos. Os meninos bonitos ou tem namoradas ou são babacas. Já te aviso que se você sair com um dos caras que jogam no time, no outro dia você vai estar mais falada que maconha na escola. Eles são gatos, mas cretinos. Não saia com nenhum deles. – Avisou-me. Eu assenti.
– Emily, porque Tristan te chamou de macho-fêmea. Você é lésbica? – Questionei. Ela trouxe seu olhar para o meu.
– Não. É que durante o meu ensino fundamental eu me vestia feito um menino, e certa vez, quando eu estava no primeiro ano do ensino médio eu perdi meu celular na escola. No outro dia todo mundo começou a me chamar assim só porque viram uma foto em que eu estava dando um selinho na minha prima. Eu mudei meu modo de vestir pra ver se eles paravam com aquilo, mas não. Eles continuaram. Como eu não podia calá-los, eu passei a ignorar e até hoje eles me chamam assim. Antes eu ficava triste, agora nem dou bola. Deixo eles pensarem o que querem. A vida é minha de qualquer forma. – Deu de ombros. Eu concordei. – Algum problema se eles te verem comigo? Posso levantar e ir embora se você quiser.
– Não! – Rapidamente falei. – Nenhum problema. Não paro de falar com uma pessoa só porque as outras não gostam dela. Não sou esse tipo de gente. – Lhe expliquei. Ela assentiu.
– Bom. Já conheceu a escola toda? – Perguntou querendo puxar assunto. Eu neguei. – Quer conhecer agora?
– Dá tempo? – Questionei.
– Dá. É bem rápido. Mas não vai ser um tour convencional, vou te mostrar onde os caras marcam pra brigar, um lugar legal pra se esconder, pra namorar e até pra fumar aquele baseado. – Ao perceber minha cara de espanto, Emily apenas riu, levantando-se. Eu fiz o mesmo e passei a segui-la por onde ela ia. – Olha, só nós alunos podemos saber desses lugares. O único que o diretor Evans sabe é onde os meninos brigam, os outros ele nem sonha. Vem. – Puxou-me pela mão e saiu levando-me.
Mostrou-me o que pode sempre contando histórias de algumas pessoas que tiveram por ali, só finalizamos porque o sinal bateu, anunciando o horário das últimas aulas. Como estudávamos juntas fomos para a mesma sala. Passei pelo momento de apresentação novamente, conhecendo a professora de química. Senhora Ester. Chata e carente de atenção. Tudo teria sido igual aos das passadas aulas, entretanto havia algo novo, ou melhor, alguém. Alguém abusado que repetiu o mesmo ato de quando nos encaramos pela primeira vez. Ignorando-o, eu caminhei pela fileira de carteiras que me levava a uma última bem lá no fundo, que por obras maléficas do destino ficava ao lado do garoto que fora levado logo cedo a sala do Senhor Evans, o tal do Gonzáles. Desconfortável, fiz o mesmo que tinha feito nas primeiras aulas. Peguei o caderno e o estojo de canetas e passei a escrever as fórmulas que já estavam no quadro. Olhei para Emily que estava um pouco distante de mim, ela sorriu e voltou a copiar. Após vinte minutos de aula, a professora teve que sair da sala, o que resultou num pequeno pandemônio. Gritos, risadas altas, aviõezinhos por todos os lados, bolinhas de papel sendo arremessadas nas pessoas. Me senti no meio de uma guerra.
– Tem algum problema com bagunça? – Eu ouvi alguém questionar. Virei para o lado, especificamente para o garoto rebelde.
– O quê? – Eu perguntei de volta. Não que eu não tivesse entendido, só não compreendia a razão dele está puxando conversa comigo.
– Você tá segurando as bordas da mesa com força e olha pra todos como se eles te oferecessem perigo. Tá parecendo que vai ter um ataque de nervos a qualquer minuto. Você tá bem? – Inquiriu ele.
Eu suspirei, lentamente soltando os cantos da minha mesa, surpresa por ele ter reparado em mim. Eu olhei para Emily e arregalei os olhos como se quisesse mostrar a ela que estava um pouco assustada. Ela riu em silêncio dando de ombros.
– Não tô acostumada com esse tipo de desordem. Estudei sempre em colégios particulares que não tinham muito essas coisas. Sinto um pouco de desconforto. – Lhe contei. Ele balançou a cabeça.
– Em escola de rico tudo é organizado? – Me perguntou. Nossos olhares se encontraram.
– Bom, eles fazem bagunça, mas é um pouco mais controlado. Eles não gritam tanto e nem jogam bolinhas uns nos outros. Lá éramos alertados sobre o desperdício de papel e avisados de sempre comparar cadernos reciclados. Aqui as pessoas estragam folhas de caderno com besteira.
– Realmente. Aqui ninguém liga pra isso, mas se me permite perguntar... O que você tá fazendo aqui se pode ir pra uma escola melhor?
– Estou aqui pelo meu pai. E também, eu acho que posso enfrentar esses arruaceiros. – No seguinte momento o zumbido da sala se calou e todos olharam em minha direção, como se tivessem escutado o meu “adjetivo” sobre eles. Envergonhada, eu murchei na cadeira, baixando o olhar para o meu caderno. Deus teve compaixão de mim, porque logo em seguida a professora entrou na sala. Percebendo o silêncio, ela questionou:
– O que aconteceu aqui?
– Parece que a aluna nova pensa que somos arruaceiros. – Uma garota com uma grande franja que lhe cobria os olhos respondeu lá na frente. Pelo seu tom, ela desdenhava de mim. A professora me olhou.
– Oh! – Ela exclamou. – Encontrei alguém que pensa exatamente como eu. Querida. – Olhou-me. – Nunca haja como eles, certo? Lembre-se que lugar de animal é no zoológico. - Assim que a Senhora Ester fechou a boca, caiu sobre ela uma chuva de vaias. Eu olhei para Emily que apenas franziu a testa para mim. – Calem a boca, seus relapsos. Vamos seguir com a aula. – E assim ela começou a explicar as fórmulas que estavam no quadro. Eu preferi não conversar com mais ninguém e me concentrei na matéria. Após 30 minutos, a aula se encerrou. Eu arrumei minhas coisas e esperei todo mundo sair. É que eu tinha ficado com medo de alguém querer me bater pelo que eu disse. Ao sair da sala, eu me encaminhei para a diretoria por pedido do diretor, pois ele iria mostrar-me onde meu armário ficava. Bati em sua porta e ele logo me recebeu, levando-me até o corredor de armários. O meu era o 103. Fiz meu código no cadeado e guardei algumas coisas lá dentro. Senhor Evans me liberou. Eu fiquei aliviada por não ter muita gente na escola. Caminhei lentamente até a saída e o porteiro me desejou boa noite, eu cruzei os portões, no entanto fui surpreendida por uma pessoa que passou a caminhar comigo. Tomei um susto ao ver que era o tal do Gonzáles.
– Quer um conselho? – Perguntou ele. – Se não quiser ir parar num hospital, é melhor não insultar ninguém da escola. Caso contrário seu rosto ficará desfigurado. – Piscou para mim, sorrindo e se afastou andando até um pequeno estacionamento para bicicletas e motos. Pegou seu capacete e o colocou, depois subiu em sua moto negra e partiu. Eu fiquei lá, que nem uma tonta vendo ele sumir no fim da rua.
Quando você está com medo, tudo piora e qualquer barulho que você escuta, já te deixa em alerta. No meu caso foi uma mão no meu ombro. Apavorada, eu gritei alto. Emily me olhou.
– Que foi, ? – Ela perguntou. Seus olhos estavam ligeiramente arregalados.
– Você me assustou, poxa. Eu pensei que era alguém querendo me bater. – Comentei com a mão sobre o coração que batia aceleradamente em meu peito.
– Relaxa. Pra você apanhar deles você teria que fazer muito mais que insultá-los. Mas então... – Nós voltamos a andar pelo caminho de concreto que levava até a calçada da rua. De longe vi a caminhonete de estacionada a pelo menos dez metros de onde eu estava. Uma onda de alivio percorreu meu corpo. Caso algo acontecesse, ele estaria lá para me proteger. – Vi você e o Gonzáles conversando. O que ele queria? – Emily parecia curiosa.
– Por que quer saber? – Rebati. A loira deu de ombros.
– É que o Diego não é de falar muito com as pessoas, principalmente com meninas. Ele tá sempre arrumando encrenca. Lembra daquele lugar que te mostrei onde os meninos vão pra brigar? – Eu assenti. – Diego sempre luta lá. Mas enfim... Fiquei curiosa por vê-lo falando com você, tanto na hora da aula como agora pouco. É meio estranho.
– Ah. – Joguei meus cabelos para trás. – Ele meio que percebeu que eu não estava me sentindo bem com aquela bagunça, então ele tentou puxar papo. E ainda pouco, ele só veio tentar me assustar.
– E parece que ele conseguiu, né? Você gritou que nem doida quando toquei em você. – Nós rimos. – O Diego é um idiota. – Emily revirou os olhos. Um jipe verde deu sinal de luz do outro lado da rua. A loira removeu a mochila das costas. – , vou te dá um conselho de amiga. – Me olhou nos olhos. – Fica longe do Gonzáles. Ele não é uma boa companhia pra você. Fica esperta. – Seu olhar demonstrava seriedade. Eu assenti. – Bem, eu tenho que ir. A minha mãe tá me esperando. A gente se vê amanhã, beleza?
– Tá bem. Até, Emily.
– Tchauzinho, .
Nós seguimos para os nossos respectivos carros.
– E aí, como foi seu primeiro dia de aula? – questionou assim que entrei na caminhonete.
– Poderia ter sido melhor. – Suspirei, encostando minha cabeça no suporte do banco.
– Quer me contar o que aconteceu? – Perguntou enquanto dava partida. Seu olhar azulado estava sobre mim.
– Não. Eu só quero um momento de gordice, por favor. – Lhe lancei o conhecido olhar do gato de botas. sorriu.
– Momento de gordice, é? – Comentou achando graça. Eu assenti. – E o que a Senhorita tem em mente?
– Hum. Deixe-me pensar. Que tal pizza pro jantar e sorvete caseiro pra a sobremesa?
– Não. Nada de muita besteira. Eu posso cozinhar algo saudável pra jantarmos. E de sobremesa podemos comer salada de fruta congelada.
– Ah não, . Eu disse que queria um momento de gordice. – Choraminguei fazendo cena.
– Hoje eu já cedi demais às suas vontades, . Tá na hora de você ceder às minhas. Vamos tirar um dia na semana pra comer besteira e nos outros quatro iremos nos alimentar de modo saudável. O que acha? – Eu apenas dei de ombros. – E no final de semana você escolhe.
– Eeeeeh. – Fingi empolgação. – Isso não é justo. Eu quero escolher o que comer. – Cruzei os braços fingindo birra. Sabia que aquilo tudo era uma brincadeira e estava totalmente a favor dessa proposta de . Minha saúde e boa forma vinham em primeiro lugar. – Eu tenho o direito de escolher o que entra e o que sai da minha boca.
– Não enquanto você estiver sob minha responsabilidade. – Zombou. Eu girei os olhos.
Estava gostando desses momentos de conversa e descontração com . Fazia com que a tensão que eu causei logo que cheguei sumisse. Assumo que me arrependi de ter dito coisas ruins a ele, mas eu estava no escuro ainda. Não sabia do seu lado da história. Confesso que se mamãe estivesse viva, eu a confrontaria por ela ter mentido para mim. Sei que ela teve suas razões para fazer isso, eu só queria saber quais. No entanto, mexer no passado agora era o mesmo que mexer na merda. Iria feder muito. Melhor deixar do jeito que está. Se for para eu saber o que aconteceu entre eles, um dia a verdade irá aparecer.

...

– Quer ajuda aí? – Perguntei entrando na cozinha. estava de costas para mim mexendo numa panela. O cheiro que predominava o ambiente estava fazendo minha barriga roncar. Antes mesmo de provar a comida eu já sabia que ela estava gostosa.
– Você disse que não sabia cozinhar. – Respondeu ele sem me olhar. Eu andei até onde ele estava.
– Posso fazer outra coisa. Isso tá cheiroso. O que é?
– É soja estufada com batata doce. Prova. – Com o auxílio de um garfo, capturou uma pequena quantidade do alimento e ofereceu a mim. Seria muito estranho se eu aceitasse ele pôr na minha boca, por isso eu peguei o garfo da sua mão. – Cuidado que tá quente. – Lhe lancei um olhar crítico.
– Jura? Pensei que estivesse gelado, afinal, você acabou de tirar de uma panela fervendo. – torceu a boca diante da minha resposta sarcástica.
– Prova logo, engraçadinha. – Resmungou. Eu soltei um riso alto, logo em seguida pus a comida na boca. Rapaz. Estava delicioso mesmo, porém eu estava a fim de sacaneá-lo um pouco. Assim que engoli, comecei a fingir que estava me engasgando. Primeiramente arregalou os olhos, mas ao perceber que eu estava brincando, fechou a cara e deu as costas para mim. Dessa vez eu gargalhei alto.
– Você precisava ver sua cara. – Comentei entre risos. – Foi hilário.
– Tô pra te expulsar da cozinha. Gostou pelo menos? – Perguntou seco.
– Dá pra passar. – Ri em silêncio ao ouvir seu rosno. – Tá delicioso, . Já dá pra casar. – Seu olhar safira caiu sobre mim. Ele examinava meu rosto em busca de humor, não achando, sorriu por saber que era bom no que fazia. Nós nos encaramos por um tempo, sem falarmos nada. Era apenas um olhando o outro. O momento pareceu íntimo, como se ele estivesse tentando entrar em mim através dos meus olhos, dos seus olhos. Eu senti tudo a minha volta sumir lentamente, e ele se destacou simplesmente pelo seu olhar avassalador que me cobria inteiramente. Prendi a respiração sentindo meu corpo esquentar. Uma gota de suor escorreu da minha nuca, percorrendo minha espinha, fazendo com que um gostoso arrepio eriçasse todos os pelos do meu corpo. Eu estava vulnerável, exposta e tinha quase certeza de que ele estava prestes a ver as minhas podridões, meus sentimentos e desejos obscuros e doentios por sua pessoa. Eu tinha que sair daquela bolha particular que criamos inconscientemente, entretanto era tão difícil. Eu queria desviar meus olhos de suas orbes hipnóticas, porém não conseguia. Ele ia ver. Deus. Ele ia ver.
. – Ele praticamente declamou meu nome. Um novo calafrio viajou por cada célula do meu corpo e o meu couro cabeludo parecia estar sendo espetado por alfinetes. Milhares de borboletas bateram asas dentro da minha barriga, deixando-me desconfortável. Eu queria correr, mas o olhar que eu recebia praticamente me obrigava a permanecer parada naquele mesmo lugar, e o meu corpo, submisso, apenas atendia o que lhe era mandado. – Eu... – A fala morreu. Num passo retrógrado, eu bati em algo que caiu e quebrou-se totalmente. O barulho nos fez voltar a realidade. Envergonhada, tentei sair dali antes que algo pior acontecesse, mas não teve jeito. Aconteceu. Eu senti um rápido choque quando algo cravou e rasgou a carne da palma do meu pé. Logo em seguida veio o sangue, trazendo consigo a dor. Incapaz de apoiar o pé direito no chão, eu joguei meu corpo para frente, sentando-me meio desajeitada. Meus olhos queimaram com as lágrimas, e eu os apertei fortemente quando a dor piorou e o latejar intensificou-se, e para piorar tudo, eu ainda podia sentir os cacos cravados no meu ferimento. Foi tudo muito rápido e eu mal pude assimilar. Eu já não estava mais no chão, e sim em cima da mesa. Mãos másculas agarravam meu tornozelo, mas a agonia era tanta que eu mal podia raciocinar direito. – Puta que pariu. – Ouvi rugir. Quando tentou tocar no meu pé, institivamente o puxei.
– Não. – Chorei. – Não toque. Dói.
– Preciso remover os pedaços que estão aí dentro, . – Ele me olhou seriamente. – Não, por favor. Por favor. – De alguma forma eu consegui alcançar suas mãos, onde as trouxe até mim e as segurei firme. – Não mexa, por favor, . Por favor.
– Mas pode piorar. – Lágrimas lavaram o meu rosto. A dor agora estava três vezes pior. – , olhe pra mim. – pediu, porém eu só conseguia pensar no corte que cada vez mais latejava. Meu rosto foi puxado por duas mãos que obrigaram-me a encarar um rosto. mantinha a testa franzida em aflição, seus olhos me passavam sua angustia. – , eu nunca, nunca mesmo irei machucar você. Você precisa confiar em mim para que eu possa remover os cacos do seu pé. Só assim poderei leva-la ao hospital. Vai doer um pouco, mas eu serei bastante cuidadoso, você só precisa confiar em mim. Você confia? – Eu pensei. Ele era meu pai, certo? Pessoa melhor para confiar não existia. Eu assenti, e fiquei pasma ao receber um beijo carinhoso na testa. Segurei o choro quando ficou no meio de minhas pernas, erguendo a direita para que ela ficasse ereta. Com extrema cautela, ele levou sua mão até o meu pé. – Querida, tente manter sua perna firme, ok? E não puxe. Segure em mim e aperte se estiver sentindo muita dor, tá bom? – Ele não estava me olhando, mesmo assim eu assenti e automaticamente minhas mãos voaram para suas costelas, afinal ele estava meio de lado. Ele segurou firme em meu calcanhar e com a outra mão ele tocou o primeiro pedaço de vidro. Doeu demais, e eu logo cravei minhas unhas em sua pele. – Vou fazer isso muito rápido. Não puxe o pé. – Ordenou. Mordi os lábios já esperando o movimento. novamente tocou o vidro, mas dessa vez logo o puxou. Eu gritei, segurando em sua camisa. – Agora só falta mais um. Seja forte, meu bem. Só mais um. – O sangue escorria como água e as mãos de já estavam meladas. – Vamos lá. – E ele puxou rapidamente. Este foi mais rápido, porém ainda dolorido. Afastou-se de mim apenas para pegar um pano qualquer, ao qual ele usou para amarrar o meu pé, afim de conter um pouco o fluxo de sangue. As lágrimas ainda desciam pelo meu rosto quando parou bem na minha frente. Suas mãos agora limpavam os trajetos das lágrimas. – Não chore, querida. Eu sei que dói, mas te ver assim me deixa inquieto. Eu queria mil vezes ter cortado o pé ao invés de você.
– Eu tive a culpa. Foi eu que quebrei o pirex. – Falei chorosa. negou com a cabeça.
– Não. Eu fui o culpado por ter colocado ele na beira da mesa. Foi minha culpa. Minha. – Ele lastimou, suas mãos fazendo carinho em minhas bochechas.
– Nada disso. Eu fui descuidada, ainda por cima estava descalça. Não se culpe por algo que eu fiz. – Funguei, limpando meu nariz grosseiramente com dorso da mão.
– A culpa não foi sua. Agora eu vou te levar ao hospital. Vou precisar te carregar até o carro, tudo bem? – Questionou, preocupado.
– Eu acho que posso caminhar. – Suspirei.
– Nada disso. Não vou arriscar. Vem. Passa seu braço pelo meu pescoço.
.
– É o meu papel cuidar de você, e como não te carreguei quando você era pequena, vou fazer isso agora. Vem, querida. – Eu olhei para ele que esperava pelo meu movimento. Em seus olhos havia apenas um pedido. Um claro pedido. “Me abrace”. Lentamente passei meus braços pelo seu pescoço e me impulsionei para frente. Ele me recebeu de bom agrado, e suas mãos voaram para o meu cabelo.
Naquele momento, a dor que eu sentia tornou-se mínima diante do batuque do meu coração acelerado. Essa era a primeira vez que nós tínhamos um contato físico um pouco mais íntimo, e ele ainda nem tinha me soltado, no entanto, eu já estava querendo repetir.

Capítulo 8 - Pai Preocupado

– O cartão do meu plano de saúde tá na minha carteira, dentro da minha mochila. – Avisei , que apenas assentiu, pondo-me dentro da caminhonete. O meu pé doía, eu ainda chorava, por isso ele tratou de se apressar.
– Certo. Na mochila. Eu não demoro. – E ele correu até a porta rapidamente. Estava inquieto e toda vez que meu rosto se revestia em dor, só faltava colocar o coração pela boca. Era visível que ele nunca havia passado por uma situação como aquela.
Acordes da banda Metallica preencheram o ambiente silencioso do carro. Eu olhei para o lado, vendo o celular de apagando e acendendo no banco do motorista. Ele deveria ter jogado o aparelho lá. Meio apreensiva, eu atendi a ligação, engolindo o choro.
– Pronto. – Eu disse.
, porque sua voz tá meio feminina? – Um homem questionou do outro lado.
– Porque não é o . É a... – Engoli em seco.
Namorada dele? Esse filho da mãe tá namorando e nem contou pro melhor amigo. Safado. Olhe, querida. Diga a ele que estou puto por ele não ter me falado.
– Não! – Eu chiei. – É a filha dele. Nada de namorada. – Anunciei um pouco irritada.
Ouve uma breve pausa.
O QUÊ?! – O homem praticamente berrou do outro lado. – Mas... como assim que o tem uma filha? Espere... Isso é algum tipo de brincadeira sacana, não é? – O homem perguntou, seu tom estava dividido entre espantado e nervoso.
– Não. Eu sou mesmo filha dele.
Outra pausa, porém dessa vez eu escutei algumas conversas do outro lado, só não pude identificar porque a ligação estava cheia de ruídos. Um latejo mais forte me fez ofegar ao telefone. Meus olhos queimaram com as lágrimas prestes a cair.
– Escute, senhor. – Eu comecei. – está meio ocupado no momento. Ligue pra ele daqui a meia hora, ok? Eu preciso desligar.
ESPERA. – Pediu. – Você pode dar a ele um recado?
Meus cortes estavam doendo demais, possivelmente estavam infeccionados, e eu já estava com vontade de chorar novamente.
– Sim, mas seja breve.
Ok. Diga a ele que quem ligou foi o Joe. E que já estamos esperando ele pro jogo que vai ter aqui no campo.
– É só?
Sim.
– Tá bem. Eu vou... – Engoli um gemido. – Avisá-lo quando chegar. Tchau.
Tchau.
E eu comecei a chorar novamente. A dor intensificou-se quatro vezes mais que antes. Eu agarrei forte o estafado do banco, rezando para que chegasse logo. Alguns minutos depois, ele abriu a porta do motorista e rapidamente se enfiou dentro do carro.
– Graças a Deus. – Eu suspirei.
– Me desculpa. Eu estava trancando as portas de casa. – Deu partida no veículo e logo saiu. – Está doendo muito?
– Está. Eu sinto fisgadas no lugar dos cortes, é isso que faz doer. – Respondi.
– Pare de chorar, . Eu não gosto disso. – Pediu, preocupado.
– Mas dói muito.
– Respire fundo e tente não se mexer. Talvez funcione.
– Tá bom.

...

Trinta minutos depois, eu já estava no consultório do médico, e ele estava examinando meu machucado. Eu estava sobre uma maca, e estava de pé ao meu lado.
– Hum. – O médico começou. – Isso aqui está feio, querida. Vai ter que levar pontos.
Meus olhos instintivamente voaram para , que estava mais aflito que antes.
– Não. – Eu suspirei.
– Sim. O corte maior que o outro foi mais profundo, levará quatro pontos. O outro, apenas dois. Mas não se preocupe, mocinha. – O médico me olhou. – Vou anestesiar o local e você não vai sentir nada.
– Mas... Mas... Não pode simplesmente fazer um curativo e pronto? – Eu perguntei, angustiada.
– Não. Como já disse, o corte foi profundo. Não posso deixa-lo aberto. Pode piorar.
– Mas...
! – me repreendeu. – O doutor está certo. Ele sabe o que faz.
Pus minhas duas mãos no rosto e desandei a chorar. Era até vergonha uma garota de 17 anos chorando na frente de dois homens, mas eu estava tão assustada. Nunca tinha passado por isso. Mamãe era tão cuidadosa comigo que eu sequer tinha um arranhão no corpo. Nunca caí para realmente me ferir. Esta estava sendo a primeira vez.
– Não chore, meu amor. – me aninhou em seus braços. Eu o abracei também.
– Mas vai doer. – Protestei com o rosto enfiado em seu peito. Eu ouvi o risinho que o médico soltou.
– Não vai não. Ele vai aplicar a anestesia e você não vai sentir nadinha. – afagava carinhosamente os meus cabelos.
– Mas pra ele aplicar a anestesia, ele vai ter que furar o meu pé, e isso vai doer. – Fala sério. Eu estava parecendo uma criança de cinco anos.
– Mas é para o seu bem, querida. – explicou. Mesmo assim eu neguei com a cabeça.
– Senhorita , vou aplicar a anestesia agora. Sugiro que não se mexa e que puxe a respiração lentamente. Vai ajudar a não sentir muita dor, ok? – O médico pediu. Ainda agarrada a , eu assenti. – Vamos contar de um até três, então você respira fundo e eu aplico, certo? Um, dois, três. – E eu puxei a respiração apertando minhas unhas em torno da costa de . Sua fragrância amadeirada, juntamente com o perfume natural de seu corpo fizeram a minha mente estacar. Ele era tão... cheiroso. Tão... gostoso. Eu poderia morrer sentindo seu magnifico cheiro. Minhas unhas afrouxaram o aperto em sua carne, porém eu intensifiquei mais o abraço. Eu estava no paraíso e nem tinha morrido ainda.
– Tá vendo? Nem doeu. – Eu ouvir dizer. Abri os olhos vendo o médico passar um pedaço de algodão embebedado de antisséptico no meu ferimento. Não doeu mesmo. Nem a furada, e nem agora que ele mexia lá. Talvez fosse a anestesia fazendo efeito, embora eu preferisse pensar que fora o perfume de . – Como se sente agora? – Perguntou, preocupado.
Apaixonada.
– Bem. – Sorri sem jeito.
– Doeu?
– Não.
– Eu disse. – O médico falou. – Agora que já limpei, vou começar a costurar. – Eu assenti. Não queria vê-lo enfiando uma agulha com linha no meu pé, por isso me virei para .
– Um amigo seu chamado Joe telefonou. Ele disse que já estava no campo esperando por você.
– Droga. – chiou. – Esqueci que tinha um jogo hoje. – Olhou no relógio em seu pulso. – Ainda tenho uma hora pra chegar lá. – Me olhou. – Não. Não vai dá. Vou ligar pra ele e dizer que não posso ir. Vou cuidar de você.
– Não, . Pela forma como ele falou, parecia importante que você fosse. Tudo bem se você ir. – Eu disse.
– Nem pensar, . Você vem em primeiro lugar na minha vida, e eu tenho que cuidar de você. – Rebateu.
– Foi só uns cortes, ok? Não é como se eu fosse ficar paraplégica. Dá pra você ir tranquilamente.
– E te deixar sozinha? Não mesmo. Vou telefonar enquanto ainda dá tempo pra ele chamar outra pessoa pra me substituir.
– E se eu for com você? – Questionei. me olhou. – Eu posso ir, não posso, doutor?
O homem de jaleco nos olhou.
– Claro que sim. Mas não vai poder se apoiar nesse pé.
Olhei com uma cara de “tá vendo” para o meu pai, que apenas rolou os olhos.
– É melhor não.
– Eu quero te ver jogar. – Tentei.
!
, por favor. Eu não vou morrer se eu for até lá. Eu vou apenas me sentar e ver você jogar. É só. Custa me levar? E eu também quero conhecer os seus amigos. – Ele ainda estava com cara de quem queria negar. – Faz o seguinte, liga pro seu amigo e diz que você vai chegar meio atrasado, mas que vai. – negou. – Se você não me levar, eu vou ficar com raiva de você. – Ameacei.
– Arws, . – Rosnou. – Tá bem. Nós vamos. – Eu comemorei mentalmente. – Mas vou ficar de olho em você. Se eu perceber que você tá sentindo dor, eu saio do campo e te levo pra casa. A culpa vai ser sua se eu abandonar o jogo. – Tentou me amedrontar.
– Posso conviver com isso. – Devolvi satiricamente. rolou os olhos, ligou para o tal de Joe e confirmou sua presença no jogo.
– Posso me sentar ao lado dela na maca? – Perguntou ao doutor.
– Pode sim. E você, senhorita , sente algo?
– Não. Não dói. E aí, ... O que o seu amigo disse? – Estava curiosa.
– Disse que se eu não aparecer, vai arrancar meus olhos. – Eu ri. – Não vejo nada de engraçado pra você estar rindo. – Ótimo. Agora ele estava irritado.
– Por que está assim, bravo desse jeito? – Questionei.
– E você ainda pergunta? Tô preocupado com você. Você pode sentir dor e eu não vou estar do seu lado pra te acudir. – Resmungou meio mal humorado.
– Relaxa, . – O médico entrou na conversa. – Com o coquetel que vou aplicar nela, ela não irá sentir dor tão cedo. Possivelmente só amanhã.
, o doutor está certo. Ele sabe o que faz. – Respondi usando o mesmo tom e a mesma resposta que ele tinha me dado minutos atrás.
– Sabe, você dois formam um belo e engraçado casal. – Comentou o médico achando graça. Eu empalideci na hora, sem coragem de olhar para .
– Não somos um casal, Dr Walter. – Eu falei. – Ele é meu pai.
Silêncio.
A sala fora tomada por tensão. Eu fiquei constrangida, óbvio, por isso abaixei a cabeça e fingi limpar uma sujeira invisível na minha blusa. Percebi os dedos trêmulos de agarrando fortemente o estofado da maca onde estávamos sentados. O doutor engoliu em seco.
– Oh, meu Deus. Mil desculpas. É que eu... Bem, vocês são novos e ele não parece ser seu pai. Desculpe pelo comentário desnecessário. – Ele estava vermelho, completamente envergonhado. E ele continuou murmurando pedidos de desculpas, até eu, de alguma formar tentar descontrair um pouco.
– Tudo bem. – Sorri, cumplice. – É compreensível que você pense dessa forma. É que eu morei a minha vida toda com a minha mãe, e só agora vir morar com ele. Por ainda não estarmos acostumados um ao outro, eu não o chamo de pai, e também a forma como agimos deixa claro que parecemos mais amigos do que pai e filha. Né, ? – Lhe dei uma cotovelada.
– É... É sim. – Seu tom era puro nervosismo.
– De qualquer forma eu ainda peço desculpas. Eu jamais deveria ter falado isso. Os deixei desconfortáveis. – Insistiu o médico.
– Não se desculpe. Você não sabia. – Lhe dei um sorriso. Ele assentiu, mas ainda parecia meio perturbado. A tensão começou a sumir pouco a pouco, assim como o trabalho no meu pé estava quase acabando. Após este episódio, nós ficamos em silêncio até o meu curativo ficar pronto.
– Acabei. – Avisou o Dr Walter. – Agora vou prescrever uns antibióticos para você tomar. – Começou a escrever na receita. – Esse aqui você só vai tomar quando estiver sentindo dor, já esse outro, você tomará duas vezes ao dia, que é pra não infeccionar. Você tem que ter cuidado quando for tomar banho. Seria bom se você amarasse uma sacola no pé e não o molhasse, depois, com cuidado você pode apenas passar um pano umedecido com sabonete e lavá-lo, claro, não pode passar em cima do ferimento. Todo dia você deverá fazer a limpeza e um novo curativo. Não é necessário que você venha até o hospital, basta comprar alguns itens importantes e então você pode fazer em casa mesmo.
– Eu posso fazer essa limpeza? – se manifestou após um bom tempo calado.
– Claro. São vocês que decidem. Querem fazer em casa ou aqui? – Dr Walter me olhou.
– Pode ser em casa. – Respondi.
– Muito bem. Então eu vou escrever aqui o que você deverá usar. – Passou um bom tempo anotando algo, depois o entregou a . – Outra coisa que eu quero te falar, mocinha. Você não está impedida de andar. – Lancei um olhar superior a que apenas virou a cara para mim. – Mas não significa que você já pode sair por aí saltitando. – Foi a vez de me olhar com audácia.
– Aconselho você a se apoiar no calcanhar, porque não irá forçar muito o pé. Se você se apoiar na ponta, pode ocasionar a ruptura dos pontos, e pode infeccionar e isso vai dar um trabalhão e é óbvio que a senhorita não quer isso, quer? – Eu neguei. – Também não pode usar sapato fechado. Então tome bastante cuidado. Você irá ficar com os pontos por sete dias, depois você volta para removermos, ok?
– Vai doer? – Perguntei, já temerosa.
O médico riu de mim.
– Não vai doer nadinha. Agora só espere um momento que eu vou pedi pro enfermeiro vir te aplicar um coquetel então você logo será liberada, certo? – Eu assenti.

...

– Eu queria tomar um banho, . – Comentei assim que chegamos em casa. Já havíamos comprado tudo que o Dr Walter recomendou e eu continuava sem sentir dor. No momento, eu me apoiava no meu pai para entrarmos em casa. Ele destrancou a porta e me ajudou a chegar até o sofá.
– E o que te impede? – Rebateu voltando até a porta para fechá-la.
– Não podemos demorar porque você tem que ir pro campo, esqueceu?
– Não. Mas ainda temos um bom tempo. Se você for rápida ainda chegamos antes do jogo começar.
– Tá bem. Então me faça um favor? – Pedi. assentiu. – Pega a minha toalha que tá pendurada no dossel da cama.
– Já volto. – E assim desapareceu andar a cima. Eu me ergui, mancando lentamente até a cozinha a procura de uma sacola plástica para envolver meu pé. Quando a encontrei, voou em cima de mim feito um bicho.
– Por que está andando? Custava esperar na sala até eu vir pegar pra você? – Brigou. Torci a boca para ele.
– O doutor disse que tudo bem se eu andasse me apoiando no calcanhar e eu nem senti dor nenhuma. Quer parar de reclamar? Poxa. – Me enraivei também.
– Vem, deixa eu te carregar até o banheiro.
– Ah, não . Eu posso an... AAHHH. – Gritei quando ele envolveu minhas pernas, pegando-me em seu colo. Me levou como se eu fosse sua noiva até o banheiro e me fez sentar sobre o vaso. – Idiota. – Resmunguei.
– De nada, pai. – Respondeu sem paciência e ficou lá, me olhando.
– Sim, vai querer tirar minha roupa e tomar banho comigo também? – Perguntei irritada. soltou uma respiração profunda.
– Vou estar aqui fora se você precisar. – Disse ele, saindo, porém antes falou: - Não tranque a porta. Vai que acontece algo.
– EU NÃO ESTOU ALEIJADA, . QUER SAIR LOGO ANTES QUE EU ME IRRITE MAIS COM VOCÊ? – Gritei jogando o pente em sua direção a fim de acertá-lo, entretanto ele foi mais rápido e fechou a porta velozmente. – NÃO ENTRE MAIS PORQUE EU JÁ VOU COMEÇAR A ME DESPIR. – Avisei. Seria constrangedor se ele me visse pelada. Não. Isso nunca pode acontecer. Talvez em meus sonhos.
! – Meu subconsciente advertiu autoritário. Tá bom, tá bom. É melhor que eu não fantasie nudez entre mim e , porque poderia piorar muito a minha situação, aliás, já havia piorado.
Esqueça, apenas, ! – Me obriguei.
Removi minha blusa e com cuidado a calça. Tirei o sutiã e a calcinha, então enlacei a sacola no pé ferido. Amarrei meus cabelos num coque para não molhá-los. Adentrei ao box com cuidado, logo em seguida liguei o chuveiro.
– Tudo bem aí, ? – Oliver questionou da porta.
Cristo! Às vezes parece que sente prazer em me irritar. Tem algo mais vergonhoso que você tá nua, tomando banho e o seu pai tá do lado de fora escutando tudo? Acho que não, né?
– INFERNO, . ME DEIXA! – Gritei, puta da vida. Querendo logo acabar com aquilo, eu molhei meu corpo e logo o ensaboei, sempre mantendo o pé direito erguido para a água não chegar até ele. Posso dizer que foi um banho rápido, apenas para tirar o suor. Enxuguei-me rapidamente, então removi a sacola do pé. Enrolei-me na toalha e respirei fundo antes de sair do banheiro. já estava esperando por mim, encostado na parede. – Sabe que isso é constrangedor, não sabe? – Perguntei. Ele deu de ombros.
– Você é minha filha e está ferida. Eu só estou fazendo meu papel de pai preocupado. – Disse ele vindo em minha direção. Não deveria, mas senti calafrios percorrendo o meu corpo.
– Você poderia ser um pai preocupado sentado no sofá. – Resmunguei.
– Deixa eu te ajudar. – Ele estava pronto para me carregar no colo, quando o parei.
– Assim não. Vamos fazer como fizemos quando chegamos aqui.
– Vai levar menos tempo se eu te carregar. Para de frescura, . – Chiou.
, eu tenho 17 anos. Quer parar?
– O que a sua idade tem a ver com isso? – Rebateu.
– Isso é estranho, droga. Até ontem eu te odiava. Agora nós estamos assim, tão íntimos. Eu não gosto disso, ok? É como se você estivesse invadindo a minha zona de conforto. – Confessei. Isso pareceu fazer pensar em seus atos. De repente ele empalideceu e suas pupilas dilataram. O que diabos estaria se passando pela sua cabeça naquele momento?
– Me desculpe. Eu não pensei nisso.
– Tudo bem. Agora me ajuda aqui senão o seu amigo vai arrancar seus olhos. – Tentei descontrair. não sorriu, mas visivelmente relaxou. Passei um braço pelo seu pescoço e ele segurou firmemente em minha cintura, dando-me apoio. A sensação que tomou meu corpo foi indescritível. Eu estava nua, com apenas uma toalha me cobrindo e ele estava tão perto. Se ele subisse um pouco mais a mão ele alcançaria meu seio e... Porra! O que é isso que eu estou pensando? Ele é meu pai, merda! Como posso estar pensando nessas coisas com o homem que me concebeu a vida? Isso é inaceitável! – Vamos mais rápido, .
– Consegue ir?
– Sim.
– Então vamos.

...

– Tá frio. Veste uma calça. Nada de short curto. – mandou ao entrar no quarto e me vê vestida. O pior é que eu já estava pronta.
, por favor. Eu já estou pronta. Podemos descer e ir? – Perguntei. Ele negou.
– Não vamos sair de casa até você colocar uma calça.
Eu rolei os olhos. Não estava frio merda nenhuma. Havia algo a mais por trás desse seu pedido desnecessário.
– Eu já tentei vestir, ok? Não deu. Não consigo.
– Não seja por isso, eu te ajudo a colocar.
Eu olhei para ele como se ele tivesse duas cabeças.
– Eu não vou ficar de calcinha na sua frente, . Pelo amor de Deus. – Fui tomada por uma onda de histeria. Ele era louco por acaso?
– Qual o problema? Hoje de manhã te vi de pijama que era quase a mesma coisa que calcinha e sutiã, e além do mais, eu sou o seu pai. Não é como se eu fosse te olhar com outros olhos!
Plaft. Bem na minha cara.
Doeu mais que um tapa sua declaração. Tive que usar todo o meu autocontrole para não esboçar nenhuma reação.
Eu era uma atriz, certo? Eu tive que representar uma personagem naquele instante. Já era esperado que ele realmente pensasse daquela forma, no entanto, vê-lo dizer aquilo me deixou tão... triste. Uma pequena parte de mim acreditava que ele poderia me ver sim com outros olhos, mas essa parte acabou de calar a boca e se recolheu no fundo da minha obscura mente.
– Não vou ficar de calcinha na sua frente. E quer saber? Acabei de perder a vontade de sair. Pode ir sozinho. – Declarei.
– Ah, não. Você insistiu, agora terá que ir.
– Não quero mais. – Cruzei os braços.
– Mas será que vou ter que te carregar no colo novamente?
– Então vai me levar de short. – Finalizei.
– Não mesmo. Vamos logo. Se troca. – Mandou.
– Já disse que não quero mais ir.
Perdendo a paciência, trincou o maxilar e me olhou gelidamente.
– Não sou seu colega, sou seu pai e quero que me obedeça. Ou você me atende, ou vou tirar sua roupa na marra. É você que escolhe. – Seu tom era autoritário.
Engoli em seco e abaixei a cabeça, ressentida com sua grosseria. Ao meu lado, havia uma calça dobrada, a qual eu tentei colocar, mas não consegui devido a pequenas dores que eu senti quando fui flexionar o pé. Me cobri com meu lençol e tirei a merda do short que gerou toda aquela inútil discussão. Peguei a calça e com cuidado enfiei o pé direito, que doeu devido o movimento de arqueio que tive que fazer, porém não demonstrei o que estava sentindo. Já estava vestida, só faltava puxá-la até o quadril, mas para fazer isso eu precisaria me levantar e consequentemente teria que ver minha calcinha, e isso eu não permitiria.
– Vire de costa pra eu puxar a calça. – Pedi, com a voz morbidamente fria.
– Posso te aju...
– Apenas vire de costa. Eu posso fazer isso sozinha. – Demonstrei irritação. Dois podem jogar esse jogo, baby.
– Mas e se você bater o pé?
Exasperada, enfiei a mão no cabelo os puxando fortemente. Mas que homem irritante! Creio em Deus Pai.
Tá. Ele queria ver minha calcinha, ele veria.
Apoiando-me num pé só, ergui-me da cama com a calça literalmente sobre os joelhos e muito puta da vida a puxei para cima. Como a peça era meio apertada, demorou um pouco até eu passá-la pelo bumbum, mas consegui. Manquei até uma mala grande, tirando de lá chinelos. Teria que usá-los já que estava proibida de usar tênis.
– Já tá pronta? - Eu nem me dei o trabalho de responder, apenas comecei a manquejar até a porta do meu quarto com a intenção de sair sozinha, entretanto, rapidamente se materializou ao meu lado, passando um braço pela minha cintura. Eu me neguei a abraçá-lo para me sustentar. – Agora está com raiva de mim? – Novamente fiquei calada. Estava zangada e se eu começasse a discutir com ele, provavelmente nossa convivência se tornaria um inferno, então meu silêncio era crucial para mantermos nossa relação pacífica, embora eu tivesse plena certeza que ainda discutiríamos muito futuramente. Era normal.
Descemos a escada e caminhamos até a saída de casa, onde trancou a porta. Entramos na caminhonete e demos partida rumo ao campo onde ele jogaria. Após algumas quadras, o celular dele começou a tocar.
– Alô. – Atendeu. – Não, já tô a caminho. – Pausa. – Tô na saída do bairro. Chego aí em dez minutos. Somos os quartos a jogar? – Pausa. – Ah tá. O segundo time ainda tá jogando? Vai dar sim. Tá bom. Tá bom. – Pelo canto de olho o vi me olhar. – Vou te explicar, cara. Prometo. Beleza. Já, já chego aí. Tá. Tchau.
Resolvi mexer no meu celular, respondendo algumas mensagens de colegas da antiga escola.
– Não vai mais falar comigo? – Perguntou para mim. Ignorei. – ? Hey. Fala comigo. – Não vou. – Vai me ignorar eternamente? – Vou. – Não entendo porque você tem vergonha de mim, mas se exibiu pra milhões de pessoas ficando de lingerie no filme, e ainda por cima fez insinuação a sexo. – Segura a resposta, ! Você sabe que ele quer te irritar para você falar com ele, e você não quer falar com ele, certo? – Vou fazer um gol só pra você falar comigo depois. – Revirei os olhos. – , não vou me desculpar por algo que eu sei que estou certo. Tente entender. – Não mesmo. – Seu carinho por mim não morreu, morreu? – Fez voz de pobre coitado. Meu coração acelerou. Porque sou tão emotiva? – Perdi você?
Ah, inferno.
– Para com isso! – Briguei, quebrando meu voto de silêncio.
Imediatamente um sorriso largo tomou os lábios de , iluminando seu rosto.
– Sabia que não conseguiria ficar sem falar comigo. – Comentou atrevido.
– Idiota. – Resmunguei.
– Linda. – Rebateu. Ao ouvi-lo, meus lábios se curvaram em um pequeno sorriso. – Isso. É assim que eu gosto de te ver. Sorrindo.
Seria sempre assim? Nós brigaríamos, eu ficaria com raiva dele e no final ele sempre me faria sorrir? Não importa. Eu só quero continuar tendo-o perto de mim.

Capítulo 9 - Black Tiger

- Não inventa, . – Eu logo o cortei.
- Mas você não pode se esforçar, senão os pontos rompem. – Brigou ele.
- Tem ideia do quão ridículo isso é? Do quão patético será você entrar no estádio me carregando no colo? – Lhe lancei um olhar enviesado. – Eu cortei o pé e não posso andar direito, tudo bem. Mas posso me arrastar, você ouviu o médico. Quer parar de bancar o neurótico? Sou eu que estou ferida, não você. Pare de dá ataque! – bufou, exasperado.
- Foi um erro trazer você para cá. É melhor voltarmos. – Anunciou todo nervoso, pondo a mão na ignição, a fim de girar a chave no painel e dar meia volta.
Eu me preparei para iniciar uma cena infantil, com intuito de tentar convencê-lo a ficar. Eu era uma atriz, não era? Que mal tem em encenar um pouco? Nenhum, então bora lá, gatinha!
Fingi desapontamento enquanto jogava meu corpo para frente, pondo a minha cabeça entre as mãos de forma a parecer cansada. Suspirei de modo choroso e até funguei um pouco.
- Tudo bem. Vamos embora. Eu não quero que faça as coisas contra sua vontade só porque eu tô bancando a garota birrenta. Desculpe por só tá querendo ter um tempo com meu pai.
Nossa. Que drama!
Mentalmente, eu ri maleficamente, enquanto chifres e dentes afiados nasciam em mim.
É, filho, eu sei fazer cena para chamar a atenção. E usei o mesmo truque de , porque quando ele queria conseguir alguma coisa comigo, ele sempre usava a desculpa de “querer recuperar o tempo perdido” e eu já tinha sacado isso, no entanto, eu sempre caía em suas artimanhas. Restava saber agora se ele se deixaria levar por mim.
Senti um breve toque em minha costa. Não me movi, queria mais daquele contato. Chame-me de imunda, eu não me importo. Pelo menos não agora, não nesse momento que posso sentir o calor da pele dele irradiando para a minha.
- ? – chamou cuidadoso. Eu não o olhei, continuaria insistindo no meu falso drama. – , desculpe, ok? Eu só estou preocupado. Não quero que sinta dor, quero estar do seu lado quando precisar de mim. Quero estar disponível apenas para você. Quero reparar meu erro.
- Você não tem que reparar nada porque não teve culpa. Você se queixa que quer ter momentos em família comigo, mas está dispensando uma ótima oportunidade de ficarmos juntos. – Levantei minha cabeça, vendo que ele tinha sua atenção em mim. – Qual é o seu problema? Bipolaridade ou Alzheimer? – Questionei fingindo irritação. Tinha feito meus olhos ficarem vermelhos de propósito. Fazia parte do meu teatro, bem.
- Você não percebe que eu estou malditamente preocupado com você? Custa você entender isso? – Retrucou ele, coçando as têmporas.
- Senhor! Como você consegue ser tão cabeça dura? Tudo bem. Você está cego e surdo no momento, então eu vou fechar a minha boca e ficar caladinha no meu canto, esperando que você estale os dedos para mim quando sentir vontade de fazer alguma coisa. – Cruzei os braços sobre o peito e joguei meu corpo para trás em sinal de rendição. Se eu havia desistido? Não mesmo! Aquilo tudo fazia parte do meu plano.
- Você não é nenhum cachorro para eu estalar os dedos para você. – resmungou.
Eu ignorei.
- Uma última coisa antes de eu realmente fechar a boca. Vamos voltar para casa porque eu perdi a vontade de ficar aqui.
Pela visão periférica, vi que segurava o volante com bastante força. Sua boca estava revestida em uma linha reta e suas feições estavam carrancudas. Deve ter passado mais de cinco minutos e nada dele falar alguma coisa. O silêncio no carro foi quebrado pelo celular dele que começou a tocar alto.
Ele pegou o aparelho e o levou até a orelha.
- . – Anunciou-se. - Não, cara. Eu tô aqui no estacionamento. – Pausa. - Não sei, cara. Eu tô preocupado com uma coisa. Comigo não, com a minha filha. – Suspirou. - Eu sei, Joe. Eu vou te explicar. Calma. – Bufou, exasperado. – Ela cortou o pé e teve que levar pontos. – Pausa. – Já tá tudo bem agora. Aham. Eu sei. Mas eu tenho receio de deixar ela e os cortes começarem a doer. – começou a escutar com atenção o que a pessoa da outra linha falava. Às vezes me olhava, virava de novo para frente e enfiava a mão nos cabelos, todo nervoso. – Eu sei, cara. Mas... Já, tomou dois ainda agora. – Pausa. – Mas e se... – Calou-se. – Eu sei que precisam de mim, mas ela é minha filha e precisa mais. Porra, Joe, eu sei disso. – Deu um soco no volante, assustando-me. Olhei para ele, surpresa. retribuiu meu olhar enquanto escutava a outra pessoa. – Ela não pode andar direito porque se flexionar o pé, os pontos rompem. – soltou um riso sem humor. – Você acha que eu já não tentei isso? Ela prefere morrer a ser carregada. – Pausa. – 17. Eu sei, eu sei. – Suspirou. – Tá bem. Então traz logo antes que eu desista. E vê se não demora, Inseto.
Assim que a ligação se encerrou, me fitou.
- Conseguiu o que queria. – Disse ele em tom seco.
- Eu queria voltar para casa agora, mas parece que você curte me contrariar. – Comentei morbidamente. Ele sorriu sem humor.
- Não era você que iria ficar calada? - Semicerrei os olhos para ele. – Começou, agora aguenta. – Piscou zombeteiro.
Rolei os olhos para seu gesto e resolvi que novamente faria voto de silêncio com ele. E agora que ele começou, vai ter que aguentar até o final, porque quando é desafiada, faz de tudo para vencer. Ele quer guerra? Vai ter guerra!
Usei a câmera frontal do meu celular para verificar minha aparência. É. Estava bonitinha sem maquiagem. Passei a mão no cabelo apenas para ajeitá-los um pouco mais.
- Não quero você dando confiança para nenhum moleque.
O quê?
Olhei para , que me fitava com atenção. Eu poderia muito bem começar a quebrar o pau com ele e já estava pronta para isso, entretanto lembrei do voto de silêncio. Como eu não iria falar, limitei-me apenas a lhe dar um sorriso de deboche. Ele não gostou nenhum um pouco do ato e logo trancou a cara. Sorri abertamente.
- Só lhe digo uma coisa, . Não brinque comigo.
O que era aquilo?
Um aviso? Uma ameaça?
De qualquer forma, eu estremeci internamente, mas por fora eu continuei inabalável. Eu também sei jogar, querido. Então se prepare.
então desceu do carro e bateu a porta com um pouco mais de força. Não sei como ela não caiu, mas enfim...
Espera...
O que diabos é aquilo?
O que aquele cara vem empurrando?
Porque ele está indo na direção de ?
Porque eles estão se cumprimentando?
Porque eles estão olhando para mim agora?
Ah, não, cara!
Não! Não! Não!
Oh meu Deus! Não acredito que...
- Vem, . – chamou abrindo a minha porta. Eu só pude olhar para ele sem esboçar nenhuma reação. – ? – Chamou-me novamente. Eu olhei de para seu amigo e depois para a cadeira de rodas que o homem segurava. Percebendo minha atenção no objeto, meu pai se manifestou. – Você tem duas opções, querida. Ou te carrego, ou você terá que ir nela. – Eu continuei olhando para a cadeira, pasma. Que diabos de ideia foi aquela que seu amigo teve? Ideia de jerico, só pode ser.
Vou mostrar aos dois que tenho uma terceira alternativa.
Virei de lado e pus o pé que não estava machucado para fora da caminhonete. Apoie-me nele e fiquei de pé, pondo o outro pé para fora. prontamente se materializou ao meu lado segurando em minha cintura para o caso de eu desequilibrar.
- Cuidado. – advertiu quando eu quase me apoio na ponta do pé. – Tudo bem até aqui? Sente algo? O pé tá doendo? – começou a disparar perguntas, ganhando de mim olhares irritados. Ao perceber que eu estava bem, ele se recompôs de sua súbita histeria e sorriu amarelo. – Então, querida. Eu quero que você conheça o meu melhor amigo. – segurou no ombro do homem moreno e alto. Era visível que estava nervoso. – Joe, essa é a minha filha, . – O homem, mesmo parecendo inquieto, estendeu a mão para me cumprimentar.
- Oi. – Eu disse a ele, sendo simpática.
Eu sei, eu sei. Você deve tá pensando: “Mas ela não fez voto de silêncio?”. Pois é. Fiz sim. Porém isso só vale para . Não devo descontar minhas birras e raivas em pessoas que não tem nada a ver com a situação.
- Oi. – Respondeu Joe sorrindo afável. – Puxou os olhos de . – Reparou ele. – Mas a beleza deve ter puxado da mãe, sem sombra de dúvida. – Brincou recebendo um soco de leve no ombro, dado por .
- Hey, eu sou bonito, ok? – Meu pai protestou fazendo voz fina. Sem perceber acabei soltando um risinho.
- Tão bonito que já é um trintão e ainda não arranjou nenhuma mulher que o aguente. – Joe revirou os olhos. Eu ri dele.
- É porque estou esperando a mulher certa. – Respondeu .
- Que clichê, . – Joe zombou. – Esperava mais de você. – Balançou a cabeça, expressando falsa decepção. – Mas vamos logo porque os rapazes estão querendo te comer vivo.
- Cara, isso não soou bem. – rebateu fazendo careta. Eu segurei o riso, realmente imaginando a cena de um jeito peculiar.
- Verdade. – Joe franziu a testa, pensando. – Foi uma alusão a uma orgia homossexual onde você seria o único passivo.
O engraçado de tudo era a forma como Joe falava. Sabia que ele estava brincando, mas ele estava sério, como se realmente não quisesse parecer divertido.
Não consegui me segurar por mais tempo e deixei a gargalhada sair alta, e Joe entrou na onda comigo também, largando sua máscara de homem sério e começando a rir. Já não gostou da brincadeira, fechou a cara e rolou os olhos.
- Quando os dois pararem com ataque esquizofrênico, eu estarei pronto para ir. – fechou a minha porta do carro e veio ficar atrás da cadeira de rodas, esperando eu sentar para ser empurrada.
- Sabe, . – Joe ignorou o mal humor do amigo. – Eu tenho uma “orelha” que adora mexer, zoar e brincar com os outros. No entanto... – Arqueou a boca, demonstrando-se tedioso. – Quando é com ele, fica todo irritadinho. Não sabe levar na esportiva. Gosta de tirar liberdade com todo mundo, mas não permite que façam o mesmo com ele. Então já vou logo lhe avisar da pessoa que ele é. Sem mencionar a dupla personalidade. Eu tenho que lidar com isso todos os dias, e é uma tarefa bem cansativa. Abro teus olhos, porque quem avisa, amigo é. – Piscou para mim.
Nós nos conhecíamos há o que? Cinco minutos? Bom, não importa. O fato era que eu já tinha sacado o jogo dele, que era exatamente deixar o amigo a ponto de explodir, e pela cor vermelha do rosto de , faltava pouco.
Eu meneei a cabeça quase que imperceptivelmente para Joe, indicado que já estava entendendo seus joguinhos, e através dos meus olhos, mostrei a ele que podia contar comigo.
- Minha mãe, quando estava sob muita pressão no trabalho ficava exatamente assim, só que ela tinha a desculpa perfeita para dar, que era a TPM. O que resta saber é se homens também têm tensão pré-menstrual. – Entrei no jogo, fazendo-me de cínica. Joe sorriu cumplice.
- Ótimo. Já não bastava um, agora tem mais outra. Joe, ainda pouco você tava me apressando porque os outros estavam me esperando, agora vai ficar aí de complô com a minha filha? Vamos, . Sente-se na cadeira para irmos logo. – Mandou exalando autoridade.
Ignorei-o.
- Joe, será que você poderia me ajudar a andar até onde vocês vão? – Eu perguntei, piscando os olhos lentamente, não tentando parecer sedutora, e sim, uma garotinha doce que precisava que alguém lhe estendesse a mão. O homem moreno primeiramente olhou para trás de mim, certamente para .
- Não inventa, . Você não vai andar. Isso é um fato. Você pode tá curtindo essa sua brincadeira boba de não falar comigo, ainda sim sou seu pai e você deve obediência a mim.
- Há certas coisas que você não pode decidir por ela, . – Joe interveio. – E dessa vez não tô falando isso pra te irritar. Há coisas que para você não importam, mas algumas de suas atitudes são constrangedoras para ela. Entendo que esteja preocupado, mas se ela não tá sentindo dor, é porque está bem. – Então Joe voltou sua atenção para mim. – Seja sincera, você se sente bem de verdade?
- Joe. – Pronunciei seu nome com intimidade, como se lhe conhecesse minha vida inteira. – Você acha mesmo que se eu tivesse me sentindo mal, estaria aqui?
- Teimosa do jeito que é, sim. – respondeu.
Rapidamente olhamos para ele.
- Mudou de nome, foi? – Joe perguntou, sarcástico.
- Deixa. – Eu falei. – Teimosia é algo que vem de família.
- ! – repreendeu. Eu mantive-me em pé.
- Então, Joe. Vai me ajudar ou vou ter que manquejar até o campo? – Perguntei, agora perdendo minha pouca quantidade de paciência.
- ! – estava bravo.
- Mocinha, sei que não quer ir na cadeira de rodas, mas se eu ajudá-la, vai ficar extremamente irritado e não vai jogar direito. Por favor, apenas sente-se e o deixe lhe conduzir. – Pediu Joe.
- Só usa cadeira de rodas pessoas que não podem andar. – Eu comecei.
- Você não pode. – Interveio o moreno.
- Não corretamente, mas ainda assim posso. Eu quero ir andando. Não vou me sentar na cadeira e também não vou deixar ninguém me carregar.
- ! – Se eu pudesse escolher uma palavra para definir , seria emputecido para caramba.
Virei-me para ele.
- Não! – Eu disse com a cara neutra. Já que ninguém iria me ajudar, eu faria tudo sozinha.
Eu comecei minha caminhada de lesma, seguindo pelo mesmo caminho que Joe veio. Eu estava decidida sobre entrar naquele lugar com meus dois pés no chão, quer dizer, um pé e parte do outro. Poxa, eu só tinha alguns cortes na palma, não era como se o tivessem amputado. Custava entender que eu não era uma boneca de porcelana?
- ! – Advertiu ele outra vez. Confesso que senti meu corpo ficar tenso com o tom que ele usou, mas queria mostrar a ele que o fato de ser meu pai, não significava que era meu dono e que comandava minha vida, ou que me movia de acordo com suas vontades. Sua função era apenas me auxiliar, não tomar as decisões por mim.
- . – Joe pediu. – Deixa.
- Mas...
- Deixa ela.
Eu não ousei olhar para trás e continuei firme e forte, não tão forte, mas mesmo assim. Os homens não me seguiam e não era preciso me virar para ver se eles ainda estavam lá, parados. E o meu plano era manquejar sem ser interrompida por ninguém até, sei lá, o vestuário deles. Não me culpe por não saber para onde ir, era minha primeira vez ali. E não me culpe também por querer respirar ar livre. estava me sufocando com toda aquela preocupação desnecessária. O fato é que a perna do pé não machucado começou a formigar, e logo em seguida veio a câimbra. Eu estaquei no lugar, sentindo a pseudo dor se alastrar por toda parte. Pus a mão no rosto para tapar a careta que tinha certeza que estava fazendo, tentando ao máximo não me apoiar no pé cortado, ou não cair. Mãos em minha cintura, suspiros pesados no meu pescoço. Deus! Eu arrepiei inteiramente ao senti-lo tão perto, e como se ele tivesse algum poder sedutor apenas com o cheiro, me enfeitiçou, deixando meu corpo mole. Minhas pernas bambearam e eu caí nos braços dele.
- , meu Deus. O que foi isso? O que você tá sentindo? Joe, Inseto. Me ajuda aqui. ? ? – Chamava. Só de ouvi-lo mencionar meu nome, era como se cargas eletrizassem meu corpo. Era gostoso ouvir a palavra sair de sua perfeita boca. Ahhhh, como meus dedos queimaram para lhe tocar a barba por fazer tão sexy que lhe definia o maxilar. – Minha filha... Responda algo.
Fala sério, cortou o clima.
- Desculpe, . Eu estou me sentindo bem. Eu realmente me sinto bem mesmo. – Repeti quando ele arqueou a boca para mim, em sinal de descrença. – Eu só tive câimbra, daí veio a dor que paralisou a perna toda. Desculpe.
- Tá vendo o que aconteceu? - Resmungou começando a ficar vermelho. – E se eu não tivesse aqui, hein? E se eu... – Lhe calei pondo uma de minhas mãos em sua face, afagando-a. Os pelos mais duros fizeram cócegas na minha palma e eu sorri ao senti-lo. Rapidamente seu olhar feiticeiro capturou o meu, e parecia que nós novamente estávamos mergulhando em uma dimensão completamente particular e só nossa. fechou os olhos, curtindo o meu carinho, e eu, claro, me deliciei com a cena.
- Me perdoa? – Eu pedi, manhosa. – Eu realmente não queria que isso tivesse acontecido, . Eu só estou... querendo um pouco de liberdade. Você está me... – Engoli em seco. – Sufocando com toda essa sua preocupação. Entendo que nunca passou por isso, e sei, de verdade, o que está sentindo, mas precisa me deixar respirar um pouco. Por favor. - me olhou profundamente nos olhos, parecendo perdido em minhas orbes azuis. Sua mão caiu suave sobre meu rosto, traçando círculos. Eu sorri para ele para fazê-lo desfazer a carranca séria que sua face revestia. Sua expressão aliviou-se, e ele assentiu para mim, confirmando que concordava com o que eu lhe tinha acabado de dizer.
- Me desculpe. É como você disse, eu nunca passei por isso e eu não sei o que fazer. É uma coisa que tem dentro de mim que me faz ficar extremamente preocupado com você, há uma vontade sem controle que me deixa assim, inquieto a ponto de parecer um neurótico obsessivo. Eu não sei controlar, então você terá que ter também um pouco de paciência comigo. Eu posso tentar me acalmar um pouco, mas você tem que me ajudar, não me desafie, eu nunca fui desafiado, e eu perco a paciência facilmente com você, já deve ter percebido, né? – Eu assenti. – Eu não faço por mal, . Eu só quero teu bem.
- Eu sei disso. – Concordei. – Mas você tem que manter a cabeça fria um pouco mais, senão seus neurônios irão fritar todos.
Com minha última fala, fiz com que a tensão sumisse e voltasse a ficar descontraído. Seu sorriso fez com que o meu crescesse ainda mais e eu me senti – de alguma forma – tão privilegiada por tê-lo em minha vida. Foi bem estranho esse sentimento, porém resolvi ignorá-lo, como fiz com o meu coração que batia tão rápido no meu peito, que parecia que ia atravessar a pele que o cobria. Era como se eu estivesse me enamorando ainda mais por . Era errado, de fato. Ele é meu pai, sobretudo eu não podia controlar o que meu corpo experimentava quando ele estava muito perto. Como meu amigo, Juan diria, era “muy loco” e sem descrição. Eu só tinha que manter aquilo guardado só para mim. Enquanto o segredo estivesse em minha mente e longe da ponta da minha língua, eu estava segura.
- Vamos? – Convidou-me ele. – Eu tenho nove jogadores soltando fogo pela venta por causa do meu atraso. – Eu assenti, ainda mantendo o ridículo sorriso de orelha a orelha. – Vai sentar na cadeira agora?
- Uhum. Acho que não tem nada de mais em parecer uma coitadinha machucada. – Brinquei.
- Há um lado bom em parecer uma coitadinha machucada, sabia? – Eu neguei. – Todos se sentem comovidos e te fazem sentir como uma rainha com o tratamento que te dão.
Joe apareceu atrás de nós empurrando a cadeira até mim para que eu sentasse, e assim eu fiz.
- Você já passou por algo assim? – Perguntei a meu pai que começava a me conduzir.
- Já. Foi bem legal ter pessoas fazendo tudo o que eu queria.
- Ele achava que éramos escravos. Usou e abusou de nós. – Joe intrometeu-se na conversa.
- Quem te chamou aqui? – rebateu afiado.
- Ninguém. Eu me meti por quis e cala a boca que eu tô falando com a tua filha.
- Me bate logo.
- Pede que eu faço com o maior prazer. – O moreno rapidamente retrucou.
- Inseto. – Resmungou .
- Inseto que você ama, não é verdade?
Ouvi meu pai suspirar, como se o que ele iria dizer fosse uma confissão seríssima.
- É verdade, cara. Eu te amo muito. Mas você perdeu seu lugar no pódio para mocinha aqui.
Eu sorri e olhei para Joe, que me lançou um olhar meio enojado e cheio de inveja.
- Essa menina só veio roubar o meu lugar. Ladra com megahair.
- Hey. – Eu protestei. – O meu cabelo é natural, meu filho. Não tem aplique aqui não.
Joe revirou os olhos, como só os gays sabem fazer.
- Isso é o que você fala. Quando metade dele estiver no ralo do banheiro vamos ver quem está falando a verdade. Rum. – Empinou o nariz, todo, todo. – Veio só tirar o meu loiro de mim.
Eu ri novamente.
- Essa conversa tá bem estranha, hein. Né melhor parar? – propôs.
Joe curvou-se sobre a cadeira e pôs a mão na boca como se ele fosse me contar algum segredo, só que ele estava falando alto para o amigo escutar também.
- Eu e seu pai temos um caso, só que ele não gosta de contar para ninguém. Não diz para ele que eu te contei isso. É segredo. Boca de siri, amiga. – Eu ri e fiz menção a passar um zíper na minha boca.
Aos risos, entramos no pequeno estádio. Joe conversava com sobre algo que eu não dei muita importância em escutar. Na verdade eu estava imersa em meus próprios pensamentos. Como posso ter mudado todos os conceitos que eu tinha sobre em apenas quase dois dias? Eu o odiava, não era? Para onde aquele ódio todo foi? E por que agora eu sentia coisas estranhas por ele, coisas que uma mulher sente por um homem? Na verdade nem parecia eu de verdade. Eu parecia outra pessoa, com hábitos novos a seguir. Será que eu iria acostumar com essa nova vida simples, sem flashes, câmeras, mídia, e outras coisas? Eu realmente estava preparada para essa nova etapa? Sinceramente eu esperava que sim. E foi nesse momento que eu prometi a mim mesma que iria tentar realmente me adaptar a este novo estilo de vida. Eu viveria intensamente e me abriria para tudo que eu não me permitia como uma quase famosa. Eu queria amar, queria encontrar alguém que me apresentasse os sentimentos intensos que a paixão nos oferece. Queria amigos leais que estivessem sempre ao meu lado, me apoiando em qualquer decisão que eu tomasse. Na verdade eu queria uma vida de verdade, e diante de mim estava a grande oportunidade de experimentar isso. E eu faria com todo gosto. Sim, eu irei fazer só para saber como é.
Saí do meu estado de divagação quando parou de empurrar a cadeira. Seu toque suave sobre meu ombro me fez voltar minha atenção para ele.
- Querida, você não pode entrar no vestiário dos meninos. Tudo bem se você ficar um tempo sozinha enquanto nós trocamos de roupa?
- Não, tudo bem.
- , leva ela logo para o campo. De qualquer forma ela não irá poder entrar com a gente. – Joe propôs.
- E eu a deixo aonde? – retrucou.
- Perto da arquibancada. É lá que ela deve ficar.
- Mas e se algo acontecer e... – começou, mas rapidamente lhe lancei um olhar repreensivo.
- Você prometeu manter a cabeça fria. – Disse eu, ainda o olhando.
Meu pai suspirou, resignado. Olhou para o amigo e depois para mim novamente.
- Certo. Mas você vai me prometer que vai me mandar algum sinal se estiver sentindo dor.
- Entendido, Capitão. – Falei grosso, batendo continência. Os dois homens riram, mas logo em seguida rolou os olhos.
- Vamos lá, engraçadinha.
- Te vejo no jogo, . – Joe falou enquanto meu pai me empurrava para o ar livre do estádio. Nós fomos em silêncio até o lugar que nos fora indicado. Ao chegarmos, vi várias pessoas empoleiradas na arquibancada. Nenhuma delas me notou, apesar de eu parecer aparentemente paraplégica. É até bom que eu não chame a atenção mesmo. me ajeitou de forma que eu podia ver todo o campo.
- Aqui está bom pra você? – Perguntou ele.
- Oh, sim. Eu posso ver bem. – Sorri.
- Promete mesmo que vai me avisar se sentir dor?
- Claro que sim.
me examinou como um gavião.
- Certo. Vou confiar em você. Fica bem, viu?
- Uhum.
Antes de ir, ele me deu um beijo no topo da cabeça e se afastou lentamente. Eu suspirei, ainda acompanhando sua partida, até que ele cruzou o salão esportivo e desapareceu do meu campo de visão. Sozinha, eu voltei minha atenção ao lugar. É bonito, tem áreas verdes e dois lados de arquibancadas, onde o campo fica no meio. Estava havendo um jogo onde os jogadores se dividiam em cores vermelhas e amarelas. O placar de pixels indicava 2 x 0 para o time Survivor’s. Como ainda não era a equipe de a jogar, eu resolvi mexer no celular, afinal futebol é uma coisa pela qual eu não me interesso.
Quase meia hora depois uma nova partida está prestes a começar. Eu olho para o lado e vejo o time do meu pai entrando. Eles vestem preto e laranja e seu título é Black Tiger. Todos parecem concentrados, e alguns começam a se aquecer. Por um minuto meu olhar cruza com o de . Ele está sério e me observa como se tentasse me ler. Sorrio para ele para mostrar que estou bem. Ele não retribui o sorriso, porém faz um movimento com a cabeça e se vira. Ao lado oposto ao que eles estão, entra o time rival Lions of Independence em cores azul escuro e verde limão. Todos começam a se preparar para dar início ao jogo.
O juiz chama os capitães de ambos os times para que venham tirar a moeda e decidir quem fica com a bola. Joe e outro atacante vão até o juiz, que fala algo com eles, depois joga uma moeda para cima e a deixa cair. O time oposto fica com a posse de bola, então o jogo se inicia. Eu não sei porque, mas meu coração começa a acelerar de nervosismo. Até parece que é eu que tô jogando lá.
Nos primeiros quinze minutos estava tudo bem, até eu descobrir que o jogo era de apenas 30 minutos, tanto para o primeiro tempo, como para o segundo, e nesse curto espaço os adversários do time de marcaram pesado Joe, por ele ser atacante. A única coisa que eu sabia era que para ganhar a partida, os times tinham que fazer no máximo dois gols, e eu, obviamente torcia para que o Black Tiger metesse logo um gol para aliviar no segundo tempo. Sobretudo não foi isso que aconteceu. O primeiro gol foi do outro time, ao final do primeiro tempo. Eu já fiquei super preocupada. Não queria que perdesse. Na rápida pausa que tiveram, mandou um joinha para mim, e eu respondi da mesma forma. Joe também me olhou e fez uma careta engraçada, me fazendo rir. Contagiada por sua alegria, eu gritei para ele:
- EU ACREDITO EM VOCÊS!
- OBRIGADO! – Respondeu o moreno, fazendo com que alguns caras que estavam próximos a si me olhassem. Eu sorri para Joe e baixei a cabeça, mas vi quando um dos homens cutucou o amigo de meu pai e falou algo. Joe balançou a cabeça fez um movimento estranho com a mão. Eu não entendi, mas fiquei de boa.
O juiz apitou para dar início ao segundo tempo. Todos entraram em campo, e a posse de bola ficou com o time oposto. Esse era o momento para o time de virar a partida, e se eles quisessem ganhar, teriam que jogar com mais garra.
Eu acompanhava tudo em silêncio, mas não consegui evitar xingar a mãe de um jogador por ele ter atacado o fazendo cair. Gritei “falta”, mas ninguém me escutou. Bem, eu não manjo dessas porras aí. Não me julgue por ser leiga no quesito futebol. pegou a bola e a levou para o campo do rival, ao chegar próximo a trave, ele tocou para Joe que conseguiu finalmente fazer um gol. Eu enlouqueci batendo palma e gritando que nem louca que eles eram os caras. Agora era mata-mata. Estavam empatados e bastava fazer um gol para definir o vencedor daquele jogo. Eu não sei quanto tempo se passou, mas em determinado momento, um jogador do Lions of Independence deu carrinho em Joe, e o pobre caiu segurando o joelho, parecia sentir dor. O juiz parou o jogo e verificou o que tinha acontecido. O executante do ato tomou cartão amarelo e o time de Joe ganhou pênalti. Para batê-lo, foi escolhido. Eu comecei a tremer inteira, queria que ele acertasse aquele gol, embora ele estivesse um pouco distante da trave. se posicionou. Eu estaquei no lugar, pondo as mãos no rosto. se preparou, eu segurei a respiração. olhou para o gol, eu senti borboletas batendo asas no meu estômago. chutou, eu fiz figas. fez o gol. Eu fui a loucura gritando ensandecida. Era isso. Black Tiger havia ganhado e estavam comemorando loucamente. Joe correu em direção a e ambos se abraçaram, então olharam para mim e fizeram reverencia. Eu sorri, doida para correr até onde eles estavam e participar daquele momento feliz, só que se eu fizesse isso, a alegria do meu pai acabaria rapidamente, por isso mantive-me quietinha no meu lugar. Como se sentisse minha euforia, largou o moreno e veio até mim, ajoelhando-se em minha frente. Pegou minha mão direita e a levou aos lábios, beijando-a no dorso.
- Esse foi para você. – Disse ele, parecendo um menino que acabou de ganhar seu doce favorito.
- Vocês jogaram super bem, . – Falei alegre também.
- Eu só joguei bem assim por você.
- Woontch. Assim eu fico vermelha. – Corei.
- Linda. Você me deu sorte. – Sem palavras, só pude sorrir e enrubescer ainda mais. – Te trarei em todos os jogos, você será meu amuleto da sorte.
- Que honra. – Sorri.
- Vou lá com os rapazes, depois volto para te pegar ok. Prometo não demorar. – Assenti. me deu um beijo na testa e correu em direção aos outros dez que estavam saindo do campo para que outra partida começasse. Felicíssima, eu bati uma selfie sorrindo e a postei no instagram com o título: “Felicidade é você ver o outro feliz e se sentir contagiada por tá perto dele. Salve mundo. #Feliz #Vida #Nova”.

...

- Meu Deus. Eu tô morto. Só quero deitar na minha cama e dormir. – chiou jogando-se no sofá. Eu permaneci em pé, apenas o olhando. Havíamos acabado de chegar em casa, e ambos estávamos esgotados. Depois que saímos do campo, fomos comemorar a vitória do Black Tiger em uma pizzaria. Conheci os outros rapazes, inclusive Peter, o cara que falou com pela manhã. Todos foram agradáveis comigo e não houve aquela tensão por eu ser a única menina no meio de trintões lindos e sarados. Eu me senti como uma Rainha, tendo em seu harém só homens gatos. Já pensou se eu pego todos eles? Espera. Nem todos. Joe não... Quer dizer... Joe é um negro lindo, saradaço. Pena que é amigo do meu pai. Falando sério... eu pegaria todos eles, inclusive meu pai... mas, psiu... Isso é segredo. Ninguém pode saber.
- Eu também tô com sono. Acho que já vou subir para dormir.
- Mas já? Pensei que nós íamos conversar sobre o seu primeiro dia na escola e do que você achou do jogo e da rapaziada. – Meu pai sentou-se no sofá, olhando-me com cara de cachorro pidão. Eu até ficaria ali com ele, conversando até o amanhecer se ele quisesse, só que meu sono falava mais alto e depois de um dia bem corrido, eu merecia descanso né?
- Desculpe, . Eu realmente tô muito cansada. Isso fica pra amanhã, tá?
- Uhum. Você quer que eu faça alguma coisa?
- Não. Eu vou escovar os dentes e vou subir.
- Precisa de ajuda para subir as escadas?
- Não, eu consigo subir sozinha. Não faço muito esforço quando me equilibro no calcanhar.
- Tem certeza?
- Tenho. – Assenti.
- Certo. Eu ainda vou fazer algumas coisas na cozinha. – levantou-se e veio até mim, dando-me um beijo no rosto. – Boa noite, querida.
- Boa noite. – Eu sorri. – E obrigada por hoje. Foi bem legal.
Sorrindo de lado, me lançou um olhar terno.
- Que bom que gostou.
- Até amanhã.
- Até.
E assim meu pai deixou a sala e rumou a cozinha. Eu fui para o banheiro, fiz o que tinha que fazer e subi para o meu quarto. Até que foi fácil subir sozinha. Eu estava feliz porque finalmente estava aprendendo a me dar espaço, e eu acredito que depois desse dia, a intimidade entre nós ficará mais forte. O lado ruim disso é que, quanto mais a intimidade crescer, mais os meus sentimentos imundos se expandirão. Por enquanto eu ainda posso controlar... e quando eu não puder mais?

Capítulo 10 - Intimidade

É seis horas quando o alarme toca, despertando-me de meu sono pacífico. Abro os olhos, ainda grogue e me aperto mais contra as cobertas quando o frio da manhã tenta açoitar meu corpo. Ao me espreguiçar, arqueio o pé sem querer e acabo me arrependendo malditamente pelo feito, pois o movimento fez com que algo começasse a latejar fortemente. E são as dores que me levam a relembrar o que aconteceu no dia anterior. O primeiro gemido sai abafado pelo travesseiro. O segundo, soa um pouco mais alto. Eu tenho que fazer algo para que aquilo pare de doer, mas o quê? Será que consigo me levantar e ir até o quarto de ? Só tentando para saber.
Com extrema cautela, ergo-me sobre meus braços até ficar sentada. Ponho os pés para fora da cama, mesmo que o direito continue doendo muito. Assumo que dá vontade de chorar, mas como não quero passar por bebê chorona de novo, limito-me apenas a morder o lábio inferior na expectativa de que aquilo diminua um pouco mais a ânsia que quer se libertar. Empurro-me para cima, até que eu esteja ereta, com o peso sobre apenas o pé esquerdo. Tento dar um passo apoiando o direito apenas na região do calcanhar, e aquilo dói como o inferno, porém sei que não posso desistir. Ou eu tento ir até a porta de para que ele me ajude ou eu fico sentada, sentindo dor.
Escolho a primeira opção.
Buscando forças de sabe-se lá onde, eu começo o meu lento trajeto até a porta do meu quarto. A dor se intensifica, no entanto não é tão forte como ontem, logo quando me feri. É algo mais ameno, mas que ainda me faz querer soltar rios pelos olhos. Começo a dar passos mais largos, mesmo que doa mais, afinal, quanto mais rápido eu chegar do outro lado do corredor, mais rápido tomo remédio, mais rápido a dor some. Quando, por fim, concluo meu caminho, bato na porta do quarto de esperando que ele não demore muito para me atender. Só eu sei o que estou sentindo, e cara, não é uma coisa que eu desejaria a alguém. Alguns segundos se passam, até que a passagem é aberta e um corpo entra em meu campo de visão. Ao meu ver, meu pai rapidamente arregala os olhos, após ler minha expressão facial.
- O que foi, ? - Questiona ele. Suas grandes mãos em torno dos meus braços. Uma delas sobe para o meu queixo, o qual ele ergue para que eu o fite nos olhos. Ao criarmos contato visual, algo dentro de mim aquece, mandando ondas de calor para todas as partes do meu corpo, e envolvida por essa estranha sensação, eu não consigo conter as lágrimas que explodem para fora dos meus olhos, delatando a clara aflição.
- Tá doendo. - Eu murmuro, me sentindo novamente como uma criancinha. Limpo os olhos molhados, então sinto quando enfia uma mão por debaixo das minhas coxas e me suspende no ar, carregando-me no colo, me levando mais para dentro de seu aposento, onde me deita sobre a cama e ajoelha-se no chão, para só então pegar meu pé ferido afim de verificá-lo.
- O que aconteceu, querida? - Indaga, cobrindo-me com seu olhar intensamente azulado. Seu rosto está um pouco amassado e sonolência lhe define. Algo dentro de mim aperta enviando calafrios deliciosos por todo o meu corpo. Abaixo o olhar, com receio de que ele possa ter percebido algo.
- Acordei com o alarme e esqueci que tinha cortado o pé. Deu um choque quando o arqueei, depois senti a dor. Não queria te acordar a base de gritos, por isso manquejei até sua porta. - Respondo, mexendo em meus dedos cruzados sobre meu colo. Arrisco um olhar em sua direção, pegando-o a me fitar com o rosto levemente irritado, então ele suspira pesadamente. - Você vai brigar comigo? - Questiono, tão mansa quanto posso.
- Eu deveria, mas não vou. Essa sua carinha de doentinha faz meu coração ficar mole. - Diz ele, tentando parecer durão embora não dê muito certo. - Vou lá em baixo buscar os remédios, aí farei um curativo novo, tá legal? - Anuo. - Já volto. - Ergue-se e sai, sumindo ao dobrar o corredor. Eu jogo meu corpo para trás, caindo maciamente sobre sua cama extremamente confortável. Como ainda faz frio e eu apenas visto um conjunto curto de camiseta e short, procuro por seu lençol para me cobrir, onde o jogo por todo meu corpo, incluindo a cabeça. Arrependo-me pelo ato impensado, pois seu cheiro rapidamente me impregna por todos os lados. É um cheiro de suor másculo, não desagradável, misturado a um perfume amadeirado e forte. Algo belisca minha região pélvica e sinto pequenos choques em pontos sensíveis da minha intimidade. Assusto-me. Que porra foi essa? Ainda espantada, resolvo verificar algo. Com cuidado, encaminho minha mão para a área sul do meu corpo, enfiando-a por dentro do short e calcinha. Mordo os lábios e a levo ao meu sexo, sentindo meus dedos úmidos pelo liquido que escorre de dentro de mim. Oh, gosh. Me excitei com o cheiro de macho do meu pai! Receada em ser pega em flagrante com a mão lá naquele lugar, retiro-a, levando a boca para tentar tirar algum cheiro que possa ter ficado. Li em algum lugar que os homens podem sentir os feromônios das meninas, e eu, definitivamente não quero que sinta os meus. O meu gosto é doce e não é forte. - Voltei. - Assusto-me, rapidamente colocando a cabeça para o lado de fora do lençol, sorrindo sem graça por vê-lo com a testa franzida ao me ver daquela forma, enrolada ao seu cobertor. - O que foi? - Indaga, confuso.
- Nada. - Dou de ombros. - Só estava com frio, e me embrulhei.
- Oh, não, não, não. Continue do jeito que estava, não me importo. - Interfere quando começo a jogar o edredom para longe. Eu me cubro de volta, deixando exposto apenas do meu joelho para baixo. se senta no chão e começa a retirar todos os utensílios que precisa para limpar o meu corte. - Se doer, me avise, tudo bem?
- Ok. - Balanço a cabeça, mesmo que ele não veja. Após alguns segundos, sinto-o passar extremamente cauteloso o algodão embebedado de antisséptico no meu ferimento, pelo cheiro, suponho ser água oxigenada. Arde um pouco, mas não é tão forte a ponto de causar dor.
- Sente algo? - Questiona com a voz morna.
- Nop.
- Certo, agora vou passar o iodo e a pomada.
- , eu posso ir para a escola? - Questiono fitando o teto forrado em madeira. É o meu segundo dia, não posso faltar.
- Mas nem se chovesse ouro. - Ele me corta, continuando com seu trabalho.
- Mas, ... - Começo, com o tom já começando a ficar choroso.
- Nem , nem nada. Tá machucada, não pode andar direito e acordou sentindo dor. Não vou arriscar te mandar pro colégio sabendo que tem algo de errado com você.
- E se eu tomar remédio e a dor passar? - Ergo-me sobre os cotovelos, mirando-o.
- Não, . Você não vai. E além do mais, você tem atestado médico, ou seja, sua falta será justificada. Depois eu vou lá levar o documento e se você quiser ir, vai ter que esperar no carro. - Pelo tom que usa, deixa claro que não está disposto a colaborar comigo e aceitar o que estou querendo. Amuo, sentando-me e cruzando os braços em forma de birra. - Começou com a criancice de novo.
- Por que você é tão chato? - Indago, levando meu pé para longe de seus cuidados. ergue a cabeça em minha direção, com clara impaciência lhe tomando a face.
- Me dá esse pé pra cá, . - Exige com as feições tensionadas.
Eu guardo o meu pé para dentro do lençol, mesmo que o movimento o tenha feito doer, e o encaro com audácia.
- Não. Eu posso fazer isso sozinha. Sai.
- . - Adverte, o tom perigoso.
- Só se você deixar eu ir para a escola.
- Você não vai. Já disse isso.
- Se não deixar, nunca mais falo com você. Estou avisando. - Advirto novamente. Minha impaciência começa a se manifestar, junto com sua amiga, a irritação. Tenho plena consciência do meu cenho franzido, assim como o maxilar travado, que reflete as feições de .
- É um risco que eu vou correr. - Rebate sem dar relevância a minha ameaça, então levanta-se, onde lança sobre mim um olhar gélido, e arrisco a dizer, apavorante. Estremeço interiormente, e mordo os lábios para conter o gemido de apreensão. O movimento não passa despercebido pelo meu tutor, que em resposta, apenas engole em seco, puxando uma profunda respiração. Quando dá um passo em frente, eu me encolho sobre a cama, receada sobre o que ele fará comigo. Será que vai me agredir?
- E-eu estou ferida, por favor, não me bata. - Eu peço amedrontada. O lençol está sendo firmemente apertado pelos meus dedos frios e tremulantes, embora eu saiba que ele não servirá de barreira caso queira me flagelar.
O homem fecha os olhos com aborrecimento, depois passa a mão na face de modo exasperado. Vira de costa, caminha até próximo de sua janela e espalma a mão sobre a vidraça. Observo-o sem esboçar nenhuma reação, mesmo porque se eu tentasse algo eu não iria muito longe com um pé machucado; A baixa temperatura chama a atenção do meu corpo, e eu me retraio mais contra as cobertas, na esperança de que elas me aqueçam, embora o calor maior esteja bem lá, na minha "área de diversão".
- O que te faz pensar que eu teria a coragem de atacar você? - Assusto-me ao ouvir sua voz alta e dura. As palavras fogem de minha boca quando a abro para responder, e de alguma forma, tenho a estranha sensação de que estou encolhendo devido ao pavor que me percorre lentamente.
- De-Desculpe, mas é que eu... eu não te... - Engulo em seco. - Não te conheço.
solta uma risada seca, sem um pingo de humor.
- Isso te faz me imaginar como um monstro? - Seu (https://31.media.tumblr.com/575d42ea435e2a92b454662dbe14efe5/tumblr_inline_nl0443ixiD1s7uza1.gif) olhar é intenso quando ele me fita, calando-me novamente. Eu estou presa em sua rede hipnótica, impossibilitada de exercer qualquer ação, por mais simples que seja. Nem consigo piscar, mediante o que ocorre. É tão... Avassalador. Passo a língua sobre o lábio inferior para umedecê-lo devido ao fato de ter ressecado rapidamente sob o mirar fatal que eu recebia. - HEIN? - Salto ante sua exigência.
Ele não é um monstro, pelo contrário, é um homem bom. Está sempre preocupado querendo me ajudar, e tudo que recebe em troca é infantilidade e chateação da minha parte. Ajo como uma criança birrenta de dez anos consigo, testando segundo a segundo sua paciência. Acho que está na hora de eu dar um tempo.
Envergonhada, abaixo olhar para demonstrar meu arrependimento. Sentia este tipo de pesar quando fazia algo que decepcionava minha mãe. Com a lembrança, a sensação de saudade apossa-se novamente do coração, levando-me a ânsia de choro.
- Desculpe. - Murmuro, para só então jogar-me nos braços do pranto, onde desfaço-me em lágrimas melancólicas. Tapo o rosto, sabendo que minha cara está pior que uma maracujá de tão enrugada. Desejo ter minha mãe a meu lado, ou Martin. Ele saberia o que me dizer neste momento de angústia. Quando a lamúria ganha mais força, meus soluços não podem ser contidos, e saem altos com a choradeira desenfreada. Meus ombros só param de balançar quando um corpo grande e quente o acolhe, puxando-os em direção a si. Aninho-me contra , colocando meu rosto sobre seu peito, enquanto ele apenas me abraça apertado.
- Hey, shh. Não chora, querida. - Declara ele no topo de minha cabeça, onde ele deixa um beijo. Passo meus braços pelos seus lados e o envolvo com vigor, deixando que minha lamentação pouco a pouco fosse se esvaindo pelo conforto que eu estava recebendo. - Calma, lindinha. Isso, calma.
- Eu sinto... - Soluço um pouco. - Sinto saudade da minha mãe. - Comento ainda cheia de sofrimento. O ¹amplexo vindo de sua parte intensifica-se.
- Sinto muito, mas saiba que estou aqui, com você, e nunca vou te deixar só. - Naquele instante, encontro em um tipo de bálsamo que preenche uma parcela do buraco que há no meu coração, aberto pela morte da minha rainha. Mesmo sabendo que essa tragédia é algo que carregarei por toda a minha vida, a dor parece não querer ir embora tão cedo, uma vez que ela montou acampamento no meu peito sem dia para seguir em frente. Sei que para que esse incômodo minimize, devo desabafar com alguém, e como não tenho o meu melhor amigo comigo, resta-me apenas o meu pai. Acho que ele pode me ajudar a lidar com a situação.
- Dói tanto, sabe? - Inicio, com a boca colada a sua camisa. Minha voz sai abafada, mas ainda a escuta, porque o sinto assentir. - Eu pensei que essas coisas diminuíam com o tempo, mas vejo que estou errada. Tudo que acontece é que a dor multiplica-se cada vez mais, a cada dia que acordo, a cada suspiro que eu dou. - Pisco, fazendo com que lágrimas grossas despenquem, molhando a camisa de linho que usa.
- Eu sei como é a sensação, . Acredite em mim. Eu não perdi ninguém para a morte, mas... Quando Ella fugiu e levou você para longe, era como se uma parte de mim fosse arrancada cruelmente. Eu morri mil mortes a cada dia por 17 anos, até finalmente você vir para mim. Parece que minha vida está começando agora. - Seu sussurro não passa despercebido. Pega de surpresa pela declaração, meu choro some. Ergo a cabeça - não me importando se minha cara estava inchada - e olho em sua direção. Ele estava completamente diferente de minutos atrás, sem aquela máscara rude, e sim com uma repleta de ternura e amor. Pelos menos foi o que eu interpretei.
- Você me ama? - A pergunta sai de minha boca sem passar pelo filtro do raciocínio. Eu quis me matar quando me escutei, no entanto já era tarde demais para desfazer a cagada. Arrepios atravessam diretamente para a minha intimidade quando as mãos de sobem para o meu rosto, localizando-se em cada bochecha. Ele força um olhar direto, construindo aquela clima que eu só posso descrever como sensual, por mais que não parecesse isso para ele, então suspira antes de responder.
- Eu amo você mais que tudo na vida. E esse amor pode parecer estranho, mas eu o sinto bem aqui. - Espalma sua mão contra o coração. - E cada vez que eu olho para você, ele cresce ainda mais.
O que uma pessoa normal faria após escutar esse tipo de declaração? É óbvio. Ela pularia no pescoço do declarante e lhe tascaria aqueles tipos de beijo comparado a um desentupidor de pia. Todavia, este não era um ato que eu deveria executar, tudo porque, a pessoa na minha frente não era um reles rapaz, e sim, o meu pai. Era doente da minha parte querer espelhar este ato, entretanto era tudo que eu mais ansiava no momento.
Mas não era certo!
Nunca seria!
Era pecado!
E eu tinha que me comportar, afinal, eu não era apenas mais uma adolescente nesse mundão de meu Deus. Eu era uma adolescente famosa, e não demoraria muito para que a mídia viesse atrás de mim, a procura de informações e dos motivos que me levaram a sair de Nova York para viver no interior da Flórida, com um homem desconhecido para eles. Ninguém sabia sobre , nem mesmo eu, mas quando o advogado chegou dizendo que eu tinha que ir morar com o meu responsável, eu exigi que nenhuma informação a meu respeito fosse lançada sobre a sociedade. Minha vida particular só dizia respeito a mim mesma, então eu não queria que eles espalhassem que a minha tutela estava com o cara a quem eu rezava maldições. Claro que os conceitos mudaram, porém, ainda assim, não quero que meu pai vire o alvo de alguns abutres. Ele conseguiu se preservar por 17 anos, agora não será diferente. Só precisamos ter cuidado, e eu, preciso reorganizar a minha vida, talvez regressar a minha cidade natal e dar continuidade a minha carreira.
tem total atenção no meu rosto, com olhos azuis reluzentes de expectativa. Receio que ele possa ver os meus sentimentos sórdidos, por isso, tento nos tirar daquela bolha que inconscientemente entramos, no entanto, mato minha vontade de acariciar seu rosto, fazendo a mesma coisa que ele fez comigo. Por causa do meu movimento, suas mãos caem para meus pulsos, os segurando com leveza. O olho ternamente, antes que o mínimo sorriso se forme em meus lábios.
- Obrigada. - Digo com a voz rouca, devido ao choro, mas também pela sensação de formigamento no corpo por seu contato tão próximo e íntimo. Não há nada mais que eu possa dizer, estou impossibilitada momentaneamente de pensar direito para dar uma resposta melhor. E sem meu filtro para medir as palavras, posso acabar soltando qualquer coisa, inclusive que me senti e excitada por sua pessoa, quase a ponto de lhe roubar um beijo. Este pensamento torna meu corpo mais desejoso de um toque másculo e rude que eu tenho certeza que poderia me dá, mas é claro, não faria, porque não era um maníaco como eu, e eu não pretendia levá-lo para o lado escuro.
Meu Deus, eu vou para o inferno.
- Você é a mulher mais linda que eu já vi. - Declara ele, me pegando totalmente desprevenida. - Até mais que Ella!
O rubor invade meu rosto violentamente, fazendo com que eu sinta vontade de me esconder, e quando vou fazer isso, quando tento me desvencilhar de , ele sorri amplamente me puxando para si, em um abraço desajeitado, mas bem forte. O choque de meu peito contra o seu é algo indescritível e eu não posso controlar meu sistema nervoso que faz com que meus mamilos enrijeçam rapidamente. Só espero que não os sinta, mesmo que eles estejam proeminentes e visíveis. O que fazer para que ele não os perceba? Se é que já não percebeu.
- , meu pé. - Eu digo na tentativa de afastá-lo sem que ele note meus seios, logo, eu posso guardá-los sob o lençol. Ele me empurra gentilmente pelos braços e eu aproveito e me tapo.
- Oh, meu Deus. Me desculpe. Eu... Eu... Esqueci que você estava ferida. - Sua expressão se divide entre preocupação e cautela. Os olhos estavam ainda cheios de ternura e brilho.
- Tudo bem, só... termine o curativo. - Tento sorri, ainda me sentindo acanhada pela ousadia do meu próprio corpo. Eu tenho que aprender a me controlar ou Deus sabe o que vai acontecer daqui para a frente.
- Certo, eu vou... - De algum jeito meu pai está parecendo nervoso, e é aí que noto a vermelhidão em suas bochechas.
OH
MY
GOSH
Será que ele sentiu os meu mamilos?
Oh, céus. Cadê o buraco no chão para eu me jogar lá dentro?
- Toma. - Retiro o pé ferido das cobertas o estendendo em sua direção, e na esperança de mandar aquela sensação de constrangimento para longe, eu continuo. - Prometo te obedecer daqui para frente, claro, quando achar que você tá certo. Mas quando eu estiver certa, nada que fale vai me fazer mudar de ideia, ok? - Sorrio de maneira inocente. espelha minha reação e se inclina sobre mim, dando-me um beijo na testa.
- Estou orgulhoso da sua atitude. - Sorrio novamente, olhando para baixo. - Agora me deixe terminar o que eu comecei, teimosinha.
Um riso irônico escapa dos meus lábios.
- Olha quem fala. Como se você não fosse um poço de insistência e negação.
Sorrindo amplamente, recomeça seu trabalho, mantendo todo o cuidado do mundo. O assisto deslumbrada com sua delicadeza. Seu toque é doce, apesar de eu sentir a pressão no corte. Isso faz com que eu imagine como seria se ele estivesse me tocando no meio das pernas. Huuum, deve ser a melhor sensação do mundo.

__X__

~ Três Dias Depois ~
- And please remember that I’ve never lied. And please remember how I felt inside now honey. You gotta make it your own way. But you’ll be alright now sugar. You’ll feel better tomorrow. Come the morning light now baby. And don’t you cry tonight...(E por favor, lembre-se que eu nunca menti. E por favor, lembre-se como eu me senti agora, querida. Você tem que fazer seu próprio caminho. Mas você se sentirá bem, doçura. Você se sentirá melhor amanhã. Venha para a luz da manhã agora, querida. E não chore esta noite...) - A música é interrompida quando o fone é retirado dos meus ouvidos. É quinta feira e eu estava na cama, escrevendo em meu caderno os assuntos que eu havia perdido desde que cheguei a escola. Quando foi até lá levar meu atestado médico, o diretor foi até a minha classe e pediu que alguém disponibilizasse seu caderno em um empréstimo para que eu me integrasse sobre todas as matérias. Como a única pessoa que se deu comigo no meu primeiro dia foi Emily, ela se ofereceu e o diretor lhe deu meu endereço, e como uma boa pessoa, ela veio me visitar e me passar tudo, desde o início do ano. Colocamos o papo em dia, ela me contou que está gostando de um garoto que trabalha no serviço social com ela e outras amenidades. Apesar de nos conhecermos a pouco tempo, nós estávamos bem familiares, e não demoraria muito para que nos tornássemos amigas. Eu também lhe contei que nunca havia namorado sério ou tido interesse em alguém. Meus relacionamentos eram rápidos e sem qualquer tipo de envolvimento sentimental, e além do mais, depois que estourei nas telonas, eu não tinha tempo para quase nada. Ela riu e disse que se estivesse em meu lugar, faria o mesmo e pegaria quem aparecesse em sua frente, retirando claro, as garotas.
Olho para cima dando de cara com um par de olhos azuis totalmente confusos.
- Oi, ?
- , tem um pessoal aí na frente com uma entrega, no mínimo, peculiar direcionada a você. - Anuncia ele.
- Espera. - Ergo-me da cama, calçando as pantufas fofas.
- Veste um robe por cima do pijama. - Manda. Eu olho para minha vestimenta. É apenas uma regata com a imagem do Bob Marley e um short curto de flanela cinza. Nada muito chamativo porque a camisa era grande e tapava o que eu quase não tinha, que neste caso era o bumbum.
- O que há de errado? - Lhe devolvo. Me observa de cima a baixo, depois tenciona o maxilar com gelidez.
- Tá curto e eu não quero que aqueles caras te vejam dessa forma.
Balanço a cabeça em negação, mas o obedeço. Manquejo até a porta do closet, onde meu robe rosa bebê de cetim está pendurado num cabide.
- Homens e seu ciúme bobo. - Caminho para a porta.
- É preocupação, não ciúme. - Corrigi-me, irritado.
Agora eu gostaria de saber o que foi que eu fiz para ele ficar daquele jeito. Com certeza é bipolar.
- Tanto faz, dá no mesmo. É desnecessário. - Passo por si e entro no corredor rumo a escada. me alcança, passando seus braços por minha cintura na hora de descer os degraus. Seu toque firme envia calafrios para todas as direções do meu corpo, mas eu apenas as ignoro. Não é o momento para eu começar a ter ilusões. - Se já é ciumento desse jeito sem eu fazer nada, imagine quando eu trazer um namorado. - Digo quando chegamos a sala. Seu aperto se intensifica ao mencionar da última palavra. Interpreto que ele não reagiu bem àquele comentário.
- E quem te falou que eu vou deixar você namorar?
Semicerro os olhos em sua direção, que, ao ver minha expressão sorri de modo audacioso.
- É melhor que você esteja brincando. - Rebato.
- Eu tô falando bem sério, . - O sorriso insolente ainda está lá.
Reviro os olhos e abro a porta, encontrando três homens com camisas e bonés iguais. Um deles estava com o dedo no nariz, o que faz com que eu o olhe com certo nojo. No outro lado da rua um caminhão enorme toma quase que completamente a frente da casa de um vizinho.
- Senhorita ? - Questiona o que parece ser o mais velho entre eles.
- Sou eu.
- Somos da transportadora Miller. Fomos contactados pelo senhor Martin Arsher para transportar de Nova York até Flórida City, o seu carro. Isso confere? - Indaga.
- Oh, sim. Martin é meu assessor e eu pedi a ele pra fazer esse processo. - Sorrio de modo afável.
- Ele solicitou o modo expresso, por isso chegamos em quatro dias. Você só precisa assinar aqui... - Ele entrega-me uma prancheta onde um papel impresso está anexado e aponta as linhas onde eu devo assinar. Antes de tudo, leio atentamente para não cair em nenhuma furada, mas não é nada mais que o documento que confirma a entrega do automóvel. Assinalo meu nome completo e antes que eu possa devolver ao homem, o toma das minhas mãos, dá uma rápida olhada e finalmente o entrega ao senhor.
- Esse aqui fica com você. - Me dá outro papel que eu apenas guardo dentro do robe. - Descarreguem, rapazes. - O homem pede fazendo com que os outros dois andem até o caminhão. Eu dou um passo para fora e me segue, dessa vez segurando em minha mão. Nós seguimos até metade do caminho de concreto e paramos à espera dos homens tirarem o meu Lamborghini lá de dentro. Solto a mão de e cruzo os braços, sentindo que era esquisito ficarmos daquele jeito na rua. Alguém poderia interpretar-nos de maneira errada. Então era melhor prevenir do que remediar.
Alguns minutos depois, uma rampa de metal foi inclinada e lentamente o meu carro estava sendo manobrado para fora. Quando este estava bem estacionado na frente de casa, eu saí pulando em sua direção porque sentia sua falta, como se ele fosse uma pessoa. O homem que antes enfiara o dedo no nariz me entrega as chaves e eu já nem me importo se ele é nojento ou repugnante.
- Mamãe sentiu saudade de você, querido. Sentiu sim. - Lhe acaricio a lataria do capô. Sentindo-me feliz, eu giro para chamar , entretanto me surpreendo ao vê-lo com a boca aberta, mirando o automóvel. - Vem, . - O convido. Ele caminha lentamente, então rodeia o veículo negro extravagante, parando ao meu lado. - Ele é lindo, né?
- Você tem um Lamborghini? - Indaga, ainda pasmo.
- Sim, e um Bentley Mulsanne também, mas ele está no nome da minha mãe. Não posso usá-lo até o ano que vem, quando completo 18. Gostou? - Questiono, sentindo a euforia que as orbes azuis de transpassam.
- É lindo. Tenho 30 anos e nunca toquei num desses. Aí minha filha de 17 aparece e me humilha dizendo que tem dois tipos de carros magníficos que são o sonho de consumo de todo homem. - Responde com humor e adoração.
Eu solto uma risada.
- Quer dá uma volta? - Convido.
- Você consegue pisar correto nos pedais? - Rebate preocupado, murchando a alegria que sente.
- Não será eu que irá dirigir. - Anuncio.
me olha com seriedade ao escutar minha última fala. Os olhos brilham de um jeito que eu só vi quando eu o procurei no quarto e ele disse aquelas coisas bonitas para mim. Estava claro a excitação que sentia apenas de pensar na possibilidade de conduzir um carro de luxo como o meu.
- Tá falando sério? - Retruca.
- E eu lá sou mulher de brincadeira? - Coloco as mãos na cintura, encenando falsa indignação. Mal pisco quando me agarra pela cintura me puxando para seu corpo em um abraço impactante. O movimento expele o ar para fora dos meus pulmões e eu me sinto meio sufocada.
- Você é, sem dúvidas, a pessoa que eu mais amo nesse mundo. - E me beija em todo o rosto. Sua satisfação é tão grande que ele mal percebe que acertou o canto da minha boca, num pseudo selinho. Coro em resposta, mas não percebe, pois me ergue sobre os braços fazendo com que eu solte um gritinho agudo. Seguro-me em seus ombros para não cair, enquanto ele me carrega para dentro e sobe as escadas sem esforço algum. Ao chegar ao meu quarto, ele me deixa sobre a cama, ainda sorrindo de modo gigante. - Troque de roupa rapidamente. Eu mal posso esperar para dar uma volta naquela belezinha lá em baixo. - E sem esperar resposta, se vai. Eu rio da sua inquietação e quando vou me levantar para procurar alguma roupa, a porta é aberta novamente. - Esqueci de dizer. Nada de coisa muita curta ou decote.
A porta bate. Eu rosno em resposta.
Oh homem ciumento da porra.

¹Amplexo: Significa abraço.

Capítulo 11 - Desconforto

— Uhuuuuu! — grita enquanto aperta o volante com força. Estamos a uma certa velocidade proibida em qualquer perímetro urbano, mas aparentemente ele não se importa com isso. Os ruídos que o automóvel solta são como músicas ao ouvido do meu pai que tem um sorriso que vai de orelha a orelha no rosto. Está eufórico, exalando excitação (claro, no bom sentido). Eu mordo o lábio inferior sorrindo também, quase de modo apaixonado. Ele é lindo de perfil, principalmente com aquela alegria toda. No entanto, ele é mais sexy quando está em seu modo raivoso. É bem quente vê-lo daquele jeito.
Removo o celular de minha bolsa e clico no aplicativo da câmera. Irei registrar esse momento como o primeiro em que começamos a interagir de um modo bom, como pai e filha, mesmo que eu não o veja dessa forma.
— Olha o passarinho. — Eu anuncio e quando o homem vira em minha direção, eu bato na tela, registrando o sorriso de satisfação mais lindo do mundo. ri.
— Deixa eu ver como ficou. — Pede.
— Espera. — Traço a senha e vou até a galeria, onde seleciono a foto que acabei de bater. Viro o aparelho em sua direção. — Você tá com cara de quem está prestes a entrar numa piscina de chocolate. — Soltando uma gargalhada, ele me dá um piscada de lado.
— Eu amo o seu carro. — Diz .
— Eu também. — Confirmo. — Era o meu sonho ter um desses, então assim que obtive o dinheiro, não perdi tempo e corri para o loja.
— E como sua mãe reagiu sobre isso? — Questiona não me dando sua atenção. Está concentrado na estrada porque apareceram alguns outros carros em sua frente.
— Ela não disse nada, apenas pediu que eu fosse prudente. — Dou de ombros. Na verdade eu nem precisava desse tipo de conselho. Eu sempre muito cuidadosa com as coisas que fazia, e além de ter apreço pela minha vida, eu também tinha pela dos outros. Eu nunca dirigi bêbada, assim como nunca me excedi em relação a bebidas alcoólicas. O mínimo que eu consumia era dois copos, já era o suficiente. Eu sempre fui uma boa menina, com boas notas, sempre mantendo minha mãe orgulhosa, todavia eu não era perfeita e tinha certos defeitos. O bom de tudo era que Ella me dava liberdade, pois eu sabia como lidar com ela, sem nunca ir tão longe a ponto de causar algum arrependimento. Meu lado rebelde veio se mostrar agora, com . Talvez seja uma parte minha que não se acostumou com a ideia de ter um pai, uma vez que no meu inconsciente ele era alvo de toda a minha raiva, rancor e mágoa. Agora que tudo mudou, eu tenho que arrumar um jeito de deixá-lo entrar devagar, sem interferir no que eu já fui no passado. Eu não queria mudar, assim como não queria que ele me mudasse.
— Hey. — Sinto uma mão em meu rosto e ela suavemente acaricia a minha bochecha, depois ela desce para o meu queixo forçando-me a olhar para a esquerda.
— Que foi? — Eu pergunto, ainda tendo a mão de sobre mim.
Sinto-o reduzir a velocidade, indo apenas a 80. Suas cariciais continuam, e ele olha para mim cobrindo-me com seu olhar intenso azulado.
Nota mental: Amo seus olhos.
— Você ficou em silêncio com um olhar vago. Não gosto quando isso acontece porque parece que você se afasta de mim. — Comenta de modo verdadeiro. Mordo o lábio inclinando meu rosto contra sua palma quente, mesmo que ela seja um pouco calejada. Gosto dessa sensação de ternura, é confortante.
— Não é nada demais. Eu só estava avaliando algumas coisas.
— Quer conversar sobre algo especifico? — Sugere com o cenho franzido. Está preocupado. — Prometo não te julgar, ou brigar com você. Só irei te aconselhar como um pai deve fazer.
— Não, eu tô bem. De verdade. Me diz, pra onde estamos indo? — Mudo de assunto, não quero virar alvo de seus olhos especuladores.
— Pensei em te levar pra conhecer meus pais. Não é muito longe, e com essa belezinha aqui, chegaremos bem rápido lá. Quer dizer, só vou se você quiser. Eu ainda posso pegar o retorno e voltar.
Percebo que está apreensivo, por isso trato de acalmá-lo.
— Eu quero ir, mas devo avisá-lo de que meus remédios ficaram em casa.
— Não. Eu os trouxe. Sou um pai precavido. — Sorri de modo gigante como se estivesse orgulhoso de si próprio.
Olho para os lados percebendo que estávamos saindo da área urbana quando a ponta do mar começou a ser vista. Eu observo, curiosa, a praia ao longe e os bancos de areia que tornavam algumas partes daquela imensidão bem clara. E eu tive certeza, que para onde quer que estivesse me levando, era um lugar lindo de deixar o queixo caído. Solto um suspiro nostálgico ao que a brisa levemente salgada atingi minhas narinas. Sinto falta da minha mãe de novo. Ella adorava ambientes praianos, amava tomar sol e pegar aquelas marquinhas, o que combinava consigo por causa de sua pele dourada. Quando ela tinha tempo, viajávamos para Ibiza, ou Havaí ou até o Caribe para termos um tempo juntas. E ela abdicava dos rapazes e as garotas que praticamente lhe comiam viva para me dar atenção. E ter essas memórias me fez lembrar que temos uma residência em Santa Teresa Beach, na Costa Rica. Será que para eu viajar para lá, eu tenho que ter 18? Porque, tecnicamente a propriedade não é minha. Talvez eu deva telefonar para o Martin para saber sobre isso.
— O que é um pontinho dentro de um Lamborghini com a cara de choro mais fofa que eu já vi na vida? — desperta-me de meu torpor com esse questionamento, o que faz com que eu o olhe rapidamente. Eu não respondo, apenas me limito a suspirar. — Eu fiz uma pergunta, caso você não tenha compreendido a interrogação no final da minha frase.
— É que eu vi a praia e lembrei que minha mãe as adorava. Quando eu tinha 15, passamos uma temporada na Alemanha e eu recordo que ela odiava neve, então sempre que tinha um tempo, nem que fosse apenas por uma semana, nós viajávamos para litorais. Eu não sei se minha mãe já viu isso, mas tenho certeza que ela iria adorar dar uma volta por aqui.
— Querida... — solta uma profunda respiração enquanto atrai minha atenção. Sua mão procura a minha, na qual ele cruza nossos dedos de um jeito carinhoso. — Talvez seja a coisa mais absurda que vai escutar de mim no momento, e eu sei que não há um botão para simplesmente desligar isso, mas, por favor, tente não pensar nessas coisas, tente não pensar na sua mãe. Dói? É claro que dói, mas reviver esses momentos só te puxam cada vez mais para o fundo do poço. Memórias não foram feitas para serem dolorosas, foram feitas para que nunca esquecêssemos quem realmente foi importante em nossas vidas.
— Tá, . Mas tenta explicar isso pro meu coração. — Eu digo enquanto viro para frente contemplando a estrada. — E além do mais, é da minha mãe que estamos falando, da mulher que me pôs no mundo. Não é uma qualquer. Eu sou parte dela, vir de suas entranhas e bem... Quando ela morreu, eu perdi parte de mim também, e é lógico que sempre vai doer. Você não sabe como é sentir isso, então ore para Deus conservar sua mãe por mais tempo. Pimenta no olho dos outros é refresco, então... por favor. Se não quer que iniciemos uma briga, não toque mais nesse assunto, tá? Tá recente e é um limite no qual eu não quero que você ultrapasse, certo?
morde os lábios com o pequeno esporro que recebeu, entretanto, não fala nada. Sua mão sai da minha para ir de encontro ao volante. Fizemos com que o momento de euforia se transformasse em tensão, mesmo que inconscientemente. Eu viro para o lado, encostando minha cabeça no vidro. Fecho os olhos e rosto de minha mãe aparece com seu melhor sorriso, o que eu mais amava. Por que o destino é tão cruel às vezes?
Retiro de minha bolsa o celular e os fones, pondo-os no ouvido. Tears In Heaven é a primeira música da playlist da depressão. Eu dou play e fecho os olhos, esperando que aquelas canções me acalmem, mesmo que elas resumam praticamente toda a tristeza do mundo. Sinto vontade de chorar, mas dessa vez sou forte ao prender o choro. Querendo ou não eu tenho que me acostumar a viver nesse planeta sem minha mãe.

...

— Mamãe, eu posso 'fazê' uma 'pegunta'? — Eu olho para mulher com longos cabelos negros, enquanto ela mexe alguma massa em uma panela. Tem cheiro de chocolate e algo mais, no entanto não sei o que é.
— Claro que pode, amor. — Ella me olha sorridente, o que faz com que os cantos da minha boca se repuxem para cima.
— 'Puque' eu não tenho um papai? — Os olhos de minha mãe quase saltam para fora quando ela me ouve. Posso dizer facilmente que ela se assustou, mas a cara que ela faz logo depois deixa claro que ela está com raiva. Será que é de mim?
, por que está me perguntando isso? — Ela larga a panela em cima do balcão e vem para o meu lado, onde me puxa de um jeito meio grosseiro pelo braço. Dói um pouco.
— 'Puque' lá na escolinha todo mundo tem um papai, só eu que não. 'Puque'? — Meus amigos se gabam dizendo que tem o melhor pai do mundo. Que ele brinca com eles, e que canta uma canção para eles. Eu não sei como é ter um pai porque eu nunca tive um. Eu só tenho a minha mãe, por isso acho que eu realmente nasci apenas dela.
Suspirando, Ella segue me puxando até a sala com sua mão apertada em volta do meu pulso. Ela me senta no sofá, depois se ajoelha na minha frente. Suspira diversas vezes antes de falar, então me olha com tristeza.
— Preste bem atenção no que vou lhe dizer, querida. Você não tem pai. O homem que te fez nos abandonou quando soube que você estava viva aqui dentro da barriga da mamãe. Primeiro ele disse que era para que eu te tirasse, que te matasse, mas eu disse que não. Então ele foi embora, e me deixou só para criar você. Seu pai é um monstro e em hipótese alguma você deve amá-lo algum dia, certo? Você tem que odiá-lo por tudo que ele fez com a mamãe. Ele nunca te quis. Ele queria que você morresse então ele não merece o seu amor, ouviu bem, ?

?
— Você promete pra mamãe que nunca mais vai falar desse homem horroroso que nunca te amou? Promete, ?
— Ele é ruim e você tem que odiá-lo para sempre. Você vai entender quando estiver maior. Agora dá um beijo na mamãe e vai tomar um banho. E ...

Abro os olhos, e a claridade machuca um pouco as minhas retinas. Pisco algumas vezes até que eu possa ver claramente. está ao meu lado esquerdo e acho que ele estava tentando me acordar. Olho em volta, para fora da janela e a primeira coisa que vejo é uma imensa árvore florida. É linda. Quando fito o para-brisa, vejo duas pessoas. Um homem e uma mulher. Ela é morena, com cabelos que vão um pouco mais abaixo dos seus ombros, e usa um vestido liso amarelo, com um avental branco por cima. O homem ao seu lado é imenso, e se não fosse os cabelos grisalhos, eu diria que ele era loiro, porém, apesar de tudo, ele ainda parece jovial. Usa a tão clichê blusa xadrez que os homens de interior vestem, e calça jeans com botas também. Ambos estão sorrindo, mas dá para notar nervosismo neles.
— Vamos lá, amor. Eles querem te conhecer. — declara atraindo minha atenção. Já não uso mais os fones de ouvido, então deduzo que em algum momento do caminho até aqui meu pai os retirou de mim. Depois pergunto a ele onde os colocou. Removo o sinto e abro a porta, para só então sair. Olho em volta sentindo-me apaixonada porque tudo ali é verde, branco e porra... Eles moram de frente para a praia! É magnifico. Acho que eu amaria viver nesse lugar. Se eu não estivesse machucada, pediria a para dar um mergulho no mar. — Vem. — Ele pega em meu braço e isso desperta-me do meu fascínio para com a Mãe Natureza.
Eu o acompanho, me sentindo um pouco envergonhada, só não sei a razão. Nós paramos a centímetros do casal. Eu os olhos, e o tamanho do homem a minha frente é tão grande que me deixa intimidada, tanto que se eu quiser olhá-lo, eu tenho que inclinar um pouco mais minha cabeça para trás. está elétrico ao meu lado e seu aperto no meu bícep tem pressão.
— Pai, mãe. Essa é , a minha filha. — Há orgulho em sua voz quando me apresenta e isso me deixa três vezes mais tímida. — Filha, esses são meus pais. Glória e . — Meu olhar sobe para encontrá-los, no entanto sou surpreendida por um par de braços delicados que me puxam para seu corpo. É Glória, que me abraça com tanta familiaridade que é como se fossemos conhecidas a minha vida inteira. O rubor que toma minhas bochechas é violento, entretanto eu apenas retribuo da melhor maneira.
— Queriiiiiiiiiiiiiida, você é linda. — Afaga meu rosto com carinho. Sorrio para ela.
— Obrigada. — Eu olho para o lado e contemplo um com um sorriso tão feliz e imenso nos lábios, que meu coração salta com excitação. É ele que eu quero abraçar nesse momento, não meus avós.
— Meu Deus. Você tá enorme. — pai ou no caso, avô, comenta. Ele me afasta sutilmente da esposa e me segura pelos ombros, numa avaliação completa e minuciosa. — Quanto tempo se passou? — Questiona. A pergunta é direcionada a mim, mas quem responde é o filho.
— 17. 17 anos de angústia e dor, até que finalmente o dia se abriu pra mim. — Diz ele.
"E se você quiser eu também posso me abrir de outras formas para você!" — Meu subconsciente repreende o pensamento, eu apenas engulo em seco. Que merda é essa se passando pela minha cabeça?
O grande homem me abraça e eu temo que ele me quebre devido ao seu tamanho, mas eu só sinto delicadeza em seu aperto. Nos afastamos e eu mordo os lábios olhando para aquelas pessoas que estavam tão contentes com a minha presença, e eu não pude evitar sentir saudades dos meus avós maternos também. Eles eram tão calorosos como os estavam sendo.
— Você tem fome, querida? — Glória me olha com entusiasmo.
— Eu queria ser ‎educada e dizer que não, mas sim, eu tenho fome. — Rio de modo sincero e os outros três me acompanham.
— Certo. Eu fiz bolo de milho.
— Não brinca. Eu amo bolo de milho. — Exaspero e a mulher ri de mim.
— Ótimo. Parece que acertei em cheio. Vamos lá. — Ela caminha para a porta e antes que eu possa segui-la, aparece do meu lado.
— Precisamos ter cuidado, ela tá ferida.
— Já vai começar? — Advirto-o com um olhar bravo. — Pode ir parando.
— O que aconteceu com o pé dela? — avô questiona.
— Fui desatenta, esbarrei na terrina de vidro, a derrubei e acabei pisando em cima dos cacos. Houve dois cortes profundos que precisaram de pontos. Mas eu tô bem. O é que tem neura e fica o tempo todo preocupado desnecessariamente. Dá pra vocês falarem pra ele que eu não sou de vidro? — Reclamo lhe dando um olhar significativo de “eu vou te matar se continuar com isso”.
— O sempre foi uma pessoa extremamente preocupado com tudo. Ele sufocava a mim ou ao pai quando estávamos doentes, era cansativo, mas nos sentíamos amados. Sei que é incômodo ter alguém todo tempo em cima de você, porém, tente lembrar que ele te ama e só quer que você esteja bem. — Glória me explica em voz alta, depois olha para o filho. — E você... Deixe ela respirar um pouco. É insuportável às vezes, e se continuar assim, vai fazer com que ela comece a te odiar, e tenho certeza que você não quer isso, quer?
olhou para seu pai, depois para mim, e eu inclinei a cabeça para o lado indicando que sua mãe tinha acertado nas palavras. Lentamente ele balança a cabeça em negativo.
— Eu só quero cuidar dela. — Ele suspira como se estivesse magoado e isso provoca dor no meu coração.
... — Eu manco em sua direção. — Eu entendo que você quer cuidar de mim, e muito obrigada por isso. Mas preciso de espaço. Você está se tornando compulsivo, quase beirando ao obsessivo e eu não quero isso. Por favor, apenas pare um pouco. — Toco-lhe o rosto e abaixo minhas mãos para seu estômago dividido e duro. Ele engole em seco se perdendo em meus olhos, e por fim assente.
— Vou tentar.
— Promete? — Eu ofereço meu mindinho para ele.
Glória e avô riem.
Seu sorriso cresce.
— Prometo. — Seu dedo enrola no meu.

__X__

— Então eu me lembro de vomitar meus órgãos para fora. Eu nunca mais quis ir naquele brinquedo. — Eu rio quando termino de contar sobre a minha aventura em um brinquedo radical que eu fui enquanto estive em Orlando. Meus avós riem, e continua me olhando com um brilho estranho nos olhos, aliás, ele está assim desde que começamos o jantar e eu comecei a tagarelar sobre as minhas visitas em alguns países e sobre ser fluente em cinco línguas. Ele parecia... maravilhado. Mas eu não saberia dizer se era isso mesmo.
— Eu tenho medo só de olhar esses brinquedos, imagine se eu fosse andar num. Eu iria morrer. — Glória comenta e eu sorrio.
— Eu lembro de um que eu fui quando tinha a idade de . — Meu avô comenta. — Chamava-se Espalha Brasa. Eram um monte de cadeiras de ferro com uma longa corrente, e ele girava muito, até que as cadeiras praticamente voavam na vertical. Era legal.
— Devia ser mesmo. — Eu mastigo a última colher de rabanada, que por sinal está uma delícia. Quando faço menção a me levantar para lavar os pratos, Glória me para.
— Oh, não, amor. Deixa que eu faço isso. — Ela tira o prato da minha mão.
— Glória, é o meu pé que está cortado. A mão tá boa. — Eu brinco e ela sorri.
— Você é visita. Vá para a sala descansar um pouco. — Seu jeito dócil me lembra da minha avó.
Bem, eu não estou cansada, sobretudo resolvo ouvi-la e manco até a pequena sala onde há dois sofás verdes, uma televisão ultrapassada de geração e vários quadros e objetos espalhados por todos os lugares. Eu ando até a janela e ao visualizar a noite lá fora, eu simplesmente surto para querer ir caminhar pela praia e me sentar na areia para contemplar o ir e vir do mar e a lua grande e reluzente no céu. Suspiro languidamente, quase como em uma cena de filme.
— Por que você tá fazendo essa carinha? — O sussurro ao pé do ouvido envia calafrios diretos para a região sul do meu corpo, e eu me arrepio inteiramente. Mordo os lábios, sentindo que a qualquer momento algum gemido enxerido pode sair e não é isso que eu quero.
Respiro fundo, tentando controlar meu sistema nervoso, e quando me sinto apta a abrir a boca, eu respondo.
— Queria ir lá fora, deitar na areia, olhar para o céu e contemplar a lua. Mas não vai rolar.
— Por que não? — Sua mão espalma contra a minha coluna e o calor na região é quase insuportável. Eu me pego imaginando sua mão descendo para o meu bumbum, apertando com vontade.
— Porque você não iria deixar por causa do meu pé. — Eu suspiro confiando que eu não vou gemer de prazer ao invés de falar.
— Você quer ir lá fora mesmo?
Eu me viro para olhá-lo de frente.
— Deixaria eu ir? — Pergunto vibrante.
Seu sorriso vai de orelha a orelha.
— Sozinha não. Se quiser ir, eu também vou junto. — Ele propõe. Como não há escapatória e eu quero muito ir lá fora, eu aceito.
— Tudo bem.
— Certo. — Ele anua. — Vou pegar uma tolha pra sentarmos e um pano para amarrar no seu pé pra não termos problemas com areia na sua ferida. — Concordo. — Oh, mãe? — chama, virando-se para longe. Eu aproveito para soltar a respiração que eu vinha prendendo desde que ele me tocou. Toco o meu peito e sinto o batuque do meu coração acelerado. Rapaz, isso é ruim. — Onde posso achar uma toalha grande? Vou levar até a praia e não quero que ela se suje com areia.
— Lá no meu guarda-roupa, filho. Tá na primeira porta. Pegue a azul porque é a maior. — Glória diz da cozinha.
Vovô aparece na sala.
— Como estava o jantar, querida? — Ele pergunta.
— Uma delícia. Eu amo rabanada. A senhora que trabalhava na mansão da minha mãe sempre fazia pra mim. — Eu vou para perto de si e me sento ao seu lado no sofá.
— Você sente muita falta das coisas que você tinha em New York? — Um olhar sério toma sua face e eu penso a respeito.
— Um pouco. Sinto falta do Martin, meu assessor, e de quando ninguém mandava em mim. Eu era livre pra fazer qualquer coisa, agora não.
é muito autoritário com você? — Há uma sugestão de sorriso quando ele me olha.
— Não, mas ele sempre consegue me convencer a fazer coisas quando eu não quero, às vezes ele me ganha pelo cansaço. Discutir nem dá jeito. — Nós dois rimos.
— Ele vai fazer de tudo pra te dá o melhor, e mesmo que ele pareça chato, ele só quer o seu bem. — Explica.
— Eu sei.
— Pronta? — desce as escadas e aparece na sala com uma toalha grande sobre o ombro e um pano laranja na mão. Ele caminha até mim e se agacha em minha frente. Tira o chinelo do meu pé e começa a amarrar a flanela de modo que o pano cubra o meu curativo na parte de baixo, assim não entrará grãos de areia.
— Pra que isso, ? — Seu pai pergunta.
— Pra não entrar areia no ferimento. — Ele responde após concluir seu trabalho.
— Mas mesmo se ela for mancando, vai entrar. — Alerta o homem.
— Ela não vai andar, eu vou carregá-la. — Seu olhar azul recai em mim numa clara espreita de qual irá ser minha reação. Na certa achou que eu iria surtar e dizer que não, porque eu odiava quando ele me carregava. Só que pensando no meu melhor, eu achei sim que era melhor ele me levar nos braços, assim os meus cortes poderiam ficar longe de infecções e sarar mais rápido. — Ok?
— Ok. — Eu assinto.
— Que milagre você não reclamar do que eu decidi. — Comenta quando eu me levanto e vamos para a porta.
— Eu tô de boa hoje. — Dou de ombros. Eu passo minhas mãos por seu pescoço e ele os seus braços pela minha cintura e pernas. — Você não quer vir com a Glória também, ? — Eu convido meu avô.
— Não, meu bem. Tenham cuidado. , tá levando algo pra prevenir? — Indaga, preocupado.
— Tô levando meu canivete. Não se preocupe.
— Certo. Estaremos olhando de longe.
O percurso que estávamos fazendo seguia silencioso, e por mais que eu tivesse aceitado que ele me trouxesse em seu colo, eu estava desconfortável. Eu sentia como se nós tivéssemos longe de uma relação entre pai e filha, e na verdade fossemos um casal que não se beijavam e nem faziam... Caham... Certas coisas. O problema maior para mim é que conforme o tempo passava, mais aquelas sensações proibidas ganhavam mais intensidade e até poderia não sentir e nem notar nada do que se passava comigo, contudo eu sentia e eu não poderia dizer até onde o meu autocontrole iria. Eu tinha tanto medo de fazer algo que pusesse tudo a perder. E se, por ventura, eu o beijasse? Como é que seria depois, como iriamos reagir? Eu esperava mesmo, do fundo do meu coração que estivesse alheio a esses sentimentos, porque senão.... Cara, eu iria voltar para casa mais cedo do que o predestinado.
— Aqui está bom pra você? — Sua voz grossa quebra a minha linha de pensamentos e eu desperto para a realidade. Olho em volta e o lugar parece ótimo. Apenas balanço a cabeça em positivo. — Ok. Vou te colocar no chão, mas tente manter o pé ferido levantado. Consegue?
— Acho que sim. — Respondo.
Lentamente abaixa minhas pernas e eu me apoio somente no pé esquerdo e tento manter o equilíbrio enquanto começa a estender a toalha sobre a terra. Quando ele termina, me estende sua mão para que eu possa pisar com o pé ferido na toalha. Eu limpo o outro pé com a mão, então me agacho e sento. Imagine qual é a minha surpresa quando meu pai vem para trás de mim e abre as pernas em minha volta, de modo que eu estou em seu meio. Suas mãos forçam meus ombros para trás, para que eu deite sobre seu peito. Mortificada, eu aceito a pressão e me acomodo em seu corpo. Puxo uma longa respiração e mordo os lábios. O desconforto é três vezes maior por eu estar nessa posição com ele.
— Tá tensa. Por quê? — Ele questiona olhando para mim por cima. Eu fecho os olhos procurando rapidamente uma boa resposta, e o ruim é que nada aparece.
— Estou... — Engulo em seco e abro os olhos para si. — Desconfortável desse jeito com você.
Silêncio se estende pela noite quando ele ergue seu olhar para o mar. O luar está clareando a praia, que é completamente banhada por uma luz azulada linda. O barulho das ondas quebrando é um bálsamo porque elas mascaram a minha respiração alta, assim como o meu coração batendo. Eu quero me esconder porque tenho medo que ele leia o meu rosto.
— Por quê? — Ele solta depois de um tempo.
Por que o quê?
— Por que se sente desconfortável comigo? — Ele complementa a questão e eu entro em pane.
O que dizer sobre isso? O que devo responder? A verdade está fora de cogitação.
— Hum... Faz apenas uma semana que eu vim pra Flórida City, e... Faz só uma semana que eu te conheço, e olha como estamos agora. — Eu demonstro. — Parece que já faz mais tempo, e esse vínculo que só cresce a cada dia mais é estranho. Eu me sinto sobrecarregada.
— É amor?
O quê?
Franzo a testa em resposta e me sento, virando meu corpo um pouco para que eu possa olhá-lo de frente.
— Desculpe?
— Esse vínculo a qual você se referiu... É amor? — está sério, e apesar do escuro da noite eu ainda posso ver seus olhos brilhando em minha direção. Pega desprevenida, eu fico mais tensa e retraída, e por mais que eu queira olhar para qualquer lugar naquela imensa praia, seus olhos são como imãs em relação aos meus.
Não era amor que eu sentia por ele. Estava longe disso. Era desejo, paixão... Luxuria. E eu não poderia responder-lhe isso de qualquer maneira.... Ele iria surtar e me julgar infame e doente, e de alguma forma eu não queria perdê-lo porque parecia que ele era a única pessoa que eu tinha.
— Não. — Respondo convicta porque era a verdade. Sinto seus dedos a caminho do meu pescoço, então sobem acariciando minhas maçãs, meu nariz, minha testa, meus cabelos e por fim, meus lábios. O momento é bonito, mas também constrangedor.
— E quando vai ser? — Ele insiste não se abalando, não percebendo que o que ele estava fazendo comigo estava coligado a algo que fazia minha calcinha umedecer.
— Em breve? — Eu propus, afogando-me na sensualidade que só tinha sentido para mim.
— Em breve... Parece muito tempo ainda.
O que ele esperava que eu respondesse depois desse comentário? Eu não tinha nada a falar, e o meu silêncio foi crucial para que a boa relação entre nós não fosse estragada. Estávamos em uma bolha, com rostos próximos, quase prontos para nos beijar e eu queria que isso acontecesse, sobretudo o conflito de pensamentos na minha mente perturbaram-me a ponto de me calar. Eu lutei com todas as forças que eu tinha para conseguir desviar o olhar para longe e me afastar das sensações libertinas que se afloravam em mim, e eu consegui. Eu parei porque era o certo a se fazer.
Eu me afasto e arredo para o lado, deitando sobre os meus braços para fitar a lua. parece avulso, acho que nem ele mesmo sabia o que estava fazendo. Sinceramente, eu desejava no mais profundo do meu âmago que ele realmente estivesse sendo “inocente” em seus atos, porque se de alguma ele esta fazendo aquilo de modo proposital eu estava ferrada. Meu autocontrole não se mantinha tão firme quando estava tão perto, com os olhos focados em mim e as mãos em meu corpo, e para completar tudo, a minha mente se desfazia e se rendia a pensamentos totalmente libidinosos e vil. E cara, eu tinha certeza de que se ele investisse, eu iria aceitar fácil.
Meu Deus.
Eu vou para o inferno.
Do nada se levanta e eu olho em sua direção, e surpreendo-me quando ele remove a camisa, revelando um estômago duro e dividido com ralos pelos e um peitoral definido. Eu me perco naquele pecado em forma de homem e sinto-me úmida quando uma sensação de formigamento começa na minha área íntima. Meu pai enrola a calça jeans até os joelhos e começa a caminhar para longe de mim. Rapidamente me ergo sobre os cotovelos, alarmada.
, mas o que é que você vai fazer?
— Preciso de um banho. Está quente. — E a lua continua banhando-o e eu vejo quando ele entra no mar, e depois se joga contra uma pequena onda. Medo atiça meu corpo e eu temo que ele se afogue, sobretudo mesmo que eu tente reclamar ele não irá me ouvir. Primeiro porque a distância de onde eu estou e ele é considerável, segundo, eu não podia andar até lá por causa do meu pé ferido, terceiro, mesmo se eu fosse, o que eu iria fazer ou dizer?
O certo mesmo era me manter onde eu estava e tentar começar a pensar em uma saída para acabar com esse fogo que eu sentia por . E como se fosse obra de uma entidade divina, algo clareou minhas ideias e eu já sabia o que fazer.
Tudo que eu precisava era de, nada mais, nada menos que um: Namorado!
É isso!
E eu posso arrumar um na escola, deve ser fácil. E para que isso acontecesse, eu iria precisar da ajuda de Emily. Ela já estudava lá sua vida inteira, deveria saber qual garoto era bom, ou não. Quando chegássemos em casa, eu telefonaria para ela e lhe explicaria tudo, claro, omitindo a parte que só estou fazendo isso porque quero ver apenas como meu pai e nada mais que isso.
Eu lanço um último olhar para o mar e vejo o homem a quem tanto desejo boiando sobre a água de braços abertos, olhando para a lua. Eu não vejo seu rosto, está escuro, mas sei e sinto que a expressão em seu rosto não é boa. E se ele viu algo estranho em mim? RWAR. Caio novamente sobre meu corpo e miro o céu negro e por poucos segundos eu vejo o rosto da minha mãe me olhando com desaprovação.
— Sinto muito, mãe. Mas acho que me apaixonei pelo meu pai.
Ao fechar os olhos, uma lágrima escorre e eu mordo os lábios tentando refrear o restante que quer sair. É difícil, e dói saber que estou decepcionando-a, onde quer que ela esteja.
— A culpa não é minha, e eu estou arrependida. Mas eu vou tentar concertar isso, ok? — Eu digo para ela tentando apaziguar a dor em meu peito somado ao peso da culpa que é pesado demais sobre meus ombros.

Capítulo 12 - Dia Estranho

Olho para a rua pela janela do meu quarto, vendo a chuva cair com gotas grossas sobre o asfalto e me sinto no Alaska devido à sensação térmica. É 04h30min da manhã e eu só estou acordada porque tenho que ir para a escola, porém não é esse o único motivo para eu estar de pé tão cedo. A verdade é que eu passei a noite inteira tendo um pesadelo horrível com a minha mãe, onde ela gritava que eu era a pior pessoa do mundo e que tinha vergonha de eu ser sua filha. No sonho, era como se ela soubesse sobre os meus sentimentos por e estivesse louca como o inferno por eu ter deixado tal coisa acontecer e, por mais que eu tentasse lhe explicar que eu não tinha culpa, ela não queria conversa comigo. Ela me chamava de doente, imoral, vagabunda e eu só chorava, sem saber o que fazer para me defender. Eu acordei tão assustada, suada, que quando percebi estava realmente chorando. Levantei ainda atordoada da cama e corri para o banheiro em busca de um banho quente que aliviasse toda a tensão que o mau sonho trouxe. Depois me vestir, arrumei meu quarto (coisa que eu odeio fazer, mas até serviu para ocupar a minha cabeça) e agora eu estou aqui, sentada na janela esperando o tempo passar.
Além do tédio, a culpa se faz presente e em busca de algo que me faça esquecer da noite passada, eu desço e vou para a cozinha fazer café. me ensinou a fazer algumas refeições e o café estava incluso nisso. Ele ainda está dormindo, pois geralmente se levanta quase na hora de eu ir para escola, às 06h15min. Coloco a panela no fogo e espero até a água ferver, o que não leva mais do que cinco minutos, então eu coloco o pó de café no coador e despejo a água fervente. O aroma logo se espalha pela casa e só de senti-lo eu já me sinto um pouco aquecida. Café pronto, parto para o suco de laranja, a salada de frutas, torradas e por último vem o omelete. Quando termino tudo, já são 05h15min. Estou curvada sobre a geladeira aberta para pegar meu iogurte de mamão com banana quando sinto cutucões fortes em ambos os lados da minha cintura. Me ergo rapidamente, dando um grito de sobressalto.
— Ai, . Que susto! — Ponho a mão sobre o coração que bate acelerado.
Ele me olha ainda com cara de sono e sorri de modo gigante. Para variar, meu coração aperta e eu sinto borboletas no estômago. Já é até normal.
— Bom dia, meu doce. — Ele abre os braços e vem para mim na clara intenção de me dar um abraço. Infelizmente eu não posso negá-lo, mesmo que eu queira fazer para manter a distância entre nós. Hoje faz exatamente dois meses e seis dias que eu o conheci, e desde aquele dia na praia, eu venho tentando me afastar sutilmente dele por razões óbvias, e ele também mudou um pouquinho comigo a partir daquele episódio. Ele não era mais tão grudento, não tentava me tocar a quase todo o momento e nem chegava mais tão perto de mim. E quer saber, eu fiquei preocupada. Eu tinha medo de que ele tivesse visto algo em mim que expôs o que, de fato, eu sentia por sua pessoa. Ele continuava carinhoso, só não tanto. Ele me dava um abraço quando eu levantava pela manhã para ir para a escola e um beijo de boa noite na cabeça. Só. Eu achei ruim? Achei, claro. Mas havia um lado bom nisso... Assim eu não precisava me preocupar em perder o meu autocontrole tão débil. E também eu passava a maior parte do dia fora, só voltava quase ao anoitecer, e nesse meio tempo trabalhava em sua oficina, que por sinal, ele já havia me levado lá três vezes.
Então a nossa rotina era assim: Eu levantava cedo da segunda até a sexta para ir para a escola e voltava por volta das cinco/seis horas da tarde, pela noite eu fazia os meus “deveres de casa”, às vezes saía com para as “peladas” dele, e em outras preferia ficar em casa e deixá-lo ir sozinho. No sábado eu acordava cedo para me exercitar, pela tarde eu descansava e de noite eu saía com a Emily. No domingo eu podia dormir à vontade e após o almoço nós íamos visitar meus avós. Já a rotina de : Ele era o primeiro a acordar todos os dias, preparava o café e esperava eu sair para ir fazer seus exercícios físicos. De tarde ele trabalhava na oficina e de noite ele me esperava para jantarmos. De noite ele raramente saía, mas passava grande parte na cozinha mexendo em algumas peças de carro, ou ficava assistindo futebol na TV. No sábado, de tarde ele descansava também e de noite ele saía. nunca me disse para onde ia, porém eu desconfiava que provavelmente ele iria encontrar alguma mulher, Joe era seu companheiro e assim como ele, solteiro, então boa coisa eles não faziam... A menos que... Não! Será que... Não! Meu Deus. E se eles fossem gays e se encontrassem às escondidas para viver um amor proibido?
Não! Não! Não! Não!
— Olha, vejo que você preparou o nosso café. Que milagre é esse? — Ele brinca e eu o empurro com força o fazendo gargalhar.
— É isso que a gente recebe quando tenta fazer uma boa ação. — Comento rolando os olhos de maneira exagerada e indo me sentar à mesa.
— É estranho ver que você acordou super cedo e preparou tudo isso. Será que alguma alma vai se salvar ou será que você tá adivinhando a minha morte? — Eu lhe lanço um olhar crítico.
— Vira essa boca pra lá. Tá doido de brincar com uma coisa dessas? — Eu brigo de verdade. O mero pensamento de perdê-lo me deixa doente.
— Você sentiria minha falta de seu morresse? — Há um sorriso em sua face, entretanto o seu olhar denota algo sério.
— O que você acha? — Eu cruzo os braços e faço bico, enquanto ele apenas espera a minha resposta. — Mas é claro que sim. Que tipo de pergunta estúpida é essa, seu idiota?
— Olha o linguajar! Eu sou seu pai, esqueceu? — Adverte-me autoritário.
Queria que não fosse. — Resmungo baixinho ao passo que me sirvo de um pouco de suco.
— O que você disse? — Indaga. Eu não respondo. — , o que foi que você disse? — Exige.
— Eu não disse nada.
— É claro que disse, eu ouvi.
— Eu disse que queria que não fosse meu pai. Pronto. — O olho com audácia.
— Por que não?
se inclina sobre a mesa apoiando seu queixo sobre suas duas mãos cruzadas e erguidas pelos cotovelos, me olhando inquisitivo e devo acrescentar...cínico.
Mas o que é isso?
— Porque você é chato. — Era dizer isso ou “porque eu queria que você fosse o cara com quem eu iria transar muito até ficar desnutrida”.
— Será que é só por isso mesmo?
Abismada, eu encaro e sua ousadia. Há um quase imperceptível sorriso em seus lábios, e seus olhos... Bem, estes estão diferentes dos que eu já conheço. Brilham com algo que eu não tenho a capacidade de interpretar o que é. Será que ele bebeu pela madrugada? Eu apenas o olho com uma cara estranha de “que porra está acontecendo?” esperando que ele esclareça esse seu comportamento... duvidoso.
— Aonde você quer chegar com isso, ? Porque... Sinceramente... — Eu sorrio de estranheza. — Eu não tô entendendo nada.
Ele ri. Porra. Ele ri.
Sabe aquele típico sorriso cafajeste que os homens dão quando debocham de algo? Pois é. Esse mesmo! Agora me responde... Como reagir perante isso?
— A lugar nenhum. Me desculpe. — Ele desvia seus olhos dos meus, mas ainda há “humor?!” em seu rosto.
— Vem cá. Eu perdi alguma coisa? — Eu cruzo os braços. Como ele apenas me ignora, eu tento fazer o mesmo e continuo comendo. O silêncio se instala e só é quebrado quando meu celular toca o alarme com o horário rotineiro de eu levantar todos os dias; eu o desligo e como mais um pedaço de kiwi, então subo para escovar os dentes e fazer uma make rapidinha. Assim que termino já é hora de ir para a escola, verifico meus livros e cadernos e os coloco dentro da mochila me preparando para sair.
— Já vai? — pergunta assim que eu desço do último degrau da escada. Eu concordo. — Tenha um dia proveitoso, amor.
Amor?
Depois de mais de dois meses, essa é primeira vez que o ouço me chamar assim, e se eu bem me lembro, isso só aconteceu umas três vezes. Que estranho! Franzo a testa para seu comentário e mesmo que a minha cabeça comece a formular questões, eu apenas paro de pensar sobre isso e saio de casa caminhando até o meu Lamborghini. Eu não tenho pressa em chegar, então pego o caminho mais longo. Enquanto dirijo, conecto meu iPhone no painel do carro e deixo as músicas em modo aleatório e aumento o volume até que o barulho cubra meus pensamentos. O dia já começou bizarro, pelo menos eu particularmente acho isso. Não sei se é impressão minha, mas estava agindo como outra pessoa hoje. A razão? Eu não sei.
O percurso segue calmo, não há muitos carros na rua e como o trajeto é maior, eu chego às primeiras quadras que antecedem o colégio com meia hora de antecedência, antes que o sino bata. Sobretudo, algo parado no meio da rua chama a minha atenção porque foi o primeiro carro que eu usei para aprender a dirigir. Um lindo Nissan Leaf branco. De repente alguém sai da frente do carro e caminha para o meio da rua acenando para quem eu acho ser eu, já que pelo retrovisor vejo que não há mais ninguém vindo atrás de mim. Eu estaciono do outro lado da rua e desço.
— Uau. Uma Lamborghini! — O rapaz exclama e parece vidrado na minha máquina, já que ele ainda nem me olhou.
— Posso ajudar com alguma coisa? — Questiono atraindo sua atenção.
Seus olhos caem para mim e eu rapidamente vejo decepção tomar sua face.
— Uma garota. — Seus ombros caem em desânimo.
Ignoro sua má recepção diante da minha pessoa.
— O que aconteceu com seu carro? — Indago indo verifica-lo.
— O pneu estourou e eu não sei trocar. Obviamente fui tentar ligar pra alguém, só que meu celular estava descarregado. Parece que hoje não é o melhor dia da minha vida. — O último comentário é mais para si. — Será que você poderia me ajudar, me emprestar seu celular ou procurar algum mecânico pra resolver isso? Eu ficaria muito grato. — Ele me olha com olhos castanhos brilhantes.
— Você tem o estepe com você? — Eu pergunto ao estranho.
Um ponto de interrogação toma seu rosto por completo.
— Desculpe, o que você perguntou?
— O estepe... — Repito, mas ele continua fazendo aquela cara de quem não sabe do que estou falando. — O pneu reserva do carro, garoto.
— Ah, sim. — Sorri sem graça. — Eu acho que tenho um no porta-malas. Por quê?
— Pegue ele pra mim. — Eu peço, já removendo a jaqueta. Por um minuto inteiro o menino fica parado, me olhando. — O que foi?
— O que você vai fazer?
— O que você acha? Trocar o seu pneu, né? Vai. Pega logo aí porque eu não quero chegar atrasada na escola e ganhar uma nota de advertência. — Ele continua parado, que nem o poste. — Sim. Vai ficar aí parado me olhando com essa cara de trouxa? Eu não tenho muito tempo. — Advirto já perdendo a paciência.
— Mas você é uma garota, como pode entender sobre mecânica?
— Que legal começar o dia encontrando com um cara machista. Já que pra você uma garota não pode consertar um carro, resolva seu problema você mesmo com seu pênis orgulhoso.
Pego minha jaqueta e começo a andar para longe. Em questão de segundos sinto um puxão contra o meu cotovelo.
— Não, não. Espera. Me desculpe. Eu me expressei mal. Sinto muito se fui preconceituoso. É só que é difícil encontrarmos garotas que mexam com essas coisas. Sinto muito. Me ajuda, por favor. Não me deixe sozinho aqui.
Odeio ver gente implorando, porque meu coração é mole e não aguenta. Rolo os olhos e volto para perto de seu carro.
— Pega o estepe e traz as ferramentas também. — Me agacho diante da roda que explodiu a averiguo a situação. Não é nada demais, basta trocar o pneu mesmo. O menino traz a roda e a deixa ao meu lado. Eu pego o macaco e posiciono no lugar devido para só então começar a levantar o carro. Assim que concluo o primeiro passo, inicio o outro que é retirar as capas protetoras dos parafusos e afrouxar as porcas, até retirá-las por completo. Isso demora um pouco porque eu não sou tão forte, e os parafusos estão muito bem apertados. Neste caso eu não sei de onde saiu as forças, mas eu consegui. Terceiro passo: Levantar mais o carro para remover o pneu.
— Você estuda no Flórida Mesa Elementary School? — O rapaz pergunta após um bom tempo de silêncio.
— Sim.
— Faz tempo que você estuda lá?
Puxo o estepe e o coloco no eixo, mantendo o cuidado de alinhar o aro com os parafusos da roda.
— Faz dois meses só.
Quinto passo: Colocar e apertar os parafusos com a mão até que todos estejam alinhados com as roscas, depois apertar com a chave o mais forte possível. Abaixo o carro mais uma vez e continuo apertando os parafusos.
— Eu sou novo lá também. Hoje é o meu primeiro dia. — Ele comenta.
— Sério? Legal. — Abaixo o carro completamente e removo o macaco. Verifico mais uma vez os parafusos e eles estão seguramente apertados. — Pronto. Acabei.
— Nossa. Ele parece bom. Com quem foi que aprendeu isso? — Questiona me olhando.
— Meu pai é mecânico e ele me ensinou para caso algum dia acontecesse uma emergência e ele não estivesse por perto pra me ajudar. — Sorrio me erguendo.
— Você é incrível. — Ele sorri pela primeira vez.
— Obrigada.
John Silver. — Se apresenta estendendo sua mão para me cumprimentar.
. — Aperto a sua.
— Obrigado por me ajudar, .
— Nada. Apesar de ter desejado dá uns tapas na sua cara por causa do seu machismo, assumo que foi melhor esfregar na sua cara que a garota aqui sabe trocar um pneu e você, o “cara”, não. — Nós rimos. Puxo minha mão de volta e vejo que estão sujas. Choramingo um pouco. — Minhas mãos estão horríveis. Olha só. — Mostro a ele que ri.
— Só não está pior porque suas unhas estão pintadas de preto.
— Verdade. — Sorrio. — Eita. Que horas são? — Ele olha no pulso e seus olhos arregalam.
— Nós temos exatamente 12 minutos para chegarmos sem pegarmos advertências. Acha que dá tempo?
— É melhor que ninguém cruze o meu caminho, ou eu vou passar por cima. — Eu brinco e ele solta uma risada.
— Então nos vemos no estacionamento da escola. — Ele entra em seu carro e eu corro para o meu e procuro não perder tempo. Ele é o primeiro a dar partida e eu venho logo atrás. Aceleramos o mais rápido que podemos, sobretudo há alguns cruzamentos e nos vemos obrigados a reduzir a velocidade. A escola aparece e eu me sinto aliviada porque vamos chegar a tempo. Apesar de ter ficado um pouco para trás, eu sou a primeira a entrar no estacionamento. John deixa seu carro ao lado direito ao meu.
Ele desce do carro rindo.
— O que foi? — Indago curiosa.
— Enquanto corríamos para cá, eu me senti o Brian do Velozes e Furiosos.
Solto uma gargalhada.
— Quanto tempo falta pra bater a campa? — Ajeito minha mochila na costa e John faz o mesmo.
— Três minutinhos. Dá tempo pra você lavar as suas mãos.
— Ainda bem.
— Escuta, . Qual seu ano?
— Terceiro. E o seu? — O olho.
— Também. Será que vamos estudar juntos em algumas matérias?
Dou de ombros.
— Hoje as minhas aulas são de literatura, geografia, teatro e aritmética. Você já tem o seu horário?
John enfiou a mão no bolso e retirou de lá um papel.
— Aqui está.
— Deixe-me ver. — Pego o papel de sua mão. — Segunda-feira... Você tem aula comigo só de aritmética, no último horário. Mas amanhã estaremos juntos em todas as aulas.
— É muito ruim ser novo na escola. Você quase não conhece ninguém. Eu só conheço você, vou me sentir um ET quando entrar nas salas e ter que me apresentar. — Reclama.
— Sei como é. Já passei por isso tantas vezes. Mas não se preocupe. No intervalo a gente se encontra.
— Sério?
O sino bate e a galera começa a correria para entrar na escola.
— Aham. Me espera perto da entrada do refeitório, ok? — Ele assente.
Percebo de longe Emily na porta da escola. Ele ainda não me viu, mas sei que está me esperando porque esse é o nosso ritual.
— Foi um prazer te conhecer, . — John me surpreende ao pegar minha mão direita e levar aos lábios, beijando o dorso.
— Olha... Que cavalheiro! — Sorrio e me ergo, retribuindo o beijo em sua bochecha. Ao olhar para a frente dou de cara com um certo garoto que se eu pudesse ter o poder de matar com a força do pensamento, eu já tinha feito. Diego. Eu não sei se ele está olhando para mim, porém tenho a certeza quando ele abaixa um pouco seus óculos. — Foi um prazer também. A gente se esbarra mais tarde. Tchau. — Dou as costas para John e olho novamente para Diego, e assim que ele percebe minha atenção em si, finge olhar para outro lugar, mas algo em sua expressão facial me deixa confusa, porque é como se ele estivesse começando a ficar irritado. Será que ele ficou assim porque me viu beijando o rosto de John?
Bom, de qualquer forma é melhor não dar confiança para ele porque ele já faz da minha vida um inferno nessa escola. Corro até Emily e me jogo sobre seu corpo num abraço apertado.
— Ai, . Tá me sufocando.
— Senti saudades.
Entramos abraçadas na escola e seguimos para o banheiro para que eu possa levar as mãos. Conto a ela o que aconteceu pela manhã e ela vibra por saber que temos um novo aluno na escola e que ele é bonito. Ela também está animada porque acha que eu posso começar a namorá-lo, já que algum tempo atrás eu pedi ajuda a ela para arrumar um namorado. Passaram-se dois meses e nada, e agora apareceu John. Mas, sinceramente, eu acho que ele não faz o meu tipo não. Brigo com ela por ainda nem conhecer o menino e já está maliciando ele, e ela apenas ri. Termino e nós seguimos em direção a sala para a primeira aula. Ela senta em seu lugar habitual e eu no meu, na última cadeira, bem no fundo. Adivinha quem é o ultimo aluno a entrar? Isso mesmo. Diego Gonzáles e ele entra olhando diretamente para mim, sem nem piscar. E eu, boba, retribuo seu olhar, confusa porque ele nunca fez isso na sala de aula durante os dois meses que estudamos juntos.
Mas que porra tá acontecendo hoje? Será que eu tomei banho errado?
estava estranho. Diego está estranho.
O que isso significa?
Sério. O que isso significa?
O espanhol assume seu lugar na cadeira ao meu lado direito e me olha sério.
— O quê? — Eu sibilo para ele.
Diego vira a cara.
Oh, meu Deus.
Ele acabou de virar a cara para mim?
Que idiota!
Só por causa disso não vou mais olhar para ele.
O professor inicia a aula e eu me concentro nele, mesmo que minha cabeça esteja cheias de questionamentos.

__X__

A primeira aula passa rápido, e eu arrumo minhas coisas para seguir para a segunda. Saio da sala sem dar qualquer olhar para aquele idiota espanhol, apenas falo rapidinho com Emily porque a próxima aula dela não é junto com a minha. Sigo o tráfico de alunos calmamente, porém alguém esbarra em mim tão forte que eu acabo caindo de bunda no chão. Levanto a cabeça a tempo de ver os alunos parados, todos me olhando, e na minha frente, provavelmente o autor do “acidente” está me olhando com um sorriso contido nos lábios.
— Que garota estabanada. Caiu sozinha. — As pessoas em nossa volta começam a rir de mim. Meu rosto fica vermelho de raiva, mas sei que se revidar vai ser pior. — Dá próxima vez, olhe por onde anda, Coração. — Diego sai rindo como se tivesse feito a coisa mais engraçada do mundo, e os outros alunos começam a tomar seu rumo.
— Idiota maldito.
— Deixe-me ajudar você. — Uma voz feminina soa perto de mim e sigo a direção dando de cara com uma menina morena com um olhar simpático no rosto e uma mão estendida para mim. Eu dou a minha ela, que me puxa fazendo-me levantar. — Ele fez de propósito. Eu vi tudo.
— Ele é um idiota. — Eu limpo atrás da minha calça. — Ah. Obrigada.
— Não foi nada. Há algum tempo eu venho vendo a perseguição do Gonzáles com você, e acho isso muito surpreendente. — Comenta. Franzo a testa.
— Como assim?
Nós começamos a caminhar.
— Eu estudo aqui a minha vida inteira, e o Gonzáles chegou quando eu estava no sexto ano. Ele sempre foi muito reservado, não mantinha contato com ninguém e só falava quando falavam com ele. Desde esse dia até basicamente dois meses atrás eu nunca o tinha visto perseguir uma menina, ou mesmo olhar para uma, só que... Desde que você chegou, ele está diferente.
Abro a boca diante desse comentário.
Quem é essa garota?
— Espera aí. O quê? Que história mais doida é essa?
Ela ri de mim, mas não de zombaria.
— Eu meio que fui afim dele por um tempo, sempre fiz de tudo pra chamar a sua atenção, porém ele nunca me notava. Eu o observei por muito tempo, sei todos os tiques, gestos, sorrisos e caretas que ele faz. Eu não gosto mais dele, mas mesmo assim ainda o observo, e desde que você chegou, eu reparei que ele mudou. Antes ele sempre arrumava uma desculpa pra ficar fora da sala, mas agora eu nunca o vi ser tão presente. Ele te olha durante a aula toda, e quando você olha para os lados, ele rapidamente disfarça. Eu não sei se ele gosta de você, mas você mexe com ele de alguma forma. — Explica sorrindo. Essa menina é doce, e eu mal a conheço e já estou começando a gostar dela.
— Como isso é possível se tudo que ele faz é me infernizar? — Indago.
— Eu não sei o porquê, querida. Talvez ele só queira chamar a sua atenção. — Dá de ombros. Eu penso a respeito, entretanto não faz sentido. Porque ele iria querer a minha atenção fazendo coisas ruins? — Qual é a tua aula agora?
— Geografia, com o professor Cristóvão.
A garota suspira de maneira exagerada e eu a olho estranha.
— Ai, ai. Temos essa aula juntas. Vamos? — Acompanho o rosto da menina ficar corado e seus olhos brilham. Eu olho em volta para ver se há alguém ali fazendo com que ela tenha essas reações meio... sonhadoras. — A propósito... Meu nome é Lindsey Philliphos.
— Eu sou , mas você deve saber já que anda observando muito por aí. — Sorrimos.
Caminhamos mais um pouco até chegarmos a sala do único professor bonito que temos na escola. Ele foi transferido para cá no final do mês de agosto para substituir a professora Lyena que tivera que se afastar por problemas de saúde. A maioria das meninas tinham uma queda pelo Cristóvão, mas eu fazia parte das meninas que apenas o achavam charmoso, nada mais do que isso.
— Sentem-se todos, se acomodem que hoje terá um teste surpresa. — Anuncia ele e a turma toda solta um gemido muxoxo. — Nada de preguiça. Preciso verificar se vocês estão estudando em casa mesmo.
Eu vou para o meu lugar e Lindsey senta duas cadeiras em frente a minha.
— Professor, e o trabalho que o senhor passou na semana passada? — Eu pergunto.
— Eu irei recolher quando teste acabar. Senhorita Fialho, gostei do colar. — Cristóvão elogia a garota que sorri sem graça enquanto suas maçãs ficam escarlate, e a reação do professor é de abrir a boca. Ele pisca para ela. Oh, porra. — Mantenham apenas caneta em cima da bancada. Já vou passar entregando os testes.
Rapaz... Tem coisa aí. Eu tô sentindo.

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Acabo o teste de geografia e saio da sala direto para o refeitório. Por alguma razão (estranha) Lindsey não quis vir comigo alegando que iria tirar algumas dúvidas com o professor. Hummmm. Ok, né!
— Hey, garota mecânica! — Alguém grita assim que eu passo pelas portas da cantina, e eu reconheço a voz de John.
Sorrio quando me viro para si.
— Esse colégio é enorme. Eu tenho medo de me perder. — Comenta assim que ficamos próximos.
— Quer um tour pra conhecer melhor as áreas? — Sugiro.
John finge pensar.
— Mas e o lanche? Vamos ficar com fome?
— O lanche que a escola serve é horrível. Eu e a minha amiga sempre comemos numa lanchonete aqui do lado. Você escolhe se quer primeiro comer ou ir conhecer a escola.
— Acho que comer é melhor. — Ele ri.
— Ok. Deixa só eu achar a Emily. — Eu passo o olhar por entre as cabeças de todos os alunos ali e não a vejo. — Onde essa garota se meteu? Vem comigo. — Com uma intimidade que eu nem tenho, eu pego na mão de John e começo a guia-lo comigo para o único lugar onde eu posso imaginar que a minha amiga esteja. Voltamos para os corredores que levam às salas e eu sigo para o ginásio. Entre duas arquibancadas, há uma menor de concreto que é um depósito “abandonado”. Eu bato três vezes na porta de metal até que alguém pergunta a “senha”. — Orelha de porco no sorvete de picanha.
— Que isso?! — John solta uma gargalhada atrás de mim.
A porta abre e uma lufada de fumaça sai direto no meu rosto.
— Cadê a Emily? — Pergunto a Zac, um garoto de grandes olhos verdes e pele branca.
— Você não quer entrar? — Ele convida.
— E matar meu pulmão? Não mesmo. Chama ela lá pra mim, por favor.
— Claro. Só um momento. — O menino some no meio da fumaça.
— O que é isso aí dentro, ?
— Depois te explico.
— O que foi, ? — Emily aparece com um sorriso no rosto e os olhos vermelhos demais.
— Não acha que é cedo demais pra você fazer isso, criatura? — Eu brigo.
— É hora de comer, só estou adicionando mais avidez a isso. Veio me buscar para o almoço? — Concordo. — Tá. Vamos.
— Olha. Este aqui é o John. John, essa é a minha amiga meio lesada, Emily. — Nesse meio tempo ambos trocaram apertos de mãos, mas quando John foi beijar Emy no rosto, ela recuou.
— Desculpe, querido. Mas estou podre de baseado. Não gosto que ninguém me toque quando eu fumo.
— De boa. — O menino sorri, embora pareça um pouco espantado pela revelação que acabara de ouvir.
— Certo. Vamos comer porque depois eu tenho que levar ele pra conhecer a escola.

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Eu acho que eu nunca ri tanto na minha vida como na hora do almoço. A junção de Emily moscando e falando besteira sobre eu estar precisando de um namorado e ela achar que John era o meu cara perfeito mais John rindo e contando um monte de piada sem noção e às vezes sem graça mais eu contando as minhas gafes na frente das câmeras fizeram com que nós parecêssemos um trio de retardados drogados. Todo mundo da lanchonete olhou feio para a gente, outros até cochichavam, mas não estávamos ligando nem um pouco para eles.
O término do almoço chegou e nós tivemos que retornar à escola para fazermos as aulas opcionais. Eu fazia teatro, Emy fazia música e John nos contou que escolheu fazer esportes. Cada um foi para seus devidos cursos e eu já estava quase chegando no auditório quando pequenas gotas de sangue no piso me chamaram a atenção, e elas tinham uma trilha que levava até o banheiro masculino.
Por um tempo eu pensei sobre o que eu deveria fazer. Se deveria chamar alguém para averiguar a situação ou eu mesma ir dar os primeiros passos. Após quase dois minutos, eu decidi que iria ver logo e se fosse algo muito grave, eu chamaria alguém para ajudar. Incerta, eu dei passos hesitantes até a porta e um pouco receada eu girei a maçaneta, abrindo-a logo em seguida. Tinha um rapaz curvado sobre a pia suja de sangue. Gelei assim que percebi quem era.
Não podia ser!
Logo ele?!
— Diego? — Minha voz saiu falha devido a agonia de vê-lo todo ensanguentado.
Ele levanta rapidamente a vista e pelo espelho me vê. Há um misto de expressões passando por seu rosto. Primeiro vem a surpresa, depois ele parece assustado, então ele se fecha e sua face se torna... Raivosa?
— Vai embora daqui! — Ele manda, acho que tentando controlar o fluxo de sangue que escorre de alguma parte do seu rosto.
— Você está sangrando. — Eu dou mais um passo para dentro e ele crava seu olhar em mim.
— Te mandei ir embora! — Exige autoritário.
Não me abalo.
— Você não manda em ninguém.
Tiro a mochila da costa e procuro pelo meu kit de primeiros socorros. Sim. Eu tenho esse desde a vez que eu cortei o meu pé. me obrigava a carregar a pequena maleta para onde eu ia, alegando que um dia iria servir. E não é que ele estava certo mesmo? Eu tenho uma toalha de rosto, e eu não perco tempo em molhá-la e caminhar até o Gonzáles para tentar conter e limpar um pouco do sangue. Todavia, arisco como ele é, assim que me aproximo ele se afasta.
— O que você pensa que tá fazendo? — Ele ranzinza.
— Estou tentando te ajudar.
— Eu não preciso da ajuda de ninguém.
— Bom, então nós vamos brigar porque eu quero te ajudar e você não vai me impedir.
— Sua garota estúp..... — A fala morre quando o pego desprevenido, avançando em sua direção e colocando a toalha sobre sua cara. Delicadamente apalpo seu rosto com o pano para absorver o sangue. De rosa, a tolha já está completamente vermelha. Lavo-a, e retorno a limpar seu rosto. Ele não diz nada, mas evita me olhar. Eu tenho todo um trabalho até que não haja mais sangue nenhum, e só agora posso localizar os ferimentos. Um corte no supercilio, o nariz também sangrava, e o lábio feriu.
— Eu vou passar os anticépticos pra isso aí não infeccionar. — Eu pego na minha maleta um pouco de soro fisiológico e embebedo num pedaço de algodão, então começo a fazer compressas em seus ferimentos. Diego faz um pouco de cara feia, só não diz nada. Estou repetindo o processo quando sinto suas mãos na minha cintura, e um calafrio percorre todo meu corpo, mesmo que ele tenha apenas tocado sobre a roupa. Não é como os que me faz sentir, porque aqueles são muito mais intensos, mas esse ainda me deixa um pouco nervosa.
— Por que está me ajudando? — Nossos olhos se encontram assim que a pergunta deixa sua boca.
— Eu não sei. — Respondo sinceramente.
— Eu só te fodo. — Ele atenta, sério.
— Ainda bem que não é literalmente, né? — Recorro ao humor porque o clima tá ficando mais tenso. E eu consigo ganhar um pequeno sorriso de lado assim que ele assimila minha frase.
— Você é um pouco engraçada. Pateta, mas tem um pouquinho de graça. AI! — Ele chia quando eu aperto o algodão com mais força em seu corte acima do olho.
— Não me xingue enquanto eu estiver mexendo nas suas feridas.
— Posso xingar quando você acabar? AIIIII. — Repito o movimento de novo.
Eu sorrio um pouco, mas o momento de “colegagem” acaba quando um monte de garotos invadem o banheiro. Diego se fecha e me empurra um pouco para longe. Os outros garotos nos veem e começam a vaiar.
— Nossa, Dieguito... O sexo entre você e a novata foi selvagem. Ela te arrancou tanto sangue. Por que não fez o mesmo com ela e a deixou acabada? — Um moleque com cabelos raspados fala. Os outros babacas apenas riem. Diego me olha, e por um segundo eu acho que ele vai me defender.
— Eu não bato em mulher, cara. Mas pode ter certeza que há dois lugares no corpo dela que eu deixei completamente arregaçados, não é amor? — Lágrimas nascem em meus olhos diante de seu comentário tão grosseiro, e tudo fica pior quando os outros meninos gritam e começam a me dizer coisas imundas. Eu pego a maleta e guardo na mochila e saio o mais rápido que posso daquele banheiro, tentando conter o choro. Não penso em nada, apenas corro para o estacionamento e pego meu carro para voltar para casa. Sei que não aguentaria assistir as últimas duas aulas. Durante o percurso, o pranto começa e eu me vejo perdida em lágrimas. Aliviada por não está em casa, eu subo as escadas e me jogo na cama, condenando-me por ser tão burra. Aquele babaca vai me pagar.

Capítulo 13 - Fobia

Eu estava fazendo tudo automaticamente na hora do jantar. Eu não tinha fome, e a última coisa que eu queria fazer era ter alguns minutos com . Eu estava estressada, morrendo de dor de cabeça desde que cheguei da escola. Também não era para menos, como uma idiota eu passei quase a tarde inteira e noite chorando e me culpando por ser uma bobona e sempre querer ajudar as pessoas. Ignorei todas as mensagens e ligações que Emily me enviou, sabendo que amanhã iria encontrar com ela e iria lhe contar tudo.
Quando chegou, cerca de meia hora atrás eu ainda chorava e quando ele bateu na porta do quarto eu tive que me conter e achar uma maneira de tentar esconder o que eu estava passando, mesmo que minha cara estivesse ridiculamente inchada. Ele iria perceber, não tinha jeito. E eu teria que mentir, né. Fazer o quê?!
Quando entra na cozinha, o frio na espinha vem forte. Ele cheira a sabonete, loção pós-barba e sua própria fragrância natural. O cabelo molhado é um charme, assim como suas roupas de dormir, sendo elas uma camisa de algodão e uma calça de moletom preta. Está descalço e casual. Vê-lo amansa mais o meu estado de espírito.
— Estou pronto. — Ele diz, acho que tentando chamar minha atenção já que estou de frente para a pia.
— Ok. — A voz sai normal, e eu me felicito por isso.
Ainda tentando evitar que ele veja meu rosto, eu tiro a terrina do forno tendo o devido cuidado para não derrubá-la e nem me queimar. Temos lasanha de peixe com molho de cogumelos. Ponho-a sobre a mesa, depois viro-me para ir pegar o suco na geladeira. O silêncio é desconfortável, e o pior de tudo é que tenho total ciência que está me observando atentamente.
Me sento do outro lado da mesa ainda mantendo a cabeça baixa. não gosta.
? — Ele chama.
— Oi. — Continuo de cabeça baixa.
— Sente-se aqui nessa cadeira, perto de mim. — Comanda.
— Estou bem aqui.
— Não foi uma pergunta, querida. Foi uma ordem. Venha aqui.
Oh, meu Deus!
Eu não tenho uma folga.
Ergo-me e faço o que me foi pedido, sentando na cadeira a qual ele ordenou.
vira a sua para a minha e sinto sua mão em meu queixo, onde ele o ergue me fazendo fita-lo diretamente nos olhos. Constrangimento atravessa minhas veias.
— O que houve? — Sua voz sai doce.
— Os ouvidos. — Eu tento brincar na esperança de que ele me solte e nós possamos jantar em paz e em silêncio.
— Haha, muito engraçada. — Ele ironiza e sua careta me faz sorrir um pouco. — Diga-me o que aconteceu pra você tá assim, com esses olhinhos vermelhos e o rosto inchado. Dá para perceber de longe que você estava chorando.
De forma nenhuma eu posso lhe contar a verdade. Mesmo o conhecendo pouco tempo, tudo que ele me mostrou era que é super protetor. Imagine o que ele iria fazer com o Gonzáles depois que eu lhe dissesse o que o espanhol me fez. Não. Neste caso, tenho que mentir para evitar confusões.
— Não é nada demais. É o meu período que está chegando. Tive um dia de merda por causa das cólicas infernais que antecedem a minha menstruação.
me examina com olhos de falcão, procurando evidências que possam me desmentir. E como eu sou boa atriz, eu me safo dessa.
— Será que é só isso mesmo, ? — Ele insiste. Assinto.
— Já tomei remédio. Não se preocupe que logo passa. — Sorrio para tranquiliza-lo.
— Tudo bem. — Me beija na testa e então volta para o seu lugar. Eu respiro aliviada. — Como foi a escola hoje?
Ok. Nada de alivio. A respiração trava novamente.
— Ahn... Normal. — Eu me sirvo de um pedaço bem pequeno de lasanha, depois despejo suco no copo.
— Teve algum trabalho? — Continua em sua avaliação.
— Tivemos um teste surpresa de geografia, mas eu me saí bem. Ah... — Eu lembro. — Hoje chegou um garoto novato na escola. Ele é legal. Nos conhecemos porque eu tive que consertar o carro dele.
— Como assim? — prende sua atenção em mim.
— Quando estava seguindo para a escola o carro dele estava parado na rua e ele fez sinal pra eu parar e me contou que o pneu tinha estourado. Claro que ele não acreditou quando eu disse que iria ajeitar, porque eu era uma garota. Quando percebeu que eu era a única ajuda por perto, ele permitiu e eu fiz tudo direitinho conforme você me ensinou. Não foi difícil, mas também não foi fácil. O importante é que eu consegui.
— Isso é sério? — Um meio sorriso de surpresa aparece em seus lábios. Eu afirmo. — De verdade mesmo? — Eu rio. — Cara, eu estou tão orgulhoso de você, meu bem. Isso merece um beijo de felicitação. — Se ergue e me puxa pelo braço para que eu fique de pé, então ele me abraça e começa a despejar beijinhos por todo o meu rosto, então ele desce para o meu pescoço e ao tocar a pele com sua boca, eu arrepio e sei que ele sentiu isso, porém isso parece não ter importância porque ele continua me beijando e me apertando contra si. Não posso deixar de comentar que meus seios estão espremidos contra seu peito e eu posso sentir a sua “área de playground” encostando na minha. Isso me deixa quente, e eu sei que é questão de segundos até eu começar a ficar molhada. Eu sei que devo me afastar... Eu só não consigo porque estar em seus braços é bom demais. Seus beijos param, em compensação sua boca sobe para o meu ouvido onde eu o ouço respirar de modo ofegante... Então ele sorri e sussurra: — Você me deixa feliz e eu tenho sorte por você ser a minha garota! — E ele beija no meu ponto doce do pescoço, me fazendo ter uma nova remeça de frissons. Eu suspiro, e eu tenho sorte que foi só isso porque eu consegui trancar meus lábios antes que um gemido saísse. Só há um ponto nisso... A forma que ele falou a palavra minha soou não como se ele estivesse se referindo a eu ser sua filha, e sim como se eu fosse alguém “qualquer”. Cara... Sinceramente eu espero ter entendido errado... Era isso ou a minha sanidade mental começaria a declinar e isso não era bom, de jeito nenhum.
— Ok. Devemos voltar a comer. — Reúno forças sabe-se lá de onde e me afasto um pouco. me olha com olhos grandes e felizes, e ferozes também. Timidez me atinge e eu apenas sorrio e abaixo a cabeça. Ele se senta e inicia sua refeição. Faço o mesmo.
— Joe vem aqui amanhã. Tudo bem pra você? — Quebra o silêncio.
— Claro. Gosto dele, é engraçado.
— Vamos assistir ao jogo. Aquela partida vai decidir se o nosso time segue pra final ou não.
— Espero que dê tudo certo. — Bebo um pouco do meu suco. Ainda estou um pouco trêmula.
— O que vai fazer depois do jantar?
O olho.
— Voltar pro quarto e deitar. E você?
— Vou ver um pouco de TV e depois vou... — Um trovão retumba pelo céu e o som é assustador. Eu salto na cadeira e meu coração dispara. — Hey, calma. — Outro trovão estoura, mais alto e mais aterrorizante. Eu me apavoro e bato no copo que cai e quebra. — ?
Eu me ergo da cadeira, apavorada com o coração acelerado. Eu tenho astrofobia que é o medo de relâmpagos e trovões. Eu simplesmente entro em choque, e se aquilo continuasse, o ataque de pânico seria maior. Minha mãe me ensinou que quando isso acontecesse, eu deveria procurar um lugar seguro, neste caso, o meu quarto. E eu não pensei em mais nada, eu só corri da cozinha em direção ao segundo andar. Ao chegar a escada, um raio clareou o céu e segundos depois o trovão explodiu. Eu desequilibrei, mas consegui não cair para a morte e subi o mais depressa. Entro no quarto e bato a porta com força, então procuro um lugar seguro, só que parece não haver nenhum. A porta de um mini closet “brilha” como uma tábua de salvação e eu não perco mais tempo, apenas corro e me tranco lá dentro, abraçando meus joelhos, parecendo uma bola enrolada.
O primeiro sintoma da crise aparece. O suor frio.
Calma, . Respira, pelo amor de Deus.
Segundo: Perca de alguns sentidos.
Eu só consigo escutar a minha voz dentro da minha cabeça, e apesar de eu ter consciência que estou chorando, eu não escuto mais nada, exceto o pior, que é o barulho das trovoadas, que por sinal só fica cada vez mais frequente e alto.

-*- POV 3ª Pessoa -*-

Confuso, assiste correr para fora da cozinha como se estivesse fugindo de um leão faminto, e demora alguns minutos até que ele assimile o que aconteceu. Ele segue o caminho que ela traçou segundos antes e escuta quando uma porta bate com força. A de seu quarto está fechada, então ele abre e passa um rápido olhar pelo cômodo feminino e não a vê. O único lugar onde poderia estar era no closet, e ele se aventurou até lá, encontrando-a abraçada a si mesma num canto escuro.
, querida? — Ele chama, entretanto ela não lhe olha, ou se move. Ela só está parada com a cabeça enterrada no meio das pernas, totalmente alheia. — Amor? — Nenhuma resposta. — Meu bem, você está me assustando. — Nada. — ?
Seja o que for que está acontecendo, ela não parece lhe ouvir.
?
Ele anda até onde ela está, a tocando no braço como forma de obter sua atenção, todavia ela não lhe corresponde. Ela está tremendo e ele se assusta ao sentir isso. Entrando em pânico, ele começa a chamar seu nome, porém soa como se ela fosse surda. Ao puxar o rosto delicado, ele percebe duas coisas que o assustam. Os olhos estão opacos, como se ela estivesse em um momento de introspecção, e o nariz está sangrando muito.
— Meu Deus. — É tudo que ele consegue dizer diante dessa situação. Seu coração começa a bater rápido quando ela começa a respirar ligeiro, ruidosamente. — Querida, fale comigo. O que está acontecendo com você? — Limpa o sangramento, porém continua vindo mais. — Meu Deus. Eu não sei o que fazer. — Olha ao redor, buscando algo que o ajude, ele vê uma camiseta branca, então ele a puxa e começa a limpar delicadamente o nariz da garota.
Não sabendo o que fazer, a única ideia que lhe aparece é pegar o celular e ligar para seu amigo. Joe está listado como o primeiro da chamada de emergência. Em três toques, o outro atende.
— Parceiro?
— Joe, eu não sei o que fazer, cara. Eu tô desesperado. — O tom é o bastante para levar o amigo ao alarme.
— O que aconteceu, ? — Indaga, preocupado.
— É a ... Ela... Ela... Eu sei lá, cara. Ela só tá parada aqui, sem falar nada, tremendo muito e sangrando pelo nariz. Ela não fala comigo. Eu não sei o que fazer. Eu preciso de ajuda.
É quase um choramingo e isso assusta Joe como uma onda esmagante porque ele nunca viu chorar durante seu grande tempo de amizade. Ambos cresceram juntos, foram a escola, e quando o período de faculdade chegou, eles seguiram rumos diferentes, mas permaneceram em contato. Enquanto um foi fazer curso de mecânica, o outro seguiu para gastronomia, e quando, por fim terminaram seus negócios, a parceria voltou como antes. Ele conhecia como a palma da mão e isso dele lhe ligando agora para pedir ajuda quase chorando o desequilibrou intensamente.
— Escute... Fique calmo. Procure conter o sangue. No caminho para sua casa há um amigo, ele é médico, clínico geral e com certeza vai nos ajudar. Eu só preciso que você fique calmo, cara. Eu chego aí em pouco tempo.
— Não demore, por favor. Eu estou com tanto medo. — Joe odiou a voz porque ele sabia que seu amigo estava chorando.
— Eu chego logo.
A ligação encerrou.
Joe rapidamente corre até a sala e procura pelas chaves de seu carro. Sai sem se importar com o temporal que cai lá fora, apenas abre a porta do veículo e se lança lá dentro. Procurando ser rápido, ele dá ré e sai pela rua clamando a Deus que o ajude e que seu amigo esteja disponível naquele momento. Seria péssimo se Shawer estivesse de plantão. O trânsito estava bom, sem muitos carros, então não demoraria a chegar. Avistou de longe a casa branca, estacionou na frente e correu até a varanda, apertando sem cessar a campainha. Não demorou muito até uma mulher bonita com o rosto assustado aparecer, atrás dela estava quem ele veio ver. Suspirou aliviado.
— Olha, cara. Me desculpe aparecer aqui na sua casa desse jeito, mas estou aflito e precisando muito da sua ajuda. — Declarou o moreno.
O homem com óculos olhou para a esposa.
— O que aconteceu? — Perguntou ele.
— Você tá bem? — A mulher questionou.
— Eu estou bem. O problema é com a filha de um amigo meu. Ele tá desesperado, e eu pensei que você pudesse ajudar. É único médico que conheço que mora pelas redondezas.
— É claro que eu ajudo, Joe. Mas antes me diga se você sabe sobre algo a respeito dela... — Ele o olha. — Assim posso ter uma base com o que vou lidar.
— Ele não me disse muito, estava chorando e apavorado. Só disse que ela não estava falando, tremendo muito e sangrando pelo nariz. Eu só sei isso. — Ele dá de ombros, resignado.
— Espere, vou pegar minha maleta e nós vamos. Não vou demorar.
O doutor desaparece andar acima.
— Joe, você quer um pouco de água? — Oferece, caridosa.
— Não. Obrigado, Maddie.
— Tente não se preocupar, ok? Vai dá tudo certo.
O homem confirma. Pensa assim também. Segundos depois, o doutor desce e ambos seguem para o carro.

...

O alivio que sente no corpo ao escutar a campainha tocar é reconfortante, e ele não perde tempo em deixar por poucos segundos sozinha para ir até a porta abri-la. Ele quase chora um pouco mais ao ver o médico, sobretudo se controla e os manda entrar.
— Eu sou Shawer, amigo do Joe. — Estende a mão para cumprimentá-lo. a aperta. — O que está acontecendo com a sua filha?
— Eu não sei. Ela não fala comigo, é como se estivesse hipnotizada, sei lá. Estou assustado demais. — Desabafa. Joe se aproxima colocando uma mão em seu ombro para confortá-lo.
— Onde ela está? — Shawer pergunta.
— Lá em cima, venha comigo.
Os três começam a subir a escada e ao chegar ao quarto de , Joe se surpreende com o estado da garota. Pálida, agarrada aos joelhos chorando silenciosamente, enquanto seu nariz sangra. É como se ela tivesse visto o monstro mais feio e assustador do mundo.
— Posso me aproximar dela? — Questiona o médico. assente. Ele anda até a moça, deixando sua maleta em cima da cama. Ele a abre tirando de lá uma pequena lanterna de pupilas. — Querida, eu vou examinar você, ok? — Ela não responde. vem para a garota puxando os braços dela para soltá-los das pernas. Ela cede, porém ainda continua tremendo. Shawer examina seus olhos, depois tira um estetoscópio e coloca sobre o peito, depois costa. Ao ver o nariz sangrando ele novamente põe a camiseta já suja para estancar o corrimento. — Ela está tendo um ataque de pânico, Pai. — Shawer conta. — E neste exato momento ela está hiperventilando. O coração tá acelerado, e ela está respirando muito rápido, e é por isso que ela está alheia a tudo. O que aconteceu pra ela ficar assim? Isso geralmente acontece quando a pessoa tem traumas ou fobias.
limpa um pouco mais de sangue antes de responder.
— Estávamos conversando normalmente no jantar. Então começou a trovejar e ela ficou assustada, saiu correndo da cozinha e eu a encontrei aqui, desse jeito que você a viu quando chegou.
— Hmmm. Não se preocupe porque não é nada muito grave. Eu vou espirrar um pouco de oximetazolina, e isso vai fazer com que os vasos sanguíneos se contraiam até o sangramento parar. — assente e o doutor faz exatamente o que falou. — Eu vou deixar esses algodões em seu nariz para não escorrer, mas depois você tira, ok?
— Mas ela vai ficar assim, desse jeito? — limpa os olhos molhados. Já Joe, prefere apenas assistir e ficar calado.
— Não. Eu irei aplicar um calmante na veia, e ela vai dormir. É importante, , que quando ela acordar você tenha uma conversa com ela e pergunte se ela tem síndrome do pânico ou estresse-pós-traumático, porque se ela tiver, então ela toma algum remédio para burlar esses tipos de reações. O que darei a ela não irá lhe fazer mal, porém, como pai, você tem que saber tudo sobre ela e sua doença - se ela tiver, claro - para que você esteja preparado caso aconteça novamente. — Alerta. — Venha aqui. Segure-a enquanto eu aplico, pois o calmante vai ter efeito instantâneo. — se aproxima, e enquanto isso Shawer prepara a medicação na seringa.
— Não se preocupe, meu bem. Eu vou cuidar de você. — sussurra no ouvido de , enquanto passa seu braço pela costa dela para agarrá-la. O médico puxa sua pequena mão, amarra uma liga em seu antebraço e procura a veia. Assim que calmante é expelido, lentamente vai amolecendo e caindo em estado de inconsciência. Assim que ela finalmente fica inerte, a levanta nos braços.
— Vai levar ela pra onde? — Joe se manifesta após um período longo de silêncio.
— Hoje ela dorme comigo. — Responde ele.
— Então será que eu posso dormir aqui, hoje? Não quero te deixar sozinho, irmão. — Joe pede. aceita sem pestanejar. Seria bom ter mais alguém com eles essa noite, e seu amigo o ajudaria se ele precisasse.
— Claro que pode. Durma aqui no quarto dela, o sofá é meio desconfortável.
— Obrigado.
— Nada. — sorri. — Esperem um pouco enquanto eu a levo para o meu quarto. Já desço para encontrá-los. — Seguiu então para seu quarto onde depositou na cama com todo cuidado do mundo o tesouro mais precioso de sua vida. Puxou a coberta sobre seu corpo e lhe beijou na testa. — Volto logo, amor. — Desceu as escadas e encontrou seu amigo e o médico na sala. — Cara, muito obrigado mesmo. Eu estava aflito demais sem saber o que fazer.
— Eu tenho um filho, imagino como se sentiu. Mas não se preocupe, apenas lembre-se de conversar com ela, viu?
— Ok. Quanto te devo? — questiona.
— Nada. Joe sempre me ajuda com algumas coisas em casa, então como ele é seu amigo não tenho porque cobrar.
Sorrindo, agradece mais uma vez e ambos trocam apertos de mãos.
— Vou levá-lo e volto, .
— Leve a chave de casa. Eu vou subir e trocar as roupas de cama e colocar novas pra você, e depois vou deitar com a . Se você quiser comer, tem lasanha em cima da mesa, tá quente ainda.
— Ok.
Joe e Shawer saíram e foi até a cozinha. Limpou os cacos de vidro do copo, jogou-os no lixo e guardou o suco na geladeira, depois cobriu a lasanha com um pano. Subiu, entrou em seu quarto e pegou em seu guarda-roupa colcha, e lençol, lançou um rápido olhar à menina deitada em sua cama e depois saiu indo para o quarto dela. Trocou os panos sujos por novos e depois finalmente voltou a seu cômodo, trocou de roupa e deitou-se ao lado dela, puxando-a para seu corpo numa forma de esquentá-la. Amava-a com todas as forças do corpo e não queria vê-la de novo como aconteceu minutos atrás.
— Te amo, meu bem. Estou aqui com você. — Beijou-a na testa, fechou os olhos rezou para que Deus cuidasse dela.

-*- POV 3ª Pessoa Off -*-

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Calor. Calor é a primeira coisa que sinto. Garganta seca, preciso de água para molhar meus lábios e me refrescar. É tomada por essa sensação que eu finalmente desperto de um sono escuro, sem sonhos. Meus sentidos pouco a pouco começam a funcionar e eu finalmente abro os olhos. Escuridão é tudo que eu vejo. Há um cheiro diferente, masculino. Meus músculos estão relaxados, mas sinto algo entrelaçado em minhas pernas, assim como também há certo peso sobre minha cintura.
Que merda...?!
Mexo um pouco a cabeça. Alguém suspira e isso me assusta um pouco.
Onde é que eu estou?
Levo um pouco minha cabeça para trás, e tomo um grande susto quando vejo o perfil do rosto de sendo iluminado pela pouca claridade que entra pela janela. Está dormindo, calmo e parece lindo como um deus grego, e ele está abraçado em mim como um macaquinho à sua mãe.
Como isso aconteceu?
Preciso sair daqui, e movida por esse pensamento eu começo a cuidadosamente me soltar de seu aperto. Quando fico de pé percebo que ele ainda continua dormindo. Saio do quarto em direção a cozinha totalmente confusa. Está tudo escuro, e também chove. Sinto minha bexiga cheia, então faço uma rápida parada no banheiro. Alivio percorre meu corpo com ondas de prazer quando esvazio-me. Me limpo, lavo minha mão e vou para a cozinha, direto para a geladeira onde me sirvo de um copo de água gelada.
Arssss!! Isso é o liquido dos Deuses. Vitalício
. Um copo não é suficiente, bebo mais dois.
Sento-me à mesa colocando a cabeça entre as mãos e começo a procurar as memórias que me esclareçam a razão de eu ter ido parar na cama de com ele. A primeira imagem que aparece é de eu e ele conversando normalmente até a primeira trovoada estourar. O calafrio que percorre meu corpo é terrível. Depois que isso aconteceu eu só me lembro de correr para o quarto e me esconder no closet... Depois disso não há mais nada.
Que estranho!
Será que ele me tirou de lá e me levou para seu quarto? Bom, essa me parece ser a única explicação.
? — Ergo a cabeça e encontro um sonolento me olhando preocupado. Ele contorna a mesa e se agacha na minha frente, puxando meu rosto para suas mãos. — Eu acordei e você não estava lá. Você se sente bem? Por que saiu de lá e não me chamou? Dói alguma coisa no seu corpo?
— Hey, calma. Uma pergunta de cada vez. — Sorrio um pouco. — Sim, eu me sinto bem. Eu levantei porque estava com sede, e não, não dói nada. O que aconteceu comigo? Eu não lembro de nada.
Fechando os olhos, exala, então sua expressão torna-se dolorida.
— Eu fiquei tão assustado.
— Me diz o que aconteceu. — Peço confusa e curiosa.
— Você saiu correndo daqui e quando eu fui atrás encontrei você no closet toda apavorada e sangrando muito pelo nariz. — Conta.
— Oh. — Meu Deus. Para eu ter sangrado eu devo ter tido uma crise fortíssima de pânico. Geralmente isso acontece depois que eu perco meus sentidos e o controle do meu corpo. Lembro de ouvir o médico dizendo para a minha mãe que eu nunca deveria chegar a esse estágio, que assim que a crise se manifestasse eu rapidamente teria que tomar o remédio. Agora está explicado eu não lembrar de nada. — Devo ter feito uma sujeira danada, não é? — O olho, envergonhada.
— Eu não sabia o que fazer. Você não falava comigo, então eu liguei para o Joe e ele trouxe um amigo dele que é médico e ele te examinou, depois espirrou algo no seu nariz para estancar o sangue e por último aplicou um calmante para você relaxar e dormir. Ele me mandou perguntar se você tem alguma doença. Você tem? — Seus olhos tão expressivos me deixam surpresa.
Mordo o lábio, olhando para baixo. Não queria que ele soubesse sobre isso.
— Eu tenho astrofobia, medo de trovões. Isso vem desde quando eu era criança, e como eu não fui logo tratar com um psicoterapeuta a fobia me fez desenvolver síndrome do pânico. Essas crises não dão muitas vezes, então eu tomo... Hummm... Tomo tranquilizantes tarja preta. Eu os tenho nas minhas coisas, e quando eles acabam eu tenho receita para comprar mais. Eu devia ter tomado hoje antes que a crise se tornasse mais forte, só que eu esqueci. — Assumo, cabisbaixa. — Me desculpe. Devo ter te dado muito trabalho.
. — Ele diz meu nome como se estivesse me censurando. — Você tinha que ter me contado essas coisas. Eu fiquei louco. Por que não me contou?
Não tenho coragem de olhar em seus olhos.
— Vergonha. Quem toma remédio tarja preta são... doentes mentais. Eu não queria soubesse que eu era...
— Você não é doente, . — Me corta com a voz dura. — Onde está o remédio?
— No meio das minhas roupas, eu escondi pra você não vê.
apenas balança a cabeça em negação.
— Amanhã eu o quero na minha mão, ok? Não quero passar por aquilo novamente.
— Desculpe. — Sibilo realmente constrangida.
Silêncio paira sobre nós por um tempo. se ergue e abre a geladeira, eu permaneço de costa para ele.
— O que acontece quando você tem esses ataques? — Questiona. Viro-me para si.
— O primeiro sintoma é o pavor. — Inicio. — Depois o coração começa a acelerar e a respiração fica rápida. Depois disso eu perco os sentidos, não vejo nada, e nem escuto, exceto o barulho dos trovões que só me apavoram cada vez mais. Eu lembro que o doutor disse pra minha mãe que eu tenho sangramento nasal e tremores, possa ser que a minha garganta trave, eu posso ter enjoo, tontura e posso até desmaiar, mas ele disse que quanto mais rápido eu tomar a medicação, melhor eu fico. Fazia tanto tempo desde a última vez que eu passei mal por causa de alguma tempestade... Eu esqueci completamente da minha fobia.
— Isso não vai mais acontecer. Vamos encontrar uma forma de te livrar desse medo. Não sei como, mas eu vou te ajudar. Agora eu acho bom irmos dormir, é madrugada, são 03h45min da manhã e você precisa descansar.
Eu concordo. Eu vou ter que acordar cedo para ir à escola.
— Ok. Boa noite. E obrigada por cuidar de mim quando eu estava ruim. — Sorrio e começo a me afastar.
— Pra onde você vai? — Questiona ele.
Volto e olho com cara óbvia.
— Pro meu quarto.
— Joe está dormindo lá, ele resolveu ficar essa noite aqui e eu disse que ele podia dormir na sua cama. Espero que não se importe.
— Bem... Não. Tudo bem. — Eu confirmo.
— Ele estava preocupado com você, . Ele gosta muito de você.
— E eu dele. — Um bocejo sai de mim. Olho para . — Onde vou dormir agora?
— No meu quarto, comigo!
Humm, isso não me parece uma boa ideia. Será que ele não percebe que eu tenho hormônios e ele é gostoso demais para eu me controlar? E se eu agarrá-lo?
O mero pensamento me faz engolir em seco e me deixa molhada.
Olha o que ele faz comigo sem me tocar...
Isso definitivamente não é normal.
— Ok. — Eu assinto. Vou deitar do outro lado da cama, bem na beira para não encostar nele.
Nós subimos as escadas juntos e entramos no quarto. Eu vou para a cama enquanto ele tranca a porta. Deito-me do lado onde me acordei de peito para baixo e viro minha cabeça para o lado oposto de seu lugar. Noto-o se deitar, então ele se vira e segundos depois sinto sua mão passeando sobre minha costa, fazendo carinhos que me deixam arrepiada.
— Você arrepia fácil. — Declara rindo ao perceber. Viro minha cabeça para ele.
— Culpe o meu sistema nervoso. Não posso controlá-lo. — Defendo-me. Ele solta um risinho.
— Aproxime-se mais. Você tá muito longe. Será que tem medo que eu morda? — Um sorriso cafajeste toma seus lábios.
Não , tenho medo de eu te morder, e não o contrário.
Me arrasto um pouco mais perto, porém ele me puxa até que nossos corpos estejam se encostando. Isso já me deixa desconfortável.
Sua mão volta a acariciar-me desde o meio da costa até o ombro. Eu fecho os olhos curtindo o momento. Decidi que vou lidar com os sentimentos que dizem que isso é errado mais tarde. Hoje e agora só quero aproveitar.
— Isso é bom. — Sussurro.
Ele passa sua mão pela minha nuca e a leva um pouco mais para baixo, quase na curva do meu bumbum. Isso me faz abri os olhos e espiá-lo. Ele está sério, me olhando também. Sua mão atinge mais uma vez meu ombro, então ele a leva para o meu cabelo, enrolando uma mecha sobre o dedo, depois o solta e toca minha bochecha, depois meu nariz e por fim, minha boca. Assim que seu dedo contorna meus lábios, eu os inclino e o beijo. Ouço um suspiro mais comparado a um gemido mal contido saindo de si. Isso faz com que minha barriga aperte. Seus olhos estão vidrados em minha boca, e ele repete o gesto com o dedo. Beijo-o de novo. O olhar azulado recai sobre o meu e ele me puxa mais perto, de forma que meu rosto está a um palmo do seu peito. O resto do corpo já está mais do que "grudado" ao seu. Ele entrelaça nossas pernas e volta a fazer carinho nas minhas costas.
Por um tempo eu tento entender o que foi aquele olhar aquecido que me deu, assim como também entender porque ele está tão diferente. A única coisa que percebo é que essa nossa proximidade não é boa para o meu psicológico. E se eu não souber lidar com os sentimentos que tenho por ? Eu sei que gosto dele e o quero como homem. Quero transar com ele muito, quero que ele me faça sua mulher. Estou platonicamente apaixonada. Sei que ele nunca poderá me corresponder e isso me deprime. Lágrimas nascem em meus olhos e não querendo que ele veja eu apenas me viro para o lado e me embrulho porque está frio. Uma lágrima escorre e eu tento fazer silêncio para ele não perceber. Imagine qual é a minha surpresa quando ele envolve seu braço em torno da minha cintura e me puxa, moldando minha costa com seu peito e meu bumbum... Bem, ele está encostando em seu pênis. Um choque corre direto para o V no topo das minhas coxas quando sinto-o ficar semi-ereto. Ele enfia suas pernas entre as minhas e isso me faz empinar um pouco mais contra sua ereção que logo fica mais dura empurrando em mim. solta outro suspiro, eu fico calada porque não quero que esse momento acabe, quero prolongar o quanto puder. Sei que isso é involuntário de sua parte, mas na minha imunda mente, eu imagino que ele está fazendo de propósito e que assim como eu, ele quer muito foder.
Pobre, ! - Meu subconsciente zomba, enquanto a minha moral me olha com cara feia.
Totalmente molhada e desejosa, eu caio num sono quente.

Capítulo 14 - Fúria Cega

Eu posso escutar um alarme soando longe, e é devido a este som que eu finalmente abro os meus olhos para a realidade. O lugar é diferente, o cheiro é diferente e a cama é diferente. Sinto-me cansada, sonolenta, mas mesmo assim encontro forças para me erguer e sentar. Dormi no quarto de com ele foi uma experiência um tanto quanto frustrante. Eu já tinha imaginado como seria, a forma como faríamos sexo e tudo mais, sobretudo não chegou nem perto daquilo. Nós só dormimos, inferno. A única coisa boa - por assim dizer - foi que nós roçamos um no outro. Eu ainda podia sentir o seu membro encostando e empurrando contra o meu bumbum, sua mão fazendo caricias no meu estômago, movendo desde abaixo dos meus seios até quase onde o short apertava. Lembro de ter acordado três vezes pela madrugada, me sentindo incomodada pela sensação de calor no corpo e umidade no meio das pernas. E por mais que eu tentasse me mexer para longe, sempre me puxava contra ele de volta. Foi bem estranho.
Levanto da cama e vou para o meu quarto. Abro a porta devagar para o caso de Joe ainda está dormindo lá, mas não. Já acordou. Desligo o despertador, pego minha toalha e desço para o banheiro. Quando removo meu pijama e calcinha, surpreendo-me, está tão molhada que atingiu até o tecido do meu short. Droga. Para tentar apagar o fogo que fez nascer inconscientemente em mim, tomo banho com água fria, mesmo que lá fora esteja quase nevando. Termino minhas coisas, subo para o quarto, me arrumo, ajeito meu cabelo e pego minha mochila. Ao chegar a cozinha encontro Joe e rindo de algo. Ao me verem, ambos sorriem.
— Bom dia, flor do dia. — Joe é o primeiro a me cumprimentar.
— Bom dia, Joe. — Sorrio me aproximando para lhe dar um abraço.
— Se sente bem? — Indaga, traços de preocupação tomam seu rosto.
— Ótima.
— Ainda bem. — Sorri.
Vou para e ele abre os braços. Aperto-o contra mim e seu cheiro me inebria. Eu amo seu cheiro. Ele beija minha testa, depois meu pescoço. Arrepio e me afasto.
— Tudo bem?
Assinto.
— Aqui está o remédio. — Entrego a ele um pequeno pote alaranjado transparente cheio com algumas pílulas. Ele lê o rótulo, depois o guarda no bolso.
— Me deu um susto grande ontem, mocinha. — Joe comenta. Sorrio para ele.
já te contou o que aconteceu?
— Já sim. Espero que esse tipo de coisa não dê mais em você.
— Eu também.
— Estávamos esperando você descer para tomarmos café. — diz.
— Obrigada.
Começamos a comer e eu escuto o que os dois irão fazer. vai levar Joe em sua casa e deixar a caminhonete lá, então ele volta correndo. Na hora do almoço Joe vem trazer a caminhonete dele e ambos vão a um lugar que eu não prestei atenção onde fica. Assim que acabo, levanto-me e me despeço dos dois, ganhando um beijo na cabeça de Joe e um abraço super apertado de , onde ele me diz que se eu precisar dele, é só ligar. Pego as chaves do carro e saio. Não chove essa manhã, sobretudo ainda está frio. O percurso é tranquilo até a escola, chego no horário habitual antes da campainha bater, estaciono meu carro no mesmo lugar de ontem e vejo o carro de John na fileira em frente à minha. Sem pressa caminho para o hall de entrada e avisto de longe Emily e John conversando próximo ao portão de entrada. Emy levanta a cabeça e me vê, diz alguma coisa e John se vira. Ambos levantam a mão e eu aceno de volta. Algo chama a minha atenção quando uma menina grita e sai correndo de um garoto, ambos parecem se divertir. Viro o rosto e meus olhos param na única pessoa que eu não queria ter o desprazer de ver hoje. Diego. Como sempre, ele está olhando para mim com o rosto neutro, eu apenas abaixo a cabeça sem querer encará-lo por mais tempo.
— Hey, . — Ouço alguém atrás de mim, e olho para saber quem é.
— Lindsey. — Paro de caminhar para esperá-la já que ela está correndo para mim.
— Obrigada por me esperar. Vir você de longe e resolvi me aproximar. — Ela diz respirando rápido por causa do meio galope. Eu apenas sorrio. — Aconteceu alguma coisa? Você parece meio tensa hoje. — Repara. — E eu nem te vi na aula de teatro ontem.
— Aconteceu, Lindsey. Uma coisa muito ruim. Mas vamos primeiro encontrar com a Emy e John, aí depois eu conto para você. — Ela assente, e assim andamos juntas até onde meus amigos estão.
— Eita, menina. Pensei que você tinha até morrido. Te liguei tanto ontem e você nada. Não faz mais isso comigo. — Emily me abraça forte e depois me segura pelos ombros, olhando seriamente em meus olhos. — O que aconteceu?
— Espera um pouco. — Viro-me para John e o abraço também. — Deixa eu apresentar para vocês. Essa é a Lindsey... Lindsey, essa é a Emily e este é o John. — Aponto. Eles se cumprimentam. Nós entramos na escola e enquanto seguimos para a sala, eu vou contando o que aconteceu ontem. Emily fica raivosa e juntamente com John tento contê-la, já que ela quer dar meia volta e ir tirar satisfação com Diego.
— Eu ainda acho que ele tem alguma por você, . — Lindsey comenta e Emy bufa para ela.
— Se ele quisesse ter alguma coisa com ela eu tenho certeza que ele agiria normalmente como todos os meninos agem quando querem uma menina. Humilhá-la não irá fazer magicamente ela cair de amores por ele, garota. — Diz a loira.
Lindsey rola os olhos.
— Talvez ser malvado seja a única coisa que o faça ter a atenção dela. Você já parou para pensar nisso? — Rebate a morena.
— Olha, eu sou homem e eu obviamente penso como homem. Se eu estiver interessado em uma menina, eu farei de tudo para mostrar a ela todos os meus pontos positivos, tentarei seduzi-la para que me aceite. Zoar e rebaixá-la só irá mostrar que eu sou um idiota e que ela deve se manter longe de mim. — John comenta.
Então Emy e John começam um discurso contrário a opinião de Lindsey e eles seguem com um tipo de réplica e tréplica sem fim. O pessoal da escola estão nos olhando curiosos.
— Hey! — Eu paro na frente dos três fazendo-os esbarrar em mim, e isso cessa a discussão. — Já chega, ok? Eu não quero mais ouvir sobre esse assunto, ou aquele maldito imbecil. Tudo que eu sei é que ele ama infernizar a minha vida, me diminuir e me fazer de piada para a galera. E o que eu aprendi ontem é que eu não devo ajudar o inimigo porque na primeira oportunidade que ele tiver, ele vai me machucar. E aqui, na porta da nossa sala se encerra a porra deste assunto. Não quero ouvir, nem ver, nem falar sobre aquele mestiço maldito, certo? — Os encarei com seriedade. Emy e John assentiram, porém Lindsey me olhou um pouco chateada. — O que?
— Você soou preconceituosa quando disse a palavra mestiço. Minha avó por parte de pai é espanhola, sabia? — Ela me conta e eu fico um pouco desconcertada, mas tento me explicar.
— Eu não quis que você entendesse dessa forma. Eu estava me referindo a ele, e não aos outros de seu país de origem.
— Ainda é uma visão preconceituosa. — Resmunga olhando para longe.
Suspiro.
— Desculpe, ok?
Ela não responde, apenas entra na sala me deixando para trás.
— Não gostei dessa garota. É chata e se acha. — Emy para ao meu lado. John não fala nada, apenas nos puxa para a sala. A primeira aula é sobre economia, ou seja... Chata. Para. Caralho.
Emily vai para a sua mesa, eu vou para a minha e John se senta na fileira ao meu lado. Pego meu caderno e livros e os abro. Pelo canto de olho vejo alguém entrando pela porta e só pelo sapato já sei quem é, então nem me incomodo em erguer a vista. Decidi que a partir de hoje ele pode mexer, zombar e fazer o que ele quiser para me infernizar, mas eu vou ignorá-lo, nem que isso custe todo o meu autocontrole e educação. Não vou lhe dar trela. Foda-se Diego Gonzáles.
Poucos minutos se passam quando o professor entra e inicia sua aula. Mantenho-me concentrada, anotando todas as informações que acho importante. No final da aula ele passa um trabalho para resolvermos em casa, tirando as respostas de um imenso livro que devemos encontrar na biblioteca da cidade. Odeio tipos de trabalhos assim, é muito desgastante, sem contar que eu teria que dar toda a minha atenção, o que provavelmente me custaria horas lendo enquanto eu poderia estar em um cinema, ou saindo para me divertir. Inferno.
Arrumo minhas coisas e meus amigos me esperam para irmos juntos a outra aula. Filosofia. Essa aula é legal por causa do professor Pipoca. Ele gostava que chamássemos ele assim porque apesar de ele ter uma personalidade divertida, ele também era muito estourado. Seu nome era Dwane Campbell, nada a ver com seu apelido, mas tudo bem. As cadeiras dessa vez estavam postas de modo diferente, elas formavam um círculo.
— Ainda não se sentem, apenas formem duplas. — Comanda ele.
— Professor, pode ser trio? — Alguém questiona.
— Será que vocês estão mocos? O que eu disse? Formem duplas. Duplas são feitas de dois, portanto é dupla e não trio.
A classe vaia quem fez a pergunta e eu meio que rio um pouco, mas logo encontro um problema. Quem escolher? Emy ou John. Não posso escolher, sério.
— E agora? — Eu olho para os dois.
— Você pode fazer comigo se quiser. — Alguém fala atrás de mim e eu me viro.
Lindsey.
— Você está com raiva de mim, lembra? — Eu comento.
— Não com raiva, chateada. Não tanto a ponto de me fazer parar de falar com você. É divertida. — Sorri.
Eu olho para Emily e percebo através de sua expressão que ela não vai gostar se eu fizer par com Lindsey e como eu a conheço a mais tempo e a considero minha melhor amiga, escolho-a.
— Se importa de fazer com o John? Vou fazer com a Emy.
A morena dá de ombros.
— Tudo bem.
John sorri e se aproxima dela. Eu vou para Emy e a abraço pelos ombros.
— Se escolhesse ela, te renegaria. — Resmunga. Rio de seu ciúme.
— Bobinha... Você sempre virá em primeiro quando o assunto em questão for amizade. Não te troco por ninguém, Linda. — Beijo sua bochecha.
— Acho bom mesmo. — Ela retribui o carinho.
— Adoro demonstrações afetivas de lésbicas. — O professor zomba fazendo-nos rir. Foi engraçado. Momentos depois ele nos pede para sentar ao lado dos nossos parceiros e explica como serão feitas as atividades hoje.

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Assim que a segunda aula terminou, Emy, John e Lindsey foram direto para a lanchonete para guardarem lugar, já que ela estava ficando muito movimentada e nós quase não conseguíamos comer dentro do tempo que a escola liberava para o intervalo. Eu vou ao banheiro porque estou apertada. Alguns minutos depois eu saio só para me arrepender porque o grupo de garotos que entrou no banheiro enquanto eu estava com Diego ontem me reconhecem e formam um círculo ambulante em torno de mim.
— Vejam quem temos aqui... — O garoto de cabeça raspada inicia vindo para a minha frente. Eu tento desviar, mas ele sempre vai na mesma direção que eu. — A novata a quem o Dieguito teve o privilégio de comer. Olá, Doçura. — Tenta capturar minha mão, sobretudo sou mais rápida ao levá-la para longe. — Quando será minha vez de ter um passeio completo nesse belo corpo? — Ele ri e eu continuo tentando seguir em frente, mas eles são insistentes.
— Imagine ela curvada na minha frente enquanto chupa o meu pau... — Outro comenta me intimidando. — Deve ser a visão do paraíso. — Eu realmente espero que eles apenas estejam tentando me aterrorizar psicologicamente sem a real intenção de executar algo físico, porque se eu sentir que é isso que eles têm em mente, então eu terei que chamar e contar tudo a ele. Não que agora eu seja a garota que corre para o papai resolver seus problemas, mas isso é algo que eu não posso lidar. Deus me livre ser estuprada.
— Já pensou nela de quatro enquanto revezamos em sua bunda e boceta... Hummm. Isso parece bom. — Lágrimas nascem eu meus olhos. Isso é horrível para uma menina escutar. O que me deixa mais calma é que além de nós há mais pessoas no corredor. Se eles tentarem me tocar, vou gritar.
— Diga-nos, docinho. Diego te fez gozar, ou só meteu com força? — Outro pergunta. Eu não olho para cima, eu só quero seguir meu rumo, e o ruim disto é que estou muito longe da porta de saída.
— Vejo lágrimas em seus olhos. Isso me lembra aqueles vídeos pornôs de japonesas em que elas são agarradas e fodidas contra vontade. Devo admitir que sempre tive tesão em fodas forçadas. — Oh meu Deus. Só quero sair daqui. Eu rezo. — Lágrimas me excitam.
— Não precisa ter medo de nós, amor. Te faremos sentir bem e você vai agradecer e implorar por mais depois que acabarmos. — Estão rindo de mim, os malditos. Será que se eu apenas correr eles vão me deixar em paz ou irão me perseguir?
— Gosto de garotas tímidas. Elas são as mais safadas na hora do sexo. Engolem um cacete melhor do que ninguém. Hummm, sabe o que estou imaginando agora, linda... — O de cabeça raspada me empurra contra a parede e coloca suas mãos ao lado do meu corpo para que eu não saia, e como eu continuo olhando para baixo, ele é rude ao agarrar meu queixo com força, apertando-o ao ponto de dor. O sorriso maldoso brilha em seus lábios e seus olhos são monstruosos. — Estou imaginando eu enfiando com força o meu pau na sua garganta enquanto puxo seu cabelo com força e você chora implorando por... — Eu fecho os olhos e as lágrimas estão descendo tão rápido que eu não posso controlá-las. Sinto a pressão no meu queixo sumir e quando abro os olhos novamente, surpreendo-me com a cena.
Diego está em cima do menino socando ferozmente. Os amigos do babaca nada fazem, apenas observam atônitos tal qual eu. A briga atrai uma pequena aglomeração e eles estão assistindo calados. O rosto do idiota já não pode ser mais visto corretamente porque há muito sangue, e Diego não para, ele apenas continua. Ninguém faz nada para interromper, e preocupada que aquilo vá acabar na morte de alguém eu solto minha mochila e grito para o Gonzáles.
— Já chega, Diego. — Tento empurrá-lo de cima do menino inerte, sobretudo ele continua batendo com uma fúria cega. — DIEGO... PARA. VOCÊ VAI MATÁ-LO. PARE, OH MEU DEUS. — Minha força não é suficiente para tirá-lo de cima dele e quando eu olho em volta todos estão olhando para mim em meu desespero. — Parem ele, por favor. Eu não consigo sozinha. — Choro implorando por ajuda.
— Não vamos nos arriscar. Ele é perigoso. — Um rapaz que está entre a multidão fala. O pessoal a sua volta concorda.
— Alguns de nós aprendeu da pior forma que não se deve entrar em uma briga nem que seja para apartar quando Diego estiver no meio, sinto muito. — Outro fala.
Meu Deus. Como podem assistir a essa barbaridade e não fazerem nada?
Ainda pasma com o comportamento desumano daquelas pessoas, eu penso em algo para deter Diego, e a única saída é apostar em jogar-me com toda força contra ele para que ele solte o menino. Talvez eu consiga tirá-lo de cima do outro infeliz. Eu limpo as lágrimas que embaçam minha visão e me ergo, dou alguns passos para trás então me jogo com toda força em Diego, assim como os jogadores de futebol americano fazem. Alivio me toma por poucos segundos quando consigo êxito em meu plano. Consegui ficar por cima de seu corpo sobre o chão.
Diego ruge e sinto suas mãos em torno de mim, apertando. Viro a cabeça e vejo quando os companheiros do moleque rapidamente o erguem e correm com ele para não sei onde, só sei que eles desaparecem, sobretudo a multidão fica e eles estão nos olhando.
— Rwarrr. Me solta! — Diego vocifera, agora tentando me empurrar para longe. — Eu vou matar aquele desgraçado.
— Pare. — Eu peço, mas ele se movimenta demais. — Diego, pare. — Ele continua lutando. — Por favor, pare. Eu não aguento mais. — Choro ainda tentando mantê-lo comigo. Como se tivesse tido um estalo, ele para e me fita por quase um minuto inteiro, então sua expressão se suaviza e seus olhos não parecem mais bravos. — Oh meu Deus. — Eu choro mais quando ele totalmente para de se mexer e apenas me encara.
. — Seu tom é doce ao chamar-me.
Eu me ergo e aos tropeços recupero minha mochila e começo a correr para longe dele e de todos. Ouço ele chamando meu nome, mas não paro, eu apenas continuo correndo. Ao chegar a lanchonete onde meus amigos estão, eles me veem de longe e correm em minha direção com choque revestindo seus rostos. Eu abraço Emy forte e soluço sem parar. Estou totalmente ciente que estou atraindo atenção de todas as pessoas que estavam na lanchonete, mas não me importo, só quero ser consolada.
Assustada, ouço Lindsey comentar para Emy que devemos ir para um lugar mais tranquilo e John sugere o estacionamento. Eu deixo que eles me guiem, entretanto ainda continuo chorando.
— Hey, Linda... O que aconteceu? — John pergunta. Eu limpo grosseiramente o meu nariz que escorre quando olho para ele.
— Eu... Eu... Sabe a-aqueles meninos q-que eu falei q-que entraram n-no banheiro o-ontem q-quando eu estava co-com o Diego? — Os três assentem. — Eles... Eles estavam me... me assediando. E-Eu não sei bem q-quando a-aconteceu, mas Diego pegou um de-deles e começou a ba-bater, e eu na-não se-sei se e-ele matou ele! — Conto entre soluços que me sufocam.
Meus amigos se olham espantados, então vejo Lindsey tocar no braço de Emily.
— Fiquem aqui com ela. Eu vou lá dentro saber direito o que aconteceu.
Emy assente e John vem para perto de mim.
— Calma. Vai ficar tudo bem.
Sim, eu realmente espero isso.

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A terceira aula chega e me levam para lá como um zumbi. Conseguiram me acalmar, e parece que tudo foi "resolvido". Até onde eu sabia, até onde eu escutei é que ninguém tinha ido denunciar Diego na secretaria, e uma vez que ele não fora pego por nenhum professor, ou o inspetor, os alunos não o delatariam. Eles tinham certo temor dele. Os próprios alunos limparam o sangue do menino do chão da escola e quando alguém perguntava o que era aquilo, alguns respondiam que tinta vermelha havia sido derramada lá. Sobre o menino espancado não se sabia nada, mas parece que um garoto do grupo dele fora instruído a levar os avisos de Diego de que se ele abrisse o bico sobre o que aconteceu, ele o mataria, assim como também Diego mandou o recado de que nenhum deles deveria se aproximar de mim novamente. Isso foi tudo que Lindsey descobriu.
Eu estava assustada, eu nunca tinha visto uma cena de violência daquele tipo na minha frente, e o pior de tudo é que eu tinha parcialmente me envolvido, eu fui a única a ter "colhões" para tentar frear aquilo antes que uma tragédia acontecesse. Nada me fazia esquecer a forma como Diego agiu, nada. E o menino? E se ele morreu, meu Deus? Eu não saberia como reagir se descobrisse que foi isso que aconteceu, e por mais que aquele idiota tivesse feito aquelas coisas ruins para mim, eu ainda rezei para que desse tudo certo para ele.
A aula passou como um borrão diante dos meus olhos, eu não ouvi uma polegada do que a professora falou. Alguns dos meus colegas de classe ficavam me olhando e cochichando e isso estava me deixando sem graça, então eu apenas abaixei a cabeça e fingi escrever no meu caderno, mas na verdade eu estava mesmo era fazendo rabiscos aleatórios.
Eu simplesmente não sabia como proceder o que tinha acontecido, nada fazia sentido na minha cabeça. Eu tive um dia estressante na noite anterior, eu passei mal, tive um ataque e agora isso... Era muito para mim. Sorte que eu tinha alguém para conversar comigo, Emy, John e Lindsey eram essenciais na minha vida hoje, acho que eu surtaria se eles não estivessem do meu lado nesse momento.
Quando a aula termina eu guardo minhas coisas e as meninas com John já estão me esperando na parte de fora.
, telefona para o seu pai e diz que você vai dá um rolê comigo e que mais tarde você volta para casa. — Comanda Emy.
Ótima ideia. Com a cara inchada e os olhos vermelhos que estou, logo perceberia que algo aconteceu e iria me infernizar até que eu abrisse o jogo com ele.
Digito seu número e espero ele atender.
— Meu bem? — Atende.
— Oi, . — Tento fazer minha voz sair normal para não lhe causar estranheza.
— Diga, Linda.
— Liguei para avisar que vou sair com a Emy e que vou chegar um pouco mais tarde em casa, ok? — Tudo saindo bem até agora.
— Sim, mas você não tem trabalhos escolares para fazer? — Indaga.
— Yeah, tenho. Mas farei com Emy. Vamos estudar juntas.
— Certo. Se comporte, viu?
— Claro. Até mais tarde. — Me despeço.
— Até, Coração.
A ligação encerra.
— Ele deixou. — Aviso.
— Ok. Vamos para a minha casa. Liguem para seus pais e os avisem, vocês vêm junto também. — Emy diz para John e Lindsey. Os dois se afastam para falar ao telefone, depois voltam e contam que seus pais autorizaram. — Eu vou no carro com a , e John leva a Lindsey, tá? — Assentimos.
Entro no carro e Emy me segue. Saímos do estacionamento com o Nissan Leaf nos seguindo. Chegamos na casa da minha amiga em 15 minutos. Seus pais estão saindo quando entramos na casa, e a loira rapidamente apresenta John e Lindsey a eles. Nos pedem que não façamos bagunça e que nos comportemos. Concordamos. Emy nos leva para seu quarto.
— Fiquem à vontade. — Ela se joga contra um grande puff rosa. Eu me jogo na cama. Como é a primeira vez de Lindsey e John no quarto, eles sentam ao meu lado, ainda não se sentem confortáveis para agirem como se estivessem seus próprios quartos. — Sei que a provavelmente não quer tocar no assunto, mas tem algo martelando aqui na minha cabeça. — Inicia ela.
Eu bufo, mas fico calada.
— O quê? — John questiona.
— Antes eu discordava da Lindsey sobre o que ela disse sobre o Diego gostar da . Mas, sinceramente, depois do que ele fez hoje talvez essa garotinha aí esteja certa. Levando em conta tudo que ela me falou sobre ele ter mudado depois que você chegou no colégio, amiga, uma coisa parece bem clara sobre o episódio de hoje dele te defender dos babaquinhas.
— O quê? — Me ergo sobre os cotovelos, sobressaltada.
— Diego Gonzáles gosta mesmo de você.
Foda! — É tudo que eu penso no momento.

Capítulo 15 - Kiss

— Eu não sei como me sinto a respeito disso. — Eu me manifesto erguendo-me sobre os cotovelos. — Isso só... Parece absurdo. Quer dizer... Diego nunca manifestou algum interesse.
— Você não notou nada de diferente nos olhares que vocês trocaram... sei lá? — John questiona.
Eu penso.
— No meu primeiro dia de aula ele falou comigo, mas na saída ele quis me assustar. Depois a única coisa que eu percebia era que ele me encarava sempre que eu chegava na escola, então ele começou a fazer da minha vida um inferno, mexendo comigo, me fazendo de piada... Essa coisa clichê que toda escola americana tem. Mas é só isso, nunca reparei nada mais que isso.
— Hummmmm. — Emily se manifesta. — Lindsey disse que ele olha para você a aula inteira com cara de idiota.
— Ele naturalmente tem cara de idiota, Emy. — Eu reviro os olhos.
Ela bufa.
— Você entendeu o que eu quis dizer, cadela. O ponto é: — Ela prossegue. — Se ele gosta mesmo de você, então por que ele não diz nada?
— Talvez ele só queira exclusividade na área de perturbar a minha vida. — Eu proponho, mas a loira descarta a possibilidade com um gesto de mãos.
— O que aconteceu depois que você derrubou ele de cima do imbecil lá? — Lindsey pergunta.
— Eu estava chorando implorando para ele parar, então, tipo... Do nada ele parou e me olhou por um tempão. Quando percebeu que era eu, as feições dele se transformaram. Elas ficaram... Gentis. Depois disso ele chamou meu nome, só que eu corri de lá. Era muita pressão, e a minha cabeça estava rodando. Me senti desorientada, nem sei como cheguei até a lanchonete. — Me ergo indo até a penteadeira de Emy para pegar um pente e desembaraçar os meus cabelos.
— As meninas comentaram que depois que você saiu correndo ele ficou gritando seu nome para você voltar, e ele ia atrás de você, mas alguém disse que era melhor ele ir embora ou o diretor poderia descobrir tudo. — Lindsey conta. Eu estremeço.
— Sinceramente eu não sei o que faria se ele tivesse vindo atrás de mim. Eu iria desmaiar.
— É, mas de qualquer forma eu acho melhor você já ir se preparando para um possível encontro com ele, . — John fala. — Essa história tá com cara de que ainda não acabou, e imperativo do jeito que ele demonstra ser, com certeza vai querer conversar com você.
Fecho os olhos e meus ombros encolhem em cansaço.
— Não me sinto preparada. — Meu tom sai tão baixo que parece um choro. — Eu tô com medo.
— Ele não vai fazer nada com você. Isso eu posso garantir. — Sinto as mãos de Lindsey em meus ombros, onde ela aproveita e faz uma massagem. — Nossa, tá tensa, hein?
— Meu dia foi estressante, você quer o quer?!
Alguns minutos se passam em completo silêncio, cada um pensando em algo que lhe convêm. Na minha mente, predomina o receio de encontrar com Diego novamente ou aqueles garotos. O pior seria os olhares na escola amanhã, e o pessoal comentando pelas minhas costas. Odeio esse tipo de coisa.
— Fiquem aqui. Vou pedir pra Cida fazer um lanche para nós, enquanto isso vamos começar a fazer o trabalho de filosofia. Já volto para liberar o Wifi para vocês.

__X__

É 19h21min quando eu paro na frente de casa. Passamos a tarde toda fazendo o trabalho e resolvemos que iriamos terminá-lo para não acumular até a semana seguinte, uma vez que não sabíamos quantos trabalhos mais teríamos. O meu e de Emy era sobre Platão e o Mito das Cavernas. O de John e Lindsey era sobre a vida e obra de Aristóteles. Não foi uma atividade difícil, mas sim trabalhosa porque envolvia pesquisas e muito texto, no entanto conseguimos. Depois de finalizarmos, eu fui deixar Lindsey em sua casa. Ela me convidou para entrar e eu aceitei, conheci sua família - que é muito divertida, por sinal -, mas quem mais me chamou a atenção foi seu irmão. Era lindo, todo ao estilo rock'n roll. Gostei dele, uma pena que era comprometido porque, no que dependesse de mim, eu iria tentar pegá-lo. Eu tomei uma xícara de chá com eles, mas tive que vir embora. poderia se chatear comigo.
Abro a porta e - que está sentado no sofá assistindo jornal - olha para mim, então sorri.
— Nossa, chegou tarde hoje. — Comenta ele.
Eu apenas sorrio e deixo minha mochila cair no chão, então caminho até onde ele está e me jogo no sofá, deitando minha cabeça em sua coxa, soltando um suspiro de exaustão. Sua mão vai primeiro para o meu cabelo, depois desce para o meu braço onde ele acaricia de cima a baixo.
— Parece cansada. — Comenta.
— Estou. — Fecho os olhos curtindo seu toque.
— Pobrezinha. — Diz ele me fazendo soltar um risinho. — E os trabalhos da escola?
— Um deles já está pronto. O outro começo amanhã quando eu for na biblioteca.
— Certo. — Sua mão vai para minha nuca fazendo cafuné. Não consigo conter o gemido de apreciação.
— Eu amo cafuné. Continue. — Peço. Como estou de olhos fechados, tudo o que posso ouvir é seu risinho.
— Está bom assim? — Questiona quando cobre uma área maior na minha região capilar. Assinto.
Por um longo tempo eu degusto seu toque que me causa arrepios e me alivia em medidas iguais, e ele parece gostar do que está fazendo porque num pequeno momento em que abri os olhos, parecia concentrado, as pupilas dilatadas estavam imensas em seu rosto, e sua expressão era de prazer, como se ele estivesse recebendo os estímulos ao invés de mim.
— Obrigada. — Eu digo me erguendo. — Se continuar fazendo isso, nunca mais me levanto daqui. — Ele ri, mas nada comenta. — Vou tomar um banho e já volto para jantarmos, ok? — Não espero respostas, apenas vou embora.
Subo e desço rápido. Já no banheiro, assim que tiro minha roupa, a calcinha está molhada e o fogo no meio das minhas pernas ainda é grande, e só aumenta a cada vez que lembro do toque de em meu corpo. Lembranças do seu pau encostando duro na minha bunda ontem pela madrugada me atormentam aguçando meu desejo e minha vontade de transar só aumenta. Faz tanto tempo desde a última vez que eu estive com um menino, e o pior é que eu nem tinha um consolador para me ajudar agora.
Bem, na falta de um pau, vai os dedos mesmo. Se não tem um cão, cace com o gato.
Eu odeio que eu tenha que me masturbar, mas só que aquele formigamento provocativo que eu sentia só iria embora depois que fosse aliviado, e eu não conseguia ficar mais algum tempo sem um toque sexual. Eu realmente precisava fazer isso, mesmo que depois eu fosse me praguejar sobre parecer um menino com tesão quando descobre a punheta.
Eu entro no chuveiro e tomo meu banho, mas em algum momento os meus dedos estão deslizando sobre as dobras lisas e eu estou mordendo os lábios para conter os gemidos. O foco dos meus pensamentos é , eu imagino ele lá comigo, em baixo d'água. Seu corpo tonificado escorregadio grudado ao meu, seus lábios devorando-me, mordendo-me, chupando-me. Suas mãos fortes apertando-me, tocando meus seios, meu bumbum, deslizando pela minha intimidade indo direto para o broto de nervos, esfregando num ritmo constante, levando-me cada vez mais para a borda, e quando ele esfrega mais rápido dizendo sacanagens em meu ouvido, eu gozo a ponto de minhas pernas vacilarem e eu cair de joelhos contra o azulejo molhado. Eu respiro rápido e minha visão turva não me permite enxergar direito.
? — Sua voz faz tudo em mim apertar e comprimir em resposta. Mordo os lábios. — , está tudo bem aí? — Abro os olhos sobressaltada, sentindo a realidade volta a mim. Olho em volta, me vejo ajoelhada, mas não há dor. — , o que está acontecendo aí dentro? Eu ouvi um barulho.
Porra. Ele está a menos de três metros de mim enquanto eu estava vivendo e sentindo um orgasmo no qual eu gozei imaginando-me com ele. Quão constrangedor isso pode ser?
, se não responder eu vou entrar.
— Não! — Eu grito exasperada. — Está tudo bem. — Eu odeio que minha voz sai rouca.
— Tem certeza? Eu ouvi como se alguém tivesse caído. — Comenta da porta.
— Eu caí, escorreguei sem querer, mas já estou bem. Não se preocupe. — Ergo-me e me lavo.
— Você realmente não quer que eu entre para te ajudar? Sua voz tá diferente.
— Não! Pelo amor de Deus. — Eu queria que ele entrasse para me ajudar, só que em uma coisa diferente.
— Tá. Mas saia logo, depois quero ver onde você bateu.
— Não bati nada. — Digo em defesa.
— Isso eu vou ver depois. — Ouço passos indo para longe e assim eu respiro aliviada. Nunca mais me masturbo no banheiro! Nunca!
Lavei a calcinha suja, depois me enxuguei e subi para o meu quarto, estendendo a calcinha numa corda que eu havia atravessado bem perto da janela para que o vento secasse. Visto uma camisola amarelo bebê com bolinhas brancas e lembro que hoje é dia de fazer esfoliação no meu rosto, então pego um pouco do meu creme azul e espalho sobre a minha pele até que a minha face esteja inteiramente coberta. Ficarei com ela por uma hora, depois removo e passo o hidratante. Desço e vou direto para a cozinha, está de costas mexendo em algo na pia e assim que escuta quando eu puxo a cadeira ele se vira.
— Deus me livre! — Ele vocifera com olhar espantado. — Socorro, tem um Avatar na minha cozinha.
Rolo os olhos porque já sabia que ele iria fazer piadinha sobre o meu creme.
— Ha, ha. — Cruzo os braços e ele ri.
— Onde estão seus amigos Smurfs? — Ele insiste em fazer gracinhas.
— Quantos anos você tem? 11? — Eu pergunto não lhe achando nem um pouco engraçado.
Ele continua rindo quando se vira para mexer algo na frigideira.
— O que é isso no seu rosto?
— Creme esfoliante. — Respondo verificando minhas unhas. O esmalte já está descascando.
— Para que serve?
— Para manter minha pele limpa de acne. O que é o jantar?
— Carne frita acompanhada de legumes.
— Ok.
Silêncio nos abraça por um tempo. Enquanto isso ele arruma a mesa, colocando os pratos, talheres e copos. Pega a jarra de suco de melancia e serve para nós dois, depois ele põe uma tabua grossa de madeira e a frigideira vem em cima dela. Nos servimos, provo a comida e o gosto é ótimo.
— Como foi a escola hoje?
Uma merda! Penso, mas não respondo.
— O mesmo de ontem.
— Certo. Onde se bateu quando caiu no banheiro? — Seu olhar está sobre mim quando eu ergo a cabeça.
— Eu não me machuquei, já disse isso para você. — Devolvo. Ele continua me olhando.
— Onde? — Insiste.
!
— Me mostre onde. — Uma ordem séria.
Suspiro quando me viro para si já que estou sentada bem próxima e ergo um pouco a barra da camisola para lhe mostrar meus joelhos que estão apenas um pouco avermelhados.
— Caiu de joelhos?
— Foi.
— O que estava fazendo para cair? — Eu volto para o meu lugar.
— Eu apenas escorreguei. — Afirmo convicta, mesmo que seja mentira.
— Como, se o piso do banheiro é antiderrapante?
Pelo amor de Deus! Exalo uma grande quantidade de ar. Suas perguntas estão me estressando.
... — Eu viro em sua direção com a expressão totalmente cansada. — Eu só escorreguei e pronto, foi só isso. Por que está insistindo nesse assunto sem importância?
Ele engole a comida e me olha.
— Eu sei que está mentindo para mim.
Um riso sem humor escapa dos meus lábios.
— Mentindo como?
Ele ri.
— Eu sei o que você estava fazendo lá. — Confessa.
O frio na espinha vem rápido e atravessa rasgando quando o pavor toma meu corpo. Como assim ele sabe o que eu estava fazendo na porra do banheiro?
— O quê? — Eu digo um pouco alto. ri novamente.
— Eu sei o que era.
O coração está batendo ao ritmo de uma percussão.
— Eu não estava fazendo nada. — Minha voz afina quando eu fico na defensiva e eu detesto isso.
— É claro que estava, . — Há um sorriso em seu rosto que irrita o inferno para fora de mim.
— Não. Estava. Não! — Eu quase cuspo.
Sua gargalhada sai mais alta quando ele vê a minha reação estressada.
— Você estava.
Eu rosno.
Não vou ficar aqui para continuar a ouvi-lo caçoar de mim. Se ele sabe o que eu estava fazendo, então foda-se. Eu já passei por humilhações demais hoje. Eu empurro o prato e me ergo pronta para ir embora, mas quando estou cruzando o batente que leva até a sala a voz de me para.
— Dê meia volta e se sente.
— Não. — Dou o primeiro passo.
— É uma ordem. Volte. Vai ser pior se eu levantar e te trazer à força. — Sua voz é tão máscula e autoritária, e a garotinha submissa em mim atende obediente o chamado, e resignada eu volto pelo mesmo caminho, sentando-me com a cabeça baixa. Não tenho mais fome, perdi-a completamente. — Coma.
Não!
, termine o seu jantar!
— Não pode me obrigar a comer. — Manifesto-me ainda de cabeça baixa.
— Não posso? — Ele ri sem humor. — Veremos. Se não comer, não vou deixar você sair com sua amiga essa semana inteira, nem mesmo no sábado para ir ao cinema.
Ah, se ele pensa que eu vou sucumbir a sua chantagem, ele está muito enganado. Eu posso muito bem ficar em casa e assistir filme no meu computador. Eu tenho Netflix. Ele não vai vencer nessa.
— Tô nem aí. — Cruzo os braços.
— É assim? — Ele atrai minha atenção.
Dou a ele minha melhor cara de escárnio.
— É, é assim.
Um sorriso misterioso lentamente se forma em seus lábios, mas seus olhos estão longe de serem divertidos, pelo contrário, estão sérios.
— Tá bom. Lave o seu prato e vá para o seu quarto.
Faço o que ele diz e me ergo, lavo tudo. Quando estou saindo, ouço ele falar.
— O que estava fazendo no banheiro é o que toda mulher faz... — Ele pausa sabendo que eu parei para ouvi-lo. — Depilar aquela parte!
Ao invés de sangue, nas minhas veias está correndo lava. Com pisadas duras eu volto para a cozinha só para me estressar mais quando encontro rindo para mim.
— Eu não estava depilando aquela parte ou nada. Eu caí e escorreguei, foi só isso! — Eu digo com a voz um pouco alta e aguda.
— Aham, sei. — Debocha.
— Rwar! — Eu grito. — Eu não estava me depilando, inferno! — Dou um soco na mesa. tenta segurar o riso.
— Isso significa que ela está peluda?
Meu corpo é todo raiva após esse seu comentário e eu aperto minhas unhas tão forte contra a palma da minha mão que eu sinto que vai ferir.
— Isso não é coisa para você falar comigo, seu idiota. Eu sou sua filha, não uma mulher qualquer! E eu te odeio! — Eu corro tão rápido para fora da cozinha, mas não o bastante para não ouvir a sua gargalhada. Esse bastardo nojento me deixou puta. Não vou falar com ele nunca mais. — Bastardo do caralho! — Me jogo na cama e grito contra o travesseiro. Eu odeio ele. Para sempre.

__X__

Frio. É tudo que eu posso sentir, como se pouco a pouco eu estivesse me enterrando sob a neve. A sensação é desconfortável, e movida por ela eu abro os olhos vendo nada mais que escuridão. Acordar no meio da noite significava passar o dia todo com sono e eu me aborreci por isso. O abajur que ficava acesso deve ter queimado. Reparo também que o aquecedor parou de funcionar, então eu me ergo ainda desorientada pisando no chão de madeira gelado.
— Odeio o frio. — Reclamo para ninguém.
Às cegas caminho para porta com os braços levantados para o caso de eu não bater em nada, chego à porta, destranco e a abro, mas lá no corredor também está escuro. Não há luz em nenhum lugar e eu suspeito disso porque sempre deixa a luz da sala acessa.
? — Eu chamo perto da porta de seu quarto, porém ele não responde. Me arrastando contra a parede, eu vou rumo a escada. — ? — Pergunto um pouco mais alto.
— Fique aí em cima. Já estou indo. — Responde ele, acho que da cozinha.
— O que aconteceu? — Bocejo coçando os olhos.
— Faltou luz no bairro inteiro.
Eita. Blackouts eram horríveis.
— Você tem lanternas? — Questiono. Não é que eu tenha medo, mas não vê nada me causa certa agonia.
— Não, e nem velas. Estou colocando um pouco de diesel numa lamparina velha que eu achei no armário. É o que vai nos iluminar hoje à noite.
— São duas?
— Duas o quê? — Vejo um pouquinho de claridade na sala.
— Duas lamparinas.
— Não, apenas essa. — aparece na sala levando o objeto na mão.
— Eu não quero dormir no escuro, . Eu não gosto. — Confesso a ele conforme sobe a escada.
— Durma no meu quarto. — Oferece.
Um aviso orgânico irrompe no meu corpo.
— Mas eu já dormi ontem.
não para quando ele passa por mim, sobretudo ele pega a minha mão e me leva com ele.
— E o que é que tem? Dorme de novo. Não tenho nenhuma reclamação a fazer sobre você. É quieta, não se mexe muito e nem ronca. Entre. — Eu não tenho como dizer não porque quando eu abro a boca para protestar ele já me empurrou para dentro e trancou a porta com movimentos rápidos. — Fique à vontade.
A lamparina é posta em cima de uma penteadeira. Um pouco tímida, eu tomo o lugar onde dormir na noite passada e me deito, puxando as cobertas sobre o meu corpo porque o frio está muito forte. vem logo em seguida, deita-se e puxa um pouco da coberta para ele, de modo que nós a dividimos. Assim como ontem, eu não me sinto confortável em dormir com ele, principalmente depois do que eu fiz no banheiro. Parece errado. É errado. O pior é que dessa vez estou usando apenas uma camisola fina e calcinha, sem shorts. E se ele encostar em mim hoje? Irei sentir tudo melhor do que ontem.
— Você ainda me odeia?
O quê? Ah, sim. Lembro da hora do jantar e suas brincadeirinhas irritantes, mas não me sinto mais tão raivosa como estava quando voltei para o meu quarto, parece que o pouco de sono que eu tive suavizou um pouco o meu estresse.
— Sim. — Mas por outro lado, o orgulho era mais forte e quis se manifestar agora.
— Por quê? — Seu tom sai como o de quem quer rir, mas está se contendo.
— Porque você é um idiota.
, olha a língua. Já disse que sou seu pai...
— E merece respeito e blá, blá, blá. Já entendi essa parte. — O corto. — E se não quer se zangar comigo, é melhor virar para o lado e dormir. Não quero papo com você agora, aliás, eu nem deveria estar falando com você agora.
O riso dele escapa. Viro-me para ele porque estou de costas. A luz amarelada e fraca da lamparina permite que eu possa enxergar um pouco seu rosto. Está risonho, com olhos brilhantes. Eu deveria seguir com a minha birra, mas qualquer sentimento relacionado a ira some de mim.
— Eu só estava brincando com você. — Comenta levando sua mão ao meu rosto, numa caricia suave.
— Eu não achei nenhum pouco engraçado. — Ranzinzo e mesmo que pareça que eu estou de mal humor, eu não estou.
— Você é muito séria, precisa descontrair um pouco, linda. — Me puxa para si enfiando suas pernas na minha. Nossos rostos só não estão mais próximos porque eu tive a decência de puxá-lo um pouco para trás, de outra forma ficaríamos muito perto de nos beijarmos, e conhecendo a minha imperatividade, eu poderia muito bem fazer isso.
— O meu dia não foi tão bom, . Eu cheguei estressada, e você me irritou.
— Você tem que começar a levar as coisas um pouco na esportiva, caso contrário ninguém vai te suportar. — Seus olhos estão nos meus, num contato que faz meu coração bater mais forte.
— Eu me lembro muito bem de ouvir Joe dizer que você não sabe brincar. — Atiro fazendo-o bufar para mim.
— Joe não sabe o que fala.
Rio dele.
— Por que você nunca me toca? — O questionamento faz rapidamente com que o meu riso cesse. Eu não esperava por isso.
— O quê? — Questiono, mesmo que eu tenha entendido a pergunta.
— Você nunca me toca, às vezes quando eu faço você fica tensa, mas eu sei que gosta quando eu faço carinho em você. Então porvque não faz o mesmo comigo? Olhe para mim e responda.
Fico em silêncio por um tempo, pensando no que dizer sem que meus sentimentos pareçam duvidosos.
— Sinceramente, eu não sei. Só parece estranho. — Eu sussurro, e parece besteira está falando assim porque não há mais ninguém naquele quarto e mesmo que eu tivesse falando alto, ninguém iria escutar. E na minha cabeça, eu imagino que nem mesmo ele esteja escutando. — Eu olho para você e eu não consigo vê-lo como meu pai. Essa... — Engulo em seco. — Intimidade que você tem comigo... Ela, ela me assusta. Eu te respeito, e eu sei que você é meu pai e tudo, não há dúvidas, mas... Mas eu só não... não consigo enxergá-lo dessa forma e eu sinto que estou fazendo coisas erradas se eu me aproximar muito de você.
— Como agora? — Ele murmura de volta, tão baixo.
— Sim. — Balanço a cabeça.
— O que você sente quando estamos juntos? , olhe para mim. — Ele pede quando eu tento virar minha cabeça para fitar o teto. Sua mão vem para o meu rosto, onde ele toca o meu queixo de forma que eu olhe para si. — Diga-me.
— Não é nada, . Melhor irmos dormir. — Isso está indo para um rumo diferente e nós temos que parar. A tensão no quarto é quase palpável e eu sei que eu fui muito aberta em minhas explicações, só que eu não posso ir mais a fundo nisso porque eu posso acabar soltando coisas que não podem ser ditas. Minhas sujeiras devem ser guardadas numa caixa de ferro com o cadeado mais forte do universo e a chave deve ser atirada no fundo do oceano para ninguém encontrar. Ele não pode saber sobre minhas obscenidades.
— Estamos tão perto agora, por que não se abre para mim? — Ele insiste, erguendo-se em seu cotovelo para impor algum nível entre mim e ele. — Não se esconda.
— O que você quer que eu diga, ? Eu não estou entendendo essa situação. — Eu realmente não estava. Onde ele estava indo com aquilo? Por que ele estava agindo daquela maneira tão estranha?
— Eu só quero saber se estamos no mesmo barco. Eu não posso dar um passo em frente sabendo que você vai dar um para trás. — Interrogação pinta minha face quando discirno suas palavras, e assim como ele também me ergo sobre o cotovelo. Ele solta uma lufada de ar e se deixa cair sobre a cama. — Não é possível que você seja tão ingênua assim, que não tenha sentido nada.
, eu juro que eu não sei onde você quer chegar. Basta ir direto ao assunto. — Eu peço, em agonia porque ele só está me deixando mais confusa.
— Durma. É o melhor que faz. — Ele vira de costas para mim e sinto que está chateado.
...
— Durma, . — Seu tom denota que o a conversa morreu ali, e como o conheço, insistir só vai deixá-lo com raiva. Como não quero estressá-lo ainda mais, eu apenas me levantando da cama e ressentida caminho rumo a porta. Prefiro enfrentar o breu do meu quarto e dormir no frio do que sentir sua indiferença comigo agora. Não chego a dar três passos quando ouço ele se erguer e correr em minha direção, onde puxa o meu braço com força me fazendo virar de frente. — Onde está indo? — Agora sim ele está com raiva, suas expressões fortes demonstram aborrecimento.
— Para o meu quarto. — Tento puxar o meu braço.
— Disse que tinha medo do escuro. — Ele debate. Puxo mais uma vez.
— Não disse que tinha medo, apenas que não gostava. Mas eu prefiro ir para lá do que ficar aqui com você sendo indiferente a mim.
— Não estou sendo indiferente, só te mandei ir dormir. — Range os dentes, isso me estressa.
— Acontece que você me deixou confusa e eu odeio quando alguém inicia uma coisa e não termina. Quando eu não quero fazer algo, você me obriga a fazer. Agora eu quero conversar e você não quer. E já que essa é a sua decisão, eu estou tomando a minha indo para longe de você. Me solta.
— Não! — Rosna, apertando ainda mais o meu braço.
— ENTÃO ME CONTE AONDE INFERNOS VOCÊ QUERIA CHEGAR COM AQUELA CONVERSA! — Me descontrolo e grito.
— EU QUERIA CHEGAR AQUI! — Ele grita também. E eu mal posso registrar os fatos a seguir. Minhas costas colidem contra a porta e o movimento expulsa todo o ar que há em meus pulmões. Lábios firmes cobrem os meus grosseiramente, assim como um corpo duro e quente está se pressionando contra o meu e tudo que eu posso pensar é:
Porra... está me beijando!

Capítulo 16 - Dad's POV - Parte 1

~~*~~ Quatro meses atrás ~~*~~

POV - Parte I

— Você acha mesmo que eu desceria tão baixo para ficar com ela? — Olho para o meu irmão de coração e sua cara de idiota me faz rir quando ele arqueia a sobrancelha para mim, duvidando ou debochando. — Joe, ela era nojenta. Eu sinto muito se estou soando machista, mas porra... Ela tinha bigode e os dentes da frente eram separados. Tenho certeza que no vão daquela boca caberia mais um dente.
O moreno solta uma gargalhada graciosa enquanto se curva para frente, pondo as mãos no estômago. Eu o acompanho. Cruzo os braços quando ele me olha.
— Você estava sem sexo e ela era a única opção. Você não iria precisar beijá-la, apenas levaria para um quarto, apagaria as luzes e pronto, você não veria suas imperfeições faciais. Eu pegava na boa, estaria fazendo um favor a ela. Será que algum homem já a tocou ou é uma virgem trintona? — Comenta me fazendo questionar se ele apenas está brincando ou falando sério.
— Eu sinceramente não colocaria minha boca na dela. — Arrepios medonhos atravessam meu corpo. Aquela mulher era tão feia que eu tive um pesadelo com ela. — Se ela não cuida dos pelos que estão em sua cara, imagine lá em baixo como deve estar. Lembra daquela cena do filme American Pie que o cara vai trepar com a mulher? — Joe ri dando um soco na mesa. Escondo meu humor e sigo falando sério, embora esteja apenas brincando. — Então? Deveria estar daquele jeito ou até pior.
— Coitada, .
Dou de ombros.
— Nunca mais vou àquele lugar com você. Somos bonitos, cara. Não achamos nossos corpos no lixo para dormir com qualquer mulher que apareça em nossa frente. A partir de hoje só como carne de primeira, caso contrário prefiro morrer de fome.
Joe ergue-se da cadeira e vai até a geladeira, tirando de lá duas cervejas. Uma ele entrega a mim, a outra abre e bebe.
— Você não vai morrer de fome. Tem isso aqui para te ajudar. — Ele mostra a mão erguida e faz movimentos semelhantes a masturbação. — E se essa cansar... Tente com a outra.
— Você é nojento. — Dou um soco em seu ombro e ele chia de dor, cobrindo o lugar acertado com a mão.
— Não me diga que não bate uma assistindo pornô na Tv, . Você não me engana. Esses dias encontrei um DVD dentro da caminhonete. — Os músculos da minha barriga apertam com a vergonha. Merda, ele encontrou aquela porcaria de DVD do mal e o filho da puta o roubou de mim porque quando eu fui procurar, ele não estava mais lá. Pensei que tivesse perdido, mas Joe que o pegou. — Qual o nome dele mesmo? — Ele finge inocência zombando de mim. — Ah, sim. Era Anal Brutal. Metendo Até o Talo! — Finaliza rindo alto e eu rosno lhe acertando outro soco, dessa vez no peito, aproveito e chuto sua canela.
— Cale a boca. Aquilo não era meu. — Ranjo e mesmo dolorido ele continua rindo.
— Esperava mais de você, irmão.
— Eu te odeio, Joe. — Viro de costas.
— Eu sei que não.
Estou prestes a abrir a boca quando alguém bate na porta. Dou o dedo do meio para Joe e saio da cozinha a caminho da sala, onde chego na porta e a abro, encontrando um homem bem vestido em um terno que parece caro. Ele tosse para limpar a garganta, então me dá um sorriso pequeno quando estende a mão para me cumprimentar.
— Olá. O senhor deve ser Travellins , estou certo? — Aperto a mão dele, assentindo.
— Sim, sou eu. — Interrogação pinta minha face.
— Eu sou Isaac James, advogado, e fui enviado pelo sistema de aconselhamento jurídico familiar para lhe dar uma notícia.
Sistema de aconselhamento jurídico familiar? Que merda é essa?
Seja lá o que for, parecia ser importante. Ofereço a ele minha hospitalidade convidando-o a entrar em minha casa. Ele agradece quando cruza a porta e eu lhe comando suavemente a sentar no sofá. Joe aparece na sala, curioso. Os apresento.
— Este é meu amigo, Joe e este é o doutor James.
Ambos trocam apertos de mãos.
O estranho olha para mim com seriedade.
— Senhor , devo dizer que o assunto é seríssimo. É sobre sua filha Travellins .
Pânico cresce em meu peito quando eu arregalo os olhos para o meu amigo. O coração aperta só em pensar que algo ruim aconteceu a ela.
— O que tem minha pequena? Aconteceu alguma coisa com ela? Onde ela está? — Exalto-me.
— Acalma-se. Nada de ruim aconteceu a ela, e tudo está em perfeita ordem com sua pessoa. Mas há uma notícia ruim. Sua mãe - devo presumir que era sua ex-namorada porque não há documentos comprovando casamento entre os dois - faleceu semana passada. Tinha problemas de arritmia cardíaca e quando um ataque veio mais forte, ela não aguentou e morreu na mesma hora.
— Oh, meu Deus. — Eu vacilo para o lado e Joe rapidamente vem ao meu encontro, segurando-me pelo braço.
— Eu sinto muito. — Diz ele com o rosto infeliz.
Ella tinha sido minha única paixão e eu amei desde a primeira vez que a vi na escola. As lembranças embaçam minha visão levando-me a 17 anos atrás. Nós éramos inseparáveis, o casal que nunca se desgrudava e o que causava mais espanto por eu ser mais novo que ela quatro anos. Isso não era importante para nós. Eu tinha desenvolvido muito rápido, com 13 anos o meu corpo era igual ao de um garoto de 18 e eu era mais alto que Ella, e ela se sentia protegida comigo. Ela era o centro do meu mundo e eu daria minha vida por ela. Isso até eu ficar sabendo que ela tinha engravidado. Seus pais descobriram e a enviaram para longe de mim e mesmo que tivesse quase movido céus e terras, eu nunca mais a encontrei. Meus direitos paternos só venceram quando eu fui até a um tribunal e ganhei a causa de que ela deveria pôr o meu sobrenome na criança. Também ganhei o direito de vê-la por alguns dias no mês, mas isso me foi negligenciado, já que Ella desapareceu e eu nunca mais soube nada a seu respeito. A partir de então, tornei-me alguém mesquinho e frio a respeito de sentimentos amorosos. Passei toda a minha adolescência colecionando corações, mas nunca me prendendo seriamente. Virei um garoto debochado, pouquista e cafajeste, sempre entrando em confusão brigando com outros. Foram quatro anos vivendo a base de drogas e sexo desenfreado, até que numa briga que eu tive com Philip Carter - meu pior inimigo -, acabei sendo preso. Como já era maior de idade, fui fichado e para sair tive que pagar serviços sociais, além de uma quantia em dinheiro para aquele babacão do caralho. Meus pais não estavam satisfeitos comigo nesta fase, eu era um rebelde surdo porque nunca escutava ninguém, e por causa disso fui perdendo aos poucos as pessoas mais importantes da minha vida. Meu pai, cansado das surras que não surtiam efeito e me faziam ficar pior largou-me de lado e me expulsou de casa. Mamãe estava tão triste, e mesmo que tenha doído em seu coração não se opôs e concordou. Eu fui procurar a única pessoa que me ofereceria sua mão. Joe. Engano o meu. Ele também não estava nada satisfeito com o meu comportamento e quando eu pedi para morar com ele na frente de seus pais, ele foi o primeiro a dizer não. Sua mãe, Zandy disse que estava tudo bem em eu ficar, e Trey, seu pai também concordou, mas Joe seguiu firme sobre sua decisão e impôs que se eu ficasse, ele sairia de casa. Disse-me que não queria fazer isso comigo e que ele era o meu melhor amigo, mas enquanto eu continuasse machucando as pessoas que me amavam, ele ia lavar suas mãos para mim. Isso foi um balde de água fria. Por um ano eu desapareci, vivendo por aí fazendo bicos para ter algum dinheiro, dormindo em albergues ou na rua mesmo. Meu primeiro trabalho de verdade foi na oficina de um cara chamado Bob Jou. Contei a ele toda a minha história e acho que ele sentiu pena de mim. Me ensinou tudo sobre mecânica e me permitia dormir no andar de cima onde havia um pequeno depósito onde ele guardava algumas peças de carro, moto e bicicleta. O salário era uma merreca, mas dava para eu viver. Aos poucos ele foi me instruindo no caminho e me fez repensar em todas as merdas que eu tinha feito. Disse que o certo a se fazer seria voltar e pedir desculpas para os meus pais e o meu amigo, entretanto, disse que se fosse mesmo isso que quisesse fazer, então eu tinha que me tornar em alguém novo, mudado. Foi o que eu fiz. Bati na porta dos meus pais e esperei ansioso. Mamãe foi quem abriu a porta para mim, e até hoje lembro de sua reação admirada, mas ao mesmo tempo feliz por ter-me em sua frente. Chorou um diluvio me abraçando, dizendo que tinha medo de que eu tivesse morrido por aí e que ela nunca mais me veria. Papai estava na área de trás e correu quando escutou o chororô da minha mãe, imaginando que ela estava passando mal. Quando me viu... - Cara, foi um dos momentos mais lindos da minha vida. - Ele correu em minha direção me pegando num abraço de urso que me tirou do chão. Pela primeira vez na vida eu o vi chorar, e era de emoção por eu ter voltado. Acho que foi naquela hora que a ficha caiu e eu realmente tive ciência do idiota que eu tinha sido para eles. Como o filho pródigo, voltei contrito de coração e fui aceito com amor e festança. Meu pai deu a maior churrascada que o bairro já viu, e eles estavam exalando felicidade. Joe fora convidado a ir neste banquete e eu sentei com ele e conversei sobre tudo. Chorei por causa da minha bebê e de Ella e de como sentia-me vazio por não as ter próximo a mim. Todavia, eu tinha que seguir em frente. E foi o que eu fiz. Aliás, foi o que nós fizemos.
Entramos para a faculdade. Foi difícil porque seguimos passos diferentes, mas estávamos lá um para o outro. Eu não era mais aquele cara sacana que brincava com o coração das meninas. Eu estava mais sério lá, quase nunca saía para me divertir, porém quando isso acontecia eu sempre falava para a garota que eu não era para namoro, e que meu coração pertencia a outra pessoa. Nunca ninguém me marcou como Ella. Porra, ela era a mãe da minha neném. Não havia espaço para outras. Nunca.
Três anos mais tarde, já com 21 anos eu me formei. Meu pai teve muito gosto em me ajudar a abrir minha própria oficina, e como eu não tinha perspectivas de mudar de profissão futuramente, eu me acomodei em Flórida City mesmo e vivi do jeito que dava. Meus pais deixaram a casa da cidade para mim e se mudaram para o sossego do interior. A partir de então eu segui tendo uma vida mansa, sem muitos problemas. A oficina deu certo, e tenho clientes fiéis. A única parte ruim era que eu não tinha minha filha comigo, e o pior de tudo era que a pobrezinha agora não tinha mais mãe. Eu estava com dó dela.
— Estou bem agora. — Eu digo a Joe e olho para o advogado. — Há algo mais que o senhor queira me contar?
Ele se ergue na minha frente.
— Sim. Sua filha, está agora com 17 anos. O senhor sabe disso? — Eu confirmo. — Pois bem. Seus avós maternos já são falecidos, e ela não tem parentes de primeiro grau como tios. A mãe não fez nenhum termo de emancipação que a beneficiasse caso houvesse sua morte, portanto, o sistema de aconselhamento jurídico familiar decidiu que a sua guarda deverá ficar com o senhor por ser o pai. Porém, isto não é obrigatório ao senhor. Se negar, a justiça colocará a menor sob tutela de algum membro do conselho familiar até que a menina complete 18 anos. Como posso ver suas expressões, senhor , percebo que está bem surpreso, e sei que deve pensar a respeito do que lhe foi informado. Estarei lhe dando algum tempo para entender e compreender o que lhe foi dito e voltarei amanhã aqui para obter sua resposta, se deseja ter ou não a guarda de sua filha. Parece ser um processo complicado, mas não é.
Porra! Isso é mesmo sério?
Por 17 anos, tudo que eu sempre quis foi ter aquela criança para mim, conhecê-la, brincar com ela e ouvi-la me chamar de papai. Isto era um sonho que se tornava realidade bem diante dos meus olhos. Claro que as circunstâncias não eram as melhores, sobretudo, ainda sim era um momento para se comemorar. Minha filha estava sendo enviada para mim, porra! Finalmente.
Minha cabeça rodava com todas essas informações, mas não havia nada para ser pensado. Eu a queria comigo e teria, por isso parei o advogado quando ele estava se encaminhando para porta e lhe disse que sim, que a aceitava comigo.
— Está certo sobre isso? A guarda de um filho não é como adotar um cachorro. O senhor não poderá se desfazer da menina, e o processo de lei será mais difícil. — O advogado me olha sério.
— Desde que ela nasceu, eu nunca a vi. Sua mãe não me permitiu conhecê-la desde que a levou embora. Mesmo assim eu a amo como se conhecesse ela a minha vida toda. — Eu digo com confiança. De soslaio vejo Joe sorrir orgulhoso.
— Estou feliz por você, cara. — Diz ele me abraçando.
— Obrigado.
— Certo. Há outro ponto a ser debatido. — Isaac James abre sua maleta. — A jovem estava trabalhando como atriz e recentemente o filme ao qual ela estrelou fora lançado. Provavelmente ela seguirá com a profissão, entretanto, como seu tutor, devo saber se o senhor irá concordar em ir morar com ela em New York - dessa forma ela poderá continuar trabalhando como atriz -, ou se o senhor deseja que ela venha morar aqui. Caso considere a segunda opção, ela será movida e obrigada a vir morar em Flórida City, mesmo que ela se negue.
Surpresa me toma. Por essa eu não esperava. Minha filhinha era uma atriz? Será que era certo eu escolher que ela viesse morar comigo e deixar o seu trabalho de lado? Tudo bem que ela ainda era nova e tinha uma vida inteira pela frente, mas ainda sim, isso era o certo a se fazer?
Sobre este ponto eu tinha que pensar.
— Será que eu posso lhe dar a resposta amanhã? — Pergunto a ele. — Isso deve ser pensado com calma. Eu não estou certo de que quero ir para New York, mas também não sei se devo tirá-la de seu trabalho. — Explico.
Ele assente.
— Fique à vontade. Virei amanhã, provavelmente neste horário. Trarei os papéis legais que deverá assinar, certo?
Concordo. Nós trocamos apertos de mão, então o advogado vai embora.
— Homem, você viu isso? — Pergunto a Joe, deixando meu corpo cair com força contra o sofá.
— Sim, cara. Sua filha... Você finalmente vai conhecê-la pessoalmente. É o seu sonho. — Ele senta do meu lado.
— Sim. Merda. Estou triste por Ella, mas... Porra. Estou feliz por minha filha. — Coloco as mãos no rosto. Parece tão inacreditável.
— Quer que eu te belisque para você ver que é real? — Joe pergunta.
— Não precisAAAAAAAAAAAAAH, filho da puta! — Ele ri, o babaca. Mesmo que eu tenha negado, o malandro ainda sim me beliscou.
— Viu? — Ele gargalha com sua cara cínica. — É real.
— Real será o soco que vou dar em você que vai estourar o seu nariz. — Passo a mão sobre o lugar beliscado que formiga de dor.
— Você ouviu o que ele disse, sobre ela ser atriz?
— Sim. — Eu lembro. — Ele disse que o filme dela foi recentemente lançado.
— Que tal se pesquisássemos a respeito desse filme? Eu tenho internet no meu celular. E possa ser que o filme ainda esteja em cartaz, assim podemos ir até o cinema vê-lo. O que acha? — Sugere meu amigo. Concordo. — Espera. — Ele tira o aparelho do bolso. — Vou pesquisar no google o nome do filme que ela fez e irei acrescentar o nome dela para ver se acho. — Ele começa a digitar e eu espero por um tempo. — Achei. .... Hmmm. O nome do filme é Doce Menina. Vou pesquisar aqui se há alguma sessão no cinema do shopping.
Doce menina? Com certeza esse filme é sobre uma adorável garota que ajuda a todos, espirituosa com a família e tem o sonho de ser alguém grande no mundo, como todos esses filmes de menina mostram. Será que nesse filme ela tem o sonho de ser cantora? Dançarina? Mal posso esperar para vê-lo, melhor, para vê-la.
— Há uma sessão às 20h00, . Quer ir? Se sim, já compro logo os bilhetes.
— Sim.
— Tá. — Mais algum tempo clicando na tela. — Pronto. Tudo certo.
— Mal posso esperar para ver esse filme. — Comento.
— Sim. — Há um certo olhar estranho em Joe, e eu percebo isso, mas estou tão feliz que resolvo deixar para lá. São 16h45min e eu já estou contando ansioso os segundos para ver a minha menininha me orgulhar na tela do cinema.

__X__

— Mas que merda é essa? — Eu rosno alto demais ganhando um coro inteiro de "Shhhhhhhhhhhh" dos presentes na sala de cine. Meus olhos fixos na tela vendo aquela cena sendo reproduzida estão fazendo meu cérebro questionar se aquilo, de fato, é real.
A minha filha de 17 aninhos estava sem a merda da roupa, apenas com calcinha e sutiã enquanto um cara estava tocando seu corpo. Merda. Eu pensei que eu iria assistir a um filme melodramático de uma adolescente mimimi correndo atrás de seu sonho rosa, não a porra de um filme adulto que só não era pornô porque não aparecia as partes íntimas. O idiota estava com o rosto revestido de prazer quando empurrou - ou no caso, Valentine - sobre sua mesa e se pôs atrás dela, roçando seu pau na bunda dela. A ira que senti no corpo foi tão grande que o copo de refrigerante foi esmagado em minha mão.
, talvez devêssemos ir embora. — Joe comenta baixinho só para mim, porém meus olhos estão grudados na tela.
— Você me tenta. O meu corpo está queimando por você. Você já está quente e molhada para mim, Doce Menina?
— Puta merda. Eu vou matar esse cara! — O rugido corta a sala mais uma vez e todos pedem silêncio. Sinto a mão de meu amigo em meu ombro.
— Sim, eu preciso sentir você dentro de mim.
— Hora de ir, irmão. — É Joe.
— Porra de ir o caralho. Eu vou ficar aqui. — Rosno um pouco mais baixo.
— Então não berre ou seremos expulsos. — Repreende.
— Você pode acreditar nessa merda que estamos vendo? Ela é menor de idade e olha o que está fazendo...
— Sim, Doce Menina. Eu sei que você me quer dentro de você, mas preciso primeiro sentir o seu sabor.
Prendo a respiração quando a câmera mostra em tela grande a mão do babaca descendo dos ombros de indo lentamente para seus seios, onde param e apalpam com força enquanto ele continua roçando em sua bunda. A cabeça dela cai para trás com o rosto exalando prazer, e sorrindo solta gemidos.
Alguma coisa estava errada comigo. Eu percebi que no momento que ela gemeu e sorriu, algo na minha região pélvica contraiu. Eu sabia o que era aquilo, mas eu me neguei a acreditar que aquela cena estava me excitando. Eu ainda estava com raiva daquele maldito por estar tocando no meu bebezinho, mas ainda sim, eu sentia minha dureza se firmando dentro da minha cueca, e tudo só ficou pior quando a mão direita do homem deslizou entre a barriga, pélvis e finalmente adentrou a calcinha de . Não dava realmente para ver se ele realmente a estava tocando lá, mas os movimentos que ele exercia e a forma como ela engasgou assim que ele começou me transformaram em pedra imediatamente. Dessa vez esmaguei o saco de pipoca.
Merda, eu tinha uma ereção das brabas.
— Você quer gozar, Doce menina?
— Sim.
— Então implore por isso.
— Me faça gozar, por favor, por favor.
— Aí está o tom certo que eu adoro ouvir sair de sua boca.

Eu não poderia ver mais daquilo. Não! Eu me recusava.
— Vou ao banheiro, me passa uma mensagem quando a porra dessa cena acabar para que eu possa voltar. — Joe assentiu diante do meu pedido e eu me ergui e passei pelo corredor de cadeiras até descer as escadas e encontrar a saída. Removi a jaqueta levando-a na frente do corpo para disfarçar o volume muito evidente marcando a calça e marchei até o banheiro. Não tinha ninguém. Eu entrei numa cabine e me sentei sobre o vaso fechado, pondo minhas mãos sobre a cabeça, me perguntando o que diabos estava errado comigo para eu me excitar vendo minha filha interagindo sexualmente com outro cara. Minha ereção latejou atraindo contragosto minha atenção. Eu queria esquecê-la, mas agora não era possível porque o latejar evoluiu para uma dor boa que almejava ser suprida.
Eu fechei os olhos, tentando respirar fundo na expectativa de aliviar aquela rigidez, mas tudo que eu via eram flashes sensuais de como reagia aos toques daquele maldito homem, e tudo só aumentava mais a minha vontade de gozar.
Eu era um doente do caralho e eu não queria fazer aquilo, sobretudo meus instintos levaram a maior sobre a minha ética e eu grunhi baixinho quando minhas mãos voaram até o zíper da minha calça e abaixaram um pouco só para que o meu pau saísse livre. Veias grossas denotavam o quão ávido por estimulação ele estava, a glande já estava molhada e babando com o pré-gozo escorrendo. Droga, . Você não é a merda de um adolescente punheteiro! Eu gritei para minha consciência e ela riu de mim. Quem é que está prestes a se masturbar num banheiro público? Devolveu ela.
Eu senti o capeta de um lado do meu ombro, enquanto havia um anjinho em outro, ambos me alertando sobre o que eu estava fazendo.
— Vá em frente. Ela é gostosa. Está toda molhada esperando para você gozar nela. Foda-se se é sua filha, ela ainda é uma delícia de menina. — O diabinho riu esfregando as mãos.
— Ela é a sua filha que você tanto almejou conhecer. Ela nasceu de você e merece seu respeito. Não faça isso, é errado. — Indicou o anjinho.
E lá estava ela, sorrindo para mim com aqueles olhos lindos azuis. Eu estava atrás, encoxando-a, esfregando meu pau contra o seu bumbum durinho. Ela gemeu meu nome quando a puxei de modo mais forte contra mim, e eu senti desde o seu bumbum até a sua buceta quente. Como um animal eu mordi seu pescoço e ela gritou. Desci minhas mãos até seus seios e enchi minhas mãos com eles, apertei seus mamilos que estavam tão duros, prontos para serem chupados.
. — Eu silvei em seu ouvido. Ela sorriu.
Minha mão esquerda foi mais abaixo, entrando na calcinha, passando pelo púbis correndo direto para o seu sexo escorregadio e molhado. O bumbum rebolou no meu pau quando eu atormentei o pequeno clitóris com rotações rápidas. Foi então que senti sua mão indo para o meu pau, onde ele abaixou minha calça e enfiou as mãos fazendo movimentos de sobe e desce que me deixavam louco. Quando a penetrei com um dedo, ela gritou e aumentou mais a rapidez em sua mão, apertando com gosto.
— Sim, ... Isso tudo é para você. — Eu disse quando notei que estava prestes a gozar em sua mãozinha. — Meu corpo dói por você. Mais rápido, sim. Isso. Porra. Estou gozando. — Eu fechei os olhos sentindo-me sendo drenado quando os esporros foram saindo rápidos. O meu corpo estremeceu e a sensação de prazer foi intensa, sem nenhuma igual. Fiquei ofegante, respirando ruidoso como um tuberculoso. Após a névoa de prazer deixar-me, eu abri os olhos para dar de cara com a dura realidade. Eu estava no banheiro, as calças abertas com um pênis semiereto descansando contra a minha coxa enquanto que a cabine estava marcada com meu liquido que havia grudado na parede. Culpa açoitou-me quando eu compreendi o que aconteceu. Eu não sabia como minha filha era em sua versão adolescente, tudo que eu tinha era uma foto sua de quando era bebê a qual eu mandei fazer uma tatuagem em minha costa. Eu não esperava que ela fosse ser uma menina linda e sensual.
A epifania foi grande. Se antes eu tinha dúvidas para qual lugar eu iria depois que eu morresse, agora eu tinha certeza. O inferno me esperava com uma placa de boas-vindas com os dizeres: "Seja bem-vindo, seu doente do caralho. Se masturbar e gozar pensando na sua filha foi a melhor - ou pior - coisa que você fez durante toda sua vida e estamos muito felizes por ter vindo parar aqui. Tome esse copo de vinho, o Diabo quer lhe conhecer e mostrar onde os pedófilos que gostam de praticar incesto ficam".
— Merda, eu sinto muito, Ella. — Murmurei com pesar e culpa sobre minhas costas.

Continuação ~~ Parte II ~~ no próximo...

Capitulo 17 – O Beijo e Sua Consequência

~~*~~ Dois meses atrás ~~*~~

POV - Parte II

— Acha que o quarto é bom o suficiente para mantê-la confortável? — Pergunto a Joe assim que acabamos de consertar a janela e o closet.
— É, cara... — Ele dá de ombros. — Não é um mini palacete... Que deve ser ao que ela está acostumada a ter, mas dá para o gasto. — Olha em torno. — É, dá sim. — Bate no meu ombro como se quisesse dizer "tá ruim, mas não tem outro jeito".
— Ela vai odiar. Certeza. — Eu lamento porque é a verdade, posso sentir.
— Ela já te odeia, homem. Todas aquelas entrevistas que vimos sobre o que ela achava de você... Isso já diz muito. Não sei como vai ser o encontro de vocês amanhã, mas prevejo que discursões irão acontecer. E meu conselho é... — Joe para no meio do corredor e se vira para mim. — Não empurre nada sobre ela, não tente rebater, convencer ou explicar... Pelo menos não ainda. Ela já está com a cabeça feita e provavelmente está muito puta por ter que vir morar aqui com você. Dê um tempo para que ela se acostume e, depois que ambos estiverem em sintonia, você abre o jogo e conta a sua versão para ela. Isso é o certo a se fazer, por hora.
Joe está certo e é bom tê-lo por perto porque ele sempre me aconselha da melhor forma. Assumo que estaria meio perdido sem ele. Na teoria eu sabia que tinha uma filha, mas agora, na prática... Isso pode não ser tão fácil como eu imaginei por anos. Seria se ela ainda fosse apenas uma criança, aprendendo o que é certo e o que é errado, porém ela já é grande o suficiente e definiu o lado que acha correto defender. Trabalhoso é a palavra exata para descrever como eu iria reverter toda essa situação criada contra mim.
— Vai ser difícil. Porém vou manter o pensamento positivo de que vai dá tudo certo e nosso convívio vai ser um mar de rosas.
— É, medite isso e talvez vire verdade. Venha, precisamos limpar este lugar e pintar a parte de fora. Não quero que passe a impressão de que é alguém relaxado para sua filha. Se ela ver que esta casa é limpinha e cuidada, possivelmente vai te odiar menos. — Acerto um soco em seu ombro e ele ri, com dor. — Qual é? Estou tentando te animar, papai. Até ontem você estava eufórico, hoje parece que alguém morreu e você está para baixo. Levanta esse astral aí, meu chapa. Sua garotinha está vindo te conhecer amanhã, esse é o seu sonho se realizando, então fique feliz, não deprimido.
— Não é isso. Eu estou feliz, mas...
— Mimimi de maricas. — Mexe a mão como se houvesse uma boca nela. — Fale menos, trabalhe mais. Quando terminarmos tudo, você pode chorar suas dores para mim. Anda. Eu lavo o banheiro e você limpa a sala. Quem acabar primeiro vai para a cozinha e depois vamos para fora começar a pintura.
— Obrigado por segurar a barra comigo, Joe. Eu te amo, cara. Sério. — Agradeço e nós trocamos aquele olhar cúmplice que só quem é irmão sabe como é.
— Não agradeça. Sei que faria o mesmo por mim e isso basta. — Ele sorri e se afasta para a cozinha, depois volta e me estende um balde com um pano dentro e uma vassoura. — Vai. — Eu começo a me afastar. — Só mais uma coisa... Sua bunda vai ser minha hoje. — Engulo a risada.
— Você é uma puta.
— A melhor. — Rebate de volta.
Eu rio dessa vez. Não sei o que faria sem ele.

__X__




~~*~~ No Dia Seguinte ~~*~~

Eu nunca me senti tão patético na minha vida como agora, carregando um cartaz verde neon que Joe tinha feito para que me identificasse. O filho da puta escolheu a cor de propósito só para me irritar e ainda teve a audácia de rir na porra da minha cara. Se eu não tivesse em cima da hora para vir para o aeroporto, eu teria feito outra placa porque essa que eu tinha em mãos gritava "gay". O óculos era para me esconder e eu sinceramente esperava que ninguém me reconhecesse se me vissem na rua, seria constrangedor.
Meus olhos pousaram sobre a moça parada em minha frente e bastou um olhar para seu rosto para que eu a reconhecesse. Foi um choque de realidade. 17 anos depois e finalmente ela estava na minha frente. Por um breve momento eu achei que era uma miragem, que minha própria mente estava pregando uma peça em mim, então eu pisquei com força duas vezes e ela continuou lá, e como se quisesse validar sua presença, seus lábios se abriram afirmando quem ela era.
— Sou . — O tom vazio e antipático foi um aviso de que seu temperamento estava ruim. Eu enrolei o cartaz maldito e tirei os óculos mantendo o cuidado de deixar o meu rosto neutro para esconder o turbilhão de sensações que estavam me tomando por dentro. E eu orei para que o meu nervosismo não estragasse tudo.
— Sou . — Estendi minha mão para cumprimentá-la. — É um prazer. — Eu esperei ansioso pelo seu movimento. Esperava de verdade que ela apertasse minha mão de volta, e quer saber, eu não me surpreendi por ela não fazê-lo. — Pelo jeito você sabe quem eu sou. — Levei a mão ignorada para os cabelos, desconfortável. A partir de então ofensas, olhares raivosos e indiferença foram lançados em minha direção. Como Joe me alertou que provavelmente isso iria acontecer, eu fiz o que ele me pediu e guardei o que estava entalado na minha garganta. Agora ela não entenderia.
No nosso primeiro dia juntos acabamos brigando. Eu fui muito grosso por estar chateado e ela acabou se magoando. O bom naquilo tudo foi que, mais tarde, eu abri um pouco do jogo com ela. Contei o que ela não sabia, a parte da história que seus avós e nem a mãe a haviam contado. Deixei-me levar pela emoção e quase chorei. Não esqueço o olhar em seu rosto, mostrando que ela estava tentando decidir se o que eu dizia era verdade ou não. Porém o que a fez acreditar em mim mesmo foi a sua tatuagem que eu tinha na costa. Ela amoleceu imediatamente, e eu aproveitei desse momento de abertura e a abracei. Só não esperava que após este abraço, as coisas fossem ficar estranhas.
Mesmo depois que nós acertamos a nossa relação, mudou. Quando estava na minha presença, ela sempre estava corando, seus olhos pareciam assustados, porém tão brilhantes. Ela parecia envergonhada quando eu aparecia sem camisa, e quando eu brincava dizendo coisas em duplo sentido, ela ficava tão vermelha e sem graça que seu rosto virava um tomate. Eu nunca entendi essas suas reações... Pelos menos não até que eu comecei a sentir coisas. Ciúmes, por exemplo. Eu não gostava de vê-la falando com seu ex colega de trabalho, o filho da puta que fez o filme com ela. Eu odiava quando ela saía com a amiga e elas iam para alguma festa porque eu sabia que lá haveriam meninos rondando-a. Quando saíamos juntos e usava roupas com decotes ou muito curtas, eu queria matá-la. Não suportava o olhar que os caras lançavam para ela na rua. Eu via vermelho. Descobrir o ciúme foi alarmante. Na verdade, eu confundi as coisas. Eu achava que era preocupação da minha parte e que ciúme e preocupação eram quase a mesma coisa. Mas não. Era bem diferente. Era MUITO diferente, porque o que eu sentia era o ciúme que um homem sente por uma mulher, e não o normal que é o ciúme de um pai e uma filha. E foi depois desse dia que eu percebi que via com outros olhos. E eu odiei isso.
Eu queria manter distância entre nós, então comecei a sair com Joe para festas. As mulheres que eu não tinha pegado antes, estava pegando agora, tentando apagar aquele sentimento que nascia e crescia em mim toda vez que eu estava perto de . Todavia, esse método não deu certo, fez ficar pior. E isso testou a minha força de vontade. Porém, apesar de viver sendo tentado pelo seu cheiro doce que vagava pelo ar e seu belo corpo remexendo enquanto ela andava, eu não era um monstro abusador, por isso nunca avancei nenhum sinal. Manti aquela paixão proibida para mim, bem guardada. Eu respeitava , nunca faria algo ruim a ela. Eu nem mesmo me masturbava pensando nela (Bem... Vontade não faltava).
Mas algo mudou na primeira vez que a levei na casa dos meus pais. Tudo estava indo muito bem, até eu resolver levá-la a praia. Nós estávamos próximos, aquela conversa meio estranha sobre intimidade e amor me aqueceu e não havia outro jeito de eu literalmente esfriar a cabeça, e não querendo que ela percebesse isso, eu resolvi ir tomar um banho frio de mar. Eu nadei por um tempo e, eis que quando eu resolvi voltar, a escutei chorar para o céu:
Sinto muito, mãe. Mas acho que me apaixonei pelo meu pai.
Eu nunca mais esqueci dessa frase.
E isso se tornou meu assombro por todos os dias que se seguiram.

POV - Parte II Off

__X__


~~*~~ Atualidade ~~*~~

Sabe quando você deseja por um longo tempo que algo se realize, mas a realidade é tão dura que às vezes você para de acreditar que aquilo vai acontecer e, quando menos espera... Pá... Acontece?
Você perde o chão, nada faz sentido e você mal sabe como reagir. Eu sabia que era assim porque eu me sentia exatamente dessa forma envolvida nos braços de , enquanto ele mantinha meus lábios colados aos seus. Não dava para acreditar que, finalmente, estávamos nos beijando. Era loucura, parecia irreal. E tudo ficou pior (ou melhor) quando senti a ponta de sua língua pedindo - exigindo - passe livre. No calor do momento eu permiti que ele entrasse, que pegasse o que quisesse. Foi como tocar o sol. Me queimou por inteira. Quando nossas línguas se enroscaram, meu coração bateu tão forte que eu achava que iria explodir, as borboletas idiotas se multiplicaram nas minhas entranhas, o arrepio correu tão forte, eriçando todos os pelos num frenesi louco. Minhas pernas, tolas, cederam. Eu odiei que eu não pude sustentar meu peso... Mas até dava para entender, já que eu parecia estar derretendo de dentro para fora.
A mão que estava forçando minha cabeça contra sua boca desceu para as minhas costas e me puxaram mais contra seu corpo. Eu levantei meus braços a cima de seus ombros e aproveitou para me levantar. Enquanto isso nosso beijo crescia esfomeado, quase agressivo. Fui prensada contra a parede, forte, duro, gostoso. Eu senti tudo e amei. Abracei seu quadril com as pernas e sua mão desceu para apalpar minha bunda, causando-me gemidos languidos. Sua pélvis roçou contra mim e sua rigidez me molhou inteira. Ele se moveu em círculos e eu não pude aguentar, tive que largar sua boca para gritar porque seu movimento acertou em cheio meu clitóris. estava diferente, ele tinha fome porque sua boca caiu para o meu pescoço depositando beijos molhados. Eu apertei seus braços e devolvi meus lábios para os seus. Eu estava em casa, ali era o meu lugar.
De repente já não estava mais escuro. De repente era como se houvesse um foco de luz quase diretamente em cima de mim. Quando eu abri os olhos, a energia tinha voltado, o quarto estava banhado em luz e eu me via agarrada a .
E assim como a luz chegou do nada, a realidade me acertou em cheio.
O que caralhos eu estava fazendo quase me fundindo ao homem que eu tanto desejava, mas que infelizmente era meu pai?
Fodeu! Fudeu muito!
O constrangimento me tomou por completa, e eu não tinha outra opção a não ser empurrar para longe. As primeiras tentativas não deram certo ele não me soltava, mas quando percebeu que havia algo de errado liberou um pouco de espaço e eu aproveitei para afastá-lo.
... — Ele sussurrou. As pupilas dilatadas, o rosto corado, a respiração ofegante.
Eu tapei a boca, assustada... Surpresa.
— O que a gente fez? — Eu perguntei, perdida.
Os ombros de se curvaram quando ele veio na minha direção.
— Não faz isso. Não faz... — Ao levantar a mão para me tocar, eu me afastei.
— Meu Deus. O que a gente fez? O que a gente fez?
...
Eu não quis ficar lá para ouvir o restante, eu destranquei a porta e corri para o meu quarto. até veio atrás de mim, porém graças a Deus eu fui mais rápida na hora de fechar a porta. Sozinha, eu deslizei até o chão e abracei minhas pernas. Várias imagens tomavam minha mente, umas boas, outras ruins. Eu juro que eu podia ouvir claramente a voz da minha mãe me renegando, eu ouvia me chamando, eu ouvia a mim mesma chorando. E o pior, eu não estava conseguindo entender nada, porque não fazia sentido. Não podia ser real. Não era real. Porra... Não era real.

__X__


O barulho estridente do alarme ecoa na minha cabeça como uma furadeira abrindo um buraco na parede. Eu abro os olhos, vendo tudo desfocado, a enxaqueca dá o ar de sua graça, assim como a dor no corpo também. O despertador continua tocando em cima da penteadeira e para desligá-lo eu precisava me levantar.
Ontem, perdida no meio daquela confusão eu acabei dormindo por cansaço no chão. E foi - sem dúvida - a pior noite da minha vida. Eu ainda não tinha me visto no espelho, mas sabia que meu rosto estava muito inchado devido ao choro, agora eu só pensava em como escondê-lo do olhar curioso dos meus amigos na escola, porque era certeza que eles iriam perceber e iriam me perguntar as razões de eu estar daquele jeito.
Só de lembrar em me beijando, o meu coração saltou e a vergonha veio imediatamente, e numa forma de esquecer aquele assunto - pelo menos um pouco - eu resolvi que não iria pensar sobre. Eu iria tomar um banho, correria para a escola e me concentraria nas aulas. O resto eu resolveria mais tarde.
Sim, eu iria fazer exatamente isso.
Ergo-me aos tropeços, os ossos estalando, a cada pé no chão, uma pontada horrível no crânio. Desligo o celular, são 05h30min. Pego minha toalha e as roupas para a escola. Irei tomar banho e me arrumar lá mesmo no banheiro porque eu não quero ter o azar de cruzar com . Não tenho cabeça para lidar com isso agora.
Eu abro a porta devagar e observo o corredor. Escuro e silencioso. Obrigada, Deus! Com cuidado eu caminho para a escada e desço. A sala está escura também, assim como o resto da casa. Não perco tempo, vou para o banheiro e tomo o banho mais rápido da minha vida. Eu sequer lavo o cabelo, ele vai amarrado. Descarto as roupas sujas no cesto e me visto rapidamente. Como eu bem sabia, o meu rosto é uma bola rosa, porém não irei escondê-lo sob camadas de maquiagem. Não estou no clima para me arrumar. Graças às forças divinas até agora deu tudo certo. Eu saio do banheiro e procuro a chave do carro na mesinha, pego-a e caminho para a porta.
?
A voz gela meu corpo por inteiro e meu coração dá um solavanco no peito e começa a bater forte. Engolindo em seco, eu abro a porta e não paro.
— Espera aí. Nós precisamos conversar! — grita angustiado enquanto eu corro para o meu carro, entrando nele com tudo. — , por favor. Nós precisamos conversar! — Ele para no meio do jardim, mas eu não arrisco olhar para ele porque eu sei que eu vou chorar se eu fizer isso. Eu dou ré, entro na rua e dobro, então assim que eu acelero, eu o deixo para trás, e sinto dor ao ver sua postura tão para baixo através do espelho retrovisor.
Ó, eu não disse que ia acabar nos prantos se eu o visse? Merda.
Durante o percurso até a escola, lágrimas grossas descem por meu rosto sem que eu possa controlá-las. Acho que durante todo o tempo em que passei desejando como homem, nunca imaginei nas consequências e como seria depois. Talvez por isso eu estava tão abalada... E não era só isso. Tinha o fato também de que foi ele quem me beijou. Dois dias atrás eu achava que meus sentimentos não eram recíprocos, e por alguns minutos eu tentei me conformar com isso, porém depois do que fez ontem, eu não sabia se acreditava de uma vez que ele me desejava também, ou se continuava fingindo que tudo o que aconteceu era fruto da minha pervertida imaginação.
Respiro fundo e lembro do seu cheiro, seu toque contra meu corpo, aquecendo-me. Em todas as vezes que eu imaginei que ele me tocava, nunca foi como a realidade, era mil vezes mais gostoso. E é movida por essas imagens que surgem em minha mente que o choro cessa e eu me controlo. Prometo a mim mesma só pensar nesse assunto quando estiver voltando para casa, porque sei que terei que ter uma conversa muito séria com . Isso não é tipo de coisa para se ignorar, é preocupante demais.
Antes de chegar a quadra da escola, eu paro o carro próximo a uma loja de conveniência. Desço e vou até ela para comprar alguns analgésicos e água para lavar o rosto. Após finalizar a compra, eu volto para o carro e espero alguns minutos para seguir até a escola. Meu rosto felizmente não está tão rosa, mas em compensação meus olhos gritam que eu andei chorando. Quando me sinto menos mal, eu sigo meu caminho e adentro o estacionamento, deixando meu carro próximo ao de John. Vejo-o de longe ao lado de Lindsey e Emily perto da entrada, e com vergonha de manter meu rosto erguido, eu começo meu trajeto de cabeça baixa até eles.
— Uou. Calma aí... Alguém morreu? — Emy questiona sem sequer dizer oi assim que os alcanço. Os outros dois riem do que ela disse, mas param sabiamente quando levanto a cabeça e eles finalmente enxergam minha face. — Porra. Alguém morreu. Quem foi? — Emy avança em mim segurando meu braço. Ao olhar para Lindsey e John, percebo que estão preocupados.
— Meu censo de moral morreu. — Eu lastimo a fitando.
, o que aconteceu? — É Lindsey dessa vez. Ela toca meu ombro, depois agarra a minha mão. — Meu Deus, sua mão tá gelada. — Como se para comprovar, John agarra a outra mão livre.
— É mesmo. E tá pálida, parece que viu um fantasma. — Comenta ele.
— Gente... — Eu inicio, me desfazendo de seus contatos porque estão começando a me agoniar. — O assunto é delicado e eu não posso dividir com vocês. Não é que eu não confie em vocês... — Eu corro para me explicar antes que se chateiem comigo. — É que é tão sério que... — Eu engulo em seco, não sabendo como explicar. — Enfim... Eu só... Não posso dividir isso com vocês, sinto muito.
— É sobre o que o Diego fez ontem? — Sugere Lindsey.
— Não, não é sobre ele. Só... Por favor, não me perguntem mais nada, ok? Eu não tô bem, eu só quero esquecer um pouco do que aconteceu, tá?
Os três acham estranho, mas apenas aceitam sem questionar, e isso me alivia um pouco.
— Sabe que pode contar com a gente para qualquer coisa, né? — Emily afirma. Eu confirmo. — Qualquer coisa. — Ele me abraça e é em seus braços que eu sinto um pouco de conforto, de paz. John e Lindsey nos abraçam também e naquela hora, aquele abraço em quarteto lembra muito os abraços que a minha mãe me dava. Lágrimas descem e são limpas com carinho por Emy. — Relaxa aí, gata. Não chora. Estamos aqui, do seu lado. E se alguém perguntar porque seus olhos estão vermelhos, eu digo que era porque você deu um tapa no back hoje cedo. — Eu rio de leve com sua tentativa de me alegrar.
Enquanto esperamos o sinal tocar, eu ouço a conversa animada de John e Emy sobre um novo jogo de Play3 que ele ganhou do pai e ambos estão planejando jogar juntos. Lindsey está sorrindo muito enquanto mexe no celular. As outras pessoas estão em seus grupos alheias a nós. Ao olhar para o estacionamento, vejo Diego sentado em sua moto, rodeado de outros garotos. Seus olhos estão fixos em mim, e mesmo quando percebe que eu o encaro, ele não desvia a atenção. Seu rosto está fechado, sem emoções presentes, usa sua tão habitual jaqueta de couro preto, uma camiseta branca, calça jeans escura e botas grandes. Volto a fitar seu rosto e ele continua mirando-me. Por um minuto eu queria saber o que se passava em sua cabeça nesse momento de troca de olhares, queria saber se ele estava arrependido de ter me ajudado antes, se estava arrependido pelas brincadeiras de mau gosto que ele fez comigo, ou se ele estava planejando uma nova forma de me fazer de piada na escola. Fosse o que fosse, agora não parecia importante, então eu apenas abaixei a cabeça e olhei para o outro lado. Não queria arranjar mais dor de cabeça, já bastava a que eu tinha que enfrentar mais tarde ao voltar para casa.
, eu estava falando para eles sobre sairmos esse final de semana. O que acha? Uma balada ou um luau na praia. O que acha? — Emy me pergunta e eu a olho.
— É uma ideia legal, linda.
— Com essa animação, já sei que está pensando em não ir. — Revira os olhos e eu sorrio um pouco. — Não quero saber de desculpa. Se eu marcar com os outros você terá que ir, ouviu bem?
— Hey, mana... Não sabia que agora eu tinha mãe. — Eu desdenho de brincadeira.
— Pois tem. — Coloca as mãos na cintura. — Agora avisa isso para o gostoso do teu pai, diz que eu estou levando minhas coisas para sua casa e que a partir de hoje, eu e ele somos marido e mulher com direito a muito sexo selvagem.
Minha boca se abre e algo relacionado a posse brilha dentro de mim. Eu fico surpresa pelo seu modo de falar sobre e enciumada ao mesmo tempo. Eu sabia que ela estava brincando, mas a mera imagem que se formou na minha cabeça de e ela juntos revirou meu estômago completamente.
John ri da minha cara.
— Ora, me respeite, sua puta. não é para o teu bico não, meu amor. Pode ir tirando os olhos do meu pai. Mas te digo, dá próxima vez que eu for na sua casa, vou cantar teu pai na maior cara de pau só para ver a sua cara depois. — Eu aponto um dedo em sua cara fingindo estar com raiva.
Emily gargalha.
— Mana, o papai é de boa, mas a mamãe não. Se ela te pega, ela te mata. Tenho até pena.
Nós rimos.
— Ela não vai descobrir. — Sigo na brincadeira.
— Vai sim porque eu vou contar para ela, mas.... Podemos fazer um trato. Eu fico com o , e você fica com meu pai. Topa? — Ela estende a mão para que eu aperte. Eu faço bico.
— Não. não.
— Oh, a neném tem ciúme do papaizinho dela. Que amor. — Imita voz de beber só para me irritar, então eu dou um tapa em seu braço. — Ciumentinha.
— Cala a boca. — Eu rosno.
— Ciumenta. Ciumenta. Ciumenta. — Em coro John e Emy caçoam girando em torno de mim.
Nessa hora o sinal toca e eu agradeço a Deus por isso. Me sinto um pouco melhor agora, e esse bem-estar é causado pela minha doida melhor amiga. Abraço-a pelos ombros e assim, entramos na escola juntas.

__X__


As três primeiras aulas passam se arrastando e como hoje estou sem cabeça para estudos, eu mal presto atenção no que o professor explica. Meu caderno está todo rabiscado com desenhos aleatórios de corações, flores e borboletas. Imagino como vou encarar , será que terei coragem? Para falar a verdade eu não tinha a mínima ideia de como iriamos resolver essa situação.
Eu tentei procurar uma saída, imaginando mil e uma situações de como seguir com as nossas vidas esquecendo o fato de que deliberadamente nos pegamos num momento fugaz. Contudo, a saída mais racional que eu encontrei era enfrentar aquilo, bater de frente, conversar, reparar, recomeçar e seguir. O que aconteceu estava no passado, portanto não voltaria mais, então restava apenas aceitar. Aquilo só seria um problema nas nossas vidas se nós permitissimos que fosse. Uma vez que nos acertassemos, aquele erro tão bom seria esquecido e nós recomeçaríamos do zero.
Era isso que eu iria fazer.
Melhor solução.
Ora, a quem estou tentanto enganar? Nada seria como antes. Não seríamos nós mesmos, apenas atores fingindo não estarmos afetados. Porém, a parte da conversa era essencial termos.
— Lindsey? — Eu chamo tirando sua atenção do celular.
— Oi, amor. — Me olha.
— Pode me ajudar em uma coisa?
— Claro. — Trava o celular guardando no bolso de trás da calça.
Emily e John saíram para comprar seus lanches. Eu estava sem fome e Linn apenas não quis ir mesmo.
— Eu tenho um problema...
— E quem não tem? — Me corta com cara óbvia, sorrindo.
— Boba. Então esse problema está me perturbando tanto que está tirando todo o meu foco. Como você acha que eu devo lidar com isso? — Meu olhar é suplicante, meu rosto deve estar bem expressivo porque imediatamente o seu se torna sério.
— Eu não sei qual é esse problema, mas acho que você só deve se preocupar com ele quando a hora chegar.
Eu não entendo o que ela quis dizer.
— Isso não fez sentido, Linn.
— O que quero dizer é que provavelmente enquanto você está em silêncio, você está divagando, pensando naquilo que está te deixando tensa. O que eu quis dizer é para se preocupar com o futuro só quando ele chegar. Por exemplo... Vamos supor que você quebrou algo muito valioso do seu pai antes de vir para a escola. Um quadro, sei lá... Apenas siga o raciocínio. Você sabe que ele tem muita estima por aquele objeto e que talvez ele vá ficar super puto quando descobrir o que você fez assim que chegar em casa. Ficar pensando nesse problema agora não vai te ajudar em nada, você só vai ficar com medo, imaginando como será a situação sem ela ainda nem ter acontecido. O mais certo a fazer, por hora, é tentar esquecer. Dessa forma, não ficará tão tensa. Isso é não se preocupar com o futuro. Foque no presente, não tente interpretar o que vai acontecer, pois, talvez quando você chegar em casa e encontrá-lo, ele poderá não estar bravo com você. E você vai perceber que toda aquela paranoia que você estava criando na cabeça antes foi em vão. Entende agora?
Mordo os lábios, assimilando sua explicação. E sim, faz sentido.
— Por incrivel que pareça, você acabou de me ajudar muito. — Eu sorrio um pouco e me inclino em sua direção para lhe dar um abraço. — Obrigada.
— Que isso?! Os amigos são para isso, né? — Ela dá tapinhas em minha costa.
Eu a solto e deixo meu olhar vagar para o pátio da escola acompanhando o ir e vir dos alunos, Lindsey volta a mexer em seu celular, e minutos depois os outros chegam, e dessa vez, quando eles começam a falar da Série Supernatural, eu me envolvo, deixando para me preocupar com somente quando eu chegar em casa.

__X__


Está escuro quando as aulas acabam e nós saímos. Cada um se desdepe e segue seu caminho, eu faço o mesmo indo para o estacionamento. John é unico a me seguir porque nossos carros estão perto um do outro.
, eu já ia esquecendo. A Emy me disse que você tinha comprado os livros de Os Legados de Lorien. E ela disse que você tinha os e-books. Eu só tenho os livros fisicos, mas e-books não. Tem como você me enviar? Tô super afim de terminar de ler essa saga.
— Claro, assim que chegar em casa procuro no computador e envio para o seu email, beleza? — Eu destravo o alarme e abro a porta. Quando estou prestes a entrar, John comenta:
— O que é isso aí em cima? — Ele aponta para o capô do meu carro onde eu posso ver o que parece ser uma flor e um pequeno envelope branco. Eu rodeio o carro e os pego, John se aproxima para ver.
A flor é cheia, e suas petálas começam em um tom de vinho forte, e terminam com pequenas bordas em lilás e branco. Apróximo-a de meu nariz e seu perfume é suave, gostoso. Não posso determinar que tipo de flor é aquela, mas nunca vou esquecer de sua essência.
— Olha como é cheirosa. — Entrego-a para John que inala como eu. Seus olhos se fecham com prazer.
— É cheirosa mesmo.
— Vamos ver o que tem aqui. — Eu digo já abrindo o envelepe. Encontro um papelzinho lá dentro com caligrafia puxada, o qual eu leio em voz alta: — "A Dália é a flor que simboliza o reconhecimento. Reconheço meu erro. Sinto muito."
— É só isso? — John questiona.
— Sim. — Eu assinto. — Não há iniciais que identifiquem quem o escreveu. Eu também não reconheço a letra.
— Que estranho. — John pega o papel de minha mão e o lê. — Quem será que colocou isso aqui?
Eu varro todo o estacionamento e verifico por todos os outros lados procurando alguma pista, alguma pessoa que tenha feito isso, mas não encontro nada.
— Será que foi um dos garotos que me acediou que colocou isso aí? — Eu proponho e meu amigo pensa.
— Possa ser que seja. É uma opção.
— Bem, de qualquer maneira eu vou guardá-la. Gostei da flor e seu cheiro. Me dê. — Ele me entrega a Dália e eu a ponho no banco de passageiro, junto com o papel. — A gente se vê amanhã.
— Até amanhã. — Me beija na testa. — Se cuida.
— Você também.
Ambos entramos em nossos veículos e damos partidas para fora da escola. Assim que entro na avenida eu lanço o olhar para a flor, porém assim que meus olhos se voltam para a pista e eu começo a ter consciência de que estou voltando para casa, a minha barriga aperta em nervosismo e meu coração salta. Agora não tem mais como fugir... Urffff... Eu sopro uma respiração.
Que tudo possa acabar bem!

__X__


Uma última respiração.
Parece que eu tenho apenas uma última respiração quando eu paro o carro em frente de casa.
Parece que são meus últimos minutos de vida, meus últimos suspiros.
Parece que eu vou morrer.
Parece que meu coração vai parar a qualquer momento.
Parece que a minha cabeça vai estourar.
Parece que meu corpo não vai mais aguentar o meu peso.
Parece que meus pés vão ceder assim que eu pisar no chão.
Mas é só o nervosismo.
É só o medo do futuro.
É só o pensamento de ter posto tudo a perder.
É só eu com receio de encarar a realidade.
É só eu com vergonha de olhar para o homem que tirou meu fôlego desde o primeiro dia que o vi, que tornou minhas noites quentes e meus sonhos indencentes.
Merda... Essa noite é só eu e ele.
Vamos lá, garota. Você tem que encarar isso! — Eu sussurro para mim mesma, tentando me encorajar. Eu só vou saber o que vai acontecer se eu sair daqui. Fecho os olhos e deixo minha cabeça cair sobre o volante. Agora é de verdade, não há como adiar, e por mais que eu tente não me desesperar, eu acabo chorando por medo... Medo do desconhecido. — Eu não sei como fazer isso! — Eu choro mais. Eu choro tudo o que tinha guardado durante o dia, eu deixo ir tudo até que não haja mais lágrimas, até que eu esteja tão cansada que tudo o que eu quero fazer é dormir. É quando meu nível de estresse e esgotamento emocional está tocando o topo que eu resolvo sair. Eu caminho como um zumbi até o hall e eu não demoro para abrir a porta. Puxo o ar com força e entro, batendo a porta atrás de mim. Está tudo escuro, tanto a sala como a cozinha e não há nenhum sinal de . Acho que ele não está em casa, porque senão haveria ao menos uma luz acesa. Sinto alivio imediato. Acendo as lampadas e deixo minha mochila no sofá. Doida para tomar um banho e poder me deitar, eu rapidamente subo as escadas e vou para meu quarto atrás de roupa limpa. Ao abrir a porta, meu coração para de bater por alguns segundos assim que vejo sentado em minha cama. Ele ergue a cabeça e me encara.
Merda.
Ele está uma merda.
Eu estou como ele.
Eu estou uma merda.
Nós dois estamos uma merda.
Seu rosto está muito abatido, seus olhos estão tristes, quase vagos e sua mandibula está tensa. Aposto todo meu dinheiro que seu dia foi tão horrivel quanto o meu e que ele sentiu a mesma dor que eu senti.
Eu não estava preparada para encará-lo. Quando eu cheguei e não o encontrei lá em baixo, o meu corpo relaxou, e agora vê-lo na minha frente me desestruturou completamente. Não sabia nem o que falar.
Os minutos se passam com lentidão enquanto nos encaramos. Nenhum esboça qualquer reação que não seja abatimento. E eu fico chocada quando também não vejo arrependimento em seus olhos. Sim, ele estava triste, mas não arrependido.
Caramba. Será que isso significava que ele gostava de mim da mesma forma como eu gostava dele?
. — Eu tremo e pulo assustada quando ele chama meu nome com um tom áspero, não de raiva, mas sim por parecer não ter aberto a boca por um longo tempo. — Nós precisamos conversar! — Ele se ergue e sua altura me intimida, mas eu não fujo. Dessa vez eu devo ficar.
— Sim, . Nós precisamos. — Diferente dele, minha voz mais parece um miado fraco de um gato prestes a morrer.
dá um passo em minha direção, eu me forço a ficar. Outro, e outro, e depois mais outro. Ele fecha a porta e a tranca, guardando a chave em seu bolso. Seu olhar me cobre por inteiro, me fazendo sentir estar nua.
— Agora somos só nós dois. Nada de mentiras, máscaras ou segredos. Chegou a hora da verdade, e por mais dura que seja contá-la, teremos que fazer!

OBS: Por favor, leiam as notas autorais. É importante

Capitulo 18 – Amor, Estranho Amor

Obs: Coloque essa música para carregar e pesquisem sua tradução também. Quando for o momento de tocá-la, avisarei.

Eu respiro fundo quando rodeio o corpo de em busca de um refúgio que acaba por ser a janela. Eu caminho até lá e me sento sobre o batente já que ela está aberta. Eu não ouso olhar para ele, sinto vergonha da situação e admito que apesar de concordar em conversar com ele, eu não estou preparada. O quintal do vizinho parece atraente aos meus olhos já que eles estão focados lá.
, nós deveríamos começar a conversar. — Ele inicia com um tom leve de irritação. Eu fecho os olhos e abraço os meus joelhos. É o momento mais constrangedor que enfrento em toda a minha vida.
— Eu não sei como fazer isso. — Eu digo após minutos de silêncio.
— Você deveria começar primeiramente me olhando nos olhos. É rude conversar com alguém olhando para outro lugar. — alerta.
— Eu estou envergonhada, não consigo encará-lo. — Admito a verdade. Ele mesmo disse que hoje não deveria haver mentiras, máscaras ou segredos.
Seu suspiro sai audível e pela visão periférica vejo que caminha para a minha cama, onde se senta e coloca as mãos sobre o rosto.
— Eu sei que não é fácil, mas vai ter que fazer um esforço. Venha e se sente ao meu lado. — Ele comanda e eu estremeço apenas com o pensamento de estar perto de seu corpo.
... — Ele me corta quando estou prestes a inventar uma desculpa para continuar onde estou.
— Não é um pedido, . É uma ordem. Venha! — Ele sequer me olha. E como eu sei que se eu não for por bem ele virá me pegar por mal, eu engulo o orgulho e a vergonha e ando até ele posicionando-me bem ao seu lado, porém, evito encostar em sua perna. Sinto seu rosto virar para mim, inspecionando. Eu tenho certeza que vou de vermelha a roxa nesse momento. — Você entende o que aconteceu ontem? — Questiona.
Eu anuo em concordância.
— Sim. Nos beijamos.
— Olhe pra mim enquanto estiver falando com você. — meio que range e quando eu não faço o que pede, ele leva sua mão até meu queixo, virando-o para ele com certa indelicadeza. — Eu disse pra olhar pra mim. Eu não vou repetir de novo. — Eu aceno com lágrimas nos olhos. — Droga, . Eu não quis ser rude. Eu só quero seus olhos em mim enquanto conversamos. Eu sei que está envergonhada. Merda. Eu estou também, mas precisamos resolver isso. — Ele está certo, então eu apenas limpo as lágrimas não derramadas e me viro para si. — Me desculpe.
— Tudo bem.
— Escutei você na praia. — Meus olhos sobem para seu rosto e fixo meu olhar no seu. Seu azul já não é tão parecido com o azul dos meus. Leva um tempo até eu entender o que ele acabou de dizer, e quando isso acontece, a sensação é de ter levado um soco no estômago.
O esforço que faço de não desviar o olhar é grande.
— Eu sinto muito. — Murmuro, vendo confusão tomar sua face.
— Sente muito pelo o que?
— Por ter escutado. Isso deveria ser segredo. — Confesso agora fitando meus dedos entrelaçados sobre minhas pernas. — Eu deveria ter sido mais... Cuidadosa sobre os meus sentimentos.
assente e me encara.
— Quando isso aconteceu? — Indaga.
Eu não entendo.
— O que?
— Quando percebeu que... — Engole em seco, parecendo sem jeito. — Que gostava de mim de uma forma... diferente?
Eu olho para a porta procurando as lembranças e recordo do dia que nos vimos pela primeira vez.
— Eu acho que foi no aeroporto. — Volto minha atenção para seu rosto, e prossigo timidamente. — Lembro que quando vi você com o cartaz rezei para que não fosse meu pai, te achei bonito... — Mordo os lábios. não perde esse movimento. — Mas depois quando se apresentou eu me decepcionei um pouco.
— Se sentiu atraída por mim naquele momento? — Pergunta apreensivo. Mas sei que está sendo cuidadoso porque está morrendo de curiosidade. Isso dá para perceber de longe.
— Pra falar a verdade... Acho que foi quando me abraçou. Recordo que quando isso aconteceu, meu corpo arrepiou por inteiro, seu cheiro impregnou meu nariz e naquele momento o único sentimento que eu tinha dentro de mim era...
— Era... — Incentiva-me a continuar.
Ergo-me indo para a janela novamente.
, isso não é certo. Não deveríamos estar falando disso.
Sinto sua presença bem atrás de mim.
— Porque não é certo? O que você sentiu?
Eu me viro para si exasperada. Não é possível que ele não esteja enxergando o erro ali.
, eu não sei se você percebeu ou esqueceu... Mas você é meu pai. Meu PAI, cacete. Nós nos beijamos. É nisso que está o erro. Pai e filha não se beijam, não dessa forma. Eles não conversam sobre isso. Pelo amor de Deus. — Estou próximo de perder o equilíbrio. Se eu ficar histérica, tenho até pena dele.
olha de volta como se o que eu acabei de dizer não fosse importante.
— Me diga o que sentiu. — Praticamente ignora o que eu acabei de falar e isso irrita o inferno em mim.
— Você é surdo? Estúpido? Qual a parte do que eu acabei de falar você não entendeu? — Minhas mãos fazem movimentos de garras como se eu fosse esganá-lo, o que eu estou querendo fazer no momento.
... — Ele começa colocando uma mão na cintura enquanto a outra está fazendo movimentos no ar. — Você está fugindo do assunto. Sei que está com vergonha, mas já está agindo como criança agora.
— Criança? — Meus olhos quase saltam em sua direção quando eu grito. — Você está pensando direito? O que aconteceu entre nós é errado a níveis inimagináveis. É incesto, . Sabia disso? — Eu dou um passo em sua direção completamente descontrolada. — Você não pode esperar que eu olhe em seus olhos e assuma que senti desejo quando me abraçou, que meu corpo vibra apenas por sentir seu cheiro, que tenho sonhos sujos praticamente todas as noites e acordo molhada e incomodada pela manhã, que já me toquei tantas vezes pensando em você e... — Me calo de imediato assim que meu cérebro assimila o que eu acabei de dizer sem pensar. Levo a mão à boca para tapá-la, chocada. Viro-me de costas para porque não quero nem ver qual será sua reação. Minhas mãos correm desenfreadas pelos meus cabelos enquanto eu entro em desespero por causa da circunstância. Trabalhei tão duro para esconder minha paixão por ele tentando me manter afastada, tentando não pensar tanto a respeito disso, tentando conhecer garotos que me levassem a esquecê-lo... E agora eu via meu esforço indo ralo a baixo. Por causa de um momento de desequilíbrio minha imprudência literalmente falou mais alto e fodeu tudo.
Agora eu não estava mais constrangida.
Eu estava fodidamente mortificada.
Quando o choro vem rápido, às cegas eu ando até a parede mais próxima e deixo meu corpo deslizar para o chão. Talvez se ao invés de ficar fantasiando um romance entre eu e eu tivesse imaginado a cagada que seria se isso fosse descoberto, eu já estaria preparada para lidar com ele. Mas não. Eu estava completamente desarmada e perdida no meio do fogo cruzado.
O silêncio desconfortável domina o ambiente piorando minha situação. estranhamente está calado e imediatamente eu fico apavorada sabendo que as minhas declarações o abalaram, então eu tiro as mãos do rosto e ergo a cabeça, notando que ele me encara, só que não posso discernir sua expressão misteriosa, e é nesse momento que a fúria aparece dentro de mim, trazendo consigo a indignação.
— SATISFEITO AGORA? — Eu grito, me erguendo. — AGORA VOCÊ SABE O QUÃO DOENTE EU SOU! EU TENTEI, OK? EU JURO QUE TENTEI GUARDAR ISSO APENAS PRA MIM. TENTEI NÃO DEMONSTRAR MEUS SENTIMENTOS LIBERTINOS, VIS E SUJOS... Eu... — Minha voz branda quando meus olhos marejados entram em contato com os seus. — Eu tentei te amar como pai. Mas... Não deu certo. Você se tornou minha obsessão maluca, minha fixação. Eu sei que você não tem culpa, eu... eu penso que também não tenho porque aquele sentimento surgiu sem que eu quisesse, e agora, por mais errado que ele seja, eu tenho que conviver com ele. — Abraço meu corpo olhando para a porta do closet, pois o olhar de ficou profundo demais a ponto de eu não conseguir encará-lo. — Assumir isso em voz alta é muito difícil. Passei o dia todo na escola pensando em como passaríamos uma borracha no que aconteceu para podermos seguir em frente, e eu sabia que isso só iria acontecer se nós dois esclarecêssemos aquele momento. “Conversar, reparar, recomeçar e seguir”. — Um sorriso triste nasce em meus lábios. — Foi meu mantra por longas horas. Mas aí eu chego aqui e mesmo despreparada eu aceitei conversar porque eu sei que é o certo a se fazer e porque eu queria resolver esse lance entre nós. Só que você age como se o que fizemos não tivesse sido um erro. Ao contrário, você praticamente quer que eu explane sobre o assunto pra você como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. — Volto a olhá-lo. — Eu me sinto... imunda.
— Como você acha que eu me senti quando me descobri atraído por você também? — finalmente fala com a voz completamente rouca, seus olhos entristecendo por um momento e seu rosto agora demonstra cansaço. Ele anda de costas mesmo até sua perna bater na cama e ele se joga, caindo com um baque surdo. Suas mãos sobem para o rosto, esfregando-o de cima para baixo diversas vezes.
— Só se sentiu atraído por mim porque me escutou dizendo aquelas coisas na praia. — Eu faço essa observação, entretanto apenas balança a cabeça negando o que eu disse.
— Isso começou antes mesmo de você vir morar comigo, . — Ele me fixa e sua declaração é uma grande surpresa para mim. Encaro-o por longos minutos tentando entender, e espero que ele prossiga. — Quando o advogado chegou me contando a notícia sobre a morte de Ella, isso me abalou muito porque sua mãe foi a garota que eu mais amei em toda minha vida... — Estou muito atenta a cada palavra que ele diz por que estranhamente quero saber mais a respeito desse tópico, então tento esquecer a vergonha e caminho até onde está, e sento ao seu lado. Meus olhos nunca abandonam os seus. — Mas quando eu descobri que você ficaria sob meus cuidados – ainda que eu estivesse muito surpreso com tudo que aconteceu – meu coração se encheu de alegria. — Aceno a cabeça lhe pedindo para prosseguir já que por poucos segundos vejo uma sombra cruzar seu olhar brilhante e eu entendo que é a partir daí que a conversa vai tomar um rumo mais sério, e que explicará sua asseveração de ter ficado atraído por mim. — É um assunto bem delicado, . — Eu concordo.
— Tudo bem.
— Você quer mesmo que eu te conte? Eu não terei vergonha e nem vou esconder os fatos. Posso ser muito rude com as palavras e você poderá ficar um pouco sem jeito devido às coisas que eu vou dizer. — Ele propõe e eu noto que ele está me dando a chance para sair fora, para esquecer sobre o beijo e o que aconteceu. Se eu disser que não quero mais saber de nada, então provavelmente ele irá se retirar do meu quarto... E poucos minutos atrás eu estava muito tentada a escolher essa alternativa, mas o meu coração enviou uma ordem para meu corpo de que eu tinha que permanecer e escutá-lo, e que isso seria de extrema importância para nós dois.
— Sendo sincera, eu quero saber. — Concordo e ele assente. Vejo sua mandíbula apertando e seus músculos tencionando com nervosismo.
— O advogado nos disse que você era atriz. — Ele começa.
— Nos disse? Quem estava com você? — Eu questiono.
— Joe.
— Ok. Continue.
cruza as mãos.
— Depois que ele saiu eu lembro de ter ficado muito animado sobre a notícia, então Joe propôs que fizéssemos uma pesquisa sobre você na internet. Foi aí que descobri que aquele seu filme estava em cartaz. Quando Joe falou o nome do filme, achei que era um filme quase infantil. Te imaginei em roupas rosas com babados e frufrus... — Eu sorrio um pouco do que ele diz e da careta que faz. — Eu nunca imaginei que Doce Menina tratava-se de um filme quase adulto. Eu quase fui expulso do cinema por gritar duas vezes lá dentro. Foi um choque vê-la tão exposta. As coisas que ele fazia com você, como te tocava e como falava... Isso me deixou insano. E no meio dessa fúria toda que eu estava sentindo, algo aconteceu. Quando você gemeu e sorriu, eu... — Engole em seco, seu rosto avermelhando. — Eu fiquei duro, . Eu me senti crescendo e firmando dentro da roupa e foi desconfortável.
Certo, agora a única desconfortável e envergonhada era eu, só que me recusei a fugir. Eu respirei fundo e tentei ficar firme ao seu lado.
— Eu sabia que havia algo de errado comigo por ter me excitado vendo você com outro cara. E sabia também que eu não poderia mais ficar ali e assistir, então eu saí da sala e fui para o banheiro. Achei que eu fosse me acalmar e aquela dureza... Você sabe. — Eu não sabia, mas mesmo assim eu concordei. — Só que ficou pior. Assim que eu me vi sozinho, imagens suas apareceram em minha mente me levando a loucura. Eu tentei resistir, , só que não deu e eu acabei me deixando levar por meus instintos primitivos.
Eu tinha uma boa ideia do que aconteceu depois disso, ainda sim eu quis perguntar:
— O que você fez?
olha para mim primeiramente com dor, depois seu rosto fica vermelho e ele se constrange.
— Eu fiz o que meu corpo pedia. Eu me mastur... Você sabe. Eu fiz aquilo. Fiz pensando em você porque não conseguia tirar seu rosto da minha cabeça. Eu imaginei que você estava lá comigo, e eu não posso negar... Eu gostei muito das coisas que eu idealizei fazendo com você. Eu vim tão forte que eu sujei a parede do banheiro e... E após aquele momento de languidez prazerosa passar, a culpa caiu sobre mim como uma bigorna. Me senti o homem mais miserável e canalha do mundo. Me senti como você descreveu que se sentiu. Eu não tinha coragem de voltar lá e terminar de assistir o filme, então eu apenas mandei uma mensagem para o Joe dizendo que eu estava indo embora. Eu queria ficar um tempo sozinho e pensar na loucura que eu tinha cometido.
Seus ombros para baixo transpassam derrota e ele move seu olhar para longe do meu. Eu levo meu tempo até que toda sua confissão é digerida e ruminada. Percebo que nós passamos por coisas parecidas, que tudo que eu havia feito, ele também fez. Nós dois tínhamos errados e agora eu já não me sentia mais tão... Suja. Sim, não era normal o que tinha acontecido, todavia estávamos empatados. Eu não senti raiva ou nojo das coisas que ele descreveu que fez, porque seria muita hipocrisia da minha parte, mas eu ainda queria saber mais porque meu coração se envolveu diretamente, e com isso eu queria dizer que eu tinha uma pequena chama de esperança de que ele gostasse de mim além do modo sexual, pois eu gostava dele além disso.
Quando a vergonha deixa meu corpo e a coragem assume seu lugar eu me inclino na direção de e coloco minha mão sobre a sua, tentando lhe transpassar que está tudo bem. Meu gesto o deixa confuso por segundos, então ele olha para nossas mãos e a vira de modo que nós entrelaçamos os nossos dedos, e depois ele me olha e deita sua cabeça sobre meu ombro esquerdo.
— Você sente repulsa pelo o que eu fiz? — Quebra o silêncio.
— Claro que não, . Eu fiz o mesmo.
— Mas você disse que achava isso errado. — Ergue-se e me encara nos olhos.
— Ainda acho errado, mas agora eu entendo. Falando sério... Será que em algum momento depois que me mudei pra cá você me viu como filha? Ou... — Ele me corta.
— Foi bom citar esse ponto. Depois do que aconteceu no cinema, eu nunca... Nunca mesmo repeti aquilo. Quando você chegou eu te tratei com respeito, nunca avancei nenhum sinal e nunca demonstrei o que estava guardado nas profundezas da minha mente. Eu realmente queria cuidar de você como um pai cuida da filha, até porque eu achei que com o tempo aquele sentimento iria sumir e tudo ia voltar ao normal.
— Entendi. — Eu balanço a cabeça. Ele está falante, e eu me sinto confiante em continuar tirando as dúvidas que eu tenho. — Eu me lembrei de algo...
— Pergunte então. — se aproxima um pouco mais de mim na cama, nossas mãos ainda estão unidas.
— Nó dia que eu cortei o pé, antes disso... Você ia dizer alguma coisa, mas parou. O que era?
Seus olhos se dispersam enquanto eu vejo que ele tenta lembrar-se desse dia, então seu rosto clareia e ele sorri minimamente.
— Eu iria dizer que você estava linda e que queria te beijar.
Arregalo os olhos.
— Sério?
Agora ele sorri maior.
— Sério. Sorte que eu consegui conter o elogio antes que ele saísse. Mas deu merda de qualquer jeito. — Eu rio mesmo ainda estando espantada.
Suspiro olhando para o meu relógio na parede. Os ânimos estão mais calmos, graças a Deus. Estamos nos acertando pouco a pouco e eu fico feliz por isso. Imagino como seria o clima tenso se ignorássemos toda aquela situação... A convivência seria um caos. acaricia minha mão e a leva para mais perto dele, e isso atrai minha atenção.
— O que você tá pensando? — Indaga ele, seus olhos grandes me espreitam.
— Que as coisas estão se resolvendo e nós estamos nos acertando. É muito mais fácil viver com a verdade do que com a omissão. — concorda.
— Mas ainda não resolvemos o principal.
Meu olhar abstruso recai sobre si.
— O que é?
Ele faz uma cara de obviedade.
— Nós.
Nós?
— Nós? Como assim?
— Não resolvemos como vamos ficar. Tudo bem que agora você sabe o que eu fiz, e eu sei o que você fez. Sabemos que isso é incomum para os outros, mas já que temos sentimentos iguais porque não... não tentamos ficar juntos?
... — Eu exalo enquanto minha boca se abre. Ele apenas me olha com a face neutra. Ficarmos juntos? O que isso significa? — O que você quer dizer com isso?
— Você sabe que entendeu, . Isso é claro.
Eu penso a respeito e tanto imagens boas quanto ruins aparecem. Seria um sonho se realizando poder tocá-lo e beijá-lo, deixar este sentimento intruso sair, criar asas e voar. Em contrapartida tudo teria que ser reservado por que poderia ser preso por estar em um relacionamento com uma menor de idade e que ainda por cima era sua filha.
... Você já pensou sobre isso? Já pensou como seria nós dois juntos? — Pergunto preocupada.
— É o que eu mais pensei durante esse último mês. — Meu coração salta batendo tão rápido que por uma fração de segundos eu acho que eu vou morrer. E ele continua. — Estou bem ciente que a situação toda é estranha, . A ideia de estar atraído por você não entrava na minha cabeça de jeito nenhum, eu não queria aceitar. Após escutá-la na praia, ficou muito mais difícil me manter afastado de você, tanto é que eu procurei não ser tão carinhoso com você nas ultimas semanas com medo de que eu perdesse a cabeça e passasse do limite com você. E aí está a razão de eu ter saído tanto com Joe... Ir para lugares conhecer mulheres novas parecia ser a única saída que eu tinha pra tirar você da minha mente. — Essa parte de sua confissão me causa certo desconforto. Não gosto nenhum pouco de saber que ele esteve dando sua atenção para outras mulheres, mas engulo o ciúme e tento deixar minha face neutra. — Mas não deu certo. Piorou. Eu estava tão obcecado com o pensamento de que você sentia por mim o que eu sentia por você que comecei a enxergar seu rosto durante o sexo com as mulheres. Eu parecia um viciado alucinado, , e certa vez até chamei seu nome quando eu cheguei ao orgasmo. Fiquei com uma bela marca de cinco dedos no rosto por alguns minutos porque a mulher ficou puta comigo. — Eu não posso evitar, meus lábios se contraem quando eu rio, só que eu tento evitar. — Você acha isso engraçado? — Ele parece ofendido, porém sei que está fingindo.
— Não, nem um pouco. — Eu mordo os lábios porque eu quero sorri.
— Você é uma má mentirosa. — Ele sorri grande e eu imito seu gesto. Seu sorriso é lindo e eu me vejo derretendo por ele. — Você nunca notou que eu estava mudando com você depois daquele dia na praia?
Eu penso a respeito.
— Bom... Eu achava estranho a sua preocupação comigo. Você parecia ter ciúmes de mim e eu não entendia isso. Lembro-me daquele dia que o meu carro chegou e eu mencionei trazer um namorado... Você quase me engole dizendo que não ia me deixar namorar. — Eu faço uma careta e ri. — Você também era meio controlador com as minhas roupas, mas isso até dava para entender. Na verdade eu acho que não percebia muito porque estava preocupada demais em tentar me esconder de você. No dia da praia, eu estava muito desconfortável com o jeito em que nós estávamos próximos.
— Sim, naquele dia eu estava um pouco solto, por isso perguntei se o vinculo que você se referiu era amor. — acaricia o dorso da minha mão e eu olho para onde ele me toca.
— Não era amor. — Eu confirmo, voltando meus olhos para os seus que ficam confusos diante da minha afirmação. — Era desejo, luxuria... — Coro, não posso conter meu sistema nervoso, embora agora eu me sinta confortável para falar sobre esses assuntos com ele. — E eu estava muito nervosa e assustada que talvez você pudesse estar vendo e sabendo o que se passava na minha cabeça.
— Quando me disse que não era amor, aquilo me atordoou um pouco. E quando eu tentei forçar você a se abrir mais e você disse que era em breve, acho que fiquei triste. Precisava esfriar a cabeça, por isso eu fui tomar um banho de mar.
É incrível como nossos olhos estão conectados, e parece que as nossas almas também. Sabe toda aquela tensão de quando começamos a conversar? Ela sumiu. O clima é bem mais leve, ainda sim devemos ser cautelosos porque este assunto de ficarmos juntos é complicado.
— Eu fiquei preocupada que você fosse se afogar e eu não poderia fazer nada. — Eu confesso fazendo-o rir. — Passaram-se então dois meses e eu só vim reparar que você estava estranho anteontem quando me fez falar o porquê de eu não querer que você fosse meu pai.
franze a testa para mim.
— Eu realmente pensei que você estava jogando comigo. — Ele comenta.
— Eu não. Estava bem confusa e tudo piorou quando sua cara ficou cínica. — Ele ri. — Bem, de qualquer jeito as coisas ficaram bem estranhas e continuaram assim e isso me leva a uma dúvida.
— Estou aqui para saciá-la, amor. — brinca e eu faço bico para ele que ri de lado.
— É melhor levar isso a sério. — Ainda que eu estivesse rindo, eu dou um soco de verdade em seu braço.
— Ai. — Ele murmura caindo um pouco de lado enquanto acaricia o lugar agredido, mas o sorriso cafajeste ainda está lá. — Eu só quis brincar um pouco, .
— Eu sei, mas é que o momento não é muito para humor. — Advirto-o, e ele concorda. — Posso continuar?
— Claro.
— Lembra quando eu te contei sobre o garoto novato na escola e que consertei o carro dele?
— Como posso esquecer? Fiquei orgulhoso da minha garota. — Ele realmente parece orgulhoso e isso me deixa feliz.
— É exatamente isso... Você disse que tinha sorte por eu... — Hesito um pouco. — Ser sua garota. Você me abraçou e me beijou de um jeito distinto, principalmente quando chegou ao meu pescoço. Fez aquelas coisas de propósito?
pensa um pouco enquanto deixa seu corpo cair para trás na cama, de modo que agora está deitado. Eu faço o mesmo, acomodando-me ao seu lado.
— Eu não acho que foi proposital, linda. — Nossos olhos se prendem quando eu viro para si. — Eu realmente estava feliz que você aprendeu algo que eu ensinei, e quando nos abraçamos e te senti contra mim, era como se você fosse minha, e que eu devia acreditar que nós estávamos juntos e tudo era recíproco entre nós. Foi então que minha razão entrou em guerra com a emoção, e por pouco eu não perdi o controle e fui mais longe. E você também se afastou logo... — Essa última parte ele comenta de modo tristonho. — Porém quando dormimos a primeira vez junto, quando vi você tão perto... Nós parecíamos tão íntimos deitados na cama... Quando você fez aquilo de beijar meus dedos eu entendi aquilo como um sim, que você estava me dando passe livre para investir. Seus olhos estavam tão brilhantes, seu rosto corado e a respiração rápida... Nossa... — Nasce um sorriso genuíno enquanto ele fecha os olhos provavelmente revivendo aquele momento. Eu aproveito para admirar sua beleza, seu rosto tão másculo em êxtase, e é nesse momento que eu me sinto uma garota de sorte. — Quando te abracei por trás e nossos corpos se moldaram... Uau. — Ele suspira ainda sorrindo. Meu coração está tão acelerado que eu ainda temo ter algum ataque, mas eu estou tão satisfeita, completa. É como se as peças de um quebra-cabeça finalmente estivessem se encaixando com as nossas admissões. — Imaginei como se fossemos um casal. — Quando seus olhos abrem e entram em contato com os meus, vejo um tipo de maravilha exposto que me contagia. — Foi a primeira vez que senti seu calor e eu amei. — Sua mão livre vem para o meu rosto, acariciando. — Foi a partir daí que eu tomei coragem de tentar algo com você. E ontem, quando faltou energia e você acordou, eu vi o momento perfeito para dar o primeiro passo. Talvez eu tenha sido um pouco imprudente, mas é que eu já não aguentava mais me conter. Quando vi você se afastando, sei lá... Bateu uma sensação de desespero misturada com raiva e aí aconteceu... Foi impensado, na hora foi mais por impulso... Ainda sim, não me arrependo. É por isso que eu quero tentar algo com você, .
Seu olhar bonito me espreita com angústia, esperando uma resposta.
Eu respiro fundo quando me sento e coloco o rosto entre as mãos, pensando e avaliando sobre o que ele me pede. Neste momento, não aparece primeiro coisas boas, somente coisas ruins. Eu vejo ele sendo perseguido por pessoas que não entendem o nosso romance, vejo ele sendo preso, passando por várias maldades. E por mais que eu tente colocar uma imagem feliz na cabeça, nada aparece. Eu estou tão preocupada com ele que não sei se lhe dizer sim é a coisa a certa a se fazer. Isso não era um relacionamento comum, não era a mesma coisa que namorar com um rapaz qualquer. Ele era mais velho que eu 17 anos, e acima de tudo... Ele era meu pai.
O quão fodidamente complexo isso era?
? — Ouço-o me chamar e sei que está ao meu lado. Eu olho para ele com lágrimas prestes a cair. — Oh, querida. O que foi? — Ele toma minha face em suas mãos.
— Eu tenho medo, . Medo por você, que algo de ruim te aconteça. Eu imaginava como seria nós dois juntos e tudo parecia muito bonito, mas agora que você está me propondo isso realmente, eu comecei a pensar nos desafios que vamos enfrentar. Eu sou menor de idade... — Eu sussurro com medo de que falar alto e alguém nos escutar, por mais que as probabilidades disso acontecer sejam nulas. — Você é meu pai, isso não deixa de ser incesto. Eu entendo o que eu sinto por você, pra mim é bem claro. Só que se outra pessoa descobrir, você será o único a sair ferido nisso. Você já imaginou se qualquer pessoa descobre sobre a gente? — Eu pisco, as lágrimas escorrem. — Você seria condenado por pedofilia e seria preso. Eu não suportaria ser a culpada de você estar sofrendo. Eu me preocupo demais com você.
respira fundo como se precisasse de uma dose de fôlego para prosseguir com a nossa conversa, então suas feições suavizam e ele lentamente se move na minha direção, acertando um beijo na minha testa.

Obs: Coloque a música para tocar.


You, with the sad eyes
Você, com os olhos tristes
Don't be discouraged
Não fique desanimada
Oh, I realize
Oh, eu sei
It's hard to take courage
É difícil criar coragem
In a world full of people
Num mundo cheio de pessoas
You can lose sight of it all
Você pode perder tudo de vista
And the darkness it's inside you
E a escuridão que está dentro de você
Can make you feel so small
Pode te fazer sentir tão insignificante


— Amor, sei que está temerosa sobre nós dois, mas acredito que se ficarmos juntos... Se você me disser que sim, a nossa intimidade só vai pertencer a nós dois. Não estou dizendo que você vai sair espalhando por aí... Claro, isso não pode acontecer por motivos óbvios. Sei que vai ser difícil viver nos escondendo sem poder nos mostrar para os amigos mais próximos, porém valerá a pena. Eu também estou um pouco preocupado sobre como isso vai ser, mas se formos cuidadosos vamos ser muito felizes. — Suas mãos continuam fazendo carinhos, enquanto seus olhos estão me cativando e suas palavras me hipnotizando. — Agora é minha vez de perguntar se você já imaginou o quão bom será dormir e acordar juntos, trocar carinhos, fazer amor... Ser cúmplices, ter alguém esperando para lhe dar alento e colo quando chegar em casa depois de um dia estressante? Será que isso não parece tentador para você?
Eu deixo suas palavras serem absorvidas e vou criando imagens na cabeça, e lentamente todos aqueles contras que eu tinha dito para ele desaparecem, junto com as preocupações, restando apenas uma imensa vontade de me entregar sem medo porque vale a pena lutar por esse amor ilícito.
Capturo suas mãos entre as minhas e as levo aos lábios, beijando-as.
, pela primeira na vida estou com muito medo de dá um passo em frente porque eu sinto que estou no escuro e ainda por cima pisando em ovos. Eu estou com medo, com medo de absolutamente tudo. Com medo por mim, por você... Enfim... Já sabe disso. Apesar disso eu quero avançar e eu preciso de você pra me ajudar. Eu não sei como é estar em uma relação com um homem mais velho, e eu tenho medo que daqui a pouco você vá perder o interesse em mim, então preciso ter a certeza de que você gosta de mim na mesma intensidade que eu gosto de você. Não quero ser a garota de coração partido. — Eu digo apreensiva. Lentamente um sorriso nasce nos lábios de .
, não acho que você saiba a dimensão dessa coisa entre nós. Nosso vínculo vai além do nosso sangue. Você é tudo que eu penso e quero... — Ele puxa meu rosto mais para perto e eu perco o ar porque nossos lábios estão a um fôlego de distância. Não sei se fito seus bonitos olhos azuis ou sua boca rosada tão tentadora. — Não se preocupe com mulheres externas, eu só tenho olhos para você, ou você acha que se eu quisesse ter outras eu teria insistido tanto para você me dizer sim? Não partirei seu coração porque ele é muito valioso pra mim. Outra coisa, eu não ariscaria a minha vida nem minha liberdade se eu não tivesse certeza dos meus sentimentos. — Seu olhar se aprofunda quando as pupilas dilatam. — Eu te disse uma vez, e vou repetir de novo... Eu te amo.
Oh meu Deus. Eu não acredito que ele acabou de dizer isso!
Estava tão preocupada que ele só gostasse de mim de um modo sexual, então ele vem e lança essa bomba sobre a minha cabeça... e quase me faz ter um ataque cardíaco. Eu sinto como se fosse explodir de dentro para fora, meu sangue corre rápido nas veias, os frissons atravessam minha espinha arrepiando-me por completa e minha mente está agitada com sua ultima frase sendo repetida excessivamente. Merda, eu quero gritar. Eu quero dizer de volta, mas tudo que posso fazer no momento é puxá-lo para mim e beijar seus lábios. Eu enrolo meus braços em seu pescoço enquanto ele me puxa pela cintura contra si. Nosso beijo se aprofunda quando ele pede passagem e entra destruindo todas as minhas inseguranças. Quando nossas línguas se cruzam eu sou toda fogos de artifício. Completa e em casa é como me sinto... Deus, como eu amo esse homem.
Quando o ar se faz necessário, eu viro meu rosto e o enfio na curva de seu pescoço. suspira enquanto me aperta forte.
— Esse beijo é um sim para ficarmos juntos? — Questiona, então beija meu pescoço. Eu confirmo me afastando para olhá-lo. — Me fez feliz, sabia? — Leva uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha.
— Você me faz feliz também. — Eu sorrio. — Só não quando tenta dar uma de engraçadinho para o meu lado. — Ele sorri mais, então me bica nos lábios.
— Nossa conversa foi boa, hein? Resolvemos tudo, colocamos os pingos nos Is, e agora finalmente estamos juntos depois de meses nos reprimindo. — Eu o abraço mais uma vez porque estar em seus braços é confortável demais.
— Quando iniciamos isso eu não imaginava que o desfecho seria esse. — Rio.
— Você tá bem? — Pergunta, puxando meu rosto para verificar.
— Melhor impossível. Mas quero te pedir algo. — Fico séria.
— Claro, linda.
— Precisa ter paciência comigo. Sei que estamos juntos, mas ainda precisamos construir a intimidade entre nós, até que... Você sabe... Aquilo aconteça.
ri da careta que eu faço.
— Não se preocupe. Eu nunca te forçaria a fazer algo que não quer. Só de saber que vou poder te beijar, abraçar e que vamos dormir juntos, compensa o tempo que terei que esperar até você se sentir preparada para darmos outro passo. — Eu o beijo castamente, e o clima é bom até que meu estômago resolve estragar o momento quando ronca alto. É claro que não deixaria isso passar despercebido, então ele ri contra minha boca, e quando eu me afasto, ele começa a gargalhar. — Parece que alguém aqui está faminta.
— Eu não comi nada hoje, estou com a barriga vazia. — Explico. faz cara feia.
— Mas isso é absurdo, . Não sei como você não passou mal. — Se ergue da cama, puxando minha mão. — Vamos, eu farei o nosso jantar.
— Você pode ir na frente. Eu vou tomar um banho, ok?
assente.
— Certo. — Antes de ir ele dá um passo em minha direção e me beija. Eu me desfaleço em seus braços e suspiro quando ele se vai, destrancando a porta e desaparecendo. Mas quando ele desaparece eu sou tomada por uma euforia grande que faz com que eu dê três pulinhos e me jogue na cama, onde eu grito contra o travesseiro. Eu sorrio para o teto e abraço as borboletas que estão vivas nas minhas entranhas.
De constrangedor o meu dia passou para o dia mais feliz da minha vida.

__X__




Quando termino de me arrumar desço para a cozinha e encontro um limpo e cheiroso. Parece que depois que eu saí do banheiro ele entrou logo atrás. Ele veste uma calça de flanela azul escuro e uma camiseta cinza. Seu cheiro é delicioso, ele passou algum tipo de colônia amadeirada suave, e também está descalço. É incrível como até seus pés são sexys.
— Caham. — Eu tusso para chamar sua atenção já que ele parece concentrado enquanto mexe em algo na pia. Quando ele se vira, percebo de longe que ele fez a barba, ela está mais rala. — O jantar está pronto?
— Gostei da camisa. — Ele observa com um sorriso torto. — Ela é muito auto sugestiva. — Eu não sabia do que ele estava falando porque não reparei quando eu a vesti. Volto meu olhar para o meu colo e rio quando leio a frase “garotas mordem de volta”.
— Juro que não foi de propósito. — Levanto os braços com as palmas para cima. Sorrindo, estende a mão para mim e eu vou a seu encontro. Ele me abraça dando um beijo no topo da minha cabeça. — Você está cheiroso... — Ergo o rosto para verificar o seu. — Fez até a barba. — Ele me bica nos lábios.
— Precisava parecer mais apresentável pra você.
— Não precisa. Você é o tipo de cara que é lindo mesmo nos piores dias. — Acaricio seu estômago por cima da blusa e pela primeira vez noto o quão duro ele é. — Uau. Isso aqui é bem tonificado. — Aponto enquanto cutuco com os dedos.
— Você quer vê-lo mais de perto? — Sugere com a cara revestida em falsa inocência.
— Comporte-se, homem. — Eu brigo de brincadeira, me afastando.
— Arrume a mesa. Já irei servir o Meatloaf. — Comanda ele, cheio de bom humor.
Faço o que me pede e poucos minutos depois ele põe nosso jantar sobre a mesa. Nós começamos a conversar sobre outros assuntos, onde ele me pergunta como estou me saindo na escola e eu tento responder de forma evasiva porque não quero que ele saiba o que aconteceu recentemente. Nem posso imaginar o que ele faria se descobrisse sobre os garotos.
Pergunto como anda a oficina e ele me conta que contratou mais um mecânico para trabalhar de manhã, já que os três que já trabalhavam lá não estavam mais dando conta. Essas são as únicas novidades que trocamos.
Após o jantar eu lavo as louças e as seca. Ele me convida para assistir algo na Tv com ele, mas meu telefone toca anunciando uma chamada de Emily. Atendo rapidamente. Quando ela me conta que o garoto com que ela estava saindo a traiu, meu coração se parte junto com o dela. Eu subo para o meu quarto e nós começamos a nos falar pelo Skype e assim que vejo seu rosto inchado e vermelho, tudo que quero fazer é matar aquele filho da puta por ter feito o que fez. Eu passo praticamente uma hora inteira tentando consolá-la e sinto uma extrema necessidade de ir ao seu encontro, mas está tarde e sei que não permitiria. Digo a ela que irei sair mais cedo e passarei na sua casa para pegá-la, dessa forma teremos um tempo a sós para conversar antes de irmos para a escola. Ela aceita e se despede dizendo que já vai dormir e eu torço que pela manhã ela acorde melhor. Quando chego à sala, nota meu rosto abatido.
— O que aconteceu, querida? — Eu me acomodo ao seu lado ponto meu rosto sobre seu peito.
— O namorado da Emy a traiu.
acaricia meu braço com carinho.
— Traições machucam muito. — Comenta ele.
— Ela tá arrasada. Prometi a ela sair mais cedo hoje para buscá-la.
— Você é uma boa amiga. — Me beija na cabeça num gesto doce. — Vai dá tudo certo, eu sei que vai achar uma forma de ajudá-la. — Eu assinto.
Na televisão está passando jornal, mas eu me sinto cansada para assistir e isso fica claro para quando eu bocejo.
— Vou dormir, . Preciso descansar ou amanhã vou que nem um morto-vivo pra escola. — Eu comunico.
— Você quer dormir comigo hoje? — Propõe com cautela e eu não posso pensar em nada melhor que isso. Assinto. — Certo. Fico feliz que queira. Porque não sobe e me espera? Eu vou fechar a casa e já subo.
— Tá bem.
Nos afastamos e eu subo lentamente até seu quarto. Coloco meu celular para despertar uma hora antes do tempo habitual e depois me deito na cama, embrulhando-me com o lençol de . Meu corpo lentamente vai relaxando e eu suspiro de alivio. entra alguns minutos depois e apaga a luz do abajur. Sinto ele se deitar do outro lado, movendo em minha direção. Seus braços me puxam mais para seu corpo que se molda completamente ao meu. Uma mão fica no meu estômago e ele levanta um pouco a cabeça sobre a minha, onde beija minha bochecha, pescoço e ombro.
— Boa noite, amor. — Deseja ele.
— Boa noite.
E diferente de ontem, hoje eu durmo feliz e satisfeita.

Capitulo 19 – Pepsi Cola

Obs: Coloque essa música para carregar. Quando chegar o momento certo, ponha para tocar.


Sinto que estou despertando aos poucos quando começo a ouvir o alarme do meu celular. A primeira noção que tenho é que há um corpo envolvido ao meu, e o calor que emana dele deixa o meu mais confortável. Sinto uma mão em meu estômago fazendo um pouco de peso e uma respiração calma e lenta no meu pescoço, e que conforme o tom do despertador aumenta, mais essa respiração fica compassada. Abro os olhos e pisco porquê estou vendo tudo embaçado, porém assim que minha visão se estabiliza, eu contemplo a penumbra no quarto. Eu me movo um pouco, saindo dos braços de para pegar o celular que está em cima do criado-mudo e desligo o alarme. sibila alguma coisa que eu não entendo e me puxa de volta para seus braços. Eu rio um pouco e o abraço enquanto flashes da nossa conversa de ontem tomam minha mente. Quem diria que depois de todo aquele estresse nós acabaríamos aqui, em sua cama, abraçados um ao outro como um verdadeiro casal? Eu nunca imaginaria algo assim.
— É muito cedo para acordar. Volte a dormir. — Ele comanda no meu pescoço, o que naturalmente me faz sentir cócegas. Eu sorrio enquanto tento me encolher.
— Eu tenho que tomar banho e ir para a escola. — Eu digo cruzando meus dedos com os seus.
— Hummm. Não. Hoje você pode faltar. Eu não me importo.
Eu me viro ainda sorrindo e o abraço de frente, escondendo meu rosto na curva de seu pescoço. Seu cheiro é incrível e é tão bom abraçá-lo.
— Eu gostaria de ficar aqui com você, mas eu realmente preciso ir.
choraminga me fazendo rir, depois deposita alguns beijos no topo da minha cabeça, me apertando fortemente contra si para depois me soltar, mas ele não me libera totalmente. Ao contrário, ele fica por cima do meu corpo. Eu não posso vê-lo totalmente, porém as luzes que vem de fora da janela iluminam um pouco sua face, e nossa... Como ele é lindo com cara de sono. Só quero beijá-lo agora, contudo espero pelos seus movimentos. Ele parece me inspecionar, e quando vê que eu estou bem, ele mergulha em minha direção, seus lábios indo de encontro aos meus. Envolvo os braços em seu pescoço e o aperto. Sinto todo seu corpo contra o meu e não posso deixar de notar sua semi-dureza pressionando entre as minhas coxas. Uau. Isso é quente!
— Bom dia, Linda. — Ele murmura entre o beijo.
Perdida nas sensações que ele está me causando, eu apenas sorrio e o beijo mais forte.
— Bom dia, .
Ele sorri genuinamente.
— Dormiu bem? — Questiona. Sua mão faz carinho em meu rosto.
— Como um anjinho.
— Isso é bom. — Dá um beijo rápido e se ergue, indo para longe de mim. Eu quero chorar pela perda do contato com seu corpo, mas sei que não é para sempre e logo em breve o estarei tocando novamente. — Eu vou descer e fazer o café, baby. Te espero lá em baixo. — Observo-o levantar e ir para fora do quarto. Eu me espreguiço e bocejo; depois pego meu celular e vou para o meu quarto atrás da minha toalha. Desço e faço toda minha higiene matutina, alguns minutos mais tarde já estou pronta. Ainda é 05h15, muito cedo, entretanto como prometi a Emily que iria passar em sua casa para buscá-la, tenho que cumprir minha promessa.
Ao entrar na cozinha noto que está fazendo a omelete. Caminho até si e o abraço por trás, inspirando seu cheiro. Ele se vira rapidamente apenas para me beijar na testa, depois volta sua atenção para o que estava fazendo.
— Já fez o suco de laranja? — Eu pergunto.
— Ainda não, querida.
— Vou fazer então. — Eu pego as frutas na geladeira e começo a espremê-las. Isso demora um pouco, mas assim que acabo tudo já está pronto.
Eu me sirvo com um pouco de café, omelete e torradas. Já prefere frutas com aveia, suco de laranja e iogurte.
— Vai buscar sua amiga, como me disse ontem? — Questiona. Assinto.
— Eu já mandei uma mensagem avisando que daqui a pouco estarei saindo para pegá-la. Coitada, espero conseguir deixá-la melhor. — Sorvo o restante do café.
— Você vai conseguir. Vai dizer as coisas certas a ela e tudo ficará bem. — Ele me passa força quando toca minha mão, acariciando. Sorrio. — Hoje eu tenho um jogo com os caras. Quer vir comigo? — Convida com excitação brilhando em seus olhos.
— Claro, eu adoraria. — Aceito, sentindo-me feliz. Ergo-me da cadeira já que acabei meu café e caminho até onde está. Sento em sua perna e o beijo profundamente. Posso sentir o gosto do iogurte de banana e isso só deixa o beijo mais gostoso. Ele me aperta forçando mais o contato, suas mãos estão inquietas tocando tudo que podem, menos o que eu mais queria que elas tocasse – os seios. Quando o ar se faz necessário eu me afasto só um pouco contemplando um sorriso preguiçoso esticar nos lábios de , e o meu se iguala ao dele. — Você tem o melhor gosto de beijo agora. — Murmuro.
Ele ri.
— Você tem gosto de manhã. Suave, gostosa e quente.
Meu sorriso cresce e eu bico sua boca algumas vezes.
— Preciso ir.
— Isso é uma pena. — Ele arrulha com uma carinha triste que faz meu coração desmanchar mais ainda de amor por ele.
— Voltarei o mais rápido possível, Lindo. — Prometo.
Sua mão sobe para o meu rosto, afagando.
— É bom mesmo.
Beijo uma última vez e o deixo, caminhando para o banheiro. Escovo meus dentes e verifico minha aparência uma vez mais no espelho. Quando está tudo certo, eu saio e grito um adeus para enquanto bato a porta atrás de mim. Destravo o carro e entro. Manobro até a rua e dou prosseguimento ao meu trajeto.

...

Estaciono em frente à casa de Emily e ela sai de cabeça baixa, usando uma jaqueta de moletom preta com capuz para cobrir seu rosto. Ela dá a volta no carro e entra. Eu a fito e me inclino para abraçá-la quando percebo seu rosto inchado e vermelho. Imediatamente meu coração aperta e se enche de dor. Assim que ela me aceita parece que uma comporta se abre, liberando algo que ela estava tentando guardar. Seu choro inicia rapidamente, e junto com ele vêm os soluços incontroláveis.
— Calma. Eu estou aqui com você agora e você não está mais sozinha. — Aperto-a contra mim e aos poucos ela se afasta, amontoando-se no banco enquanto abraça as pernas. — Vamos parar num parquinho que fica na rua da escola, ok? E quando faltar uns quinze minutos para a escola abrir, nós vamos tá? — Ela assente sem dizer nada. Partimos mergulhadas em um silêncio tenso que só é quebrado pelo pranto ora baixo, ora alto da minha melhor amiga.

...

Sentamos juntas num banco. O sol vai nascendo pouco a pouco, mas o clima ainda é frio. Emy novamente abraça suas pernas, deixando que a cabeça penda sobre os joelhos. Eu me sento tão próxima a ela quanto eu posso, passando um braço por trás de seu corpo. Ela funga e suspira profundamente.
— Eu os vi juntos na casa dele. Estavam na cama, fazendo você sabe o que. — Ela repete novamente. — Ele ainda tentou dizer que o que eles estavam fazendo não era nada daquilo que eu estava pensando. Eu me senti tão estúpida. Eu só queria ir embora, mas ele tentou me agarrar. Eu o chutei na perna e isso me deu tempo suficiente para correr e sair da casa. Nunca corri tanto na minha vida. Quando percebi já estava na frente de casa. Minha sorte é que meus pais não estavam lá.
— Espera. Isso aconteceu naquela hora que ligou para mim? — Eu questiono. Era tarde da noite já.
— Sim. Eu aproveitei que não havia ninguém em casa, e queria fazer uma surpresa para aquele filho da puta. No final, a única surpreendida fui eu.
Eu fecho os olhos por um momento, procurando algo para dizer a ela que a fizesse se sentir melhor.
— Emy, eu imagino o que você está sentindo agora. Sei que seu coração está machucado e você sente que essa dor não vai passar. Mas acredite em mim, ela vai. Só aprendemos que algo é bom, depois que conhecemos o que é ruim. Você ainda é muito nova, tem uma vida inteira pela frente e vai conhecer muitas pessoas, algumas de caráter bom e outras nem tanto. Porém você vai saber e vai sentir qual você deve manter ao seu lado. Veja... Perdi minha mãe, e a dor é imensurável, e eu achei que aquela dor nunca ia passar...
— Mas passou? — Ela me corta. Eu compartilho um sorriso complacente.
— Não. A morte de um ente querido é uma dor que nunca passa, e é um fardo que carregamos conosco por toda nossa vida. Mas no meu caso... Depois que essa tragédia aconteceu, e eu achei que estava sozinha no mundo, a vida me mostrou o contrário. Eu ganhei um pai. chegou no momento certo, quando eu mais precisava. — Pego suas mãos nas minhas. — O nosso começo foi bem complicado. Eu não o suportava porque vivi à sombra de mentiras que minha mãe inventou a respeito dele. Discutimos várias vezes até que ele me contou a real verdade, e mudou meu ponto de vista. Foi a partir desse dia que a nossa convivência se tornou boa. Tudo bem que isso não tem nada a ver com o que aconteceu com você, só quero te mostrar esse ponto. Quando você pensar que está sozinha, você não está... Apenas ainda não encontrou a companhia certa.
Emily solta uma das mãos para limpar o nariz que está escorrendo um pouco. Eu limpo suas lágrimas, quando ela pergunta com uma expressão confusa:
— Você acha que seu pai é seu companheiro?
Meu rosto fica lívido rapidamente enquanto minha amiga me espreita. Eu não esperava que ela entendesse dessa forma, e eu nem sei se ela realmente interpretou desse jeito. Só sei que apenas esse seu questionar sobre eu e me deixou inquieta e nervosa. Ninguém poderia saber sobre o nosso envolvimento. Absolutamente ninguém. Quando mencionei o exemplo da minha vida, não era pelo caminho “homem-mulher” que eu queria levar, e sim sobre a nossa relação familiar.
— Mas é claro que não, Emily. Que pergunta bizarra é essa? — Eu rebato com um tom quase histérico que sai agudo.
— Oh, me desculpe. — Ela abaixa a cabeça, fungando. — Minha cabeça não está muito boa. Eu não consigo pensar direito, os pensamentos estão em conflito aqui dentro. Realmente... — Ela ri de nervoso e vergonha. — Como se houvesse uma possibilidade hoje em dia de uma filha se relacionar sexualmente com seu pai. Puff... — Ela zomba. — Quem seria tão doente de fazer isso, né? — Ela me olha e eu tento concordar, engolindo em seco.
— De qualquer forma, o que eu estava tentando dizer é... Você nunca está sozinha. Independente da situação... Seja um término, a morte de uma pessoa, a partida de alguém que viajou ou sumiu... Alguém sempre vai estar lá pra você. Eu estou aqui agora. Lindsey e John estarão também. Não vamos te deixar, eu não vou... Nunca. Você é minha melhor amiga, a primeira pessoa que eu conheci e não há uma maneira que eu vá abandoná-la. — Olho profundamente em seus olhos, passando-lhe confiança. — Posso não ser um menino que vai namorá-la e construir uma vida com você, mas acredito que a nossa relação fraternal é forte o suficiente para durar pela eternidade. Aquele filho da puta pode não ter te dado o devido valor, porém alguém vai. E outra... Eu te amo... Amo, amo, amo. — Abraço-a, fazendo com que ela sinta a intensidade das minhas palavras. — Não se esqueça do que eu digo.
Emily cai no choro enquanto está em meus braços, e percebo que ela está tentando deixar ir toda a dor que sente. Conforto-a o quanto posso, e sou paciente, embora ainda me sinta meio perturbada pelo seu questionamento minutos atrás. Espero que esse tipo de assunto nunca mais se desenvolva em torno de mim, e se isso acontecer, que eu saiba agir naturalmente. Eu sei que sou uma boa atriz, mas ser pega desprevenida pode me deixar em apuros. Não posso correr nenhum risco porque não é só minha vida que está em jogo... A do homem por quem sou louca também.

...

Quando chegamos à escola, John e Lindsey já estão nos esperando, ambos no estacionamento. Já sabiam o que havia acontecido a Emily porque eu enviei uma mensagem contando o ocorrido. Assim que a loira desceu do carro, os dois a pegaram num abraço de urso, o que a levou às lágrimas novamente.
Enquanto o sinal não toca, nós tentamos animar Emy e ela até que sorri um pouco. Nesse meio tempo, uma música que eu reconheço como rock começa baixo, mas aos poucos vai aumentando. Axl Rose canta a plenos pulmões Welcome To The Jungle em uma versão metal mais agressiva. O volume fica ensurdecedor quando uma Range Rover preta para em frente a escola, o que naturalmente atrai a atenção de todos. A porta do lado do passageiro abre e Diego sai como se ele fosse o próprio astro do rock – ajeitando sua jaqueta sobre o corpo.
Eu reviro os olhos. Oh, garoto que gosta de aparecer.
— Por que ele não vem logo nu para a escola? — Emy comenta, amarga.
— Porque ele não quer atrair esse tipo de atenção. — Lindsey explica. Eu reviro os olhos novamente.
— Espero que ele fique fora do meu caminho. Depois do que aconteceu, eu não quero ter qualquer tipo de contato com ele. — Jogo o meu cabelo para trás. — Minha mãe me ensinou a sempre manter distância de pessoas violentas. Esse tipo de gente quando tem um acesso de raiva, fica cego e desconta em qualquer um que esteja em sua frente. E eu não quero que aconteça comigo a mesma coisa que aconteceu com aquele garoto.
John concorda, contudo Lindsey bufa.
— Mana, ele nunca iria agredir você.
— Eu não penso desse jeito. — Eu revido.
— Ele é doido por você, . Jamais faria algo para te machucar. — Ela parece exasperada ao explicar-me, só que eu a ignoro.
— Lindsey, eu não quero o Diego perto de mim. Ele me dá medo. Sem contar que ele sempre foi um babaca comigo desde que eu cheguei aqui. Eu nunca namoraria um idiota como ele.
— Olha que quem desdenha quer comprar. — Ela arrulha. Jogo meus olhos críticos e enraivados em sua direção a fazendo dar de ombros. John ri, Emy tenta esconder seu humor, mas não consegue.
— Minha vida amorosa anda muito bem, obrigada. E... — Eu levanto um dedo. — Mesmo que eu fosse cogitar essa absurda ideia de namorar aquele imbecil, eu precisaria estar em constante contato com um terapeuta, porquê de duas, uma... Ou eu iria ficar louca com as mudanças de comportamento e personalidade dele, ou eu seria aquela namorada insana que faria as mesmas besteiras que ele, e um dia ainda íamos acabar nos matando. Portanto, deixo bem claro que namorá-lo está fora de cogitação por questões óbvias e para o bem da humanidade.
Eu estou falando bem sério, porém tudo que consigo de resposta são gargalhadas histéricas. Rolo os olhos, curvando a boca em desgosto.
— Fico feliz de saber que meus pontos verdadeiros te fazem ri. — Comento ácida para Emy que apenas me abraça e prossegue rindo. Pelo menos ela parece melhor agora. Eu tento os ignorar e olho para longe, deixando que minha atenção recaia sobre o carro barulhento que finalmente está indo embora. Olho para Diego – que hoje está a pé – enquanto ele caminha para um grupinho de rapazes. Seu rosto se levanta e ele olha diretamente para mim, sua face revestindo uma máscara neutra. Eu não sei porquê ele faz isso de ficar me encarando, mas foi como eu disse... Eu não quero ter nada meu envolvido com ele, então eu apenas a abaixo a cabeça para bloquear sua visão.
O sino toca e aos poucos os alunos começam a entrar na escola. Nós seguimos o fluxo de pessoas até que cada um entra em suas devidas salas. Emy está comigo hoje. Assim que cruzo a sala alguns alunos me olham e cochicham. Parece que o assunto sobre o espaçamento do garoto ainda está rendendo, e eu odeio está envolvida nisso. Sento-me na última cadeira da fila do meio porque consigo ver todos de onde eu estou, e desse modo não haverá comentários vindo de trás de mim. Estou organizando meus materiais quando sinto uma sombra pairando ao meu lado direito; e só pelo sapato já sei que é Diego sentando-se na ultima cadeira da quinta fileira. Não o olho. Como já expliquei, não quero ter qualquer contato com ele.
O professor chega e inicia sua aula e eu me concentro. Quero manter minhas notas altas para não decepcionar . E por pensar nele, as sensações de tê-lo a me tocar voltam para mim com força. Relembro seus toques, o seu beijo, o seu cheiro e imediatamente uma sensação boa se apossa do meu corpo fazendo meu coração aquecer. Eu suspiro e percebo que estou mordendo a tampa da caneta, ostentando uma cara sonhadora. Sinto o sorriso pequeno nos meus lábios, porém rapidamente o fecho e me ajeito na cadeira. Estou apaixonada, isso é fato, mas ninguém precisa saber. Se eles perceberem, eles com certeza irão me questionar sobre, e será muito difícil explicar. Inventar mentiras está fora de cogitação. Dizer a verdade nunca será uma opção. Então o certo a se fazer é esconder. E isso é uma pena porquê eu amaria compartilhar com eles sobre esse sentimento tão bonito que nasceu entre eu e .
Os minutos se passam e a aula finalmente acaba. Arrumo minhas coisas e ajeito a mochila nas costas procurando Emy, só que ela já saiu. Duas garotas passam na minha frente e quando eu vou sair pela porta uma mão cai no meu braço esquerdo e me puxa novamente para dentro. Assim que meus olhos focam o rosto de Diego, meu coração salta no peito com o pânico de que ele possa fazer algo de mal para mim. Ele parece está confortável com a situação, como se não se importasse com o que tinha acontecido – e talvez ele nem se importasse mesmo –, mas eu me importava. Isso poderia ser uma coisa corriqueira para ele, só que para mim não era. Eu não gostava de violência, por isso sempre faria de tudo para me manter afastada dessas coisas. Eu sou como uma parede intacta e Diego é como uma bola de demolição... Então significa que onde ele me acertar, ele vai me quebrar. Isso é terrível.
— Você. — Ele aponta o dedo indicador para mim. — Eu. — Repete o movimento para si mesmo. — Atrás da escola, onde acontecem as lutas... Na hora do intervalo. Não falte! — E ele se vai sem dizer mais nada.
Percebo que estive prendendo o ar, e o solto quando vejo que estou sozinha. O que ele disse... Devo interpretar o “não falte” como uma ameaça? Estou morrendo de medo e sinto que posso fazer xixi nas calças. Respiro fundo, tentando acalmar o batuque do meu coração. Saio da sala direto para o banheiro. Sento no vaso, me alivio enquanto penso no que devo fazer. Eu não quero ir encontrá-lo, e se eu não for, será que ele fará alguma coisa contra mim? Eu preciso conversar com as meninas, elas irão me aconselhar da melhor maneira.

...

— Eu acho que você deve ir. — Lindsey comenta.
— Eu acho que ela não deve ir. — John opina.
— E eu concordo com o John. — Emy me olha.
No breve momento que tivemos após as aulas terem acabado para dar inicio ao intervalo, contei o ocorrido aos meus amigos. Mencionei o medo e a hesitação de encontrá-lo. Agora eles estavam me dando suas opiniões. Para todo o caso eram 3/Nãos e 1/Sim para ir até os fundos da escola.
— Gente, pelo amor de Deus. Quantas vezes eu vou ter que dizer que o Diego nunca seria capaz de agredir a ? — Lindsey coloca a mão na cintura, demonstrando irritação e raiva.
— Mana, a única coisa que eu não consigo entender é essa fé cega que você tem no Diego. — Emy esquece a traição e a fragilidade, colocando-se em minha frente de maneira protetora. — O fato de você conhecê-lo aqui na escola, não significa que conhece a personalidade dele. Lindsey, acorda... — Estala os dedos na frente do rosto da morena. — Se ele faz essas coisas aqui que é terreno fechado, imagina as atrocidades que ele faz lá fora onde é livre. Eu gosto da sua amizade, você é uma ótima pessoa. Mas está colocando a em perigo com esse seu amor platônico por aquele espanhol. E isso eu não vou permitir. Ela está com medo e ela não quer ir e eu estou decidindo, a não vai encontrar o Diego. Ponto final. Se você quiser ir e dar a resposta para ele, vá. Porém a não sai daqui. Pode ficar com raiva de mim e se afastar, eu te entendo. Só que eu não vou permitir que as ilusões que você cria na sua cabeça sobre um romance que NÃO EXISTE entre a e o Diego estraguem ela, porque você está colocando-a em risco. Só você não percebe isso.
Emily explica compassadamente, tão calma quanto pode, só que Lindsey leva para o lado pessoal e explode.
— SÓ PORQUE O AMOR NÃO FOI BOM PARA VOCÊ AGORA, VOCÊ NÃO PODE INTERFERIR NA HISTÓRIA DOS OUTROS. ELE GOSTA DELA E É TÃO EVIDENTE QUE SÓ IDIOTAS COMO VOCÊS DUAS NÃO PERCEBEM. MAS EU CANSEI DE EXPLICAR... NA VERDADE CANSEI DE VOCÊS... PROBLEMÁTICAS AO EXTREMO. O AMOR FUGIU DE VOCÊ... — Aponta para Emy. — E ELE TE ENCONTROU, MANA. — Ela me olha. — POR QUE ESTÁ SENDO TÃO ESTÚPIDA FUGINDO DELE?
— Lindsey... — Eu começo, mas sou cortada.
— Quer saber? — Seu tom volta ao normal. — Eu tentei ser sua amiga. Achei que você não se deixava ser influenciada, que escolhia seus próprios caminhos... Achei que... — Ela me olha de cima a baixo. — Não vale a pena gastar saliva. É desperdício. Mas um conselho eu te dou... Vai escutando bem a Emy, vai deixando ela interferir nas suas escolhas... Quando perceber, vai acabar solteira e traída! — A intenção de Lindsey era clara em ferir Emily e ela conseguiu porque a loira cambaleou para trás de boca aberta.
— Lindsey, o que é isso? — Eu sustendo Emily enquanto desaprovo o comportamento da morena. John ficou calado durante a discussão e foi a melhor coisa que ele fez.
— Eu não me importo mesmo. — E virando-se ela vai embora deixando-nos para trás boquiabertos com seu comportamento explosivo.
— Olha, Emy... — Eu a viro pelos ombros para mim e dou de cara com sua face abatida e olhar perdido. — Não deixa que as palavras dela te atinjam, tá? Ela só está chateada e não pensou na hora de falar aquilo tudo. — Abraço-a. John faz o mesmo.
— Ás vezes quando estamos chateados, acabamos falando coisas que não queremos e machucamos quem mais gostamos. Releve, ok? — John aconselha.

...

Está escurecendo quando finalmente as aulas terminam e nós saímos da escola direto para o estacionamento. John se despede assim que entra no seu carro. Emy dá uma olhada em torno do ambiente procurando por qualquer indicio de Diego, uma vez que eu optei por não ir encontrá-lo. Estávamos receados sobre ele fazer algo comigo, mas aparentemente hoje ele não vai fazer.
— Olha, . Que lindas! — Emy suspira atraindo minha atenção. Ela pega algo de cima do capô do meu carro, revelando ser um pequenino vaso de flores. — Olha, tem um bilhete e seu nome escrito. Veja o que é. — Eu ando até ela e pego o envelope amarelo.
— Ontem deixaram uma flor aqui também, dizendo que a Dália representava o reconhecimento. Seja quem for que deixou aquilo, disse que reconheceu seu erro e pediu desculpas. — Explico a Emy. — Vamos ver o que diz nesse aqui. — Abro o bilhete. — O cliclame é uma flor que as pessoas usam para pedir perdão. Me desculpe. — Leio.
— Quem será que deixou isso aí? — Emy me olha questionadora.
— O John fez a mesma pergunta ontem, e eu penso que seja alguns daqueles garotos nojentos.
— Ou... — Ela começa enquanto eu pego o vasinho de suas mãos, levando as flores vermelhas até o nariz e surpreendendo-me com seu perfume. São tão cheirosas quanto a outra de ontem.
— Hummm. Tão perfumadas. — Comento.
— Sim.
— O que você ia dizer? — Eu olho para Emy.
— Bom, . Você desconfia dos garotos, e eu desconfio do Diego. Talvez seja ele.
Eu penso a respeito, mas a ideia não encaixa na minha cabeça.
— Acho que não, mana. O Diego não tem cara de quem dá flores para alguém. Ele é grosso! E outra... — Eu entro no carro, Emily faz o mesmo. — Quando saímos ele estava conversando com uns caras na sala. Não daria tempo de ele sair de lá e correr até aqui para deixar isso. É bem improvável que ele seja a pessoa.
— É... Talvez esteja certa.
Dou partida e saímos do estacionamento. Coloco Melanie Martinez para tocar e seguimos em silêncio até a casa de Emily. Despeço-me dela dizendo coisas doces que não a deixem para baixo, assim como peço para ela não considerar as ofensas de Lindsey. Ambas são duas pessoas maravilhosas, apenas passaram por momentos ruins. Hoje os pais da loira estão em casa, então eu me sinto melhor de saber que ela não vai estar sozinha.
Quinze minutos mais tarde eu chego em casa can-sa-da. Só quero tomar um banho e cair de cara na cama. Pego minha mochila e o vasinho com a ciclame, travo o carro e caminho para a porta. Ao abri-la não vejo ninguém na sala, mas o barulho que eu faço atrai da cozinha. Meu coração dispara imediatamente.
— Hey, Linda. — Ele sorri caminhando em minha direção. Cheira a sabonete e seu cabelo está molhado. Eu o abraço como posso, já que minhas mãos estão ocupadas. — Eu senti sua falta. — Murmura no meu pescoço fazendo-me arrepiar e ri com as cócegas.
— Eu senti... — Sua boca cai na minha, cortando-me. — Mais.
Mas eu não o deixo ir. Pelo contrário, abraço-o mais e forço sua boca na minha, para aprofundarmos mais o beijo. Sua língua desliza pela minha enviando mini-choques para todas as áreas, inclusive a parte no meio das minhas pernas. Eu adoro sua barba roçando em mim e suas mãos no meu quadril tão próximas da minha bunda. É nessa hora que eu quero matá-lo por ser tão respeitador e não descer mais sua palma para baixo. Será que eu terei que fazer isso para ele? Eu espero que não. Amo homens com atitude e desejo que ele tome a sua logo. O sexo ainda está fora dos planos para nós, porém isso não significa que ele não pode me seduzir.
— Uau. Você esteve com saudade mesmo. — Ele murmura arfante ao quebrar do beijo. Eu sorrio grande. — Pensei em você o dia todo, amor. Não via a hora de tê-la em meus braços. — Bica meus lábios. — O que é isso? — Ele aponta para a mão que eu carrego o vasinho.
— São flores. Deixaram esse vasinho em cima do capô com meu nome. — Eu conto.
Como da água para o vinho a expressão de se transformar de um sorriso amplo para uma carranca de maxilar travado.
— Quem está te dando flores? — Questiona num tom duro.
Toc – toc... É o ciúme.
— Eu não sei. Foi como eu disse, deixaram isso lá e eu não faço a mínima ideia de quem seja. — Eu explico, mas não se dá por convencido. — , sério. Eu não sei de onde veio isso. Mas também achei injusto jogar fora algo tão bonito e cheiroso, por isso as trouxe. Não se chateie, por favor. — Fico na ponta dos pés para beijá-lo. Ainda está tenso, no entanto assim que o abraço e beijo sua garganta e pescoço, ele amolece e me agarra pela cintura.
— Não dê confiança para nenhum garoto na escola, . Ou eu posso fazer algo que irei me arrepender. — Adverte. Eu concordo e o beijo rapidamente. Me afasto para ir para meu quarto. — Você vai tomar um banho ou vai assim mesmo? — Eu paro no meio da escada.
— Desculpe? — Eu indago. Do que ele está falando?
— O jogo, Linda.Você esqueceu?
Oh, merda. O jogo. Sim, eu me esqueci. Assumo que agora só queria ficar limpa e dormir, mas também quero tanto sair com ele. Desse jeito poderemos construir melhor a intimidade entre nós.
— Droga. Eu tinha esquecido. — Sorrio amarelo. — Mas vou tomar um banho e ficar pronta rapidinho. Me espera. — Eu saio correndo para o meu quarto, jogando a mochila em cima da cama e deixo o vasinho em cima do criado mudo. Tiro minhas roupas rapidamente ficando nua, e me enrolo na toalha. Disparo para o banheiro. Lavo-me bem, mas tento ser rápida. Termino e subo. Cinco minutos depois eu desço, pronta.
levanta-se do sofá.Seu olhar azulado cai sobre mim numa inspeção rígida. Ele engole, os braços se cruzam em seu peito enquanto ele espera eu me aproximar.
— Eu sempre fui um homem de pernas, e eu estou tão feliz que as suas continuam por dias. — Ele comenta com um tom rouco que faz meu estômago apertar, e sua voz somado a intensidade de seu olhar estão começando a me deixar úmida e incomodada com a dor que precisa ser aliviada. — Querida, mesmo com sua escolha casual de vestimenta que não insinua nada sensual, você está me deixando louco agora. Só Deus sabe as coisas que estão se passando em minha cabeça e você realmente se assustaria se eu te contasse. — É minha vez de engolir em seco. Meu rosto está quente e aposto todo meu dinheiro que minhas bochechas estão em um tom rosa gritante. Minha área íntima aperta e eu sou obrigada a cruzar as pernas para tentar abrandar a sensação de espasmos. Ele prossegue. — Mas da mesma forma que adoro como você está vestida, eu também odeio. Então suba e coloque uma calça, por favor.
Eu estou excitada, porém seu pedido me traz para a realidade e eu recupero o controle dos meus pensamentos – que antes estavam dispersos envolvidos em um clima sexual. Uma das coisas que eu odiava desde criança era quando minha mãe tentava obrigar-me a usar roupas que eu não queria. Eu tinha uma personalidade forte formada desde cedo e devido a ela consegui minha “emancipação de moda”. Isso significava que eu usava o que eu quisesse e minha mãe não iria interferir em nada. Se ela conseguiu lidar com as minhas escolhas, vai conseguir também. Deixarei bem claro para ele que não tem direito de opinar sobre minhas roupas. Uma coisa é ele ser meu amante, outra... um ditador ciumento possessivo.
... — Eu dou três passos mais perto de si e nossos corpos quase se tocam. Minhas mãos começam em seus braços, subindo pelos bíceps, ombros e finalmente o pescoço. — Entendo seu ciúme, mas quero que você entenda também que não pode mandar na forma que eu me visto. Eu sou crescida e desde pequena EU sempre decidia o que queria vestir. Mamãe aprendeu a respeitar as minhas escolhas e eu quero que você faça o mesmo...
... — Sou cortada. — Eu sou um homem. Estou te levando para um lugar que estará lotado de machos cheios de testosterona. Com esse corpo e essas pernas à mostra você será prato cheio para eles.
— Meu bem, grande parte deles são seus amigos. Não vão me olhar como mulher, e sim como a sua filhinha. Você vê coisa onde não tem. — Explico.
ri sem humor e se afasta de mim.
— Você realmente não entende nada do universo masculino, amor. Deixa eu te explicar... Sabe qual a maioria dos fetiches sexuais masculinos? — Ele me olha inquisitivo, seus olhos brilhando com perigo. Eu nego, mas imagino que para cada classe trabalhista masculina há um gênero, como por exemplo: Os homens executivos tinham fetiches por suas secretárias, professores por suas alunas, alunos mais novos por suas professoras mais velhas, e etc. Funcionava assim, não era? — Um dos maiores desejos sexuais de homens mais velhos é possuir uma garota nova. Você já ouviu os termos Sugar Daddy e Sweet Babie?
Mordo os lábios, envergonhada. Quero dizer para ele que sei o que é e que no ano passado quando ainda tinha 16 anos pensei em me inscrever num site para ser paparicada por um homem mais velho, claro, eu só faria isso quando fosse maior de idade, contudo a ideia já rondava a minha cabeça. Eu gostava dos caras da minha idade, entretanto a imagem de estar em um relacionamento com um homem mais velho cheio de experiência enchia meus olhos e me deixava molhada todas as noites. Constranjo-me pela quantidade de vezes que acessei sites de pornografia em busca desse tema. Me parece que a minha puberdade não foi tão distinta das dos meninos, a única diferença é que eu não gastava tanto tempo no banheiro, mas assumo que tive meu momento de compulsão na estimulação.
— É a nossa definição, não é? Homem mais velho com garota mais nova. — Eu finalmente respondo.
— É exatamente isso, . Caras mais velhos sempre mantém um olho nas garotas mais novas. Eles sabem que você é minha filha, mas eles não se importam. Eles sempre vão olhar para os seus seios, bunda, pernas, e a mente deles vai viajar trabalhando em vários contextos eróticos. Eu sei disso porquê eu mesmo vivo te olhando assim, embora estejamos envolvidos agora e eu posso realizar qualquer desejo com você. Só que sabendo disso, eu não me sinto bem vendo sua... — Me olha parecendo tentar encontrar a palavra certa para não me ofender. — exposição. Eu não quero ninguém te desejando, isso mexe com o meu lado primitivo. — Estende um braço para mim e me puxa quando seguro sua mão. Abraço-o pelos ombros enquanto ele me senta sobre o encosto do sofá. — Se eu pudesse a manteria presa nua em uma redoma de vidro e eu seria o único a observá-la. — Seus olhos ganham intensidade a cada palavra dita e meu coração vira manteiga nesse momento. — Mas eu sei que eu não posso. — Carícias são feitas nas minhas bochechas. — Só que é tão difícil controlar o ciúme. Antes era mais porque eu não podia falar sobre ele ou demonstrá-lo a você. Agora que estamos juntos aliviou um pouco mais, no entanto... — Respira fundo. — É uma faca de dois gumes. Você é minha e eu fico aliviado de saber que seu amor não pertencerá a ninguém. Confio em você de todo meu coração. Mas sempre há um lado ruim, não é? Neste caso, como não posso apresentá-la como minha garota por ser seu pai, isso faz parecer que você está disponível para qualquer garoto imbecil vir reivindicá-la e levá-la com ele.
... — Murmuro. Entendo seus pontos e sei que ele está atormentado por essa relação ser proibida e por ter que mantê-la no escuro, e isso era uma via de mão dupla porquê do mesmo jeito que ele sente ciúme de mim, eu também sinto dele. Haverá momentos em que eu terei que morder a língua para não insultar as cadelas que tentarem roubá-lo de mim. Mas o meu ciúme nunca estaria coligado com o modo como ele se veste. Isso ele tinha que entender. — Meu amor, mesmo depois de todas essas coisas que você me disse – e que eu entendo – você acha mesmo que se eu subir e vestir uma calça, os caras vão me olhar diferente? — Ele pensa, todavia eu mesmo respondo. — Eu acho que não. Meu corpo, vestido ou não continuará do mesmo jeito, apenas a pele estará escondida. Uma mulher não pode deixar de usar tal roupa porquê os homens vão maliciar. Ela não tem culpa da perversão que existe na mente de um homem. Eu sou livre pra vestir o que eu quiser. Você pode não gostar por causa da malícia que você pensa que eu receberei, e você pode dar sua opinião livremente sobre o que acha. O que você não pode é decidir por mim e me obrigar a fazer algo que eu não quero. Mesmo que não perceba, está sendo machista comigo. E eu não quero que seja assim. Eu jamais pediria para você trocar sua roupa só porque eu não gostei ou não me sinto confortável. Então eu vou vestida dessa forma. Você vai parar com a mania de mandar eu me trocar e ao invés de se preocupar com o que os outros vão pensar, você vai apenas se concentrar em nós, tá bom? — Beijo-o castamente e me afasto para olhar em seus olhos. Praticamente posso vê-lo processando todas as coisas que eu disse e tentando concordar com elas. Eu sei que a forma machista de um homem pensar não muda de um dia para o outro, mas acontece com o tempo se ele estiver disposto a mudar. E eu farei de tudo para que reveja seus conceitos e comece a pensar de uma nova forma, e que também consiga lidar com o ciúme.
— Hoje eu mato alguém. — Ele comenta mórbido, mas sua expressão me faz rir imediatamente. Ele não gosta e se afasta, mas não está com raiva, só chateado.
Percebo que ele pegou as chaves da caminhonete e eu não quero ir naquela banheira velha.
— Hey, Homem das Cavernas Ciumento. — Eu chamo quando ele vai passar pela porta. para com expressão mal-humorada e me olha. — Aqui. — Arremesso as chaves da Lamborghini, e com um ótimo reflexo ele as pega no ar. — Nada mais sexy do que vê-lo dirigindo. — Pisco. A carranca se vai por um momento quando um sorriso de canto toma seus lábios. — Gostoso. — Eu sussurro sem a intenção de que ele escute, porém quando a sua expressão muda para uma pasma, eu sei que ele ouviu. Rindo, eu pego minha bolsinha de lado e passo por ele pela porta. — Ahhhh! — Eu grito quando uma palmada aquece meu bumbum. — Seu idiota. — Empurro seu ombro.
— Garota atrevida. Anda merecendo uma surra. — Ele comenta trancando a casa. Eu dou um risinho de falsa inocência.
— Minha bunda agradeceria. — Eu sorrio provocante.
! — Ele briga e eu corro para o lado do passageiro do meu carro. Espero que ele o destrave e entre, e confesso que amo esse clima que nos ronda.
Nós damos partida e seguimos para o estádio. O celular de toca e quando ele vê que é Joe, me entrega o aparelho e pede para eu atender.
— Oi, Joe. — Eu falo.
Oi, querida. Onde está? Estamos esperando ele. — Anuncia.
— Estamos indo. Chegamos em 15 minutos, moreno. — Ele ri com o apelido que recebe.
— Que história é essa de moreno? — arrulha do meu lado. Eu reviro os olhos e ignoro.
Tudo bem. Até breve, . — Se despede.
— Tchauzinho. — Eu desligo. Quando percebo que meu lindo Sugar Daddy vai abrir a boca para falar merda e expressar seu ciúme novamente, eu lhe mostro minha mão aberta e digo: — Nem comece. — Me volto para o painel do carro e ligo o rádio. Está tocando alguma música dos anos 80, acho que é KISS. Assim que acaba, começa Lana Del Rey e a música é Cola. Tenho certeza que nunca a ouviu e eu só quero ver a cara dele quando eu começar a cantar alto.

My pussy taste like Pepsi Cola
Minha vagina tem gosto de Pepsi cola
My eyes are wide like cherry pies
Meus olhos são grandes como tortas de cerejas
I gots a taste for men who are older
Eu tenho preferências por homens mais velhos
It’s aways been, so it’s no surprise
Sempre foi assim, então não é nenhuma surpresa


Quando eu canto a primeira frase, se vira para mim com olhos arregalados. Eu finjo que não percebo e continuo cantando enquanto ele alterna a atenção da estrada para mim. Prossigo contagiada pelo gênero tão excitante da Lana. As músicas dela sem sombra de dúvidas foram feitas para serem ouvidas enquanto fazemos amor. Prepara-se, . Ouviremos tanto Lana Del Rey quando estivermos em momentos sensuais que sua cabeça vai rodar. — Eu penso e esboço um sorriso safado, ainda cantando. Meu celular vibra com as notificações chegando. Alguns garotos novos estão me seguindo no Instagram e mandaram Direct pedindo meu número de telefone. No WhatsApp há uma mensagem de Martin dizendo que está com saudades. Alguns amigos da escola antiga estão perguntando onde eu estou. Ignoro-os e respondo apenas a de Martin. Entro no Snapchat e gravo um vídeo cantando bem alto o final da música:

My pussy taste like Pepsi Cola
Minha vagina tem gosto de Pepsi cola
Ooh-ooh-ooh-ooh-woah
Ooh-ooh-ooh-ooh-woah
My pussy taste like Pepsi Cola
Minha vagina tem gosto de Pepsi cola
Ooh-ooh-ooh-ooh-woah
Ooh-ooh-ooh-ooh-woah
Ooh-ooh-ooh-ooh-woah
Ooh-ooh-ooh-ooh-woah
My pussy taste like Pepsi Cola
Minha vagina tem gosto de Pepsi cola
Ooh-ooh-ooh-ooh-woah
Ooh-ooh-ooh-ooh-woah


Eu posto o vídeo e guardo o celular.
— Que tipo de música é essa? — Ele questiona, espantado.
— É Lana Del Rey, amor. — Eu respondo pondo minha mão para o lado de fora, sentindo o vento nos cabelos e na mão, e essa sensação é de pura liberdade.
— Sua buceta tem gosto de Pepsi cola? — Não esperava por essa pergunta, por isso acabo me engasgando com minha própria saliva e rio por causa disso. rir da minha cara enquanto espera a resposta. Eu não sei se ele está brincando comigo porque não consigo entender sua expressão risonha, mas se ele quer uma resposta séria, é o que ele vai ter.
— Eu não sei, bebê. Não consigo definir meu próprio gosto. — Olho para ele maliciosa, mordendo o lábio inferior. Nossa... A sua fisionomia muda completamente. As pupilas dilatam grandes e o preto quase toma todo o azul. O maxilar tenciona enquanto o nariz infla quando ele puxa o ar. Só pelo o que eu respondi, ele pode interpretar que já me provei, e isso o levará a imaginar quando me toco e quantas vezes já fiz sexo. Ele sabe que eu não sou virgem, embora nunca tivesse me questionado. Mas talvez ele pense que eu tive apenas um parceiro, quando na verdade já tive uns dez. Prazer, A biscate!
... — Ele começa com a voz rouca. — Você não pode dizer essas coisas para mim enquanto eu estou dirigindo.
Levo minha mão esquerda para sua nuca, acariciando.
— Você fez uma pergunta e eu respondi. — Dou de ombros. O clima é sério e a tensão sexual é palpável. Se não fosse a minha janela aberta, eu estaria tendo problemas para respirar.
— Eu estava brincando. — Ele comenta olhando para a pista.
— Eu não. — Arranho seu pescoço e vejo quando as veias nele saltam, assim como as veias de seu braço, já que ele parece agarrar o volante com força.
Eu sei que eu tinha dito ontem que eu ainda não estava pronta para o sexo com ele, entretanto, se continuarmos por esse caminho, em pouco tempo eu estarei nua e de quatro em sua frente. E só por imaginar isso já sinto que estraguei minha calcinha.
— Não brinque comigo. Você me pediu paciência, e eu estou tentando não ir contra isso. Mas se continuar me provocando, vai encontrar o que procura. — Ele alerta sério. E seu tom de voz quase ameaçador faz minha mente trabalhar em cenas sexuais de todos os tipos.
— Ótimo, então. — Eu respondo, atrevida. Quer saber? Nem eu sei se quero esperar por mais tempo. Vou deixar rolar. Na hora certa vai acontecer.

Capitulo 20 - Provocações

O caminho até o mini-estádio segue silencioso sem conversas entre mim e . O único barulho que escutamos é o do rádio. Minha afirmação sobre o que ele me alertou acabou por deixá-lo meio perturbado. Parece que ele se fechou em sua cabeça e não queria dividir seus pensamentos comigo. Aposto que seu autocontrole estava sendo posto em teste, e que provavelmente não iria durar muito, não enquanto eu estivesse atiçando-o. Eu era uma menina má por estar fazendo um joguinho com ele? No fundo eu queria ser seduzida, queria que ele fosse aquele tipo de homem que arquiteta planos sacanas, queria que ele não me levasse tão ao pé da letra e ousasse um pouco mais em seus gestos e até mesmo nas palavras como eu fiz com ele. Hoje eu tive um vislumbre de que ele pode ser alguém safado, o problema é que ele estava apenas brincando comigo e eu queria que ele levasse isso a sério, me tentasse, tivesse uma boca suja e me provocasse.
Enquanto não chegamos, por todo caminho eu imagino como será a nossa primeira vez. Eu sei que ele pensa sobre isso também e eu queria que ele me contasse como ele queria que fosse. Será que ele vai ser doce e lento, ou grosseiro e rápido estocando em mim? Será que vai ser delicado ao beijar-me, ou puxará meus cabelos e morderá meu corpo? Esses tipos de pensamentos me deixam instantaneamente molhada e tudo que eu quero fazer é mover minha mão - ou a de - para dentro do meu short e dar atenção ao pequeno botão que praticamente clama para ser tocado. Eu fecho as pernas, porém o movimento só aumenta ainda mais o calor. Fecho os olhos e um suspiro/gemido escapa dos meus lábios. O que ele faria se eu apenas me masturbasse ao seu lado?
? — Sua voz gutural é como um estímulo para que o pulsar entre minhas coxas aumente. Como minha cabeça estava jogada sobre o suporte do banco, eu apenas a giro em sua direção e lentamente abro os olhos, fitando-o com desejo. Os olhos de estão mais cinzentos do que azul e parecem nublados quando ele olha para mim antes de fitar a estrada. Falta pouco para chegarmos, cinco minutos no máximo. Mas se continuarmos aqui, eu não sei por quanto tempo eu irei suportar meu sangue se transformando em lava, me aquecendo quase ao ponto de dor. — O que você está sentindo? Por que essa cara?
Ele deve estar sentindo basicamente a mesma coisa que eu, isso se não estivermos compartilhando inconscientemente os mesmos pensamentos. Eu arrisco um olhar para seu colo e me glorifico ao perceber a inclinação alta. Ele está duro, certeza. Está me desejando tanto quanto eu estou desejando ele agora.
Percebendo que meus olhos estão sobre sua ereção, ele desliga o rádio e só agora eu escuto sua ruidosa respiração. E a minha também. Estamos ofegantes e ainda nem nos tocamos. Precisamos de oxigênio, pois o ar pesado dentro do carro praticamente nos sufoca. Mordo o lábio inferior porque tudo que aparece na minha cabeça é uma imagem de eu curvada com seu pau em minha boca.
— Me perdoe, eu não sei como isso aconteceu. — Ele atrai minha atenção. Mas eu não quero que ele se desculpe. Quero que ele prossiga com isso e sofra como eu estou sofrendo nesse momento.
... — Surpreendo-me com meu tom de voz que sai tão sedutor como o de uma atriz pornô em ação. Vejo seu pomo de Adão subir e descer quando ele engole com dificuldade, e ele não sabe se olha para frente ou para mim. — Eu estou... — Engulo o acúmulo de saliva que se formou em minha boca por imaginá-lo em minha língua. — Estou molhada, posso sentir minha calcinha úmida. Só queria me aliviar. Sei que isso é ir muito rápido, mas... Talvez não leve muito tempo para nós... — Paro deixando a frase para o seu entendimento. É tão bonito vê-lo fechar os olhos e franzir a testa como se tivesse com raiva, contudo sei que está tentando não deixar que minhas palavras o afetem mais do que já fazem. Ele não quer ficar mais excitado do que está, só que seu tiro de tentativa de controle sai pela culatra, já que o volume em sua calça está muito maior do que da última vez que eu verifiquei. Suas mãos seguram o volante com força, e as veias ressaltam e me deixam louca de vontade de lambê-las. Meu Deus... Esse homem vai ser a minha destruição. Se eu já acho as veias atraentes em seu braço, imagine as veias que eu encontrar em seu pau... Serão suculentas.
Chegamos ao estacionamento e assim que para na vaga mais próxima ao portão, ele sai do carro e encosta-se à porta. Deve estar tentando clarear as ideias e fazer sua dureza desaparecer. Aproveito que estou sozinha e respiro rápido para tentar aliviar o tesão que corre por cada célula do meu corpo. Será que eu passei do ponto com ele? Será que o chateei? Será que eu deveria conter meus desejos ao invés de expô-los? gosta de mim mais inocente ou atrevida?
A porta abre e apenas coloca a cabeça para dentro. Ele se inclina sobre mim e me beija de boca fechada. O beijo não dura dois segundos, é bem rápido.
— Quando chegarmos em casa resolvemos isso, ok? — É uma promessa, posso sentir. Balanço a cabeça em positivo. — Vamos lá. Estão esperando a gente. — Eu respiro uma ultima vez antes de sair do carro, já me preparando para interpretar o papel de filhinha do papai perto de seus amigos. Saio ajeitando a bolsinha colocando ela atravessada sobre meu torso. Jogo os cabelos para trás e caminho para o lado de . Ele me olha de cima a baixo, suspira e exala. — Hoje é uma noite difícil.
Nós entramos e seguimos até próximo ao vestiário dos caras, mas eu não posso entrar. Que pena! Joe sai lá de dentro sorrindo com uma sacola nas mãos. Ele me entrega e dá um beijo no topo da minha cabeça.
— O que é isso? — Eu pergunto, confusa. Nem é meu aniversário.
— Abra e veja. — Ele diz.
Enfio a mão na sacola e meu tato identifica pano. Puxo-o para fora e o abro. É uma camisa do Black Tiger, seu time. Embora seja masculina, a minha é tamanho PP e ainda tem o nome do atrás. Sorrio.
— É linda, obrigada. — Eu dou um passo em sua direção, agarrando-o pelo quadril e enfiando meu rosto em seu peito. O moreno sorri e dá tapinhas na minha costa antes que eu me afaste. — Olha, . Tem seu nome ainda. — Eu mostro para ele que sorri.
— Você mandou fazer uma para ela? — Questiona para o seu amigo.
— Sim, ela sempre vem aos jogos e eu achei que merecia uma camisa como a nossa.
Eu dou alguns pulinhos de alegria.
— Eu quero vesti-la. Onde posso me trocar? — Eu pergunto. Ambos olham em volta procurando um lugar.
— Se troca ali no banheiro. — Joe aponta.
— Onde os caras estão? — arrulha.
— Ninguém está nu, todos estão vestidos. — Joe revira os olhos assim como eu faço interiormente. — Vamos lá. — O moreno coloca a mão sobre a minha nunca e começa a me conduzir para dentro do vestiário. — Atenção, rapazes... Garota passando! — Ele alerta e eu sorrio quando vejo alguns homens sem camisa, apenas de short. O cheiro de macho preenche meu nariz rapidamente. A maioria deles sabe meu nome, então os ouço cumprimentar-me. — Ali está o banheiro. Não demore. — Eu entro e tranco a porta. Tiro minha blusa e visto a camisa do time. Saio logo, não quero deixar ninguém esperando.
— Tchau. — Eu aceno quando passo por cada um ali e saio respirando ar puro e frio. está com cara de poucos amigos. — Guarda na sua bolsa para mim, por favor. — Eu dou minha blusa. Ele a pega e coloca sobre os ombros. — Ficou boa? — Eu pergunto aos dois amigos enquanto giro. Sinto que ela ficou muito bem em mim.
— Perfeita. — fala.
— Que bom que serviu. Agora vá se trocar, . Daqui a pouco seremos os próximos a jogar. — Comanda. Meu Sugar Daddy assente e dá um passo em minha direção.
— Procure um lugar na arquibancada. — Beija-me na cabeça.
— Boa sorte para vocês. — Desejo. Sorrindo os dois caminham para o vestiário e desaparecem. Já eu, caminho para o lugar que eu sempre fico quando há jogos. Sento-me e tiro o celular da bolsa, como o Black Tiger ainda não está jogando, eu não tenho por que dar atenção a esse time. Começo uma conversa com Martin onde ele basicamente me pergunta como anda o convívio com e eu começo a responder evasivamente que está indo muito bem. Se ele soubesse o que andamos fazendo ele iria surtar. Chega uma mensagem de Emy. Abro e ela está me contando que o seu ex está tentando arrumar um jeito de conversar com ela e Emy está pedindo-me um conselho. Respondo que ela deve negar qualquer encontro com ele e explico mais uma vez que voltar com ele seria burrice, pois quem faz uma vez, faz duas e afirmo que ela ainda vai encontrar uma pessoa mil vezes melhor que ele. Ela agradece e diz que fará o que eu aconselhei.
Meio hora se passa e a partida do Black Tiger se inicia contra os Red Fox. Eu filmo alguns momentos emocionantes e vibro quando Joe consegue fazer um gol. No entanto, toda alegria se vai quando os Red Fox marcam três gols no primeiro tempo. Os Black Tiger estão com raiva e tentam lutar pela vitória no segundo tempo, porém não conseguem e acabam perdendo por 5 à 2. Os jogadores saem do campo de cabeça baixa e vão para a o vestiário. Dá pena ver e Joe cabisbaixos e frustrados pela derrota. Só resta-me esperar por eles e tentar consolar meu Sugar Daddy quando chegarmos em casa.
Passam-se alguns minutos enquanto eu espero por ele ainda na arquibancada. E como não há nada para fazer, eu começo a editar umas fotos minhas para postar no Instagram e Twitter. Preciso atualizar meus fãs um pouco sobre mim, assim eles não ficavam tão curiosos a ponto de tentarem investigar minha vida. Também penso em pedir a para tirarmos uma foto juntos e eu possa usá-la como imagem de fundo do meu celular.
— Sinto muito que vocês perderam.
O comentário vem da minha frente, e como eu estou mexendo no celular eu tenho que levantar a cabeça para ver quem está falando comigo. Um garoto loiro com olhos verdes me espreita com um sorriso bonito na face rosada pelo esforço que fez por estar jogando. Seu uniforme é vermelho e branco e na frente da camisa há uma enorme raposa vermelha que parece rosnar ferozmente. Ele espera a minha resposta com calma.
— Bem... É como as pessoas dizem, não é? Não se pode ganhar todas. — Eu dou de ombros. Essa derrota doeu muito mais no time do que em mim que sou apenas uma torcedora. E cá entre nós... Não sou muito fã de futebol, apenas gosto de vir ver jogar. Se ele não fosse um jogador eu não moveria um músculo para vir aqui.
— Eu sou Jeremy. — Ele estende sua mão para mim.
Aceito por educação.
.
Dando um passo em minha direção, ele tira uma mecha de cabelo que está cobrindo meu rosto e a coloca atrás da minha orelha.
— Sempre te vejo por aqui. Hoje tomei coragem para vir conversar com você. — Sorri, e eu vejo que ele está tentando ser doce para que eu caia em sua lábia, porém o brilho arrogante em seu olhar deixa bem claro que tipo de pessoa ele é. Um lobo em pele de cordeiro tentando atrair uma presa. Eu odeio que ele ache que eu vou cair em sua fala mansa e derreter sobre sua aparência só porque ele é bonito. Talvez ele ache que eu sou uma groupie Maria chuteira procurando um cara para seguir, mas eu estava bem longe disso. — Estive pensando... Se você tiver espírito esportivo e não se importar sobre termos vencido hoje... Que tal vir com a gente comemorar? Iremos para um clube bem perto daqui. — Seu bote é lançado, uma pena que eu não vá cair como ele espera. Seus olhos me lembram os de uma cobra traiçoeira e meu corpo arrepia com a sua presença. Esse menino é bonito e tenta mostrar algo que ele não é. Há algo de sombrio nele que me faz ter calafrios horrendos. Seja quem for esse cara, ele não é bom. Não me pergunte como eu sei disso, eu apenas... sei. Sei que não devemos julgar as pessoas sem antes conhecê-las, entretanto algo nesse cara grita perigo.
— Ela não vai! — A voz de é como um bálsamo que leva embora toda a crise de nervos do meu corpo. Eu me ergo e passo para trás de seu corpo, para me proteger. Eu não estava percebendo, mas agora me toquei de que estou assustada e tremendo. Joe vai para o lado de seu amigo e ambos fazem um muro de carne para bloquear a visão do garoto de mim. — Primeiro e último aviso, Walker. Nunca chegue perto da minha filha novamente! Se eu vê-lo tão próximo a ela como fez hoje... Eu vou preso, mas te mato antes mesmo que possa piscar. — Não posso ver o rosto de devido ele estar de costas para mim, mas sei pela tensão de seu corpo que ele não brinca com as palavras que derrama sobre Jeremy e pelo seu tom, ele deve ter um motivo para ameaçá-lo. Isso não é sobre ciúme, é outra coisa.
— Vamos lá. — Joe comanda batendo sobre o ombro de e estendendo uma mão para mim. Eu aceito sem contestar deixando que o moreno me leve com ele para a saída do estádio. Eu arrisco um olhar para trás e pego um vislumbre de um sorriso diabólico no rosto do tal do Jeremy e eu me apavoro. Eu não quero esse menino próximo de mim. pega meu olhar e eu vejo seu maxilar travado e seus olhos brilham com ira. Eu não entendo completamente o que está acontecendo, porém perguntarei assim que chegarmos lá fora. Eles devem saber de algo que eu não sei.
O percurso até o estacionamento é silencioso. Joe nos acompanha até onde a Lamborghine está e solta a minha mão. Eles parecem carregados de algo ruim e isso é visível em seus rostos. Eu olho de um para o outro, suspiro e começo:
— Quando aquele menino chegou perto de mim e falou algumas coisas, eu senti uma coisa ruim vindo dele, como se... como se ele não fosse uma boa pessoa. Então agora eu vejo vocês tão... Tensos. Há algo que queiram me dizer? — Finalmente pergunto.
Ambos trocam olhares cúmplices.
Joe suspira recostando-se sobre o carro.
— Essa sensação que você descreveu está certa, . — Ele fala. — Jeremy realmente não é um cara do bem.
— O que aconteceu? — Pergunto, curiosa. Quero que eles falem de uma vez e parem de fazer mistérios.
— Ele estuprou uma garota. Infelizmente não puderam provar que ele é culpado, mas nós sabemos sobre sua fama. — Meu estômago se agita e a ânsia vem forte o suficiente para eu quase vomitar. O frio gela o meu corpo e eu me abraço por puro assombro.
— Meu Deus. — Eu despejo sobre o vento. Coitada da menina. — Eu não quero nunca mais estar na presença desse cara.
— Ele não vai chegar perto de você. — O tom de é completamente firme. — Eu não vou deixar. — Sinto-me abraçada por sua segurança. — Odeio que ele apenas ousou olhar e falar com você. E se eu não chegasse a tempo? Ele poderia ter tocado em você sem sua permissão. Estou vendo vermelho agora e quero matá-lo pela audácia que ele teve de mexer em seu cabelo. — está furioso e isso – mais uma vez – não é sobre ciúme, é sobre proteção. Eu posso discernir os sentimentos. Ele, agora só quer me proteger e eu assumo que quero isso também. Eu rogo a Deus para nunca encontrar com Jeremy em qualquer lugar na rua, ou eu não sei o que pode acontecer. Eu tenho mais medo dele agora do que de Diego. Se eu me encontrasse em uma situação onde de um lado estaria Diego e do outro, Jeremy... Eu não pensaria duas vezes antes de correr para Diego e abraçá-lo com todas as minhas forças. Diego era um valentão, mas eu nunca escutei sobre ele forçar garotas a transarem com ele, e por esse motivo, perto de Jeremy, Diego era uma espécie de herói.
— Ela parece assustada. Tire-a daqui. — Joe fala e eu acordo dos meus devaneios e olho para ele. Os amigos trocam um tipo de toque e se abraçam. Joe vem até mim e me beija na cabeça. — Não tenha medo, eu também protegerei você.
— Obrigada. — Eu agradeço e tento sorri.
Ele se afasta para pegar seu carro e eu olho para que assiste o amigo indo embora.
— O que ele disse antes de eu chegar? — Meu Sugar Daddy volta sua atenção para mim.
— Ele só tentou puxar papo comigo falando sobre sentir muito por nosso time ter perdido e depois se apresentou. — Explico. — Só tentei ser educada com ele. Se soubesse o que ele fez, não teria nem lhe dado um segundo olhar.
Satisfeito com o que eu acabei de contar, vem em minha direção e me abraça pelos ombros, beijando minha testa. Se alguém nos ver de fora apenas vai ver um pai abraçando sua filha, mas eu vejo muito mais. Vejo um homem preocupado com o bem estar de sua garota. Isso é fofo.
— Entre. Vamos para casa. — Ordena. Faço o que me pede e rodeio o carro, acomodando-me no banco do passageiro. já está lá dentro, dando partida. Ele manobra pelo estacionamento e sai na rua.
— Será que podemos parar num Drive thru? Eu gostaria de comprar batatinhas e um milk-shake. — Eu peço.
— Claro. — Seu rosto ainda demonstra que ele está irritado e eu quero que ele esqueça isso.
... — Eu chamo, colocando minha mão esquerda em sua nuca para fazer carinhos lá. — Sei que está com raiva, mas tente esquecer isso agora, tá? Estou bem. Você chegou a tempo e me alertou o tipo de cara que ele é. Não vou chegar perto dele nunca mais. Odeio essa sua cara de quem está provavelmente imaginando mil e uma cenas catastróficas sobre mim e Jeremy. Mas não vai acontecer nada. Eu tenho você pra me proteger e isso me deixa despreocupada. — Solto o cinto um pouco e me inclino para si, onde o beijo no rosto e pescoço, então retorno para o meu assento. — Concentre-se em nós e esqueça qualquer distração que queira perturbar e estragar as coisas entre a gente, ok? — Sinto o carro ir perdendo a velocidade, até que ele para em uma rua mal iluminada, mas com casas nos dois lados.
— Me dê um beijo. Preciso disso para desintoxicar meu organismo de coisas horríveis. — pede e eu estou muito feliz em fazer isso. Ele se inclina para mim e eu me inclino também, então nossas bocas se encontram e instantaneamente coisas ruins deixam meu corpo, restando apenas a sensação de calor crescente que começa no meu peito e se espalha em todas as direções. move uma mão para trás da minha cabeça e me aperta mais contra seu rosto, sua língua briga violentamente contra a minha mostrando quem é que domina ali. Quando penso que ele vai se afastar, ele apenas morde meu lábio inferior e o puxa um pouco, depois o suga lentamente, fazendo minha calcinha ficar tão molhada que eu posso sentir os fluídos transpassando para o short jeans. Ele me beija uma última vez e quando se afasta, seu rosto está fechado com tesão. Lá está o volume em sua calça, e seu peito sobe e desce a cada respiração que ele dá. Não estou muito diferente. Sinto-me como manteiga, me derretendo e desfazendo aos poucos.
— Melhorou? — Eu questiono debilmente.
sorri um sorriso de merda sexy para caralho.
— Você não tem ideia do quanto. — Responde ele.
Nós seguimos o caminho antes que a polícia nos pare e nos acuse de atentado público ao pudor.

...

— Quer? — Eu ofereço as batatinhas fritas para .
— Isso é um poço de gordura, . — Ele alerta, como se eu já não soubesse. tem uma alimentação completamente saudável e o resultado disso é seu corpo perfeito. É ele quem define o que comemos, mas eu não sigo tão à risca assim suas instruções. Fora de casa eu só como besteira, já lá dentro como o que ele prepara.
— Eu não me importo de comer gordura se ela for direto para minha bunda e fazê-la parecer maior. — Eu dou de ombros, enchendo a boca com as batatas e um pouco de Milk-shake.
— Se você quer uma bunda grande, faça agachamentos. — comenta.
— Lá vem o personal trainer com as instruções. — Reviro os olhos e meu Sugar Daddy ri. — Odeio atividades físicas. Elas me fazem suar e isso é nojento.
— Docinho, eu conheço atividades físicas que vão te deixar completamente suada e exausta e você não vai reclamar nenhum pouco delas. — Eu engasgo assim que fecha a boca e olho para ele com espanto. Cara, ele está fazendo exatamente o que eu queria, me provocando com as palavras. Eu adoro esse jogo.
Assim que eu me recupero de seu golpe, eu prossigo.
— Ótimo. Dependendo das posições posso exercitar as pernas, o bumbum... A garganta. — É nesse momento que eu enfio o canudo na boca e faço uma cena movendo a língua em torno dele, depois finalmente sugo o doce de dentro. Os olhos de cerram e suas narinas inflam quando ele puxa uma respiração. Pela sua expressão, sei que está imaginando seu pau no lugar do canudinho. Safado. Mordo os lábios e depois sorrio tentando parecer inocente.
— Garota, você está brincando com fogo. — Ele adverte eu rio maliciosa. — Vai rindo. Um dia eu te faço pagar por toda essa provocação.
— Neste dia espero estar nua e de quatro na sua frente com uma bunda completamente avermelhada. — O olho por cima dos cílios e vejo quando ele aperta o volante com força. Olho para sua ereção e ela está gloriosamente grande.
— Irei avermelhar sua bunda assim que chegarmos em casa. — Ele rosna. Sim, ele está excitado.
— Promete? — Eu crio expectativa.
Ele não responde, apenas rosna novamente e fica em silêncio. Provavelmente não está aguentando a situação e está doido para entrar na minha calcinha. Começo a imaginar nossa noite e a intensidade da perversão me deixa louca. Tento me concentrar na comida antes que eu provoque um acidente. Estou empurrando para seu limite e nem sei se estou preparada para o que ele tem a me oferecer, mas parece que vou descobrir daqui a pouco.

...

— A onde você pensa que vai? — Eu paro minha caminhada rumo ao banheiro e me viro para um parado na frente da porta fechada. Acabamos de chegar em casa e eu estava louca por uma chuveirada, já que eu sentia minha pele suada e minha calcinha úmida.
— Tomar um banho. Estou sua...
— Não! — Me corta com um tom firme.
— Não?
— Não! Sobe e me espera lá em cima, no nosso quarto.
No nosso quarto? Uau. Minha pele arrepia com seu tom. Ele não disse nada, mas eu já sei o que ele pretende fazer. E será que eu estou preparada para o que vem a seguir?
— Você não acha melhor eu estar limpa? — Eu me sentiria mais confortável para fazer coisas com ele se eu me refrescasse e tirasse toda sujidade.
— Não! A quero desse jeito. Você me disse antes de chegarmos ao estádio que queria se aliviar e tudo que eu consigo pensar é que sua calcinha está encharcada depois de tantas provocações. Eu quero que ela continue dessa forma. Suba e me espere lá. Isso é uma ordem, !
Jesus Cristo. Tem algo mais sexy do que um homem em posição de comando? Acho que não.
A garotinha safada e submissa dentro de mim assume quando sem questionar eu largo minha bolsa em cima do sofá e subo para o quarto de . Eu entro e espero em pé, próximo a janela observando a rua. É cedo ainda, provavelmente umas dez horas. Há movimento lá fora, tanto de carros como de pessoas que caminham conversando. Eu tento me concentrar nessas pequenas besteirinhas para não ficar nervosa sobre . Não quero que ele me ache boba.
Meus batimentos cardíacos aumentam conforme o tempo passa, sinto minhas mãos geladas e suadas, há um frio estranho na barriga e arrepios correm em todas as direções quando noto minha pélvis apertando em antecipação. Todos os meus sentidos estão tão ligados que minha audição capita os passos de na escada, no corredor e segundos depois ele abre a porta. Eu paro de respirar neste mesmo instante quando meus olhos encontram os seus tão cheios de cobiça. Eu desejei tanto tê-lo para mim, quantas vezes sonhei com momentos como esse que está prestes a acontecer. É literalmente um sonho tornando-se verdade.
tranca a porta e lentamente caminha em minha direção. Eu penso que ele vai vir direto para mim, só que ele desvia e vai para a janela, fechando a cortina. Eu assisto – petrificada – os seus movimentos tão firmes. Depois que ele fecha a outra, ele se vira e eu me torno o foco de um predador. Agindo no papel de presa, eu ando para trás até bater na parede, então eu fico totalmente encurralada, já que ele está tão rápido em cima de mim, com suas mãos espalmadas na parede ao lado do meu corpo, bloqueando a minha saída. Mas quem disse que eu vou fugir? Quero mais do que qualquer coisa está envolta em seus braços fortes. Mais fácil ele correr, que eu.
A forma como me olha... Eu nunca vi isso. É tesão cru. Ele parece com raiva com a testa levemente franzida e o maxilar travado. Ele é como um leão e eu um pobre cervo, seu olhar ferino faz uma sensação de formigamento iniciar em minha intimidade. Por enquanto nós só nos olhamos, mas eu vou mudar isso. Eu tomo a iniciativa levando minhas mãos para seu peito, onde meus dedos começam a subir sua camisa. Seu olhar é tão intenso sobre mim que eu não consigo suportá-lo por mais tempo, então concentro-me apenas em despi-lo. Ele me ajuda a tirar a camisa, puxando-a pela cabeça e seu torso rasgado e definido surge em minha cara levando-me a salivar. Eu só quero lamber cada divisão de seu abdômen. Ele não tem pêlo em qualquer lugar, é completamente pelado. O V proeminente que leva para dentro do short me incita a removê-lo, porém eu quero ir por partes. Já que acabei de tirar sua camisa, devo explorar essa região primeiro, não é? Mordo os lábios quando minhas mãos deslizam de seu peitoral para o estômago. A respiração de muda para uma mais ruidosa quando ele sente meu toque. Eu fico na ponta dos pés e me ergo, dando-lhe um beijo casto nos lábios, depois desço para o queixo, mordo sua garganta e sugo em um ponto entre seu ombro e pescoço levando-o a arrepiar. Estou indo para seu peito quando sua mão cai sobre minha garganta e me força a olhar para ele. Deus... Eu gosto da pressão que ele exerce sobre mim.
— Eu quero fazer tantas coisas com você, ! Que Deus me perdoe. — Seu aperto me direciona para sua cama, a qual ele me faz sentar de pernas abertas, desse modo ele está com seu corpo no meio delas. Me sinto tão entregue e vulnerável. me puxa tão violentamente para sua boca que parece apenas que ele vai me devorar. É um beijo vulgar, sujo. Ele chupa meu lábio inferior, o morde com tanta força que eu sinto o gosto metálico do sangue, e isso me deixa ainda mais excitada. Sua língua subjuga a minha quando elas brigam pelo comando, embora eu apenas sigo o que determina. Meus gemidos são engolidos e os seus rosnados são como gasolina, fazendo o fogo que há em mim crescer mais. A mão da minha garganta sai, e eu sinto as duas ao redor do meu quadril onde elas forçam o short para baixo, e segundos depois ele está fora. O nosso beijo esfomeado só para quando tem que se afastar para remover minha blusa. Estou arquejando apenas em roupas íntimas. — Sonhei com isso por um longo tempo. Tê-la assim, descabelada, o rosto rosado, os lábios inchados e o corpo tremendo ansiando por mim... Merda, é uma das minhas fantasias sexuais. — Eu levo a mão ao lábio inferior e aperto sobre uma área que arde um pouco, e sangue vem em meus dedos. Eu lambo a ferida para remover o excesso de liquido ferroso. Os olhos de incendeiam-se com o movimento.
— Nós... — Eu tusso para limpar a garganta da rouquidão. Deslizo para trás sustentando-me sobre os cotovelos oferecendo a uma visão melhor do meu corpo. Quero parecer sensual para ele. — Nós vamos fazer amor agora? — É um sussurro. Por um lado quero mostrar a ele que tenho atitude, porém, por outro não posso evitar sentir um pouquinho de vergonha.
Ele fecha os olhos como se sentisse dor, e quando os abre há um pouco de decepção cintilando.
— Não, . Nós não vamos fazer amor.
Rapidamente volto para a posição que estava antes, triste.
— Por que não? — Eu questiono manhosa.
Suas mãos vêm para o meu rosto afagando com carinho.
— Porque você não está preparada ainda. — Ele comenta.
— Eu estou sim. — Choramingo.
— Não, não está. Você apenas acha. E é como eu disse, eu vou esperar.
— Mas se você não vai me foder, então por que me trouxe para seu quarto e tirou minha roupa? — Agora eu estou chateada.
— Que boca suja é essa? — A palmada é forte na minha nádega esquerda. Eu grito mais por susto do que por dor.
! — Eu brigo, cruzando os braços sobre o peito. — Ainda quero me aliviar. Estou excitada. Isso é mal da sua parte começar e não terminar. — Estou olhando para baixo, até que levanta meu rosto pelo queixo e me dá o melhor sorriso amplo que ele tem, fazendo seu rosto iluminar e seus olhos cintilar.
— Mas vamos terminar, amor. Você vai usar seus dedinhos e eu vou assistir enquanto você se toca pensando em mim. — Sua voz se aprofunda e minha barriga aperta.
— E você? — Eu questiono baixinho em forma de gemido, aproximando minha boca de seu ouvido. — Você vai se masturbar para mim? — Me afasto para observar sua reação e vejo seus olhos rolando para trás antes de se fecharem. Sua mão sobe para a minha nuca e me puxa para seus lábios num beijo esfomeado.
— Você quer que eu me toque para você também? — Seu tom sensual ao pé do ouvido envia onda de vibrações por todo meu corpo e eu gemo quando solto uma lufada de ar. — Você quer ver como eu fiz naquele banheiro do cinema quando assisti o seu filme?
... — Eu gemo mordendo os lábios e desço minha mão direita até encontrar a barra da minha calcinha. Deixo meu corpo cair para trás enquanto coloco o outro braço livre atrás da cabeça, sentindo-me confortável. Olho para o objeto dos meus desejos e começo o show sem que ele peça, subindo minhas pernas para cama e as abrindo ao máximo, sem que fosse incômodo. se ergue e puxa o short para baixo e eu posso ver claramente o contorno de seu pau marcando a boxer branca. Só essa visão é suficiente para que eu comece o trabalho, levando meus dedos para dentro da calcinha onde começo a movê-los em círculo sobre o botão que está desesperado para ser tocado. Aos poucos me sinto quente e molhada. continua de pé, só que agora sua mão está dentro da cueca, apertando seu membro. Eu adoro como seus músculos flexionam e estendem com seus movimentos, e seu olhar que ora está em meu rosto e ora em minha região íntima me torna mais atrevida. Quando eu enfio um dedo dentro de mim e o gemido languido escapa, rosna e trabalha mais duro em si mesmo. Quero assisti-lo se tocando, porém hoje quero que ele me aprecie, então fecho os meus olhos e começo a imaginar como se meus dedos fossem os seus. Isso me deixa insana e eu introduzo um segundo dedo, e quando meus músculos apertam e soltam, o fogo que antes estava em minha pélvis começa a crescer e querer se espalhar. Mordo os lábios me mexendo de um lado para outro, tornando cada investida mais profunda e prazerosa. Eu queria tirar minha calcinha para tornar tudo melhor, só que disse que eu ainda não estava preparada para compartilhar a intimidade com ele, então eu tinha que mantê-la. Deus! Era tão bom, essa sensação de plenitude que aos poucos vai ganhando vida, crescendo e consumindo tudo em volta. — ... Te desejo taaaaaanto. Hummmm. — A resposta é sua respiração difícil.
— Você me quer dentro de você, docinho? — Seu tom grave mexe comigo e eu acelero os movimentos.
— É tudo que eu mais quero. — Abro os olhos por um momento para olhar para e minha boca saliva quando vislumbro apenas a ponta de seu pau para fora, rosado e grande como um cogumelo. — Quero sentir você em todo meu corpo. — Respiro com dificuldade.
— Você vai me ter. E eu vou tão profundo, tão forte que você vai me sentir por dias...
Eu gemo alto sentindo que estou muito próxima de chegar ao ápice. Eu nunca tinha ido tão rápido, e eu não queria parar, por mais que quisesse prolongar esse momento. Quando eu sinto como uma faísca se transformando em labareda, eu sei que a explosão não está longe.
— Sugar Daddy... — Choro. — Eu vou gozar. — Parecia tão estranho dizer isso em voz alta.
— Merda, ... — O ouço xingar com aquela voz de quem fuma a séculos. — Goze para mim, minha menina... Goze para mim. — E este foi o comando que derrubou a última barreira que impedia meu orgasmo de acontecer. Foi como se uma bomba explodisse e eu gritei choramingando a todo estante o nome de . O formigamento começou no meu dedinho dos pés e subiu rapidamente e a sensação de relaxamento me tomou por inteira. Eu abri os olhos a tempo de ver gozando, enquanto os jatos de sêmen caiam sobre o meu pé esquerdo. Ele estava tão lindo com a boca meio aberta, praguejando, sua face escarlate revestida numa máscara de prazer intenso. A euforia ainda era grande no meu interior quando deitou-se por cima de mim e pegou minha boca num beijo apaixonado. Passei minhas pernas por seus quadris e as cruzei, o prendendo. Não queria que ele saísse dali por nada. Se a casa pegasse fogo, então iríamos queimar juntos. Ainda podia sentir seu membro contra mim, só que agora semi-duro. Abracei seu pescoço e aprofundei um pouco mais o beijo, enquanto sua mão direita apertava minha coxa e a outra estava firme em minha nuca. O que acabamos de fazer, embora rápido, nos levou a um novo nível no relacionamento. Estávamos praticamente na segunda base, onde poderíamos tocar qualquer parte do corpo do outro. Isso significava que na próxima vez era que me faria gozar, e eu a ele. — Isso foi bom para você, amor? — Questiona assim que o beijo termina por precisarmos de ar. Seus olhos preguiçosos e bonitos estão fixos nos meus.
— Seria melhor se fosse você a me tocar. — Eu respondo baixinho.
Ele sorri.
— Em breve, bebê. — Bica meus lábios.
— Você gostou? — Pergunto curiosa, acariciando sua face e sentindo a barba começando a crescer.
— Eu estava algum tempo sem me tocar, e ter essa experiência com você me abalou completamente. Minhas pernas tremeram e eu pensei que fosse cair quando gozei. — Conta abertamente e eu aprecio sua sinceridade comigo. — Sei que queria fazer amor comigo, e isso é o que eu mais quero fazer com você. Mas te olhando assim, não sinto que está preparada. Então não fique decepcionada comigo por negar isso a você. — Sua mão vem para a minha bochecha, fazendo carinho. — Quando acontecer entre a gente, vai ser natural, não vamos precisar planejar. Você me entende? — Aceno que sim. — Você se sente aliviada agora?
O sorriso do gato da Alice em me leva a ficar vermelha.
— Sim.
— Bom. Me deixa contente saber que você está satisfeita. Isso significa que amanhã você não vai acordar de mau humor brigando comigo. — Eu rio.
— Meu dia tem tudo para ser bom, amanhã... Assim como a minha noite agora. — Mordo os lábios. — Você está lindo me olhando com essa cara de cansado. É tão sexy.
O som de seu riso me contagia.
— Linda está você agora com esses olhos grandes me olhando com adoração e essa boca inchada dos meus beijos sorrindo. Você é o sonho molhado de qualquer homem, querida. Eu tenho sorte que está comigo agora.
— Você é o meu sonho molhado também. — Confesso.
Nossas bocas se juntam novamente, agora sem pressa, apenas apreciando uma a outra. Eu abraço porque amo a sensação de tê-lo sobre mim. Eu sinto como se fossemos feitos um para o outro e que não há nada mais perfeito que nós juntos. Enquanto estávamos conversando, houve uma grande vontade de dizer a ele o quanto o amava, porém me refreei. Não era medo, eu só não sabia explicar a razão de não conseguir falar. Mas acredito que quando for o momento certo, as palavras vão saltar facilmente.

...

Quando o despertador toca só quero desligá-lo e voltar a dormir, mas hoje ainda tem aula e eu preciso levantar para ir à escola. Eu saio do conforto dos braços do meu lindo Sugar Daddy e clico na opção “parar” do alarme. Me espreguiço e sento na beirada da cama, coçando os olhos. deve está dormindo profundamente já que ele nem se mexeu quando eu me afastei dele. Bom, o dia tem que começar para alguém, não é?
Pego o celular e saio do quarto indo para o meu. Pego minha toalha e desço para o banheiro. O clima na casa é frio e a sensação só piora devido eu estar descalça. Entro no banheiro e já vou tirando logo a calcinha e o sutiã, então assim que eu fico ereta e meus olhos pegam meu reflexo no espelho, o susto é grande.
— Merda! Puta que pariu! Como é que eu vou esconder isso?
O meu lábio inferior além de inchado está completamente roxo, muito diferente do lábio de cima que tem sua cor rosa claro natural. Infernos! mordeu tão forte que sangrou, mas em nenhum momento eu achei que fosse deixar hematoma. Se eu aparecer com essa merda desse jeito na escola meus amigos não vão me deixar em paz perguntando como diabos eu consegui essa contusão, e maliciosos do jeito que são já vão interpretar que estive com alguém. E é aí que eu vou me complicar. Por serem meus amigos, eles acham que eu conto tudo para eles e se eu apenas disser que eu andei ficando com um “carinha” sem nome, Emily com certeza vai se chatear achando que eu não confio e nem conto as coisas para ela.
Começo a pensar em uma saída.
Dizer que caí de boca no chão está fora de cogitação, porque só serviria se todo o meu rosto estivesse machucado. Corta.
Posso dizer que sem querer deixei o celular cair na boca? Urgh. Não. Essa ideia é muito ruim. Está na cara que é mentira. Corta.
Posso dizer que o mordi para testar meu limite de dor e ver até onde eu conseguia segurar? Oh, porra. Essa é a ideia mais estúpida que pensei. Ninguém iria acreditar nessa merda. Corta.
Estou quase desistindo de ir para escola apenas por vergonha de chegar com a boca assim quando penso em algo que deveria ser a minha primeira opção.
Maquiagem!
Se eu tiver um batom matte que seja mais pigmentado que o roxo dos meus lábios, eu estou salva. Eu tenho que ter um batom de cor escura.
Prendo o meu cabelo num coque e entro no chuveiro apenas molhando meu corpo. Odeio ir com o cabelo molhado para a escola, mas não devo me preocupar porquê o lavei ontem pela noite. Alguns minutos depois eu saio e subo para me vestir. O meu celular vibra quando começa a tocar e eu vejo que é Emily me ligando. Atendo:
— Oi, mana. — Eu digo.
— Oi, . Você pode me dá uma carona hoje? Não quero ir com a minha mãe.
— Claro, amor. Vou só tomar o café e logo passo aí.
— Ok. Vou esperar. Até depois. — Ela se despede.
— Até.
A ligação se encerra.
Tenho o tempo a meu favor, então eu resolvo fazer cachos no meu cabelo com o babyliss. Demora um pouco, mas ainda vou ter tempo de descer, tomar o café tranquilamente e ter algum momento com , claro, se ele acordar. Meu look de hoje é uma camisa solta cinza, jeans azul rasgado e botas. Agora vem a bendita maquiagem para esconder a mordida de amor que ganhei ontem.
— Querida? — O questionamento vem com batidas na minha porta. Caminho até ela e a abro, meu Sugar Daddy aparece sem a camisa, apenas em calças de moletom, a barba cresceu um pouquinho mais, e seu cabelo – embora curto – não está penteado. Uma delícia! — Bom dia, meu anjinho. — Ele me puxa para seus braços, apertando-me forte e seu cheiro inebria meu corpo.
— Bom dia, Sugar Daddy. — Eu respondo em seu peito e sinto-o vibrar quando ele ri.
— Gosto que me chame assim. — Admite. Então eu levanto meu rosto para que possamos nos beijar, e assim acontece. Devido o machucado, meu lábio dói um pouquinho quando o mexo, mas dá para suportar. Quando nos afastamos, eu sorrio.
— Eu disse que o meu dia seria bom hoje.
fica tão lindo quando sorri, entretanto sua cara se fecha quando ele finalmente percebe a consequência de seus atos de ontem.
! — Ele exclama com seriedade enquanto envolve as mãos em torno do meu rosto para levantá-lo e dar a ele uma visão melhor. — Meu Deus. Isso está roxo. Onde eu estava com a cabeça quando pensei em fazer isso? — Oh, então não foi apenas a empolgação do momento? Ele fez porque quis? — Dói? — Pergunta enquanto pressiona levemente o lugar.
— Um pouco. — Sou sincera.
— Me desculpe, Docinho. Eu devia está fora de mim. — Seus olhos brilham com arrependimento e isso me lembra um pouco de filhotinhos de cachorro. Tão fofinho.
— Não há nada para se desculpar. Foi bem gostoso quando você fez. — Confesso.
— Sim, mas e agora? O que vai dizer para seus amigos quando aparecer assim na escola? — Sua preocupação é válida, porém já tenho uma saída para ela.
— Não se preocupe. Eu já pensei em algo.
— O que?
— Batom. Ele vai cobrir. Estava indo me maquiar quando você bateu na porta. — Explico.
— Espero que isso realmente ajude.
— Vai sim. Fique despreocupado. Quer ver enquanto eu faço?
apenas assente.
— Puxe aquela cadeira para perto da minha cômoda. Vai ficar melhor para você enxergar. — Eu comando enquanto tomo meu lugar na frente do espelho. Nunca gostei de ir muito maquiada para a escola, mas hoje eu tenho que fazer algo mais trabalhado. Começo com o primer que já vem com protetor solar.
— O que é isso? — Ele pergunta ao ver-me passando o creme transparente no rosto.
— É um primer facial. Serve para retirar a oleosidade, prolongar a duração da maquiagem, suavizar as linhas de expressão e os poros abertos. — Como é dia, não irei usar base, apenas um BB cream. — Isso aqui vai uniformizar o tom da minha pele, entendeu? — Ele concorda. Após isso eu passo um pouquinho de pó compacto para selar tudo. Um pouco de bronzer e iluminador e a maquiagem está quase completa. Passo para os olhos, escolhendo um tom vinho para usar como sombra. Esfumo bastante até que a cor esteja bem mais clara de como realmente é. Passo o delineador, lápis branco para dar a impressão de que meu olho é maior e finalizo com a máscara de cílios.
— Você é boa nisso. — elogia-me e eu me inclino para lhe dar um beijo rápido.
— Agora só falta a boca. Eu vou procurar um batom que cubra o roxo. — Eu mexo na primeira gaveta da cômoda onde estão todos os meus batons. Eu realmente tenho muitos. Os primeiros que encontro são claros demais. começa a me ajudar, procurando também.
— Usa esse. — Ele me entrega o tubo e eu verifico a cor.
— Vermelho tentação. — Essa cor está mais para vermelho prostituta. Rio. — Se eu aparecer com essa cor, os meninos vão me parar perguntando quanto eu cobro por programa. — A face de se torna lívida, me levando a gargalhar.
— Nunca use essa merda se não estiver comigo. — Ele rosna me fazendo rir mais.
— Tem esse aqui. — Eu mostro para ele. — É matte berinjela. Como é bem roxo, vai fazer o machucado desaparecer. — Lhe explico.
— O que é matte? — É engraçado ver um homem confuso com maquiagem e o rosto de me faz rir e achá-lo fofo ao mesmo tempo.
— Matte é um efeito que deixa o batom fosco, sem brilho e deixa a boca sequinha. Ou seja, ele não transfere se eu for te beijar, como aqueles outros que normais.
— Ah sim. — Sua reação ainda me faz rir.
Eu volto minha atenção para o espelho enquanto passo cuidadosamente o batom, contornando os lábios. No final, ele cobriu completamente o roxo do hematoma e ainda me deixou linda criando uma ilusão de que eu tinha um bocão.
— Ficou bom? — Pergunto ao meu homem e ele me olha por um tempo, depois suspira.
— Você está linda. Como sempre. — Eu puxo seu rosto para o meu e nos beijamos apaixonadamente. Quando me afasto, não há qualquer ponto roxo em sua boca. — Uau. Seu batom não sai mesmo, e nem borra. Que tipo de magia é essa? — Nós rimos.
Sabe, eu adoro essa intimidade que está se desenvolvendo entre a gente. Nunca passou pela minha cabeça que assistiria eu me maquiar e tivesse interesse sobre isso. Parece que ele gosta de estar perto e descobrir o que eu gosto de fazer. Eu amo que ele é tão doce, sincero e prestativo. Esse homem está se tornando a coisa mais valiosa da minha vida. E eu não sei se isso é bom ou ruim.

Continua...

Comentários da autora


Olá, meninas. O que acharam do cap 18? Parece que é a partir daqui que as coisas começam a ficar sérias.
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