Our Worlds Collide

Escrito por Maraíza Santos | Revisada por Angel


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Capítulo 1

Eram cinco horas da manhã quando o som do saxofone de Donald Stak invadiu o meu quarto me fazendo acordar naquele dia. Estiquei a mão a fim de desligar o despertador e sentei na minha cama dando tapinhas no meu rosto tentando despertar. Rapidamente, lembrei-me da minha mãe e olho para o lado; há menos de meio metro está Letícia encolhida na cama de casal quase caindo no chão e tremendo de frio. Arrumei seu lençol até a sua cabeça e observei o quão jovem ela parecia dormindo.
Queria ser mais parecida com ela. Minha mãe tem os cabelos loiros acobreados e leves como uma pluma, ela também tem olhos azuis como águas cristalinas que a fizeram parecer tão jovem quanto eu, ainda que esteja no auge de seus 45 anos. Eu era mais parecida com meu pai; olhos e cabelos cor de madeira escura.
Sabendo que minha mãe iria acordar três horas depois, levantei me arrastando até o pequeno banheiro para tomar banho e me vestir para o trabalho. Quando senti a água quente descer pelo meu corpo suspirei feliz por finalmente ter concertado aquele chuveiro — ninguém merece acordar de madrugada e tomar banho com água fria.
Me enrolei com a toalha e fui até o quarto vestir-me. Assim que abri o guarda-roupa me deparei com as camisas sociais que Ivana havia me presenteado mês passado. Sabendo que eu já tinha usado todas nos últimos meses, escolhi uma branca com os botões azuis marinho e uma calça com a mesma cor do botões. Olhei-me para o espelho satisfeita com o que vi; quase todo o meu guarda roupa foi costurado por Ivana e são tão bem feitos que poucas pessoas conseguem perceber que as roupas não foram compradas em lojas. Sou eternamente grata por ter conhecido aquela mulher mesmo que em uma situação difícil da sua vida; quase todo mês ela me faz um traje novo alegando que preciso me vesti bem até encontrar meu destinado.
Peguei os poucos itens de maquiagem que tenho e me deixei o mais natural possível. Calcei os sapatos de salto alto pretos já com medo de me deixarem na mão porque os comprei por um preço camarada. Fui à cozinha, comi torradas com leite e em menos de meia hora desde que acordei estou pronta para o trabalho.
Cutuquei minha carteira e deixei cinco dólares em cima da mesa para que Jean compre alguma coisa para minha mãe e saiu de casa às pressas para pegar o ônibus de 5h40.
As casas da minha rua são pequenas e todos fazem parte da Ala O. Mesmo ainda o céu estando escuro as ruas estão movimentadas; acordar cedo aqui é o mais habitual do que parece. A maioria das pessoas trabalha em empregos simples como faxineiros e entregadores de jornal. O meu emprego como secretária é visto como um prêmio que poucos abaixo da ala M conseguem exercer.
Assim que cheguei ao ponto, o ônibus apareceu no final da rua. Entrei já com meu vale transporte em mãos e sentei-me já pensando no outro ônibus que preciso pegar e o metrô. Antes das sete eu tinha que chegar.

...


O centro da cidade onde fica o prédio em que trabalho é repleto de prédios espelhados com estruturas arquitetônicas e o edifício da Coral não era diferente. O letreiro da empresa de cadernos tinha um brilho colorido que parecia se mexer conforme você andava. Entrei no prédio, cumprimentei Mary e Dassy, as recepcionistas, “bati ponto” e tratei de ir ao sétimo andar começar meu trabalho.
Meu chefe era a pior pessoa quando se refere à designer, por isso sua esposa se encarregou de fazer seu escritório com as paredes amadeiradas. No começo, tive a sensação estranha de estar em qualquer lugar menos em um escritório, mas com o tempo me acostumei. Sentei na cadeira giratória, liguei o notebook e arrumei minha mesa. O relógio do pc marcava exatamente 7h10, então, tratei de organizar os e-mails do sr. Carter e checar os recados.
Fazia dois meses que estava trabalhando para Coral e por pouco eu perdia o emprego. O que sei de informática aprendi na escola e nem sei falar nenhuma outra língua; tudo que conhecia era de um cursinho gratuito oferecido pelo governo para jovens de baixa renda. O único motivo para está ali foi, ironicamente, um jogo de palavras-cruzadas.
Logo quando eu aprendi a ler, meu pai me dava um desses do jornal. Ele sempre me cobrava como lição de casa alegando que era pro meu próprio bem e a pediatra que íamos toda semana concordava. Nunca entendi isso direito até anos atrás quando minha mãe me confessou que tinha 75% de chance de ter Mal de Alzheimer precoce e eu, como filha dela, tinha 100% de percentual; por isso meu pai se imprensava pra pagar aquele tratamento pra reduzir em 50% minha taxa, ao invés de cuidar da minha mãe.
Quando testaram nossa rapidez mental na entrevista fui feliz em fazer aquelas palavras-cruzadas que faziam parte do meu dia-a-dia e o emprego ficou comigo! Porque, por mais que não fosse totalmente qualificada, afirmaram que eu era eficiente. Por mais que, claramente, acho que a escolha se veio mais por causa de Carol Carter que, sabe se lá o porquê, gostou de mim.
Vinte minutos depois Albert Carter, meu chefe, entrou pelo corredor. Ele era um dos diretores executivos da empresa e não tinha menos de 32 anos; mesmo assim já tinha os cabelos pretos tingidos de branco e olhos azuis cansados.
— Bom dia, . — Falou educadamente abotoando seu terno.
— Bom dia, senhor Carter. — Sorri simpaticamente.
— Meus horários? — Perguntou.
— Na pasta compartilhada, senhor. — Respondi prontamente.
— Recados?
— Nenhum, senhor. — Disse assendindo.
— Tenho uma reunião daqui a duas horas... — Disse checando o relógio.
— Uma hora. — O corrigi. Albert sorriu e balançou o dedo para mim.
— Não sei o que faria sem você, . — voltou a sua postura séria. — Se alguém ligar anote recados. Apenas passe a ligação para mim se for Carol.
Concordei com a cabeça e ele se foi pela porta um pouco atrás de mim. Assim que a porta se fechou, senti meu celular vibrar. Eu o havia ganhado dois dias depois de entrar na empresa já que sr. Carter estava eufórico por ter que ligar para minha casa e sempre quem atendia era Jean e não eu. Olhei pra os lados me certificando que ninguém estava vendo e atendi em sussurros ao ver o número de casa e, como sempre, o aviso da chamada a cobrar começou a tocar. Desliguei e com o telefone da empresa retornei a ligação me sentindo um tanto nervosa. Jean apenas ligava quando era realmente necessário.
— Oi, . — cumprimentou. — Adolf chegou aqui e está furioso com você.
Droga. Esqueci completamente do dinheiro do aluguel e a cada dia os juros aumentavam em um preço absurdo. Suspirei.
— Diga a ele para vir daqui a 15 dias. — Avisei.
— Espera, vou passar para ele. — e o telefone ficou mudo.
Bati o pé temerosa e olhei para os lados à procura de alguém para me dedurar, mas, por sorte, os corredores do andar estavam vazios.
— Ora, ora. — a voz nojenta de Adolf ecoou pelo telefone. — Parece que você está tentando me dá um calote igual ao seu pai, não é, garotinha?
Senti meu sangue ferver e respirei fundo para não perder o controle.
— Só tem três meses atrasados e vou pagar assim que poder. — Respondo firme. — Só tenha calma.
— Calma? Eu quero meu dinheiro! — Ele ralhou.
— Eu pago tudo com os juros daqui a 15 dias. Só tenha paciência. — Disse com frieza. — Agora, se me der licença, preciso trabalhar. Bom dia, Adolf.
E desliguei.
Como eu queria quebrar a cara daquele idiota! Se eu pudesse comprar aquela maldita casa tudo seria mais fácil! Assim que receber meu dinheiro vou pagar tudo antes que eu seja presa por matá-lo.
Voltei ao trabalho tentando organizar as informações que chegaram da fábrica e enviar os e-mails para os investidores. Quando eu mexia nos arquivos que a equipe de marketing havia me mandado para a pasta compartilhada do Albert, Dassy chegou saltitante na minha mesa.
Ela sempre usava roupas caras e exalava perfume importado por onde passava, era morena e muito baixinha, por isso sempre usava saltos exageradamente altos para compensar a falta de tamanho. Era sempre tinha uma energia contagiante que nunca vi em mais ninguém e facilmente ficamos amigas.
— Lyyy, nem te conto! — Ela bateu palminhas e eu revirei os olhos.
— Pode falar. — Virei-me para o notebook.
— A vaca da Celine conseguiu 12 anos. — E ela soltou uma gargalhada alta e sonora. — 12 anos pra encontrar o destinado! Sabe o que é isso? Vingança do destino!
— Você não existe, Dassy! — Falei balançando a cabeça reprovando seu comentário, mas com um sorriso cúmplice nos lábios.
Qual é? A Celine era mesmo uma vaca!
— Ai, estou quase subindo nas paredes. Faltam só 3 meses! — Ela apontou para o braço esquerdo que continha o relógio digital com o tempo anti-horário até o encontro do seu destinado.
— Se eu fosse você nem me animava muito. — Falei. — Vai que seu destinado seja um velho de 40 anos?
— Vira essa boca pra lá! As videntes nunca erram! — Ela resmungou.
Dassy era uma das fiéis aquele sistema.
Aos 21 anos todas as garotas recebiam um relógio com o tempo marcado até encontrarem seu destinado, o amor das suas vidas, enquanto os garotos, aos 20 anos. Antes disso, elas vivem livremente, se divertindo com vários garotos sabendo que seu amor é apenas passageiro. Quando esse tempo — que varia de um a vinte anos — acabava, o relógio vibra e ela olha para frente encontrando seu destinado. Era algo obrigatório, por mais que todo mundo achasse tudo muito romântico, eu ainda tinha um pé atrás com toda aquela história que estou cansada de ouvir desde criança. É bem verdade que aconteceu tudo perfeito com meus pais, mas não acho que isso aplique em todas as pessoas. Não acho que se aplique a mim. Principalmente porque já era difícil manter duas pessoas de barriga cheia em casa, imagina mais uma!
— Você é muito incrédula, . — Dassy falou com um careta. — As videntes vão acabar colocando um cara de 40 anos da Ala Z pra você.
Revirei os olhos.
— Você sabe que não pode casar com alguém que não seja seu destinado, ao menos se você quiser continuar morando nessa cidade. — Continuou seu discurso.
— Tem trabalho pra fazer não? — Fiz uma careta debochada cortando seu discurso.
— Foi bom falar com você, . A Mary avisou que depois te manda as palavras-cruzadas do jornal. — Ela deu um beijo estalado em minha bochecha e saiu do meu campo de vista.
Me acomodei na cadeira giratória pronta para voltar ao trabalho, mas Albert passou como um furacão pela minha mesa deixando uma pilha de papéis.
— Organize tudo e grampei. Tudo deve está em ordem daqui a 15 minutos e nos devidos lugar da sala de reunião. — Disse checando o relógio. — Se apresse, por favor.
— Sim, senhor. — Peguei o grampeador já pronta para começar quando o telefone começou a tocar. Estiquei minha mão e pus pendurado no meu ouvido e comecei a organizar os papéis.
— CEO, Coral. Escritório do senhor Albert Carter, bom dia. — Falei fitando meu chefe de relance que continuava ali.
, amada! — Nas primeiras palavras deduzir ser Carol Carter a dona da voz doce — Passe para o Albert, por favor! Estou tentando falar com ele há séculos.
Albert decidiu atender sua esposa em seu escritório e eu corri para a sala de reuniões com os papéis nas mãos. Assim que cheguei à sala vazia, suspirei exausta. O dia estava apenas começando.

...

Assim que entrei no refeitório da empresa senti o cheiro bom de carne assada. Depois de me servir, fui direto a mesa onde Dassy estava sentada com outras garotas. A maioria delas já havia almoçado, mas por conta da reunião que se estendeu mais do que o esperado só consegui sair às duas. As meninas me conheciam e conversavam sem problema perto de mim mesmo sendo a mais nova do grupo.
Quando dei a primeira garfada e senti a carne se despedaçar em minha boca quase choro de emoção. Virei-me pra trás e encontrei a jamaicana que é responsável pela comida olhando para mim com expectativa, mandei um sinal de positivo com meu polegar e beijei as pontas dos dedos indicando o quanto eu havia gostado.
—... Logo depois nós nos acertamos. Mesmo sendo tímida, ele foi muito paciente comigo. — Comentava Mary com um sorriso besta nos lábios e as meninas acompanharam com um "ah" sonhador. Os olhos da recepcionista brilhavam só de falar de seu esposo e destinado. Ela olhou para mim e tirou os papéis de jornal recortados do bolso e me entregou.
— Não sei por que você gosta dessas coisas. — Ela comenta mexendo nos cabelos loiros.
— Amuletos da sorte. — Dou os ombros e como mais uma garfada.
— Ei, quando você vai pegar seu prazo, ? — Fran pergunta enquanto arruma os seus óculos que escorregam pelo seu nariz.
— Acredita que não lembro? Recebi a carta do governo, mas não olhei ainda por falta de tempo. — Comentei.
Era verdade. Parecia que o universo conspirava para que eu não visse a carta, sempre tinha algo de mais urgência para fazer. Como naquele momento onde matar a minha fome era muito mais urgente.
— Ouvi uma história de uma mulher que não acreditava nos prazos e quando encontrou o destinado e ele foi cumprimentá-la, ele morreu atropelado. — Falou Franz.
— Que trágico! — Dassy comentou chocada. — Se você não tomar cuidado, , sua história vai ser assim.
Um calafrio corre pela minha espinha. Só de pensar em matar alguém por causa da minha teimosia senti meu estômago revirar e comecei a comer mais rápido.
— Ninguém vai morrer por minha causa, Dassy, deixa disso. — Disfarcei.
Em dez minutos terminei minha comida e voltei a meu andar com a desculpa de que sr. Carter precisava de mim no escritório. Não era a primeira vez que alguém me contava histórias de quem não seguia sua vida com seu destinado ou de quem não acreditava nos prazos — apenas encontrei um casal que era feliz sem serem destinados um ao outro, mas era simplesmente porque antes de se casarem eram viúvos de seus destinados. Por mais que eu gostaria de insistir na minha teimosia, não queria prejudicar ninguém — não mesmo.
Abri a carta às pressas torcendo para que fosse amanhã ou daqui há uma semana. Pulei a parte democrática da carta e fui logo para o quadrado amarelo com detalhes em vermelho indicando meu horário: 15 de setembro/15:15
Merda! Era hoje!
Eu tinha cerca de menos de uma hora para chegar ao Centro de Prazos Femininos. Peguei minha bolsa e joguei tudo que era meu sem cerimônia, bati na porta de Albert sem moderação, desesperada para que ele estivesse ali; por sorte, ele atendeu logo com cara de poucos amigos.
— O que está acontecendo, ? — Indagou a me ver aflita.
— Hoje é o dia de pegar meu prazo, senhor, e acabei esquecendo! — Apontei para a carta em minhas mãos e ele arregalou os olhos.
— Ai meu Deus! — Ele exclamou. — Vá, pode ir! Não precisa voltar mais hoje. Está liberada. — Disse todo enrolado. — Boa sorte, senhorita !
Corri desesperada e por causa do meu atraso tudo parecia andar lento: o elevador demorou a subir, demorou a descer e ainda tive que pedi licença para dezenas de pessoas que se aglomeravam no salão principal da Coral. Assim que estava na rua olhei para os lados tentando projetar um atalho. O centro da cidade é enorme e se não tivesse cuidado até mesmo eu que moro aqui desde sempre posso me perder.
Meus pensamentos foram interrompidos quando duas vozes gritaram "táxi" e seguraram a porta do mesmo veículo. O casal virou-se um para o outro prestes a dizer algo para conseguir o transporte, porém o barulho dos seus braços esquerdos vibrando e caindo no chão foi ouvido. Um sorriso automático nasceu em seus lábios e o homem concedeu para que a mulher entrasse e os dois dividiram o táxi.
Aquela cena de filme me fez ficar extasiada com a ideia de me apaixonar assim tão fácil. Será que isso poderia acontecer comigo? Nunca tinha presenciado um fim de prazo antes e aquele cenário era um tanto fictício.
Apressei o passo para a direita e fui correndo em meio aos carros que não paravam de buzinar até o prédio dos prazos femininos. Foi fácil encontrá-lo já que era o único de cor vermelha no mar de prédios espelhados. Assim que subi os três primeiros degraus pisei em falso e quase caí. Trinquei os dentes e massageei meu tornozelo, entretanto, o pior aconteceu quando levantei o pé para voltar a andar; meu salto havia se quebrado.
Retirei meus sapados e joguei na lixeira mais próxima. Descalça e com nenhum pingo de paciência, entrei no prédio. Meu cabelo colava em minhas costas e testa e eu podia senti o cheiro de suor por todos os lados. Os pais que aguardavam suas filhas me olharam de lado pela minha situação precária, porém corri até o elevador para subir ao décimo segundo andar. Quando adentrei na sala onde as garotas esperavam para serem chamadas o grande relógio digital marcava exatas três horas e dez minutos. Suspirei exausta e me afundei em um dos bancos agradecendo aos céus por alguém ter inventado o ar-condicionado. Ponderei aqueles cinco minutos que me sobravam entre normalizar minha respiração e fitar as imagens de casais apaixonados e família felizes nas paredes. Tudo me parecia um mundo irreal e impossível, todavia não consegui pensar muito e corri de ponta de pés até a aba 15 quando meu horário foi anunciado no painel.
Sentei-me na cadeira me deparando com uma placa escura e preta para proteger a identidade das videntes. Dizem que elas estão entre nós, só que não sabemos quem são elas. Ou algo assim.
— Hm... — ouvi uma risada fraca e alterada e eu tentei arrumar meus cabelos e parecer desinteressada. — Uma puritana, mas por motivos diferentes. Parece que você é uma garota muito obediente a sua mãe.
Enrijeci e um calafrio atravessou meu corpo.
Ninguém sabia disso. Como ela poderia saber? Pra todo mundo que me perguntava eu dizia que já tivera um namorado "temporário". Eu apenas continuei puritana por causa de uma promessa que fiz a minha mãe quando ela ainda conseguia lembrar meu nome. Como a vidente descobriu?
— Está na hora de virá a página de sua vida, criança. — Ela disse e eu franzi a testa sem entender. — Ou melhor, trocar de livro.
Então, ela se calou. Comecei a balançar a perna de nervosismo — não estava entendendo nada e até agora não havia ganhado meu prazo.
— Você pode... — cocei a garganta. — Dizer algo sobre o meu destinado?
Precisava saber com quem eu iria lidar e um pouco de curiosidade me corroía. Fazer uma perguntinha não tinha mal, tinha?
— Não. — Respondeu secamente. — Seu prazo é 43.800 horas. 5 anos. Pegue seu relógio.
O barulho apitou e uma gaveta apareceu com um relógio digital preto com meu prazo.
— Ah! — tentei soar animada, sem muito sucesso, e coloquei o no pulso esquerdo. — Obrigada.
Me levantei e as garotas que esperavam sua vez me olharam esperando uma reação. Apenas mexi o relógio no pulso incomodada e saí andando em direção ao elevador.
Assim que apertei o botão para o térreo constatei três coisas:
1° Sim, as videntes sabem de tudo. São os olhos que tudo ver. Tudo mesmo.
2° Eu tinha cinco anos para aproveitar minha vida até encontrar alguém que provavelmente vai colocá-la de cabeça pra baixo.
3° Assim que eu saísse do Centro de Prazos Femininos era minha OBRIGAÇÃO comprar um bom sapato.

...

Pensei em ir pra casa depois que comprei uma sapatilha simples para mim, mas após está devidamente calçada, decidi ficar um pouco a sós com meus pensamentos. Me sentindo um pouco egoísta, fui andando devagar até a praça mais próxima. Os casais que antes não costumava reparar andavam de mãos dadas se divertindo com a companhia um do outro. Suspirei.
Talvez aquilo pudesse se aplicar a mim. Se ele for da ala O nós poderíamos dividir as contas e talvez meu destinado tivesse uma casa própria. Mas e se ele também for provedor de sua família? E se ele tiver pessoas que dependesse cem por cento dele? Pior seria se meu destinado fosse um vagabundo das alas inferiores e quisesse viver as minhas custas. Ou quem sabe alguém das alas maiores e fosse preconceituoso com a vida que tenho levado.
Fiquei divagando em possibilidades até o fim da tarde quando voltei para casa. Por alguns minutos esqueço sobre o prazo ou o relógio do meu pulso e apenas me concentro nas palavras-cruzadas que Mary havia me dado. Infelizmente, antes de chegar em casa eles acabam e fico sem ter o que pensar por um bom tempo quando estava no último ônibus. Logo, minha barriga ronca e eu vibro para voltar para meu lar e preparar qualquer coisa que me sacie.
A rua onde eu morava estava repleto de crianças brincando de corda, esperando cada uma pela sua vez. Vi que Jack, o menino carequinha que comandava o grupo, estava em sua vez de pular, então, corri e entrei na brincadeira sem que me chamasse. As risadas das crianças e um coro de vozes infantis gritando "" foram como uma permissão para mim e, antes que prestasse atenção, eu estava brincando de corda como uma criança novamente.
—... Senhoras e senhoras ponha mão no chão. — Quando elas cantavam uma das frases, Jack se enganchou e acabou errando.
— Errou! — Gritei e ri animada.
Eu adorava as crianças da ala O. A alegria e saúde que elas esmanjavam fazia toda aquela vida ser menos deprimente. Eram como os irmãos que nunca tive e sempre que eu podia dava uns trocados a elas.
— Tia , você pode comprar uma rifa? — Uma menininha me pediu. — É pra uma apresentação na escola.
Queria muito, muito mesmo ajudar. Aquelas carinhas de anjo derretia meu coração, porém eu estava sem nenhum centavo.
— Deixe para a próxima, está bem? — Baguncei seu cabelo.
— Você vai sábado, né , ver a gente? — Jack me perguntou assim que me viu voltar a andar em direção a minha casa.
— Não perco isso por nada! — Respondi com um sorriso.
Nossas casas são basicamente coladas e tinha uns pequenos degraus que se dividiam apenas por um muro baixo. Quando dou duas batidas na porta para avisar que cheguei, aparece na casa ao lado quase me dando um susto.
era irmão da Jean e era o que chamamos de "faz tudo". Se alguma coisa quebrasse era só pedi para que ele concertasse por um preço bom e logo estaria resolvido. Ele colocou os cabelos pretos para trás e coçou seus olhos castanhos claros iguais ao da irmã.
— Obrigada pelo chuveiro. — Agradeço já que não estava em casa quando ele havia feito o serviço. — Quanto você quer pelo trabalho?
Ele levanta a sobrancelha e sei o que vai acontecer. Eu e , desde crianças, fazíamos negociações. Ele era muito bom, mas, modéstia a parte, eu era melhor.
— Cinquenta. — Ele disse.
— Trinta e cinco. — Cruzo os braços.
— Quarenta. — Ele responde.
— Trinta e sete e não pago mais do quê isso. — Finalizo e abro a porta.
— Você ainda vai me falir, . — Ele resmungou.
Entrei em casa e fui direto para a sala. Jean está sentada ao lado da minha mãe falando baixinho e ela tem um olhar vago nos olhos. Suspirei.
— Oi Jean. Oi mãe. — Cumprimento. Jean responde com um sorriso no rosto e passa a mão em seu cabelo preto arrumando seu rabo de cavalo.
— Olha que chegou, dona Letícia, sua filha. — Disse animadamente.
Era isso que ela dizia toda vez que eu chegava em casa nos últimos quatro anos e pensar nisso fez meus olhos marejarem. Me controlei e esperei uma resposta da minha mãe.
— O-oi. — Disse com dificuldade e sorriu.
O sorriso da minha mãe é sincero e muito inocente. Porém, ela não foca muito em mim e volta o olhar para algum ponto invisível.
— Está com fome? — Perguntei jogando a bolsa em algum canto. Ela balançou a cabeça concordando.
Ajudei a se levantar segurando seu braço esquerdo e sussurrei para Jean.
— Obrigada por me ajudar. Quando eu receber lhe pago.
— Sem problemas, . — Respondeu e então fitou meu pulso com o relógio digital.
Ela agarrou meu braço livre e fez uma careta animada.
— Você já ganhou seu prazo! — Ela disse controlando o tom de voz. — Quanto tempo?
— 5 anos. — Respondi e minha mãe sentou na cadeira da mesa olhando para os lados sem saber exatamente o que fazia ali.
— Vou cozinhar pra você, ok mãe? — Falei, mas não espero a resposta.
Jean, que ainda tinha 19 anos e não tinha ganhado seu prazo, parecia extasiada com o relógio do meu pulso e ainda mais maravilhada ao ouvir minha resposta para sua pergunta.
falta apenas 5 anos também! — Ela respondeu e seus olhos brilhavam como pedras preciosas. — Talvez ele seja seu destinado.
Meu estômago se revirou e aquilo fez meu coração palpitar como uma britadeira. ? Meu destinado? Isso era ridículo!
— Claro que não. — Respondo incerta. — A chance de ter um destinado que você conheceu antes do prazo é quase nula.
— Eu sei. — Ela suspirou. — Mas eu queria tanto que você fosse minha cunhada. Tenho medo de arranjar alguma nojentinha.
Ri com aquilo e dei tapinhas nas costas dela.
— Ele gosta de você. — Ela disse se encostando-se no balcão. — Ele ama você. E saber que seus prazos são parecidos vai fazê-lo saltitar de alegria.
Passei a mão no rosto, cansada daquela história.
Claro que eu sabia que gostava mais de mim do que o normal; ele já havia me dito isso. O grande problema é que por mais que ele fosse bonito, gentil e um pouco engraçado, eu não conseguia me ver o fazendo feliz. Ele era uma pessoa muito boa e merecia uma mulher tão boa quanto ele. Eu nunca teria tempo pra me dedicar a alguém, muito menos sabendo que, provavelmente, o amor da vida dele apareceria uma hora ou outra. era louco o bastante para ir morar nas fazendas perto das cidades por causa de um amor, mas eu não.
E depois, ele não faz o meu tipo. Não que eu tenha um tipo padronizado, mas ele... Hm... Tá ai uma coisa que não confessaria em voz alta: ele era muito musculoso. E, meu Deus, eu tinha medo de homens assim! Tenho impressão que eles podem me quebrar em pedacinhos.
— Se for pra ser, será. — Respondo quando coloco água para ferver.
Contudo, se ele for meu destinado, eu teria vantagem. Talvez até me apaixonasse por ele. Ou se não desse certo, nós decidiríamos em ficar longe um do outro, ele iria encontrar alguém legal e fugir para fora da cidade, enquanto eu receberia indenização do governo. Aquilo era um bom plano.
— Vou indo, . Até amanhã. — Jean beija minha bochecha, se despede da minha mãe e vai em direção a sua casa.
Peguei o frasco de remédio de minha mãe e suspirei ao ver que tinha apenas dois comprimidos. Cocei a têmpora já sentindo dor de cabeça e tudo o que deu errado naquele dia veio à tona. Uma tristeza invadiu meu coração e senti minhas costas ficarem mais pesadas.
Quis chorar, mas segurei as lágrimas porque mamãe me olhava e altas demonstrações de emoções poderia afetar seu humor. Todavia, meu limite foi estourado quando ela, franzindo o cenho, me perguntou curiosa.
— Quem é você?

Capítulo 2

4 anos e duas semanas depois

Lorenzo Martin era um dos maiores empreendedores espanhóis que existia atualmente e fazia jus a sua fama. Quando a notícia de que ele estava interessado pelas ações da Coral estourou pelo prédio a empresa entrou em um caos generalizado. Aquela reunião era de suma importância, pois seria nela que Lorenzo decidiria se ele compraria as ações ou não. Tê-lo como um dos nossos acionistas seria a peça chave que Coral precisava para poder competir de verdade com a liderança de vendas em artigos escolares e finalmente sair da terceira posição.
Qualquer pessoa poderia sentir em um raio de 1 quilômetro a tensão que todos exalavam na reunião. A sala estava escura e fria, era apenas iluminada pelo retroprojetor demostrando a vídeo conferência que Lorenzo fazia. Albert estava uma pilha de nervos aquela semana já que ele era quem conduziria aquele encontro. O nosso tradutor oficial passou as mãos no rosto exausto depois daquelas longas três horas sem sair de lugar algum.
Eu devia ficar em pé perto da mesa prontificada à espera de algum pedido de meu chefe, entretanto, minhas pernas doíam. Assim como a maioria das outras secretárias, encostei-me à parede e tentei me concentrar no que o espanhol dizia.
Era a primeira vez nos últimos anos que eu entendia o espanhol de alguém sem precisar recorrer a um intérprete ou dicionário e estava muito orgulhosa de mim mesmo em relação a isso. Logo quando tive oportunidade, comecei a fazer um curso de espanhol pela internet. Mal tinha tempo para dormir depois daquilo, mas o resultado estava ali mostrando que valia a pena.
Mais meia hora se passou e senti como correntes puxassem minhas pernas para baixo de dor, mas ignorei assim que percebi que o que Lorenzo estava falando era a conclusão de tudo; deixei minha mente vagar em pensamentos sobre o resto da minha noite com os pés apoiados na parede no alto deixando o sangue circular normalmente, quando percebo o que realmente Martin dizia.
Ele não compraria as ações da Coral.
Meu chefe ficou mortificado com aquela notícia, mas, por ser profissional, apenas insistiu mais um pouco para que ele reconsiderasse a ideia, entretanto, Lorenzo foi impassível. Disse que a empresa não tinha o potencial especulado e que ainda era cedo para uma ‘‘parceria’’ como aquela. Depois de se despedirem e a imagem do espanhol desparecer do telão, as luzes foram acesas. Os rostos denunciavam a insatisfação, era uma mistura de cansaço e fracasso que me deu nos nervos apenas de observar.
O senhor Carter veio em minha direção e me preparei psicologicamente para aguentar o resto da tarde com seu velho mau humor, porém, me surpreendi, pois ele apenas me pediu para que repassa-se a ata da reunião que eu havia feito para os outros diretores executivos e seguiu para sua sala em silêncio.
Obedeci, mesmo sem entender muito bem, e fui até a minúscula sala da copiadora com a ata em mãos. Enquanto a impressora fazia seu trabalho, sentei em uma cadeira que havia naquele compartimento relaxando as pernas. Fechei os olhos pensando se dá uma cochilada ali seria errado.
Me assustei no momento que Mary entrou na sala como um tornado e trancou a porta rapidamente para que ninguém a visse. Ela deu um salto assustado à medida que me viu e tentou enxugar seu rosto para que eu não percebe-se que ela chorava. Seus cabelos loiros estavam bagunçados e seus olhos vermelhos a denunciavam. Embaraçada, Mary desviou o olhar para o chão antes que eu dissesse alguma coisa.
— Ele de novo, não foi? — Perguntei solidariamente.
Acontece que o casamento de Mary e Robert não estava em seus melhores momentos. Depois que ele foi demitido, e já fazia dez meses, ele tentava arrumar um novo emprego e nada.
Estabilidade não existe, disseram uma vez para mim.
Era verdade. Não era comum encontrar uma pessoa formada em engenharia sem um emprego, principalmente alguém tão jovem quanto ele. Robert tinha o ego inflamado e ser sustentado pela esposa não estava em seus planos de vida nem em um universo paralelo. As brigas só começaram quando ele resolveu descontar suas frustrações na bebida e ter começado a ameaçar se matar.
— Eu não sei o que fazer . — Ela entrou em prantos. — Tenho medo de que dessa vez ele se mate de verdade.
— Primeiro você tem que se acalmar. — Falei. — Tem algum problema ir ao apartamento só dá uma olhadinha...?
Mary balançou a cabeça concordando.
— Estamos ficando sem dinheiro, não posso sair de novo. — Ela disse colocando o cabelo por trás da orelha. — Em questão de tempo vamos acabar caindo para Ala M. Deus me livre! — e riu nervosa.
Olhei para ela com cara de poucos amigos e ela entendeu quão ofensivo aquilo soara. Era normais as pessoas subirem ou descerem de alas, eu mesma era de uma ala menor que ela, mas não significava que aquilo era o fim do mundo.
— Não, não quis ofendê-la, . — Falou rapidamente.
— Tudo bem. — Deixei aquilo passar e peguei os papéis que acabaram de serem impressos.
— O que eu faço ? — Ela perguntou segurando na minha mão livre esperançosa.
Mary era uma das mulheres mais maduras que já conheci, porém quando era algo relacionado ao seu destinado ela perdia a cabeça e parava de pensar sensatamente. Mesmo com aqueles problemas ela amava demais Robert e nunca, em hipóteses alguma, o abandonaria.
— Ligue para a mãe dele passar por lá, pra dá uma olhada, distraí-lo e afins. — Expliquei. — Depois acho que você vai ter que parar de dá qualquer dinheiro ou cartão de crédito para ele, aliás, já devia ter feito isso há muito tempo. Vai mantê-lo sóbrio por um tempo.
Ela assendia atenta.
— Dai você irá divulgar o currículo de seu marido na internet e orar para o deus dos desempregados. — Acrescentei e ela abraçou-me forte quase me quebrando ao meio.
— Ótima ideia, . Obrigada, obrigada, obrigada! — Ela disse e logo me soltou.
Murmurei um “por nada” e voltei para a minha mesa.
Senhor Carter não saiu de seu escritório o resto da tarde. O prédio ficara em um silêncio fúnebre a tal ponto que eu conseguia ouvir o barulho do trânsito em alta intensidade mesmo que estivesse no sétimo andar.
Não consegui entender exatamente o porquê de não ter Lorenzo Martin como acionista poderia ser uma perda tão grande a Coral, mas decidir ficar quieta. Quando meu horário acabou, fui até a sala de Albert perguntá-lo se gostaria que eu fizesse algo ou ficasse; ele negou com a cabeça e disse que não precisaria da minha ajuda mais naquele dia.
Saindo do prédio, pude ver Dassy entrando no carro esportivo de seu esposo fotógrafo. Foi um susto para ela ter um destinado da Ala N, mas Mark era um homem bastante talentoso no que fazia. Claro que ela não aceitaria está com alguém de uma Ala tão inferior a dela, mas aquele charme irritante dele a comprou. Questão de tempo e ele conseguiu subir duas Alas depois de “magicamente” começar a receber modelos ricas e famosas em seu estúdio fazendo seu sucesso aumentar gradualmente.
A festa de casamento deles aconteceu em um pub não muito conhecido e muitos se assustaram por verem a noiva com um vestido colorido, não o casual branco. Não me pergunte do resto — estava bêbada demais para lembrar. Só sei que foi a última vez que tomei um porre para me divertir, aquela ressaca quilométrica me fez tornar uma anti álcool de carteirinha.
Estávamos em uma sexta-feira e, para variar, eu dei umas cochiladas no ônibus. Me sentia exausta e só queria chegar em casa, receber uma massagem nos pés e dormir o final de semana todo. Infelizmente, só conseguiria realizar meu primeiro desejo.
A verdade era que eu estava ficando velha e no momento a tpm estava em seu auge — 26 anos nas costas pesava como 35. E há tempos estava começando a desejar um parceiro ou alguém para compartilhar meu dia. Antes, Jean, Ivanna e minha mãe eram minhas confidentes, porém desde que a primeira começara a faculdade de enfermagem, depois de muito esforço para conseguir a bolsa de estudos, fiquei sozinha com minha mãe que aquela altura não conseguia mais falar ou fazer qualquer coisa sem auxílio. E ainda tinha Ivanna, minha segunda mãe, que apenas a via uma vez por semana e olhe lá.
Até procuraria alguém para ser meu namorado e jogar todas as minhas frustrações nele, mas a promessa que eu havia feito a minha mãe tinha que ficar intacta.
Quando tinha completado 15 anos e a situação da minha mãe começava a preocupar, Leticia me fez sentar à sua frente e prometer duas coisas. Uma delas era que eu devia fazer faculdade em vez de trabalhar depois do ensino médio e a segunda era que deveria me guardar totalmente até encontrar meu destinado — se iria me apaixonar ou não, ela não poderia controlar, mas até conhecê-lo deveria ser assim.
Sobre a primeira promessa fiz questão de quebrar, porque, sinceramente, aquela merreca que o governo chama de ajuda de custo mal dava para pagar os remédios que minha mãe toma o mês todo, porém a segunda era mais fácil de manter. Sempre tive a curiosidade pra saber como era beijar ou transar, mas por causa da minha insegurança em saber se eu iria fazer direito ou não achei a promessa da minha mãe um pretexto pra que fugisse dessas pressões da adolescência.
E lá estava eu, uma mulher de 26 anos que nunca beijou alguém na vida. Patético.
Balancei a cabeça sem entender o porquê de ter cogitado a ideia de entrar em um relacionamento quando, claramente, eu andava sem tempo para isso.
Assim que faltava apenas uma palavra para terminar as palavras-cruzadas do dia o ônibus parou no meu ponto. Desci do veículo já olhando para os lados atentamente, pois nos últimos anos, depois das novas eleições, meu bairro passou a ser mais perigoso.
Apressei um pouco o passo para chegar logo em casa quando a voz — agora grave — de Jack me fez parar subitamente.
— Hey, , não fala mais não?
Aquele garotinho carequinha tinha completado seus 14 anos a poucos meses. Sua voz estava mudada assim como seu corpo estava reformulando e conquistando novos músculos.
Preciso urgentemente descobri o que estão colocando na água desse bairro.
Ele ainda mantinha seu corte de cabelo meio careca e estava rodeado de adolescentes de sua idade. Havia boatos pela rua de que ele tinha se envolvido com drogas, mas segundo a conversa que tive com o tal há algumas semanas, isso não passava de fofoca.
Queria muito acreditar nele, mas Jack era o tipo de garoto propenso a se envolver com isso: seu pai, um cretino, diga se de passagem, o abandonou porque estava fugindo da polícia, sua família era um pouco mais pobre do que a minha, ele vivia nas ruas e tinha uma meia irmã pequena. Ah, e seu ex padastro, por sinal, abandonou sua mãe também. Sem uma figura paterna e naquelas condições, se ele se envolvesse com o tráfico de vertigo seria ‘‘justificável” — uma pena, porque, como um dia disse a ele, Jack tinha potencial para ser um grande líder.
Sorri fracamente, constrangida por não ter falado com eles.
— Oi gente! — Cumprimentei. — Estava apressada, não os vi aí.
— Relaxa pô! — Foi a vez de Jack sorri.
Fitei a pequena fachada de casa com uma careta. A tinta de baixa qualidade estava debotando e os fungos a fizeram ficar cheia de manchas pretas. Estava um horror, precisava mudar aquilo.
Entro dentro de casa e encontro Jean segurando um livro grosso no colo enquanto fazia anotações. Ela morde a tampa da caneta e parece concentrada. Cruzo os braços e me apoio na parede a observando. Jean tinha se tornado uma mulher linda e sexy deixando qualquer uma do gênero feminino — inclusive eu — com inveja.
— Estudando para as provas? — Perguntei fazendo-a sair de seu transe e olhar para mim.
— Sim, esse semestre está uma merda. — Ela comentou frustrada tirando o livro do colo e começando a arrumar suas coisas. — Sua mãe dormiu hoje sem precisar dos remédios. Provavelmente ela vai acordar no meio da noite agitada, então, trate de dá-los, ok?
Concordei com a cabeça.
— Jean, chame seu irmão pra vir aqui, por favor. — Peço quando olho para cima e vejo que mais uma vez o teto da sala estava vazando água. — Preciso que ele me faça um orçamento.
Ela assendiu e foi em direção a sua casa.
Dei uma conferida no meu quarto para ver se minha mãe ainda dormia, tirei meus sapatos e deitei no sofá com os pés para cima. Fechei os olhos para relaxar enquanto sentia uma sensação fria e boa descendo nas minhas pernas. Programo, então, o que fazer naquela noite: Falar com , tomar banho, comer e dormir.
Ouvi três batidas conhecidas na porta e o barulho dos passos foi ouvido. Sentei-me ereta no sofá e tentei arrumar meus cabelos.
, já cheguei. — Ele avisou e em seguida apareceu na porta da sala.
usava uma camisa preta e uma calça jeans de lavagem clara — todo sujo de tinta rosa e branco. Ele sorri para mim fazendo as pequenas rugas em seus olhos aparecerem e um brilho dourado incendiou seus olhos claros.
Engoli o seco ao senti uma sensação de desconforto me dominar. Havia tempos que a presença de deixara de ser tão indiferente para mim e eu odiava admitir isso. Seria bem mais fácil se ele fosse um pouco mais feio.
— Por quanto você faz pra pintar a frente de casa e arrumar esse teto? — Apontei para cima e ele acompanhou meu movimento.
— Você vai querer que eu traga a tinta ou..? — Ele perguntou se aproximando e sentando do meu lado.
— Vou comprar na sexta. — Respondi me afastando alguns centímetros. — E esse vazamento?
— Olha, , vou ser bem sincero... — Ele passou a mão pelos cabelos pretos. — Acho que isso só se concerta com um novo cano e vai sair caro.
Passei a mão no meu rosto já vendo os zeros à esquerda da minha conta aumentar.
— Eu faço um preço bom pra você, está bem? — Ele disse ao ver minha cara.
Murmuro um agradecimento pensando em que conta mirabolante terei que fazer para poder pagar o concerto.
— Você vai amanhã levar sua mãe pra clínica? — Puxou o assunto e eu concordei com a cabeça.
— Só de pensar no dia de amanhã fico cansada. — Comentei e ele riu.
— Eu vou pra lá amanhã também. — Ele disse casualmente. — Vem cá, você tem a noite livre amanhã?
— Não, vou ficar com minha mãe. — Respondo estranhando sua pergunta.
— Ah... Estava pensando se nós poderíamos sair... — Ele coçou a nuca e desviou o olhar para o chão. — Eu posso falar com Jean se você quiser.
Encarei-o sem entender exatamente aquilo. Mesmo que já tivesse se declarado para mim, ele nunca tentou uma aproximação de verdade como me chamar para um encontro; lembro-me de ter deixado bem claro que não sentia o mesmo.
O que o fizera, depois de anos, ter tentado apenas agora?
, acho que já falamos sobre isso. — Disse, mas pela primeira vez não tive tanta certeza sobre minhas palavras.
disse que me amava quando eu tinha uns 20 anos e foi justamente no dia em que ele havia pegado seu prazo. Desde então nós nos afastamos e nossa amizade mudou, mas só nos últimos anos comecei a perceber que estava sentindo falta dele mais do que deveria e uma sensação estranha começou a me corroer quando as pessoas falavam seu nome.
Algo de muito errado estava acontecendo comigo.
— Me dê um bom motivo. — Peço desafiando-o.
Ele deu um sorriso esperto e seu olhar me revelou que já esperava por aquela atitude minha. Calmamente ele pegou meu pulso esquerdo onde estava meu relógio com o Prazo e o pôs paralelo ao dele. Quando me deparei com os números dos nossos relógios iguais prendi a respiração.
— Você é minha destinada. — Ele sussurrou e eu me arrepiei toda com aquela informação.
Era muito fácil esquecer que aquele objeto estava ali pronto para decidir meu futuro, aliás, Ivana me falara diversas vezes sobre como eu deveria ser legal com meu destinado e todo aquele blablabla. Agora os números tão iguais que marcava nosso prazo cruzavam também o nosso caminho.
era meu destinado.
Olhei para ele com a boca aberta sem acreditar que eu havia tido a chance de conhecer meu destinado antes do prazo e que ele sempre esteve ao meu lado. Literalmente.
— Mas... Mas... — Tentei formular uma frase coerente, mas não deu muito certo.
— Eu queria esperar até o dia para provar pra você, mas, , não consigo aguentar de ansiedade. — seus olhos brilhavam.
Meu coração batia rápido demais quando delicadamente ele acariciou meu rosto com o polegar. Seu olhar fitou meus lábios, mas ele se afastou quando alguém passou buzinando pela rua. se levantou rapidamente e eu fiz o mesmo se entender nada do que acontecia exatamente.
— Venho te buscar as sete. — Avisou sorridente e sumiu do meu campo de visão.
Não sei quanto tempo fiquei no meio da sala em pé tentando absorver aquelas informações. Subitamente o meu lado racional que havia ficado neutro durante aquela situação me lembrou que poderia ser apenas uma grande e bombástica coincidência, que talvez não fosse meu destinado. Eu não sabia muita coisa sobre o sistema, mas além de descobrir que nem todo mundo tem um fim trágico por não aceitar seu destinado, também sabia que naquela sociedade não existia coincidências em relação a prazos.
Eu tinha quase 99% de chance de ser a destinada dele.
Um barulho vindo do meu quarto me tirou de meus devaneios e eu corri para ver oque era. Minha mãe se debatia na cama com os olhos arregalados e estava ofegante. Aproximei-me e segurei seus ombros para que ela relaxasse.
— Está tudo bem, foi só um sonho ruim. — Falei calmamente e a ajudei a sentar na cama.
Retirei seus cabelos ralos da frente do rosto e coloquei atrás de sua orelha. Seus olhos verdes me miravam atentamente enquanto eu massageava seus ombros.
Minha mãe estava magra e parecia estar mais velha do que era. Tornou-se perceptível o quanto a doença a atacara — nem mesmo andar ela conseguia mais. Esperei-a parar de se agitar e lhe dei um calmante recomendado pelo médico. Sentei em seu lado para que ela deitasse em meu ombro e comecei a acariciar seus cabelos enquanto falava sobre meu dia e o quão confuso fora. Provavelmente ele não entendia, mas o tom da minha voz a fazia se concentrar em mim.
Minutos depois minha mãe dormia calmamente ao meu lado. Beijei sua testa e sussurrei “eu te amo”. Antes que eu percebesse também estava dormindo não seguindo o programa que havia feito para aquela noite.
Mas quem se importava? Era bom demais que dormir abraçada com minha mãe.

...

Às 10 horas da manhã a van oferecida pelo governo buzinava na frente de casa. Junto com Jorge levei minha mãe nos braços e a cadeira para conduzi-la sem problemas quando chegasse à Clínica San Tomaz.
A Clinica San Tomaz era uma das melhores e maiores instituições públicas do país em tratamento de doenças, onde atendia desde a viciados em drogas a pessoas com Mal de Alzheimer como minha mãe. Quase toda semana eles desenvolviam algum trabalho social para as crianças e adolescentes da cidade tirando muitos do bombardeio da violência que culminava em meu bairro.
Lá era um dos poucos lugares onde a Ala não importava; havia pessoas desde A a Z vivendo em uma harmonia que chegava a ser utópica. Entretanto, a verba que ia para a clínica tinha sido reduzida desde que Aitofel deixou de ser governador do nosso estado, há quase dez anos atrás. Mesmo assim, a clínica não perdeu seu prestígio. Quase toda semana alguns adolescentes se organizavam para fazer peças ou shows de uma banda de garagem para arrecadar fundos tanto para clínica quanto para movimentos sociais. Ali era um dos poucos lugares em que você se sentia igual a qualquer um como dizia a lei, todos nós estávamos unidos pelos nossos problemas.
Naquele dia eu havia acordado muito ansiosa e eufórica. Depois de muito pensar, decidir dá uma chance ao . Ele merecia uma oportunidade e, agora que era quase certo nosso destino, parecia ser o justo a se fazer.
Olhei para a janela da van e percebi que a história de destinado não era tão ruim assim — até conseguia imaginar minha vida ao lado de . Balancei a cabeça quando percebi que estava começando a ir longe demais, nem sabia se realmente daria certo! É bem verdade que quando são destinados a chance de separação é mínima, mas as dificuldades não são iguais para todo mundo.
Despertei daqueles pensamentos quando a van parou à frente da clínica e percebi que as pessoas estavam descendo. Com ajuda de Jorge coloquei minha mãe na cadeira de rodas e encarei a grande fachada branca com os letreiros azuis da clínica. Pude ver um sorriso feliz aparecer no rosto da minha mãe ao sentir o vento bater em seus cabelos tão bem penteados para trás.
Os sábados eram um dos poucos dias que eu tinha a oportunidade de ver minha mãe se divertindo. Desde que os sintomas começaram a aparecer me preocupei bastante com sua saúde emocional e sabia que deixa-la o tempo todo em casa não era o caminho que eu deveria seguir. Às vezes a Organização MedAlzheimer fazia palestras na clínica e por meio destas soube exatamente o que fazer para que a doença não acabasse de vez com a vida de mãe.
Autorizei minha entrada e empurrei a cadeira de rodas pela rampa enquanto olhava para os lados procurando o grupo em que ela normalmente ficava. De longe podia ver os grupos sentados na grama conversando, idosos andando de braços dados com suas enfermeiras e crianças reencontrando seus entes queridos. Aquela era a única parte onde não era dividida entre os casos, mas nem todas as pessoas poderiam ficar por lá já que algumas ameaçavam a boa convivência. Aproximei-me de um dos painéis com a programação para pessoas com Mal de Alzheimer e escolhi o teatro de fantoches da Sala 12 que desde sempre minha mãe adorava.
— Acho que você vai adorar a história de hoje, dona Leticia. — A voz de Ivanna chamou atenção de nós duas e viramos o rosto para vê-la.
Ivanna não tinha mais do quê 44 anos e exalava uma jovialidade que poucos tinham, entretanto, seus familiares a consideravam um fardo. Ela teve problemas na formação de seu corpo durante a gravidez de sua mãe a fazendo ter suas pernas atrofiadas. Sua família é da Ala B e ter uma herdeira de uma boutique famosa cadeirante foi assustador para todos eles, era previsível que não saberiam como lidar com essa situação. Não era surpresa que a fizessem se sentir culpada por ter nascido assim e, como consequência, ela se tornou alguém depressiva — uma ótima desculpa para seus parentes a internarem na Clínica. Felizmente ser internada foi a melhor coisa que aconteceu para com ela; mesmo que Ivanna não estivesse mais doente insistira para continuar ali e ela não teve nenhuma dificuldade para ficar.
Foi quase automático fazer amizade com aquela mulher. Ela era divertida e sabia rir de si mesma, logo, ganhei uma segunda mãe que amava costurar roupas em nível de grife para mim e a melhor conselheira de todas.
A família de Ivanna não sabia a preciosidade que estavam perdendo com medo do desconhecido. Tenho certeza que se eles não tivessem a rejeitado e a deixado tomar conta do que era para ser dele por direito, em questão de tempo a boutique faria mais sucesso e, quem sabe, eles não chegassem a ser da Ala A.
Minha mãe a respondeu com o cenho franzido não entendendo exatamente o que ela dizia. Ivanna colocou os cabelos curtos para trás da orelha e se aproximou mais com suas mãos nas rodas sem nenhuma dificuldade.
— Como você está menina ? — Perguntou a mim quando começamos a ir em direção a Sala 12.
— Muito bem e você? — Perguntei e ela concordou com a cabeça.
— Está mais radiante. Aconteceu alguma coisa nova que não estou sabendo? — Ela indagou assim que chegamos a frente da sala.
Sorri, mas demorei alguns segundos para respondê-la.
— Acho que encontrei meu destinado.
Confesso que esperava que ela comemorasse por finalmente ter parado de lutar contra meu destino. Pensei que Ivanna ia fazer milhares de perguntas sobre meu destinado e iria me parabenizar por ter sido sortuda o bastante em encontrar meu destinado antes da hora, mas, em vez disso, ela fez uma careta de desaprovação.
Arrumei um bom lugar para ver a peça e me sentei entre minha mãe e Ivanna. No momento que me sentei diminuíram a iluminação e a apresentação de bonecos teve seu início. Minha mãe agarrou meu pulso, como sempre fazia quando ficava escuro, mas permaneceu quieta observando show de cores. Mesmo não sendo recomendável uma chuva de mensagens para pessoas com Mal de Alzheimer, aquela apresentação conseguia fazer, de alguma forma mágica, que as pessoas vidrassem no que acontecia. Minha mãe era uma dessas pessoas.
— Me explica essa história de você ter encontrado seu destinado. — Ivanna sussurrou para mim.
— É o . — Respondi. — Comparamos nossos relógios, estão iguais!
— Isso me parece muito estranho. — Ela comentou ranzinza. — Cuidado, menina.
— Claro Ivanna. — Garanti e virei-me para prestar mais atenção no teatro de fantoches.
Pensei que a parti dali nossa conversa tinha acabado. Não podia estar mais que remotamente errada. A verdade é que Ivanna era uma das pessoas mais desconfiadas que eu conhecia e, geralmente, sua desconfiança fazia sentido. Aliás, fora ela que tirou da minha cabeça a maldita ideia de que as pessoas colocavam a vida de seus destinados em risco caso não acreditasse no sistema — coisa que Dassy pôs em minha mente.
Estávamos indo ao refeitório pegar um lanchinho quando ela abordou o assunto. Era perceptível que Ivanna estava querendo falar alguma coisa há muito tempo, pois que ela mantinha aquela carranca de quem comeu e não gostou.
— Vocês dois vão sair juntos? — Ela indagou subitamente.
— Hoje à noite. — Respondi tentando ao máximo não parecer nervosa.
— Você tem certeza que ele é seu destinado? — Ivanna me encarou séria.
— Tinha, até você começar a me fazer desacreditar. — Minha voz saiu baixa e constrangida.
Antes que ela replicasse um dos novos cadeirantes passou como um jato pelo corredor. Assustamo-nos e logo Ivanna constatou que era um dos garotos problema que era empurrado por outro encrenqueiro na maior velocidade pelos cantos. Eu conhecia o garoto que estava na cadeira de rodas, Josh era o nome dele; desde que ele chegara havia arrumado confusão fazendo-o ser restrito de vir para Clínica por algumas semanas meses.
— A mãe desse menino já falou pra não andar com esse Josh! — Disse Ivanna irritada. — Ela já falou pra ele parar de andar com esse aleijado!
Foi automático. Troquei um olhar de apenas alguns segundos com ela e caí na risada. Ivanna também ria logo quando percebeu exatamente o que tinha acabado de dizer.
— O sujo falando do mal lavado. — Ela murmurou ainda rindo.
Minha mãe nos olhava alheia ao que acontecia. Ao entrarmos no refeitório e encontrarmos um lugar confortável, Ivanna abriu o jogo para mim.
— Apenas tenha cuidado. — Disse solene. — Não quero que você se machuque.
Suspirei.
— Acho que já passei tempo demais com medo de me machucar, Ivanna. — Respondi.
Ela acenou concordando com o que eu disse e não voltou a tocar no assunto. Fiquei um pouco pensativa depois do que ela disse, mas, logo quando ela falou sobre um macacãozinho que fazia para mim, deixei meus pensamentos para depois.

...

À noite parecia que nunca chegava, mas logo quando deu as caras me vi em um dilema: não sabia o que vestir. Me maldizei por ter me dedicado a inventar encontros a vivê-los quando podia — é bem verdade que não tinha muito tempo livre durante meu ensino médio onde eu tinha um emprego na Gama Pizzarias como entregadora de pizzas.
Bons tempos, inclusive, eu adorava descobri vários atalhos pelos bairros da cidade em cima daquela Honda amarela.
Depois de dá banho em minha mãe e deixa-la assistindo TV, fui me arrumar rápido, evitando permiti-la ficar sozinha por muito tempo. Escolhi um vestido soltinho de cetim vermelho que usei na festa de fim de ano da empresa há dois anos antes, pois fazia tempo que não o usava e sapatilhas; caprichei com o que pude com os poucos itens de maquiagem que me pertencia. Eu tinha consciência que não iríamos a algum lugar refinado, porque era tão pobre quanto eu, então, tentei não ter muitas expectativas sobre o lugar onde teríamos nosso encontro.
Quando estava pronta e arrumei uma pequena bolsa com minhas coisas, sentei na ponta da cama e chamei a atenção da minha mãe. Ela abria e fechava a boca, mas não conseguia falar nada. Segurei suas mãos esqueléticas e mirei seus olhos verdes.
— Vou a um encontro agora, mãe. — Sorri pra ela. — Com o . Imagina, eu e ? Quem diria?
Ela desviou a atenção para meu vestido, esquecendo-se completamente de mim. Entrelacei nossos dedos e beijei sua mão.
— Jean vai vir pra ficar com a senhora hoje, ok? — avisei e quase automaticamente a voz da tal ecoou pela casa.
— CHEGUEI, ! — Ela gritou e apareceu na porta minutos depois toda despojada.
falou que você pediu para eu ficar aqui com sua mãe. — Ela entrou segurando um livro de capa vermelha ao seu lado.
Concordei com a cabeça e me levantei. Suspirei nervosa e senti meu coração começar a palpitar como uma britadeira.
— Você sabe de tudo não é? Tem... — interrompeu-me.
— Vá logo, , você não pode deixar ninguém da empresa a esperando. — Apressou-me.
Olhei para ela com o cenho franzido. Que diabos ela estava falando? Abri a boca para explicar que eu estava indo a um encontro com , mas o barulho de alguém batendo na porta me interrompeu outra vez.
— Deve ser . — Disse ela. — Não voltem tarde da noite, não quero que vocês sejam assaltados no metrô.
Fui até a porta confusa com o que Jean havia dito e a abri despreocupadamente. Me segurei para não abri a boca e começar a babar em cima de . Tentei, miseravelmente, forçar minha mente a lembra a última vez que eu o vi sem está todo bagunçado ou com cara de cansado. Seus cabelos negros estavam bem penteados e ele vestia uma roupa casual — sem tinta — que dispenso detalhes. Apenas me vidrei na sua barba mal feita e o castanho claro de seus olhos esbeltos. Simplesmente me rendi aquele encanto que antes não via e me achei tola por não tê-lo avistado antes.
Meu destinado sorriu e estendeu a mão esquerda com o relógio que já estava unindo nossas vidas para que eu segura-se.
— Pronta?
Encarei-o por alguns segundos sem saber exatamente o que dizer. Eu odiava quando ficava nervosa daquele jeito, porque parecia que meu cérebro virava gelatina e não funcionava direito.
— É... Claro. — Respondi, sem muita firmeza.
Segurei sua mão e, nos pequenos segundos em que ele ficou de costas para mim, fiz uma careta desgostosa com minha falta de maturidade em relação a um simples encontro. Na minha cabeça aquilo só significava uma coisa: Essa noite seria um desastre.

Capítulo 3

"Eu tenho o seu gosto e eu sou do seu jeito. A cor do seu rosto eu já sei de cor." – Clarice Falcão, Um Só

avisou que achou por bem irmos andando para podermos conversar mais, já que onde nós estávamos indo era perto. Concordei com a cabeça e dei um sorriso leve para mostrar que estava tudo bem, pois eu sabia que no fundo seu carro usado tinha quebrado outra vez naquele mês.
Passamos as primeiras duas quadras em um silêncio desconfortável porque eu tentava pensar em algum assunto bom para conversarmos. Sentia uma pressão invisível em minha mente, pois sabia que já havia ido a muitos encontros — principalmente quando éramos adolescentes. Ele podia ser pobre, mas era atraente e nenhuma garota, até mesmo da Ala A, na época do Ensino Médio, rejeitaria um encontro com . Jean reclamou uma vez para mim que garotas ligavam incontáveis vezes para o telefone fixo de sua casa e que foi um alívio para ela e sua mãe quando cancelaram a conta por não poderem pagar mais.
— Você esteve na clínica hoje? — Puxou assunto e o agradeci mentalmente por isso.
— Sim, foi bastante divertido. — Comentei sentindo uma agonia por não saber onde colocar minhas mãos. Inferno. — Por que Jean estava com um papo estranho de festa na empresa? Ela te disse algo sobre isso?
Ele sorriu amarelo a minha pergunta e coçou a nuca.
— Eu menti pra ela. — Abri a boca para perguntar o motivo, mas ele continuou. — Acho que é melhor esperarmos o dia do nosso prazo chegar para dá a notícia. Quero fazer surpresa.
Olhei para ele tentando confiar naquela história de sermos destinados como antes, mas a voz de Ivanna invade minha mente em sussurros. Cuidado, menina.
Decidi ser sincera com ele e contar-lhe o que estava se passando em minha cabeça, mas o vislumbre de Jack correndo para dentro de uma casa com som alto me desconcentrou. Naquela hora da noite era normal haver festas no bairro. Não eram lugares muito seguros já que sempre a polícia era acionada e pessoas eram presas todos os finais de semana com porte de armas, drogas ou sei lá o que. Ver Jack entrando naquela casa que tremia por causa do som alto, me fez querer desistir de meu encontro e puxar aquele garoto pelas orelhas até sua casa; no entanto, a voz de subindo umas oitavas pelo barulho que faziam dissipou minha ideia.
— Estamos chegando perto. — Avisou com um sorriso.
Dei uma olhada para trás cogitando em procurar pelo Jack, mas eu estava ali para um encontro, para uma noite especial. Suspirei e sorri de volta para e voltei a acompanha-lo com a certeza que descobriria o que estava acontecendo mesmo com Jack outra hora.

...

Donny's era a lanchonete/restaurante mais frequentada pelas pessoas dos bairros circunvizinhos ao meu. Era um lugar muito aconchegante e tinha comidas boas que poderiam ser pagas com menos de trinta dólares — se você fosse comer cereal com passas, é claro. Tinha também um cardápio diversificado de vários países; você quer comer comida mexicana? Chinesa? Seja o que for, eles tem! Eu costumava vir aqui no começo da minha adolescência com meus colegas de escola para comer nachos, nós comprávamos fazendo uma vaquinha. Havia quase uma década desde a última vez que tinha pisado no restaurante e quando percebi que era esse o lugar onde queria me levar, não pude deixar de ficar animada.
Meu destinado abriu a porta para mim com gentileza e não pude deixar de agradecer me sentando em uma das mesas perto da janela. Meus olhos capturavam a decoração alegre do lugar enquanto sentava em minha frente na mesa conjugada.
— Gostou do lugar? — Perguntou pegando o cardápio na mesa. — Sei que não é grandioso, mas...
— Tudo bem. — Disse. — Eu gosto daqui.
— Prometo... — ele segurou minha mão e olhou em meus olhos. — No dia que o prazo chegar vamos a um lugar melhor, ok?
Eu não ligava onde estivesse, pra mim, o que importava era a companhia; mas o ver me mirando com tanta intensidade ao fazer aquela promessa de mais um encontro, meu estômago embrulhou.
— Ok. — Respondi sorrindo e sentindo o peso daquelas palavras.
Minutos depois uma garçonete se aproximou perguntando pelos nossos pedidos. falou que escolheria o que eu comesse, então pedi tacos, pois não era muito caro e poderia saciar nossa fome e, além do mais, eu adorava comida apimentada. Meu destinado não deixou de fazer uma careta quando falei, mas ele concordou e pediu refrigerante para acompanhar.
— Você não gosta de tacos? — Indaguei sentindo vontade de me bater por ter escolhido aquela colinária.
— Não gosto de comida apimentada. — Ele disse. — Mas sem problemas, como assim mesmo.
Soltei um murmúrio sentindo aquele êxtase pela conversa anterior se esvair e o nervosismo tomar conta de novo. Dei um sorriso sem graça enquanto olhava para minhas unhas sem esmalte. Numas poucas idas ao salão que eu fui li algo nas revistas que dizia que homem reparava nas unhas nos primeiros encontros.
Droga.
Mas quem liga? Esmalte vai fazer alguma diferença? Se me julgasse por causa de um esmalte ele seria um completo babaca.
Droga de revista idiota. Eu estava perdendo o foco para coisas totalmente ridículas! Arg!
— Então... — Vi tentar começar uma conversa apoiando os cotovelos na mesa. — Como vai o trabalho?
— Bem. — Balanço a cabeça assendindo sem saber como continuar a conversa. — Estamos procurando novos sócios, investidores...
— Interessante. — Disse ele sorrindo. — Você trabalha naquela empresa de cadernos, não é? Esqueci o nome...
— Coral. — Respondi. — Não só são cadernos. A gente também é especializado em qualquer material escolar.
— A gente é? — Ele ergueu a sobrancelha. — Quem ouve pensa que você é um dos donos da empresa.
— Não sou dona, mas faço parte da empresa também. — retruquei da forma mais educada possível.
— Claro, claro. — Repetiu desviando o olhar. O silêncio constrangedor quer dá as caras, então, eu pergunto.
— E o seu trabalho? Como vai?
— É difícil não faltar, né? — Ele sorriu coçando a nuca. — As pessoas costumam comprar produtos baratos e não duráveis, então, já viu!
Dei uma risadinha junto com ele e a garçonete se aproximou com nossos pedidos. A mulher esguia piscou e saiu para devorarmos a comida. Minha barriga fez um pequeno barulho e percebi que morria de fome. Olhei para com os olhos arregalados esperando que ele não tivesse ouvido, mas meu destinado estava concentrado em encarar a comida como se fosse um rato morto.
Aquilo era um desastre! Tudo por culpa minha! Escolher comida mexicana foi um erro e faria o meu encontro ser horrível. De repente, uma ideia veio em minha cabeça.
— Ei, que tal fazermos um desafio? — Perguntei pedindo aos céus que desse certo.
levantou o olhar devagar interessado. Mordi o lábio inferior percebendo que acertei na jogada — Grey amava desafios e apostas.
— Duvido conseguir comer por mais tempo que eu tacos com pimenta sem tomar nada de refrigerante. — Digo ousada.
— O que vou ganhar com isso? — Disse coçando o queixo com o dedo indicador.
— Quem disse que você vai ganhar? — Indago incrédula.
Ele se aproxima segurando o olhar perto o bastante para que eu veja as pintinhas amarelas de sua íris.
Fico um pouco zonza quando sua voz rouca sussurra para mim.
— Eu sempre ganho o que quero, .

...

Minha língua estava em chamas fazia exatos três minutos e eu fitava o copo com refrigerante como se minha vida dependesse disso. batia os punhos na mesa enquanto fazia caretas tentando não ceder ao desafio, mas era visível que ele não aguentaria por muito tempo.
O prêmio que propus se eu ganhasse foi toda a reforma que havia pedido um dia atrás de graça e, caso ele ganhasse, poderia cobrar o triplo do valor real do seu trabalho.
Fechei a boca mesmo que meu cérebro pedisse que eu abrisse e puxasse minha língua para fora do meu corpo e não precisasse sentir aquela sensação horrível. Contudo, eu aguentaria, porque pagar toda aquela grana estava fora de cogitação.
Semicerrei os olhos em desafio para meu destinado tentando mandar um recado ao seu cérebro para desistir e, como se seu órgão respondesse, ele esticou a mão para pegar o copo e bebeu se molhando todo de tanta sede.
— Ganhei! — Gritei e logo me estiquei para beber o refrigerante tão rápido quanto ele, porém a sensação ruim na minha boca continuava.
— Não sei por que eu tive a ideia de colocar mais pimenta do que tinha nisso. — Resmungou ao terminar de tomar a bebida.
— Eu ganhei; não se esqueça disso. — Falei com um sorriso esperto nos lábios.
revirou os olhos ranzinza e colocou mais líquido em seu copo.
— Não que você vá me fazer esquecer disso. — Ele resmungou.
Peguei a metade dos tacos que eu não havia adicionado pimenta e dei uma mordida saboreando, mesmo que o gosto forte de pimenta não tivesse saído de minha boca.
— Você tem algum plano para o futuro? — comentou balançando o copo com refrigerante lentamente. Seus olhos percorriam a mesa até os meus com sutileza e charme.
Comprimir os lábios sem saber o que dizer.
— Não muitos. — respondi cautelosa. — Queria me dedicar mais a minha mãe.
— Entendo. — Ele disse de forma compreensiva. — Já eu penso muito em tentar sair da Ala O, ultimamente. Ver minha irmã entrar na faculdade me fez ver que eu posso sair desse fim de mundo.
Eu lembrava quando Jean começou a estudar para conseguir uma bolsa para a Universidade. , assim como a mãe dela, desacreditava que alguém da nossa Ala poderia conseguir algo tão grandioso. Fui a única a apoiá-la e no momento em que o resultado saiu os vi ficar de queixo caído ao constatar que Jean havia passado em um curso superior de enfermagem. Mesmo assim, não os culpava por não ter estado ao lado de minha amiga — Jean foi corajosa o bastante para mudar aquilo que o pai deles dissera quando os abandonara.
"Vocês são um bando de perdedores e vão continuar sendo."
Paul era um homem desgostoso da vida e sempre andava parecendo um mendigo pelos cantos. Annie, mãe de e Jean, sustentava sozinha a casa enquanto seu marido e destinado ficava o dia todo jogado no sofá bebendo cerveja e reclamando. No final, quando ele deixou sua família para casar-se com viúva da Ala M, foi um alívio não tê-lo em casa. E, é claro, dona Annie não hesitou em arrancar uns bons mil dólares dele por infringir a lei como destinado e deixado sua família aos cães. , ao contrário de Jean, era muito ligado ao pai e ouvi-lo dizer aquilo quando ainda era adolescente lhe trouxe traumas horríveis e medo do desconhecido.
— Pense fora da caixa. — repeti a frase que um palestrante disse em um dos aniversários da Coral a fim de que ele absorver-se o que eu queria dizer com aquilo.
— O que disse? — Perguntou distraído.
— Nada. — Murmurei achando que se ele não havia escutado aquela frase, provavelmente não era para eu ter dito.

...

Era pouco mais de dez horas da noite quando e eu percebemos que o restaurante ia fechar e não poderíamos ficar mais lá conversando. Foi questão de tempo até acharmos um assunto em comum, onde os dois ficavam confortáveis em falar, e começamos a dialogar animadamente. Não deixei de ficar um pouco mal quando percebi que a noite já estava acabando e, depois de dividirmos a conta, fomos andando como duas lesmas para casa.
Meu destinado me emprestou seu casaco, pois a noite estava fria. Estávamos no outono e, na pressa de sair de casa, esqueci de trazer algum agasalho. Agarrei o braço de para que esquentá-lo, pois percebi que os pelos do seu braço estavam eriçados por causa da repentina ventania.
— Posso te fazer uma pergunta? — Pedi subitamente.
— Claro. — Respondeu.
— Quando você percebeu que eu era sua destinada? — Indaguei.
— No momento que falei com o vidente. — respondeu — Ele me disse que era alguém que me faria querer sair da minha zona de conforto e você faz com que eu sinta isso. — sorriu encantador. — O relógio só foi uma confirmação do destino.
— Não acredito muito no sistema de destinados. — Confessei. — Mas talvez dê certo para nós.
— O destino nunca erra, . — Advertiu solene. — Tenho certeza que esses relógios vão marcar nossas vidas.
Ele levantou seu punho esquerdo para que eu visse o relógio igual ao meu.
Me apeguei àquelas palavras. Nossa rua estava deserta por conta do horário quando paramos à frente de minha casa.
— Eu escolhi sair hoje com você, não foi por causa desse relógio. — Afirmei.
— Não seja teimosa. — sorriu daquele modo que fazia minhas pernas tremerem a um tempo atrás. Sorrateiramente, deu um passo em minha direção e senti as mãos suarem.
— Foi ótimo passar esse tempo com você, . — Ele fitou toda a extensão do meu rosto e parou seu olhar minha boca.
Lambi os lábios nervosa quando percebi que estava a poucos centímetros de . Meu coração começou a bater rapidamente no momento em que percebi a respiração de meu destinado perto. O instinto dizia para que eu me afastasse dele porque eu não sabia o que fazer se ele me beijasse, mas seus olhos caramelos me prenderam.
— Também foi ótimo para mim, . — respondo com um fiapo de voz.
O sorriso que meu destinado dá é preguiçoso, mas se desfaz rapidamente quando seu olhar se prende mais uma vez em meus lábios. Ao tocar meu queixo testo a textura da ponta de seus dedos calejados e sinto sua boca me beijando.
Demoro alguns milésimos para eu fechar meus olhos e entreabro um pouco meus lábios ao senti sua língua querendo explorar minha boca. me beija em um ritmo lento e delicioso — um gosto bom de refrigerante e pimenta.
Sempre fui fã de temperos picantes e depois daquilo, certeza que ia adora mais ainda.
Meu destinado passeou sua mão em minha cintura apertando-a com posse enquanto deixava o beijo mais rápido. A adrenalina que eu sentia queimava minhas veias e fazia todos os hormônios que havia guardado em uma caixinha escondida se agitassem pelo meu corpo.
Quando se afastou eu deveria está rindo com uma idiota.
Não, não. Eu estava sorrindo com uma idiota.
Ele segurou o lábio inferior com os dedos enquanto me seguia no sorriso.
— Até amanhã, . — Desejou e me deu um selinho rápido.
Acenei para ele e murmurei uma despedida dopada de um sentimento incomum, nunca por mim experimentado. Abri a porta de casa e entrei estranhando o silêncio que fazia no imóvel, mas, então, sorri ao ver Jean largada em meu sofá velho dormindo profundamente. Acordei-a e minha amiga apenas murmurou uma boa noite, juntou suas coisas desajeitada e saiu de casa ainda bêbada de sono.
Ao constatar que estava sozinha me permitir surtar. Sentei-me em cima daquele sofá desgastado com um sorriso que não cabia no rosto.
Eu fui beijada. Finalmente.
É bem verdade que se a eu de dez anos me visse agora daria um chute em meu joelho por ter destruído todas as suas esperanças de ter a adolescência e juventude badalada e divertida, cheia de aventuras e coisas para contar.
Porém toda aquela espera pareceu valer a pena, afinal, eu gostei do beijo e foi com alguém que significa algo para mim e, se o destino e eu entrarmos em acordo, ele continuará significando algo para mim.
Naquela noite demorei para dormir de tão energética que fiquei e quando finalmente o cansaço me venceu senti que meu humor no outro dia estaria positivo em escalas absurdas.

...

Acordar cedo no domingo sempre foi complicado para mim. Sempre traduzia esse dia como o único que eu poderia descansar de verdade e esquece todo e qualquer estresse. Entretanto, havia um bocado de dias desde que acordara de bom humor naquele dia da semana — não que eu estivesse reclamando de cuidar da minha mãe, longe disso! Mas isso encurtava as poucas horas a mais que estava a minha disposição para descansar.
Naquela manhã, porém, acordei sem que o despertador tocasse e com bom humor. Aproveitei que ainda estava bem cedo e fui à lavanderia torcendo para que a dona Leticia não acordasse e — por sorte — quando voltei para casa ela continuava em seu sono profundo.
Foi inevitável observar minha mãe enquanto ela dormia tranquilamente em cima da cama quando fui arrumar nossas roupas no guarda-roupa. Antes eu havia pensado seriamente em interna-la na Clínica, pois lá ela teria um atendimento melhor, mas eu deveria pagar por uma enfermeira e, infelizmente, o meu salário não cobria os remédios, a enfermeira e os gastos da casa. O que pagava para Jean era pouco comparado a grande ajuda que ela me dava todos os dias e eu era eternamente grata àquela garota.
Fiz um pequeno carinho nos cabelos ralos de minha mãe e me apressei para arrumar a casa e cozinhar o café da manhã. Minha mãe acordou minutos antes de ter colocado toda a comida na mesa e tratei de cuidar de sua higiene. Troquei suas fraldas e lhe dei banho tendo o maior cuidado possível e, como sempre, acabei saindo encharcada do banheiro. Depois de vesti-la e acomodá-la na cadeira de rodas, me enxuguei e troquei de roupa rapidamente para dá-lhe sua refeição. Era um alívio para mim saber que os remédio que ela tomava conseguiu retardar a doença o bastante para que ela conseguisse comer sem precisar de sonda. Entretanto, eu não sabia quanto tempo duraria até vê-la ser totalmente limitada a uma cama e apenas se alimentando por um tubo.
Sinto meu bom humor murchar um pouco quando penso nisso e tento me concentrar em sentar em frente a minha mãe na cozinha e chamar sua atenção. Leticia está com a boca entreaberta e o olhar vago correndo pelas paredes encardidas de nossa casa.
— Ei, mãe. — A chamo e devagar ela me fita. Decidi fazer um prato com papa de aveia para ela e pão molhado ao leite para que ela conseguisse mastigar sem problemas. Pego uma colher com uma quantidade significativa de papa e ponho na altura de seus olhos para que ela veja.
— Olha o aviãozinho. — Brinco mexendo a colher em meus dedos, como se minha mãe fosse uma criança.
Isso funciona, porque ela segue meus movimentos até chegarem a sua boca e dona Leticia engole. Mesmo deixando um pouco de comida sair de seus lábios, fico satisfeita. Houve épocas horríveis em que ela se recusava a comer e estava aliviada de não estar passando por isso outra vez.
Depois de dá de comer para ela, limpei a e comi um pedaço de pão para tapear minha fome, no momento, era melhor não tomar café. Liguei o pequeno rádio e o deixei bem baixinho, apenas para não ficar aquele silêncio insuportável na cozinha.
Me pus a lavar a louça acumulada e de vez em quando fitava o que minha mãe fazia. Dona Leticia às vezes ficava olhando para o rádio tentando entende-lo enquanto eu cantarolava as músicas tão bem conhecidas por mim. As lembranças da noite anterior começaram a me dominar e senti vontade de voltar no tempo só para experimentar o calor de perto de mim outra vez.
Alterno a minha manhã entre fazer algum serviço em casa e dá suporte a minha mãe. O dia passa rápido, mas consigo fazer o básico para que tudo fique limpo e preparar almoço antes de dá duas horas.
Ponho a mão na barriga ao ouvir pela enésima vez meu estômago roncar.
— Acho que comeria um boi de tanta fome. — Sorrio para minha mãe que não demostrou reação ao que eu disse.
Desfaço o sorriso aos poucos imaginando se ela riria caso entendesse o que havia dito. Minha mãe sempre ria das minhas piadas — na verdade, ela ria de qualquer coisa. Essa foi uma das características que herdei dela: o riso fácil. Em meio a tanta pobreza que sempre vivemos, eu nunca a vi triste — a não ser, claro, no dia da morte de meu pai.
Assim que coloquei a bandeja com omelete em cima da mesa, ouvi o bater da porta. Gritei que já ia e me direcionei a entrada da minha casa. Quase caí para trás quando Grey se materializou em minha frente segurando pincel e tinta em suas mãos.
Cruzei os braços e sorri me apoiando no batente da porta.
— Não sabia que trabalhava dia de domingo. — Comentei.
— Não trabalho. — Ele sorriu. — Mas sempre há uma exceção.
Mordi meu lábio inferior e dei espaço para que ele entrasse em casa. Nervosa, sem saber onde colocar minhas mãos, enfiei-as no bolso do meu short jeans.
— Você já almoçou? — Perguntei enquanto o fitava colocar os seus materiais no chão.
— Ainda não. — Respondeu e eu o convidei a se juntar conosco na mesa.
Grey deu um pequeno aceno para minha mãe e sentou-se enquanto se servia. Diversas vezes veio almoçar em casa junto com Jean ou a mãe deles, Annie, porém, daquela vez era um pouco diferente. Não vou mentir: eu queria impressioná-lo com a minha comida.
Confesso que esperei ansiosa pelo que meu destinado falaria de minha omelete com bacon e por causa disso fiquei quase trinta segundo segurando a colher à frente da boca de minha mãe em vez de fazê-la comer.
Meu destinado percebeu e riu ao me pegar no flagra o observando com expectativa. Senti minhas bochechas esquentarem e foquei em alimentar a minha mãe que salivava de fome.
— Eu gostei, . — Comentou e eu não precisava me virar para mirá-lo para saber que ele mantinha o meio sorriso. — Muito bom, como sempre.
— Obrigada. — Sussurrei colocando uma mecha do meu cabelo para trás.
Depois de me certificar que minha mãe estava satisfeita, fui encher minha barriga. Nossa conversa se resumira, então, a suas dicas em relação a cores boas para pintar a frente de casa e murmúrios que eu fazia enquanto mastigava tentando concordar com ele.
Levei a minha mãe até o quarto e, com ajuda de , a pus em cima da cama. Certifiquei-me que ela estava segura e não precisava de muita assistência minha por um momento e segui Grey até a sala, pois ele alegou que precisava dá uma olhada no teto da sala.
— Está muito ruim? — Pergunto olhando para cima.
— Acho que isso ai não é o cano, deve ser água acumulada por causa da chuva dos meses passados. — Ele segurava o queixo com a mão direita. — Vejo isso amanhã.
Dei alguns passos me aproximando dele.
— Pensei que fosse pintar em casa hoje, mas pelo que você falou parece que vai ainda ver a tinta. — Levantei as sobrancelhas.
Ele deu um passo ficando bem mais perto de mim.
— Era só uma desculpa pra vim aqui. — Ele lambeu os lábios e segurou minha cintura com o seu braço ultra-mega-musculoso. Rodeei meus braços em seu pescoço aceitando a sua aproximação. Sinto aquela sensação de frio na barriga e sorrio.
— É mesmo? — Minha resposta sai em um sussurro antes de ser capturada pelos lábios de .
Ele é enorme e me cobre tanto com seus braços como com o seu corpo brutamonte. Diferente da noite anterior, me sinto com mais liberdade ao beijá-lo e aproveito com mais destreza seus lábios nos meus.
Ele tem gosto de hortelã dessa vez e é muito mais viciante. Então, no segundo em que eu me afasto de sua boca com seus dentes agarrando meu lábio inferior, lembro da minha mãe e a promessa que havia feito a ela; lembro das palavras de Ivanna sobre ter cuidado e minha indagação sobre ser realmente meu destinado.
Me afastei do Grey lentamente já demostrando minhas intenções em conversar. Por mais que estivesse adorando aquele momento, não gostava de adiar nada. Seria direta e colocaria um ponto final naquela dúvida que pairava em minha mente.
, precisamos conversar. — Ele olhou para mim com as sobrancelhas arqueadas, tentando entender minha atitude repentina.
— Não acha que é cedo para termos uma DR? — Brincou. Cruzei os braços e andei em direção ao sofá, sentando. — Aconteceu alguma coisa?
— Não tenho certeza se você é meu destinado.
Vi sua expressão mudar para raivosa. Ele passou a mão no cabelo e se agachou a minha frente.
— Por que está dizendo isso? , a gente dá muito certo junto! — Seus olhos amarelados me encaravam — Mal começamos e você já quer desistir?
— Não é isso. — Minha voz sai segura e tento segurar seus ombros para acalmá-lo, mas ele se levantou rápido se desviando de minhas mãos. — Olhe, só quero ter certeza que estou no caminho certo. Eu digo que não ligo para essa baboseira de destinado, mas, no final, estou presa a esse sistema. Não tenho para onde fugir.
Ele cruza os braços e bufa. Parecia um touro (sexy) raivoso e fiz uma anotação mental de, caso nossa discursão chegue a algum lugar e vamos tentar um relacionamento, ou algo do gênero, irei tentar não despertar seu lado explosivo.
A personalidade de era um campo minado e eu havia pisado no lugar errado.
— Eu só sei que eu... — ele hesitou — Eu gosto muito de você e quero conhece-la melhor. Não posso provar, além dos nossos relógios, que sou seu destinado, mas eu sei o que sinto por você, , e é real e forte.
Não sei o que dizer depois de suas palavras. Fito seus olhos e encontro sinceridade neles. sentia algo por mim e eu acreditava que era forte — caso não fosse, não teria esperado tantos anos. Esse sentimento tinha algum sentido, não é? Poderia muito bem ser o famoso destino batendo em nossa porta mais cedo.
Tentei concluir, então, os sentimentos que estavam me invadindo desde que me chamou para sair.
Grey me dava segurança e era isso que estava precisando ultimamente; estava fazendo-me feliz, mais leve em apenas alguns dias e nem sabia! Mesmo que não seja o meu destinado, quero continuar e tentar com ele; um relógio qualquer não definirá quem eu quero que compartilhe minha vida.
Me levantei e o abracei. Assustado com minha atitude, Grey demorou algumas segundos para corresponder meu carinho e apoiar seu queixo em cima de minha cabeça. Afundei meu rosto em seu peito inalando seu perfume e murmuro.
— Quero muito que você seja meu destinado. Seria mais simples.
Penso em minha mãe, que não entende nada do que digo, mas confiou em mim antes de mais nada. Eu havia quebrado duas das suas promessas e fui egoísta com ela. Sinto meu coração se amassar no peito por falhar com dona Leticia. Mesmo mudando de opinião o tempo todo em relação ao sistema, torço para que sejamos destinados, pois todo mundo ganha com isso.
Sei que se isso não acontecer vamos sofrer um preconceito terrível e enfrentar momentos inoportunos com o nossos destinados — negar o sistema era mais fácil quando você é rico, ninguém tem coragem de enfrentar você — mas estava disposta a correr o risco.
— Vou lutar por você, . — Ele acariciou meus cabelos.
Então, percebo meu estômago cheio de borboletas e um sorriso se forma em meus lábios. Tivemos apenas um encontro e já estávamos daquele jeito! Como podia? Logo me lembro da montanha russa que minha barriga ficava ao ouvir seu nome e a falta tão demasiada que sentia dele, então, tudo faz sentido.
Meu coração afirma: você já estava apaixonada por .
Mas, claro, nunca admitiria aquilo em voz alta.

Capítulo 4

“Eu não sou perfeita, eu não estou tentando ser; eu só estou fazendo o melhor que posso para viver honestamente.” - Honestly, Keeley Valentino

Eu estava atrasada pela terceira vez durante as duas últimas semanas. O salto alto já gasto ameaçava quebrar, mas eu não podia desacelerar o passo; apenas me restava torcer pra que ele durasse. Nas outras vezes em que cheguei tarde foram dez minutos de diferença em relação a meu horário habitual, porém dessa vez quase não consegui acordar e estava meia hora atrasada.
Eu sabia exatamente de quem era culpa, contudo saber não despertava a fúria esperada e sim vontade de dá risinhos envergonhados.
Aconteceria uma hora ou outra que passar a noite entre conversas, beijos e amassos com resultasse a perca de algumas horas de sono e, claro, meu corpo insistia em querer as repor de qualquer jeito.
Merda. Pensei ao pisar em falso e quase torci o tornozelo.
Faltavam apenas duas quadras para chegar a sede da Coral, entretanto ainda tinha impressão de estar longe. Definitivamente eu deveria começar a expulsar Grey mais cedo de minha casa.
O negócio é que aquilo de manter nosso relacionamento escondido limitava nossas idas a lugares simples como o Deloy, o parque mais perto da Ala O. Às vezes, chegava tarde do serviço e extremamente cansado passando para me dá um "oi" apenas; ainda tinha a questão que eu nunca deixaria minha mãe sozinha mesmo que ela esteja adormecida pelos remédios para sair à noite. De jeito nenhum.
Menti para Jean de novo estava fora de cogitação para mim, já que a mesma estava no penúltimo ano da faculdade e não a prejudicaria por causa de um luxo meu.
Pensando na faculdade de minha amiga percebi que não havia ninguém no mundo que estava mais medrosa do que eu em relação a isso. Jean deveria está fazendo estágio há muito tempo, mas estava adiando por não querer deixar-nos na mão. Era questão de tempo e eu teria que internar dona Leticia na clínica com sabe Deus lá que dinheiro.
disse para mim que tentaria arrumar alguma pessoa de confiança para cuidar da minha mãe, mas nós dois sabíamos que isso era impossível. Ninguém iria cuidar de uma pessoa com um estágio de doença tão avançado.
— Você está atrasada. — Dassy falou com os olhos cerrados a me ver ofegante em sua frente. — Diga uma coisa que eu não sei. — Falei ao colocar meu dedão para a biometria.
— O senhor Carter chegou faz cinco minutos. — ela deu sorrisinho esperto.
Tenho certeza que o choque de meu rosto era horrível, pois fez a morena em minha frente desfazer o sorriso.
Nunca nesses longos cinco anos em que eu trabalhava para Coral cheguei depois de meu chefe.
Corri para o elevador tão rápido que acabei esbarrando em algum dos engomados do recinto e apertei no botão sete tentando manter a calma.
Passei a mão no rosto e nos cabelos mortificada.
Eu estava lascada. Tudo. Culpa. Minha.
Passei o tempo todo agindo como uma babaca apaixonada que deixei meu relacionamento com atrapalhar meu trabalho.
Quando o elevador se abriu e comecei andar depressa para minha mesa, agradecendo mentalmente pelo andar não ter quase ninguém trabalhando. Estanquei no meio do caminho quando vi Albert Carter batendo o pé no chão e checando as horas. Andei de mansinho pensando que se caso não fizesse barulho ele não perceberia minha presença, mas antes de chegar no meu lugarzinho ele levantou o olhar severo para mim.
Abri a boca para pedi desculpas, entretanto meu chefe foi mais rápido.
— Não quero desculpas. — sua voz de trovão soou no comado quase vazio — Dessa vez passa, . — ele abriu a porta de seu escritório e eu quase pude ver fumaça saindo de suas orelhas - Quero minha agenda e meus emails organizados em cinco minutos.
Eu precisava ser rápida, muito rápida!
— Vamos logo com isso, ! — bradou senhor Carter fechando a porta com mais força que o habitual.
Sentei-me na cadeira me controlando para não tentar relaxar pela corrida até o prédio antes de fazer qualquer coisa, pois o tempo era escasso.
Senhor Carter odiava atrasos e eu sabia disso — foi o motivo das duas últimas secretárias serem demitidas, por esse motivo sempre cheguei antes do que ele na empresa. Me achei sortuda por ser alvo apenas de uma pequena "Tempestade Carter" e não ia abusar de minha sorte hoje.
Antes que eu pudesse rever todas as informações que coletei, o telefone tocou com um barulho exclusivo que soava apenas quando Sr. Carter ligava.
Suspirei e atendi com a voz amena.
— Sim, senhor Carter.
— Solicite uma reunião com Garry Fordnelly essa manhã e leve as fichas enviadas por ele na terça para o departamento de finanças. — e desligou sem mais delongas.
Tive vontade de grunhir em frustração só de pensar em ter que falar com Celine West, a famosa vaca, para realizar o pedido de meu chefe.
Eu não era uma girl hater e nunca perderia meu precioso tempo odiando alguém por nada, mas havia um motivo para Celine ser considerada uma vaca pelo prédio inteiro. Aquela garota não fazia absolutamente nada de produtivo, passava horas pintando as unhas e fazia uma barreira cheia de empecilhos para que as pessoas conseguissem uma simples conversa com seu chefe — dificultando não só a comunicação na empresa como o trabalho de todo mundo pelo fato de Garry era um dos principais líderes do RH da Coral. Eu sabia, porém, que seu chefe amava isso Garry era outro preguiçoso de merda.
Diziam as más línguas que ela apenas continuava na empresa por ser a amante jovem de Garry, mas não me ateio a isso, pois não diz respeito a mim.
Organizei a agenda de Albert e joguei tudo na pasta compartilhada. Me levantei disposta a ir falar com Celine pessoalmente, porque sabia que seu telefone ficava mudo quase o dia todo. Mas, antes, eu precisava tomar um copo com água. Gelada, de preferência.

...

Celine era baixinha, tinha os cabelos tingidos de loiro e olhos azuis. Ela estava debruçada em sua mesa olhando para os esmaltes azul turquesa em uma das mãos e vermelho escarlate na outra quando cheguei a seu andar. Seu rosto estava concentrado como se jogasse uma partida de xadrez tentando decidir o que queria. Fitei seu telefone fixo fora do gancho e suspirei ao constatar que fiz uma boa escolha vindo aqui. Cocei a garganta chamando sua atenção.
Ela levantou seus olhos azuis e revirou-os ao perceber quem era.
— O que você quer? — falou ríspida.
— Senhor Carter solicita uma reunião particular com Garry Fordnelly. — eu disse me surpreendendo com o tom formal que saíra da minha boca.
— Infelizmente...
— Senhor Carter solicita uma reunião particular com Garry Fordnelly. — a interrompi repetindo minha frase.
Ela me olhou com repreensão, mas continuei com o olhar firme, não desviando.
— Às onze horas ele deve está no escritório de senhor Albert Carter ainda hoje. — Expliquei sabendo que o nome do meu chefe seria levado em conta. Quem seria louco o bastante em negar um pedido de um dos maiores chefes da Coral?
— Vou deixar recado. — Ela murmurou voltando a olhar para seus esmaltes.
Virei-me sem me despedi agradecendo aos céus por ter sido mais fácil do que imaginei.

...

p>Olhei nervosa para o relógio do notebook.
Eram onze e quinze e nada de Garry Fordnelly aparecer.
Foi muito idiota da minha parte pensar que seria fácil.
O barulho característico do telefone começou a tocar e eu respirei fundo tentando tirar a ideia de fingir que não o escutava da cabeça.
— Sim, senhor. — Falei mordendo o lábio inferior.
— Onde está Garry? — Sua voz denunciava a impaciência. — Consiga o número do celular dele, o particular.
Abri a pasta de contatos de todos da empresa e saí pesquisando. De alguma forma não havia muitas informações necessárias de se contatar com Fordnelly nos diversos arquivos, só restou um número de celular antigo.
— Estou esperando. — Resmungou senhor Carter.
Bem, vai ter que servir.
Ditei o número duas vezes antes de meu chefe desligar.
Precisei ficar cinco minutos batendo pé ansiosa para Garry aparecer na porta do escritório com uma lerdeza de dá agonia. Antes de autorizar sua entrada, senhor Carter abriu a porta como se pressentisse a sua chegada.
— Está atrasado. — Foi o que disse em primeira instância.
— Desculpe, não recebi o recado. — Justificou Garry.
— Tenho certeza que sua secretária deve ter se esquecido de avisar, estive com Celine o tempo todo e não deixaram nenhum recado.
Olhei para ele mortificada, sem saber exatamente o que fazer diante daquela mentira tão descarada, mas, antes de dizer alguma coisa, senti todos os meus músculos endurecerem como pedra ao sentir o olhar mortal de Sr. Carter.
— O que você diz sobre isso, ? — a voz do meu chefe soou como um trovão me fazendo engoli o seco.
Tinha uma desculpa na ponta da língua, afinal, eu estava com a razão, mas minha garganta fechou e só consegui balbuciar.
— Esqueça. — Garry disse mexendo a mão em desdém. — Já perdemos muito tempo.
Albert concordou, sem antes, claro, me lançar um olhar Assusta Criancinhas Inocentes e os dois entraram no escritório me deixando sozinha em silêncio.
Afundei-me na cadeira sentindo minha cabeça latejar de estresse.
Que dia ótimo, já pode acabar.

...

A mesa do refeitório fez-se um curto período de silêncio depois que contei sobre o que tinha acontecido de manhã e começamos a desatar uma onda de xingamentos para Garry e Celine. Passei meus olhos pela mesa fitando cada uma das minhas amigas e senti falta da Franz e seus óculos desproporcionais ao seu rosto. Abri a boca para perguntar por ela quando a mesma sentou com tudo na cadeira ao meu lado me dando um susto.
— Minha vida está acabada! — Ela choramingou.
Sua roupa estava mais desarrumada do que o normal e os olhos inchados. Franz, que sempre foi desleixada com sua beleza, estava um trapo.
— O que aconteceu? — Mary perguntou, alarmada.
Então, nossos olhos pararam no seu pulso esquerdo apenas com a marca de que nos últimos nove anos havia um relógio lá.
— Você conheceu seu destinado?
— Como ele é?
— Ele é bonito?
— Ele é rico?
As perguntas foram gritadas com uma animação animalesca, mas continuei quieta. Ao contrário das meninas, eu havia juntado um mais um e deduzido que o motivo da histeria de Franz era por culpa de seu destinado.
Demorou alguns segundos e uma careta de alguém que começaria a chorar para que todo mundo ficassem quietos.
— Ele é... — Ela soluçava. — Casado e só tem 25 anos! E ele... Quando o relógio vibrou... Ele estava com a mulher dele...
Franz colocou as mãos no rosto, desamparada.
— E ela é linda e rica. — Ela apontou para si mesmo. — Olhem para mim! Sou desengonçada, sou...
— Não faça isso consigo mesmo, Franz! — a censurei. — Se ele está casado, tudo bem, oras! Procure alguém que a ame e...
— Você perdeu o juízo, ? — Mary ralhou — É isso que você diz para sua amiga?
As garotas me olhavam com descrença enquanto Franz soluçava alto e era acalentada pelo abraço de Dassy.
— Mas... — tentei me defender.
— Ele não podia fazer esse mal pra você, Franz! — Mary me ignorou, solicita. — Pois você vai sair comigo no final de semana e vai encontrar esse seu destinado metido a besta! O babaca vai ficar tão apaixonado que não conseguirá passar o resto da semana sem ter assinado o maldito divórcio.
Arregalei os olhos ouvindo os murmúrios de aprovação.
— Mas, Mary, você não pode... — falei nervosa.
— Sim. — Franz passou a mão pelo rosto enxugando as lágrimas bruscamente. — Eu vou fazer isso.
— Essa é a minha garota! — Dassy comemorou dando uma chacoalhada nos ombros da mulher.
Busquei algum tipo de socorro entre as meninas, mas todas pareciam apoiar aquela ideia ridícula.
Se jogar em cima de um homem casado apenas por causa daquele relógio estúpido? E se o destinado dela não fosse um bom companheiro? E se ele fosse mais feliz com sua atual esposa do que com Franz?
Apertei meus lábios sabendo que perguntar não me traria respostas e protestar muito menos. Todo mundo me ignoraria ou me atacaria como se eu estivesse dizendo calunias sobre sua crença.
Às vezes, minhas amigas soavam como fanáticas religiosas em relação aquele sistema e eu não podia odiá-lo mais por ser daquele jeito.
Me limitei a mexer na pouca comida que sobrou de meu prato, fingir não escutar aqueles comentários maldosos em relação a esposa do destinado de Franz e logo arrumei uma desculpa para voltar a minha mesa e passar o resto do horário de almoço xingando a sociedade que eu sou obrigada a fazer parte.

...

Enquanto me apoiava em um daqueles ferros do trem para manter o equilíbrio, me permiti fechar os olhos e soltar um suspiro exausto. Ainda estávamos na quarta-feira e eu teria que engoli muito sapo até aquela semana acabar, entretanto, na segunda tudo viria como um furacão para cima de mim de novo.
A vontade de desisti me atingiu com força e pude avaliar minhas opções: poderia me demitir e procurar algo mais perto. Foram anos trabalhando na empresa, me possibilitando alguns meses de seguro desemprego, tempo suficiente para achar um emprego de garçonete ou camareira. Sorrio pensando em, talvez, não precisar me submeter a difamações na empresa, ter que atravessar a cidade para trabalhar, ou, melhor, não sofrer preconceito algum por ser de uma ala inferior.
Mesmo a maioria das pessoas terem se acostumado com minha presença pelo prédio, ainda podia senti aluns olhares de esguelha e caretas desconfortáveis quando apareço.
Quase quando uma mulher idosa tentou sair de seu banco e passou por mim como rapidez segurando várias sacolas.
— Desculpe. — Peço, mesmo sabendo que eu estava certa.
A mulher não responde e eu me seguro para não gritar “Mal educada!” quando a vejo ir em direção à porta.
Então, tento chutar a ideia de sair da Coral de minha cabeça.
Nunca encontraria um emprego que pagasse 20% a mais do que um salário mínimo para alguém que só fez ensino médio e ainda oferecesse o plano de saúde para mim e minha mãe.
Olho para o céu pedindo forças para continuar. Rapidamente a imagem de meu pai aparece em minha cabeça; tento impedi-la de vir, mas é quase impossível. Antes que possa fazer algo em relação a isso, consigo ver Steve de joelhos para ficar na pequena de apenas 7 anos.
Ele tinha cabelos lisos e castanhos, como o meu, que sempre insistiam em cair em seu olho, porque ele demorava muito para cortá-lo — e minha mãe o dizia que o deixava mais jovem. Steve era um faz tudo, como , mas não era exageradamente forte; tinha uma sabedoria de quem já viu muita coisa durante sua vida. Ah, e tinha uma barba que quase nunca ele fazia e arranhava meu rosto toda vez que ele beijava minha bochecha ou minha testa.
Eu estava com os olhos vermelhos, pois passei um bom tempo chorando frustrada por não ter conseguido achar a palavra ascensão do caça-palavras de dois dólares que ele sempre me trazia.
— Desisto, papai, eu não quero! — gritei e recebi um olhar repreendedor que me fez encolher. — Não desista tão fácil, meu amor. — Ele disse segurando o caça-palavras amassado em sua mão. — Dê o seu melhor.
E entregou o papel para mim; demorou apenas cinco minutos para que eu achasse aquela palavra e ele sorriu com orgulho. Lembro-me de seus olhos escuros tão brilhantes ao me dizer no jantar que o único sentimento que eu precisava para continuar viva era perseverança. Ele deveria está aqui, cuidando de mim. Deveria...
Balanço a cabeça tentando afastar meus pensamentos do papai. Passei a maior parte do tempo me fazendo esquecer-se dele que às vezes esqueço-me do quanto ele influenciou e influencia em minha vida.
Assim que pus meus dois pés no segundo degrau de casa a lembrança da data de hoje me atingi em cheio e tenho vontade de bater minha cabeça na parede.
Já tinha duas contas atrasadas da conta de luz por causa do dinheiro que tinha gasto com a manutenção da geladeira. Hoje a terceira vencia e eu nem mesmo lembrei de passar no banco.
Parabéns, , você terá que pagar mais juros do que precisava.
Estou muito orgulhosa por você.
Seguro a maçaneta com a melhor cara de quem queria estar morta e aparece saindo da sua casa com uma animação estranha.
— Oi, . — Dou um sorriso automático apenas por vê-lo ali, mas contido; nem mesmo sua presença conseguiria mudar meu humor hoje.
— Oi, . — Respondeu sorrindo. Ele apoiou-se na porta observando meu rosto. — Como foi seu dia?
Horrível, penso dizer, preferiria ter ficado o dia todo na cama.
— Espera, antes preciso te contar uma coisa. — Disse e eu apurei os ouvidos. — Eu arrumei um emprego como jardineiro em uma daquelas casas da Ala C! Isso não é ótimo?
Sorrio feliz por ter conseguido um emprego melhor do que ele tem no momento. Se não estivéssemos no meio da rua eu o abraçaria e encheria o de beijos.
— Você não sabe o quanto é bom pensar que não preciso sair por ai procurando algum serviço. — Comentou radiante.
— Parabéns, . — Digo segurando o impulso de abraçá-lo.
— Ah, o que você dizia mesmo? Sobre seu trabalho? — Ele indaga, lembrando vagamente de sua pergunta anterior.
Ele estava tão feliz que não iria aborrecê-lo com meus problemas, então, falo com meu melhor sorriso.
— Foi normal — e dei os ombros.
Meu destinado se aproximou sorrateiro até o pequeno muro que nos separava e fiz o mesmo, entendendo o que ele queria fazer. Ele abriu os braços e nos enlaçamos em um abraço bom e reconfortante.
— Obrigado por me apoiar, . — Sussurrou em meu ouvido causando arrepios.
— Disponha. — Respondi com um sorriso querendo que aquele muro estúpido que nos separava desintegrasse para que eu pudesse me afundar em seus braços fortes e o cheiro da colônia de sua mãe tão conhecida por mim. Contive o sorriso, pois sabia que seu perfume tinha acabado e ele estava usando o da mãe até que conseguisse mais dinheiro.
Nosso abraço foi rápido e logo me vi entrando em casa com um pouco mais de animação. Me deparei com Jean lendo e minha mãe com o rosto cansado dos remédios que estavam começando a fazer efeito na sala.
Beijo sua testa da dona Leticia e me disperso de Jean com um aceno antes de me deitar no sofá soltando suspiros de cansaço.
Ah, pai, penso, perseverar é tão difícil.

...

Continuar batalhando nas seguintes semanas foi uma das coisas mais complicadas que tive que fazer. Meu chefe continuava de mau humor, contudo, graças aos céus, não era por minha causa. Em outubro haveria a festa de comemoração de 11 anos da empresa e ele estava responsável em organizá-lo.
A Coral é uma empresa composta por cinco sócios que eram melhores amigos desde a faculdade. Todos eles mantinham uma harmonia invejável, sempre pensando um nos outros e tendo os mesmos objetivos — eu conseguia ver aquilo nas reuniões. Me parecia algo muito irreal um lugar onde saí muito dinheiro não ter ninguém puxando o tapete do outro.
Ao menos não os do topo.
Talvez seja por causa disso que eles tenham chegado tão cedo no TOP 3 maiores empresas que produzem materiais escolares.
Todos os anos um deles ficava responsável pela organização da festa de comemoração da empresa e estávamos na vez do senhor Carter e, logo, isso sobrava para mim também.
Entretanto, eu não reclamo de ter ficado com um monte de coisa para resolver durante o dia, pois era uma desculpa perfeita para ficar longe de Mary, Dassy, Diana e mais um monte de mulheres que estavam tentando mudar a personalidade de Franz apenas para que ela conseguisse conquistar seu destinado — que descobri ser chamado de Scott — um homem comprometido.
O cara simplesmente estava de saco cheio de Franz que, inteligente como era, conseguiu hackear seus perfis nas redes sociais e perseguia ele e sua mulher como um stalker. Era questão de tempo e ele iria a denunciar para a polícia, mas, como a lei geralmente favorece as mulheres em questão de destinados, não sei se Scott se sairia bem dessa.
Para completar, na última sexta-feira minha mãe havia ido ao médico, acompanhada por Jean, e ele passou um exame que o plano de saúde não cobria, me deixando sem nem um tostão. Ainda tinha Jack que sumira do bairro e do meu campo de vista, mas sua irmãzinha estava começando a me visitar mais vezes — geralmente para comer já que sua mãe estava começando a trabalhar quase o dia todo — Ela me assegurava de que ele estava vivo e aparecia em casa de vez em quando.
No momento em que eu o reencontrasse iria puxá-lo pela orelha por me deixar tão preocupada.
A única coisa boa nisso tudo era poder passar as maior parte das noites nos braços de . Havia algo acontecendo entre nós que era inevitável, mesmo assim me assustava. Nossos beijos estavam ficando cada vez mais intensos e quentes despertando desejos primitivos em mim. Sabia que estava perto de chegar nos afins e eu queria, mas não sabia se eu deveria fazer, principalmente porque eu já havia ouvido diversas histórias sobre como vários garotos transavam com as meninas e depois a deixava de lado no ensino médio; aliás, nem sabia como fazer direito e tinha certeza que meu destinado era experiente.
Por mais que eu confiasse em , o medo estava ali impregnado em mim.
Assim que desci no ônibus no dia primeiro de setembro, senti meu celular vibrar. Olhei para o visor estranhando o número desconhecido e atendi relutante.
— Alô?
! — Ouvi a voz de Jack, surpresa — Você precisa me ajudar!
— O que aconteceu? — Pergunto começando a ficar nervosa.
— Bonnie está sangrando muito. — Ele estava soluçando. — Eu não sei o que fazer!
— Ai meu Deus! — Exclamei desesperada imaginando aquele corpo pequeno da irmã de Jack em seus braços coberta de sangue. — Onde é o machucado? Como aconteceu isso? Onde você está?
— Em sua casa. — Respondeu uma das minhas perguntas. — Ela se machucou na rua.
— Ligue para ambulância! — Gritei correndo para casa — Chego ai em um minuto.
Senti meus pés reclamarem pela corrida naqueles saltos altos, porém continuei correndo sentindo o coração pulsar mais rápido do quê o normal.
Bonnie não. Bonnie não.
Ela não podia morrer; ela só tem sete anos, uma vida pela frente! Aquilo era tão injusto, tão cruel.
Uma criança. Uma simples criança inocente que apenas precisava de segurança, amor e carinho. Ao abri a porta de casa lágrimas escorriam pela minha face de desespero quando diversas vozes gritaram me fazendo dá um salto para trás de susto.
— Surpresa!
Eu odeio Jack Woodreck.

Capítulo 5

“Eu disse a ela que eu a amava, só não tenho certeza se ela ouviu. Estava ventando bastante no telhado e ela não disse uma palavra.” – End of the day, One Direction.

Um sorriso congelado pairava em meus lábios enquanto todos os convidados cantavam parabéns. Tenho certeza que eles imaginavam que as lágrimas que saiam de meus olhos eram de alegria. Olhei para Jean segurando um bolo cheio de chantili com os dizeres "Parabéns, !" e a raiva que eu sentia abaixou um pouco.
! ! ! — Eles gritavam batendo palmas.
— Faça um pedido! — A voz de me tirou do transe em que me encontrava.
Fitei as quatro velinhas coloridas e fechei os olhos.
Desejo que Jack tenha uma morte lenta e dolorosa.
E assopro as apagando.
Dedico, então, meu primeiro pedaço de bolo para minha mãe que estava sentada sonolenta perto da pequena janela (que, aliás, não servia para nada e dava de cara para a parede da casa de meu vizinho), contudo ela não comeria, pois poderia lhe fazer mal e o guardo para eu mesma comer mais tarde.
Os minutos seguintes foram confusos; sorrisos, congratulações e alguns pacotes de presentes. Recebo o abraço caloroso do Japa, um velho conhecido meu, quando avisto Jack sentado no meu sofá e Bonnie em seu colo brincando com uma bexiga vermelha nas mãos.
Em um momento estou cumprimentando meus convidados e outro estou dando socos em Jack.
Ele se defende com os braços cruzados ao redor da cabeça e estou tão raivosa que cuspo palavrões e xingamentos que nem tinha consciência que os conhecia. Jack, entretanto, parece está rindo do meu PT; então, sou puxada com força para longe dele pelas mãos de meu destinado.
Quando percebo que estou fazendo minhas bochechas ficam vermelhas de vergonha. Olho para os lados, certa de que verei todo mundo me olhando como uma louca, e me deparo com todos gargalhando da situação.
— Você mereceu, criança. — Diz Ivanna no meio da multidão.
O Woodreck aparenta está mais pálido e o cabelo vermelho começou a crescer novamente. É extremamente estranho perceber que essa é a cor real de seu cabelo quando se está acostumado com a quase calvice que ele sempre usara como penteado.
Bonnie e Jack apenas tinham os olhos parecidos, castanhos claros como duas bolas de gude. Enquanto o garoto era pálido e tinha feições gélidas, Bonnie era negra e esbanjava animação em seus traços grossos. Talvez aquela característica fosse produto de sua infância, mas algo me diz que é algo propriamente de Bombom.
— O que Jack fez, tia ? — Bonnie cruzou seus bracinhos. — Ele vai ficar de castigo!
Sorri da sua postura.
— Isso mesmo, Bombom! — Respondo a colocando em meus braços — Ele precisa ser castigado.
Ivanna saiu do meio daquele amontoado de gente gritando algo como "sai da frente, aleijada passando" e se aproximou de mim.
— Venha cá dá um abraço na sua amiga.
Baixei-me e a envolvi em seus braços.
— Esse ano vai ser repleto de surpresas, . 26 é um número especial. — Ela sussurra em meu ouvido.
A fito sem entender sua sentença, mas assinto.
Pela primeira vez percebo o tanto de gente que está em casa e começo a sentir pena de Jean que é claustrofóbica. Minha casa é pequena e tem quase 50 pessoas pelos cantos falando e rindo alto — certeza que ela não esperava tanta gente na festa. Espremida pela multidão, fui em direção a cozinha — esbarrando em cachos de bexigas vermelhas e azuis — e encontrei Annie arrumando os pratinhos e Jean quase arrancando os cabelos.
— Não tem bolo pra todo mundo. — Ela batia o pé, nervosa — O que vou fazer? — Jack! — Grito da cozinha e o ruivo aparece com as sobrancelhas arqueadas, esperando minha ordem.
Boa atitude, porque ele me deve uma.
— Tome isso aqui. — Procurei duas notas de dez dólares do bolso — E compre um bolo de trigo da Sandra.
— Não, ! — Jean diz, aterrorizada — Eu organizei sua festa, você não pode...
Lanço meu olhar mortal para ela.
— Minha casa, minhas regras. Minha festa, minhas ordens.
1 x 0 Jean.
Jack pega o dinheiro em minhas mãos murmurando e sai para comprar o que pedi. Quando ele volta, Annie insisti que eu vá para a sala em vez de cobri o bolo de chantili e então me sento perto de minha mãe — depois de expulsar Fanny do lugar. Ela parece um pouco agitada pela quantidade de pessoas dentro de casa e o barulho das conversas paralelas no ressinto, mas o sono estava quase a vencendo.
Jack estava comendo seu pedaço de bolo quando o interceptei. Semi cerrei os olhos esperando que ele me explicasse o que tinha acontecido com ele no último mês; a mãe dele pode não se preocupar com o filho, mas eu sim.
— Olha, , foi mal. – disse ele – Era pra ser uma brincadeira boba, nada pra você querer me matar e tal.
— Tudo bem. – Respondo e cruzo os braços. — Onde você esteve esse tempo todo?
— Na casa de um tio meu, em Roshville. Ele disse que tinha um bico pra mim e eu aceitei.
— Mas, Jack, e sua escola? — Indaguei, confusa.
— Eu já repeti mesmo, não preciso mais ir. — Falou com desdém. — Só ia porque você insistiu, mas não tem nada lá que eu goste.
Solto um suspiro.
— Você que sabe.
Não adiantava insisti, pois Jack já era um rapaz e sabia o que estava fazendo. Mesmo dando conselhos atrás de conselhos, ele nunca quis me ouvir.
Terá que aprender com a vida mesmo; espero que ela lhe dê uma segunda chance mais tarde.
Quando a festa acabou e as pessoas começaram a ir embora, minha casa aparentava ter sido devastada por um furacão. Infelizmente, o pessoal da Ala O não era o melhor em organização. Despedindo-me das últimas pessoas, notei que Jack continuava esparramado em meu sofá com Bonnie no colo, adormecida.
— Não está tarde? – indaguei casualmente — Pode ser perigoso...
— Se não quer que eu fique aqui, , é só me dizer.
Revirei os olhos.
— Você sabe que não é isso. — Expliquei — Aliás, preciso conversar com você sobre uma coisa.
— Pode ser outro dia? – Jack aprumou o corpo pequeno de sua irmã nos braços e colocou-se de pé. — Charli deve está preocupada.
Assenti e beijei-lhe a bochecha antes de ir embora enquanto eu pensava se o ouvir chamar sua mãe pelo nome era algo preocupante ou não.
Depois de dá os calmantes para minha mãe e colocá-la na cama com ajuda de , fui agradecer a Jean e a Annie por ter feito a festa. Fiz questão de enchê-las de beijos e abraços enquanto escutava o bonito discurso que a minha sogra dizia a mim.
É claro que ela não sabia que era minha sogra. Ainda.
— Você é uma filha muito dedicada a sua mãe e uma mulher forte! — Disse para mim quando me abraçou. — Merece toda festa do mundo por ter se tornando o que é hoje.
Confesso que fiquei emocionada ao ouvir aquelas palavras. Poucas vezes eu me sentia daquele jeito tão especial e parava pra ver tudo que eu tinha batalhado até o presente momento. Tudo que eu fazia e fiz era para o bem estar da minha mãe e, por mais que tenha quebrado algumas promessas que fiz a ela, havia uma que eu nunca quebraria: cuidaria dela enquanto eu estivesse viva porque a amo.
Com ajuda de Jean e arrumei o que pude da casa, mas logo eles me mandaram tomar um banho e descansar, pois, mesmo já sendo onze horas da noite, ainda era meu dia. Só percebi que tinha demorado mais do que o normal quando entrei na sala de novo e fitei apenas sentado no sofá me esperando e tudo arrumado em seu devido lugar.
— Onde está Jean? — Perguntei olhando para os lados.
— Já foi pra casa. — Respondeu e se levantou indo em minha direção. — Quero desejar os meus parabéns do meu jeito e lhe dá o meu presente.
Quando vi seu sorriso safado, o acompanhei e deixei-o enlaçar minha cintura com seus braços. baixou um pouco a cabeça para fitar meus olhos e roçou seus lábios nos meus. Sem vontade de entrar em seu jogo, estiquei-me e o beijei de verdade. Meu destinado e namorado entendeu o recado e logo estava buscando aprofundar nosso beijo.
Quente. era extremamente quente.
Assim que nos separamos para recuperar o fôlego, ele sussurrou.
— Parabéns, meu amor.
O ouvir me tratar como meu amor era como estar nas nuvens. Eu estava vivendo o conto de fadas que nunca imaginava ser real.
— Agora vou lhe mostrar meu presente.
Grey deu um sorriso cheio de segundas intenções e ofereceu a mão para que eu pegasse. Aceitei-a com um pouco de receio e o vi me levar até meu antigo quarto.
Quando era criança, eu dormia em um quarto separado dos meus pais. É um cômodo pequeno — mal cabia uma cama e a uma cômoda — mas logo depois que a cama quebrou e Leticia precisava da minha ajuda para tomar os remédios de madrugada, decidir aposentá-lo pro tempo indeterminado.
Minha boca formava um perfeito ''o'' quando abri a porta e o vi todo arrumado e limpo. O colchão de uma cama de casal jazia ali, coberto por um lençol vermelho com os presentes que tinha ganhado e o quarto estava impregnado com o cheiro de rosas. As pétalas vermelhas estavam jogadas por todo cômodo e havia um buquê em cima da cômoda inutilizada.
Virei-me para , esperando uma explicação.
— Acredite, foi difícil convencer a Jean e minha mãe que isso era só pra colocar os presentes aqui. — Ele deu um sorriso sem graça. — As rosas eu coloquei enquanto você tomava banho, não repara em algumas que devem ter sido dilaceradas...
— Eu amei. — Falei rodeando seu pescoço com meus braços.
— Preciso dizer-lhe uma coisa.
Seus olhos caramelos me fitavam com determinação me deixando mais ansiosa. Meu coração palpitava como uma britadeira no peito ao vê-lo daquele jeito. Ele respirou fundo.
— Eu amo você.
De repente, meus olhos embaçaram com as lágrimas e apertei meu abraço para ter uma visão melhor daquele amarelo sedutor que me fisgara há tanto tempo.
desceu sua mão carinhosamente pelas minhas costas até a cintura e eu senti um arrepio em minha espinha. Eu estava muda, sem saber o que dizer. Sentia uma felicidade mórfica e nova.
Seus olhos recaíram sobre meus lábios e o respondi com um beijo terno. Meus dedos percorreram seus cabelos negros quando senti as coisas esquentarem e seu aperto em minha cintura intensificar.
Antes que eu percebesse, estávamos deitando no colchão e ele mordia meu pescoço me fazendo arfar.
Em meio a bolha que criarmos ao nosso redor, me lembrei dos presentes ao sentir algo duro em minhas costas.
... — O chamo e minha voz saí ritmada — Precisamos tirar isso daqui.
Ele levanta o rosto, balança a cabeça tentando organizar os pensamentos e, com cuidado e pressa, arrasta aqueles pacotes para o chão.
Sorrio ao ver seu estado: os cabelos bagunçados, a camisa amarrotada... Minha situação também não deveria ser uma das melhores, já que os botões do meu vestido florido estão abertos e meu sutiã preto está a mostra.
Levanto e de ponta de pé vou até a porta para fechá-la e me recordo que minha mãe está na mesma casa que eu.
Minha consciência pesa ao perceber que provavelmente eu esteja a desrespeitando, mas a nuvem que paralisa todos meus pensamentos racionais aparece quando sensualmente retira os meus cabelos dos ombros e beija minha pele. O arrepio é instantâneo e logo me vejo tendo sensações que nunca pensei em experimentar.
... — o chamo mais uma vez no momento em que seus dedos calejados estão retirando as alças do meu vestido. — Preciso... Contar uma coisa...
— Fale. — diz ele assim que a peça cai ao chão.
Fico de frente pra ele e minhas bochechas enrubescem por estar tão exposta. Grey parece rir da minha vergonha e engulo seco.
— Eu sou virgem.
Ele acaricia meu rosto com seu polegar e finalmente mira meus olhos.
— Isso explica muita coisa. — Falou e me deu um selinho rápido. — Você confia em mim?
— Claro. — Respondo prontamente.
— Então, não fique tensa. — Disse, massageando meus ombros. — Eu amo você e não faria nada para te machucar.
Assinto e enquanto ele tira a camisa, tenho uma vasta ideia do quão forte ele é. Meus dedos percorrem seu peito e abdômen com curiosidade e percebo que ele se arrepia facilmente com aquilo. Feliz com a descoberta, desço o indicador até o fim de sua barriga sarada.
segura meu rosto com as duas mãos para que olhe diretamente para ele. Segundos depois ele me beija ferozmente e me sinto flutuar.
Estou entregue a Grey. Estou completamente entregue a meu namorado, o destinado escolhido por mim, não por um relógio estúpido.

...

Eu estava exausta, mas satisfeita.
Aquela noite havia sido prazerosa e, mesmo sendo incômoda e dolorosa no começo, me sentia renovada e feliz por ter vivido uma experiência tão importante em minha vida com alguém especial.
foi incrivelmente carinhoso e paciente comigo; me sentia outra pessoa.
Nós dois dividíamos um travesseiro e fechei os olhos aproveitando o cheiro de seu perfume misturado com o odor natural masculino.
— Minha mãe deve está surtando de preocupação. — Ele sussurrou enquanto me aconchegava em seu peito.
— Coitada, você não devia fazer isso com ela. – Comentei ainda de olhos fechados e sorrindo fraco.
Grey mordeu meu nariz e depois me beijou mais uma vez. Eu estava viciada em seus beijos e temo que nunca me canse deles.
— Eu realmente tenho que ir, . – Suspirou. – Daria tudo pra ficar aqui com você.
— Então fica. – Pedi, finalmente abrindo os olhos.
Um medo estranho me ocorreu em pensar que não poderia ficar. Queria acordar ao seu lado na manhã seguinte, talvez até cozinhar para ele.
— Eu não posso. – Insistiu – Amanhã eu passo por aqui e conversamos, ok?
Concordo quando percebo que seria muito egoísta da minha parte pedir pra que ele ficasse quando sua mãe deveria está chamando polícia para descobri o paradeiro do filho.
Me conforto com a ideia de que quando o prazo acabasse nos iríamos nos assumir, não importa o que aconteça e poderíamos ficar quanto tempo quiséssemos.
Depois de se levantar e vestir sua roupa, agacha-se e beija minha testa.
— Eu te amo.
— Eu também. – Murmuro sentindo o cansaço e o sono me vencer.

...

Havia se tornado hábito me desliga das conversas das meninas na hora do almoço desde que elas começaram a querer mudar a personalidade de Franz por causa do destinado dela e convencê-la a perseguir o coitado. Tentei diversas vezes mostrar a elas o quão insensato essas atitudes eram, mas ninguém nunca me escutava; então, simplesmente desistir e quando tocam no assunto, minha atenção é desviada para outros pontos do refeitório.
Entretanto, não havia ninguém que fosse capaz de tirar meu bom humor naquele dia. Na verdade, eu estava assim desde minha primeira noite com e só posso afirmar o que dizem: sexo realmente faz maravilhas com seu humor. Eu estava disposta a dizer meu primeiro “eu te amo” ao Grey essa noite; acho que estou pronta para contar-lhe meus sentimentos que tenho pressentimentos de que não estão totalmente claros.
Podia me lembrar de cada segundo que passamos juntos ontem à noite e esses pensamentos me fazem rir envergonhada.
— Está rindo de quê? — Dassy perguntou me cutucando.
— Eu? Nada. — Respondi — Apenas me lembrando da noite de ontem.
— Hm... – Mary deu um sorriso cheio de segundas intenções. – Parece que alguém está aproveitando o seu tempo com um namorado temporário.
Rolei os olhos, mas rir de suas palavras. Em algum momento eu havia falado sobre ter um namorado temporário, contudo, deixei de lado a teoria de ser meu destinado e que, mesmo que ele não o fosse, não estava disposta a trocá-lo por alguém que não conheço e supostamente é o amor da minha vida.
— Aliás, — Diana entrou no assunto – quando é que seu prazo acaba mesmo?
Viro meu pulso esquerdo e fito o relógio preto que diversas vezes esqueci-me da existência. No momento em que vejo os números do relógio decrescendo, sinto uma onda de dejavu de 6 anos atrás e a temperatura do recinto cai.
Puta merda, eu esqueci!
— Faltam quase quarenta e cinco minutos. – Digo mirando o relógio como se ele diminuísse a velocidade com a força do olhar.
— O quê? — As meninas gritam, chocadas de forma que assusta a servente do refeitório. Dou um sorriso amarelo para ela e sussurro um “desculpe” antes de voltar a encará-las.
Depois de me dá diversas broncas sobre levar mais a sério o sistema, ouço-as cogitar.
— Seu destinado com certeza é da Coral! — Dassy bateu palminhas.
— Será que é o Andrew Grimes do Departamento de TI? Eu vi que ele ainda tem o relógio. — Observou Franz tentando por os seus novos cachos loiros em ordem, algo que ela não conseguira desde que decidiu pintar suas madeixas.
A ideia de ter sr. Grimes como meu destinado é desagradável e faço uma careta para demostrar isso. Por mais que ele seja da Ala F, tem um bom emprego e seja razoavelmente bonito, ele era muito antipático e homem de poucas palavras – e a maioria delas são grossas. Andrew não fazia meu tipo.
— Não seja boba, Franz. – Mary balançou a mão em desdém – Se for alguém da Coral é um novo funcionário ou entrou no prédio por engano, pois tenho certeza que não o conhece.
— Verdade. — Concordou Dassy. – A chance dela o conhecer é mínima e conhece todo mundo daqui.
É um bom ponto, pois o que ela disse não é mentira. Sei quem é todo mundo daqui, mesmo que não tenha tido contato direto por pura curiosidade e excesso de simpatia que eu tinha.
Olho para a porta do refeitório e suspiro desejando que apareça a qualquer momento. Como não havia citado nada sobre hoje quando estávamos juntos, possa ser que ele tenha se esquecido também. Será que ele já estava a caminho? Será que não conseguira pegar o ônibus a tempo?
Um corpo rechonchudo tampa a minha visão e levanto a cabeça fitando Emma Felders com cara de poucos amigos.
— Senhor Carter está lhe chamando lá na recepção.
Me levanto alerta e a agradeço por ter me avisado. Digo as garotas que já volto e ando depressa à procura de meu chefe. Estávamos a quase um mês da conferência e Albert não poderia ficar mais ansioso. Aquele era o ano em que montaria seu stand e seu perfeccionismo não o deixava alheio a qualquer detalhe fazendo sua pilha de nervos querer me atingir, entretanto, eu estava em uma época muito boa da minha vida para estressar-me. Alguém tem que ser paciente por aqui, afinal de contas.
Achei meu chefe encostado no balcão de mármore das recepcionistas com os dedos batendo freneticamente, uma de suas manias que dava sinal de vida quando estava esperando por muito tempo.
Ao me aproximar, percebi que ele estava pálido me fazendo deduzir que algo de muito errado estava acontecendo.
— Senhor? Tudo bem? – Perguntei temerosa.
— Preciso que você cancele tudo que tenho que fazer essa tarde. – Disse praticamente correndo para a saída. Dei passos longos a fim de acompanhá-lo.
— Sim, senhor, farei isso. – Respondi — Aconteceu algo grave, senhor Carter?
Arrisquei pergunta mesmo sabendo que não era da minha conta.
— Carol desmaiou e foi levada ao hospital agora mesmo. – Disse parando repentinamente e pude ver o medo em seus olhos.
— Vai dá tudo certo, senhor, talvez seja apenas um mal-estar. – Falei enquanto torcia para que o que eu dizia fosse verdade.
Albert concordou com a cabeça.
— Tire uma folga o resto da tarde depois disso. – Disse quando entrou no banco de trás de sua Mercedes e antes que eu processasse o que acontecia seu carro sumiu no mar de automóveis da avenida.
Fiz uma pequena prece em favor a Carol enquanto corria em direção ao elevador para cancelar toda a agenda de meu chefe. Tentei enviar os e-mails pelo celular, mas o wifi não cooperava de jeito nenhum.
Quando terminei todo o trabalho faltavam vinte e cinco minutos para meu prazo acabar e me vi pensando que voltar para casa poderia ser uma má opção, pois desencontraria com .
As pessoas já haviam começado a voltar ao trabalho e eu me despedi das meninas que consegui encontrar no meio do caminho, dando risadas de seus conselhos astutos para quando encontrasse meu destinado naquela tarde.
De frente para o prédio da Coral, do outro lado da rua, havia uma lanchonete requintada e cara que vendia sucos maravilhosos e decidi entrar, pedir um suco barato e ficar de vigia na mesa já que o vidro transparente me dava uma boa visão da avenida e facilmente avistaria meu namorado.
Respiro fundo quando retiro o dinheiro da minha carteira que deveria ser para o aluguel daquele mês, entretanto, era uma data especial, pois hoje eu e assumiríamos nosso namoro e finalmente iria me declarar para ele. Poderia lidar com Adolf outra hora.
Esperei pacientemente na fila para fazer meu pedido enquanto observo os bonitos painéis que decoravam o estabelecimento.
— Próximo.
Me viro ao perceber que era minha vez e peço um suco tradicional de acerola sem leite. O que eu mais gostava naquele estabelecimento era a rapidez que trazia seu pedido, porém naquele dia algo estava retardando o serviço fazendo com que uma fila enorme se aglomerasse atrás de mim. Bato o pé inquieta e estico meu pescoço para olhar a rua, pois as pessoas tampavam minha visão.
Logo quando desisto de olhar para trás meu pedido chega. Agradeço e pago segurando o copo de plástico decorado em bege e rosa claro. Os dedos da minha mão endurecem por está muito gelado e começo a andar devagar até a mesa vazia do outro lado da lanchonete, pois o líquido estava começando a transbordar.
A cena seguinte acontece rapidamente para quem estava de fora, mas, para mim, acontecera em câmera lenta.
Estou tentando equilibrar o copo de suco na minha mão esquerda e vou atrás da fila para passar para a mesa vazia que eu tinha visto. A fila está enorme e vai até a porta do estabelecimento. As pessoas estão nervosas e com pressa, resmungam e reclamam pela demora e um palavrão no meio dos murmúrios, por algum motivo desconhecido, me chama atenção e olho para o lado.
Uma vibração estranha passa pelo meu pulso como uma descarga elétrica e, no susto, por instinto, solto sem cerimônia o copo de minha mão. Dou um salto pra trás quando percebo que o líquido acertou alguém que acabara de sair da porta, mas a vibração não parece ter acabado. Fito uma camisa social, antes branca, suja de um vermelho da acerola e um homem segurando um terno cinza em seus braços.
Ai meu Deus! Essa camisa deve custar mais do que meu salário!
Sei que estou encrencada quando deduzo que aquele homem é da Ala A pelo paletó caro e os cabelos loiros penteados para trás como um mauricinho, todo engomado. Preparo para soltar um xingamento enquanto fito a careta surpresa e meio raivosa dele, pronto para soltar um palavrão, quando nossos olhos se encontram e nós dois ficamos mudos.
Sua íris é negra, escura como a noite. Não há outra cor além do preto que contrasta com todo o resto do seu corpo; a pele dele é pálida e os cabelos dourados. Uma força invisível e magnética me prende a eles e não consigo desviar de jeito nenhum; aparentemente, o homem também passa pela mesma coisa que eu em sua cabeça.
Automaticamente sinto o peso costumeiro do relógio em meu pulso esquerdo sumir e o barulho de vidro caindo ao chão rompe aquela ligação estranha. Nossos olhos correm para o chão onde nossos relógios estão caídos, um ao lado do outro, organizados como se não tivessem caído por acaso. Provavelmente era porque eles não caíram por acaso.
Volto olhar para o homem engomado em minha frente e luto para desviar o olhar mais uma vez em direção a sua camisa.
Porra.
Eu joguei suco no meu destinado.

Capítulo 6

"Mas há um lado seu que eu nunca conheci. Tudo o que você dizia nunca era verdade." - Set Fire To the Rain, Adele.

O silêncio que havia na lanchonete fez com que me lembrasse de que não estava em um lugar deserto e decidi dá uma olhada no que acontecia o meu redor.
Merda.
As pessoas olhavam pra mim e meu destinado com um interesse indiscreto, esperando por uma reação romântica nossa. Quando vi o porta-guardanapos em cima da mesa próxima, puxei um bocado rápido e fingi que aqueles segundos passados não ocorreram a partir da sujeira que fiz na camisa do engomadinho.
— Mil perdões, senhor, não foi minha intenção. – Supliquei tentando limpar a sujeira que eu tinha feito; sem sucesso, claramente, pois a mancha vermelha parecia não querer sair de jeito nenhum.
— Tudo bem. — Ele disse e pude jurar que estava sorrindo, mas mantive o olhar sobre meu desastre. — Sério, está tudo bem.
Disse se afastando um pouco para indicar que eu não precisaria mais esfregar sua camisa.
— Eu apenas não esperava encontrar minha destinada de um jeito tão... – hesitou – Peculiar.
Levantei o rosto para mirá-lo e senti meu estômago revira ao vê-lo sorrir tão sem graça. Como eu poderia dizê-lo que eu não acreditava naquele sistema? Como explicá-lo que eu tinha um namorado?
Cocei a garganta, incerta. Quanto mais rápido eu dissesse melhor, não é?
— Eu tenho namorado.
Primeiro sua expressão foi de surpresa e momentos depois seu sorriso ia diminuindo. Senti um pouco de culpa por fazê-lo passar por aquilo, mas não mentiria para alguém que seria meu carma pelo resto da vida.
— Preciso ir. – Digo rapidamente e abro a porta deixando-o para trás.
Só percebi que estava com o coração acelerado demais quando comecei a andar pela calçada. Eu estava agitada ao ver que as coisas estavam começando a sair do controle quando uma voz alta e barítona preenche meus ouvidos.
— Mas eu nem sei seu nome.
Viro para trás, assustada. Fito seus olhos negros e pondero em responde-lhe. Ele mantinha um sorriso discreto nos lábios e não parecia disposto a me perseguir.
. – Respondo antes de sair correndo para cruzar a avenida.
Enquanto ando em direção ao ponto de ônibus me pergunto o que fazer agora. Todas as pessoas que rejeitaram seus destinados tiveram a péssima sorte de encontrar os mesmos nos lugares mais impertinentes do universo, então, não seria a última vez que eu viria o engomadinho.
Quando chegasse em casa, seria o primeiro saber sobre o ocorrido e nós vamos resolver esse impasse.
Será que terei que me mudar para as fazendas ao redor da cidade por causa da aquilo?
Com certeza seria melhor, principalmente para mim e minha mãe – talvez ela tivesse até uma melhora. Se esse for o meu destino com , é pra lá que eu vou!
Desviei o meu caminho para casa e vou em direção ao hospital que minha mãe tinha uma consulta naquela tarde. Enquanto caminho pelas ruas da minha cidade, me perco pensando quem era aquele homem que o destino escolheu para mim, sem a minha autorização.
Chutei uma pedrinha, frustrada. Eu pensava que estava começando a entender aquele sistema louco e que ele estava sobre meu controle, entretanto, mais uma vez estou no escuro com minha vida.
Deveria ser minhas escolhas, meus projetos, minha vida amorosa.
Qual o problema daquele relógio idiota?
Balanço a cabeça tentando esquecer meus pensamentos por um tempo ao avistar o hospital que minha mãe estava sendo atendida.
Quando chego na recepção, descubro que Dona Leticia estava passando por uns exames urgentes e eu não poderia acompanhá-la no momento.
Sinto um mal-estar horrível só de ouvir aquelas palavras e me sento esperando que Jean dê o ar de sua graça e apareça com alguma notícia.
Para variar, as horas se passaram devagar e estava tão apreensiva que não conseguia nem mesmo me distrair com os jogos que havia em meu celular.
Se eu soubesse que esse dia seria assim nem me levantava da cama.
Era quase final da tarde quando Jean apareceu no final do corredor empurrando a cadeira de rodas com minha mãe. Levantei-me no solavanco e apressei meus passos para encontrar as duas.
A cabeça da minha mãe pendia para o lado esquerdo, uma posição claramente desconfortável. Sua boca estava semiaberta e seus olhos claros, perdidos, fitavam algum ponto na parede branca do corredor.
Sinto uma dor no peito e lágrimas enchem meus olhos mais rápido do que imaginei que aconteceria, mas as seguro com força.
Passo a mão no rosto tentando me recompor e cenas do sorriso da minha mãe antes da doença invadem minha mente.
Ainda consigo vê-la na cozinha preparando nosso café. Seu sorriso caloroso dizendo ''bom dia'' para mim e meu pai. O cheiro doce de casa e a harmonia que nós três tínhamos era singular e sincero.
Eu...
, está tudo bem? – A voz de Jean me desperta e eu pisco diversas vezes, saindo daquele mundo das lembranças.
— Sim. – Respondo dando uma tapinha em suas mãos para que eu conduza a cadeira de rodas.
Minha amiga me olha desconfiada, mas não toca no assunto.
— Como foi a consulta? Me disseram na recepção que ela estava fazendo alguns exames...
Em resposta, Jean suspirou pesado e o aperto no meu coração foi inevitável – conhecia muito bem a minha amiga e aquilo não era um bom sinal.
— Parece que sua mãe pegou uma gripe. – Respondeu assim que avistou o carro do governo que sempre levava e nos trazia ao hospital. — Você sabe quão difícil é saber como ela se sente, já que perdeu a fala, mas o médico passou alguns antibióticos e logo a senhora vai ficar boa novamente.
Sorriu tranquilizadora.
Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo e assenti.
— Espero que sim.
Demorou apenas o tempo em que entrei na van e me sentei para que Jean me olhasse com surpresa e curiosidade. Arqueei as sobrancelhas sem entender sua expressão, até que percebi que ela não olhava em meus olhos e sim para meu pulso esquerdo apoiado no banco da frente.
Que droga.
— Como foi? – Ela perguntou — Eu não acredito que você foi encontrar seu destinado e nem me avisou! Eu podia fica com sua mãe por mais tempo, poxa! Vocês dois poderiam jantar e...
— Não quero falar sobre isso.
O sorriso de minha amiga foi diminuindo ao perceber que eu estava falando sério.
— Não acredito que seu destinado é tão ruim assim, . – Ela falou acariciando meu braço.
— Jean...
— Ok. – Ela levantou as mãos em rendição. — Não está mais aqui quem falou.
Fiquei a observando apertar os lábios, tentando não falar nada ou perguntar algo para mim. Seus olhos cor de mel brilhavam com as luzes da cidade. Havia escurecido rápido e até o bairro da Ala O o caminho era longo.
— Está bem, eu respondo uma pergunta sua. – Falei derrotada e ela bateu palminhas animadas.
— Tudo bem, tudo bem. – Coçou a garganta. — Qual o nome dele?
Fiz careta.
— Não sei.
— Que absurdo! – Ela me recriminou com o olhar. – Você diz que não gosta do seu destinado, mas nem o nome dele sabe!
— Oras, tenho nada contra ele! – Me defendi – È complicado, Jean.
Ela revirou os olhos e fez menção de dizer algo, mas a van parou bruscamente.
— Desculpe! – O motorista disse – Quase atropelei um gato.
Olhei para janela e percebi que estávamos a duas quadras de minha casa.
Salva pelo gongo!
— Sabe, não importa. – Jean balançou a mão em desdém — Você deve está apaixonada por ele e está com medo.
Ignoro o frio na barriga que tive ao ouvi-la falar aquilo sobre o engomadinho e faço minha melhor careta de confusão.
— Você está louca, minha querida.
Faltando apenas alguns metros para pararmos quando vi de costas em frente de sua casa. Mordo o meu lábio inferior nervosa.
Teríamos que resolver o que faríamos o mais rápido possível.
O nervosismo toma conta de meu ser e sinto as mãos suarem, entretanto, não tenho muito tempo para me recompor, já que Jean está me empurrando para fora da van antes que eu consiga respirar direito.
Viro-me rapidamente querendo me esconder e fito Jorge tirando a cadeira de rodas da minha mãe como se fosse a coisa mais interessante que já vi na vida e tento evitar o inevitável.
Abro a boca para dizer que eu assumo a partir daí, mas Jean logo está subindo as escadas até a minha casa com a cadeira e Jorge segura minha mãe pelos braços.
Solto o ar pela minha boca e giro meu pés em direção a casa de .
Miro os ombros fortes do meu namorado e um sorriso brota em minha face automaticamente ao lembrar de nossos encontros às escondidas.
Ele me ama. Tudo vai ficar bem; nós vamos resolver isso juntos.
Repito aquelas palavras na minha mente e assim que faço menção de continuar andando, percebo que Grey não está sozinho.
Pela segunda vez naquele dia, a temperatura do recinto cai e todo meu corpo está frio.
fica de lado e finalmente posso ver melhor a mulher que está o acompanhando. Ela é muito baixinha e magra e fica evidente o porquê de não tê-la visto antes – o corpo de Grey a esconde facilmente.
A mulher está simples e sofisticada com suas roupas. Seu cabelo preto tem mechas amarelas em um corte channel, totalmente simétrico. Entretanto, outra coisa me faz perder o chão, uma coisa muito mais importante.
A dor que sinto em meu peito me sufoca e a luta para segurar as lágrimas é maior que o usual.
Como fazia ao me ver, sorrir e seus olhos brilham como fogos de artifício em noite de 4 de Julho ao olhar sua destinada.
Ele se inclina em sua direção para beijá-la e, então, estou no meu limite.
? – Minha voz sai sofrida e engasgada.
Ele se afasta assustado por alguém ter estourado sua bolha e olha para mim. Sua destinada me olha curiosa, enquanto, Grey está com o cenho franzido, seus olhos cor de mel me recriminando.
Você não devia estar aqui.
Meu peito queima, meu olhos queimam, tudo queima. Me sinto rejeitada.
Aquilo não podia está acontecendo, simplesmente não.
E eu corro para casa me perguntando se aquela noite poderia piorar.

...

Demorou alguns minutos até que eu conseguisse parar as lágrimas e fui me despedir de Jean. Felizmente ela não pareceu perceber meu estado emocional crítico e apenas me abraçou rapidamente enquanto tagarelava. Eu não prestava muita atenção no que ela dizia, afundada na minha própria tristeza, contudo, sua última frase pareceu triturar o resto do meu coração.
— Não vejo a hora de conhecer a destinada do meu irmão.
Cerrei o punho me controlando para não chorar mais uma vez e a vejo abrir a porta.
Oh, isso está ficando cada vez pior.
está na porta com a mão levantada, pronto para bater. Jean arregala os olhos automaticamente.
— Já estou indo, mamãe. – Brinca e passa por ele, saindo do meu campo de visão.
Miro os seus olhos tentando entender o porquê de está ali, mas ele desvia antes que eu possa fazê-lo.
— Posso entrar?
Queria bater a porta na sua cara e dramatizar, mas queria respostas, ou desculpas; algo que me faça entender aquilo.
Concordo com a cabeça e cruzo os braços.
— Queria que você me explicasse o que está acontecendo.
Fico surpresa ao ouvir a firmeza da minha a voz.
— Onde está seu destinado? – Ele pergunta procurando algo em minhas costas.
— O quê? – Liberto minhas mãos e o olho raivosa. — Quero falar de nosso relacionamento!
— Tudo bem, , seja boazinha, ok? — Ela esticou as mãos como se tentasse acalmar uma fera indomável. — Eu pensei que fossemos destinados, mas não somos.
— Essa parte eu já entendi, . – Reviro os olhos.
— Então, não somos destinados. — Ele falou como se tudo estivesse resolvido. — Eu tenho Gia e você tem seu destinado.
— Gia? – Franzo o cenho.
— Minha destinada. – Vejo aquele sorrisinho sexy brotar em sua face ao falar sobre ela e sinto minha respiração pesar.
— Mas você é meu namorado. – Sussurro debilmente.
me olha com pena e segura meus braços. Quero me desvincular dele, mas uma parte estúpida da minha mente diz que talvez ele irá me abraçar, beijar minha testa e dizer que nada daquilo estava acontecendo.
— O que tivemos foi especial, , mas acabou. — Ele está amassando o cacos do meu coração sem dó — Eu vou seguir em frente com o amor da minha vida e você seguirá a sua com seu destinado.
— Mas eu escolhi você. – As lágrimas estão descendo pela minha face – Não a porcaria de um destinado que nem conheço!
...
— Para de me chamar pelo meu apelido como se tudo estivesse bem! – Eu grito – Você disse que me amava, mas me trocou na primeira oportunidade!
... – Seu olhar de pena me enoja e me sinto humilhada.
— O que é amor pra você, hã? – O empurro ficando longe de suas mãos. — Definitivamente não é isso que você está fazendo!
— Está bem. – Ele cruza os braços sem paciência. — Eu fui para aquela porcaria de bairro onde você trabalha e esperava te encontrar, mas quando encontrei Gia... Tudo pareceu certo.
O soluço que saiu da minha garganta só foi o começo. Eu sentia como se alguém tivesse me dado um chute na barriga e não conseguia respirar direito.
Fui tão idiota em achar que ele me amava de verdade.
Estúpida, estúpida e estúpida.
Quando percebo que está ameaçando me abraçar estico a mão para que ele pare.
Não preciso da pena dele.
— Saía da minha casa! – Eu peço levantando o rosto em sinal de superioridade. Posso está desesperada, mas não vou continuar o vendo fazer isso comigo.
entende o recado, murmura um "eu sinto muito" e fecha porta levando consigo o meu coração partido.
Me abraço, sentindo muito frio e sozinha. Meu choro sai estrangulado, como de alguém que não faz isso a muito tempo e apenas consigo andar com a vista embaçada até a sala. No meio do cômodo, em cima do tapete velho, desabo sem mais nenhuma força em minhas pernas.
Envolvo meu corpo pelos braços, como uma bola, sem saber o que fazer a não ser chorar. Aquilo foi algo que não esperava e perdi totalmente o sentido do que queria fazer.
Meus planos se partiram em pedaços antes mesmo de começar a existir.
Em algum momento de todo aquele choro, percebi que não estava triste apenas por ter o coração quebrado pelo , mas sim pelo dia horrível que eu tive.
Até quando eu continuaria assim? Até quando só coisas ruins aconteceriam ao meu redor?
Será que aquilo poderia piorar?
Como resposta do universo as luzes se apagaram e os gritos lá fora foram ouvidos. Corri até a porta e a tranquei, meus instintos alertando o que estava acontecendo.
Um blecaute, hein?
Vou levar isso com um sim, aquilo poderia piorar.

...

Eu estava meia hora adiantada naquele dia para o trabalho.
Atípico, eu sabia.
Desde o momento que eu tinha aberto os olhos, sabia que aquele dia seria difícil de enfrentar. Meu corpo estava dormente e os olhos tinham olheiras quase impossíveis de disfarçar com maquiagem.
Minha cara não deveria está a melhor, mas com certeza coincidia com meu estado de espírito miserável.
Todas as vezes que me lembrava de e de nossa conversa eu ficava entre duas alternativas: me socar por ter sido idiota ou chorar por ainda sentir aquela dor horrível em meu peito. E eu nunca tive a aportunidade de dizer-lhe que o amava...
Por um lado, me sentia aliviada de não ter o feito, pois ele não merecia meu amor, mas, por outro, me sentia quebrada por dentro, pois eu continuava o amando.
Quando pus o pé na recepção, Daisy sentava-se em sua cadeira. Suspirei derrotada quando percebi que não teria chance de fugir da inevitável conversa sobre destinados e toda aquela merda.
— Olha só quem está aqui! – Ela sorriu animada ao me aproximar do balcão. — Como foi com seu destinado?
— Oi, Daisy! — A cumprimentei ignorando sua pergunta. — Cheguei cedo hoje, não?
— Não seja chata, ! – Ela pôs as mãos na cintura. — Estou curiosa.
— Ah, minha mãe? – A ignoro mais uma vez — Está bem, sim. Obrigada por perguntar.
— Sério, ? — Ela bufou frustrada, perdendo a paciência facilmente.
Quando vi que minha digital havia sido registrada, me afastei para ir embora.
— Foi um prazer conversar com você. — Dei o meu melhor sorriso ensaiado e virei-me em direção ao elevador.
Entretanto, a minha amiga parecia disposta a me arrancar alguma coisa e correu atrás de mim. Rapidamente entrei no elevador vazio e apertei no botão para meu andar.
— Por favor! Só uma informaçãozinha de nada, por favor! — Ela gritou ao perceber que correr com salto alto pelo chão liso do salão principal não era uma boa opção.
Fiz uma careta pensativa, mas não falei nada vendo as portas metálicas se fecharem a minha frente.
Respirei aliviada, ainda tinha alguns minutos até Daisy entrar em um elevador e ir atrás de mim.
Como esperava, segundos depois de ter saído do elevador, ela apareceu pisando forte em minha direção.
— Você vai falar. Agora. – Disse autoritária.
Revirei os olhos.
— Dispensei meu destinado. Não estou interessada em um relacionamento no momento, obrigada. – A respondi e sentei em minha cadeira, começando o dia de trabalho.
— Não acredito que você fez essa besteira! — Ela exclamou, horrorizada. — Você tem que se relacionar com alguém, !
— Eu estou em um relacionamento! – Contrapus no automático.
Rapidamente, percebi a besteira que eu tinha falado e tentei corrigir.
— Ao menos, eu estava...
— Você tem que dá uma chance para o cara, coitado! – Ela me recriminou — Ele esperou um tempão para conhecer a destinada e na primeira oportunidade você o dispensa.
— Não estou com ânimo para conhecer novas pessoas, Daisy. – Digo, percebendo que aquela era a verdade da minha situação.
Tinha que curar um coração quebrado antes de qualquer coisa
não quer conhecer gente nova? — Ela arregalou os olhos. — Você está doente, ?
— Por favor, Daisy... — Implorei.
— Tudo bem! – Estendeu as mãos ao alto em redição. — Apenas diga o nome dele e eu irei embora.
Soltei um suspiro e fiz um bico.
— Eu não sei.
Daisy deixou sua cabeça pender para o lado como um pássaro me olhando atentamente.
— Você nem sabe o nome dele e o dispensou. — Ela afirmou tentando engoli as palavras. — Louca, é isso que você é! Ele não pode ser tão ruim assim! Por acaso ele é velho ou pobre?
— Preconceituosa... – Murmurei.
— Sou mesmo! — Assumiu — Não consigo achar um motivo plausível para dispensar sua alma gêmea.
— Ele é jovem e parece ser rico. – Respondo sua pergunta enquanto ligava meu computador — Ao menos deve ser da Ala D, se for advogado.
— Louca! Você é completamente louca. — Ela balançou a cabeça em negativa — Quem sabe um dia eu a entendo.
Daisy se despediu e logo desapareceu do meu campo de visão, me deixando perdida entre suas palavras.
Talvez, só talvez, se eu estivesse solteira não dispensaria meu destinado facilmente, ao menos, tenho certeza que não fugiria daquele jeito.
Talvez eu soubesse o nome dele.
Acho que ele não tem um bom timing.

...

Para alguém que estava esperando moleza naquela manhã, aquele dia tinha começado horrível, mas para mim, que estava disposta a mergulhar de cabeça no trabalho e esquecer meu estado emocional, foi um alívio.
Senhor Carter chegou voando pedindo para que me organizasse para transformar o dia de trabalho + a tarde de ontem tudo naquela manhã, pois ele queria voltar para casa e dá assistência a sua esposa.
Mesmo de mau humor, não consegui controlar minha curiosidade e perguntei como a senhora Carter estava e me assustei com a resposta.
Grávida, ele disse. Pela terceira vez, ela estava grávida.
Eu não conhecia muitos casais que tinham um monte de filhos – ao menos não do mesmo relacionamento, e ao julgar que o tempo das pessoas da Ala A para dedicar-se a família era escassa, eles dificilmente tinham mais de dois filhos. Meu chefe, no entanto, parecia está animado em ser pai mais uma vez e torcia para que dessa vez fosse um menino, um herdeiro, já que tinha aquela lei (ridícula, em minha humilde opinião) que dizia que as mulheres não poderia ganhar uma herança – ao menos não toda, os pais poderiam dá um dinheiro bem limitado as suas filhas – e, se elas fossem casadas, seus destinados receberiam o dinheiro.
Absurdo!
Entretanto, se na família nasce-se um menino, todo dinheiro iria para ele e os maridos das suas irmãs ficariam sem um tostão.
Eram onze horas quando finalmente conseguir sentar na minha cadeira e comemorei quando percebi que apenas faltava alguns eventos da tarde para terminar todo nosso trabalho; contudo, minha dancinha de comemoração foi mal calculada e acabei batendo no porta-lápis/grampo/clip/qualquer coisa que coubesse ali e derrubei tudo embaixo da minha mesa.
Bufei e me agachei para pegar os objetos. Ouvir um barulho do elevador abrir e rapidamente comecei a agarra tudo aquilo que conseguia em minha mão e jogar sem jeito em minha mesa, a fim de pegar todos antes que a pessoa do elevador aproximasse.
Quando me estiquei para pegar o último clip, ouvi o barulho de alguém coçando a garganta
Estiquei o braço para cima com o indicador levantado, pedindo um minuto. Ao pegar o objeto, bati a cabeça na mesa por calcular mal minha saída.
Assim que me erguia para falar com o visitante, pus a mão no lugar onde bateu massageando. Contudo, no momento que descobri quem estava à minha frente, percebi que era melhor ter ficado escondida de baixo da mesa.
Meu carma havia começado e ele tinha exóticos olhos pretos.
Não entendi de imediato o motivo de meu coração parecer sair do peito e a rapidez que passei as mãos no cabelo para arrumados, esquecendo-me completamente da pancada que havia acabado de levar.
Meu destinado estava com a testa franzida, não entendendo o fato de eu estar ali. Ele olhou para trás tentando encontrar um sentido para aquilo, soltando um sorrisinho espertinho e balançando a cabeça em negação, descrente.
Ele usava um terno parecido com o do dia anterior e uma gravata preta. Seus cabelos engomados com gel pareciam não o obedecer naquele dia – estavam arrumados na frente, mas era possível ver que os fios de trás insistiam em voltar a ser cachos.
Abri a boca para dizer algo, mas assim que ele me fitou fiquei muda e desisti de falar.
Aquilo era estranho e estava acontecendo pela segunda vez na mesma semana.
O engomadinho tentou falar, contudo, no exato momento, senhor Carter saiu pela porta desviando nossas atenções.
! – Exclamou surpreso — Não acredito que você finalmente chegou aqui.
— Po-ois é, tio. — Eu o vi falar todo desconcertado, como um adolescente tímido.
Então, em uma fração de segundos o vi se transformar. ergueu as costas e pigarreou parecendo mais seguro de si.
— Pensei que fosse bom saber como meu dinheiro está sendo usado, não é? – E deu um sorrisinho para seu tio.
Eu olhava a cena sem entender exatamente o que acontecia. Então, meu destinado era sobrinho de meu chefe e eu nunca o vi? Qual a probabilidade de isso acontecer?
— Conhece a senhorita ? – Carter apresentou-me ao perceber que eu estava no cômodo. — Essa é a minha secretária .
Levantei rapidamente em prontidão.
sorriu se divertindo com a situação, ainda descrente do que estava acontecendo.
— Senhorita ? – Ele disse e apertei os dedos contra a mesa tentando me controlar para não soltar um suspiro ao ouví-lo pronunciar meu nome. — .
Odiava admitir, mas sua voz era melódica e divertida; do jeito que falava parecia testar o som do meu sobrenome ao pronunciá-lo e de alguma forma aquilo me atingia.
Mas que merda?
Apertei a sua mão e por alguns milésimos de segundo percebi está constrangido com esse cumprimento; apenas entendi o porquê quando sentir sua mão escorregadia. Devia sofrer de hiperidrose ou algo assim e sentir-se envergonhado com isso.
— Prazer em conhecê-lo, senhor . — Disse profissionalmente.
Um silêncio recaiu quando nosso olhar se encontrou mais uma vez, aquela força magnética que nos ligava. Era impossível não prestar atenção naquelas íris escuras, marcantes e raras.
— Vamos entrar? – Senhor Carter falou nos tirando da bolha que estávamos. — Venha também, , vou precisar de algumas informações.
Pisquei mais do que o necessário e peguei o notebook da empresa, seguindo logo depois as instruções do meu chefe.
— Então quer dizer que você já conheceu sua destinada? – Carter comentou para seu sobrinho e parei de andar pelo reflexo.
Antes que entrasse no escritório do sr. Carter ele me lançou um sorriso sem malícia, como se lamentasse.
— É...
— Ela é da cidade? Talvez eu a possa conhecer. – Disse meu chefe animado.
— Não quero falar sobre isso, tio, se me permite. — Respondeu deconfortável.
Senti um incômodo no estômago ao vê-lo usar aquela frase conhecida.
— Ela o dispensou, rapaz? – Carter parecia surpreso e virou-se ainda na entrada de seu escritório. — Vai desistir tão fácil?
— Eu não desisti, tio. – Ele sorriu e a sinceridade das palavras deixaram minhas entranhas congeladas.
Por favor, destino, não.
— Sangue dos , hein? Não se esqueça. – Ele deu tapinhas em seu ombro.
Olhei para porta e soltei um suspiro.
Bem-vinda a maldição do Destinado, . – sussurrei para mim mesma.

...

Eu tinha consciência de que não estava tão perto assim; se ele quisesse tocar em meu braço precisava se esticar um pouco. Entretanto, sua presença deixava meu corpo formigando e e me sentia incapaz de olhar para qualquer lugar que não fosse o notebook.
Percebi naquela pequena reunião que meu destinado não estava totalmente entusiasmado com a conversa e não conhecia alguns termos que geralmente usamos nesse ramo. Carter, entretanto, era paciente e sempre explicava o que seu sobrinho não entendia como se esperasse aquela atitude o tempo todo.
Entao, ele não era daquele ramo? Com que ele trabalhava?
— Tio, por favor, não aguento mais ver números. — Ele suplicou de forma divertida fazendo Carter rir.
— Tudo bem. – Ele concordou se levantando. — Queria muito passar mais tempo com você, mas preciso fazer algumas coisas antes de voltar para casa. Você conhece sua tia, agora que está grávida de novo vai querer atenção todo tempo.
Meu chefe falou e não consegui impedir o sorriso do meu rosto ao ver pela sua expressão que ele não estava reclamando de sua esposa – ele a amava e gostava daquela característica de Carol.
se levantou também, o acompanhando, e fui logo atrás como um fantasma na conversa. Estava começando a repirar aliviada pelo fim daquele encontro com meu novo carma quando sr. Carter fez questão de que eu tirasse algumas cópias das finanças do último mês para , que havia descoberto ser um dos acionistas fantasmas da empresa.
Havia pelo menos três acionistas na Coral, entretanto, eles pareciam mais ''ajudadores de custo'' já que os fundadores da empresa eram os que mais ganhavam e trabahavam para manter tudo funcionando bem. Dois dos acionistas nunca apareciam enquanto o outro, sr. Thurman, era frequente em algumas reuniões.
Decidi imprimir aquelas cópias na impressora pequena que ficava na mesa, visando adiar o trabalho o mais rápido possível e torcendo para que ela funcionasse.
— ...esse será o último filho de vocês? – perguntou no momento que eu fitava a impressora começar a trabalhar.
— Quem sabe, ? – Respondeu meu chefe. — Carol quer ter uma casa cheia de crianças, então...
Eles ficaram em silêncio mirando-me grapear as folhas na ordem certa. Arrumei-as em linha e entreguei-as ao meu destinado. Ele agradeceu e logo estava se despendindo de Carter, me fazendo sentir-se mais aliviada.
Focei meus olhos na tela do notebook tentando esquecer aquele encontro e todos os sentimentos sinistros que me passava. Era muita inocência minha acreditar que nunca iria vê-lo de novo, mas gostava de me iludir por algumas horas – ou dias, se eu tivesse sorte.
— Posso conversar com você?
Dei um pequeno salto assustada quando escutei a voz de . Olhei ao redor à procura de Carter, contudo apenas nós dois estávamos ali.
— Desculpe. – Vi seu rosto ficar vermelho de vergonha, mas ele parecia controlar o máximo para não demostrar.
— Tudo bem. – Respondi mais para mim do que para ele e me acomodei na cadeira de novo.
— ''Tudo bem, eu posso falar com você'' ou ''Tudo bem" por ter te assustado'? – Soltei uma risadinha ao ouvir aquela pergunta.
— Para os dois, senhor .
Ele fez uma careta.
— Não me chame assim, , por favor. – Pediu e eu assenti.
A voz de era estranhamente morna; ele mantinha uma tranquilade quase palpeavel em suas palavras, mesmo se estivesse dizendo coisas horríveis. Era um poder invejável já que você acabaria fazendo alguma coisa que não queria simplesmente pelo seu tom de voz.
Péssima característica para um destinado que você quer se livrar.
— O que deseja, ? – perguntei mais interssada do que gostaria.
Ele inclinou um pouco a cabeça para o lado me analisando.
— Como você está?
Demorei para processar o que ele havia perguntado e quase cair na gargalhada ao entender suas palavras.
— Bem? – Minha resposta soou meio rude e obvia.
Entretanto, continuou me olhando sem mudar de expressão.
— Você não parece bem.
Um arrepio atravessou meu braço e decidir ficar calada com aquela afirmativa.
Não uma pergunta ou uma negativa.
Ele afirmou algo que eu já sabia, mas nenhuma das pessoas ao meu redor costumavam descobrir. Um estranho, alguém que não me conhecia, me leu tão bem que comecei a desconfiar que meus amigos eram egoístas e não prestavam atenção em mim.
Meu destinado pôs a mão no bolso esquerdo em uma expressão relaxada.
— Sei que não estava esperando por um destinado e entendo isso. – Ele explicou – Não quero forçá-la a nada, mas gostaria muito de ter sua amizade. Poderiamos almoçar juntos daqui a pouco, se você quiser.
Franzi o cenho confusa. Mas e aquele papo de que não iria desistir..?
— Tem certeza? – Arqueei a sobrancelha.
riu jogando a cabeça para trás, entendendo minha pergunta.
Ele deu alguns passos até a mesa e inclinou-se em minha direção.
— Cada coisa ao seu tempo, . – Piscou galanteador — Não, eu não vou desistir.
Me contive para não fechar os olhos e inalar aquele perfume maravilhoso. As suas palavras me fizeram cerra o punho em nervosismo.
não se afastou logo depois, como imaginava. Ele continuava ali perto demais com os olhos perdidos em alguma parte de meu rosto. Começando a me sentir desconfortável, cocei a garganta.
Ele voltou a sua posição inicial com um pigarro, seu rosto ficando vermelho mais uma vez. Iria fazer um comentário engraçadinho sobre isso quando ele me interrompeu.
— Irá almoçar comigo?
Aquilo era uma péssima ideia e tinha consciência disso. Eu estava na fossa e não era uma boa compania naquele dia; meu destinado, para completar, deixou bem claro que não desistiria de tentar um relacionamento comigo, a última coisa que eu gostaria de escutar no momento.
Porém, havia aquela curiosidade que pertencia ao meu instinto que insistia em querer descobrir quem era meu destinado; uma vozinha muito educada que dizia que o acordo era bom para os dois lados e que, talvez, eu me esqueceria da decepção que havia passado na última noite ou, pasme, me divertisse.
Então, fiz a minha primeira burrice pós-coração quebrado.
— Sim. – Disse e um sorriso inesperado se formou em minha face.

Capítulo 7

"Eu quero ler você como um livro; me deixe dá uma olhada dentro de sua cabeça, porque você não precisa ser reescrito." - Rewritten by Teske.

Só Deus sabia o quão desconfortável me sentia naquele silêncio enquanto segui a uns três passos de . Contudo, meu destinado parecia mais do que satisfeito; o sorriso no rosto não queria sair de sua face nem tão cedo. Ele não conseguia conter sua animação e eu continuava a desviar o olhar ainda ponderando se aquela foi uma boa ideia. Ainda no elevador pude vislumbrar uma animação quase infantil do me fazendo sorrir de forma involuntária.
A maioria das pessoas da Ala A recebiam seus destinados cedo, então, somando pela jovialidade que meu destinado exalava, concluir que ele deveria ter menos de 24 anos. Em seus traços ainda carregava um jeito de inocência em relação a vida e me peguei pensando qual era o objetivo do destino em fazer com que um garoto fosse o "amor da minha vida".
Ver? Não faz sentido acreditar naqueles relógios.
Ao sair do elevador tomei um susto ao fitar minhas amigas em um momento de fofoca no balcão da recepção. Mesmo estando longe, imaginei que elas colocaram minha vida amorosa em pauta depois das informações que, com certeza, Daisy já havia espalhado.
Bufei e abri a boca pra soltar um resmungo quando as vi se endireitarem rapidamente ao fitar andando pelo salão principal. Franzi o cenho confusa assim que ele acenou para elas com um sorriso e as meninas se derreteram quase deixando a baba cair.
olhou para trás e esperou um pouco para que eu o acompanhasse. Ainda antes de passar pelas portas de vidro pude mirar o olhar acusador de Daisy.
— Então, aonde estamos indo? — Perguntei ao perceber que não havia carro algum nos esperando à frente da empresa.
— O restaurante é perto daqui, apenas duas quadras. Talvez seja uma boa ideia irmos andando até lá. — Respondeu dando os ombros.
Assenti e pus as mãos no bolso da calça escura que Ivanna fizera sob medida para mim. Por algum motivo desconhecido a facilidade de manter uma conversa que eu sempre tivera evaporara e não sabia como começar qualquer assunto.
— Há quanto tempo trabalha para o Carter? — Estranhei ao perceber a falta do ''tio'' na frase.
— Cinco anos. — Disse, ainda sem olhar para ele. — Acho que sou um recorde.
— Concordo. — Soltou uma risadinha — Tia Carol sempre reclamava das secretárias dele, mas nos últimos anos eram só elogios para você. — Virei-me para olhá-lo nos olhos com uma sensação boa de dever cumprido. — Deveria ter vindo antes conhecer a exceção; não me arrependeria, presumo.
Senti uma vergonha ao perceber seu flerte tão direto e tinha certeza que meu rosto estava corado.
Cocei a garganta tentando quebrar aquele clima.
— Senhor Carter é irmão de seus pais? — Perguntei interessada.
— Na verdade, não. — Falou ainda com os olhos nos meus. — A esposa dele é minha tia, mas somos uma grande família e costumamos integrar a todos.
Balancei a cabeça concordando.
Assim que virei o rosto para o outro lado, vi um casal sair de mãos dadas de um dos prédios espelhados em direção a um táxi. Meu coração pareceu diminuir e uma dor incômoda atingiu meu peito. Passei a mão no rosto tentando ser o mais casual possível, mesmo que as lágrimas tenham começado a fazer os meus olhos arderem.
Queria tanto que nada daquilo tivesse acontecido e que agora eu estivesse com . Meu coração estava partido ao meio e parecia que ia demorar para começar a sarar. Eu tinha consciência de que não fazia muito tempo desde que havia terminado meu relacionamento, entretanto, eu tinha muita vontade que esse sentimento passasse o mais rápido possível.
— Chegamos! — Parei subitamente de andar ao perceber que deixara para trás, quase passando direto do restaurante.
Ele abriu a porta com um sorriso e pela primeira vez prestei atenção nas covinhas discretas que apareciam em seu rosto. Aquela característica o deixava mais radiante, me fazendo sorrir também. Entramos em um restaurante simples; a decoração era diversos quadros e fotos de vários lugares do mundo. Sentamos em uma mesa onde um mapa do que parecia a África estava colado na parede.
— Espero que goste do restaurante. — comentou — Gosto de vir aqui quando quero ficar sozinho e ficar divagando. Eles tem certos problemas com a demora do atendimento, por isso geralmente não tem muita gente por aqui.
Olho para os lados e percebo que mesmo sendo o horário de almoço o lugar parecia vazio.
— Mas a demora vale a pena? — Perguntei assim que recebemos o cardápio de uma menina bastante nova; arrisco que ela tenha apenas dezoito anos.
— Com certeza! — Ele balançou a cabeça reafirmando o que dizia.
Percebi, então, que seus cabelos não estavam mais arrumados como antes, lhe dando uma aparência mais jovial do que imaginava. Ele parecia um formando de uma universidade, o que me fez questionar de novo sua idade. Não aparentava que tinha usado gel naquele dia deixando seu cabelo cheio de cachos. Assim que escolhi o que queria, apoiei meus cotovelos na mesa e segurei meu rosto com uma das mãos, enquanto minha mente fazia questão de guardar cada detalhe do seu rosto sem minha autorização; os lábios rosados, o contorno da sua pele alva e os olhos escuros como a noite. Apenas percebi o campo perigoso em que estava quando soltei um suspiro involuntário quando ele sorriu para a nossa atendente ao dizer seu pedido.
— O que vai querer, ?
Demorei cinco segundos para voltar em órbita e dizer o que queria. pareceu perceber meu embaraço e ficou com um risinho esperto no rosto.
Revirei os olhos.
— Então, — pigarreei — você parece ser bem jovem...
— Só pareço mesmo. — Respondeu — Estou mais perto dos trinta do que longe.
— Oh, — aperto os lábios um contra o outro, pensando em qual idade arriscar — Vinte e sete?
— Vinte e oito. — Respondeu — E você?
— Vinte e seis.
Cruzei as pernas e observei o mapa na parede tentando pensar em outra pergunta para fazer-lhe.
— Em que você trabalha?
me olhou confuso.
— Você não sabe?
Então, foi minha vez de olha-lo confusa.
— Não..?
Ele riu passando a mão nos cabelos.
— Interessante.
Fiquei esperando que ele continuasse e me desse a resposta que nunca veio.
— Então..? — incentivei.
— Acho melhor você descobrir por si mesma.
Meu amor, quem é você na fila do pão? , pensei em respondê-lo, mas ele era tecnicamente meu chefe e isso poderia ser levado como um insulto.
Poxa, senhor Destino, minha "alma gêmea" é um babaca arrogante!
— Tudo bem. — falei deixando meu mal humor me invadir de novo.
— Você mora nessa cidade há quanto tempo? — perguntou ele.
Dei um sorriso maligno.
— Acho melhor você descobri por si mesmo.
Ele deu uma risada, entendendo o recado. Meu objetivo era continuar com minha cara de paisagem, mas logo me vi contagiada e rindo como se fossemos velhos amigos.
— Desculpe, eu não queria parecer prepotente. — falou logo depois — Apenas não posso perder a oportunidade de conhecer alguém que não faz ideia de quem eu sou. Você se importa se eu não dizer o que faço?
Dei os ombros, entendendo sua situação. Contudo, quando voltasse para empresa, sua identidade seria a primeira coisa que pesquisaria.
— Eu nasci nessa cidade. — respondi sua pergunta anterior — As únicas vezes que sair daqui foi em viagens que senhor Carter precisou de mim.
— Hm... — batucou os dedos na mesa — Você mora com sua família?
— Somos apenas eu e minha mãe. — falei. — E você?
— Moro sozinho. — disse — O que é complicado para manter tudo organizado, tenho que contratar pessoas para fazer tudo.
— Você cozinha?
— Eu sou um desastre na cozinha. — ele riu daquele jeito contagiante, me fazendo rir junto.
— Geralmente é Jean quem faz a comida em casa, então...
— Ela é sua empregada? — ele perguntou.
— Não, ela é minha melhor amiga. — expliquei — Jean cuida da minha mãe.
— Oh, e... — a nossa garçonete se aproximou com nossos pedidos o interrompendo.
Ficamos em silêncio enquanto saboreamos nosso sanduíche. Naquele espaço de tempo eu tentava não olhar para -- sem sucesso, claro. Era um ciclo vicioso: eu o olhava, ele ameaçava um sorriso mostrando suas covinhas e eu desviava o olhar como de quem não quer nada.
— Esse sanduíche foi feito por deuses. — elogiei ao terminá-lo. Mesmo antes estando sem muita fome eu sentia que poderia comer mais cinco daquele de tão bom.
Com um sorriso satisfeito chamou nossa atendente.
— Quero mais dois desses!
Arregalei os olhos; ele ler mentes?
— E batata frita também, por favor. — Adicionou com a feição satisfeita.
— Você me perguntou se eu queria? — Levantei as sobrancelhas.
— É impossível comer apenas um, , mas se você não quiser, tudo bem. — ele deu os ombros. — Sobra mais pra mim.
— Por que você não pediu antes, então? — franzi o cenho — Se sabia que ia pedir mais e que o atendimento aqui é demorado...
Me interrompi ao entender o que tramava; queria que a gente enrolasse mais no restaurante.
Espertinho.
— Então, — pigarreou — o que você gosta de fazer nos finais de semana?
Apertei meus lábios em uma linha fina pensando no que responder. Eu era uma vergonha para as mulheres da minha idade, até aquelas que eram casadas não se limitavam em apenas viver dentro de casa.
— Gosto de assistir algumas peças de teatros ou shows de artistas amadores.
Eu não havia mentido, obviamente. Quase toda semana eu fazia isso, o único detalhe que não havia compartilhado era que esses eram eventos que a clínica oferecia.
— Você não costuma ir à festas? — perguntou interessado.
— Não, não tenho tempo pra isso. — respondi com os cotovelos apoiados na mesa. — E você? É festeiro?
Sim ou claro? — completei em minha mente.
— As festas que eu vou são formais demais para serem chamadas de festa. — Disse desviando os olhos negros para o copo de refrigerante vazio. — A resposta é não.
— Ah, não brinca. — falei, não acreditando nem um pouco — Você tem cara de quem adora sair com os amigos no sábado à noite e ficar bêbado!
Ele fez uma careta como se eu tivesse dito um absurdo.
— Não, eu não tenho.
— Tem sim. — reafirmei.
— Ah, se for assim você tem cara de quem faz o mesmo.
Olhei-o ofendida.
— Não, eu não tenho. — repeti sua frase inconscientemente.
— Tem sim. — sorriu vitorioso.
E, então, desatamos em rir como se fossemos amigos antigos relembrando um momento engraçado de nossas vidas.

...

Cerrei os olhos quando o sol da tarde quase me cegou. Ainda mantinha o sorriso no rosto por causa da piada que havia soltado após trocarmos os números de nossos telefones. Meu destinado, ao contrário do que eu pensava, não era a um mimado metido a besta; ele era divertido e carismático e me fizera esquecer por alguns minutos meu mal humor. Felizmente ele havia desistido de lançar seus flertes e me deixando mais à vontade. Em resumo, aquele começo de amizade parecia ter tido um bom resultado.
— Que horas são? — perguntei ao chegarmos em frente ao prédio da Coral.
— Uma hora e vinte minutos. — respondeu depois de fitar o relógio por alguns segundos.
Senti um frio na espinha ao constatar que eu estava atrasada e, uau, havíamos passado quase duas horas conversando.
— Preciso ir. — falei olhando para trás me sentindo nervosa.
— Hm, o quê? — Falou confuso.
— Eu preciso ir. — repeti devagar para que ele entendesse melhor.
— Oh, ok. — balançou a cabeça concordando — Adorei conversar com você. Espero ter mais chances de nos encontrarmos.
— Eu também. — respondi honestamente.
passou a mão em seu cabelo e olhou para trás quando um silêncio constrangedor nos atingiu. Eu sabia que deveria correr para o prédio da Coral, mas a ideia de me afastar de alguém que tinha me feito esquecer por algumas horas meu mau humor e o quanto eu estava na fossa fez meu corpo estacionar em sua frente.
— Então... Até mais. — Acenou desajeitadamente e tirou o celular do bolso digitando alguma coisa.
Murmurei uma despedida e subir as escadas rapidamente já pensando no que diria para senhor Carter se ele descobrisse que eu havia me atrasado. Na aquela altura ele já devia estar com Carol, mas não subestimo o poder da fofoca que os funcionários tinham.
— Parada aí, mocinha. — o tom de voz de Mary me fez obedecê-la como um instinto de sobrevivência.
Com os olhos arregalados, me virei devagar com medo do que ela faria comigo. Encontrei-a atrás do seu balcão com os braços cruzados e uma Dassy com um olhar que se dá a uma criança que fez algo de muito errado.
— Se aproxime, . — Mary falou com uma calma assustadora.
Engoli o seco e andei para a frente com cuidado.
— Oi, garotas.
Mary bateu as palmas das mãos no balcão de mármore com força e em resposta dei um pequeno salto.
— Como você tem coragem saí sem dizer nada pra gente como foi com seu destinado? — abri a boca para me defender, mas ela levantou o dedo, mostrando que não tinha acabado. — E depois de descobri que você chutou seu destinado, você saí com ?
— Foi... hm... uma reunião de negócios? — Dou um sorriso amarelo já sabendo que a mentira não colaria.
— Eu sei que foi, mas mesmo assim! — Comentou Dassy — É .
Encostei-me do balcão tentando ser bastante discreta com minhas próximas ações.
— Então... — pigarreei — Vocês conhecem ... Senhor , de onde?
— Quem não conhece o "Pequeno ", não é, ? — Mary respondeu-me com um rolar de olhos. — Ele é simplesmente o homem que todas as mulheres pediram pra ter como destinado!
Eu não, há!, quis responder, contudo, continuei-me calada.
— O homem além de ser uma perdição, é o desembargador mais jovem do país. — Dassy adicionou — Provavelmente vai ser o nosso próximo governador. Todo mundo espera que ele se candidate na próxima eleição.
— Ele já tem meu voto! — Mary falou com uma animação estranha para alguém muito bem-casada, obrigada.
Apertei os lábios um contra o outro e franzi o cenho tentando achar uma resposta plausível para esconder onde trabalhava; oras, do jeito que ele tinha falado parecia que ele fazia uma coisa impressionante ou era um ator famoso que quer mais privacidade. Se ele iria se candidatar, porque ele não aproveitou a oportunidade para conquistar uma eleitora? Por que ele não fez questão de mostrar que era..?
Rapidamente meu cérebro se iluminou e eu entendi qual era o objetivo de ao fazer aquilo: ele queria que o conhecesse de verdade, não como um político qualquer.
— Além disso, é muito normal ele querer continuar o trabalho do pai. — Daisy falou com uma cara pensativa.
— O quê? — Fiz minha melhor careta confusa, não entendendo nada do que elas estavam tentando dizer.
— Ele é filho do ex-governador Aitofel , né? Dã! — Ela deu um socinho em minha cabeça — Em que mundo você vive, hein ?
Em um mundo em que viver minha vida é mais importante do quê ficar lendo revistas durante o trabalho, pensei em replicar, mas não deixaria meu mau humor atingir ninguém que estivesse me ajudando a decifrar .
— A destinada dele vai ser tão sortuda! — Falou Mary de forma amarga — Ele é muito jovem, mas nunca saiu notícias dele em festas ou bêbado. Acho que ele vai ser um ótimo pai.
Eu e Daisy ficamos olhando Mary com a melhor cara repreendedora ao ouvi-la falar daquele jeito, demostrando quão insatisfeita estava com seu casamento.
— Que foi? — ela cruzou os braços.
— Nada. — falamos em uníssono.
Me despedi das garotas rapidamente, aproveitando seus êxtases em relação a conversa sobre o Pequeno – ri ao pensar nesse apelido. Era bem ridículo chamar um homem formado de Pequeno. Soltei uma gargalhada alta dentro do elevador ao maliciar a palavra – sorte que estava vazio e eu poderia passar vergonha sozinha.
Ao chegar na minha mesa, me deparei com uma lista de convidados para a conferencia para serem categorizados em uma planilha e decidi que antes de pesquisar qualquer coisa sobre iria terminar meu trabalho.
Isso funcionou apenas por cinco minutos.
Me sentir meio idiota de não ter percebido seu sobrenome familiar antes; meu destinado era o filho do ex-governador que havia feito a vida das pessoas da Ala L para baixo melhores. Ele havia feito o projeto da Clínica que ajuda a minha mãe, poxa!
Assim que seu nome carregou no navegador levei uma surra de imagens e notícias sobre casos de escândalo gigantescos julgados por e a especulação de sua possível candidatura gerava diversos debates nas redes sociais – algumas pessoas achavam uma ótima ideia, outros, nem tanto.
Só por curiosidade pesquisei algumas coisas pelo site de fofocas, mas pouca coisa estava publicada. Havia, porém, um rumor de cinco anos atrás sobre uma garota que ele namorava desde o Ensino Médio e muitos questionavam o porquê dele manter uma namorada temporária e sentir meu estômago revirar, enojada comigo mesma, assim que pensei na possibilidade dele ter terminado com um relacionamento de longa data apenas para esperar pela destinada.
Balancei a cabeça assumindo que aquilo era apenas um rumor e cliquei em um vídeo antigo em que ele dava uma rápida entrevista enquanto andava em direção a um carro repleto de repórteres. tinha o cabelo quase totalmente cortado, o que lhe deixava com as orelhas um pouco maiores. Mesmo continuando sendo um homem abençoado pela deusa grega da beleza, ele ficava hilário daquele jeito. Observei que naquela gravação não se mostrava relaxado e sorridente como o conheci naquela tarde. era imponente e conseguia demonstrar poder apenas com olhar – entretanto, não se mostrava metido. Ele exalava aquele tipo de controle que fazia você querer está do seu lado, no lado vencedor.
Fechei as abas do notebook quando percebi que estava vendo vídeo de pessoas debatendo a situação política do meu estado e decidir focar no trabalho enquanto tentava não pensar que o Senhor Destino me deu uma pessoa famosa e importante como destinado.

...

Enquanto voltava para casa tentei pensar no que aconteceria se descobrissem que eu era destinada de ; será que ia querer me entrevistar ou alguma coisa parecida? Balancei a cabeça assim que percebi uma asneira daquela – claro que não! Ou será que sim? Sabia que devia passar mais tempo assistindo TV pra saber como o mundo funciona!
O negócio é que seria muito complicado continuar vivendo na Ala O se eu aparecesse na TV, as pessoas iam começar achar que eu era rica e só Deus sabe quantos ladrões têm nesse bairro.
Sinto meu celular vibrar dentro da bolsa assim que desço do ônibus. Olhando para os lados desconfiada, dei uma olhada rápida ao meu redor. Com o objetivo de ler rápido e não ser assaltada, abri parcialmente a bolsa para desbloqueá-lo e levantei as sobrancelhas ao ver que a mensagem vinha do celular de .
"Adorei almoçar com você hoje! Quer marcar algo para esse final de semana?
p.s.: não é um encontro!!"
Sorri com sua mensagem e guardei o aparelho. Enquanto pensava em como elogiar, agradecer e negar seu pedido sem parecer grossa, andei em direção para casa. E peguei querendo sair qualquer dia desses com ele, já que havia me divertido. não era mais meu carma e sua amizade seria muito bem vinda; eu só teria problemas para tirar aquela história de "não desistir de mim".
Olho para os lados ao atravessar a rua, mas paro assim que vejo de longe de costas concertando o seu carro. De repente, toda aquela curiosidade de conhecer meu destinado e saber o que ele escondia sumiu; até mesmo a leveza que senti por toda a tarde desapareceu como fumaça.
Em um momento impulsivo e estranho, apressei o passo em direção a um beco sem saída. Andei metade do corredor escuro desviando do lixo jogado no chão e logo percebi quão tola foi o que fizera. O que eu estava fazendo? Fugindo? Ele que deveria fugir de mim!
Paro quando rapidamente reconheço o cabelo ruivo de Jack e o vejo entregar uma quantia gorda de dinheiro para um rapaz alto e de pele amarela. Sentindo meu coração saltitar, murmuro seu nome.
— Jack? — repito com a voz mais alta e dou um passo.
O garoto vira o rosto assustado e arregala os olhos, balançando a cabeça para o lado freneticamente. O cara que ele conversa percebe o que está acontecendo levanta a camisa mostrando uma arma agarrada em sua cintura.

Capítulo 8

“Não quero ver outra geração desistir. Prefiro ser uma vírgula do que um ponto final.” Every Teardrop Is a Waterfall by Coldplay.

A força que eu fazia para manter minha boca fechada e chorar pelo alívio que sentia era tão grande que meu maxilar já começava a doer. Eu era protagonista de uma cena peculiar: uma mulher adulta com os olhos direcionados ao chão sendo conduzida por um menino de 14 anos como se ele fosse meu guarda-costas pessoal. Estava tão concentrada no meu objetivo de chegar em casa o mais rápido possível, que nem reparei que deixei sem resposta quando o mesmo me cumprimentou acanhado.
Ao fechar a porta de casa, conferi se os ferrolhos estavam bem trancados com os dedos tremendo. Pela cara que Jean fez ao me ver entrar na sala eu mostrava está tão aterrorizada quando me sentia.
Meu corpo todo tremia e eu tentava me abraçar sentada no meu sofá. Consigo ouvir as vozes de Jean e Jack ao longe, mas me concentro em manter o copo com água que minha amiga me deu parado enquanto os três segundos em que aquele homem apontava a arma para mim ainda dominava meus pensamentos.
— Ei, ei pô. — Jack dissera, empurrando discretamente a arma para o chão. — Eu conheço ela. Você anda muito na defensiva, Cabeça!
Ele olhou para mim por um momento e virou para o garoto.
— Confirme que ela não dirá nada. — sua voz era grave e arranhada, fazendo meu corpo de arrepiar de medo.
Ouvi Cabeça sussurrar batendo no meu ombro de propósito e me fazendo perder o equilibrio.
— Se liga, vadia.
Foi daí que o corpo começara a tremer como reação automática do que passamos. Havia pessoa que presenciaram momentos muito mais perigosos, entretanto, aquela foi a primeira vez que eu cheguei tão perto da violência que assolava a Ala O. Não fora um familiar ou amigo que estava a mercê de um criminoso — fora eu. E a ideia de que Jack estava envolvido com aquele mundo embrulhava meu estômago.
— De onde vinha aquele dinheiro? — sussurrei para Jack quando percebi a conversa deles havia acabado.
— Entreguei algumas encomendas para ele. — respondeu depois de um tempo em silêncio.
Apertei os lábios ao entender que encomenda Jack falava.
— Você mentiu para mim. — afirmei — Por quê?
Jack engoliu o seco.
— Não posso responder isso. — sua voz vacilou. — Desculpe, . Se você não confiar mais em mim, tudo bem. Apenas não se afaste de Bonnie, ela precisa de você mais do que eu.
Fiquei calada, sem saber o que dizer diante aquelas frases.
— Apenas... Tome cuidado. — murmurei — Não pude impedir você entrar nisso nem tenho como tirá-lo da confusão que você se meteu.
— Não se preocupe. — disse sem conseguir olhar para meu olhos de tão tamanha a culpa.
— Eles não irão atingir ninguém.
Além de você mesmo, pensei, certa que não desistiria dele tão fácil.
Jean ficou calada, sendo uma mera expectadora da cena até que Jack sumisse de meu campo de vista, antes murmurando uma despedida seca e eu ouvi o barulho da porta sendo fechada. Não precisava conhecê-lo muito para saber que não o veria muito cedo e esse pensamento doía meu peito. Ele era como um irmão menor para mim e eu me preocupava, ainda mais agora que sei as coisas que Jack anda fazendo.
— OK, vou ficar com você essa noite.
Balancei a cabeça negando.
— Você tem aula, não pode perder.
Ela deu uma risada.
— Já tô com DP nas matérias de hoje mesmo, não importa se eu estou lá ou não. — deu os ombros e me abraçou. — Vamos fazer festa do pijama!
Sorri amarelo e murmurei um agradecimento, pois sabia o que minha amiga estava fazendo.
Depois de tomar banho e esperei Jean voltar enquanto fitava minha mãe ainda acordada. Segurei sua mão pensando no quanto sua fragilidade me doía e nada poderia fazer para que a doença parasse de retirar vida de Dona Letícia cada vez mais. Com cuidado troquei sua fralda e apertei os lábios percebendo que ela não poderia continuar daquele jeito; necessitava urgentemente transformar o quarto em algo parecido com um hospital para ela se sentir mais confortável.
Quando Jean volta começo a fazer perguntas sobre a saúde de mãe e como eu faria para melhorar seu bem estar, entretanto, Grey tem planos diferentes para nós duas.
— Vamos falar de outra coisa. — ela disse mexendo em minhas panelas — Chegou a encontrar seu destinado hoje?
Cruzei os braços e fiz uma carranca.
— Por que eu o encontraria?
— Não se faça de cínica.
Deixei meus ombros caírem. E percebi que não tinham uma força se quer para esconder qualquer coisa de Jean naquela noite.
— Ele até que é legal.
Minha amiga deu um gritinho e eu rolei os olhos.
— Qual o nome dele? — fiquei calada e ela estendeu a colher em minha direção — Vai me dizer que você não perguntou o nome dele de novo?
, o nome dele é . — ela levantou a sobrancelha — E é só o que você vai me arrancar.
— Nem o sobrenome, ?
Ela fez bico como uma criança e eu ri.
— Prefiro manter isso em segredo.
Eu preferia assim por enquanto. mostrou querer sigilo, algo que eu também concordava.
— Ok. Ele é engraçado? Bonito? Moreno?
— Ele é divertido. — dei os ombros fazendo pouco caso disso, mas no fundo estava aliviada em falar do .
Ele, por incrível que pareça, era a única coisa nova que aconteceu na minha semana que não me dava aflição só de pensar.
— Aff, cadê a mulher que é um livro aberto que conheci? — disse desligando o fogão — Fiz canja, tudo bem?
Assenti sentindo minha barriga reclamar.
— Você é tão mais fechada quanto a isso, não parou de falar de Gia nos últimos dias. — Jean revirou os olhos e eu senti meu estômago embrulhar.
— E é? — consigo responder com um gosto amargo em minha boca.
— E ela nem é essas coisas, sabe? — continuar falando enquanto eu coloco os pratos na mesa — Quer dizer, ela até que é bonita, boazuda e tals, mas é muito fechada. Deve ser porque é toda rica e não é acostumada a animação da Ala O. Ela é uma psicóloga da Ala J que se formou faz pouco tempo.
Resmunguei uma afirmação torcendo amargamente que a destinada de fosse uma megera só para que ele sentisse o que é ter o coração quebrado.
— Você acredita que ela tava com ciúmes porque ele veio aqui ontem? — ela riu como se aquilo fosse um absurdo. — Sei que você é linda, , e concordo plenamente com isso, mas não acho que...
Se alguma vez eu me gabei de saber como esconder meus sentimentos quero pedir desculpas pela mentira descarada. Quando Jean olhou para meu rosto aflito ao ouvi-la fazendo seu monólogo não demorou dois segundos para ela perceber quão abalada eu fiquei com as suas palavras.
— Desembucha. — ela mexeu as mãos nervosamente.
Envergonhada por não ter falado nada sobre isso antes para alguém que chamo de melhor amiga, acabo falando mais do que esperava e chorando no ombro de Grey. A verdade é que eu estava tão sobrecarregada com as reviravoltas que minha vida tinha dado naquela semana que precisava externar isso o mais rápido possível.
— Ele não tinha o direito de ter te iludido desse jeito, ! — ela exclama durante meu discurso.
— Olhe, eu não sou nenhuma santa nessa história. — falo assoando o nariz com um pedaço de papel higiênico — Eu estive com ele porque eu quis. não me forçou a nada.
— O negócio, , é que não se brinca com os sentimentos das pessoas desse jeito. — Ela segurou minhas mãos, jogando o “lenço” fora — No mínimo ele não devia ter dito que era seu destinado.
Cerro os olhos para Jean.
— Você, como qualquer outra pessoa, sabe que não ligo se é o meu destinado ou não. Eu só queria... Eu só queria... Que ele me amasse de verdade. Que ele quisesse lutar, não por mim, mas comigo.
Ela fica em silêncio enquanto encosto minha cabeça em seu ombro. Era uma cena que daria uma bela foto: eu e Jean sentadas no sofá com os olhos em algum ponto invisível apenas divagando.
— Preferia que você fosse a destinada do meu irmão, não a Gia. — murmurou — Adoraria ter você como minha irmã.
Com um sorriso melancólico respondo para ela.
— Você já é a minha irmã, pirralha.

Quando acordei de manhã nem levantei um dedo para esconder as olheiras infelizes que apareceram em meu rosto. Enquanto colocava minha mãe na vã, observei a cidade passando com o sentimento que seria a última vez que faria isso.
Diante de tantos problemas que me aconteceram naquela semana, me esqueci que hoje teria uma consulta grátis que um psicoterapeuta fazia a cada mês na clínica — e eu já tinha ideia do que ele iria falar.
Eu percebi que nos últimos meses a invalidez de mãe se agravara e que até mesmo levá-la para clínica usando a cadeira de rodas tinha começado a se mostrar algo perigoso. Além do mais, para Jean cuidar dela estava cada vez mais complicado. Sei que o trabalho intensivo que ela tem com minha mãe tem atrapalhado seus estudos, e eu simplesmente estou cansada de abusar de sua gentileza.
Balancei a cabeça tentando evitar o inevitável. Até escutar da boca do médico o que eu teria que fazer os meus problemas iam ser adiados.
Empurrando a cadeira de rodas fui em direção à sessão de sempre, como eu fazia todo sábado, e cumprimentei as pessoas que conhecia no meio do caminho. Localizei Ivanna rapidamente e tive quase certeza que ela cairia se não tomasse cuidado ao colocar tanta força nas rodas da cadeira, mas, felizmente, ela conseguiu chegar a nós sem nenhum arranhão.
— Pra quê essa afobação toda, hein? — Perguntei ao parar de andar.
— Como foi com o seu destinado?
Olhei para ela sentindo um incômodo gigante com sua pergunta.
— Oi, , tudo bem? Obrigada por ter se preocupado com minha segurança. — Imitei sua voz e voltei a andar.
— Hey, não me deixa falando sozinha. — reclamou tentando me acompanhar — Só tô curiosa, poxa! Tive certeza que você tinha se esquecido e queria muito ter visto a cena de você conhecendo o amor da sua vida no susto.
— Acho que você ama minhas desgraças. — resmungo.
— Aí, desculpa, mal humorada! — ralhou e segurou meu braço para que parasse.
Virei meu rosto para explicar que a história era muito longa para ser contada agora, entretanto, fui interrompida.
?
Imagina a minha surpresa ao ver meu destinado de terno preto alinhado com a sobrancelha erguida bem atrás de mim.
Cerrei os olhos começando a me sentir alerta e com medo. Desde o dia que o conheci o encontrei de alguma maneira durante a rotina que tenho há mais de dez anos e a única resposta que eu tinha para isso é que ele era um stalker, psicopata e maluco. Bem, não tinha cara de alguém desequilibrado, mas é normal que eles não o tenham, não é?
— Você anda me seguindo, ? — Pergunto tentando intimidá-lo, porém ele dá uma gargalhada.
— Sei que é difícil de acreditar, mas nenhum dos nossos encontros foram premeditados. Juro! — disse de forma relaxada — Pensei que você soubesse que isso poderia acontecer, entretanto. Não conhece como funciona o destino?
— Não acredito que existe esse negócio de destino, não desse jeito. — dei os ombros — Tipo, os destinados podem se apaixonar e tudo mais, porém isso não significa que são almas gêmeas. O problema é que as pessoas estão tão certas que destinados nasceram para viver juntos que dificilmente percebem que relógios não podem decidir seu futuro, e que não foram feitos um para o outro mesmo quando claramente não são compatíveis.
Vejo um brilho prateado cruzar sua íris preta e sinto meu ego ampliar quando vi que o deixara sem resposta.
Entretanto, comemorei cedo demais.
— O destino não funciona como algo que controla tudo na vida das pessoas. — explicou — Ele dita quem será o amor de sua vida, mas não diz se essa pessoa fará escolhas boas ou não será contaminada pela maldade natural do ser humano, muito menos se ela vem cheio de defeitos. O destino existe, mas ele não arranca todo o livre arbítrio.
Fiquei ali encarando-o tentando entender aonde ele queria chegar com aquele papo de destino. Quer dizer, não duvidava que era uma das suas tentativas de me conquistar — como o mesmo deixou claro um dia antes — contudo, não faria sentido dizer que os destinados podiam chegar em nossas vidas defeituosos.
Espera aí, ele acha que eu sou a defeituosa nessa história?
Ouvi um pigarro, estourando a bolha em que eu e nos encontrávamos e por puro reflexo viramos para onde ouvimos o barulho.
Ivanna nos olhava com interesse, os olhos de cigana, que sempre pareciam saber mais do que qualquer pessoa, alternava a atenção entre mim e meu destinado.
— É um prazer vê-lo novamente, senhor . — Disse sorrindo cheio de interesse — Vejo que já conhece minha amiga, . Desculpe-me
, me chame de . — ele disse com um sorriso simpático que espalhava para todos os seu futuros eleitores — Conheço a pouco tempo, então, não conhecia suas crenças sobre o destino.
— Sério? — ela disse arregalando os olhos — Mas você se parecem tão íntimos.
Tenho vontade de bater minha cabeça na parede ao entender o que ela insinuava. Se eu não tivesse dado um debate sobre aquele tópico em específico, Ivanna ainda estaria alheia a quem era o meu destinado. Deus me ajude com as perguntas que ela me fará mais tarde.
— Impressão sua, Ivanna. — ele disse com desdém. — e eu estamos nos conhecendo ainda.
Que droga, ! Você só tá piorando as coisas!
— Ah, que cabeça a minha! — falo rapidamente, cortando a fala de minha amiga — Esqueci de apresentar minha mãe.
Percebo que é uma péssima ideia quando o vejo direcionar os olhos curiosos para ela. Leticia está com a cabeça pendendo para um lado; os olhos desfocados e a boca meio aberta. Me encho de mortificação quando entendo o que estou fazendo expondo minha mãe daquele jeito. não precisava saber dela agora. Não que eu sentisse vergonha de minha mãe, não mesmo! O problema é que eu odiava o olhar cheio de pena que davam para ela e para mim dizendo “coitada da menina, ela tem que cuidar de uma mãe inválida” e eu simplesmente odeio isso.
— Olá. — ele diz simplesmente como se estivesse cumprimentando um conhecido na rua.
O silêncio constrangedor me fez remexer desconfortavelmente e a verdade estapeava-me.
— Bem… — ele olhou para trás em direção a um homem alto de terno preto — Ah, qual o nome dela?
— Leticia . — Respondi e pus as mãos nos ombros da minha mãe, como se a confortava, entretanto, eu era que precisava de consolo.
Sorri para ele tentando mostrar para ele que estava tudo bem, mas todos pareciam saber ler-me muito bem e não engolir meus falsos sorrisos. Seu rosto modificou-se para um semblante preocupado e deu um passo em minha direção.
— Você está…
Se interrompeu ao ver meu olhar assustado para a sua mão que quase alcançava meu rosto.
Com a fase vermelha de vergonha, se afastou de mim parecendo um menino que acabara de ser pego fazendo alguma besteira.
— Bem, tenho que ir. — ele disse — Vejo você por aí, . — acenou com a mão — Até mais, Ivanna!
Murmurei uma despedida e fitei ele caminhar em direção aos seus seguranças que apareceram no meio das colunas. Franzo o cenho tentando pensar se eu os tinha visto durante a conversa com ou se nossos encontros serão sempre repletos de despedidas estranhas, ou até mesmo se o destino iria fazer com que nos encontrássemos todos os dias até que eu endoidasse e o matasse.
Não que isso vá acontecer, é claro.
Ao menos eu espero.
— Pretendia me falar que o é seu destinado? — Ivanna perguntou com as sobrancelhas erguidas.
Nego com a cabeça e sigo empurrando a cadeira de minha mãe o mais rápido possível para o grande banner onde algumas enfermeiras estão atendendo pessoas e orientando.
— Me diga, então, o motivo de você não está jogada com os braços ao redor dele agora mesmo. — Disse ela ao me alcançar.
— Ora, Ivanna, você estava na conversa que tivemos agora pouco. — respondi — Nós pensamos diferente.
— Aha! Aí que você se engana.
Parei me na pequena fila que já se formava e fiz uma careta confusa.
— Hein?
— Como lidou com a destinada dele? — perguntou, desviando o assunto — Sabe, deve ter sido complicado para a senhorita perceber que eu estava certa em pedir pra terem cuidado?
— Eu te odeio por esfregar na minha cara esse fato. — resmungo ranzinza. — Me escute na próxima vez, então.
Tentei resumir rapidamente os eventos que aconteceram naquela semana conturbada pelo tempo em que esperamos para entrar no consultório. Felizmente aquele dia era bastante fresco e não estava calor demais ou frio demais — um dia raro de outono.
Por algum motivo contei-os tão insensivelmente que me auto surpreendi. Nem mesmo quando falei que apontaram uma arma para minha face fiquei afetada. Não que está na mira de alguém que podia facilmente acabar com minha vida fosse uma experiência fácil de digerir, entretanto, tinha prometido a mim mesma que encararia aquilo normalmente. Pela a sobrevivência de Jack, eu iria ignorar aquilo.
Com sabedoria ocultei nomes e certos momentos, contudo, minha amiga estava mais focada em criticar pela forma tão maldosa que terminou nosso relacionamento e me encher de motivos pela qual eu deveria dá uma chance ao engomadinho.
Fui chamada para entrar no consultório antes que ela dissesse o motivo seis para sair com — papo que eu ignorava totalmente — e empurrei a cadeira antes que ela dissesse qualquer coisa.
O olhar que o Doutor Bardon me deu fez com que minhas entranhas congelassem. Costumava pensar que ele era lindo de morrer por causa da sua beleza clássica, entretanto, com o passar do tempo, o aborrecimento que recebia por ser o mensageiro de más notícias o fez deixar de ser atraente.
— Como vai, ? — ele perguntou cordialmente.
— Bem, doutor. — digo me sentando.
— Que bom. — Murmurou se levantando para andar em direção a cadeira de rodas de minha mãe.
Parou no meio do caminho e estalou a língua.
— OK, , é o suficiente. — ele virou-se para mim — De jeito nenhum você poderia está levando sua mãe pra cima de pra baixo nessas condições.
Baixo a cabeça sentindo um aperto no peito e o sentimento de desapontamento me atinge. Eu estava decepcionada comigo mesma por ter deixado aquilo ir tão longe.
— Eu sei que é difícil aceitar e que o dinheiro é escasso, mas sua mãe… — hesitou.
— Você nem examinou ela. — resmungo.
— E precisa? — ele disse com um ar cansado. — Sei que sua amiga, que não é uma profissional, faz um bom trabalho…
Reviro os olhos emburrada, mesmo sabendo que ele estava certo.
— Oras, sua mãe conseguiu conviver com a doença por mais tempo que qualquer outro paciente com a situação igual a de vocês e isso é admirável! — ele se direciona a mim, ajoelhando-se em minha frente como se eu fosse uma pequena criança — No entanto seria insistir na negligência continuar assim. Não faço a mínima ideia de como vocês conseguem alimentá-la e trocar as suas fraldas!
Quando ele segura minha mão querendo me dá apoio para a decisão que eu deveria tomar, a eu adolescente solta gritinhos internos, porém a eu adulta sente o peso do mundo em meus ombros.
— Ainda tenho aquele catálogo de clínicas, se você quiser — balanço a cabeça, negando — Tudo bem, eu conheço algumas enfermeiras boas e baratas para lhe indicar, mas os aparelhos…
— Não posso pagar os dois. — digo com um olhar aflito.
— Se você não quer pagar a clínica, esse é o único caminho. — Ele diz — Eu a considero muito, mas não vou mentir pra você: se sua mãe conseguir passar esse ano será uma benção.
Engulo o choro e assento quando percebo que ele está repetindo a mesma frase que me disse desde janeiro.
— Apenas faça com que a sua morte seja calma e confortável. Entendo que interná-la seria quase como mandá-la para a forca se for aqui no San Tomaz e em outros lugares seria caro, pois os aparelhos são cobertos pelo hospital, mas as enfermeiras são o triplo disso. Meu conselho é…
Escuto seu conselho calada em obediência tentando me lembrar quando tudo tinha saído do meu controle. Quando ele termina seu monólogo, olho para minha mãe e a dor do meu coração se intensifica ao ver que aquela mulher linda que um dia fora Letícia estava com a pele enrugada, magra demais, os olhos desfocados e a baba descendo em seu rosto. Enxugo com um lenço limpo e me despeço com um abraço estranho do Bardon que se tornara mais afável e quase um amigo nos últimos anos. Segurando as guias dos exames que ele passara, fiz minha melhor cara de indiferença para encontrar Ivanna que nos esperava pacientemente.
— Raymond demorou hoje, hein? — comentou — Como ele tava?
Levantei as sobrancelhas e dei um sorriso cheio de segundas intenções.
— Por que você não pergunta para ele?
— Eu mesmo não! — respondeu rápido.
— Vocês iam fazer um casal muito bonitinho. — digo levando a minha mãe até o bebedouro.
— Não acho. — ela fala levantar o queixo, altiva. — Aquele imbecil me encheu de remédios no primeiro ano que estive aqui!
Fico quieta sabendo que é questão de tempo para ela confessar que tem uma paixão nem tão secreta pelo médico. O fato dele ser divorciado de — adivinha quem! — sua destinada o fazia ser um perfeito partido. Era uma pena que no mínimo vinte anos me impedem de parecer nada além de uma pirralha ou eu tentaria algo com ele.
— Bem, se o otário do seu destinado não soube perceber a mulher maravilhosa que tinha em sua frente, tenho certeza que Bardon saberia valorizá-la.
Ela me dá um sorriso melancólico lembrando do encontro desagradável que teve com o “amor de sua vida” que simplesmente a rejeitou só por ser deficiente física. Um nojo de pessoa, aquele lá.
— Obrigada, minha linda. — fala com um sorriso cheio de significado.

Apenas tenho minutos para pensar no que fazer dali em diante quando deito-me no sofá de casa com meu lençol e travesseiro — me recuso a dormir no colchão do meu quarto e lembrar de coisas que quero esquecer. A conversa que eu tivera com Jean assim que cheguei na clínica ainda estava crua em minha mente quando ela falou que o caso da DP era sério e que, infelizmente, aquela era a última semana que ela me ajudaria com minha mãe.
Com os olhos fechados, deixo as lágrimas de desespero rolarem, me perguntando porque tanta merda acontece comigo de uma vez só. Decido, então, seguir o conselho do Doutor Bardon:
Amanhã eu vou ao banco pedir um empréstimo gordo que provavelmente nunca conseguirei quitar a dívida antes do sessenta durante meu horário de almoço; no final do dia, contudo, pedirei para fazer home officer por um tempo até que chegue a hora de pedir demissão.

Capítulo 9

“Deus sabe o que está se escondendo naqueles olhos fracos e fundos. (...) Pessoas ajudam pessoas. Nada vai colocar você para baixo.” - People help the people, by Birdy.

Há dias em que tudo que você quer é ficar deitada esperando que a morte venha e resolva todas os seus problemas, entretanto, temos consciência que os problemas só aumentariam se a vida acabasse.
Se eu morresse naquele momento, por exemplo, minha mãe ficaria sem ter quem cuidar dela. Talvez Jean se disponibilizar-se para fazê-lo, mas para isso iria ter que desistir da faculdade; justamente a última coisa que eu desejaria.
Se algo acontecesse comigo não sei o que seria de Bonnie ou de Jack. Odeio pensar que a mãe deles não dá o suporte e apoio suficiente, simplesmente por achar que a culpa são deles de não conseguir segurar um casamento. Como Ivanna agiria ao saber que não tinha mais os nossos encontros nos sábados? Ou como as meninas da Coral seguiriam em frente sem que eu faça meus discursos “anti destino”?
Penso em e estremeço com a ideia dele sofrendo pela minha morte. Por mais que nosso final tenha sido trágico e cheio de mágoas, nos conhecermos desde sempre. Como seria saber que você nunca teve a oportunidade de pedir perdão para alguém que antes fazia parte da sua vida?
Balanço a cabeça, cética. É de se admirar que eu ainda acredite que Grey me considera.
E enfim penso em . Será que ele se sentiria aliviado por não ter mais uma destinada e poder escolher com quem ficar? Ele, de alguma forma, sentiria minha falta?
Foi com esses pensamentos que me levantei de manhã na segunda-feira.
Como todos os dias, cumprimentei as meninas com um sorriso e desejei bom dia as pessoas que estavam no elevador quando subi para meu andar. Sentia-me diferente, ansiosa e com medo do que me aconteceria.
A manhã passou devagar e tudo que eu queria era bolar um plano que fizesse sentido. Pelas contas que fiz eu precisaria de muito dinheiro emprestado e para convencer o banco que era um bom investimento seria complicado — e ainda tinha o fato de que eu teria que pedir demissão e isso prejudicaria diretamente no negócio. Se eu estivesse com o objetivo abrir uma empresa, facilitaria tudo, contudo, emprestar dinheiro a uma futura desempregada da Ala O é pedi para jogar dinheiro no lixo.
E com isso minha paz de espírito caí em 20%.
Tento pensar nos números e organizo algumas coisas para o stand da Coral. A próxima conferência estava perto e certos detalhes para festa da empresa, que aconteceria a um mês, deveriam ser organizados. Um pouco antes do horário de Carter sair para almoçar, bato em sua porta. Me sinto mais nervosa do que gostaria e meu olhar tenta captar tudo que pude como se fosse a última vez que eu pisaria naquele cômodo.
Albert tem aquela cara de cansado de sempre, mas ele se esforça para sorrir para mim e me sinto mal por deixá-lo na mão.
— Senhor Carter, precisamos conversar.
Ele soltou uma risadinha.
— Do jeito que fala parece que vamos terminar um relacionamento, .
Fico vermelha ao perceber que ele está certo.
— Bem... — coço a garganta — É quase isso. — solto um suspiro — Estou pedindo demissão.
Ele arregala os olhos e aproxima a cadeira na mesa.
— Como?
— Vou passar a cuidar da minha mãe em tempo integral e não vou poder trabalhar mais. Pensei em fazer home office, mas não acredito que isso vá muito longe. — explico com o coração na mão. — Queria muito poder continuar a fazer parte da empresa, mas as coisas estão cada vez piores para minha mãe…
, você tem certeza que não há outra alternativa?
Balanço a cabeça com os ombros para baixo. Minha esperança estava miúda demais para ter outro debate mental sobre isso.
— Gostaria que sim, senhor, mas a menina que cuida da minha mãe não pode continuar a trabalhar e o estado vegetativo dela…
Engulo o seco, aquela verdade que eu não aceitava fazendo os olhos encherem de água. Carter ficou em silêncio olhando para algum ponto atrás da minha cadeira.
— Essa será minha última semana aqui e farei de tudo para deixar o máximo adiantado para o senhor. Sempre foi um bom chefe, e eu desejo todo sucesso para a Coral.
Ele continuou quieto e me remexi desconfortável na cadeira.
— Tem certeza que não há outra saída? — sorri de sua insistência — Olhe, , não me leve a mal, mas preciso ser sincero com você. A questão é que você é uma das melhores empregadas que essa empresa já teve. Mesmo sem a faculdade ou experiência você aprendeu muito rápido e entende de gestão mais do que muitos que conheci. O que me leva ao meu arrependimento de não ter investido nisso por medo de sua falta de formação.
Fico calada me perguntando o porquê dele ter trazido isso à tona logo no momento em que decidir sair da Coral. Todavia, era bem verdade que eu nunca tenha pensado de forma séria em crescer na empresa, então atribuo a culpa para mim também que negligenciei qualquer chance de melhorar minha qualidade de vida e me tirar da Ala O. Por outro lado, foi bom não ter acontecido: seria mil vezes mais difícil se desprender da empresa.
— Mesmo contratando uma nova enfermeira não posso pagá-la. As coisas estão bastante complicadas…
— E se eu lhe der-se um aumento? — sugeriu esperançoso.
— Não seria o suficiente para pagar os equipamentos da minha mãe e uma enfermeira. — lambo os lábios. — Não é colocando barreiras para continuar a trabalhar aqui. Eu realmente queria não ter que fazer isso.
Albert deixou os ombros vacilarem e eu entendi que ele havia desistido.
— Gostaria de ser mais insistente, entretanto, não vejo muita alternativa para você. — murmurou derrotado — Olhe, irei demiti-la sem justa causa para que seja mais fácil para você conseguir algo com o seguro desemprego, mas ainda estou preocupado. Como você e sua mãe irão sobreviver sem ninguém trabalhando na casa?
— Eu não sei. — admiti e respiro fundo antes de pedir um concelho para meu futuro ex chefe. — Quero tentar um empréstimo no banco, mas sei que a chance é mínima, já que perderei o emprego e sou da Ala O. Provavelmente eu vou ter…
O olhar de piedade que Carter me deu pareceu acabar de vez com o orgulho que eu tinha.
Engoli o seco.
— Se envolver com agiotas é muito arriscado, . — disse quase em tom de desespero — A última coisa que eu quero vê-la sofrendo por não poder pagar as dívidas.
Baixo a cabeça e olho para meus dedos como se eles fossem imensamente interessantes. Não consigo pensar quando eu comecei a criar aquele vínculo com Albert, mas me sinto acalentada pelas suas palavras. A última pessoa que eu imaginaria estava mostrando preocupação com o que eu iria fazer da minha vida.
— Sugiro que consiga dinheiro com alguém que não vá lhe explorar, por mais que eu ache difícil achar um agiota honesto. — comenta ranzinza — Posso lhe dá algum dinheiro se quiser…
— Não! — digo com horror — O senhor já me ajudou muito até aqui, não posso abusar de sua boa vontade. Nem sei quando poderia pagar!
Ele tenta mais uma vez, entretanto, me recuso a aceitar seu dinheiro.
1° Eu não estava desesperada a esse nível e 2° não queria pedir mais alguma coisa para Albert. Não aguentava mais receber caridade.
Depois da minha conversa e um abraço extremamente desconfortável, volto para minha mesa me sentindo sem saída.
Não conto as meninas que pedi demissão da Coral. Nunca fui muito boa em despedidas e quero evitar drama desnecessário. Meu silêncio durante o almoço me denuncia, contudo. As perguntas vêm e eu me limito em dizer que não estou em meus melhores dias e logo a conversa se monopoliza em odiar gratuitamente o destinado de Franz, que lhe enviara uma ordem de restrição de 500 metros de distância dele e de sua mulher.
— Acho que isso foi longe demais.
Quando comento as meninas se calam e viram o seu rosto diretamente para mim.
— Você não pode exigir que alguém a ame, Franz, nem mesmo o seu destinado. — falo mirando em seus olhos — Se ele a quisesse por perto ele não contrataria a polícia.
Segurei sua mão apoiada em cima mesa e apertei, o silêncio dominando o grupo.
— Minha querida, você é linda. Não é necessário mudar e perseguir um homem para ele gostar de você, muito menos um homem comprometido. — explico sem cerimônia. — Você gostaria que alguém quisesse coagir o seu amado simplesmente porque um mísero relógio disse que foram feitos um para outro?
Mordo a língua sentindo meu coração afundar no peito ao vê-la tão frágil e triste naquele momento. Respiro fundo sabendo que irei fazer algo bastante irresponsável para ela se sentir melhor.
— Quem sabe que vocês não fiquem juntos apenas no final da sua vida? Vi isso em uma série uma vez…
Ela sorriu com tristeza.
— Você está certa, . Vou ao banheiro, com licença.
Todos os olhares do refeitório observavam o corpo miúdo de Franz sumir na porta do banheiro feminino. Posteriormente, o olhar se recaiu a mim, desconfiados e até acusatórios.
— Antes que falem qualquer coisa, eu entendo a insistência de querer que um casal de destinados darem certos. Geralmente eles dão! — explico as encarando. — Mas sei que vocês odiaram que alguém fizesse sua vida um inferno simplesmente por ter decidido que seu marido deveria amar outra pessoa.
Mary abriu a boca para falar algo, mas eu a interrompi.
— Gente, vocês tentaram mudá-la apenas para que fosse “apresentável” para um homem que nem interessado na Franz estava! Isso não se faz!
— Mas a gente fez com a melhor das intenções, ! — contrapôs Daisy.
— Eu sei que sim. — falo tentando explicar meu ponto — Fico feliz em saber que em um momento como esse ela tem amigas para apoiá-la, mas não desse jeito!
Ela apertou os lábios, frustrada.
está certa, pessoal. — disse Mary — Acho que devemos um pedido de desculpas a nossa Franz.
O instinto de líder que Mary tinha sempre me fizera admirá-la e naquela vez não foi diferente. Ainda com alguns protestos de Lauren e Daisy, vi a convencê-las com punho de ferro e até mesmo as teimosas aceitou se levantar e ir ao banheiro acalentar uma mulher chorosa que nossa amiga com certeza era no momento.
Avisei que iria para o banco e não iria acompanhá-las. Sentia-me um pouco mal, todavia, pois demorei demais para falar o que pensava para Franz e poderia muito bem ter evitado terem levado essa história tão longe. Meu consolo era que, para todos os defeitos, as meninas eram as melhores amigas do mundo, daquelas que não lhe deixaria em um momento delicado como esse.
Consciente do que estaria deixado para trás, o aperto no peito foi inevitável. Faltando apenas algumas dezenas de minutos para meu horário de almoço acabar quando fui ao banco com as esperanças minúsculas.
Como previsto, eu deveria esperar alguma resposta por duas semanas, mais ou menos, mas, infelizmente, a chance disso funcionar era pequena; tudo por causa da minha renda anual que não era suficiente para garantir que o pagamento saísse em dia.
Imagina o que eles pensarão ao descobrir que daqui para que eu tenha essa resposta estarei desempregada?
No futuro, se eu quisesse abrir uma empresa não era má ideia; há uma campanha ferrenha do governo para o empreendedorismo que conheço desde que era uma criança e os bancos ajudavam até demais aos microempresários.
Quando estou correndo pelo salão principal lanço um olhar travesso e mal calculado para minhas amigas recepcionistas e segundos depois esbarro em alguém.
— Calma aí, mocinha. — Ouça uma voz jovial de um homem e eu coro violentamente ao pedir desculpas. Levanto o rosto para cima, já que ele era altíssimo.
— Não foi nada. — diz balançando a mão em sinal de desdém — Aliás, você poderia me dá uma informação? Estou procurando um parente meu. O nome dele é Garry Fordnelly.
Me seguro para não fazer uma careta e me ofereço para ajudá-lo. Enquanto entravamos no elevador e eu o explicava como achar o setor onde Garry atuava, me peguei observando os olhos azuis como cristais e a cabeleira loira e acobreada. Ele tinha o rosto bem desenhado e um sorriso fácil.
— Bem, aqui é minha parada. — digo por fim quando as portas do elevador se abrem.
— Obrigado pela informação. — Ele agradeceu — Sou Phillip De Lucca.
— E eu sou . — sorri para ele antes de seguir meu caminho.
Fiquei curiosa em saber mais daquele homem, porém o esqueço assim que me empenho a terminar a maior parte de meu trabalho.

...

, vai demorar para sair?
Coço os olhos exausta e solto um sorriso cansado para Mary.
— Vou sair em dez minutos. — respondo terminando o e-mail que enviava à gráfica que eu contatara para fazer os banners.
— Bem… Quero agradecer o que você fez para Franz. Estava exatamente pensando naquilo, que tínhamos incentivado uma obsessão, não um amor verdadeiro. — ela sorriu esperançosa — Espero que um dia eles fiquem juntos e tenha um casamento feliz.
Balanço a cabeça assentindo mesmo que não concorde veementemente com sua afirmação. Eu tinha um sentimento triste em relação aos primeiros casamentos que não davam certos, provavelmente eu era uma romântica incurável lá no fundo e odiasse pensar que as pessoas desfaziam-se com facilidade seus casamentos, sem lutar nenhum segundo pelo cônjuge e pelo quê criaram juntos.
Era triste para mim pensar que a felicidade da minha amiga, talvez, apenas talvez, pode resultar a tristeza de outra pessoa.
— Estamos pensando em fazer o Happy Hour na One essa sexta, quer vir conosco? — perguntou Mary quando ela ia em direção ao seu carro.
— Quem sabe? — dou a resposta evasiva com um sorriso, mesmo sabendo que no fundo eu negava.
Não queria ser a chata do grupo o tempo todo.
Tentei fazer alguns caça palavras perdidos de minha bolsa quando estava voltando para casa, mas a viagem estava propícia à pensar na vida.
Eu teria que conversar com a mãe de Jean sobre o agiota que ela pegará dinheiro emprestado há um tempo atrás. Não foi o melhor negócio que fizera e ainda devia alguns pares de dólares, porém ao menos ele era conhecido.
Dinheiro não traz felicidade, mas traz conforto e às vezes pode significar a mesma coisa.
Se ao menos eu tivesse aceitado o empréstimo de Carter… Mas me conhecia o bastante para saber que meu orgulho não me permitia dormir com tal feito.
Anoitecia quando cheguei na rua de casa. De longe pude ver Bonnie correndo com suas amigas e sorri com aquela cena tão simples. Era bem verdade que ver crianças brincando na rua não é tão costumeiro quando antigamente, entretanto, não deixava de acontecer nas Alas mais baixas, pois muitas (para não dizer todas) não podiam comprar os brinquedos eletrônicos famosos hoje em dia.
Quando me aproximei da agitação, a menina me reconheceu e com um grito apressou-se em minha direção. Ela tinha perdido o dente da frente deixando uma janelinha fofa em seu sorriso e eu a tirei do chão para os meus braços.
— Como você está pesada, meu amor! — lhe digo beijando sua face. — Hm, e está precisando de um banho também.
— Aff, Tia , eu não quero.
Respondeu emburrada e eu soltei uma risada sentindo meu corpo mais leve com a presença de Bonnie.
— Já conversamos sobre isso, Senhorita Bombom.
Lhe lanço uma carranca falsa e ela desce batendo os pés.
— Mas tomar banho é muito ruim!
— Ruim é ficar fedendo. — retruquei. — Depois a gente conversa sobre isso, tenho que ir pra casa. Você vai comer lá?
Ela balançou a cabeça concordando.
— Avisou a sua mãe onde estaria?
Ela escolheu os ombros.
— Ela sabe que eu estou com a senhora.
Apertei os lábios sem dizer nada. Charli parecia saber sobre a constante ida de seus filhos em minha casa, contudo, não agia como tivesse controle dos seus filhos — ou até mesmo se importasse onde eles estivessem, mas bem no fundo eu sabia que ela o fazia. Quando Bonnie passou a ser frequente em minha casa, lembro de ter uma conversa estranha com ela: Charli dedicara-se a saber qual era meu objetivo dando comida de graça pra a filha dela.
Dou lhe um tchauzinho e vou direto para casa. Jean e minha mãe estão no quarto; mesmo com a delicadeza natural e talvez um pouco técnica de minha amiga, Letícia não parece conseguir segurar muito bem a comida em sua boca. Meu coração se aperta quando sua mão ossuda segura com dificuldade a de Grey para que ela parasse.
— Eu assumo por aqui. — aviso a Jean — Obrigada.
Meio perdida pelo repentina chegada, Jean se despede e deixa a pequena tigela com diversos cereais integrais que comprei visando melhorar a alimentação de mamãe. Custou caro, porém, para ela o melhor nunca será negado.
Limpo seu rosto sendo assistida pelos seus olhos azuis sem foco. Um tipo de felicidade nostálgica me atingi quando ela toca com seus dedos frios minha pele; penso nas vezes em que ela cuidava de mim e me dizia que era seu maior tesouro.
— Eu te amo, mamãe. — sussurro emocionada — E vou sempre cuidar de você. Até o fim.
A decepção me toma quando lembro que ela não me entende e que provavelmente não sabe quem eu sou ou quem era ela. Tudo muda, todavia, quando vejo de seu olho direito descer uma solitária lágrima.

A semana passara mais rápido do que esperava e antes que eu pudesse gravar cada canto daquela empresa em minha memória, a sexta-feira chega.
Mesmo sabendo que eu não poderia segurar aquilo por mais tempo, fico calada e não cito sobre minha saída da Coral para as meninas. Sei que não estou pronta e que provavelmente nunca estarei, mas continuo empurrando aquilo com a barriga.
Passo a tarde enfiada na sala da copiadora que por algum milagre está vazia. Tenho plena consciência que se alguém entrar me verá naquele estado de inércia, uma careta de quem já perdeu a guerra.
Giro na cadeira com o queixo apoiado na mão pensando nos momentos bons que tive nos últimos cinco anos. Lembro de ver as meninas alegres dançando juntas na festa de fim de ano, quando eu me dei uma folga para beber duas ou três taças de champanhe, e já sinto falta dessas memórias.
Exatamente quando a copiadora para de fazer barulho, a porta se abre e última pessoa que imaginaria me fazer companhia aparece.
Sinto-me nervosa com a presença de ali.
Seu terno sobe medida é azul marinho e a gravata vermelha se destaca na camisa social preta e instantaneamente comparo com a calça preta que eu usava e uma blusa cinza de flanela.
Ele entra devagar como se estudasse em se aproximar ou não.
— Oi. — diz ele colocando a mão no bolso — Posso conversar com você?
— Claro. — respondo desanimada de forma que aparenta dizer o contrário.
— Soube que está saindo da empresa. — comenta.
— Senhor Carter é um fofoqueiro. — estalo a língua quando percebo não ter filtrado minhas palavras.
ri.
— Não deveria falar assim de seu chefe. — responde com um ar divertido. — Ademais, também o acho um fofoqueiro. Quer dizer, ele só é fácil de se arrancar informações.
Dou os ombros sentindo um sorriso zombeteiro se formar em meu rosto.
— No final da tarde ele não será mais meu chefe.
pega uma cadeira que estava no canto da sala e se senta confortavelmente.
— Quer conversar sobre isso?
— Isso o quê?
Sei do que ele está falando, mas prefiro fingir-me de sonsa.
— Sobre sua saída. Sobre o porquê de você sair do emprego que parece lhe fazer bem.
— Como você vai saber se eu gosto ou não do emprego se a gente não se conhece? — digo acidamente.
— Do jeito que você falou sobre ele naquele almoço foi mais do que necessário para me convencer. — ele responde à altura, frio como gelo.
Foi como uma tapa e eu encolho os ombros ao ver que eu merecia por ter sido grosseira.
— Desculpe. — sussurro.
— Tudo bem. — responde depois de um tempo.
Só então percebo que ele carrega na mão uma caneta que não para de girar entre seus dedos, como um tique nervoso.
Ele estava nervoso. Por quê?
— Não tem problema sair do fórum assim no meio da tarde? — pergunto mais curiosa do que irritada — Você não é autônomo e trabalha para o governo.
Ele sorri para mim e me perco naqueles olhos escuros com um brilho de divertimento.
— Até os desembargadores têm seus momentos de folga.
Sorrio e volto para as cópias largadas na mesa e o grampeador esquecido por mim. Meu último trabalho para Coral era repleto de papéis cheio de estatística que quando enviadas por e-mail costumavam ser ignoradas pela grande maioria dos coordenadores das equipes da empresa em geral.
— Por que não me diz o motivo de sair da Coral? — indaga mais uma vez — Desabafar pode ajudar.
— Não resolverá meus problemas. — resmungo, porque no fundo eu gostaria que tudo fosse drama da minha parte e que não estivesse perto de vender minha alma para um demônio da ala E cheio de usura.
— Mas pode fazer você se sentir melhor. — Ele diz e a preocupação sincera de seus olhos me desarma.
— Desculpe. De novo. Você só está tentando ajudar — repito passando a mão no rosto — Estou em um humor cão hoje.
— Percebo.
Ficamos em silêncio e eu coloco a copiadora para trabalhar um pouco mais. Começo a prestar atenção naquela cena: o clima ameno, a fraca luz da sala, a distância entre nós — tanto fisicamente quanto emocionalmente. Nós nos assemelhávamos a um filme indie antigo, daqueles de baixo orçamento que eu costumava assistir nas tardes de domingo nos poucos canais de TV aberta que ainda existiam.
Olho para ; seus olhos fitando algum ponto além da janela, o mexer nervoso de suas mãos, a elegância em que ele estava sentado… Será que ele já passara por problemas como eu ou sempre foi o mimado em sua vida?
Eu acreditava piamente que ninguém tinha uma vida perfeita. Mesmo com dinheiro, as pessoas tinham dificuldades e barreiras que poderiam ser nada para mim, mas para eles eram grandes como gigantes.
Pensando nisso decido confiar em . O que eu perderia se ele soubesse?
Não queria adicionar na bagunça da minha vida, mas ele estava tão dedicado a querer me ajudar que uma hora eu teria que ceder — e eu estava farta de lutar.
— Preciso cuidar da minha mãe e não tenho um centavo para isso. — falo, enfim — Jean, a garota que cuidava dela, não pode continuar se dedicando a mamãe. Estou de mãos atadas. — minha garganta embola e me sinto traída pelo meu corpo não obedecer meus comandos para evitar a histeria. Recuso-me a chorar diante do meu destinado. — Vou ter que pegar dinheiro emprestado de um agiota e não suporto a ideia de viver atolada em dívidas.
escuta calado e sinto seu olhar em mim mesmo que eu não esteja necessariamente mirando-o.
Seu silêncio me acalma por um motivo desconhecido. Minhas costas estão mais leves, mas a preocupação parece maior que antes.
O que eu ia fazer da minha vida?
— Você provavelmente já sabia da história, não é?
Pergunto consciente de que não preciso de uma resposta para saber que é verdade.
— Como soube? — ele sorri sagaz e eu o acompanho sabendo que a conversa é tensa demais para esse tipo de expressão.
— Desconfio de qualquer advogado. — dou os ombros — Ou pessoas que foi um em algum dia de suas vidas, no caso. Dizem as más línguas que eles são a pior raça da Terra.
— As más línguas estão corretíssimas.
Rimos juntos e faço uma nota de agradecê-lo por fazer-me mudar de humor tão rápido.
— Quero ajudar você. — fala ele sério. — Sei que nunca aceitaria uma doação, então, eu posso emprestar o dinheiro necessário para contratar uma enfermeira e os equipamentos que precisa ou mandar sua mãe para uma clínica. Você só começará a pagar quando puder, obviamente, com a condição que continue na empresa.
Arregalo os olhos, atenta. A proposta era muito tentadora, mas engoli o orgulho não seria fácil. Eu o conhecia em menos de um mês e ele estava oferecendo parte de seu precioso dinheiro, pelo amor de Deus! Aquilo me fez pensar em seus reais motivos: era bondoso ou via segundas intenções naquele ato?
— Por que quer me ajudar?
Ele consegue perceber o peso da pergunta tanto quanto eu. Dependia do que responderia para que eu dissesse que aceitaria ou não a proposta.
Esperei que ele dissesse que eu era sua responsabilidade por ser sua destinada, que eu era preciosa demais para Carter para perder me espaço na empresa ou simplesmente porque aquele dinheiro não iria fazer falta em sua fortuna.
Eu possuía uma resposta para todas essas façanhas.
Entretanto, ao ser mirada pelas pérolas negras determinadas que pareciam corroer minha alma e ouvir a tão esperada resposta, vi que tudo que eu acreditava sobre era uma grande mentira.
— Por que quer me ajudar? — repito.
— Porque é isso que as pessoas fazem quando alguém precisa de ajuda. — respondeu ele, firme como uma rocha — Elas ajudam, não interessa como.

Capítulo 10

“Não, eu não preciso chamá-la de "querida" e eu não preciso chamá-la de "minha" .Eu não tenho de tomar o seu coração, eu só quero tomar o seu tempo.” Take your time, Sam Hunt.

O primeiro ônibus que eu costumava pegar para voltar para casa estava cheio naquela sexta-feira. Acabei por ficar em pé, pois cedi meu lugar para uma senhora grávida, entretanto, não reclamei em nenhum momento ou lamentei por não ter um carro e viver tão longe do centro. Sorri para um desconhecido que sentou perto de mim no metrô e cumprimentei o motorista do último transporte público que peguei. Mesmo quando cheguei em minha rua e a chuva de outono caía, não me importei com o molhar das roupas que vestia.
A esperança era uma felicidade insegura e cheia de expectativas que me dominava como nunca antes. Um sentimento novo e tão brando que chegava a me fazer temer suas consequências. Apenas percebi que estava rindo sozinha quando, ao chegar em casa, Jean me lançou um olhar avaliativo.
— O que diabos aconteceu com você? Parece que viu um passarinho verde.
— Acho que vi um sim, minha amiga.
Respondi me sentando deliberadamente no sofá e abrindo minha bolsa.
— Explica isso direito. — exigiu a menina.
Segurei o extrato que tirei no banco, um pouco antes de voltar para casa, com um número com mais zeros do que eu poderia ganhar em três anos trabalhando na Coral.
— Mamãe vai ter um quarto novo.
Grey pega o papel de minha mão sem delicadeza e arregala os olhos quando ver o que nele está escrito.
— De onde você tirou esse dinheiro todo?
— Bondade ainda existe, amiga. — soltei um suspiro — E meu destinado tem de sobra.
O rosto de Jean se iluminou como uma árvore de natal, mas ela suavizou rapidamente e cerrou os olhos cética.
— Não acredito que você, a pessoa mais orgulhosa que conheço, esteja aceitando dinheiro de alguém que nem gostava. — ela pôs as mãos na cintura — Até onde eu sei, né?
— Ele me convenceu. — balanço a mão em desdém — Coisa de advogado.
Minha amiga se aproximou como um gato.
— Ah, então ele é advogado, hm?
Sorri misteriosa.
— E isso é tudo que você vai arrancar de mim.
Mesmo sabendo que não havia motivo para não contar a Jean, adorava apenas dá informações evasivas que a deixavam mais curiosa.
Me julguem.
— Vou precisar sair amanhã de manhã cedo para resolver o que posso para reformar o cômodo. — olhei com ela com a melhor face de piedade — Pode quebrar esse galho pra mim?
Ela deu os ombros e assentiu.
— Não é melhor levá-la para alguma clínica? Você visita ela nos finais de semana e não precisa mais se preocupar com isso.
Sei que Jean fala aquilo querendo me ajudar, mas não consigo não me sentir ofendida com suas palavras, como se eu estivesse doida para livrar-me da mamãe e seguir com a minha vida. Não sei como há filhos ingratos que fazem isso sem arrependimentos e conseguem dormir à noite, conscientes que sua progenitora está esperando a morte sozinha.
Nego seu conselho e faço as perguntas corriqueiras sobre como foi seu dia com minha mãe. Ela fala que teve muito mais dificuldade para dar comida a mamãe assim como dá banho. Falou que ela estava acordada e que acabara de trocar suas fraldas.
Me disperso de Jean e entro no quarto sentindo uma leveza indescritível ao ver que, por hora, nossos problemas serão resolvidos.
Na cama de casal, o corpo pequeno de Letícia está miúdo e coberto por lençóis limpos como todos dias. O quarto é bem ventilado e o cheiro bom de limpeza me envolve. Aquele cômodo era um total contraste com as paredes mofadas da sala e a bagunça da cozinha que divide a lavanderia.
— Conseguimos, mãe. — falo para ela emocionada, feliz como nunca antes, pois verdadeiramente algo na minha vida tinha dado certo no final.

(...)

Antes de dormir, decidi dá uma olhada no contrato que fizera comigo. Como um homem da lei, a transação do dinheiro deveria ser totalmente regulado e legal, por isso, sentamos junto com Carter e a advogada da empresa, chamada por meu chefe, e fizemos um acordo às pressas. Por ser sua área, parecia quase majestoso organizando a papelada. Ele fizera um rascunho do tratado — que foi praticamente inalterado — e entendi que foi falar comigo certo que eu não negaria sua ajuda.
Me senti estranha no meio daquelas pessoas discutindo sobre o negócio. Meu conhecimento jurídico era extremamente reduzido e comecei a agradecer por não ter seguido aquela área.
Só aquela conversa me deixava exausta, entretanto, o sentimento de esperança que me despertava era doce e convidativo.
Lembro de sorrir para ao apertar sua mão e senhor Carter brincou:
— Do jeito que você se preocupa com , estou começando a achar que quer roubar minha secretária. — e ele riu com gosto. — Se ele aparecer com qualquer proposta boa me diga; com certeza eu dobrarei.
Ri junto com Albert e dei uma espiada em . Ele me olhava de lado como de quem escondia um segredo que só ele sabia.
Antes de ir embora para casa, falou sobre algumas enfermeiras de confiança que conhecia e que poderiam fazer um preço bom para mim. Marcamos para nos encontrarmos no sábado em uma cafeteria no centro da cidade para que ele me passasse as informações que conseguiu.
No fundo não precisávamos nos encontrar, pois ele podia enviar tudo para meu celular, porém eu tinha o objetivo de me desculpar com e definir de vez o que diabos está se passando entre nós. Desde o começo eu o pré julgara mal e em nenhum momento ele fora desrespeitoso comigo e respeitou minha situação amorosa.
Seria aquela uma boa oportunidade de confessar que eu estava solteira outra vez? Por um lado a ideia era cheia de boas intenções, mas não sei como ele entenderia esse comentário. Logo após dá uma quantia gorda de dinheiro para , ela chega solteira?, pensaria. Deixaria para outro dia, portanto. Nem sei como ele vai aceitar meu pedido de perdão!
Começo a me sentir aborrecida em ter aceitado aquele dinheiro. Será que ele vai desconfiar da honestidade de minhas atitudes a partir de agora?
Meu coração se acelera quando um barulho ensurdecedor atravessa pela sala. Com a mão no peito, cambaleio até a porta onde alguém bate e grita meu nome. Estava tão imersa em meus pensamentos que não percebi que me chamavam. Ainda agitada pelo susto, franzo a testa tentando adivinhar porque alguém viria em casa a essa hora.
Quando abro a porta e me deparo com sinto que vou enfartar a qualquer momento. Percebo que o que eu sentia por ele não era tão passageiro quando me pego reparando em seus lábios macios e os olhos…
Tem que ser muito otária mesmo! O cara quebrou seu coração sem dó e você ainda anda de quatro para ele?, escuto a consciência gritar comigo.
— Desculpe te incomodar tão tarde. — ele disse parecendo ressentido — Não posso passar mais uma noite sem falar com você. Posso entrar?
De primeiro sinto uma vontade imensa de fechar a porta em sua cara. Seria uma vingança maravilhosa, mas, primeiro: eu não sou criança e isso seria extremamente imaturo — tenho 26 anos na cara, pelo amor de Deus! E segundo: não ia conseguir dormir sem saber o que ele queria conversar comigo.
Por essas e outras, deixei-o entrar em casa.
Cruzo os braços e continuo no corredor, não o chamando para a sala. Ele demora alguns segundos para olhar diretamente em meus olhos e solta a respiração que Grey segurava antes de falar.
— Estou nervoso. — ele pôe as mãos no bolso da calça surrada de tinta — Quero pedir desculpas pela forma em que tratei no outro dia. O que a gente teve foi maravilhoso, , foram meses especiais demais para mim. Eu fui um filho da puta em não ter reconhecido isso.
Fico calada tentando processar o que estava dizendo. Aquilo era exatamente o que eu desejava que ele fizesse, porém por que sinto que essas palavras são tão… vazias?
— Não quero perder sua amizade. Me perdoa, por favor. — explica ele.
Então, entendo o motivo de não estar nas nuvens com suas palavras.
Eu desejava que ele dissesse que me amava. Que ele se arrependera de tudo o que fez e que queria voltar. Que ele não sentia nada pea Gia.
Ao constatar isso percebo que mereço o prêmio de otária do ano.
— Tudo bem. — murmuro e ensaio meu olhar de desprezo — Era só isso?
— Era. — ele responde envergonhado — Então, estamos bem?
Concordo com a cabeça mesmo não tendo certeza disso.
— Se você precisar de qualquer ajuda, é só me pedir. — pisca e sorri pra mim.
Assim que fecho a porta e fico sozinha no corredor começo a bater a cabeça contra a parede.
Burra. Burra. Burra. Mil vezes burra.
Dei meu coração para um idiota e não faço ideia de como resgatá-lo de volta.
Voltei ao sofá e balancei a cabeça para me concentrar nas coisas que eu faria no sábado. Em pedaço de papel, escrevo o nome dos aparelhos que teria que comprar e seus respectivos fabricantes. Mandei uma mensagem para o médico da minha mãe apenas para conferi, e listei alguns remédios que estavam acabando.
Massageei meu pescoço e bocejei de sono. Peguei meu celular para checar o email e vi que havia me mandado um sms.
“Confirmado para amanhã? 11h00 está bom para você? -
Sorri ao conferi a hora e balancei a cabeça ao pensar que ninguém dormia cedo nesta cidade.
“Com certeza :) -

(...)

A bem iluminada cafeteria estava quase vazia naquele final de manhã. Quando dou uma olhada rápida e vejo que não chegou ainda, corro em direção ao banheiro. Tento me convencer que estou checando minha maquiagem e que o desodorante não passou da validade por puro capricho e não porque eu quero está apresentável para .
E, é claro, falho miseravelmente.
A verdade é que quando eu acordei cedo naquele dia, procurei vestir a roupa mais nova que Ivanna fez para mim: uma saia azul de bolinha e cintura alta e uma camisa branca social.
Sinto minha barriga gelada desde que saí de casa e mesmo andando para cima e para baixo para resolver as coisas para mamãe, não consigo parar de imaginar como encararei .
Só Deus sabe o porquê do meu nervosismo, porque eu não faço a mínima ideia.
Eram 11h05 quando pedi meu café e sentei em uma mesa perto da janela.
Cinco minutos depois vejo acompanhado por uma mulher na casa dos 40 e um homem alto e de traços latinos bem atrás deles.
Meu destinado veste uma camisa social azul claro e uma calça jeans escura. Seus cabelos parecem úmidos e o cheiro forte de colônia masculina sugere que saira apressado de casa.
— Desculpe o atraso. — diz quando eu me levantei para cumprimentá-los — , essa é a mulher que eu lhe falei.
Ela estendeu a mão com um grande sorriso exibindo o aparelho rosa que ela usava.
— É um prazer conhecê-la. Sou Hope Steel. — se apresentou.
teve um ataque de tosse que podia ser deduzido como uma tentativa de esconder sua risada.
— O prazer é todo meu. — respondi sem entender a graça.
— Ah, e esse é meu segurança e motorista, Carlos. — apresentou o homem. — Você provavelmente o viu, mas não percebeu a sua presença. Ele tem essa habilidade de ficar invisível.
Estiquei um pouco o pescoço para olhar para seu rosto e duvidei muito que alguém poderia não notá-lo.
Sentamos na mesa e, sem enrolação, Hope começou a explicar seu “currículo”. Ela trabalhou por sete anos com um idoso que tinha Mal de Alzheimer e três anos com uma senhora que já estava em fase terminal da doença. Ela explicou que nos últimos anos trabalhara com crianças com câncer, mas sentia falta de trabalhar em casa familiar e etc. Assim como eu, assentia calado, apenas escutando Steel falar. Minhas perguntas se variavam entre sua experiência e se ela entendia as condições de minha mãe.
— Você sabe que eu moro na Ala O e não tenho certeza se haverá espaço para que você more lá. — explico a situação — Há algum problema se você tiver que pegar ônibus?
— Ah, não, não tem problema. Eu vou com a minha moto. — ela disse e eu arqueei a sobrancelha instintivamente tentando imaginá-la em cima de uma moto.
— Posso pagar parte da gasolina se preferi. — ofereço olhando para meus dedos e falhando miseravelmente em conter o sorriso no meu rosto com a imagem dela dirigindo.
A conversa passou mais rápido do que esperava e logo eu tinha marcado para dá uma resposta no final da tarde de domingo. Hope saiu antes de pedi seu café, pois teria que almoçar com seus filhos. Achei sua saída bastante conveniente para a conversa que eu gostaria de ter com .
— Está quase na hora do almoço. — comentou ele.
— Verdade.
Ele hesitou.
— Quer ir em outro lugar para almoçar? — disse inseguro — Tem um restaurante muito bom pelas redondezas…
— Não precisa! Marquei de comer em casa hoje.
Uma desculpa descabida, eu sei, mas não queria abusar da sua generosidade.
— Tudo bem. — ele deu os ombros, apesar de parecer desapontado.
— Então… Essa enfermeira é confiável? — pergunto casualmente bebericando o café intocado e frio na mesa.
E com muita força tentando não fazer careta.
— Não se preocupe, ela está limpa. — ele respondeu em prontidão. — Não há casos de maus tratos à envolvendo e quem me indicou garantiu que Hope é boa no que faz. — sorriu para algum ponto invisível atrás da minha cabeça — Ela é meio doidinha, mas acredito que não tem nada para tratar, psicologicamente falando.
— Por que você estava rindo dela quando Hope se apresentou? — Perguntei, não segurando minha curiosidade.
Ele voltou seu olhar para mim, demorando um pouco para entender, mas logo estalou a língua e riu.
— Hope está no meio de uma crise de meia idade, então, ela faz coisas que supostamente avós não fazem. É engraçado vê-la dirigindo uma Honda rosa.
Quase engasguei com a imagem que veio em minha cabeça e a gargalhada que saiu da garganta foi simplesmente hilária.
Com certeza eu iria direto para o inferno por caçoar de alguém desse jeito.
E não ia sozinha, já que parecia se divertir com isso também.
— A gente rir, mas é fofo ver as fotos dela com a netinha mais nova. Chamam ela de vovó estilosa, mas Hope odeia esse apelido.
— Certeza que vou me divertir muito com ela! — digo sincera. — Muito obrigada. Por tudo. Você não precisava fazer isso é mesmo assim foi bastante generoso comigo. Eu não fui a pessoa mais simpática do universo com você. Se pudéssemos voltar no tempo...
— Podemos começar de novo se quiser. — ele sugeriu com um sorriso de lado, me fazendo ficar assustada com sua ideia.
estendeu a mão em minha direção com um sorriso contagiante.
— Oi, sou , desembargador e filantropo nas horas vagas.
Ri e apertei a sua mão.
— Olá, sou , filha dedicada integralmente e secretária de um dos CEO da Coral, quando tenho tempo. É um prazer conhecê-lo.
Algo fez o ar pesar e o mundo parou ao nosso redor. Entrei em uma sensação de dejavu do dia que conheci . Seu toque em minha mão era convidativo, macio e quente. Ser mirada por seus faróis negros me fazia entrar em uma bolha imaginária; era como ser avaliada de fora para dentro, como se ele pudesse ver o mais fundo da alma.
E eu sabia que ele via o melhor de mim naquele momento.
— O prazer é todo meu, .
Sua voz soa mais rouca que o normal, vibrando cada canto do meu corpo. O charme que o envolvia me deixou extasiada.
— Aqui está a conta, senhor.
Quando o atendente nos interrompeu, pareceu fazer-nos voltar a realidade.
Cocei a garganta tentando disfarçar o silêncio que se seguiu.
— Você tem um irmão mais velho, não é?
levanta o olhar para cima, pensando na resposta.
— É tipo isso. — ele suspirou — Mas não tenho muito contato com ele. Passei boa parte da infância morando com minha avó, na Alemanha.
— Ah, seus pais são separados? Por isso teve que morar com a avó?
— Não, eles estão juntos ainda. — respondeu simplesmente — E você? Tem irmãos?
Balanço a cabeça em negação.
— Por mais que fosse o desejo de meu pai, ele esperava que a gente melhorasse financeiramente para ter um novo bebê. — sorri nostálgica. — Eles me deram uma vida confortável, sabe? Mesmo morando na Ala O.
Ele assentia, prestando atenção em cada detalhe, e me senti animada para continuar a falar.
— Sus pais eram destinados um do outro? — indagou interessado.
— Sim! A história deles é bonita, mas um pouco triste também.
— Como é?
Sua vontade de conhecer parte da história dos meus pais me fez voltar a época de quando eu era mais nova e minha mãe começara a esquecer das coisas. Foi na primeira vez que ela não me reconheceu e contou para mim o que eu não sabia sobre os .
— Parece novela mexicana, para ser sincera. — adverti antes de começar a narrar. — Minha mãe me contou que ela era da Ala G e foi criada para ser a esposa perfeita. Ela era bonita desde criança, então, meus avós tinham certeza que ela se casaria com alguém muito rico ou influente. De preferência os dois.
levantou a sobrancelha, cético.
— Eu sei! Louco não? Mas eles eram advogados que não conseguiram entrar em ascensão, o que me leva a crer que talvez quisessem ganhar algo em cima dela.
“Imagina só a reação deles ao descobrir que o destinado dela era um “faz tudo” da Ala O? Foi um choque. Como eles eram advogados, não era difícil para que minha mãe pudesse permanecer na cidade. Entretanto, ninguém imaginava que Letícia ia se apaixonar por ele; o que resultou muitas brigas entre a família. Enfim, minha avó ameaçou deserdá-la. Apesar de amar minha mãe, o destinado dela não tinha certeza se trazê-la para uma Ala tão inferior era bom para ela. Bem, minha mãe não se importou com nenhum daqueles problemas e fugiu com meu pai para casar com ele.”
— Foi desse amor que nasceu euzinha. — conclui de forma infantil, evitando contar a parte triste da história, e gargalhou da minha besteira.
— É uma bonita história. — comentou com um sorriso — Você deve ter vivido em um lar muito amoroso.
Balanço a cabeça, afirmando, sentindo que nossa conversa acabava ali. Fiquei pensando naquela facilidade estranha que tive para contar algo do meu passado que influenciava diretamente no que eu vivia agora. aparentava ser bastante confiável, contudo.
Quando vejo que a hora passou voando e minha barriga reclamava, comentei.
— É melhor eu ir andando…
— Quer uma carona? — perguntou quase automaticamente.
— Não quero incomodar...
— Não será nenhum incômodo. Mesmo!
Aceitei a carona parte por educação e parte por ainda queria continuar a conversar com .
— Então, tudo bem. — ele se levantou esfregando as mãos — Só vou ao banheiro rapidinho.
Assenti em concordância vendo-o se afastar, ficando feliz por poder ter tempo para colocar minha cabeça em ordem.
Observo a movimentação da rua e os carros passando deliberadamente pela avenida. Reparo o relógio dos pulsos das pessoas e a aliança dourada daqueles que não o tem.
Fico melancólica de repente e penso de como seria se eu tivesse me apaixonado por e ele por mim. O que teria acontecido se eu não estivesse namorando na época em que nos conhecemos? Quem sabe o destino realmente estivesse ali colidindo os nossos mundos mesmo se os relógios não existissem?
Serei para sempre grata a ele pelo que fez por mim e pela minha mãe e com certeza darei a amizade e lealdade que merece. Mas aquele negócio de destinados nunca iria funcionar.
Quem sabe em outro universo, em outro planeta, ou talvez em outra vida.
— Você sempre quis trabalhar nessa área? — perguntei quando estávamos já na calçada em direção ao seu carro.
— Não, claro que não. — respondeu como se eu fosse louca — Se na minha adolescência alguém dissesse que eu iria estudar direito, provavelmente eu riria dele como se fosse a piada mais engraçada do mundo.
Franzi o cenho.
— Então, como você chegou aqui?
Ele sorriu olhando para o horizonte com um sorriso nostálgico.
— Por ser da Ala A desde criança, não tinha muita pressão em cima de mim para escolher minha profissão. Meu pai queria que eu seguisse o rumo dos negócios que nem ele. — revirou os olhos de tédio — Mas como somos ricos e temos uma família cheia de gente com o sobrenome , não é um problema ter alguma empresa caindo nas mãos dos meus primos, logo, ninguém cobrou mais do que o necessário de mim: uma faculdade. Quando saí do exército…
Arregalei os olhos, assustada.
— Você participou do exército?
Ele coçou a nuca, constrangido. A sua face começou a ficar vermelha e eu o vi se transformar um menino de tão fofo que ele ficara.
— É… por seis meses só. — desconversou — Enfim, pedi pra saí antes mesmo de começar. Sempre tive vontade de mudar o mundo e no início achei que estudar direito era uma forma de fazê-lo. — ele deu os ombros — Quis usar minha sede de justiça para algo bom.
— Espera aí. — parei em frente ao seu carro fitando Carlos entrar no banco motorista — Você disse “no início”?
— Caraca, você não deixa passar nenhum detalhe! — disse em tom de admiração.
Me senti constrangida, mas nada disse, esperando que ele continuasse.
— A verdade… — ele chamou-me com a mão para o lado do carro e abriu a porta para mim — ...é que ser advogado e ser justo não é constantemente… Como eu posso dizer? — coçou o queixo, pensando — Não andam constantemente junto se você quer ganhar dinheiro.
Agradeci a sua gentileza ao abrir a porta do carro e me acomodei no banco de trás de seu carro de luxo, logo depois de falar o meu endereço ao Carlos.
— E ser desembargador? É a mesma coisa?
— Não. — respondeu, colocando o cinto — Mas é bem mais difícil não deixar o poder subir a sua cabeça.
Olhei para ele tentando decifrá-lo. Eu desejava conhecê-lo muito mais do que eu admitiria.
Você me intriga.
— Senhor, irei fechar a janela. Acredito que vocês dois precisam de privacidade. — falou Carlos em espanhol, totalmente alheio ao meu conhecimento sobre a língua.
Meu destinado ficou vermelho com insinuação do motorista enquanto eu fingia olhar alguma coisa pela janela e focava em não ruborizar.
Sheisse, que constrangedor, Carlos! Não tenho mais 16 anos, por favor. — respondeu em espanhol e, rindo, o latino fechou a janela da parede que separava os bancos de trás com os da frente.
Franzi o cenho tentando entender o que significava “chaissa” e me acomodei no carro antes de partir.
— E agora? Como vai ser sua situação na Coral? — perguntou segundos depois.
Sorri entusiasmada.
— Não faço a mínima ideia.
Aquela cena foi particularmente engraçada para , pois ele gargalhou me contagiando.
— Albert falou que na segunda ele começaria a me treinar. Só Deus sabe para que, mas estou animada com a possibilidade. — expliquei.
— Eu ofereceria minha ajuda, mas provavelmente lhe atrapalharia. — ele comentou — Se for algo em relação a novos investimentos, me avise. Estou precisando de uma segunda opinião, além do meu contador.
— Sim, senhor. — brinquei.
O silêncio confortável se instalou no recinto e me vi tentada a perguntar sobre o que acontecia entre nós. Um péssimo timing, eu sei, mas a curiosidade quase me consumia.
Aperto os lábios tentando pensar em uma boa abordagem. Em outra situação, eu simplesmente deduziria que éramos amigos, mas havia um elementar que não poderia ser de esquecida: era meu destinado. De acordo com os videntes, erámos a alma gêmea um do outro. Portanto, não queria passar a impressão errada a ele, nem desejava que tivesse falsas esperanças.
Por algum motivo, não suportava a ideia de machucá-lo desse jeito.
, eu sei que você já me falou que quer ser meu amigo e acredito em você. — cruzo minhas mãos no colo nervosamente quando tenho sua total atenção. — Mas ao mesmo tempo você disse que não desistiria de mim. Quero entender de vez o que está acontecendo entre a gente. — é difícil mirá-lo nos olhos, mas eu o faço mesmo assim. — O que você espera de mim?
fica em silêncio, mas eu quase posso ouvir as engrenagens de seu cérebro maquinando uma resposta. Depois de um tempo ele me responde.
— Eu não quero roubar seu coração. Não quero mudar sua vida ou o que você pensa em relação ao destino. — ele sorriu tranquilo — Eu só quero estar com você.
Suas palavras me envolvem quase magicamente. Sinto as entrando nos meus poros e fazer com que cada célula de meu corpo relaxasse em sua presença. Meu corpo se arrepia. Como ele sabe exatamente o que me dizer desse jeito?
— Por que você é assim? — sussurro tão baixo que duvidei que ele tenha escutado, entretanto, pelo peso de seu olhar, sei que ele me ouvira bem.
Estamos perto de entrarmos de novo naquela bolha quando paramos de repente e percebo que estamos em frente da minha casa. Definitivamente esta foi a viagem mais rápida do centro para meu bairro que tive.
— Muito obrigada pela carona. — agradeço quando, com o sotaque carregado, Carlos avisa que chegamos.
— Por nada. — sorriu enquanto eu abria a porta.
Antes de me despedir de vez e fechar o automóvel, por puro impulso, digo a ele:
— Também gosto de estar com você. Adoro sua companhia.
ri divertido e estende minha bolsa que fora totalmente esquecida por mim.
— Que bom, pois achei que estava louca para sair por não gostar da companhia e por isso esqueceu suas coisas.
Por mais que aquilo pudesse ser algo um tanto ofensivo, parece lidar muito bem com meu esquecimento, então, sorri amarelo para ele.
A verdade é que eu estava feliz de está do lado de fora, principalmente porque agora eu conseguia respirar.
Por que eu não respirava direito antes? Não sei.
— Obrigada, de novo.
Ele balançou a mão em desdém como se ele costumasse ajudar jovens solteira indefesas toda sexta-feira com doações extravagantes.
— Me mantenha informado de qualquer problema. Estou aqui para ajudar.
— Qualquer um? — levantei as sobrancelhas — Não sei se vai conseguir aguentar…
— Não me subestime, . — ele piscou — Até mais.
— Até, .
Quando o carro dobra uma das esquinas, olho para frente de casa e vejo com um olhar de poucos amigos para mim. Grey balança a cabeça ultrajado e eu franzo o cenho sem entender. Antes que eu pergunte algo, ele entra em seu lar e fecha a porta com um pouco mais de força do que o necessário.
Que diabos..?

Capítulo 10 (Parte II)

“Então se segure em mim firme. Segure-se, juro que tudo ficará bem, porque somos você e eu juntos.” Hold On, Michael Bublé.

— ...ele sempre teve fama de chefe mão de ferro. — comentou com cinismo — Me recuso a acreditar que durou quase seis anos para você perceber isso.
— Em minha defesa, ele nunca me forçou descer ao térreo por mais de 3 vezes em um dia. — resmunguei fingindo-me carrancuda.
Empurrei a porta com o ombro logo que abri o cadeado novo que havia comprado. Suspirei cansada, mas feliz por ter conseguido chegar em casa. A sensação de trabalho bem feito no final de uma sexta-feira é maravilhosa.
— E Hope? Está se dando bem com ela? — perguntou interessado.
— Sim. — afirmei — Obrigada por indicá-la. Ela é uma fofa e muito eficiente.
— Bom... — murmurou — Muito bom.
— Acabei de chegar em casa e tenho algumas coisas para resolver. — expliquei — Te mando mensagem mais tarde, ok?
— Tudo bem. — respondeu — Até mais!
— Tchauzinho.
Joguei minha bolsa e o celular no sofá e devagar fui até o quarto de mãe. Pude escutar um cantarolar baixo e sorri ao ver Hope checando a sonda que permitia que minha mãe não tivesse problemas para fazer xixi.
Não foi difícil perceber as mudanças que Hope trouxe para o bem estar da minha mãe. Veja bem: sou grata por ter tido a ajuda de Jean, mas a verdade é que ela não era uma profissional formada. Hope tinha mais facilidade e sempre sabia o que fazer para melhorar seu conforto, mostrando que tinha experiência no que fazia.
Letícia estava sonolenta quando entrei no quarto. Os olhos azuis estavam cinzentos e me fitaram com o costumeiro desconhecimento.
— Boa noite, ! Como foi no trabalho? — perguntou Hope ao me ver.
— Cansativo. — respondi com um sorriso ladino.
Aquela semana tinha sido marcada por diversas mudanças, principalmente no meu trabalho. Quando cheguei na segunda-feira, Carter me chamou para sua sala e mandou que fossem checados os contratos dos funcionários que trabalhavam há mais de cinco anos na empresa.
Nos outros dias me pediu para que fosse até a área de marketing para pegar as estatísticas e opiniões dos nossos clientes. No começo me perguntei o porquê de não mandar apenas um email pedindo eles, mas ao chegar no andar prescrito, entendi o que ele queria que eu fizesse.
Em resumo, a área de marketing da Coral era burocrática. Descobri com Nathan Dowain que durante a criação da empresa foram vazados alguns comentários maldosos sobre os produtos que vieram a ser frases publicitárias das concorrentes. Tal situação despertou uma fúria descomunal em Shawn McCall, um dos donos da empresa, e fez com que pouquíssimos tivessem acesso àquelas informações.
Demorei quase o dia todo para conseguir uma autorização; eu precisava da assinatura de Albert para liberar minha passagem, entretanto, ele estava em uma das fábricas junto com Hunter Perry para vistoria mensal.
Em compensação, me vi conversando com muito mais gente que o normal. Os funcionários da área de marketing eram extremamente simpáticos e comunicativos. Algo me dizia que tinha a ver com o que eles trabalhavam, mas nada que eu possa afirmar com certeza.
Naquela sexta-feira, ao ver que eu já tinha feito tudo que me foi ordenado, senhor Carter me fez escolher entre os contratos que estavam perto do fim dos funcionários de marketing e escolher qual deles estariam no olho da rua no final daquele mês.
Foi a pior coisa que tive que fazer durante meus cinco anos na empresa. Se eu não tivesse conhecimento de quem era cada um deles e suas famílias, talvez eu teria maior capacidade de vê-los apenas como números de produção e gastos, todavia, não era bem assim.
Saber que eu estava encarregada de más notícias a pais de família me doía o coração. Se fosse o Garry Fordnelly com certeza não sentiria isso, mas...
Em contrapartida, havia Hope e sua dedicação a minha mãe. Ela comentou sobre o quão estranho era o bairro de noite, por isso pediu para que seu filho mais velho a pegasse todos os dias em seu carro. Confesso que fiquei desapontada em não ter a oportunidade de vê-la em sua moto, mas a sua segurança era muito mais importante do que uma cena incógnita e divertida para mim.
Decidi que iria comprar uma beliche para meu quarto e assim Hope podia dormir em casa se fosse muito tarde e perigoso para ela voltar. Descobri em nossas conversas que ela era viúva fazia pouco tempo e ainda sentia a morte do marido. Os dois tiveram cinco filhos e a maioria estava casado, entretanto, sempre de olho na sua mãe. De um jeito nada sutil ela perguntou se eu era solteira e, quando afirmei, ela começou a fazer propaganda de seu filho mais velho que ainda esperava sua destinada.
Ele recebeu quinze anos e de primeira não consegui evitar sentir inveja dele, mas logo depois percebi o quão idiota estava sendo. Se eu tivesse que esperar mais tempo para me livrar do relógio, não quero nem imaginar o que seria de mim e da minha mãe agora.
Hope Steel era uma mãe bastante devota aos filhos. Só do jeito que falava deles e dos netos mostrava o tanto que os amava e queria o melhor para eles. Apesar de se vestir como uma adolescente e sendo bem mais velha do que isso, Hope era bonita e tinha uma alma jovem. Era divertido conversar e sanar sua curiosidade que não parecia intrometimento e sim puro interesse pelo conforto da pessoa.
— Acho que seria bom fazer alguns exames com sua mãe, . — Comentou assim que saímos do quarto. — Ela teve febre mais de uma vez essa semana e isso é preocupante.
Franzi o cenho.
— Às vezes ela tem febre, mas o médico disse que era normal. — Respondi preocupada — Aliás, faz tempo desde a última vez que Jean comentou sobre isso comigo.
— Conversei com ela, inclusive. — ela falou — Veio aqui ver como as coisas estavam, ela é muito fofa. Jean falou que havia uns exames que ainda não chegaram e queria pedir pra que você os trouxesse.
Assenti.
— Eu vou pedir para o doutor Brandon aparecer por aqui para dá uma olhada na mamãe e nos exames. — Completei.
— Você ainda vai precisar de mim hoje? — perguntou ela — Queria sair mais cedo para encontrar minha filha mais nova.
Sorri para ela.
— Não tem problema, pode ir.
Escutei alguém bater na porta assim que Hope foi arrumar suas coisas e tirou o jaleco que usava. Quando abri a porta, fui abraçada por uma Bonnie suada e rindo.
— Tia! — ela gritou agitada. — Tô morrendo de fome.
Entretanto, atrás dela estava Jack com uma carranca nada amigável. Seu maxilar estava trincado e algo me dizia que estava prestes a explodir. A sobrancelha estava levemente arranhada e com um curativo um pouco acima.
— Você pode ficar com Bonnie por um tempo? — Seu pedido soou como uma ordem para mim.
— Claro. — respondi cautelosa. — Mas por quê?
Aquilo pareceu ser suficiente para que ele entrasse em passos pesados e fechasse a porta com força.
— A filha da puta da Charli deixou a Bonnie sozinha nos últimos dois dias. — ele ralhou socando a parede.
Dei um salto para trás assustada com sua atitude agressiva. Sussurrei para Bonnie me esperar na sala enquanto eu conversava com seu irmão. Assim que ela saiu obedientemente, cruzei os braços na defensiva.
— Aqui é casa de família, mocinho. Vá lavar essa boca.
— Meu ovo esquerdo que vou lavar a porra da boca, . — Ele gritou com a face vermelha. — Ela simplesmente passou dos limites! Como aquela vagabunda se acha no direito de sumir e deixar a filha de SETE ANOS sozinha e sem comida?
— Jack, abaixe o tom de voz e se acalme. — Respondi impassível. — Também acho muita falta de irresponsável dela, mas preciso de você com a sanidade intacta para manter uma conversa coerente. Se não educar sua fala, serei obrigada a mandá-lo embora até esfriar a cabeça.
Ele coçou as têmporas e respirou fundo. O ar saiu pesado e vi que Jack estava acabado e distante, como se não dormisse a dias. O menino de 14 anos aparentava ser cinco anos mais velho e isso me doía. Desde quando se tornou normal não ter infância e adolescência na Ala O?
Jack Woodreck encostou a testa na parede e relaxou os ombros antes de falar:
— Bonnie disse que ela deixou o almoço e avisou que voltaria em cinco minutos. — explicou — Ela não voltou depois que ela saiu para brincar e, por estar com medo, Bombom tentou vir aqui, mas ela disse que você não estava em casa. Ela passou os últimos dias trancada dentro de casa chorando e pedindo que Charli voltasse, mas aquela vadia nem deu as caras. Me diz, , como eu vou tentar ter ao menos respeito por essa mulher quando ela abandona uma criança assim? Se eu tivesse demorado o que ia acontecer com Bonnie? Já não basta o desgraçado do pai dela ter o abandonado, Bonnie tem que ficar sem a mãe também?
Afaguei seus ombros e com a expressão mais amigável que eu possuía e pisquei para ele.
— Pode deixá-la comigo o tempo que precisar. Você pode ficar aqui por um tempo também. Sei que precisa…
Ele balançou a cabeça negando.
— Não quero trazer problemas.
— Não há problema em ficar aqui em casa. A não ser que você se importe em dormir no colchão no chão. — falei em tom de brincadeira.
— Estão atrás de mim, . Não quero colocar a sua segurança e a de Bonnie no lixo.
Meu coração diminuiu ao menos duas oitavas no peito. Senti uma sensação ruim subir pela garganta. Não conseguia aceitar de jeito nenhum que Jack estava se envolvendo no crime quando eu estava disposta a dá o suporte que ele precisava para se dar bem na vida honestamente. Queria gritar para que ele me escutasse e dizer que ainda dava tempo de fugir daquele mundo, mas fico quieta. Pela intensidade do olhar que recebo, sei que Jack me entende.
— Por favor, tome cuidado. — murmuro.
Não consigo vê-lo como alguém mais velho agora. Vejo-o como o adolescente que era e aquela percepção me faz querer abrir o berreiro.
— Ei, , tem uma menininha na sala dizendo que… — Hope apareceu um pouco alheia a minha conversa. — Ah, olá. — diz para Jack simpática.
— Oi.
Steel me olha esperando alguma resposta, sua curiosidade culminando mais uma vez. Daquela vez, entretanto, não estou com nenhuma vontade de dizer qualquer coisa.
— Bonnie vai passar um tempo comigo, Hope. — Resumi e, perceptiva como era, a enfermeira compreendeu que não iria saber de mais nada.
— Bem, até amanhã, então. — ela beijou minha bochecha — Boa noite, florzinha. Danny já chegou.
Sorri com o pouco de forças que me restava tentando não ser antipática com ela, afinal, Hope não tinha culpa do que estava acontecendo.
— Boa noite, senhora Steel.
Ela me olhou feio por chamá-la de senhora e deu uma tapinha sem força no meu braço.
Quando Steel saiu do meu campo de visão, Jack me olhava com as sobrancelhas arqueadas.
— Nova enfermeira da minha mãe. — Respondi sua pergunta implícita.
— E ela aceitou trabalhar nesse fim de mundo? Que corajosa. — Murmurou ele, abismado.
— Hope é uma mulher bastante determinada e comprometida com o que faz. Não acho que localização pode afetar nada no trabalho dela.
Mas no fundo eu estava pensando nisso também durante a semana. Mesmo não sendo o lugar mais adequado para se trabalhar e tendo o currículo de Steel, me surpreendi por não vê-la lançar nenhuma olhadela atravessada ou reclamar — mesmo sendo apenas sua primeira semana. Não podia mentir sobre minha conclusão: havia escolhido muito bem. Ela era boa no que fazia e não me julgava.
Eu era tão grata a ele que às vezes tinha vontade de abraçá-lo e enchê-lo de beijos. Nunca tinha experimentado a sensação de focar no trabalho sem me preocupar com as contas ou se Jean precisava de ajuda. Era como se um peso enorme saísse das minhas costas.
Até mesmo alguns problemas que eu poderia ter para explicar sobre o dinheiro que me colocava na Ala L automaticamente e o porquê de não ter procurado uma nova moradia já haviam sido esclarecidos pelo — ou os advogados dele, não tenho certeza.
— Quando você volta? — Indaguei a Jack quando o vi se virar em direção a porta.
— Em breve. — Ele respondeu sem olhar nos meus olhos.
O abracei ignorando o cheiro de maconha que suas roupas carregavam. Um cheiro que, infelizmente, eu já estava acostumada naquela rua.
— Tome cuidado. Até logo. — Sussurrei como se estivesse mandando-o para uma guerra.
O que não passava da verdade, afinal.
Depois de dá um tchau seco para mim e Bonnie, o adolescente saiu deixando para trás o baque surdo da porta.
Foi fácil distrair Bonnie com meu celular (da empresa, devo acrescentar) enquanto cozinhava algo rápido para nós duas. Quando coloquei no prato senti meu coração doer no peito ao vê-la atacar a comida como se ela fosse escapar de suas mãos.
Era uma cena triste.
Por ser pequena e ter uma visão minimalista do mundo, Bonnie estava animada com a ideia de passar um tempo comigo. Quando perguntei se ela sentia falta da mãe a menina disse que sim, mas logo ela aparecia como antes. Me dói pensar que durante os poucos anos de vida dela o abandono era algo natural.
Deixei-a dormir no colchão que eu coloquei na sala e fui dá uma olhada em minha mãe. Depois de me certificar que tudo estava bem, anotei os trabalhos que adiei para fazer em casa naquele dia. Deitei-me no sofá duro, que tinha passado a ser minha cama nos últimos dias, e me enrolei com uma manta. Estávamos no outono e eu só conseguia sentir a mudança do tempo agora.
Antes de pregar os olhos fui checar meu celular, algo que estava se tornando habitual. Sempre havia alguma mensagem de ou eu enviava algo perguntando como ele estava.
, aconteceu algo não muito bom.”
Franzi o cenho ao ver que me mandara aquela mensagem há dez minutos atrás.
“O que foi que aconteceu?”
Quando vi que estava demorando demais para escrever comecei a ficar nervosa. Não poderia me dá ao menos umas férias dos problemas? A vida adulta é uma droga.
Após tanto escrever, meu destinado desistiu que digitar e finalmente me ligou. Pela tensão da sua voz quando eu perguntei se estava tudo bem, percebi logo que estava uma pilha de nervos.
— Saíram em uma revista algumas fotos nossas juntos. — Ele deu um suspiro cansado — A sorte é que Hope também apareceu, mas as matérias não deixaram de ser tendenciosas. Já falei com meu assessor para dar um jeito nisso, mas quero que você fique atenta. Talvez vão tentar entrar em contato contigo e tirar algumas fotos, na melhor das hipóteses.
— Tá bom. — respondi porque não sabia exatamente o que dizer sobre isso.
— Não queria te expôr, , e me desculpe por isso. Fui muito descuidado.
Sua voz era tão sofrida e culpada que não evitei abrir o sorriso com a ideia de alguém tão preocupado com meu bem estar.
— Eu não me importo com isso, . Sério, pode ficar tranquilo. — o acalmei.
— Tem certeza? — Perguntou com insegurança.
— Tenho. — Assenti com a cabeça mesmo sabendo que ele não me via.
Quase pude visualizá-lo relaxando os ombros e se arrumando em uma grande cadeira de couro em seu escritório.
OK, talvez eu tenha viajado na maionese agora.
— Então, seria pedir demais se você não falasse nada sobre nosso acordo? — Ele falou com o costumo tom despreocupado — Não quero ter que dá explicações a mídia sobre o que faço com meu dinheiro. Eles já se intrometem demais para o meu gosto.
— É claro que não vou dizer! Me surpreende você pensar que eu seria tão…?
— Ei, ei, calma. — ele me interrompeu — Sei que você é confiável. O negócio é que a gente nunca conversou sobre isso realmente. — ele coçou a garganta.
— Não tem nada nas entrelinhas do contrato sob sigilo? — alfinetei.
— Se tivesse você é esperta demais para algo assim, provavelmente teria lido. — resmungou — Caso eu quisesse que assinasse algo sem saber, eu teria escrito em alemão.
Ri, sentindo minhas bochechas corarem com o elogio.
— Você está me subestimando.
— Você está se subestimando.
O silêncio se prolongou mais do que devia. Talvez ele estivesse certo, porém eu não gostava da atual pressão que Carter e me davam; por acaso sou tão excepcional no que faço assim?
— Tenho que ir agora. Ainda há trabalho para ser feito. — disse ele me lembrando de que o celular ainda estava ligado.
— Tudo bem. — Murmurei — Boa noite, .
— Boa noite, .

O céu estava nublado naquele sábado, apesar da moça do tempo dizer que o dia não seria propenso a chover. Bonnie brincava no parquinho da Clínica com outras crianças e de longe eu a vigiava. Saímos logo depois que Hope chegou para fazer seu trabalho. Aproveitei para visitar Ivanna e nós duas estávamos observando a movimentação do local.
— Está pensativa hoje. — Comentou Ivanna.
Dei os ombros.
— Conversou com essa semana? — Perguntou tentando ser casual.
E falhando miseravelmente, diga-se de passagem.
— Sim. A gente tem conversado.
Não ia confessa que essas conversas se tornaram rotineiras. Não mesmo.
— Ele não está te seguindo ou algo parecido, não é?
— Claro que não. — lhe mandei uma olhada como se tivesse dito algo absurdo — Geralmente sou eu quem liga para ele, na verdade.
— Pensei que você não quisesse se aproximar do seu destinado. — Ivanna levantou as sobrancelhas com aquele ar astuto de sempre.
— Além dele ter sido bastante generoso comigo, ele é uma boa companhia. Não vou deixar de ter uma amizade agradável por causa de um relógio. — repliquei.
— Dou dois meses para vocês aparecerem aqui com o convite de casamento para mim.
Gargalhei achando aquela ideia absurda.
— Du-vi-do.
— Ah, criança, esses olhos já viram muita coisa. — ela disse com um toque de sabedoria raro vindo de Ivanna.
— Com certeza, coroa. — brinquei.
— Isso, zombe dos meus conselhos. Depois estarei muito feliz em dizer “eu avisei”. — resmungou.
Rindo, a abracei ignorando seu mau humor.
— Então, vamos falar de coisa boa: fiz um vestido lindo florido para você essa semana. Vai ser um pipoco na moda verão!
Franzi o cenho.
— Ivanna, a gente tá no outono. Por que diabos você fez algo para o verão? — Indaguei.
— Porque o tecido é muito mais barato nessa época, bobinha. — ela justificou como se eu fosse um Alien que não entendia nada de moda.
O que provavelmente era verdade.
— Chame a menininha e vamos lá no meu quarto. Quero ver como vai ficar!
Mais tarde, quando eu tentava pensar em como um vestido florido se tornou quase uma coleção verão feita por Ivanna e Jean invejava uma saia nova, recebi mensagem de Daisy me convidando para almoçar no shopping junto com o marido dela.
Pensei em recusar, mas Grey, curiosa como era, leu a mensagem e me lançou um olhar animado.
— Você vai para o Safira? Sempre fui louca para ir lá! Tem como trazer alguma coisinha pra mim? Pode ser um chaveiro já que até pra respirar deve ser pago. — Tagarelou ela.
— Não tem ninguém para ficar com Bonnie e não vou dá trabalho a mais para Hope. — Respondi e comecei a digitar uma desculpa.
— Eu fico com ela! — Falou ela — , você precisa sair de casa para se divertir. Que é que tem um almoço inofensivo com um casal de amigos?
— Pensei que você tinha que estudar, bonitinha. — Cerrei os olhos para ela.
— Oras, eu preciso de umas horinhas de distração também e adoro a Bonnie. Me parece a oportunidade perfeita.
Deixei os ombros caírem e quis chorar de felicidade. Eu não merecia Jean e duvidava que algum dia poderia merecer.
— Acho que você também deveria sair um pouquinho mais. Ir a festas de faculdade e tals. Coisa de jovens que estão tão perto dos 30 como eu.
Ela fez uma careta desgostosa.
, eu tenho 23 anos nas costas. As festas nessa época são cheias de calouros que acham que já estão passados. — Justificou.
— Não tem nenhum namoradinho, nem namoradinha? — Levantei a sobrancelha sugestiva.
Ela cruzou os braços.
— Estou esperando meu destinado. — Falou com a costumeira carranca que fazia quando eu citava sua vida amorosa.
— Que, por sinal, não faço a mínima ideia quando vai chegar. — Repliquei — Quando você vai me deixar ver esse relógio?
Ela escondeu o pulso no reflexo.
— Você não viu ainda porque não quis. — Ela respondeu na defensiva.
— E é? — Levantei a sobrancelha esquerda — Pensei que estava respeitando a privacidade da minha amiga.
— Desde quando você é toda cheia de argumentos, hein? Seu destinado/advogado tá afetando sua personalidade.
Olhei para ela como se de repente tivesse aparecido um chifre bem no meio de sua testa.
— Idiota.
E joguei uma das minhas saias em seu rosto. Jean se pôs a rir enquanto eu fingia que nunca tinha visto seu prazo e que não sabia que um tempo tão longo lhe entristecia.
Apesar de não gostar daquele sistema, ele afetava todo mundo, inclusive a mim. Por mais que eu acredite na bondade de , sei que a chance de ter sido ajudada por ele se eu não fosse sua destinada é mínima.
No final, ter um destinado não era tão ruim. O melhor é que não sabia que a sua ajuda era muito maior do que financeira. Se ele não tivesse criado aquele acordo em cima da hora, eu tinha dado um jeito. Eu sempre dou um jeito, todavia a sua amizade significava muito mais para mim. Quando conversarmos, mesmo sobre problemas, não parece que as coisas são tão ruins. Parece que para tudo há uma solução e que apenas ficarmos observando tudo irá se arrumar como em mágica.
Fico pensando nisso enquanto pego o quarto ônibus para chegar ao Safira Shopping Center. O lugar era bastante visitado por pessoas da Ala J para cima e por ser do outro lado da cidade, pouquíssimas pessoas mais pobres andavam aquele caminho todo para chegar lá.
Sem contar que tudo no Safira era caro e só de pensar nisso meu bolso chora. O design do estabelecimento é bonito e me perco em seus detalhes enquanto passeio.
Encontro Mark e Daisy à frente de uma enorme loja de chapéus. Arrumo meu melhor casaco já sentindo o aquecedor do shopping deixando mais confortável com o clima frio lá fora. Vejo Mark segurando uma bolsa bastante chique em seus braços fortes e ele mantém a pose durona típica enquanto Daisy não para de falar.
— ...e eu preciso desse chapéu! — Falou com os olhos brilhando de satisfação.
— Ah, precisa não. — Disse Mark a segurando sua cintura — Por quinhentos reais eu compro cinco câmeras profissionais e um filme 3 em 1 em um bazar e ainda ganho troco.
— Você esqueceu de adicionar que elas serão velhas, cheias de defeito e farão você reclamar o mês inteiro no meu ouvido! — Resmungou Daisy.
Sua expressão se iluminou em reconhecimento quando me viu de longe. De forma totalmente não discreta, minha mulher veio correndo e me abraçou fortemente.
— Que bom que você pode vir! — Ela deu pulinhos de animação fazendo seus cachos via babyliss balançarem sem parar.
Não estava preparada por seu caloroso cumprimento e quando me virei para falar com Mark estava meio tonta.
— Olá, moça. — Disse ele me abraçando de lado — Como vai a funcionária exemplo da Coral?
— Não melhor do que a Kerem Bursin antes dos tratamentos de crescimento. — Sorri quando o vi revirar os olhos com o ar divertido.
Conheci Mark Bardot dois meses antes de casar com Daisy e, ao descobrir sua personalidade, percebi que não havia pessoa melhor para ser companheiro de minha amiga. Sua estatura era bem mais baixa que a minha, mas Mark mantém seu corpo saudável e musculoso. Ele tinha a mesma dosagem de sinceridade que sua destinada, entretanto, sua honestidade pendia mais para o deboche. Ele tira sarro de mim até hoje por ter desistido do Happy Hour por causa do trabalho.
, me dê sua opinião: Esse chapéu não é a melhor coisa que você viu hoje? — Perguntou Daisy apontado por um dos acessórios mais “dinheiro jogado fora” que tinha avistado naquele dia.
— Não gostei muito não, Daisy.
Mark levantou as mãos ao céu agradecendo.
— Uma amiga sensata! Obrigada, Deus.
— Mary é muito sensata também, Mark. Não seja injusto. — Replicou Daisy com os braços cruzados.
— Tenho que concordar. — Balancei a cabeça em afirmação.
Ele cerrou os olhos para mim.
— Fala isso porque não se ofereceu para pagar o jantar dela. Não engorda de ruim, aquela desgraçada.
— Mark! — Repreendeu Daisy, começando uma “discussão” sobre falar palavras ofensivas sobre suas amigas.
Ri da dinâmica daquele casal. Com certeza eles eram os únicos que eu segurava vela com o maior prazer.
— Vamos comer logo ou não? — Perguntou ele em meio a um dos argumentos de sua esposa.
— Antes preciso passar na Lower e ver as novas coleções. — Comentou ela puxando o braço de seu marido.
— Por que eu casei com você mesmo? — Indagou Bardot enquanto era arrastado pelos corredores do shopping.
— Porque você me ama e não vive sem mim. — Cantarolou Daisy.
Bardot revirou os olhos, mas deu uma risadinha misteriosa.
— Já conheceu teu destinado? — Questionou Mark assim que acompanhei seus passos.
— Sim — retruquei evasiva.
Ele ficou olhando para mim esperando que eu falasse mais alguma coisa, porém continuei calada. Quando percebeu que tudo que eu fazia era lhe olhar com cara de paisagem fez uma careta confusa.
— Então, é isso? Nada de surtos, de declarações de amor à primeira vista e tudo mais?
Balancei a cabeça em resposta.
— Quer dizer que temos chance de esbarrar no seu destinado e rolar aquele clima tenso?
Ri e negueicom a cabeça.
— Somos amigos.
— Sério? — Daisy arregalou os olhos e entrou na conversa — Ele quer ser seu amigo?
— Não teve nenhum drama tipo “blá blá blá você pertence a mim”? — Perguntou Mark com as sobrancelhas erguidas.
Balancei a cabeça mais uma vez negando.
— Caraca, se você não quer casar com seu destinado, eu quero. — Disse Mark.
Daisy virou-se para ele rindo.
— Se casamento poligâmico for aprovado eu quero também. — Completou ela — Nunca pensei que homens rejeitados pudessem ser tão legais.
— Ele não demonstrou nenhuma segunda intenção? — Indagou Bardot.
— Na verdade, sim. — Respondi um pouco hesitante — Mas não é algo que me preocupo. Está tudo sob controle.
Eles dois se olharam automaticamente sorrindo de um jeito cúmplice que eu não gostava nem um pouco.
— Se você está dizendo… — Disse Mark tentando fingir que não pensava diferente.
— Eu só acho que não se deixa um potencial de marido rico assim tão fácil. — Comentou Daisy dando os ombros.
— Com certeza! Porque ter um marido rico é muito importante, Daisy. — Falou Mark claramente incomodado — Aliás, mostre a sua amiga como se casou com um fotógrafo que mal conseguia pagar as contas de luz, conte…
Ela rolou os olhos.
— Não vamos ter essa conversa de novo. A Lower me espera. — Encerrou o começo de uma discussão o puxando para dentro da loja de joias.
Sorri, mas não os acompanhei. Não gostava de ir a lugares como esse no shopping, pois eu sempre voltava triste por não ter nenhuma chance de comprar algo assim para mim — principalmente algo como a Lower que era uma marca voltada exclusivamente a elite.
Ou qualquer pessoa que vendesse seus órgãos vitais por coisas luxuosas.
Me direcionei até um banco parecido com os de praças para esperá-los, mas estanquei no lugar quando vi algo que definitivamente não queria ver.
Aquela sensação de ser atingida balde de água fria me dominou quando e Gia saíram juntos de uma loja qualquer de chocolate, os sorrisos apaixonados que quase me fez vomitar. Estava tão embasbacada com o que acontecia que não percebi que encarava-os sem escrúpulos ou discrição. Algumas pessoas que passavam me olhara estranho por estar parada no meio do caminho, mas a maioria ignorava com um dar de ombros.
Vi meu ex-namorado segurar com mais força a mão de sua destinada e levantar o queixo com altivez. Gia o olhou com o cenho franzido, sem entender sua repentina atitude e parecia tão confusa como eu, mas quando viu para onde ele mirava demonstrou entender.
Soltou a mão de Grey e levantou as mão como se rendesse.
— Não tenho um pingo de paciência para isso, . Chega. — Falou parecendo esgotada e deu as costas.
Ao contrário do que eu esperava que acontecesse, meu ex não a seguiu. Ele continuou me fuzilando com o olhar.
Não fazendo a mínima ideia do que acontecia, andei devagar em sua direção. Desconcertada, aproximei-me dele.
— Oi, .
Ele me olhou com desprezo fazendo meu estômago revirar.
— Oi. — Cruzou os braços — Está aqui com seu novo namorado rico?
Olhei para ele como se um besouro estivesse bem em seu nariz.
— Não faço ideia do que você está falando?
— Vai se fazer de idiota agora?
Dei um passo atrás quando o vi subir um tom de sua voz.
, estamos em público. — Murmurei — E eu não tenho nenhum namorado e, mesmo se eu tivesse, você não tem nada a ver com isso.
Ao contrário da estabilidade da minha voz e a minha face da calmaria, meu coração parecia querer sair do lugar. Estava nervosa e cada vez mais sentia que faria as partes que sofri tanto para construir do meu peito se tornar pó novamente.
— Sério, ? Eu vi você saindo do carro dele! Eu não me importo se você está namorando ou não, mas se vender como uma prostituta? — Abri a boca para responder, mas ele continuou ignorando-me — Imagina minha cara ao lembrar que Jean falou que seu destinado está pagando as coisas da tua mãe? Cara, eu nunca esperei isso de você, . Se vender por trocados?
— Você não sabe o que está dizendo, . Procure saber o que está acontecendo antes de…
— No final todo mundo tem um preço, né? Até você. Sua mãe ficaria muito decepcionada se visse o que você se tornou.
Meu sangue ferveu e eu cerrei o punho já tremendo de nervoso. A respiração saia de forma dificultosa e grande era o esforço para não perder o controle. Quem ele achava que era para dizer aquelas coisas para mim?
— Não ouse falar como se conhecesse minha mãe! — Murmurei entre dentes apontando o dedo para ele — Um dia desses veio me pedi perdão e agora vem do nada fazer uma cena na frente de todo mundo? Qual é o seu problema, garoto? Ficou maluco? Vá atrás da sua destinada que você ganha mais!
— O meu problema é que você não devia está dando a bunda para um elitista qualquer em troca de mixarias que ele rouba do trabalho do povo! — ele gritou — Não quero minha ex sendo putinha de um corrupto qualquer!
Não sei exatamente o que foi a gota d’água: se foi seus xingamentos direcionados a mim, a teoria de que eu virara um tipo de prostituta de elite ou as menções injustas que ele fez sobre , alguém que me ajudou quando mais precisei enquanto ele se divertia com a destinadazinha dele. E ainda tinha a pachorra de agir que estava falando isso pelo meu bem?
— Estou com nojo de você. Nojo! — Ralhou ele.
Eu ainda apertava os lábios tentando manter a boca fechada, mas não consegui mais. As pessoas que passavam nos olhava tentando entender o porquê da gritaria, entretanto não me permitia se sentir intimidada quanto a isso. Odiava falar palavrão; achava bastante desagradável na maior parte das vezes, mas eu era da Ala O, afinal. Nós sabíamos deixar até um jogador de boxe ou juiz de futebol realmente ofendido.
— Escuta aqui, seu filho da puta. — apontei meu dedo para seu peito — Nunca mais fale comigo assim, seu donzelo do caralho. Você não sabe metade da história e não tem o direito de dizer qualquer porra que está acontecendo comigo e com minha mãe. Vá se fuder! — Gritei a última frase com ênfase e pude perceber que cuspi saiu para todos os lados, mas continuei a falar — Pega esse teu nojo, enfia no cu e desce rasgando, arrombado!
Grey me arregalou os olhos e parecia ter ficado duas vezes mais branco do que já era. Era óbvio que, assim como eu, não esperava que eu rebateria de forma tão grosseira na frente de tanta gente. Eu ainda tentava estabilizar minha respiração e não avançar as mãos no pescoço dele quando senti alguém me puxar para trás.
— Acho que o show foi bastante emocionante por hoje, não acha? — Ouvi a voz de Mark e percebi que era ele que me segurava.
Apenas vi que estava prestes a fazer ao observá-lo segurar meus pulsos e me afastar cada vez mais para trás enquanto me debatia em seus braços pedindo para que me soltasse.
— É melhor a gente ir por ali. — Disse Daisy nervosa, aparecendo bem na minha frente. — Acho que despitamos o segurança.
Antes que eu percebesse estávamos nós três no banheiro feminino enquanto Daisy parecia estar prestes a ter um infarto. Todas as mulheres que estavam perambulando pelo sanitário virou o rosto para Mark com susto e indignação. A grande maioria, porém, estava em choque ao constatar que ele era um homem.
— Que foi? Uma trans não pode entrar aqui também? — Ele disse sério e de forma convincente.
Abri um pequeno sorriso achando a cena muito engraçada, mas antes da risada sair senti meus olhos encherem de lágrimas e, em vez de sorrir, como era meu objetivo, me vi chorando e tremendo nos braços dos Bardot.
A raiva estava começando a passar e logo sentir a verdadeira consequência daquela discussão totalmente sem sentido. havia me machucado outra vez após ter pedido desculpa. Não sei se a enorme decepção se vinha ao fato dele ter sido meu primeiro amor ou porque Grey era amigo de longa data, mas doía demais. Ardia como jogar sal em cima de uma ferida que tinha começado a cicatrizar.
— OK, não estou gostando de ver todos esses olhos vidrados em nós. — Comentou Daisy fazendo uma careta para uma mulher inconveniente que nos olhava sem escrúpulos.
Vendo que o banheiro para deficientes físicos estava vazio, Mark teve a brilhante ideia de entrarmos para conversar.
— Não. De jeito nenhum, Mark! — Sussurrou minha amiga — Isso não é hora para suas maluquices! Nem era pra você tá aqui para início de conversa.
Entretanto, demorou apenas dois minutos para estarmos todos os três naquele cubículo. Sentei-me na bacia tampada enquanto tentava me acalmar. Graças a Deus era mais espaçoso do que eu pensava e podia respirar livremente.
— Primeiro de tudo: quem era o babaca? — Perguntou Daisy com os braços cruzados.
— Meu ex. — Murmurei com a voz embargada.
— Por que a briga começou? Só peguei a parte do final. — indagou Mark preocupado.
— Honestamente, não sei. — Respondi — Mas tenho uma hipótese: ele me viu com meu destinado e deve tá com ciúmes.
Comecei a chorar mais uma vez me sentindo miserável. Odiava fazer eles me virem assim, mas não podia me controlar. Quem era aquele homem e o que fez com meu primeiro amor? O que aconteceu com ? Por que eu não sabia que ele poderia se tornar tão babaca?
, ele não tem nenhum direito de te tratar assim, muito menos na frente de todo mundo! — Exclamou Daisy indignada — Só não dei um soco naquele filho da puta porque o segurança percebeu a agitação.
— Eu não dei um soco porque ele dá dois de mim. — Comentou o marido dela fazendo referência a sua baixa estatura.
— Eu só… — Suspirei me recompondo. — Quero ir pra casa. Perdi a fome.
Os Bardot se entreolharam em uma conversa muda e assentiram de repente.
— Damos uma passada em um fast-food para você não voltar pra o lugar esquecido por Deus de barriga vazia. — Sugeriu Daisy e quase abracei ela grata pelo que estava fazendo.
Daisy odiava fast-food com todas as forças, mas ela me levaria até lá para que me sentisse só.
Mark também percebera isso e vi como seus olhos brilharam em direção à sua esposa alheia a demonstração de afeto repentina.
— Podemos esperar um pouco, não quero sair daqui tão desequilibrada. — Peço.
— Claro. — Responde Daisy afagando meu ombro — Se quiser conversar…
Assenti calada e fechei os olhos tentando esvaziar a minha mente e agradeci a Deus por não ter nenhum cheiro esquisito naquele banheiro.
— Já que estamos todos aqui, um menáge seria interessante, hein? — Sugeriu Mark como de quem não quer nada e recebeu um chute na canela de sua esposa.
Bardot caiu de joelhos no chão e soltou um palavrão de dor.
— Estava com vontade de fazer isso desde que entramos nesse banheiro. — Resmungou Daisy e arrumou os cachos que saíram do lugar, mostrando orgulho do que fez.
Eu soltei uma gargalhada entendendo o porquê de apesar de não compartilha das mesmas opiniões dela, ainda a adorava — e eu amava o Mark ainda mais por despertar o melhor lado dela.

Foi vendo os carros passarem pela janela que percebi que voltar para casa naquele momento era um erro. Ainda precisava de um tempo para colocar minha cabeça no lugar e lidar com Bonnie, Hope, Jean ou até mesmo com minha mãe não me ajudaria em nada; principalmente das três primeiras que irão me encher de perguntas por causa dos meus olhos inchados.
Depois de perguntar trocentas vezes se eu estava bem, Mark e Daisy se viram sem motivos para não me deixarem sozinha em um dos parques pouco movimentados da cidade. Eu sabia que pela localização havia praticamente nenhuma pessoa da minha Ala naquela redondeza, mas insisti em ficar por lá. Ao menos a chance de encontrar um conhecido era muito mais difícil.
Me arrependia de ter escolhido alguém tão mesquinho como namorado há três meses atrás. Se eu soubesse que quebraria meu coração tantas vezes nunca tinha dado espaço para que ele entrasse na minha vida, bagunçou tudo e ainda se visse como proprietário da mesma. Um dia eu o perdoaria — claro, não era de guardar mágoas por anos, mas não queria mais ser sua amiga ou ter qualquer tipo de ligação com ele.
Nunca mais.
Cruzei os braços quando entrei em uma trilha em que um par de mulheres sairam em caminhada e uma ventania me atingiu. Me senti feliz por elas não prestarem muita atenção em mim e me fez acreditar que se fazer de invisível naquele momento era um sucesso.
Franzi o cenho ao ver que trilha ficava cada vez mais vazia e a possibilidade de ser perigoso me atingiu. Comecei a ficar curiosa quando uma dupla de seguranças de terno preto estavam na entrada para uma lagoa. De longe, perto da água, havia um homem loiro vestido calça moletom e camisa térmica para malhar. Quando ele virou de perfil para beber água de sua garrafa, balanço a cabeça cética. Como esse tipo de coisa acontecia?
O que fazia ali?
Embora os olhares dos seguranças queimasse minhas costas, andei em direção ao meu destinado que observava a lagoa pacientemente. Em uma das suas mãos havia algumas pedras que ele jogava em direção a água.
— Atrapalho? — Falei tirando-o de sua bolha.
deu um pulo de susto e colocou a mão no peito quando me viu.
— Quase me matou de susto, ! — Ele disse deixando um sorriso desenhar-se em seus lábios — Anda me seguindo?
— Juro que não! — Estendi minhas mãos para o alto como se rendesse e me esforçei para lhe dá um bom sorriso.
Demorou dois segundos para ele escanear meu rosto com as íris negras e perceber que algo estava errado.
— Você parece abatida.
— E estou.
Deixei meus ombros caírem, pois não sentia nenhuma vontade de parecer forte ou esconder aquilo de alguém que eu confiava.
— Posso perguntar o que aconteceu ou é cedo demais para isso? — Indagou ele.
— Acho melhor nós sentarmos. — Respondi sentando na grama e abraçando minhas pernas mirando a água.
A lagoa continha alguns patos que nadavam livremente. A grama estava fria em minhas mãos, uma sensação confortadora. sentou do meu lado descansando os braços em cima dos joelhos.
O silêncio que nos preenche parecia necessário, então, não adiantei a conversa. Posso ouvir o barulho da árvores balançando, das patas dos patos batendo na água e alguns passarinhos cantarolando. Consigo escutar o pequeno som da respiração do meu destinado que estava tão distante quanto eu.
— Meu namorado terminou comigo vai fazer um mês, eu acho. — Comecei depois de um tempo. — Ele me trocou pela destinada dele. O grande problema é que ele continua indo e voltando.
Dei uma risada sem humor. Olhei para esperando vê-lo feliz com aquela revelação — afinal, o caminho estava livre para ele — mas seu rosto ainda estava neutro e longe, porém, por algum motivo, o sentia muito mais perto de mim do que antes.
— Eu entendo.
— Ele me humilhou na frente de todo mundo. — Desabafei — Me sinto um lixo.
— OK, agora não estou entendendo. — Falou alarmado —O que ele fez?
Suspirei e narrei a discussão com o máximo de cuidado para não chorar. Contei tudo: os xingamentos, as teorias que ele dissera, a atitude de possessão dele. me escutou sem me interromper e fiquei grata por isso. Eu só precisava colocar tudo para fora.
, — Ele disse meu nome e pude sentir conforto por meio disso — você não é nada do que ele disse. Você é uma das mulheres mais fortes que conheço, que mais se dedica a sua mãe e nunca faria algo tão desesperador como isso. E mesmo se fizesse não é da conta dele! Não há nada de errado com você.
Assenti, embora não acreditava cem por cento naquilo no momento. Uma hora ia sarar, mas a ferida era muito recente para ser curada tão rápido. O que me aliviava era que me sentia mais leve. Poderia muito bem deitar na grama e tirar um cochilo para que minha mente parasse de pensar tanto.
— Eu sei mais ou menos como você sente.
Minha mente acendeu em alerta ao ouvir suas palavras. Era como se fosse a primeira vez que escutava o tenor de sua voz na minha vida. A ideia que ele tenha passado a mesma coisa que eu naquele ponto não tinha lógica para mim.
Ou talvez não acreditasse que fosse ao menos possível.
— Também fui trocado por um destinado.
Fiquei o observando esperando que desmentisse e fizesse uma piadinha, entretanto, segundos passaram e tudo que ficou entre nós foi o barulho das árvores. não olhava em meus olhos; ele via algo muito além da lagoa. Provavelmente, ele via lembranças antes esquecidas.
— Ela era a minha esposa.
Arregalo os olhos ao saber que já fora casado. Ele era jovem demais para ser casado! Contudo, a grande verdade é que as Alas mais acima recebiam seus prazos mais cedo no geral, consequentemente casavam na mesma proporção. Não era regra, entretanto.
Então, percebo que não conheço quase nada sobre o suposto amor da minha vida.
Vejo passar as mãos no rosto e me compadeço com sua dor. Ele deveria amá-la muito e automaticamente não gosto dela por quebrar seu coração. Quero abraçá-lo, mas ao mesmo tempo não tenho coragem. Meu peito dói com a ideia de ter um divórcio que não era de seu desejo e me compadeço por seus sentimentos. Como ele conseguiu passar por isso?
— Ela nem me deu chance de tentar, sabe? Apenas chegou de uma viagem de “trabalho” com o seu destinado.
Hesitantemente seguro seu braço e o afago dando meu apoio. vira-se para me olhar e o vejo quase dez anos mais velho do que ele é. Aparenta ser mais experiente, casado, porém sábio. O cabelo balançando ao vento e alguns pêlos no rosto evidenciando que não tinha se barbeado ajudavam àquela perspectiva.
— Só percebi que tinha a perdido de vez no dia do seu casamento, quando eu vi isso com meus próprios olhos. Sabe o que aprendi naquela época, ?
Balanço a cabeça em negação, pois não consigo fazer mais nada além de escutar.
— Que não devemos esperar das pessoas mais do que ela tem para nos oferecer, nem pôr todas nossas fichas nelas. Nunca se esqueça disso. — não me toca, mas o carinho que seu olhar me trás é quase como uma carícia. — Decepções existem, obviamente isso acontece com todo mundo, mas isso pode ser superado. Sendo de amigos ou ex namorados babacas, ou até de gente que admiramos no ramo profissional. Carter falou que você tem muito potencial e acredito nele. Não deixe isso tirar o seu foco em algo que precisa de sua atenção. Foda-se seu ex namorado.
— Foda se meu ex namorado. — Repeti sua afirmação, mas o palavrão saiu tão estranho de minha garganta quanto a dele.
Era estranho ver alguém tão formal como falando palavras de baixo calão e acabamos rindo daquilo. Percebi que fiz uma ligação muito mais sólida com . Ele não era apenas mais alguém bondoso que ajudou a mim e minha mãe; conseguia vê-lo mais humano.
E eu queria muito conhecer cada vez mais a sua história.
— Obrigada por me escutar e… Por tudo. Você tem sido um anjo para mim. Não sei — Agradeci pela milésima vez a ele.
— Se precisar, estou aqui. — Ele deu um daqueles sorrisos de derreter corações — Agora pare de agradecer por fazer mais do que minha obrigação como seu amigo.
— Sim, Vossa Excelência. — Respondi e meu peito encheu com um calor bom ao ouvir sua risada.
Voltamos nossos olhos para lagoa e eu tentei esvaziar minha mente mais uma vez, todavia, lembrei-me de algo que não podia esperar para ser esclarecido.
— Você não ficou chateado porque eu falei do nosso acordo com Jean, não foi?
Ele negou com a cabeça e sorriu.
— Vamos esquecer esse assunto. Sei que não fez por mal. — Encerrou o assunto. — Quer caminhar um pouco, der Liebling?
se levantou e esticou a mão para mim.
— Sim, der alguma coisa. — Respondi e segurei sua mão enquanto ele ria.
— Vou começar a ensinar-lhe alemão.
— Ah. — Falei sem animação — Mal posso esperar!
Rimos juntos e voltamos a falar de frivolidades como costumava ser nossas conversas. Foi bom estar ali com e pela primeira vez simplesmente adorei por ter “esbarrado” com ele.
É, destino, parece que vou ter que tirar o chapéu para você dessa vez.

Voltar para casa se tornou muito mais fácil. Mesmo ainda me sentindo um pouco mal, havia me distraído o suficiente enquanto tentava me explicar algumas palavras em alemão.
Não que eu sinta vontade de aprender a língua, mas é interessante vê-lo tentando me ensinar.
Perto do jantar, no momento em que Bonnie contava como fora seu dia com Jean, recebi um email do meu chefe.
, preciso que organize para que mais duas pessoas acompanhe para a conferência no final de semana. Você e outro funcionário estão cotados. Amanhã falo mais sobre isso.” - A. Carter.
Fiquei surpresa com a mensagem — nunca em minha vida tinha sido convocada para uma viagem a trabalho como essa e lá estava uma ótima oportunidade para crescer profissionalmente.
Rapidamente lembrei das palavras de e decidi que ele estava certo. Nunca desisti durante os últimos dez anos e não seria um macho com orgulho ferido que me venceria.

Capítulo 11

“Se você vai me decepcionar, me decepcione com cuidado. Não finja que você não me quer. Nosso amor não são águas passadas.” - Water Under the Bridge, Adele.

Estava fazendo um copo de leite na cozinha quando o barulho da porta atiçou minha curiosidade. Eram quase cinco horas da manhã quando encarei Jack, com duas mochilas cheias, sentado nos degraus da minha casa.
— Errou de casa? — Perguntei a ele chamando sua atenção.
Jack coçou os olhos e bocejou.
— Bonnie, tá acordada?
Balancei a cabeça negando.
— Provavelmente somos os únicos seres humanos acordados a essa hora na cidade.
Olhei no final da rua e pude ver o carro do mais velho dos Steel’s dobrando a esquina pontualmente.
— E, claro, a Hope também está acordada. Quer entrar? — Acrescentei.
Ele se levantou e limpou a poeira das calças jeans. Olhei para cima, admirada com sua altura. Eu não era baixinha — tinha meus bons um metro e setenta, entretanto ainda sentia a famigerada impressão que vivia em uma terra de gigantes.
— Menino, quando foi que você cresceu tanto, hein?
Ele riu e entrou limpando o sapato no tapete escrito “welcome” na porta. Assim que Hope chegou na frente de casa e nos cumprimentou, Jack explicou sua visita: ele estava levando sua irmã para ficar com um tio em outra cidade. Não pude deixar de ficar triste com a notícia, mas eu sabia que não tinha condições de cuidar de uma criança que necessita da minha atenção cem por cento, apesar de me prontificar para ajudar Jack.
Fomos juntos ao ponto de ônibus e tentei não pensar que estava atrasada. Abracei-os e me segurei para não chorar. Odeio despedidas.
— A gente vai se ver logo, . Não se preocupe. — Garantiu Jack com um ar risonho.
— É, tia , a gente vai se ver logo. — Repetiu Bonnie enquanto eu beijava sua testa.
— Cuidado, mocinha. Obedeça seu tio e qualquer coisa deixei meu número anotado dentro da sua bolsa. Você sabe o que fazer.
Bonnie assentiu. A menina parecia animada com a perspectiva de encontrar o tio e eu não pude deixar de sofrer por antecipação quando entrei no primeiro ônibus e acenei para eles. Na primeira metade do caminho eu estava pensando em como os dois iam se virar e como Charli iria reagir ao ter ao chegar e ter sua casa vazia — se ela voltasse. Ainda não entendia como seu senso de responsabilidade não foi suficiente para fazê-la ficar ou simplesmente não deixar sua filha de sete anos sozinha.
Na outra metade do caminho, entretanto, me vi preocupada com o horário que chegaria na empresa. Por algum milagre celestial cheguei a tempo. Olhei a fachada colorida da Coral torcendo pra que Carter não tivesse tido um surto e acordado cedo naquela segunda-feira. Ao me aproximar da recepção, a primeira coisa que Daisy perguntou foi como eu estava.
— Estou bem sim. — Respondi com um sorriso fraco — Obrigada por perguntar.
— O que aconteceu? — Indagou Mary alheia a nossa conversa.
— Depois te conto. — disse Daisy piscando o olho. — Tenha um bom dia, flor.
Dez minutos após da minha chegada, o meu chefe apareceu com seu terno sob medida e com a cara de quem tinha sido arrancado da cama à força. Albert pediu — na verdade ordenou — que eu enviasse sua agenda o mais rápido possível e as informações para a viagem programada para o próximo fim de semana.
A manhã foi cheia, embora não fiz nada de diferente do que faço nos últimos cinco anos. Liguei para o hotel e confirmei o voo para ter certeza que tudo estava certo, mandei e enviei emails programados para o dia. Ainda esperava as informações que meu chefe prometera, mas eu sabia que ficar em seu caminho em seus dias de mau humor era suicídio.
— Bom dia, Tia Blackwell. Vim ver o papai.
Levantei o olhar do computador e sorri ao ver a pequena Layla de dez anos junto com sua babá, a qual sempre me perguntei o porquê de sua extrema magreza e o fato de ser muito introspectiva. Layla era a cara da Carol Carter: loira, olhos claros e nariz arrebitado, porém as semelhanças paravam por aí. A menina desde bebê era bastante quieta, tinha uma forma calculista de olhar para os lugares e sempre teve os cabelos bagunçados. Coisa de Albert, com certeza.
— Sim, meu amor. — Sorri para ela — Vou chamá-lo rapidinho.
Liguei para meu chefe e prendi o olhar no relógio digital do computador; era hora do almoço e a agenda de Carter dizia que ele buscaria sua primogênita na escola e a levaria para almoçar.
E ele, estranhamente, estava atrasado.
— Lhe falei para me esperar na escola, Layla. — Foi a primeira coisa que ele disse ao vê-la — Eu já estava saindo…
— A menina insistiu, me de-esculpe, senhor. — adiantou-se a babá nervosa.
Carter balançou a mão em desdém.
— A gente esperou por meia hora, papai. Tenha piedade. — Argumentou a menina emburrada e pude ver uma pequena adulta nela.
— Vai andando na frente, vai. — Mandou a empurrando delicadamente para a porta e virou-se para mim — Entre em contato com Andrew Grimmes e esteja junto com ele às 14 na sala de Daniel. Não se atrase de jeito nenhum.
— Sim, senhor. — Repliquei sem conseguir conter a animação.

Andrew se aproximou de mim durante o almoço quando estava escutando atentamente as meninas comentarem uma cena de The Young and the Restless, a novela que elas costumavam acompanhar. Eu também queria assistir, mas por causa da distância de casa ao trabalho nunca consegui pegar mais do que dez minutos no final do capítulo. Embora preferisse assistir seriados antigos — aqueles que acompanhavam risadas e reações do público — eu gostava daquele tipo de drama.
— E aí, ?
Apesar de provavelmente ter ensaiado uma entrada relaxada e natural, aquela frase soou estranho demais para alguém antipático como Grimmes. Seu quase dois metros de altura e jeito desengonçado era chamativo o bastante para interromper a conversa que tínhamos e todas as meninas se viraram para ele sincronizadamente.
Aterrorizante até pra mim, devo dizer.
— Olá. — Respondi com um sorriso.
Andrew pôs a mão no bolso enquanto fitava seu sapato social como se fosse a coisa mais interessante do universo.
— Posso conversar com você? Sozinhos, de preferência.
Assenti com a cabeça e pedi licença as garotas alheias ao que acontecia. Saímos do refeitório e fomos direto à sua sala.
— Hm, o que você quer falar comigo? — Indaguei curiosa assim que entrei no elevador.
Grimmes suspirou e voltou a descer o olhar irritantemente aos pés enormes que ele tinha.
— Daniel quer que eu apresente a coleção de mochilas com a nova tecnologia que minha equipe criou, mas odeio falar em público. — ele voltou a pôr as duas mãos nos bolsos — Queria que você me ajudasse, já que vai estar lá e você fala com todo mundo…

— Primeira coisa: olhe nos olhos da pessoa quando conversar com alguém. — Adverti — Além de ser irritante pode fazer com que o público tenha má interpretações sobre o que você acha sobre eles.
Ele arrumou a coluna rapidamente e direcionou o olhar para mim. Ri, pois ele aparentava ser um animal encurralado. Afaguei seu ombro ao vê-lo tenso e ele soltou um suspiro quando o elevador abriu as portas.
— Você vai sair-se bem, senhor Grimmes. — Falei empurrando-o para fazê-lo andar.
Havia alguns grupos isolados de pessoas conversando no andar 5 que nos miravam interessados em saber o porquê da secretária de um dos chefões da empresa estava conversando com alguém importante do departamento de TI durante o horário do almoço. Eu já havia sido alvo de fofoca na Coral, mas nada que não consiga ignorar. Infelizmente esse hábito era antigo e dificílimo de ser extinto em qualquer lugar, portanto me incomodava um pouco.
— Vou precisar da ajuda da sua assistente também. — Acrescentei ao entrarmos em sua sala — Sheila vai demorar para chegar? Aliás, como está o bebê dela? Faz tempo que…
— Não tenho paciência para procrastinação, Blackwell. — Replicou mal humorado sentando-se na sua cadeira.
— Pois vai precisar que ter se quiser minha ajuda. — Cruzei os braços — Outra coisa que você deve ter em mente é que as perguntas do público costumam vir cheios de enrolação. Se você for impaciente e respondê-los com ignorância, Daniel irá comer seu fígado no jantar.
Todos os nossos diretores executivos eram conhecidos por duas coisas: eram unidos e passivos-agressivos. Daniel Jones não era diferente disso. Muita gente ainda se perguntava se ter cinco pessoas dividindo o maior cargo de uma empresa era uma boa ideia, principalmente sendo elas cães de caça.
Bem, estava funcionando a quase quinze anos e Coral tinha entrado na lista das maiores multinacionais nesse percurso.
— Como é que você sabe tanta coisa sobre isso sendo uma simples secretária? — Indagou Grimmes com a sobrancelha arqueada.
— Não precisa ser um gênio para saber que deve se olhar nos olhos para as pessoas levarem a sério o que você fala. — Dei os ombros — Além do mais nunca tive problemas em falar em público e sou observadora.
— Verdade. Você acaba aprendendo mais do que muito estudante de faculdade porque você vive isso todos os dias. — Comentou afirmando com a cabeça.
Depois de uma longa conversa em que eu puxava constantemente a orelha de Andrew e ele reclamava das “frescuras que o público quer” — palavras dele — voltei para meu trabalho em facilitar a vida do senhor Carter.
Faltando dez minutos para duas horas da tarde, estava eu do lado de fora do escritório Daniel Jones. Não demorou muito para que Faye, a secretária dele, liberar nossa entrada e não me sinto nem um pouco surpresa quando vejo Albert sentado relaxadamente conversando com senhor Jones.
— Boa tarde. — Os cumprimento e cutuco Andrew para que ele faça o mesmo.
Depois de uma conversa de enrolação típica perguntando de como nós estávamos, senhor Jones explicou que iríamos viajar para o México na sexta de tarde e que o evento seria no sábado o dia todo. Logo, Daniel voltou-se para Andrew e dissertou o que queria dele: convença velhos investidores e conquiste novos. A Coral tinha perdido um investidor muito valioso e não podia repetir esse erro.
Acredito que isso não ajudou muito no nervosismo de Grimmes.
E foi aí que eu entrei: Daniel disse que Albert me indicou para o cargo de prepará-lo para falar em público, mas me tranquilizou dizendo que tudo o que Andrew ia precisar fazer era responder perguntas, pois ele apresentaria o produto.
Carter acrescentou que queria que eu comparasse a mercadoria da concorrência com a nossa e que preparasse um relatório com semelhanças e ideias para inovação.
— Seu trabalho essa semana é estudar cada produto da Coral para poder fazer isso. — Concluiu ele me entregando uma pasta grossa.
Percebi os pares de olhos se direcionarem a mim esperando uma reação negativa. Os papéis eram pesados e de acordo com minhas contas havia mais do que trezentos modelos de produto no meu colo.
Sorri para ele.
— Considere feito.
Albert olhou para seu amigo com um ar de altivez enquanto Daniel apenas levantou as sobrancelhas impressionado.
Só quando conferi calmamente o número de mercadoria catalogada que percebi que eu estava ferrada.
Trezentos e quarenta e cinco mais cinquenta produtos que saíram de linha ou chegaram nas lojas danificados.
Alguém, por favor, me mata.
Comecei organizando-os por preço e número de vendas. Coloquei vários post-its e os recataloguei do meu jeito, fazendo com que eu desse mais atenção aos mais importantes.
Estava tão imersa no trabalho que apenas percebi que estava tarde quando Carter saiu da porta.
— Não fique até tarde trabalhando. — Advertiu ele com um sorriso raro em seu rosto.
E foi assim que quase perdi o ônibus para voltar para casa.

Quando escureceu e Hope já tinha ido embora, estive a face de uma mulher normal que leva pela primeira vez trabalho para fazer em casa.
Vestida com uma blusa folgada, leggings e meias supostamente novas, sentei no meio da pequena sala. Os papéis da pasta ficavam no meio enquanto o pc com os produtos disponíveis online estavam abertos pela internet móvel — graças a Deus a empresa disponibilizava, a web oferecida pelo governo parecia que era discada de tão ruim!
E, claro, meu telefone estava no viva-voz com Thomas do outro lado da linha.
— Seu tio é um monstro. — Reclamei.
Thomas riu como ele fazia sempre que tocávamos no assunto trabalho.
— Oras, não seja bunda mole. Eu faria isso em dois tempos.
Olhei para o aparelho indignada.
— Venha fazer pra mim então, Vossa Excelência.
— Eu sou pago para ser justo com as pessoas e fazer um trabalho que não é meu dever e não receber por isso me parece algo desonesto. — Replicou ele.
— Odeio quando você advoga pra cima de mim. — murmurei. — Principalmente quando está certo.
Ele riu mais uma vez.
— Se Carter lhe deu esse trabalho é porque acha que você é competente. — Argumentou ele — Aliás, eu tenho uma ideia fabulosa para você usar.
— Sou toda ouvidos.
— Que tal uma caneta que brilha no escuro?
Gargalhei alto como se tivesse ouvido a melhor piada do ano.
— O que tem de tão engraçado nisso? — Perguntou confuso.
— Além de ser um produto inútil, a Coral já faz uma dessas. — Respondi pegando a folha em que as informações da caneta brilhosa existia.
— Bem, está aí o motivo de eu ser o cara que dá o dinheiro e não as ideias. — Replicou Thomas e quase pude ver suas bochechas corando.
Sinto uma tristeza momentânea quando desejei estar perto para vê-lo envergonhado.
Queria que você estivesse aqui, pensei em dizer.
Entretanto fico calada, pois sei que poderia soar mais do que verdadeiramente era.
Ficamos em silêncio e procuro um assunto alheio para fazer com que ele não desligasse e eu pudesse ouvi-lo um pouco mais.
— Deveríamos sair esse final de semana. — Ele sugeriu.
Abri a boca pronta para aceitar, mas rapidamente me lembro da viagem programada.
— Não vai dar, tenho uma viagem a trabalho. — Respondi — Esqueci totalmente de dizer que vamos ao México.
— Ah, então deixa pra outro dia. — Ele soa bastante decepcionado e coça a garganta para mudar de assunto — Já conheceu o México antes?
— Não, e também não acho que terei tempo para aproveitar nada, nem conhecer lugares. — Comentei e soltei um suspiro. — Vai ser legal, apesar de tudo. Acredito que Andrew vai gostar também.
— Andrew? Quem é Andrew?
— O funcionário da empresa que vai conosco. Por quê?
— Nada, só fiquei curioso. — Disse simplesmente.
Franzi o cenho quando lembrei de uma pergunta que rodeava minha cabeça nos últimos dias.
— Você disse que foi criado com a avó na Alemanha, certo?
— Sim. — Ele afirmou.
— Então por que você não tem sotaque?
Thomas faz uma pausa.
— Você é a primeira pessoa que me pergunta isso, sabia? Já fui sendo fluente na nossa língua, então, alemão é a minha segunda. — Explicou ele.
— Ah, entendi. Mas qual das duas você prefere?
— Como tive mais contato com o alemão, é mais fácil pra mim. — Eu concluiu.
— Hm… Thomas?
— Sim?
— Está livre no próximo final semana?
— Sim, , sim.
Meu estômago embrulhou com o tenor forte e manso vindo de Hoyer. E foram suas palavras que rodeavam minha cabeça antes que eu caísse no sono naquela noite.

Os dias que se seguiram passaram rápido. Minha vida caiu em uma rotina tranquila em que tudo que eu fazia era trabalhar e bater um papo com minhas amigas, quando eu me dava um intervalo para relaxar. Apesar de ter encontrado Jean diversas vezes naquela semana, não esbarrei em Caio, graças a Deus. Minha amiga deu a entender que ele e a destinada estavam brigados, mas eu não poderia ligar menos. Depois da cena de domingo que Grey havia feito, não queria vê-lo ou mesmo saber de sua vida. Embora aquilo tenha acontecido, decidi não contar nada para Jean. Isso podia facilmente abalar a nossa amizade e a relação que tem com o irmão e eu não queria lidar com isso. Não naquele momento.
Na quinta-feira a tarde, quando faltava menos de trinta por cento da pasta para ser analisada, eu tive uma ideia. Já havia visto um padrão: os produtos que mais vendiam eram os que despertavam o consumismo das crianças. Veja bem: elas não queriam um lápis leve e sim um que tenha a imagem da Elsa de Frozen.
Quando a estratégia de venda me veio a cabeça, comecei a escrever como louca. Meu papel de rascunhos estavam todos rabiscados e cheio de notas falando sobre contratos, apoios passados e acordos antigos da empresa. Havia bastantes parcerias para edições limitadas que poderiam se tornar em algo mais sólido. Lembrei vagamente de alguns comentários que li na semana passada no marketing e sabia que estava indo no caminho certo.
A melhor coisa, contudo, era a sensação de gostar de fazer aquilo.

— Atrapalho?
Levanto a cabeça do meu celular rapidamente no susto. Encontro Thomas com seu nariz arrebitado já conhecido por mim e o terno azul marinho sob medida. Seu cabelo parecia um pouco maior, mas estava bem contido pelo gel com seu penteado usual.
— Não, não. — Digo rapidamente e escondendo meu celular da sua vista.
Só eu mesma para trabalhar assiduamente o dia todo e nos únicos minutos em que dou uma pausa para entrar no site de perguntas, ele aparece!
Hoyer levanta a sobrancelha para mim.
— O que está escondendo?
— Nada. — Falo empurrando o aparelho para perto da pasta aberta fingindo não dar importância. — Coisa do trabalho.
— Posso ver?
Olho para ele com uma careta.
— Você não é meu chefe.
Ele sorri devagar de um jeito que parecia saber de todas as coisas.
— Na verdade eu sou sim. — Replicou, mas quando abriu a boca para defender seu ponto, eu o interrompi.
— Acredito que não irá o interessar. — Falei e abri o navegador do meu pc, fingindo fazer algo importante. — Tem alguma reunião marcada com senhor Carter?
— Sim, com ele, Shawn, Hunter, Daniel e Cassandra e os outros acionistas. — Afirmou — Aliás, eu acabei de tê-la e já estou de saída, mas pensei em dar um oi.
Aquilo me desarmou e eu deixei meu ombros caírem.
— Isso é muito gentil da sua…
E nessa fração de segundo Thomas esticou o braço e pegou meu celular. Rapidamente estiquei-me para tomá-lo de sua mão, mas não fui rápida o bastante.
— Hm, qual será a senha? — Ele se perguntou se divertindo às minhas custas. Desesperada alonguei-me para alcançá-lo — Opa! Parece que alguém não tem senha.
Por que eu tinha que ser aquele tipo raro de pessoa que não tem senha no celular? Por quê?
— Me devolve! Isso é invasão de privacidade, sabia? — Reclamei quase pulando em cima de suas costas, mas minha mesa atrapalhava.
— Não sabia que você gostava de coisas de adolescentes, , mas devo confessar que já entrei em um desses. — Ele comentou rindo.
Hoyer esticou o braço para cima para que eu não o alcança-se e mexia rapidamente os dedos lendo as perguntas que apareciam.
— Qual desses gatos você casaria? — Leu ele e soltou uma gargalhada — Esses meninos não devem ter mais que dezoito anos, pelo amor de Deus!
Com o rosto vermelho de vergonha, usei minha cabeça para me vingar. Quando Thomas deu as costas para mim vidrado na tentativa de escapar da minhas mãos, vi seu celular quase cair do bolso traseiro e sem dificuldades me estico sobre a mesa e agarro seu iPhone despretensiosamente.
— Hm, qual será a senha? — Repito sua frase maliciosamente — Alemanha?
Thomas virou-se em minha direção alarmado. Quando comecei a digitar o nome, o vi estica-se para pegar seu aparelho, mas eu empurrei a cadeira de rodinhas contra a parede e a mesa o impediu de se alongar mais.
— Você é tão previsível. — Comentei assim que desbloqueei a tela ao colocar “Berlim”.
— Ok, , eu devolvo seu celular. — Ele disse sério estendendo meu aparelho para que eu o pegasse.
Sorri travessa.
— Agora que euzinha estava me divertindo? — Falei deslizando o dedo pela tela. Soltei uma gargalhada e dei uns pulinhos aos ver que ele também tinha o mesmo aplicativo de perguntas que eu. — Veja só quem é o hipócrita. Como seria o seu primeiro encontro perfeito? — Li a frase com um sentimento de triunfo.
— Me dá isso aqui. — Ele disse com uma carranca contornando a mesa, mas eu corri cobrindo o celular com as duas mãos e escondendo debaixo de minha blusa estampada.
— Tenho direito a retaliação. — Reclamei quando Hoyer me alcançou.
Como o meu andar não era tão grande e sim bastante lento, não demorou para que Thomas me alcançasse. Fiquei de costas para ele protegendo o iPhone como se fosse uma bola de futebol americano.
— Nunca mais brinco com você. — Resmungou Thomas rindo — Parecemos duas crianças.
E eu continuaria rindo com ele se seus dedos tateando meus braços em busca do aparelho não fossem tão calorosos e me deixassem arrepiada. De repente o ar mudou e a aproximação do corpo de Hoyer atrás de mim ficou clara. Não relutei quando ele segurou minhas mãos para agarrar o aparelho e pude sentir seus dedos tremendo ao tocar minha pele.
Um pigarro nos fez sair daquela bolha e ao ver Carter com a maior cara de “Preciso de uma explicação ou vou ter um infarto” senti todo sangue subir para meu rosto.
E, para piorar, Thomas não estava nem um pouco diferente.
Entretanto, ao contrário de mim, meu destinado se saiu muito melhor em arrumar uma desculpa e se recompôs rápido.
Ele se virou para mim com os dois celulares na mão.
— Não tem condições de você continuar com esse celular, senhorita Blackwell. — Falou balançando-o em sua mão esquerda — Sei que gosta muito dele, mas o TI pode lhe dar um bem melhor.
— Mas eu gosto desse e ainda vou viajar a trabalho esse final de semana, preciso dele. — Entrei em sua encenação.
— Então espere mais um tempo com ele, porém troque assim que puder. Uma hora isso vai acabar lhe prejudicando. — Ele advertiu e eu balancei a cabeça veemente concordando.
Nunca tinha passado tanta vergonha em toda a minha vida.
Segundos depois meu destinado se despede de seu tio, ainda muito desconfiado, e me dá um até logo formal demais para quem costuma passar as noites conversando sobre nada e tudo ao mesmo tempo.
Enquanto o vejo entrar no elevador fico matutando em como seria nossa relação fora e dentro do trabalho. Apesar de tudo, eu não respondia a Thomas e devia ser profissional durante meu expediente, mas não poderíamos agir como amigos que éramos? Carter ficaria ofendido?
Nossa, imagina só se ele soubesse que somos destinados! Com esses pensamentos, voltei para minha mesa como se nada tivesse acontecido.
— Precisa de alguma coisa, senhor? — Perguntei me esforçando para parecer o mais inocente possível.
— O que está acontecendo com vocês dois? — Indagou ele.
Merda.
— Nada.
Não que eu estivesse mentindo, mas também não estava dizendo toda a verdade.
Albert passou a mão no rosto, os olhos azuis cansados.
— Bem, vou ser bem claro: se tiver algo acontecendo peço que você seja cuidadosa, . — Aconselhou — Além de não querer ver uma cena desagradável da minha secretária, Thomas ainda não se acertou com a destinada. Receio que se ela se sentir enciumada com você e fazer a cabeça do menino para tirá-la ficarei de mãos atadas. Ele é muito importante para empresa, principalmente agora que está começando a participar ativamente.
Carter pôs a mão no meu ombro e eu apertei meus lábios para não rir. Embora fosse raro uma demonstração de preocupação do meu chefe, aquela possibilidade apresentada por ele não aconteceria. Albert esqueceu de algo muito mais importante: eu era a destinada em questão. Não fazia sentido querer prejudicar a mim mesma.
Ele demorou um pouco com os olhos fitando a marca branca que evidenciava que meu relógio já havia sido descartado.
— Não ponha tudo que conquistou a perder. — Disse antes de voltar para dentro de seu escritório.

Naquele dia aceitei o convite das meninas para curtir o happy hour com elas no barzinho ali perto. Ela soltaram gritos animados chamando atenção dos funcionários que estavam saindo e eu ri daquilo. Àquela altura já tinha conversado com Hope e ela disse que não tinha problemas em ficar mais um pouco com minha mãe. Apesar de saber que viajaria no outro dia e deveria estar descansada, senti falta de estar com as meninas e beber alguma coisa.
O bar era bastante sofisticado e estava cheio. Havia trabalhadores de todas as firmas e empresas do bairro, mas todos tinham o mesmo sentimento de cansaço e relaxamento de terminar o expediente. Sentei-me perto de Daisy, Mary e Stella, uma das funcionárias do RH, enquanto procurava alguma bebida forte que não custasse muito caro no menu. Aqueles preços eram salgados demais pro meu gosto!
— Você acredita que a velha ainda teve coragem de falar que não era a mulher certa para ele? — Stella disse prendendo as mechas coloridas em um coque — Meu amor, eu esperei oito anos por aquele paspalho e ela me vem dizer que não o mereço?
— Graças a Deus nunca tive problemas com minha sogra. — Comentou Mary bebericando seu Martini. — Inclusive ela conseguiu um emprego agora para meu marido e deu um sermão nele. Tá todo mansinho desde sábado.
Daisy ri.
— Nada como a progenitora para colocar um homem nos trilhos. — Falou ela assim que pedi uma cerveja para o bartender. — E seu destinado, ? Deu algum sinal de vida?
— Ele me pareceu bem na última vez que o vi. — Respondi dando os ombros fingindo fazer pouco caso.
— Vocês já se esbarraram muito desde o dia do prazo? — Questionou Mary.
— Mais do que eu esperava. — Murmurei — Eu gosto dele, apesar de não achar que vá rolar nada.
— Não tem nem uma química entre vocês? Nenhuma faísca? Nada? — Perguntou Stella desconfiada.
Lembro das vezes que tive sensação de estar em uma bolha quando estou perto de Thomas e a extrema sensação de calor que sentia ao me aproximar dele.
— Talvez… — Dei os ombros.
As meninas se olharam cheias de segundas intenções e me preparei para replicar qualquer uma das suas insinuações, no entanto, elas mudaram de assunto.

Na sexta-feira eu estava menos animada do que esperava. Minha pequena mala estava devidamente arrumada e Jean não parava de me encher de preocupação com o voo. Seu medo de avião estava quase se materializando quando a pedi pra me ajudar a fazer a mala.
— Por favor, preste bem atenção no que a aeromoça dizer e...
Fechei os olhos e contei até cinco.
— Se você falar mais alguma coisa sobre esse vôo vou bater em sua cara, Grey. — Ameacei e ela me abraçou forte.
— Traz alguma lembrancinha para mim, hein? Não esquece. — Ela disse me esmagando com seus braços.
— Sim, senhora. — Respondi rindo — Você pode ajudar Hope enquanto eu estiver fora? Ela vai dormir aqui, mas pode precisar…
— Com certeza!
Minha conversa com Hope, entretanto, foi um pouco mais profissional. Repeti o horário de todos os remédios e pude ver quão impaciente ela estava comigo tentando ensiná-la a fazer seu trabalho.
— Eu entendi isso na quinta vez que você me disse, ! — Reclamou Steel — Não precisa ficar tão nervosa.
Deixei meus ombros caírem.
— É a primeira vez que fico tão longe dela. — Murmuro.
— Oh, meu amor… — Ela afagou meu ombro — Amanhã o doutor vem pra cá examinar sua mãe, não é? Ela nunca estive tão bem cuidada. Não se preocupe.
Assenti tentando enfiar aquelas palavras dentro da minha cabeça.
— Além do mais você tem que crescer profissionalmente! — Acrescentou — Tenho certeza que sua mãe ficaria orgulhosa se a visse agora.
Meus olhos encheram de lágrimas e eu a abracei.
— Obrigada, Hope. De verdade.
A parte mais complicada foi falar com minha mãe. Seu cabelo acobreado já havia se tornado um mar branco em algumas mechas e os olhos azuis estavam cada vez mais cinzas. Segurei sua mão ossuda e ela deixou seu olhar cair para meus dedos quando sentei na beirada da cama. Havia um monte de fios e aparelhos que faziam seu corpo funcionar bem e meu coração diminuiu no peito em pensar na mulher vigorosa que era antes.
— Estou indo para o México a trabalho, mãe. — Comecei — Vou passar apenas esse final de semana e isso pode ser um marco para o começo de uma carreira promissora. Sei que quebrei as promessas que um dia fiz para senhora. Pareceu certo quando eu o fiz. — Suspiro triste — Mas eu vou reparar meus erros. Quando voltar procurarei algum curso profissionalizante e terminarei o curso de espanhol, tudo por você. Eu prometo. Te amo, mãe.
Beijei sua testa.
— Até logo. — Me despedi com um sorriso.
No aeroporto me encontrei com meus chefes e Andrew. Como era esperado, eu e Grimmes ficamos nos assentos comerciais enquanto Jones e Carter sentaram no seu lugar confortável da primeira classe. Ainda me perguntava o porquê deles não estarem usando o jatinho particular da empresa, mas preferi ficar na minha.
Antes de pôr meu celular no modo avião, recebi uma mensagem de Thomas desejando uma boa viagem que me arrancou um sorriso escancarado.
Eram apenas algumas horas de viagem e decidi usá-los para reler as anotações que fiz sobre as mercadorias da Coral.
Sentei-me ao lado direito de uma velhinha e Andrew que entrou mudo e provavelmente sairia calado do avião. Ele lia e relia o texto que preparara no tablet e batia o pé impacientemente no chão — e não consegui evitar de lembrar de Hoyer que sempre parecia fazer isso. Depois de decolarmos e a sensação de ser arrancada da Terra passou, aquele barulho passou a me irritar mais que o usual.
— Acalme-se, Grimmes. — Resmunguei — Vai abrir um buraco no chão do avião se continuar assim.
— Não estou com humor para papo, Blackwell.
Levantei as mãos como se me rendesse.
— Grosso.
A velhinha do meu lado nos olhou curiosa.
— São namorados? — Perguntou puxando assunto.
Ai, credo.
— Não, somos só colegas de trabalho. — Respondi tentando não transparecer o desgosto de ser confundida com a namorada do Andrew. Ew. — Primeira vez que vai ao México?
Ela negou com a cabeça.
— Estou indo visitar meu segundo neto. — Respondeu animada — Deixa eu lhe mostrar as fotos…
A partir daí minha pasta foi ignorada assim como a TV que havia nos assentos. Descobri que o nome da velhinha era Eunice e tinha dois filhos. Um deles estava a uns bancos atrás e era “filho da sua velhice”, como disse ela, por isso ainda era um adolescente. O pai dos meninos morreu fazia já alguns anos, mas ela ainda assim parecia bastante abalada com isso. Eles se amavam muito pelo jeito.
— E vocês eram destinados?
Ela concordou com a cabeça.
— Mas não pense que isso significava que sempre dávamos bem não. Ele era um homem muito esquentado, o Fábio. — ela suspirou recordando — Demorou um tempo até que eu aprendesse driblar sua personalidade e ele de ser menos rude. Com Fábio aprendi que não devemos casar por amor e sim para amar, pois com isso a gente aprende como entender as diferenças do outro.
Balanço a cabeça enquanto tentava memorizar aquelas palavras. Eu adorava conversar com pessoas da terceira idade, porque eles destilavam uma sabedoria que eu gostaria de ter qualquer dia desses.
Quando chegamos às nove horas na Cidade do México, me senti nervosa para passar na alfândega. Quando era pequena, minha mãe fez questão de tirar todos os documentos necessários e eu sempre lembrei em deixá-los em dia. Por causa do bloco econômico que compartilhávamos, não era necessário visto para entrar no país.
Depois de entrar com meu espanhol arranhado e receber elogios de Albert que não sabia dessa minha habilidade, passei a viagem de carro até o hotel admirando a cidade. Era uma pena que eu não teria chance de conhecer os pontos turísticos.
Ao chegar no hotel recebemos a programação para conferência e Albert pediu que estivéssemos na recepção às sete da matina, enquanto Daniel apenas resmungava que odiava aviões.
Com um pouco de dificuldade na língua fiz o check-in sem ajuda, me despedi e fui direto para meu quarto. Não tinha prestado atenção no luxo que eu estava até entrar no cômodo que dava duas da minha casa.
Explorei cada canto e gaveta do quarto com uma animação quase infantil. Liguei a TV digital e deixei em um canal que passava clipes de música pop mexicana enquanto me jogava em uma cama de casal mais confortável que já tinha me deitado. Fiquei meio ressentida por está em um bom quarto de hotel no momento em que minha mãe sofria em uma cama dura, mas logo esqueci disso ao ver a banheira enorme.
Eu nunca tinha tomado banho de banheira e logo preparei-me para me deliciar com todo aquele luxo. Qual é? Eram apenas dois dias com um conforto que nunca esperei ter na vida!
Depois de baixar os ânimos e finalmente ser vencida pelo cansaço, mandei uma mensagem a Hope para que ela avisar-se que eu havia chegado em paz para Jean; agradeci o sms de Hoyer e disse que já estava na Cidade do México. Após pedi comida no quarto e me alimentar, capotei na cama como se não tivesse dormido nos últimos sete dias.

Eu vestia um vestido mais leve que costumava usar no outono, mas continuava sendo bastante profissional e quente. Ele era vinho e justo, porém que descia até abaixo do joelho, sem nenhum decote, e um blazer preto básico; também havia os saltos que peguei emprestado de Jean. Era bom ter como fada madrinha uma estilista talentosa como Ivanna.

Passei um bom tempo esperando até que Andrew apareceu segurando um copo de café e parecendo que não dormiu nada.
— Noite difícil? — Perguntei.
— Não dormi nada e você?
Sorri.
— Dormi como um bebê.
Não que eu não estivesse nervosa, mas nunca tive problemas para conseguir aquela proeza. Sendo uma pessoa adulta que cultiva apenas cinco a sete horas de sono, não ia perder a chance de dormir a noite inteira quando ela apareceu.
Nossos chefes se apresentaram logo depois e nos cumprimentaram com um “bom dia” formal. Depois de tomar café, ao entrar no carro, eles desataram em falar sobre o que deveríamos fazer. Andrew parece que vai ter um colapso e Daniel tenta acalmá-lo.
— Sabe o que fazer, não é? — Indagou senhor Carter para mim quando me viu lendo a programação em minhas mãos.
— Fazer amizades e prestar atenção na concorrência.
Ele balançou a cabeça afirmando.
— Seu trabalho hoje não é ser minha secretária e sim representante da empresa. Vou lhe dar uma semana para vir com uma proposta de mercadoria. — Ele deu um sorriso contido — Estou apostando todas as minhas fichas em você.
Em vez de me deixar lisonjeada, sua frase me deixa mais nervosa. Soltei o ar que segurava com força e dei um sorriso sem graça.
A conferência aconteceu em um auditório enorme que continha diversos stands. Havia muita gente bem vestida e nunca vi tanto ricos internacionais por metro quadrado. Intimidada pelos olhares e roupas luxuosas, andei devagar até a entrada.
— Apareça no palco daqui a três horas para dar apoio a Calças Molhadas ali. — Falou ele apontando discretamente para Andrew — Misture-se e seja você. — Disse Albert — Você conquistou Carol Carter, então, isso aqui é mamão com açúcar.
Sorri para ele por ser um mentor atencioso, mesmo achando que a simpatia de Carol por mim não fizesse sentido.
Com um crachá indicando meu nome e empresa, andei daquela forma confiante que aprendi nos últimos anos lidando com pessoas ricas e soberbas. Vi meus chefes e Andrew andarem pela multidão e tentei não ficar desorientada com o barulho de diversas línguas no local. Pude identificar o inglês e espanhol como principais e procurei os lugares em que elas eram mais evidentes.
Não demorou muito para que eu me familiarizar-se com o espaço. Conversei sobre um robô que “tomaria o lugar dos professores” com uma mulher elegante e discutimos se aquilo era evidência de que a tecnologia poderia ir longe demais. Encontrei três ou duas pessoas que perguntaram de que empresa eu era, mesmo carregando o símbolo da Coral no meu peito, os respondi prontamente. Foi divertido conversar sobre alianças de outras empresas como uma verdadeira erudita — será que se aqueles homens britânicos soubessem que tudo que eu sabia era observando e não estudando em glamourosas empresas, eles me dariam crédito?
Por algum motivo desconhecido, pensar nisso me dava vontade de rir.
Não vou dizer que sempre me dei bem nessas conversas. Havia momentos em que eu não fazia ideia do que eles falavam, mas consegui mudar de assunto ou apelar para o sotaque carregado de alguns deles. Observei os produtos daqueles que seriam nossa concorrência, fiz anotações no meu celular e tirei algumas fotos de forma mais discreta que pude.
As três horas passaram-se voando e quase me esqueço de procurar o resto da “equipe”. Quando os procurei segurava pelo menos cinco cartões de visita de empresários sendo alguns por puro flerte e outros porque se interessou em conhecer mais sobre a Coral. Claro que eu passaria o pente fino entre eles antes de entregar a senhor Carter.
— Acho que vou vomitar. — Disse Andrew assim que me aproximei.
Impaciente, segurei seus ombros e o chacoalhei.
— Se recomponha, homem! Você já falou sobre esse produto há duas semanas atrás na frente da empresa quase toda.
— Mas não tinha nem cinquenta pessoas, aqui tem quase dois mil! — Rebateu e eu ignorei o fato de ter menos do que isso no auditório.
— Olhe pra mim durante o discurso. — Falei apontando para meu rosto — Esqueça tudo ao redor e apenas explique o produto para mim.
— E como isso vai me ajudar? — Ele levantou a sobrancelha.
— Confia em mim. — Eu disse voltando a olhar para a programação amassada em minha mão e como resposta Grimmes bufou.
Quando Daniel entrou representando a Coral não precisei de muito tempo para entender porque geralmente era ele que presenciava esse tipo de evento. Jones era simpático e fazia você ficar levemente impressionado com suas ideias. Isso era seu forte.
Eu não conseguia imaginar Carter fazendo algo assim.
A mochila em questão era voltada a crianças de 7 a 10 anos; continha um formato diferente, inovador e um estofado que trazia mais conforto para elas. Durante esse tempo apenas fitei Andrew ao seu lado com as costas tensas e o olhar voltado ao Daniel. Grimmes relaxou um pouco, tão encantado com o discurso de Daniel como o resto, porém voltou a ficar apreensivo quando seu nome foi citado pelo mesmo.
Andrew me mirou com desespero e levantei o queixo em arrogância. Sem entender minha atitude, o homem franziu o cenho e pareceu voltar ao mau humor habitual.
— E o estofado não deixa a o material mais pesado? — Um sul coreano perguntou-lhe.
Todos os olhares se voltaram para Grimmes que ainda me fitava.
— Claro que não, se o fizesse não havia porque ser considerado mais confortável. — Respondeu ele — Na verdade...
Sorri vitoriosa quando o vi virar-se para quem fez a pergunta com naturalidade.
Andrew não funcionava com palavras fofas de conforto. Ele gostava de ser desafiado, só assim as coisas funcionavam.
— Você parece feliz.
Notei-me o tom familiar da voz e admirei surpresa o homem de olhos azuis que havia conhecido semanas atrás.
— Philip De Luca? — Apertei sua mão — Não imaginava encontrá-lo aqui.
— Nem eu, Blackwell, mas vender e comprar empresas sempre foi meu hobby predileto. — Ele disse passando a mão entre os cabelos cor de cobre. — Conhece aquele ali?
Apontou discretamente para Andrew que mexia de forma exagerada as duas mãos.
— Colega de trabalho. Então, você está a procura de algo para investi? — Perguntei interessada.
— Não exatamente, estou apenas dando uma olhada. — Replicou — Meu chefe não gostaria de saber das minhas olhadas, contudo.
— Seria muito intrometimento perguntar quem é seu chefe?
Ele riu charmoso.
— É um espanhol, talvez você conheça. Lorenzo Martin, o nome.
— Oh. — Respondi assim que lembrei que Lorenzo foi o quase acionista da Coral que fizera nos perder tempo no começo do semestre.
— É, eu sei. Grande homem, não é? — Comentou ele pomposo — Bem, estou de saída. Espero encontrá-la de novo, . Sinto que minha destinada iria adorar conhecê-la.
Dei um sorriso que considerei gentil assim que vi a aliança em sua mão esquerda.
— São recém casados?
— Estamos juntos há três anos e meio, mas a conheci fazem quatro anos. — Ele respondeu com os olhos brilhando.
— Bem, eu vou adorar conhecê-la. — Eu disse achando aquele começo de amizade muito proveitosa.
À tarde depois do almoço foi marcada por conversas entre possíveis sócios que Carter estava de olho. Muito elogiaram Andrew pela performance que de forma muito humilde respondia que era exagero deles. Durante tais encontros passei a maior parte do tempo dando informações bestas que Albert sabia, mas precisava de alguém para confirmar e dar crédito ao seu discurso. Jones apenas sentava e acenava, já que aquela área não era sua praia.
Ao entrar no meu quarto à noite eu estava exausta e tomei um banho demorado, algo que eu não tinha me dado luxo há muito tempo. Depois de vestir meu pijama surrado e coronha, deitei-me na cama como se estivesse no céu. A TV estava ligada em um canal de novela, e como uma grande fã desse tipo de programa, pus-me a assistir.
Estava começando a cochilar quando ouvir o barulho de alguém bater em minha porta. Meio desorientada por ter levantado rápido demais, abri a porta sem checar quem era.
Andrew andava para os lados como uma barata tonta. Ou um louva-deus, se você pensar em suas pernas igualmente longas. Enfim.
Cruzei os braços tentando esconder o fato que eu estava sem sutiã e com cabelo de quem havia acabado de acordar.
— Quem morreu? — Resmunguei.
— Não sei, mas se você não me ajudar, será eu. — Disse desesperado.
Sem perca de tempo, meu colega de trabalho puxou a manga esquerda do seu casaco e mostrou o relógio do prazo marcando apenas quinze minutos.
Eita merda.
— E você só viu isso agora? — Falei com um olhar repreendedor, embora sabendo que fiz a mesma coisa no dia do meu prazo: eu simplesmente esqueci.
— Eu nem sei para onde ir, o que devo fazer, ou eu…
— Quieto! — Aumentei o tom de voz. — Deixa eu te dar uma olhada…
E era pior do que eu pensava: Andrew usava um casaco listrado dentro da calça jeans, óculos de leitura e tênis All Star. Seu cabelo dividido ao meio gritava NERD em um raio de quinze metros.
— É o que tem para hoje. — Murmurei — Bagunça esse cabelo e vamos descer para a sala de jogos. Só deixa eu parecer apresentável.
Vesti um moletom vermelho e dobrei a minha calça até o joelho para disfarçar que era um número menor do que eu usava — eu o possuía desde minha adolescência. Com Andrew quase tendo um derrame do meu lado, pois faltavam apenas sete minutos, acabei saindo correndo atrás dele ainda de meias que, graças a Deus, não estavam rasgadas.
Escorreguei um par de vezes e caí uma tentando acompanhar Grimmes. Entramos no elevador ofegantes e não deixei de rir com a cara dos hóspedes olhando para meu estado. No cubículo tocava uma música good vibe do Coldplay e achei bastante propício para o momento.
Quando chegamos no andar do salão de jogos, Andrew saiu atropelando todo mundo para chegar até lá. Pedi desculpas por ele no caminho e recebi muitos olhares de lado por isso.
— Falta quanto tempo? — Perguntei ao chegar do seu lado na porta do salão ainda tentando normalizar a respiração.
Olhando o relógio como sua vida dependesse disso Grimmes começou a contar.
— ...Cinco, quatro, três, dois, um.
Não aconteceu nada nos próximos segundos e eu senti meu coração apertar no peito. Eu havia aprendido ainda criança que a consequência de atraso para pegar seu prazo poderia afetar com o encontro do seu destinado e senti pena dele automaticamente.
— Andrew, eu sinto tanto.
Entretanto ele não me ouvia. Seu olhar estava vidrado em alguém que estava mais adentro. A visão que tive foi de um homem moreno de camisa branca segurando um taco de sinuca paralisado. Os dois pareciam hipnotizados por algo invisível e me senti desconfortável por estar atrapalhando esse momento. O barulho dos relógios caindo ao chão despertou a consciência deles e a sensação de dejavú me engoliu tão forte que tive a impressão de ver Thomas no aglomerado de pessoas admiradas com o fim de um prazo que tinha acabado de acontecer.
— Acho que essa é minha deixa. — Dei dois tapinhas no ombro de Grimmes, mas ele nem lembrava da minha existência.
Enquanto voltava para meu quarto, não parei de pensar em Thomas e no dia em que nos conhecemos. Parecia que tinha passado anos desde aquele dia. Quantas coisas aconteceram! Apenas paro de pensar nisso quando cheguei no corredor do meu quarto que estava vazio.
Escorreguei pelo chão do hotel como se fosse uma criança e começo a rir com minha besteira.
Lembrando que eu tinha vinte e seis anos.
Penso em ligar para Hoyer e contar sobre o desespero de Andrew e como me diverti sozinha com minhas meias em um hotel que custava mais que minha própria vida, mas não consigo achar meu celular e estou cansada demais para uma conversa.
Em meia hora estou babando no travesseiro.

Acordei no domingo com batidas violentas na porta. Iria soltar um palavrão por me acordar assim, mas a voz de Carter me fez gelar até os ossos.
— Se você não descer em dez minutos será uma mulher morta!
Sei que ele estava blefando, mas me visto tão rápido que tenho certeza que quebrei algum recorde naqueles minutos. Me xingo assim que percebo o motivo do alarme não ter soado: meu celular estava descarregado dentro da bolsa de roupas sujas. Como ele chegou lá? Não faço ideia.
Deixei-o carregando e desci com meu notebook. Carter esperava na recepção de pernas cruzadas em uma poltrona olhando para o relógio.
— Faça isso outra vez e a coloco pra trabalhar com os estagiários. — Ameaçou ele.
Daniel, que estava ao seu lado, revirou os olhos.
— Lopez vai chegar aqui em meia hora, Carter, relaxa. — Ele passou a mão no rosto e bocejou — Por que estamos aqui tão cedo? Fico imaginando se você fosse britânico. Ia ser o inferno trabalhar para você. — resmungou — Blackwell, se for demitida pode me mandar um currículo. Carter sempre fica com as secretárias mais competentes, é incrível.
Albert balançou a cabeça ignorando seu amigo e me deu um cartão de crédito.
— Imprima os arquivos que enviei para a pasta compartilhada. A secreta. — Ele ordenou e apontou para Andrew — Grimmes vai ajudá-la.
Andrew andou até mim sem reclamar e me senti um tanto culpada por não ter percebido-o, todavia ele não estava com a habitual carranca.
— Buenos días, chica.
Levantei a sobrancelha achando sua atitude muito estranha.
— Tudo bem com você? — Perguntei com cuidado e ele assentiu. — Tá de bom humor hoje…
— Impressão sua. — Disse sorrindo.
Alerta, Terra. Iremos dá de cara com uma chuva de meteoro. Não era possível que Andrew Grimmes estivesse sorrindo de verdade. E era um sorriso bonito, cheio de dentes brancos e brilhantes.
— Uau. — Falei, mas fui fazer meu trabalho antes que meu chefe fosse cortar uma tira de couro das minhas costas.
Quando eu soube que a reunião com Lopez, um dos fornecedores de papel para Coral, seria no restaurante do hotel, suspirei de alívio, pois não tinha comido nada. A comida mexicana era muito melhor feita no país de origem do que nos restaurantes de esquina que tínhamos na Ala O, embora fosse a maior fã das comidas do meu bairro.
O restaurante era enorme e continha uma decoração característica do país. Havia mariachis cantando em um pequeno palco, mas nada que impedisse uma boa conversa. Nós estávamos separados por uma grande janela de vidro da área da piscina e podíamos ver de crianças a adultos brincando na água. Eu constantemente olhava os invejando por aproveitarem um dia raro de sol no outono.
Agi como backup durante toda a reunião e não entendi o porquê de está ali. Talvez Carter queria me ensinar algo que ainda não tinha aprendido, porém não fazia ideia do que era.
Foi em um desses momentos entediantes em que Carter e Lopez se levantaram para ir ao self-service que o vi na piscina. Franzi o cenho e olhei para os lados tentando situar-me e ter certeza que estava na Cidade do México. Thomas parecia outra pessoa sem toda aquela pompa que ele usa; seu cabelo está modestamente seco e cacheado. Seu corpo é musculoso e me assusto ao ver tatuagens no seu tórax que são facilmente escondidas pelo terno que ele usa no dia a dia.
Como mesmo no domingo em que encontrei-o no parque o vi vestido de moletom, nunca tinha tido oportunidade de ver que seu corpo era todo marcado e me indaguei se juristas podiam ter tatoos. Pensei até que tinha o confundido, mas quando Thomas olhou para mim através do vidro sei que é ele: o maxilar, o nariz e os olhos escuros são inconfundíveis.
Ele franzi o cenho do mesmo jeito que eu e me olha como se não me reconhece-se. Embora sei que ainda estou em um ambiente de trabalho, levanto a mão discretamente e dou um tchauzinho.
Ainda estou extremamente confusa por saber que ele estava aqui. Se vinha para o México, por que não me disse quando citei a viagem? Não que ele me deve-se alguma explicação, mas…
Thomas olha para trás parecendo meio perdido, mas sorri para mim de uma forma maliciosa. Sinto um arrepio na espinha e minhas mãos suam, entretanto não de um jeito bom. Remexo na minha cadeira desconfortável.
Segundos depois entendo o motivo dele não espalhar sua estadia na terra latina.
Uma mulher loira saiu da piscina jogando suas madeixas para os lados, como se estivesse em um filme. Seu corpo era tão perfeito que chegava a ser artificial e passei a cogitar que ela comia ervilhas de café, almoço e jantar para conseguir uma cintura tão fina. Foi em direção ao meu destinado como uma felina e ao ver que ele me encarava, a mulher desconhecida piscou para mim e o beijou.
Algo dentro de mim se quebrou quando vi que Hoyer olhava para mim enquanto basicamente desentupia a boca da mulher, como em desafio. Um sentimento de decepção, nojo e principalmente de repulsa me atingiu. E no momento que o vi descer suas mãos pelas costas dela quase grito para que ele parassem de sem vergonhice na frente de todo mundo — havia crianças lá, pelo amor de Deus.
Virei o rosto e tentei apagar a imagem nojenta que tinha presenciado e ignorar um sentimento de grande decepção. A sensação amarga de traição me doía mais do que deveria; uma sensação que eu não tinha nenhum direito de sentir.
— Senhor Jones, acho que a comida mexicana não me fez muito bem. — Menti — Tudo bem se eu subir um pouco? Tenho que falar com Carter…
Ele balançou a mão em desdém.
— Também não me dei muito bem com a comida na primeira vez que estive aqui. Eu falo com Carter, não se preocupe. — Tranquilizou-me simpático — Só não vai atrasar para pegar o voo, tudo bem? Daí eu não posso te ajudar.
Sorri amarelo e me despedi deles rapidamente.
Corri para meu quarto assim que lágrimas brotaram em meus olhos e não pude acreditar em quão burra eu estava sendo. Por causas dos recentes acontecimentos eu havia posto Thomas no pedestal e isso não era certo. Lá estava eu de novo colocando minhas expectativas em alguém que não merecia.
Fechei a porta do quarto e encostei a cabeça na parede. O choro veio sem mais delongas e eu não podia acreditar nisso. Não aguentava mais chorar, não aguentava mais ter que passar por situações desnecessárias.
Eu era uma mulher, não uma menina, pelo amor de Deus! Thomas não me devia nenhuma satisfação, nem eu a ele, então por que senti como se alguém me esfaqueasse pelas costas?
— Eu não devia está chorando, inferno! — Gritei e assim escutei o barulho do meu celular vibrando.
Cambaleando e com a vista embaçada, procurei o aparelho que carregava e o chequei. Meu coração foi a mil quando vi trinta e duas ligações de Hope, mas ao abrir a tela uma mensagem de Thomas perguntando se eu estava online brilhou na tela. Por pura birra e infantilidade bloquei seu número e liguei rapidamente para Hope.
Ela atendeu no segundo toque.
— Oi, Hope, aconteceu alguma coisa?
Minha voz saiu calma, apesar de sentir que iria explodir na montanha russa de sentimentos que vivia.
— Oi, . Por que você não atendeu o celular ontem de tardezinha?
Sua voz é delicada e sento na cama bagunçada para me recompor.
— Estava sem bateria e me esqueci de carregar. — fungo e enchugo as lágrimas das minhas bochechas — Está tudo bem? Doutor Brandon foi aí?
— É disso que eu queria falar, . — Respondeu — Atrapalho? Podemos conversar outra hora se…
— Não, não. Pode falar. — Afirmo me sentindo relaxada com seu tom de voz.
— Ele viu os exames e ficou muito preocupado. Sua mãe estava com uma infecção grave e foi necessário interná-la imediatamente. Você sabe que não dá pra saber essas coisas quando a pessoa não pode falar, não é? Por isso lhe liguei ontem: Para avisar. — Explicou.
— Ah, em que hospital a internaram?
— Santa Mônica. — Falou cuidadosa. — Hoje de manhã ela passou mal, e…— Hesitou — Ela não resistiu, meu amor. Sua mãe faleceu. Sinto muito, meu anjo.
E meu mundo ruiu de vez.

Capítulo 12

"Você não precisa ser tão corajosa essa noite." - Brave, The Shires.

Eu ganhei a primeira bicicleta um mês depois do meu aniversário de sete anos. Ela era rosa, cheia de figurinhas e tinha uma buzina branca um tanto dura para se apertar por ser nova. Steve , meu pai, me ensinou a andar sem rodinhas, embora sempre estivesse cansado do trabalho quando chegava em casa. Minha mãe costumava nos acompanhar nas tardes em que íamos ao parque, porém ela nunca interveio no nosso momento pai e filha - ela apenas nos olhava com um sorriso pequeno e doce que poucos da Ala O conseguiam esbanjar. Mesmo depois de não precisar da guarida de meu pai o tempo todo, eles ficavam de longe mantendo o olho em mim. Os dois.
Meus pais estavam lá toda vez que eu virava para observá-los. Eu nunca estive sozinha.
Mesmo quando meu pai morreu de forma tão cruel, eu nunca estive sozinha.
Mas as coisas na vida são incertas, não é? Depois de dois anos descobrir que os constantes esquecimentos da minha maior defensora não eram normais. Eu tinha quinze anos na época. Assistir à Letícia morrer aos poucos era uma das dores mais insuportáveis que já tive. Ver uma mulher forte, que abriu mão de seu conforto para viver uma história de amor, se debilitar aos poucos me fez passar muitas noites chorando durante a adolescência, entretanto não demorou muito para eu perceber que navegar em lágrimas não me daria as soluções que precisava. Como a aflição era rotineira, ela se tornou suportável. Não que eu não tivesse crises, mas já não era mais uma novidade. Quando a situação é irreversível, você acostuma. Não era como se eu tivesse outra opção.
Eu entrei na Coral pela minha mãe e por causa disso não pude estar ao lado dela no seu último dia de vida. Tentei afastar aquele pensamento de mim e repetir que não era culpa de ninguém, porém era quase impossível. Durante o voo de volta para casa segurei as lágrimas. Chorar na frente de estranhos não me agradava, assim como o rosto cheio de compaixão de Andrew passou a me incomodar. Acho que não tinha digerido a notícia direito, pois quando encontrei Jean esperando-me com o carro de e abracei-a, comecei a soluçar.
Algo tinha sido arrancado de dentro de mim; a realidade me atingiu ao ter que organizar um enterro. Lembranças da minha infância e adolescência pareciam estar em todos os lugares que eu andava na Ala O. A sensação de uma guerra perdida massacrava meu corpo e tudo que eu queria era me afundar na tristeza, mas negava fazê-lo antes de dá um funeral digno a minha mãe.
O silêncio raro e as carinhas tristes das crianças do meu bairro ao pedir que mandassem recado para seus pais sobre a morte da minha mãe dilacerou o coração.
A pior parte, entretanto, foi o enterro. A pior segunda-feira de todas.
Me preparei apenas para escutar as frases confortantes que, no fim, não mudaria nada e o olhar de pena que sempre evitei receber desde pequena, mas não para o resto.
Encontrei algumas amigas da minha mãe que se mudaram para longe ou estavam preocupadas demais com suas vidas para visitá-la com frequência. Uma delas se chamava Sarah e tocou em meu rosto do jeitinho que ela fazia quando eu era criança.
- Ela está em um lugar melhor agora.
Aquilo transpassou o peito e lhe dividiu em dois. Por que aqui, do meu lado, não pode ser o lugar dela? Eu não era suficiente? Eu não podia cuidar dela? Por quê?
Qualquer coisa que segurou minha sanidade evaporou quando a vi deitada no caixão. Eu tinha evitado pensar em seu corpo frio dentro daquele ataúde. Letícia estava com um vestido rosa - sua cor favorita e parecia muito como ela era antes da doença. Minha mãe podia muito bem estar dormindo.
Tampei a boca com a mão querendo soltar um grito de desespero. Ela não podia ir embora. Ela não podia me deixar ali sozinha.
- Mamãe, por favor, acorda! Não me deixe, por favor. - implorei - Fique, mamãe. Eu preciso da senhora.
Em algum segundo depois de dizer essas palavras, senti dois pares de braços me segurar para não cair e me sentaram em uma cadeira dentro da capela do cemitério. Uma enxaqueca me atingiu como se alguém estivesse espremendo minha cabeça. Cobri o rosto com as duas mãos enquanto soluçava. Estava tão abalada que mesmo quando um abraço que antes era aconchegante para mim e cheirava a uma colônia que eu podia muito bem odiar no momento, não me afastei. Não neguei abraço de ninguém, apesar de nenhum deles me preencher.
E pela primeira vez na vida eu estava sozinha.

.

A primeira noite foi a mais difícil.
Voltar para casa vazia e entrar na cozinha fez meu estômago revirar enjoado. Recebi muitos pratos de comida dos que vieram ao funeral e eles ofereceram como uma forma de dizer "eu sinto muito"; com ajuda de Jean e Hope guardei parte da comida na geladeira e dividi para as duas levarem para casa. Eu definitivamente não estava com fome e mesmo se estivesse era muito provável que a comida se estragasse.
Já não fingia estar controlando a situação; tomei um banho demorado em uma sensação de torpor que fiquei desde que saí do cemitério. Vesti um longo casaco e uma calça moletom e deitei-me na cama esperando Jean aparecer para dormir comigo naquela noite.
Uma dor espalhou-se pelo peito quando sentir o cheiro da minha mãe pelos lençóis. Enxuguei algumas lágrimas que caíram no meu choro baixo e abri o armário. Devagar toquei em suas roupas e sem pressa comecei a observar os aparelhos que a mantiveram viva nas últimas semanas.
O pessoal do hospital me falou sobre a infecção pulmonar que levara minha mãe a óbito. Aquilo era normal, eles disseram, pessoas com Alzheimer geralmente morrem disso. Os exames que infelizmente atrasaram poderiam ter adiado a situação, disse Brandon. No final, nenhuma daquelas informações me confortou igual a de Hope: "ela não sofreu muito, . Ela foi em paz.".
Peguei um lençol com um cheiro forte de naftalina que quase nunca usávamos e troquei a fronha do travesseiro. Me arrastando pela casa, fui até a sala e deitei no sofá voltando ao estado vegetativo que estava antes. A Grey chegou minutos depois e perguntou se eu estava bem e se queria mesmo dormir em cima de algo tão desconfortável.
Neguei com a cabeça a primeira pergunta e dei os ombros para a indagação seguinte. Estranhando meu silêncio e me entendendo melhor que muita gente, Jean murmurou.
- Vai ficar tudo bem, amiga. Você vai ver.
Mas eu duvidava muito que ela estivesse certa, mesmo quando Jean deitou no colchão no meio da sala, perto de mim, e começou a falar bobagens sobre seu curso. Era algo chato, tedioso, porém distraía mais do que o silêncio ensurdecedor que eu pretendia passar o resto do dia.
Jean roncava durante o sono. Não era como se eu nunca tivesse dormido com ela, mas sempre que estivermos fazendo festas de pijama eu era a primeira a capotar na cama. Vagamente lembrei de ouvi-la dizer que tinha carne crescida no nariz e por isso tinha dificuldade de respirar às vezes. Era possível que essa era a razão de está com a boca aberta no meio do breu da minha sala enquanto fazia um barulho de ronco.
Dormi no máximo duas horas naquela noite. Cochilei por alguns momentos, mas ao relembrar que o remédio para minha insônia estava a sete palmos abaixo da terra, eu voltava a chorar.
Quando eu não conseguia dormir sempre recorri ao quarto dos meus pais. Recordo muito bem de me enfiar em meio aos lençóis a noite e ser abraçada por eles. Os s protegem uns aos outros de todo e qualquer mal, até mesmo os que viviam debaixo da cama, brincava meu pai.
Durante a madrugada pude ouvir os sons que costumava ignorar na minha noite de sono. Ouvi algumas garrafas de vidro sendo quebradas e de longe uma briga aos gritos entre um casal. Retratos de um bairro que cada dia ficava decadente. Não entendo ainda como éramos considerados Ala O quando já havíamos baixado o nível há décadas.
Eu não tive muito o tempo que queria para aproveitar meus pais, principalmente meu progenitor. Nem me dei trabalho para chorar sua morte também, pois alguém teria que ser forte pela minha mãe.
Antes mesmo de descobrir o avanço da doença, eu ouvia minha mãe chorar pelo seu destinado todas as noites. Lembro de escutar clandestinamente Sarah aconselhar a ela ser forte, pois eu ia precisar dela. Acabou que o contrário aconteceu.
Todavia, não tinha mais motivo ou qualquer coisa que me impedia de sofrer pela morte dele. Eu não precisava ser forte e finalmente tentei digerir o dia em que minha vida começou a desmoronar.
Só consegui dormir de verdade às oito horas da manhã naquela terça-feira. Tentei não pensar que ganhara duas semanas de folga do trabalho porque Carter esperava me ver renovada e pronta para recomeçar.
Mal ele sabia que eu só voltaria para Coral se estivesse em mãos minha carta de demissão.
- , você precisa se alimentar. - Insistia Jean quando me levantei ao meio dia.
Balancei a cabeça concordando embora não sentia muita fome. Abri a geladeira e peguei um pedaço de torta salgada para descongelar. Belisquei a comida mais do que pretendi e fiquei olhando para o nada por um bom tempo.
Jean parecia relutante em deixar-me só em casa, mas assegurei que não me suicidaria enquanto ela estivesse fora. Mama Grey iria aparecer mais tarde, avisou minha amiga com um sorriso.
Graças a Deus a Annie era mais maleável. Insistiu para que eu fosse comer, mas não me fez perguntas estúpidas como "você está bem?". Com a televisão ligada em um canal que só passava filmes e seriados antigos, alguns até mesmo em preto e branco, passei o dia tentando me distrair e encher minha cabeça de besteiras.
Jean dormiu em casa na terça-feira também, mas passou a maior parte da madrugada na cozinha fazendo um trabalho que valia 25% da sua nota. Para variar, apenas cochilei algumas horas e acordei cedo. O cansaço estava começando a acumular e me deixar quase inválida em cima do sofá - só saia para usar o banheiro e tomar uma ducha.
Na quarta-feira recebi a visita de Jack. Foi bom para mim ter notícias de Bonnie e percebi que ainda não tinha morrido de vez por dentro; ouvir o adolescente falando que mandou dinheiro para sua irmã e ter consciência que não era de algo honesto também me deu aquela sensação de nervoso.
No dia seguinte alguém bateu na porta, mas eu fiquei enrolada no lençol no sofá. Chovia e mentalizei para que qualquer que fosse a pessoa ela desistisse de falar comigo.
Não aconteceu, é claro.
Quando tive a impressão que iriam quebrar minha porta, resolvi abri. Abri a boca surpresa quando vi um homem de aparente trinta anos, com pinta de taxista, moreno, baixinho e barrigudo segurando uma Ivanna mal humorada e protegida por um grande guarda-chuva que a mesma segurava.
- Você por acaso é surda?
A forma como ela me tratou conseguiu arrancar um sorrisinho da minha cara que não acontecia desde domingo. Após lhe oferecer uma toalha e ela despachar o taxista, Ivanna me olhou feio.
- Por sua culpa perdi o funeral. Só fiquei sabendo da morte de Letícia ontem. - Ela cruzou os braços - Essa é a consideração que você tem por mim?
Olhei para ela envergonhada.
- Eu me esqueci. Desculpa.
Ela soltou um suspiro triste.
- Sinto muito pela sua perda, meu amor. Sei que deve está passando por um momento difícil e eu estarei aqui para o que você precisar, viu? - Ela disse segurando as minhas mãos frias.
- Obrigada. - Respondi no automático e troquei de assunto para não começar a romper em lágrimas - Como vai a clínica?
- Não mudou muita coisa desde a sua última visita. - Disse parecendo entender minha vontade de mudar de assunto - Agora estamos com peças semanais que falam sobre inclusão social, mas me barraram porque eu falei que a vaca da figurinista era mais inútil que minhas duas pernas e elas se ofenderam. Vê que coisa sem sentido! Eu sou a aleijada, eu que deveria me sentir ofendida!
Dei uma risada, apesar de achar errado rir daquilo.
- Por que você xingou ela? A figurinista fez algo errado?
- Ela queria me fazer vestir roupa de fada. Fada, ! Eu tenho quase quarenta anos, pelo amor de Deus! Eu sei o meu lugar. - Reclamou altiva.
Continuei a rir com a sua tolice.
- Que besteira. - Comentei - Eu mesma me vestiria de fada e ainda soltaria glitter para a plateia.
- Quero ver se você vai pensar assim quando chegar na minha idade. - Resmungou.
A conversa acabou sendo a melhor coisa que tinha acontecido na semana. Comemos o bolo de chocolate quase intocado na mesa e conversamos sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Ouvi várias histórias sobre as pessoas da Clínica San Tomaz e tive impressão que conhecia todas elas depois de três horas de segredos não tão secretos sendo revelados por Ivanna.
Sim, nós estávamos falando da vida dos outros e isso me fazia uma completa hipócrita, mas no momento realmente não importava. Se me divertir daquele jeito era a única forma que tinha encontrado de sair do meu estado de calamidade, era isso que eu iria fazer.
Me senti bastante triste quando ela avisou que teria que ir e o taxista gordinho apareceu na frente de casa. Assim que o silêncio voltou a dominar o recinto, desisti de tentar fazer qualquer coisa e voltei a dormir.
Eu acordei perto das sete da manhã com um barulho atípico na minha cozinha. Levantei-me devagar e prendi meu cabelo que havia se soltado durante a noite.
- Você não sabe cozinhar porque não quer aprender. Nem venha com desculpinhas para cima de mim. - Jean resmungou de longe.
A gargalhada que a respondeu congelou meu ossos por um segundo. Cerrei o punho assim que a raiva começou a transformar cada camada do meu corpo em fonte de fúria.
Como ele ousava entrar na minha casa?
Andei em passos pesados até a cozinha e ao entrar, um silêncio tenso se instalou no ambiente. Jean, alheia a nossa intriga, sorriu para mim animada do fogão.
- Bom dia, acordou cedo hoje!
- Bom dia. - Falei friamente e me virei para . - Saia da minha casa.
Minha amiga arregalou os olhos com aquele comportamento anormal meu. Eu olhava para meu ex namorado com um desprezo e nojo que nunca pensei sentir por alguém algum dia.
- Por quê? - Ele perguntou.
Revirei os olhos impaciente.
- Insinuar na frente de um monte de pessoas desconhecidas que eu sou uma prostituta é o suficiente para você? Deixa eu desenhar: saia da minha casa e da minha vida. - Cruzei os braços - E de preferência do bairro também.
- Ah, , foi só uma briguinha boba. - Ele balançou a mão em desdém - E você me xingou também.
- Se você não sair da minha casa agora vou dar o murro que você ia ganhar naquele domingo. - Ameacei dando um passo para frente.
- , vai. - Ordenou Jean - Não quero confusão.
Dando os ombros em uma cara cínica, observei Grey sair da cozinha e logo ouvi o barulho da porta se fechando. Emburrada, fui até a pia pegar um copo de água.
- Não precisava ser tão grossa com ele, . - Repreendeu Jean.
- Experimenta ser tratada como lixo na frente de todo mundo e talvez você mude de opinião. - Repliquei com mau humor.
- Nossa, não precisa ser tão idiota comigo. deve ter feito...
- Vê só, moça. - Virei-me para ela - Quando eu fui ao Safira, seu irmão fez questão de gritar para todo mundo que estava com algum ricaço pra pagar o tratamento da minha mãe. Bem capaz de até ter alguma coisa na internet pra todo mundo ver. Se ele ao menos tivesse um pouco de respeito por mim, não me humilharia daquele jeito.
Jean ficou calada por alguns segundos e desligou o fogo da comida. Devagar ela enxugou as mãos. Seu silêncio me fez me sentir mais nervosa.
- Por que você não me disse antes? - Indagou ela magoada - Por que você nunca me conta as coisas quando eu confio cem por cento em você, ? Nem o nome do seu destinado você quer me falar quando você sabe que... Esquece.
Fiquei calada sem saber o que dizer. Ela estava certa, afinal.
- Olha, Jean, não é que eu não confie em você. - Justifiquei - Meu destinado pediu que não contasse a ninguém sobre nós e eu...
- Ah, e o que aconteceu no Safira? - Ela cruzou os braços - Seu destinado pediu sigilo também?
- Não, eu só...
- Esqueça. - Me interrompeu e começou a andar em direção à porta da cozinha - Depois a gente conversa.
Quis falar qualquer coisa que a fizesse parar, mas eu sentia que tinha engolido uma bola de pelos. Jean saiu de casa e no automático quis pedi conselho a minha mãe, como sempre fazia no começo da adolescência. Mesmo quando estava esquecendo das coisas, mamãe nunca me desamparou. Não que eu tivesse vários problemas, mas ela era a quem eu recorria.
Eu devia fazer qualquer coisa para reverter o estado de inércia que começava a se tornar a minha vida. Deitei-me no sofá mais uma vez e desejei não ter acordado. Rapidamente, algo que eu tinha esquecido sobre meu final de semana veio à cabeça: a cena grotesca de com aquela mulher na Cidade do México. Abafei o travesseiro em minha cara e soltei um grito de frustração. Por que tudo começou a desmoronar em minha vida? Por que eu não podia voltar a minha pacata rotina?
No sábado recebi Daisy, Mary e Franz que souberam da notícia na sexta-feira. Lembro-me muito bem de ter me remexido desconfortável no sofá quando eu as vi olhar para minha sala extremamente modesta com um ar avaliativo demais, porém foi bom tê-las perto de mim.
Só depois de uma semana desde o velório eu tive coragem de entrar no quarto da minha mãe novamente. Como estava sozinha, me dei o direito de chorar enquanto me agarrava em seus suéteres antigos e os organizava em uma caixa. Troquei os lençóis da cama e finalmente deitei para dormir. Jean continuou checar se eu estava bem, mas era fácil perceber que algo tinha mudado.
Eu não fazia ideia de como resolver aquilo.
Tomei coragem para abrir uma caixa repleta de fotos antigas. Muitas delas estavam mofadas e as fotografias já perdiam a tinta. Um aperto forte se apoderou no peito quando achei uma foto do meu primeiro ano.
Meu pai usava barba e se assemelhava com um lenhador. Os olhos e o cabelo eram marrons, donos de um ar de mistério. Ele não sorria, mas tinha uma expressão relaxada que só podia ser vista quando estava perto de sua família. Já Letícia, minha mãe, tinha um sorriso que não cabia em seu rosto. A minha personalidade comunicativa tinha vindo dela, com toda certeza. Seus olhos claros ficaram vermelhos por causa do flash e eu abraçava seu pescoço com uma feição tão radiante como ela.
Cada foto que eu achava me dava uma pressão diferente no peito. Queria tanto ter aproveitado o tempo que tive com eles. Por que eu só tive tão pouco tempo com eles? Por que meu pai não teve a oportunidade de me ver virar uma mulher? Por que minha mãe esqueceu tudo que a fez ser quem era?
Eu não dormir naquela segunda. Com a internet desligada, fiz minha carta de demissão. Talvez estivesse errado, mas eu não podia continuar na empresa. Eu não precisava mais da Coral.
Foi no começo da noite daquele dia que Jean chegou com as novidades: ela havia conseguido seu estágio.
- Hope me indicou e já vou começar a trabalhar na quinta! - Disse animada - Vai ser apenas de manhã em uma clínica particular da Ala G, mas vai ser muito bom. Não vejo a hora!
Abracei-a compartilhando da sua felicidade e sendo levada junto quando ela começou a pular de entusiasmo. Mordi o lábio inferior tentando segurar minha língua e não dizer que eu tinha falando com Steel sobre ela.
Afundei em seus braços finos e enterrei meu rosto em seus cabelos.
- Parabéns, amiga. Eu acredito muito em você.
Ela olhou para mim emocionada e disse que iria jantar comigo - embora ela devesse ir pegar o ônibus para chegar cedo na faculdade. A convenci a não ficar para não prejudicá-la e um sorriso feliz ficou grudado em minha face.
Algo estava dando certo, afinal.
Aos poucos comecei a voltar a rotina. Na quarta limpei em boa parte da casa, no dia seguinte a esse joguei as comidas que se estragaram e fiz uma limpa na cozinha. Meu armário estava vazio, então, fiz uma lista de algumas coisas que eu precisava comprar. Tentei não pensar que o dinheiro que estava em minha conta, em sua maioria, não pertencia a mim, mas foi quase impossível. Entretanto, preferi empurrar aquila preocupação com a barriga por um tempo.
Na sexta-feira tudo que fiz foi escutar uma rádio que tocava apenas jazz na cozinha. Eu não tinha ânimo para nada e não tinha vontade de olhar para futuro. Por muito tempo o presente foi a única coisa necessária em minha vida e até mesmo ele estava escapando por entre meus dedos.
Com as mãos no rosto verbalizei o que pensava.
- O que eu vou fazer?
Sonhei com meus pais na noite de sexta. Eles dois estavam sentados no sofá, abraçados e sussurravam um para o outro. Parecia muito com a imagem que eu costumava ver todas as noites antes de dormir. Sempre quis entender aquela intimidade que os dois tinham - talvez não tinha sido tão mágico como minha cabeça infantil idealizara, mas houve alguma coisa.
Eu os chamava, mas ninguém me respondia. Uma força estranha me puxava para cada vez mais longe e eu gritava "Mamãe! Papai!", porém eles estavam tão mergulhados em sua bolha que não podiam me escutar. Tudo ficou escuro de repente e, então, eu acordei.
Só voltei a dormir quando já estava claro. Annie me acordou daquele jeito todo calculista e resmungou que me chamava fazia dez minutos.
- Pensei que tinha morrido. - Ela disse.
- Quem dera. Quem dera! - Respondi, mas a mãe dos Greys me ignorou explicitamente.
- Você não quer chamar Jean para morar logo com você? Ela vive mais aqui do que em casa. - Falou desgostosa.
- Longe de mim roubar sua filha, dona Annie. - Respondi, mesmo achando aquela uma ótima ideia.
Ficar sozinha por muito tempo me aterrorizava.
O almoço se resumiu em Jean falando sobre seus primeiros dias de trabalho, sua mãe fazendo comentários sarcásticos e eu assentindo enquanto mastigava. Apesar de ter um momento bastante agradável com as duas, minha nova natureza reclusa me pediu para deitar e ficar pensando no maldito sonho que tive.
Com o cabelo úmido, calças leggings e um casaco preto fiquei encarando o teto por um bom tempo. Lembrei, então, que minha mãe comentara que tocava jazz na rádio para que eu dormisse e por causa disso eu me amarrava em um som de saxofone. Fechei os olhos tentando capturar a imagem de Letícia mais jovem e antes da doença. Mesmo quando começou a esquecer, ela continuava sendo minha rainha e a mulher mais linda que eu havia visto.
- ?
A forma como meu corpo respondeu a sua voz foi ridícula; um tremor transpassou minha espinha e pude sentir um calor bom e tranquilizador dominar meu corpo. Enxuguei as lágrimas e rapidamente me sentei.
Faziam exatamente duas semanas desde que o vira e ao observá-lo deslocado por está na porta do quarto fez meu coração se acelerar. Aos meus olhos era quase um deus da beleza, mas, como uma observadora experiente, poderia dizer que ele não estava passando pelos melhores dias: seus olhos estavam cheios de olheiras e seu cabelo sempre arrumado parecia ter sido atacado por um bando de passarinhos - ainda continuava usando um daqueles ternos que deveriam custar meu rim, contudo. O observando por aqueles longos segundos nunca tive uma vontade tão absurda de abraçar alguém.
E eu iria - com certeza iria, se não me lembrasse de seu olhar prepotente em minha direção na Cidade do México ao beijar uma loira desconhecida.
- Como você entrou aqui?
pareceu surpreso com minha atitude rude, mas se recompôs rapidamente.
- Uma mulher lá da sala disse que eu poderia entrar; que você estava aqui e que não tinha problema. - Justificou. - Eu sinto muito pela sua mãe. Estou tentando falar com você há dias.
Cruzei os braços me mantendo firme para não ceder no seu falar manso.
- Deveria ter falado comigo quando estávamos no México. - Alfinetei - Ia pegar a notícia quentinha.
Ele franziu o cenho como se eu tivesse falando uma língua diferente da sua.
- Do que você está falando? Pensei que estava ocupada trabalhando. Não queria te distrair com minhas ligações. - Respondeu entrando no quarto.
- Eu vi você no México com uma "amiga". - Repliquei - Não precisa mentir, de verdade.
- OK. - Ele falou devagar - Eu não estava no México. Pra ser sincero não piso naquele país faz dois anos.
O miro com os olhos cerrados, não entendendo o porquê da mentira. Isso me decepciona mais ainda e fico me perguntando se ele teria mais a esconder. Agora sabia exatamente o que Jean devia sentir quando eu ficava dando informações evasivas para ela.
- Olha, eu vou precisar de dez meses para conseguir pagar todo o dinheiro que você me emprestou. - Falei mudando de assunto - Ainda hoje vou passar mais da metade, já que não tivemos muito tempo para aproveitar...
- Não se apresse para dá o dinheiro, você sabe. - Advertiu tranquilo - Não preciso do dinheiro para ser sincero, mas aceito de volta porque sei que é muito orgulhosa.
Ele fez menção de levantar os cantos da boca, porém não pude acompanhá-lo. Fiquei de pé sentindo o estômago revirar com os pensamentos que não era tão meu amigo quanto ele queria que eu visse.
- Agora que estamos resolvidos quanto a isso. - Suspirei cautelosa - Acho que deveríamos nos afastar. Não está dando certo essa amizade se não há confiança. Por que você não confessa que estava no México? Meu Deus, eu só...
- , por tudo que é mais sagrado, - ele puxou os cabelos loiros para trás - o que diabos você está falando? Eu passei aquele final de semana jogando FIFA em casa. Na minha casa aqui, nesse país.
Bati o pé ficando nervosa.
- Eu vi você, . - Repliquei estarrecida - Você não precisa negar nada para mim! E daí se você estava acompanhado? Nós não somos nada além de amigos. Ao menos eu achava que éramos.
- Agora foi que deu! - Ele começou a bater o pé no chão - Você ver um cara loiro aleatório de terno com uma mulher e acha que sou eu.
- Escuta aqui, engomadinho: se tem uma coisa que eu tenho que é perfeito é a minha visão. - Respondi irritada. - Seja homem e confesse!
- Por acaso você está em algum estado traumático que faz as pessoas verem coisa? - Indagou ele parcialmente preocupado.
- Agora eu sou louca? Vai me dizer que não tem tatuagem também? Aliás, não sabia que juristas podiam ter tatuagens. - Minha voz subiu o tom e senti que estava a ponto de sair do meu auto-controle e entrar em uma crise histérica.
Ao contrário que eu esperava, parou por um segundo para pensar.
- Eu não tenho tatuagem nenhuma, . - Falou com a voz mansa.
- E você vai me dizer que eu...
- Me descreva exatamente o que você viu. - Pediu ele me interrompendo.
Cruzei os braços e revirei os olhos.
- Se quer saber como você é de roupa de banho, vista uma sunga e se veja no espelho, oras!
colocou a mão no rosto estressado. Ele já estava ficando vermelho de raiva.
- Você ainda vai me fazer perder a cabeça, mulher! - Reclamou - Eu posso provar que não tenho tatuagens.
Abri a boca para replicar, mas fiquei muda quando o vi começar a tirar o paletó. Comecei a gaguejar algo parecido com "o que você está fazendo?", mas antes que terminasse ele já estava tirando a gravata, irritado. quase arrebentou todos os botões de sua camisa azul clara de primeira linha e abri a boca surpresa quando ele abriu-a para que eu visse seu peito.
estava tirando a roupa no meu quarto, pessoal! What a time to be alive.
- Feliz? - Perguntou ele exasperado.
A primeira coisa que eu pensei ao ver o peito de era que ele necessita urgentemente de ir à praia. Sua pele era branca do tipo que implorava por um pouco de sol. A segunda coisa foi que o destino sabe o que faz, realmente, porque meu destinado não era musculoso como . Ele era magro, mas não do tipo esquelético e sim o ideal. Não tinha uma barriga cheia de gominhos, mas era sequinha como uma pessoa do peso normal. A única coisa que evidenciava alguma atividade física era seus ombros extremamente largos que nunca tinha prestado atenção.
Que homem!
A terceira coisa e última que prestei atenção era a mais importante obviamente; não havia nenhuma tatuagem no corpo de .
Mas que merda?
- Talvez eu esteja louca. - Afirmei em resposta.
riu e balançou a cabeça. Escondeu aquela linda visão que tive com a camisa novamente e sentou na cama como se estivesse muito cansado daquela discussão.
- Só não entendo porque eu vi alguém igualzinho a você no México. E ele olhou para mim e tinha os mesmos olhos...
se enrijeceu enquanto colocava os últimos botões da camisa. Meu destinado fechou os olhos sem acreditar.
- Você lembra qual era a tatuagem que ele tinha no peito?
Franzi o cenho tentando relembrar daquele dia, apesar de ser um borrão na minha cabeça. Tanta coisa aconteceu naquele dia.
- Acho que era uma serpente.
Minha resposta não pareceu agradar-lhe. colocou as mãos no rosto e ficou calado por um tempo. Sentei ao seu lado e pus afaguei seu ombro. Estranhamente, eu estava o confortando quando a que acabara de se tornar órfã ali não era .
- Você tinha razão.
Sorri debochada.
- Eu sempre tenho, mas o que foi exatamente que acertei dessa vez?
Ele olhou para frente e depois para os dedos da sua mão.
- Não há confiança em nós. - Ele disse - Eu não lhe contei tudo.
- Vai me dizer que você tem um irmão gêmeo do mal que estava no México? - Brinquei lembrando de ter assistido uma novela parecida com isso.
A brincadeira morreu quando olhou para mim sofrido sem dizer uma palavra.
Putzgrila.
- Você... Você... Você tem um irmão gêmeo? - Arregalei os olhos - Por que isso não tá no Wikipedia?
Ele riu triste.
- Porque para o mundo ele simplesmente... Sumiu. - Respondeu e pude ver que era um assunto delicado.
- Ele é seu irmão mais velho? O que você tinha me dito mês passado?
concordou com a cabeça.
- Nossa. - Falei me sentindo mais magoada do que deveria - No mesmo dia que você disse que queria minha amizade. Estou vendo agora no que ela é baseada. Vai me dizer que seu nome não é também?
Ele levantou-se irritado.
- OK, eu posso ter errado por ter omitido essa informação...
- Uma informação muito importante, devo dizer. - Resmunguei.
- ...Mas você também está escondendo coisas de mim.
Olhei-o ultrajada.
- Minha vida é um livro aberto. - Gritei.
- Então me diga como seu pai morreu. - bradou em resposta e estremeci com suas palavras - Me diga porque você nunca se preocupou em procurar os pais da sua mãe quando ela adoeceu!
A tensão era quase palpável e as lágrimas teimosas começaram a se acumular atrás dos olhos. Não era justo ele jogar aquilo no meu rosto, simplesmente...
- É algo muito pessoal para mim. - Sussurrei.
- Muito bem. - Vi seus olhos marejar - Minha família também é um assunto delicado para mim.
Ficamos sem fala por um bom tempo, um olhando para o outro esperando alguém ceder. Eu, entretanto, não podia jogar esse jogo por muito tempo.
- Você não sabe o quanto me doeu não ser você a me abraçar no velório. - Falei assim que comecei a chorar. - Eu senti sua falta e pensar que você tinha mentido para mim... Doeu. Muito. Sei que nós não temos nada, mas...
- Você é minha destinada, , e não há nada no mundo que possa mudar isso. - Ele me interrompeu - Eu não falei sobre meu irmão, porque é algo muito complicado para mim e espero que compreenda, assim como eu compreendo você.
Enxuguei as lágrimas que molhavam meu rosto.
- Desculpe por ter bloqueado você no celular. - Pedi - Foi infantil da minha parte.
- Desculpe por não ter contado sobre meu irmão gêmeo. - Ele disse.
Sem mais delongas joguei-me em seus braços e o apertei com força. O calor do corpo de me conforta e tirava aquele medo de não parecer forte.
Eu não precisava parecer forte.
E com esse pensamento chorei em seus braços as lágrimas que deixei de derramar no funeral da minha mãe.
...
Fazia anos desde que eu fui mimada por alguém. Mesmo com Jean me ajudando com os afazeres de casa, era mais porque ela gostava de se ocupar com coisas da casa do que com livros. Eu não entendia, realmente, mas cada um é cada um, não é? Apesar disso, nunca Jean foi uma empregada dentro de casa. No geral, eu fazia minha parte e ela apenas cozinhava.
Pareceram horas, mas no fundo sei que não foram mais do que minutos que fiquei aninhada nos braços de . Era uma sensação tão gostosa que já não queria deixá-lo tirar sua mão masculina, mas leve, de meu cabelo e afastar o calor do seu corpo contra o meu.
- Quem lhe avisou que minha mãe morreu? - Indaguei depois de um tempo com a voz fanhosa.
- Quem mais seria? - Sinto seu peito tremer quando ele riu.
- Carter é um fofoqueiro. - Afirmo.
Rimos e eu afastei minha cabeça para olhar para ele.
- Dê a ele crédito. Ele demorou cinco dias e um suborno para me dá uma resposta.
- Ah, é? E que suborno foi esse? - Perguntei curiosa.
- Logo logo você vai descobrir.
- Vou sentir falta dele e de sua chatice do dia a dia. - Comentei como de quem não quer nada.
- Te mudaram de setor e já tem um novo chefe? Que milagre você fez na conferência? - Indagou surpreso.
- Não, eu vou me demitir.
me olhou como se eu tivesse acabado de dizer que a Terra era quadrada.
- O quê? Por quê?
- Não dá, . - Falei olhando para meus pés - Eu só entrei na Coral pela minha mãe e agora que ela se foi, eu não sei.
- Então, dessa vez, faça algo por você e não deixe o emprego que você ama. - Aconselhou ele com a mão no meu ombro. - Ao menos converse com Albert antes de mais nada, está bem? Não é bom fazer escolhas assim depois de uma perda como a sua, .
Balancei a cabeça concordando meio confusa com as palavras de . Será que eu me arrependeria se saísse da Coral? Passei as mãos no meu rosto tentando acordar para realidade. Parecia que tinha desaprendido a fazer escolhas importantes.
- Vou pegar uma água na cozinha, posso? - Perguntou de repente.
- A casa é sua. - Garanti mesmo estranhando aquela pergunta - Se Jean ainda estiver aí peça para ela ajudá-lo. Ah, e pense bem em uma desculpa para essa camisa molhada. Vou pra sala daqui a pouco.
- Sim, senhora. - Respondeu com um sorriso.
Depois de lavar o rosto pós-choro, comecei a pensar no que tinha falado sobre continuar na Coral. Com certeza não teria problemas para voltar a qualquer dos meus primeiros empregos, mas as vantagens de trabalhar na Coral eram muito maiores. Eu devia fazer uma decisão e logo.
Foi por causa daqueles pensamentos e a extrema atenção que eu dava a pasta entregue por Albert a mim há algumas semanas que me impediram de ouvir a discussão de primeira. Quando consegui escutá-los, segui até a sala com passos de gato. O que diabos estava acontecendo?
Ai, meu Deus do céu. Que merda.
Foi as primeiras frases que surgiram na mente ao ver e discutindo na sala. Quis gritar para que Grey saísse de minha casa, porém nem ele nem parecia ter notado minha presença. Apesar do meu ex ser maior que meu destinado, falava com uma frieza tão calculista que quase não acreditei que era a mesma pessoa perdida que debatia comigo a uma hora atrás. Mesmo todo bagunçado, ele tinha sua pose arrogante de sempre, uma mão no bolso e a cabeça inclinada para esquerda como se falasse alienígena; por outro lado, estava Grey já vermelho de raiva pronto para uma briga.
E, sentada no sofá, Jean assistia tudo de camarote como se fosse a briga do século.
- Você não tem direito de pisar nessa casa sem a autorização da dona, não interessa quanto dinheiro você tem! - Gritou - Seu carro zero não me impressiona.
- Me admira você esperar que eu compre alguma coisa para impressioná-lo, senhor... - tocou no lábio dramaticamente - Como é mesmo seu nome?
- Escuta aqui, seu... - Replicou com os punhos cerrados.
- Sem ofensas, por favor. - Disse sem se abalar - Sem violência também, não vai gostar de ter que limpar sangue do chão.
- Quem é você para dizer alguma coisa sobre a ? - Indagou ele incrédulo - Ela vai ficar é feliz por ter tirado você da casa, seu corrupto de merda.
Vi uma veia saltar do pescoço de e ele deu um passo para frente quase esbarrando em . A raiva pairava sobre o cômodo e eu quase a sentia em meus poros.
- Você não me conhece e não vai querer conhecer meu pior lado, . - Ameaçou - Se você entrar na vida da mais uma vez para machucá-la, vou lhe massacrar tanto que você irá pedir para entrar no inferno mais cedo. Aliás, sou , o destinado da .
- Ah, com certeza você é o destinado dela. - Zombou Grey descrente - Só porque veio se aproveitar da situação frágil dela já se acha o dono quando eu cheguei primeiro.
o olhou ultrajado e abriu a boca para retrucar, porém falei primeiro.
- Uau, por essa eu não esperava.
E vi os três (incluindo Jean) olhar para mim.
Sorri para eles e me aproximei de . Segurei seu rosto em uma posição reta ainda com uma expressão amável.
- Se você se aproximar dessa casa ou mesmo olhar para ela, deixarei meu destinado fazer o que ele quiser de você. Sabe por que, ? Eu não dou a mínima. - Falei e o tapa prometido foi direto em seu rosto. - Saía! Agora!
Nunca o vi tão humilhado assim como nunca tinha sentido uma raiva tão descomunal como aquela. Se eu fosse mais um pouquinho corajosa eu lhe dava um soco, porém ainda tinha amor a minha vida - qual é? O cara dava dois de mim.
Olhei para e o vi com a boca aberta com minha atitude. Ele deve ter se sentido decepcionado em saber que sua destinada não era uma lady. Coitado.
- Onde está a água? - Perguntei quando o barulho da porta ressoou na casa.
- Não tive tempo de buscar. - Respondeu ainda embasbacado.
Direcionei-me até a cozinha como se nada tivesse acontecido, mesmo minha mão estando ardendo. Jean e me seguiram calados e nós nos sentamos ao redor da mesa quase que sincronizadamente - depois de pegar a água, é claro. Não conversamos sobre aquela discussão totalmente sem sentido para mim. Não queria saber como entrou mesmo depois de tê-lo expulso da minha casa, mas tive certeza que precisava trancar as portas com mais frequência. Já estava virando bagunça isso.
- Bem, Jean, esse é o meu destinado. - Apontei para ele - , essa é a minha melhor amiga.
Eles estenderam as mãos e apertaram diplomaticamente.
- É um prazer, . - Falou Jean - Você é o advogado, não é?
Modestamente, meu destinado respondeu que sim, mas não atuava como tal, e logo eles começaram a falar de algo que eu não prestava atenção.
O barulho de alguém batendo a porta quase me fez gritar um palavrão em voz alta, mas sua insistência me deixou preocupada. Andei rapidamente até a entrada e abri esperando uma visita qualquer para me dá os pêsames.
Qualquer sentimento de indiferença que me dominava passou ao ver Adolf quase Hitler na minha frente. Ele tinha um bigode horroroso e era alto. O magricela tinha sua própria cara de assassino e ele me dava nos nervos desde a adolescência quando ficou responsável em cobrar o aluguel das casas do meu bairro.
- Parece que ainda está de luto. - Falou ele sem cumprimentar-me - Falta quantos dias até você começar a mendigar?
- O que você quer? - Perguntei com os dentes cerrados e apertando a maçaneta em minhas mãos.
- Meu dinheiro. - Ele respondeu com o seu sorriso sem dois dentes de baixo.
- Em um sábado? - Levantei a sobrancelha sem entender.
- Operários também trabalham no sábado, caso você não saiba. - Replicou rude - E já que você subiu oficialmente duas alas, vim trazer seu novo carnê.
Segurei o carnê temerosa e arregalei os olhos quando vi que, agora que eu era da Ala M, teria que pagar mais que oitenta por cento do meu salário na Coral.
- Isso é um absurdo! Eu não vou me mudar. Vou continuar com uma casa da Ala O, por que tenho que pagar por ela como se fosse de outra Ala? - Reclamei.
- Regras são regras, minha querida. - Disse sarcasticamente.
- Que regras? - Indagou aparecendo por trás de mim. Pulei de susto quando o vi se inclinar para ver o carnê.
- Isso é o que vale na Ala O? Não me admira que as pessoas estão começando a empobrecer cada vez mais nessa cidade. - Comentou ele ao ver o valor em minhas mãos.
- É da Ala M, na verdade. - Respondeu Adolf - Aliás, quem é você?
- . - Ele disse simplesmente - E de acordo com o Artigo 12 da Lei da Casa Própria de 2020, encontrada na Lei da Divisão por Alas, isso não é legalmente aceitável a não ser que ela compre o imóvel de...
- Ora, ora. - O interrompeu Adolf - Parece que alguém arrumou um namoradinho que sabe ler. Quem sabe você não explica a ele que ninguém liga para o que a lei diz, hã? Deve ser novato, coitadinho...
Vi apertar os lábios tentando controlar o ódio e olhei compartilhando do mesmo sentimento.
- Estou sem dinheiro aqui. Irei pagar no dia que vencer, Adolf. - Avisei altiva - Tenha uma boa tarde.
E, delicadamente, fechei a porta em sua cara.
- Preciso da cópia das últimas três contas que você pagou, . - Falou enquanto me seguia até a cozinha - O mais rápido possível.
- O que aconteceu? - Perguntou Jean curiosa.
- A mãe do Adolf não o abortou quando teve chance, foi o que aconteceu. - Resmunguei rancorosa.
- Quanto você paga de aluguel todo mês, Jean? - Pesquisou meu destinado.
- Para o que você quer saber? - Indagou desconfiada.
- Apenas me diga: vocês pagam mais que vinte e cinco por cento da renda mensal no aluguel da casa? - Investigou persuasivo.
- Entre trinta a quarenta por certo. - replicou ela.
- Sabia! - Ele comemorou e eu sorri com sua animação quase infantil - Por causa do número de pessoas, não é verdade?
Ela assentiu entendendo tanto quanto eu: nada.
- , tenho que ir. - falou já em direção à porta da cozinha.
- Aonde vai com tanta pressa? - Indaguei confusa.
sorriu para mim e meu coração deu um pulo.
- Tenho um processo contra uma seguradora de imóveis para abrir. - Respondeu e sumiu logo de vista.
Jean olhou para mim e eu olhei para ela. Demos ombros juntas.
E aquele foi o dia mais estranho que já tive.
...
Olhar para a fachada da Coral depois de todo aquele tempo em casa me deu a sensação que não pisava lá a séculos. Eu havia determinado o tempo de um mês até decidir se queria ou não ficar na empresa - estava certo, precisava pensar.
Pude sentir os olhares de pena em minha direção, mas não me importei. Cumprimentei menos gente, é claro, pois minha animação estava negativa naquela segunda-feira; graças a Deus havia total de zero pessoas no meu andar além de Albert, que fora super compreensivo em me dá mais uma semana para fazer o relatório da conferência. O dia foi morno e passei a maior parte do tempo calada digitando algo no notebook.
Tentar voltar a rotina não foi fácil. Até mesmo fazer caça-palavras não me distraia e eu só desejava entrar dentro de casa, tomar banho e dormir. Eu estava oficialmente na fossa.
Enquanto chegava perto de casa, senti o celular vibrar avisando que a transferência do dinheiro que devia a foi efetuada. Faltava alguns meses para quitar toda a dívida, mas já estava em um bom começo.
Percebi que havia algo errado quando vi que a porta estava aberta. Com o coração acelerado, andei devagar pela casa escura segurando minha bolsa para usar de arma. Liguei a luz preparada para o pior e vi minha sala toda revirada e pintada de vermelho e azul. O horror cruzou meu rosto quando vi que nem mesmo o banheiro havia sido poupado, mas a maior dor foi ao entrar no quarto da minha mãe.
"Fique calada"
Estava escrito em vermelho e azul na parede e embaixo da mensagem todas as coisas da minha mãe que coloquei em uma caixa estavam banhados de azul.

Capítulo 13

"Você usa o seu coração em sua manga e eu uso o meu sangue em minha gravata. Mas é só o amor por baixo desse disfarce." - Collide, James Bay.
— Senhor Jesus Cristo!
Exclamou Annie, mãe de Jean, depois que chamei ela e sua filha para ver o que tinha acontecido.
Minha bolsa ainda estava pendurada no ombro, mas assim como o resto da minha vestimenta, estava repleta de tinta.
Ao ler a mensagem macabra para ficar quieta, ironicamente liguei para . Infelizmente não faço ideia o porquê daquele ser meu impulso, mas agora era tarde. já estava à caminho.
— Como alguém pode ser tão baixo? O que ia ganhar com isso? — Annie verbalizou as palavras que vibravam na minha cabeça.
Nem mesmo a televisão sobreviveu para contar a história — ela havia sido massacrada por um taco de beisebol e tinha vidro espalhado por toda sala.
Os pertences da minha mãe já haviam sido revirados por mim: consegui salvar apenas a foto do meu primeiro ano de vida e uma selfie guardada no drive do celular.
Apenas isso.
Comecei a tremer quando a realidade pareceu mais clara aos meus olhos.
Minha casa. Minhas memórias. Meus pertences. Tudo que um dia os s tinham construído.
Tudo se foi.
Corri os dedos pelos cabelos e os puxei. As lágrimas escorregaram pela minha bochecha e uma queimação corroeu a garganta. Devagar fui até o banheiro, agradecendo aos céus pelo fato de Jean nem Annie me ver desabando, e fechei a porta. Sentei na bacia suja de tinta e deixei toda aquela tristeza sair de mim.
Abri a boca e tentei gritar, mas o som não saía. Os soluços seguiram-se quando desisti de me recompor.
O que eu iria fazer?
, abre a porta. Sou eu, .
A voz aveludada de meu destinado me fez abraçar-me com frio. Não queria que ele me visse assim no fundo do poço. Não estava disposta a bancar a criança chorona na frente de de novo.
O silêncio foi minha resposta para ele.
— Eu vim para ajudar, .
— Vá embora. — Falei com a voz rouca — Depois nós conversamos.
— Quero conversar com você agora. — Disse teimoso.
— Você não precisa ser meu super herói. — Repliquei olhando feio para a porta — Salve o dia de outra pessoa.
— Deixe-me ser seu coadjuvante hoje à noite. — Sussurrou.
Aquilo mexeu comigo o bastante para cair no choro mais uma vez.
— Oh, meu amor, abre a porta. — Implorou angustiado.
Estranhamente comecei a rir mostrando que já estava chegando a um estágio perigoso de insanidade.
— A porta não tá trancada. — Avisei.
Segundos depois o som da madeira sendo empurrada ecoou pelo cômodo e vi um completamente alinhado com um terno cinza escuro. Não havia nem mesmo um fio de cabelo fora do lugar, o que me fez me sentir mais miserável. Provavelmente eu estava com a maquiagem borrada e minhas roupas estavam manchadas de azul e vermelho.
agachou-se na minha frente e quase bateu a cabeça na pia. O banheiro era minúsculo e parecia menor ainda com a presença dele.
— Olhe pra mim. — Pediu carinhosamente segurando meu rosto.
Eu amava os olhos de . Eles eram escuros e pretos; um mistério profundo demais para ser descoberto com facilidade. Entretanto, ao mesmo tempo, ele passava uma confiança que poucos transmitiam. Eu confiava nele e aquilo no fundo me assustava.
— A culpa foi minha. Eu entrei com um processo contra a companhia de imóveis e seu nome foi vazado de alguma forma. — Explicou devagar — Eu vou resolver isso, está bem?
— Como você tem tanta certeza que foram eles? — Indaguei tentando digerir aquela ideia.
— Azul e vermelho é a combinação de cores do slogan. — Afirmou ele — Você não é a primeira que sofre algo do tipo, mas se depender de mim será a última. Até lá preciso que você esteja em um lugar seguro ou não conseguirei me concentrar em mais nada.
— Eu estou bem, não vê? Só foi uns objetos. O importante é ter saúde. — Caçoei deprimentemente.
, você vai ter que vir comigo. — Explicou paciente — É só por um tempo até que as coisas acalmem e o caso vá ao tribunal.
— OK. — Respondi desconfiada — E qual é o seu plano?
Ele me olhou estranho por ter concordado tão rápido.
— Primeiro você vai morar na minha casa.
— Ah, não. A resposta é não. — Falei me levantando.
olhou para o teto com uma expressão de "dai-me paciência" e se levantou.
— Claro que não seria fácil. — Murmurou.
— Eu não vou morar com você, . — Falei decidida — Isso é ridículo! Eu posso muito em ficar na casa da Jean por um tempo!
— Ah, é? — levantou a sobrancelha — A mesma mulher que tem uma casa do tamanho da sua, que mau cabe duas pessoas e que tem um irmão, que por acaso mora lá também, e você o detesta?
— Tem as meninas do meu trabalho que com certeza me dariam abrigo. — Repliquei.
— E você prefere incomodá-las quando eu estou oferecendo minha casa por só alguns meses?
Olhei para ele com a melhor cara de tédio que eu conseguia fazer.
— Vou tentar achar alguma roupa sobrevivente e já lhe acompanho.
Infelizmente todas as roupas que não estavam na mala que levei ao México tinham sido banhadas de novas cores. Tentei, em vão, não pensar que o trabalho de anos de Ivanna tinha sido destruído em algumas horas. Me despedi de Jean e segui os passos de um silencioso. Queria saber mais do seu plano, mas resolvi ficar calada e tentar não estressá-lo.
— Tenho impressão que você é um animal enjaulado. — Comentou ele parando na frente de casa.
— Eu estou indo morar com alguém que conheci em menos de dois meses, dê-me um tempo. — Resmunguei abraçando a bolsa de plástico que continha minhas roupas.
— Já se passaram mais de dois meses. — Murmurou olhando pelos lados da rua. — Não se preocupe, não vou lhe atacar durante à noite.
Deixei os ombros caírem me sentindo culpada pelo comentário. estava apenas sendo gentil e solícito, eu não precisava ser tão idiota.
— Olha, , eu...
Não tive tempo para terminar a frase, pois ele agarrou meu braço com força e me empurrou para o carro.
— Vamos, logo! Logo! — Ele disse com os dentes trincados.
Então, percebi que o motorista havia aberto a porta do carro com a mesma afobação do meu destinado. Olhei para trás e vi três rapazes na faixa dos vinte segurando armas que tecnicamente apenas militares poderiam ter.
Antes que eu pudesse entrar em pânico, ouço gritar para que o motorista acelerasse. Os tiros foram ouvidos e alguns foram direcionados ao carro, entretanto percebi que nós não éramos seu alvo. Fiquei nervosa pensando na segurança de Annie e Jean, mas ver que o bairro estava quase todo deserto me fez torcer para que elas já soubessem do ocorrido. Iria tentar entrar em contato com elas assim que pudesse.
— Para casa, senhor? — A pergunta de Carlos me fez voltar a realidade.
— Sim, isso mesmo. — Murmurou .
Vejo-o largado no banco de trás daquele carro luxuoso e observo a cor começar a voltar de seu rosto. Seu peito descia e subia quando ele tentava acalma-se e sua testa estava molhada de suor; esqueci-me completamente que aquele tipo de cena não era comum para alguém como .
— Está tudo bem? — Indago suavemente.
Ele soltou um pouco o ar e deu uma risadinha.
— Só você pra me fazer pisar naquele vale da sombra da morte.
Soltei uma risada enquanto o via mexer no painel para fechar a janelinha que ligava ao motorista.
— Por isso eu quero agradecer. — Disse e então tive seus olhos bem atentos em minha direção.
— Fale mais.
— Eu tenho sido bem idiota com você e mesmo assim você continua ao meu lado. Não mereço tanta atenção. — Expliquei sincera — Você é simplesmente bom demais pra mim.
— É um prazer servi-la, majestade. — disse com um sorriso.
— Agora você pode me explicar o que diabos está acontecendo?
contou sobre a L&James, a construtora terceirizada pelo Estado responsável pelas Ala M abaixo. Há vinte anos, contudo, havia cerca de três empresas responsáveis pela organização dos bairros periféricos, concorrentes, davam uma assistência mais proveitosa ao moradores, agora cuidavam da Alas acima e deixaram tudo na mão da James. Eles tinham um grande histórico de falcatruas que sumiram antes mesmo de chegar ao tribunal com acordos miseráveis ou até desaparecimentos de parentes ou mesmo das vítimas.
— Meu advogado alertou sobre o que poderia acontecer e eu já estava disposto a conversar com você sobre isso, quando recebi sua ligação. — Completou — Sinto muito por não ter alertado antes.
falou que achava melhor não envolver Jean para que ela não fosse prejudicada. Já havia tirado fotos e mandado para um detetive particular, pois até mesmo a polícia estava envolvida no sistema.
— Além do mais, vamos ser sinceros e dizer que sua posição econômica influencia muito. Não poderei fazer muita coisa, também.
No dia seguinte ele me levaria para conhecer o par de advogados que antes eram seus ídolos e agora se transformaram em seus empregados.
— Eles são simpáticos, lhe garanto.
Demorou mais do que eu esperava para chegarmos nos bairros isolados da Ala A. Os portões eram de ferro e as casas tinham hectares e mais hectares de distância uma das outras. O clima desértico daquele lugar, no entanto, passava uma tranquilidade que nos bairros mais pobres não transmitiam.
Se a Ala O estivesse calada algo de ruim estava para acontecer.
Não pude de deixar de ficar surpresa com a mansão que vivia. Veja bem: jovens solteiros e milionários costumavam viver em apartamentos luxuosos, não em casas que geralmente agregavam famílias enormes. Fiquei pensando em quão solitário deveria se sentir às vezes e que ter alguém dentro de casa não fosse nenhum sacrifício para ele. Seu jardim era do tamanho da minha rua, bonito e muito bem iluminado. Vi alguns homens vestidos de terno passeando por lá e os identifiquei como seus seguranças.
Acho que durante esse tempo em que conheci esqueci-me que ele era podre de rico. Apesar de não agir como se fosse, ostentava coisas luxuosas como todo e qualquer bilionário — por que diabos o destino achou por bem que aquele homem que se limpava com notas de cem fosse o meu destinado?
— Você costuma andar só com o Carlos? — Perguntei — Não há outro segurança?
— Carlos é quem fica na minha cola a maior parte do tempo — Explicou — Os outros seguranças que costumam acompanhar minha rotina estavam com o carro na oficina e não chegaram a tempo de vir até a sua casa. — ele deu os ombros — Carlos é suficiente para mim.
Assenti admirada com sua confiança. Se eu fosse rica e tivesse seu poder político andaria desconfiada o tempo todo.
Ao entrar na sua garagem outra surpresa: a coleção de carros. Estávamos em um carro blindado com uma plaquinha indicando seu cargo público e aquilo era demais para mim. No entanto, aqueles diversos modelos de automóveis que só vemos na TV era total novidade. Quer dizer, quando nos encontrarmos para acertar o trabalho da Hope ele portava um carro diferente desse, mas não esboçava tanta riqueza.
Ignorando minha total falta de jeito diante de tanto luxo, abriu a porta do carro e pediu para que eu o acompanhasse. Parei por alguns segundos quando vi uma Dodge vermelha estacionada.
Segurei o riso quando tentei imaginar , com seu terno super refinado, em cima de uma moto.
Algo me dizia que aquilo não era a cara dele.
Entramos em um elevador e subimos para o que era o primeiro andar. Passamos por um corredor com algumas luminárias e chegamos dentro de uma cozinha que cabia uns quinze chefes. Estou falando sério.
— Vou te levar pra seu quarto. Se quiser pode escolher. — Disse ele enquanto me empurrava delicadamente pela cintura.
Subimos uma escada e desviei o olhar de cada uma das portas. Exploraria a casa mais tarde e alimentaria minha curiosidade quando estivesse sozinha.
— Direita ou esquerda? — Perguntou ele apontando para os últimos quartos do corredor.
Dei os ombros em resposta assim que consegui desviar os olhos do lustre.
— Por que você não tem um apartamento como a maioria dos solteiros da Ala A? — Indaguei sem conter a curiosidade.
— Ganhei essa casa da minha avó como presente de casamento. — Replicou ele e pude perceber seus olhos ficarem gelados.
Virei-me para cuidadosa observando o homem que compartilharia a casa comigo pela minha segurança. Ele estava sério e meticuloso; daquele jeito eu conseguia reparar algo que dificilmente era visualizado em : ele não tinha tanta cara de pivete. Tinha olheiras discretas e um maxilar quadrado bastante masculino. Seu olhar, o que eu adorava admirar, naquele momento parecia de alguém muito mais velho do que ele era.
Diabos, o que aconteceu com ? Por que ele parecia ter sido tão machucado quanto eu?
— Vocês foram casados por quanto tempo?
— Seis meses. — Ele desviou a vista para algo atrás de mim — Vó achava que eu deveria esperar mais um pouco para casar, mas eu não a escutei. Se arrependimento matasse... — Suspirou — Quer conhecer seu quarto?
Assenti e ele abriu a porta.
— Uau! — Exclamei — Isso aqui é do tamanho da minha casa.
O quarto tinha uma decoração bastante modesta e impessoal, porém não deixava de ser organizada e valer mais do que tudo que eu ganhava em um ano.
— Tem um closet ali. — Ele apontou para um canto do cômodo — E o banheiro é do outro lado. As empregadas costumam arrumar os quartos a cada dois dias. Só o meu que demora mais alguns dias por segurança. Você tem alergia a algum produto?
Neguei com a cabeça embasbacada.
— A casa costuma tá deserta de noite, os seguranças ficam do lado de fora.
— Você não acha isso um pouco demais? — Indaguei sentando hesitante em cima da cama. — Pra cuidar dessa casa parece complicado e você mora sozinho e tal...
sentou-se do meu lado e relaxou os ombros. Ao contrário de sua postura sempre impecável, ele apoiou os cotovelos na coxa deixando suas costas corcundas.
— Isso tudo foi a última coisa que minha avó me deu antes de entrar em coma induzido. — Replicou ele e pude ver seu olhar longínquo e nostálgico mais uma vez. — No começo pensei em voltar para meu antigo apartamento, mas eu gosto daqui.
Balancei a cabeça concordando.
— É um verdadeiro palácio isso aqui.
— Eu sei. — Riu constrangido — Nem mesmo a casa dos meus pais é tão requintada. Ah, você já comeu? Posso pedir alguma coisa pra gente.
— Então quer dizer que não tem uma cozinheira esperando eu dar as ordens por aqui? — Brinquei olhando para os lados — Que coisa de pobre!
Ele soltou uma risada e se levantou.
— Pizza com cogumelos?
Franzi o cenho.
— Nunca comi. É bom?
sorriu lentamente daquela forma que derretia corações e piscou.
— Tem algumas toalhas no banheiro e sabonete, caso você queira tirar essa tinta. — Apontou para as minhas mãos sujas já esquecidas por mim. — Vou ligar pra pizzaria e tomar um banho. Seja bem-vinda.
— Obrigada. — Sorri para ele.
Assim que a porta foi fechada, andei cautelosa pelo quarto. O closet tinha apenas uma calça moletom da Adidas que eu não fazia ideia de quem era duvidava muito — que coubesse em e era grande demais para uma mulher.
Quase soltei um gritinho entusiasmado quando percebi que agora eu ia poder tomar banho de banheira após um dia cansativo de trabalho. Tomei um banho de cabeça e passei um bom tempo olhando a tinta azul e vermelha se misturar e descer pelo ralo.
Como em tão poucas horas o cenário da sua vida pode mudar tão drasticamente? Ainda não entendia como eu aceitei vir pra esse lugar tão luxuoso por causa da minha segurança.
Veja bem: eu nunca fui requisitada, muito menos lembrada facilmente. Nunca precisei de proteção a mais ou até mesmo lidar com a justiça. Desde cedo você aprende que pra delegacia a gente só leva problemas se não puder resolver com um soco ou um chute no meio das pernas. Agora eu estava sob a tutela de um desembargador tendo em mãos quase nada do que era minha vida antes.
E eu me recusava chorar ao pensar nisso no momento.
Vesti o pijama que usei na noite do fim do prazo do Andrew e saí do quarto de fininho. As paredes dos corredores vazios tinham fotografias bonitas do que parecia a Nova Zelândia — aquelas paisagens que só vendo na tela de fundo do computador. Não havia nenhuma de ou da família dele.
Estranho.
Desci as escadas tentando lembrar para que lado era a cozinha — havia três saídas e uma delas era a da porta que acredito ser a principal — quando vi sair do meu lado esquerdo.
Eu havia visto sem roupas sociais apenas uma vez no parque, embora não tenha reparado muito. Agora que estava mais calma e observadora, quase achei que aquele não era meu destinado.
O cabelo dele estava molhado e cheio de cachos loiros, rebeldes sem o gel que ele usa constantemente. Ele usava um casaco moletom cinza escrito Columbia University e uma calça flanela xadrez, os pés descalços, e segurava uma caixa de papelão. havia voltado a aparentar ter vinte e dois a vinte e quatro anos muito rapidamente.
— A pizza chegou. — Avisou balançando a comida. — Me acompanhe, vamos pra sala.
O segui para a direita e entramos em mais um corredor. A sala de estar era localizada em uma das quatro portas e tinha uma televisão grande o suficiente para umas quinze pessoas assistirem sem problemas.
Sentei no sofá cinza, ainda desfamiliarizada com o local, e vi que no centro preto havia uma garrafa de guaraná e dois copos.
— Acabei esquecendo de perguntar o que você queria beber, então trouxe refrigerante, tudo bem? — Explicou ele.
Ao contrário de mim, sentou em cima do tapete felpudo marrom e ligou a TV em um canal qualquer de filmes.
— Seria pedir demais uma coisa mais... forte? — Indaguei constrangida.
Ele passou a mão na testa como se tivesse esquecido de algo.
— Nem passou pela minha cabeça! — Comentou — Infelizmente não tem nada alcoólico aqui em casa, mas posso pedir pra comprar.
Olhei pra ele como se acabasse de aparecer um chifre bem no meio da sua testa.
— Como assim não tem nada alcoólico? Você não bebe? — Perguntei assustada.
Quem nesse mundo consegue enfrentar a vida sem tomar nenhum pouquinho de álcool?
— Eu tomo remédio controlado. — Respondeu evasivo e voltou a zapear os canais.
— Mas você é tão novo pra sofrer dessas coisas!
O silêncio de sua resposta foi bastante constrangedor. Assim que falei aquilo, me arrependi. Que comentário mais desnecessário, ! O que você tem na cabeça?
— Eu comprei apenas metade com cogumelos, caso você não goste. — Disse ele abrindo a caixa e enchendo os copos — Você não liga pra comer pizza sem talheres, né?
Concordei com a cabeça.
— Acho que você é o rico mais doido que já conheci. — Comentei dando uma mordida na pizza. — Digo, tu não tem frescura. Aliás, isso aqui tá uma delícia.
— Mesmo sendo rico desde criança, minha avó nunca me criou com mimos. Só começou a fazer isso quando eu cresci e não tinha muito tempo pra visitá-la. — Respondeu aos risos. — Sinto falta dela.
— Sei como você se sente. — Falei e me sentir mais triste do que o esperado. — Sua avó é como uma mãe, não é?
— Ela era mais pai e mãe pra mim do que meus próprios pais. — Disse ele levantando um pouco a cabeça para me olhar; os pés dele balançando para os lados no chão. — Minha avó me ensinou que isso tudo: os ilustres, o ouro, os móveis caros... Não importa. Elas podem trazer felicidade, mas é momentânea demais.
Senti um calor no peito, algo parecido com orgulho. Sorri para ele e dei mais uma mordida na pizza.
— Então, você gostou mesmo? — Indagou ele.
— Amei. — Falei com a boca cheia.
Conversamos mais um pouco e me explicou algumas coisas básicas como a senha do elevador. Meu destinado também disse que eu precisaria de um segurança por um tempo até que as coisas acalmassem.
E eu, claro, não gostei daquilo.
, não precisa. — Tentei argumentar — Eu já estou morando nessa fortaleza, não vê? A Coral é cem por cento segura. Não quero um homem correndo atrás de mim durante meu trabalho.
— Ele vai ser só um motorista, ! Nada mais do que isso. — Explicou ele — Vai levá-la pra casa e trazê-la.
— E se eu quiser ir para outro canto?
revirou os olhos e bateu o pé impaciente.
— É só dizer onde você quer ir e ele obedecerá, oras.
, tente entender. — Me levantei rápida. — Eu não sou acostumada a ser vigiada. Tudo isso de ser perseguida pela empresa não sei das quantas é novo para mim!
, você que tem que entender uma coisa. — se levantou também, um pouco mais desengonçado do que eu, no entanto seu rosto estava começando a ficar vermelho. — Querendo você ou não, estamos ligados. Nessa sociedade em que vivemos, mesmo se você cage e ande pra mim, todos vão achar que você é o amor da minha vida. Se alguém querer me atingir, vão correndo para descontar em você! Eu não quero que sofra por causa de mim.
— Do mesmo jeito que você entrou com um processo em meu nome? — Explodir — Que fez destruir a minha casa e todas as memórias que eu tinha?
— Ah.
Pela cara que fez, eu o atingir de verdade. Confesso que tinha falado besteira — ele estava tentando me ajudar, pelo amor de Deus.
— Desculpa, . Eu não devia...
Ele saiu andando até a porta ignorando minhas últimas palavras.
— Boa noite, . — Disse de forma fria.
Não dormir naquela noite. Aliás, fiquei na sala o resto da noite pensando em que fazer para pedir perdão a . Eu simplesmente tinha feito uma noite boa se transformar em uma tragédia. Era como se eu fosse doutora na faculdade de fazer merda.
Sentei no sofá toda desajeitada e comecei a assistir um documentário, embora minha mente estivesse longe demais. Não fazia ideia onde era o quarto de e duvidava que ele queria ver minha cara no momento.
Deixaria para amanhã e ficaria de joelhos se necessário.
E depois lhe perguntaria porque no tempo em que estávamos comendo a pizza ele deixou a comida intocada.
...
Acordei enrolada em lençóis de linho parecidas com as do hotel no México. Estava com o corpo mole de exaustão e custei muito para me levantar e procurar o celular. Quando peguei o aparelho em mãos e vi que era seis horas da manhã, eu surtei.
Só dez minutos depois quando eu escovava os dentes e tentava achar a pasta que Carter me deu, foi que eu me lembrei onde estava.
Parte de mim ficou aliviada, mas ainda não tinha certeza se estava atrasada ou não. Quanto tempo até chegar na Coral dali?
Tomei banho e vestir a única calça e blusa que eu possuía. Depois do trabalho eu teria que gastar uma grana preta para repor todo meu guarda-roupa.
Só de pensar nisso meu bolso chorava.
Andei devagar até a cozinha já repetindo as palavras de desculpas para . Me desculpa, sua destinada é uma babaca. Se você quiser vou junto com cinquenta seguranças, mas eles não podem ficar no meu caminho.
Entrei na saída da esquerda, torcendo pra que fosse a certa, mas parei rapidamente quando ouvi algumas vozes conversando.
deve pesar uma tonelada. — Ouvi a voz de murmurar — Devo ter quebrado umas cincos costelas.
— Deixe de exagero. — Uma voz feminina respondeu — Você deve tá se sentindo fraco porque não come direito. Está perdendo peso de novo, !
Ouvi um som de bufar.
— Lá vem você de novo. — Meu destinado reclamou — Não lhe pago pra isso.
— Ah, paga sim. — Uma voz masculina com o sotaque carregado falou — Você paga Rose pra ela te alimentar.
— Vocês dois estão demitidos. — Falou ele sério, mas as risadas que acompanharam sua afirmação mostrou que ninguém levara a sério o que falava.
Nervosa, entrei na cozinha. Três pares de olhos viraram-se para mim automaticamente e senti minhas bochechas ficarem vermelhas de constrangimento. estava sentando na ilha, segurava uma caneca de café e estava devidamente arrumado para o dia de trabalho. De seu lado estava Carlos e uma mulher baixinha, um pouco mais velha do que eu, morena, que arrumava a ilha com alguns pãezinhos e frutas. Percebi que seus olhos eram muito azuis quando ela se virou para mim e sorriu.
— Bom dia, senhorita. — Me cumprimentou — Você deve ser a famosa ! É um prazer conhecê-la. Sou Rose.
continuou a saborear seu café e inclinou-se um pouco para o lado onde havia uma TV.
— Digo mesmo. — Respondi sorrindo para ela — Ainda estou meio confusa, você trabalha aqui com...?
— Ah, sou a cozinheira/governanta/quem ganha mais nessa casa. — Explicou rindo. — Já deve conhecer meu marido, o Carlos.
Minha expressão foi de puro entendimento.
— Ahh! Bem, parece que vou vê-la constantemente agora que me mudei.
Quando eu falei aquelas palavras tudo se tornou mais real. Eu tinha me mudado para a casa de ! O que é que está acontecendo, oh céus?
— Com certeza! Fiz omelete, você gosta? Depois é só me fazer uma lista de coisas que você gosta e farei seu jantar! — Desatou em falar — Não aguento mais fazer comida pra se estragar, nunca come nada. Aliás, converse com ele. Se continuar a não se alimentar direito vai cair duro no chão antes que alguém diga "meritíssimo".
— Ainda estou aqui, Rose. — Protestou mal humorado.
— Já até incentivei ele ir a um médico pra ver essa falta de apetite. — Ignorou o comentário do seu chefe — Vai que é verme?
virou-se para Carlos que, assim como eu, só ria.
— Odeio a sua mulher.
Desconfiada, fui em direção a ilha e sentei na cadeira ao lado. Meu destinado apenas seguiu-me com o olhar me fazendo tremer de ansiedade por dentro.
— Eh... ? Você está muito chateado comigo?
Sentindo o timing, escutei Rose dar uma desculpa qualquer e arrastar Carlos para fora da cozinha. Remexi-me desconfortável no assento com o sentimento de culpa me matando por dentro. Eu tinha vacilado feio demais com e a última coisa que eu queria era machucá-lo.
— Tudo bem. — Ele respondeu baixo e começou a colocar um pouco mais de açúcar no café — Eu meio que merecia aquilo. Basicamente te arrastei para um bairro que você não conhecia e esperei que aceitasse meus termos sem protestos. Não quero controlar sua vida, , longe disso! Se você quiser algum segurança tudo bem, mas se você não quiser, tudo bem também. — Suspirou — Só que a última opção vai aumentar minha enxaqueca.
Sorri desarmada. Eu era a errada da história e mesmo assim estava ele lá pedindo desculpas para mim. Segurei uma das suas mãos livres e apertei-a. Ela era quente e macia em minha palma.
— Não posso prometer que não vou falar nenhuma besteira nos próximos dias. Morar comigo pode ser um saco. — Alertei — Mas prometo me arrepender e dormir mal por causa da consciência pesada.
Ele riu e segurou minha mão firmemente.
— Você me pediu desculpas, sabia? Apesar de estar meio dormindo. — Ele disse olhando para nossas mãos tão bem entrelaçadas — Acabou capotando no sofá.
Franzi o cenho.
— Sério? Não lembro de nada disso. — Falei — O que mais eu disse pra você?
— Bem, você disse que eu era o seu príncipe encantado, que teríamos sete filhos e que meus olhos são a coisa mais linda que você viu. Não necessariamente nessa ordem. — Zombou ele.
Senti meu estômago embrulhar, como se ele tivesse dito uma verdade e jogado bem no meio da minha cara e lhe empurrei para o lado, rindo nervosa.
— Idiota. — Murmurei — Dá até vontade de desistir do segurança só para mexer com sua cabeça.
— Ah, graças a Deus você vai ficar com o segurança. — Ele relaxou os ombros — Minha úlcera agradece.
Voltei minha atenção para comida recém feita e cheirosa da minha frente. Se aquela fartura se repetia todos os dias provavelmente eu engordaria três quilos nas próximas duas semanas.
— Já tem um plano para hoje? — Indaguei enquanto me servia.
— Vou te levar a Coral, te pegar no horário de almoço para falar com os advogados e meu detetive particular vai aparecer aqui em casa às sete, mas você vai voltar com o Nelson, seu novo motorista. — Ele pensou um pouco — Talvez eu chegue tarde, então você vai ter que deixar de molho o detetive por um tempo. Peter costuma ser bem simpático, não acho que você vai ter problemas com isso.
— Quem é Peter?
— Peter Bane, o detetive. — Explicou.
— Hm. — Murmurei limpando minha boca com o guardanapo — E os advogados? Talvez eu os conheça.
— Você provavelmente conhece. Harvey Specter e Mike Ross?
Arregalei os olhos.
— Uau, estou impressionada. — Comentei — Vou até trocar de roupa, pois tenho que estar apresentável diante de Mike Ross.
me olhou com a maior cara de tédio.
— Haha, engraçado.
Levantou-se e deu o último gole em seu café.
— Vou pegar minhas coisas e já desço.
Assenti e observei-o andar calmamente para fora do meu campo de visão.
Soltei um suspiro involuntariamente tentando entender aquela sensação que sentia quando estava com o . Só sabia que eu meio que gostava um pouco demais daquele engomadinho.

Capítulo 14

“Mas qual é a sensação de fingir que eu não sou real? Quando a distância simplesmente não é ideal basta abrir os olhos um dia de cada vez e eu estarei mais próxima de estar perto de você.” - Next To You, Peacekeeper

Na primeira vez que conheci a Coral fiquei de boca aberta com a estrutura dos prédios dos bairros comerciais. Sempre imaginei que esse tipo de escritório era diretamente ligado a fábrica — um engano meu. Se não soubesse dificilmente diria que aquela estrutura pertencia a uma empresa de artigos escolares.
Eu pude ter uma sensação parecida ao conhecer o prédio de Specter+Litt. Era uma fortaleza que esbanjava poder e confiança, exatamente o que se esperava de uma advocacia.
Subi as escadas até a entrada quase tropeçando por olhar demais para cima. Pedi informação para um dos engravatados e peguei um elevador vazio. Tocava uma música de Donald Stark, então, relaxei os ombros e suspirei. No espelho do cubículo arrumei meu cabelo e desamassei a roupa com as mãos.
Assim que saí, virei para o lado e encarei a fachada luxuosa por alguns segundos. Ao voltar para o mundo real fui andando até a recepção e encontrei esperando pacientemente por mim.
— Não precisa ficar nervosa. — Advertiu com um sorriso.
— Estou tentando me convencer disso vai fazer trinta minutos. — Repliquei e ele soltou um risinho.
— E olha que nem chegou a fazer o depoimento ainda. — Comentou segurando-me pelo ombro e empurrando-me levemente para a direita — Mike e Harvey farão você se sentir mais à vontade.
Se não fosse o calor da sua mão tocando em meu ombro e a familiaridade que ele se aproximou de mim, eu teria demorado bem menos para perder todo o sangue do meu rosto.
— Depoimento? Qu-e q-ue…? — engoli o seco — Que depoimento?
Entretanto não tive o prazer de ouvir sua resposta. Rapidamente fomos interceptados por um homem gordinho, careca e de olhos castanhos claros; ele sorriu para nós e estendeu a mão para .
— Sejam bem-vindos. — Desejou ele com o olhar alternando entre eu e meu destinado.
Seus dentes lembravam um roedor e rapidamente o assemelhei a um hamster. Ele era vagamente familiar, mas não tinha ideia de onde eu havia lhe visto.
Eu o vi abrir a boca para se apresentar quando Mike Ross apareceu do nada apertando a mão de .
— Bom vê-lo, senhor . Harvey o espera em sua sala.
Ele apenas assentiu em resposta e fui surpreendida ao ser alvo dos olhos azuis do advogado voltado para mim.
— Você deve ser . — Ele estendeu sua mão em cumprimento — É um prazer finalmente conhecê-la.
Mike era um pouco mais gordinho do que me lembrava, mas continuava sendo muito bonito. Ele aparentava ser bem jovem e sua simpatia me conquistou de primeira; parecendo um pouco mais complacente que o costume, apertei sua mão.
— O prazer é todo o meu.
Alguém coçou a garganta e nós dois viramos à procura do som. O homem desconhecido, que falara conosco antes, fizera o barulho requerendo a atenção para ele.
— Caso precise da minha ajuda é só contatar minha secretária Norma. — Ele pôs a mão no ombro de — Estou à sua disposição, Pequeno .
Quase pude tatear o sentimento de desespero que cruzou os olhos de Mike quando meu destinado virou-se para o homem hamster. Ross começou a passar a mão pelo pescoço sinalizando um enforcamento.
— Qual é o seu nome mesmo? — Indagou de forma brusca.
— Louis Litt, senhor. — Respondeu prontamente.
— Então, senhor Litt, acho que não há nenhum motivo para me chamar por esse apelido quando eu já sou um homem feito. — Falou com sua frieza particular — Se possível, não me chame desse jeito.
O homem, que descobri ser Louis Litt, ficou vermelho como um pimentão e parecia congelar qualquer um que cruzasse com o seu olhar.
Nota para mim mesma: em hipótese alguma chame de Pequeno a não ser que queira irritá-lo.
Pigarreando para disfarçar uma risada, Ross nos pediu para acompanhá-lo. Meu destinado parecia um pavão de tão pomposo e não direcionou sequer olhar de desprezo para Louis Litt. Eu nunca tinha o visto agir desse jeito com ninguém a não ser e me indaguei se havia algo por trás daquele apelido que provavelmente a imprensa colocou nele.
Mike abriu a porta para que nós dois passássemos e murmurei um agradecimento. Assim que pus os pés na sala, Harvey Specter se levantou e abotoou seu terno.
— Excelência! Sempre no horário certo. — cumprimentou com um aperto de mão.
— Eu nunca chego no horário certo, Harvey, mas aceito o elogio ainda assim. — Respondeu dando um sorriso cúmplice.
A sala estava preenchida pelos dois homens com sua presença marcante. Harvey carregava uma arrogância que identifiquei em momentos antes e o seu penteado para trás era impecável. Specter não tinha a beleza padrão de Mike, mas deliberadamente ganhava no charme.
— E você deve ser quem vai nos deixar milionários. — Brincou ele ao apertar minha mão.
— Eu não prometo nada. — Falei sorrindo.
Nos acomodamos no sofá e sentei do jeito que eu apelidara carinhosamente de “secretária-de-um-diretor-executivo”, só que menos acanhada.
— Sinto muito pela sua perda, senhorita . — Disse Mike.
Agradeci baixinho tentando não pensar em quão difíceis foram as últimas semanas. Era uma benção eu estar inteira até o presente momento.
já nos falou sobre o ocorrido de ontem. — Explicou Havey sentando em sua cadeira e entregando uma pasta de cor azul ao — Precisamos fazer um boletim de ocorrência hoje mesmo.
— Eu entreguei o caso ao Detetive Bane. — Comentou meu destinado.
Ele estava com o pé esquerdo apoiado no joelho direito, uma posição de puro relaxamento. Sua testa estava franzida enquanto lia aquelas palavras que dificilmente eu entenderia.
— Não conheço o Detetive Bane. — Falou Mike colocando a mão no bolso — É alguém novo?
balançou a cabeça.
— Ele é de Missouri e é um detetive normal, apesar de ter o incrível dom de não se corromper como a nossa polícia geral. — Explicou e levantou a cabeça em direção a Specter — Houve um tiroteio na noite passada e eles podem transformar todas essas informações em nada, Harvey.
— Traficantes não ficam preocupados em vandalizar bens de cidadãos comuns, . — Disse Specter com displicência — Eles matam quando querem que alguém fique calado e não fazem brincadeira de mau gosto típico de trotes de universidade.
— E você acha que esse argumento vai convencer o juiz que a empresa deve ser impedida imediatamente de ser contratada pelo estado?
Harvey olhou para ele com a testa franzida.
— Pensei que a ideia era conseguir um acordo.
— Desisti. — respondeu limpando a poeira inexistente da sua calça. — Quero que vá a julgamento.
Harvey e Mike trocaram um olhar temeroso e automaticamente o ar ficou pesado.
— Hã... — Falei chamando atenção para mim — Não faço ideia do que vocês estão falando.
Mike riu e explicou vagamente o que acontecia: eles estavam processando a companhia de imóveis por cobrar o preço de aluguel mais do que a lei permitia. Descobri que, pela lei que dividiu a sociedade em Alas, eu deveria pagar quase metade do que eu pagava por causa da minha renda. acrescentou que a empresa já havia sido denunciada outras sete vezes, mas todas foram ignoradas, vetadas ou negociadas por preços baixíssimos, não cobrindo o prejuízo todo.
Harvey aconselhou que fizéssemos um acordo e garantiu com ar de insolência que conseguiria o triplo do que eles deviam a mim. , no entanto, disse que eu sentiria-me mais justiçada se levassem a julgamento e colocasse na mídia sobre o caso. Mike citou que precisaria das minhas contas antigas para ter certeza do valor mínimo que deveria ser pago.
Foi então que eu percebi que o ato de pura maldade e vandalismo do dia anterior tinha uma finalidade: os documentos solicitados sumiram.
Eu não tinha certeza, é claro. Eu tinha que ir em casa para averiguar tudo; entretanto, a salvação era que todos os boletos estavam no meio do meu email com todas as informações necessárias para processá-los ainda assim.
— Amanhã faremos a gravação do depoimento junto com os advogados da empresa. — Avisou Harvey — Não há muito mistério nisso, apenas responda com respostas curtas, firmeza e confiança. Qualquer problema nós intervimos.
— Hm, está certo. — Respondi incerta. — Vocês disseram que…
Fui interrompida pelo toque padrão do celular de alguém e olhei feio para quando vi que era ele quem atendia o telefone. Seu rosto estava iluminado como fogos de Quatro de Julho ao ver o nome de quem ligava e atrapalhava meu raciocínio.
— Preciso atender a essa ligação. — Explicou .
Os advogados apenas assentiram e apertei os lábios um contra o outro nervosa ao vê-lo me deixar sozinha em um ambiente desconhecido por mim. Desde que tínhamos chegado, estava tão distante que dificilmente diria que era o mesmo homem que havia me convencido a morar na sua casa pela minha segurança.
Pigarreei assim que a porta de vidro foi fechada.
— Então… Vocês disseram que outras pessoas tiveram consequências ou algo assim. — Comentei confusa — Elas sofreram ameaças?
Mike trocou um rápido olhar com Harvey antes de falar.
— Há alguns registros de queixas, mas a maioria foi ignorada por vir de Alas menores ou outros fatores. O caso mais grave foi a de possível morte de um dos irmãos de alguém da Ala M. — Explicou ele — Foi assassinado a queima roupa, porém havia droga nos bolsos da vítima e o juiz entendeu a morte como dívida com traficantes, então, não envolveram com o processo.
— A verdade é que isso seria resolvido se eles pudessem pagar um advogado melhor. — Acrescentou Harvey e eu tive a leve impressão que com “advogado melhor” ele quis dizer “eu”.
— Não precisa ficar preocupada com isso, está tudo sob controle. — Acalmou-me — nos informou que um segurança a acompanha e isso é muito bom.
— Você está morando com ele, não é? — Perguntou Specter com a testa franzida — Suponho que não foi uma mudança difícil, você o faria uma hora ou outra.
— Mas nós não… — os olhei com uma careta confusa — OK, não é porque somos destinados que significa que estamos juntos.
Quem olhou para mim mais confuso ainda foi Mike.
— Não?
— Bem, não estamos aqui para discutir isso, certo? — Interrompeu Harvey — Gostaria de saber qual é o seu posicionamento em relação a fazer um acordo ou levar o caso a julgamento. pode ter entrado com o processo, mas ele continua com o seu nome, não é verdade?
Balancei a cabeça devagar tentando saber onde ele queria chegar com aquilo.
— Talvez você queira adicionar algumas outras pessoas injustiçadas da Ala O para o processo. — Sugeriu Mike levemente alterado pelo senso de justiça.
Seu parceiro, entretanto, o olhou como se ele tivesse dito algo estúpido.
Pensei em Jean e em tantos outros dos meus vizinhos que, como eu, foram assediados por todos aqueles anos por Adolf. Não me admirava que meu pai havia lhe dado um soco bem na fuça — infelizmente eu era pequena demais para lembrar dessa cena; desde então ele parecia pegar no meu pé um pouco mais, contudo nunca baixei a cabeça.
Ele que voltasse para o inferno em que nasceu, eu não tinha nada a ver com uma rixa antiga.
Se eu não tivesse sido informada antes sobre o que aconteceu com pessoas que os processaram antes não hesitaria em tentar juntar o número máximo de membros da Ala O, entretanto eu havia experimentado do veneno deles. Pensar que eles não estarão protegidos enquanto eu teria um segurança particular e viveria como uma princesa na Ala A, me alertava que colocá-los em risco seria uma atitude no mínimo egoísta.
Apertei os dedos contra minha palma.
— O que acha que devo fazer? — Indaguei olhando diretamente ao Harvey.
Apesar de simpatizar mais com Ross, o chefe dele me parecia bem mais sensato e racional. Talvez aquela era a fachada que ele queria me passar, mas, bem, eu iria comprá-la de qualquer maneira.
Harvey apertou os lábios ponderando um pouco sobre o assunto e deixou sua cabeça cair um pouco para esquerda. Eu lembrava de vê-lo fazer a mesma coisa em um vídeo de julgamento famoso na TV. Uma mania típica dele.
— Eu tentaria um acordo e se eles insistissem em tentar me atingir, levaria o caso até o julgamento e tiraria cada centavo deles. — Specter relaxou-se em sua cadeira. — Isso é o que eu faria.
Sorri gostando do seu plano.
Depois de ouvir algumas orientações sobre o depoimento que eu daria no dia seguinte, finalizamos aquela reunião antes que terminasse a tal ligação. Assim que saímos o vi em um canto ao longe rindo de algo que alguém falava do outro lado da linha.
Não pude evitar sentir uma queimação no peito e ficar curiosa com quem ele conversava tão animado. Todavia eu percebia a infantilidade que era sentir isso, então, transformei minha careta em um sorriso simpático para a secretária ruiva de Harvey.
— Olá, senhorita . — Falou ela formalmente — Aqui está a licença que você entregará ao seu chefe para que não haja problemas com sua saída na hora do depoimento.
Agradeci e ela sorriu para mim em resposta.
— Oi, Donna. — Cumprimentou Mike apoiando-se nas paredes de seu cubículo.
Donna, entretanto, nem direcionou o seu olhar para ele enquanto fingia digitar algo no computador.
— Não vou ajudá-lo, Mike.
Ele deixou os ombros caírem desistindo antes de tentar.
— Mas...
— Rachel é minha amiga, Mike. Eu sempre vou ficar do lado dela, você já deveria saber disso.
— Mas…
— Não.
Ele ponderou por um segundo.
— E se eu lhe oferecer dois ingressos para O Mágico de Oz na Broadway nesse final de semana? — Perguntou ele com a sobrancelha arqueada.
Donna parou de digitar de súbito e virou-se lentamente em sua direção com um sorriso esperto.
— Os primeiros bancos?
— B14 e 15, do jeito que você gosta. — Ele mostrou os ingressos tirados do bolso de seu terno.
— Agora podemos conversar.
Sentindo que talvez estava atrapalhando algo, andei devagarinho até e não percebi que Harvey me acompanhava. desligou o celular rapidamente e direcionou o olhar a Specter.
— E então? O que foi resolvido?
— Saberemos o que fazer após o depoimento de amanhã, Excelência. — Respondeu Harvey abotoando seu terno — Sua destinada está em boas mãos.
Ele olhou para mim rapidamente e depois virou-se para o advogado.
— Vai fazer isso mesmo?
Specter deixou um sorriso ladino e confiante, beirando a arrogância, disse da forma que descobri na nossa reunião ser o selo Harvey Specter de ser.
— Pode apostar que vou.
… Se fosse um mês e meio atrás ficaria feliz se me ignorasse deliberadamente. Ele sempre me intrigou e fazia nós na minha cabeça que não me interessavam, mas àquela altura já estávamos no mesmo barco e não entendi porque ele estava tão silencioso.
Estar dentro do elevador com digitando loucamente no celular sem dirigir um olhar para mim me deu uma agonia terrível. Nem a música de Donald Stark que tocava no cubículo me acalmava.
— OK. — Falei decidida — O que diabos está acontecendo?
— Hm? — Resmungou levantando a cabeça — O que você disse?
— Você ainda está chateado comigo? Sei que eu disse besteira, mas não precisa agir como se não me conhecesse.
franziu a testa confuso.
— Ainda não entendi o que você está falando. — Ele respondeu.
Revirei os olhos impaciente.
— Deixa quieto. — Comentei e cruzei os braços emburrada.
, pelo amor de Deus, apenas repita o que você disse. — Replicou guardando o celular no bolso.
— Você ainda está pensando no que aconteceu ontem? — Indaguei tentando conter uma pequena irritação.
— Nada, é só que… — Ele suspirou — É complicado, entende? Estou meio atolado com as coisas do trabalho e não sei se poderei dar o apoio que você precisa para esse caso.
Deixei os ombros caírem de alívio.
— Então por que não me disse? Eu só queria ter me preparado um pouco mais. Nem sei o nome da empresa que estamos processando.
Ele riu.
— Acredita que eu também não? É uma corporativa recheada de nomes que vou criar uma sigla para facilitar. — pôs a mão no bolso da calça — Quando eu atuava como advogado costumava colocar um apelido nos meus “inimigos”: Super Shock, Funk Gourmet e etc.
— Posso chamar Adolf de Hitler? — Indaguei animada — Ele já tem o primeiro nome.
soltou uma risada.
— Acho que você já pegou a alma dos apelidos: se não ofende não tem graça.
A porta do elevador abriu e relembrou que não iria estar em casa cedo e que eu teria que lidar sozinha com o detetive.
— Ele é muito mais fácil enfrentar do que Specter e Ross, acredite em mim. — Garantiu ele assim que chegamos na recepção. — Bäumler está lhe esperando lá fora?
— Se você está falando do meu segurança, é ele mesmo. Que nome difícil de pronunciar! Só podia ser alemão. — Comentei.
Com um sorrisinho contido, me olhou como se estivesse idealizando algo — quase pude escutar seu cérebro maquinando.
— O que foi? — Indaguei curiosa.
— Você ainda vai aprender a falar alemão.
Olhei pra ele como se um chifre tivesse aparecido em sua testa.
— Nem a pau.
Ele se aproximou de mim charmosamente e falou alguma coisa em germânico. Sua voz soava mais grave e pesada, quase autoritária.
— Legal, entendi foi nada.
Mais uma vez me deu um dos seus sorrisos arrebatadores e acariciou minha bochecha como por reflexo. Aconteceu em apenas dois segundos e mesmo assim conseguia sentir seu toque desenhado em minha pele.
— Assim que você aprender alemão você entenderá. — Ele piscou e deu um passo para trás — Preciso ir, . Te vejo de noite?
— Ah.. Sim, sim, com certeza. — Respondi atordoada.
Fiquei olhando-o andar em direção a Carlos — que, para variar, tinha aparecido do nada — até que meu segurança apareceu. O homem era alto, tinha os cabelos castanhos e olhos verdes; o nariz dele era um pouco deformado e pude imaginar quantas vezes ele deve ter levado socos. Tentei manter uma conversa razoável com ele, mas suas respostas eram evasivas demais e acabei desistindo.
Faltando apenas meia hora para o fim do expediente, Carter ligou para mim em um tom irritado. No dia seguinte começaria uma seleção de estagiários e o irmão de meu chefe tecnicamente iria participar. Apesar dele ter o emprego garantido por indicação, ele não enviou nenhuma informação, nem mesmo um currículo para o RH. Meu dever era irritar Bryan Carter o bastante até que ele enviasse os documentos necessário para entrevista na manhã seguinte.
Pausa.
Com um clique minha mente lembrou-se da conversa que eu tivera no último final de semana com , dois dias atrás — exatamente quando ele falou sobre seu irmão gêmeo. Acredito que eu estava em uma situação desesperadora e queria tanto que ele estivesse dizendo a verdade que não parei para pensar que talvez aquilo fosse mentira.
Abri uma segunda aba no navegador e comecei minha pesquisa enquanto esperava Brian atender o telefone. A primeira coisa que pesquisei foi “Família ” esperando encontrar ao menos uma imagem velha em que estivesse ao lado do irmão, entretanto apenas achei algumas em que ele estava ao lado dos pais sozinho em festas claramente formais. Apesar de parecer mais novo nas fotos, seu sorriso era superficialmente iguais. Demorei um pouco analisando e procurando alguma diferença com o que eu vi mais cedo, porém não havia uma. Ao jogar na busca “Irmão de ” os resultados eram mais escassos. Tudo que o Google achava era algo sobre um caso que ele julgara ou até um julgamento de quase sete anos atrás em que saiu sua fama. Só quando investiguei pelo nome “Pequeno ” encontrei alguma coisa.
Conforme fui buscando percebi que a discrição era algo de família. Desde o começo da carreira política, Aitofel esteve poucas vezes ao lado dos parentes além de seus irmãos — que descobrir ser o número de nove — e esposa. A mulher, que eu acreditava ser mãe de , era muito bonita e extremamente simpática. Apesar de ter um corpo roliço considerado fora de moda, era mais elegante que muitas esposas de empresários por aí; a foto que me interessou era protagonizada por ela. Havia um mar de meninos e meninas loiros ao seu lado e logo entendi sendo os sobrinhos de Aitofel. Eles tinham uma aparência similar o bastante para você deduzir até que eram todos irmãos, mas dois meninos; um que agarrava seu pescoço e outro que apenas tocava seu ombro parecia com toda certeza figurinhas repetidas.
Tentei, em vão, não pensar que talvez fosse a má qualidade da foto e a ideia de que todas aquelas crianças eram idênticas.
Aquilo, no entanto, me encheu de mais perguntas do que as respondeu: por que, então, o irmão de estava desaparecido? Quer dizer: ele não estava desaparecido de verdade, não era? Por que ele vivia no anonimato? Qual era o mistério que os Hoyers escondiam?
Mesmo com a internet chula do 3G, fiquei pesquisando mais sobre enquanto voltava para casa de . Entrei na cozinha distraída em imagens de meu destinado ainda criança, com cinco ou sete anos, em salões de festa. Inclusive achei alguns vídeos em que ele falava uma coisa engraçada e fofa para os jornalistas; dai lhe apelidaram de Pequeno .
Então, como em um passe de mágica e ofuscado pelas obras do pai, parou de aparecer nos tablóides. Na época em que o seu pai se tornou governador, por exemplo, ele deveria estar mais ou menos na faculdade e não havia nenhuma informação sobre seu paradeiro ou sua posição em relação a candidatura do pai.
— Opa! Cuidado aí, moça! — Exclamou Rose quando, sem querer, esbarrei em uma cadeira que estava perto da ilha.
Com a face vermelha pedi desculpa.
— Esse pessoal jovem de hoje em dia só vive pendurado nesses smartphones. — Comentou ela enquanto desligava uma das bocas do fogão.
— Ah, mas você nem é tão velha assim. — Respondi sentando-me na ilha.
— Obrigada. — Agradeceu pomposa arrumando a touca branca na cabeça — O que via que a fez ficar tão distraída? Se é que eu posso perguntar.
— Nada muito importante. — Desconversei.
Ela deu os ombros virando as costas para mim.
— Se você diz eu acredito. — Murmurou — Estou fazendo lasanha pro policial já que você não me disse ainda o que gosta.
— Policial? — Franzi o cenho — Detetive Bane?
Ela balançou a cabeça concordando.
— Está quase pronta, na verdade. Ele sempre pede quando vem aqui, o xereta.— Falou em tom de brincadeira — É raro senhor trazer amigos, entende? Quando vem alguém da família dele. No dia a dia minha comida fica ao léu pros ratos e baratas, nem cachorros aqui tem!
— Ele não recebe visitas da família? — Perguntei interessada — Nem mesmo o irmão?
Rose franziu o cenho e pôs as mãos na cintura.
— Eu nunca vi esse irmão dele e olha que trabalho pra faz quase sete anos, . — Respondeu com veemência — Na verdade nem sei se ele tem.
Fiz minha melhor cara de confusão.
— Oras, por quê?
Ela soltou um suspiro.
— É que ele mal fala da família e eles não parecem ligar muito pra ele, não sei. Quer dizer, os primos do senhor aparecem de vez em quando e…
De repente o som da campainha preencheu todo cômodo com um estrondo. A TV que estava em um canal qualquer de culinária logo se transformou em uma imagem de um carro preto em frente à casa.
— Aqui é Detetive Peter Bane. Vim a mando de . — O barítono ressoou na televisão.
— Sim, senhor Bane. — Respondeu uma voz masculina — Seja bem-vindo.
Então demorou-se alguns segundos para que os portões se abrissem e ele passasse tranquilamente. Logo depois voltou-se para o canal anterior.
— Como funciona isso? — Indaguei curiosa.
— Quando apertam a campainha o som pode ser escutado na casa toda. Em todos os cômodos que tem televisão aparece as imagens de quem está lá fora. — Explicou e apontou para o interfone no canto da parede abaixo ao armário. — Caso você queira barrar a entrada de quem quer que seja é só falar com o segurança.
Balancei a cabeça assentindo e comecei a reparar mais uma vez na grandiosidade do cômodo que eu estava. Os eletrodomésticos eram das cores cinza e preto; por outro lado o resto da decoração da cozinha era amarelada e bem desenhada dando um ar antigo e vitoriano. Na verdade, toda a casa tinha seu ar de que fora modernizado com o tempo.
— Rose, mi preciosa. — Exclamou Peter ao entrar na cozinha.
Ele a abraçou rapidamente e beijou-lhe a face. Vermelha e sem graça, a mulher deu tapinhas no seu braço para que ele afastasse.
— Eu sou casada, detetive, tenha um pouco de respeito.
— Infelizmente não tive a sorte de ganhá-la como destinada. — Falou ele dramaticamente — Quem sabe na outra reencarnação?
Ela pigarreou e olhou para mim.
— Essa é . — Apresentou-me para ele — Esse garoto insolente é o detetive Peter Bane.
O homem sorriu para mim e pude perceber covinhas características, quando ele mexia o rosto ficavam elas mais evidentes lhe dando um ar cativante. Peter tinha uma beleza clássica vinda de olhos e cabelos castanhos escuros e o maxilar quadrado; e com toda certeza sua facilidade de sorrir para uma desconhecida me ganhou de primeira.
— Prazer em conhecê-la, senhorita — Cumprimentou-me estendendo a mão em minha direção — Sinto muito pelo que aconteceu.
Agradeci mecanicamente e ele sentou-se na ilha ao meu lado no mesmo lugar em que estava na manhã daquele dia.
— Deus, eu odeio o inverno! Você viu que tem previsão para nevar no próximo final de semana? — Comentou ele tirando o casaco de musseline — Só pra me fazer sair de casa em um dia desse.
— Não está morando em Missouri mais? — Perguntou Rose confusa.
— Estou sim, mas vim visitar um amigo. — Explicou e virou-se pra mim. — Você nasceu aqui?
— Ah, sim. Sempre morei nessa cidade maravilhosa. — Respondi com um sorriso.
— Chegou a visitar Kansas City? — Perguntou ele sem pretensão de ir direto ao assunto.
Era estranho manter uma conversa tão informal com o desconhecido depois de tanto tempo — sentia que tinha desaprendido a arte da comunicação. Ainda tinha o fato de que Peter parecia muito mais confortável naquela casa que eu. Me vi soltando risadas com o detetive e antes que eu percebesse estava falando sobre a morte da minha mãe e minha casa vandalizada. Descobri também que Bane não trabalhava exclusivamente como detetive particular e só fazia trabalhos assim para .
— Ter alguém como lhe devendo favores é uma benção. — Falou enquanto nós dois saboreávamos a lasanha de Rose.
Devo acrescentar que estava uma delícia.
Bane trouxe o laptop e fez o boletim de ocorrência pela internet. Percebi que ele era um homem muito dinâmico e que gostava de jogar conversa fora. Seus trejeitos eram repletos de charme, como um líder fácil de contatar, e fiquei me perguntando de onde tirara aquele amigo tão diferente dele.
O detetive, no entanto, tinha a mesma cautela de não falar muito sobre si como . Provavelmente foi a discrição que os fizera amigos no passado. Carlos apareceu avisando que estava a caminho com outros seguranças, pois decidira dirigir para seja lá onde foi e nos despedimos de Rose. Apesar de não ser maior fã de estar em um ambiente sozinha com um estranho, não vi nada ameaçador nele — muito pelo contrário. Confiava no detetive o bastante para fazer as perguntas que culminaram minha mente.
— Você conhece o irmão de ? — Indaguei sem nenhuma cerimônia.
— Não conheço. — Replico enquanto digitava algo no teclado — O máximo que cheguei a conhecer da família dele foi o pai na TV e a ex esposa dele.
— Como ela era? Digo, a ex-esposa.
Peter levantou uma sobrancelha.
— Não vou lhe responder isso. Nem devia ter citado ela, para começo de conversa.
— Ah, que besteira. — balancei as mãos em desdém — Eu e não temos nada.
— Mas você é a destinada dele.
OK, todo mundo sabia que éramos destinados? E aquele papo todo de manter em segredo?
— Isso não significa que estamos juntos.
— Mas vocês vão ficar juntos. — Rebateu ele solene. — Se você quiser ver alguma coisa sobre ela pesquise na internet.
— Como você pode ter certeza que ficaremos juntos?
E como se tivesse sido invocado, apareceu segurando o casaco do terno no ombro. Ele tinha uma presença tão naturalmente encantadora que me vi observando seu ar cansado. andou devagar, mexeu o relógio de seu pulso e passou os dedos entre seus cabelos; então, ele olhou para mim e sorriu. Era aquele sorrisinho de lado, despreocupado e incrivelmente charmoso.
— Oi. — murmurou.
— Olá. — respondi envolvida naquela névoa vinda do meu destinado.
— Também é ótimo revê-lo depois de dois anos, . — Falou Peter chamando atenção para ele — E você acabou de ter a prova que você queria, .
me olhou perdido.
— Seu amigo é louco. — Disse tentando em vão evitar que meu rosto ficasse vermelho pela enésima vez naquele dia.
Ele deu os ombros e deixou o terno em cima da ilha. Olhei para um relógio que dava a impressão que se mexia na parede e arregalei os olhos ao ver que eram quase nove horas.
— Já está tarde! — comentei — Você comeu alguma coisa, ? Sobrou lasanha ainda.
Ele fez uma careta para o prato.
— Estou meio enjoado, então eu passo. — Dispensou a comida sem cerimônia — Vamos até meu escritório.
Sendo Bane mais alto que , o mesmo passou o braço pelo pescoço dele em um abraço meio bruto respondendo a chamada do amigo.
— Quero saber o que diabos você fez para convencer Capitão Pollack de me deixar sair do meio do país para resolver um caso que um policial de esquina faria em meia hora. — Disse Peter em tom de brincadeira.
deu uma risada e pude o ver mais relaxado do que o habitual.
— O sobrenome abre portas, Bane. — Falou lhe empurrando para que o soltasse — Você, mais do que ninguém, já devia saber disso.
Não escutei o resto da conversa, pois estava procurando meu celular no meio de pratos, copos e terno de . O encontrei debaixo de seu casaco, mas parei subitamente quando vi um papelzinho saindo do bolso da frente. Eu não costumava ser intrometida, mas minha curiosidade falou mais alto. O papel era pequeno e era claramente uma nota fiscal e tinha sido tirada às seis da noite.
Era do estacionamento do Hospital Lenox Hill.

...

Peter não ficou muito tempo depois que chegou. Assinei algumas papeladas e conversamos mais um pouco antes dele se despedir.
— Tudo que você precisa está na pasta que eu trouxe. — Avisou Bane a meu destinado — Inclusive já tenho acesso as imagens da rua na noite do crime, mas elas estão péssimas. Preciso de mais tempo para analisá-las.
— Lhe dou todo o tempo do mundo desde que ele seja até o julgamento. — Respondeu .
— Eu ainda não decidi se vamos a julgamento. — Rebati.
se acomodou em sua poltrona aparentemente muito cara e confortável.
— Quando você conhecer os advogados da P.A.F.E.R. duvido que pense em outra coisa. — Respondeu ele com uma piscadela logo em seguida.
O detetive mexia constantemente em seu colar de cruz e alternava seu olhar entre nós dois como se fossemos algo interessantíssimo de analisar.
Voltei a ter as perguntas não saciadas gritando na minha mente; eu precisava conhecer aquele homem de verdade e não só aquilo que ele queria que eu visse. Eu precisava confiar inteiramente em se iríamos morar na mesma casa.
Nós despedimos de Peter no elevador para a garagem. Agradeci pelo seu trabalho e fiquei feliz por ter o conhecido; ele foi o mais simpático possível e me abraçou como de quem selava uma amizade.
Tenha paciência. Ele é um bom homem, Bane sussurrou.
Pensei em puxar conversa com e tentar descobrir um pouco mais sobre ele, mas o mesmo disse que precisava de um banho urgentemente. Percebi que precisava de um também e fui até meu quarto.
Era tarde quando deitei na cama e fiquei encarando o teto. Ele era bem trabalhado e luxuoso como o resto da casa. Embora sentisse o corpo relaxado, a minha mente ainda trabalhava a mil por hora. Aquele dia tinha sido pesado e só de lembrar que eu tinha um depoimento a fazer na manhã seguinte a barriga embrulhava.
Pus as mãos no rosto e fechei os olhos tentando calar meus pensamentos. Desliguei as luzes e tentei dormir, sem sucesso. Sentia minha cabeça pesada, mas liguei a televisão para assistir a reprise de The Young and The Restless. Quando o programa acabou, me vi ainda com insônia.
Algo me dizia que apesar de ter dormido facilmente no dia anterior não estava acostumada com aquela casa. O silêncio sepulcral me dava nos nervos — a rua e a mansão eram calmas demais.
Era uma da manhã quando escutei um som baixíssimo de saxofone; no começo achei que era algo da minha cabeça, porém, mesmo sendo longe, o barulhinho podia ser facilmente identificado.
Mesmo eu tendo consciência que poderia ser algo vindo da rua, desci da cama para verificar. Assim que toquei o chão a temperatura advinda da madrugada congelou meus pés. Embora usasse meias e minha cama tivesse um aquecedor estava muito frio. Quase desisto de sair perambulando pela mansão quando descobri pelo meu celular que estava fazendo dez graus celsius lá fora.
Havia apenas uma lâmpada bem fraquinha ligada no corredor. Cruzei os braços assim que minha pele sentiu a diferença do clima — o aquecedor no lado de fora dos quartos era menos forte, obviamente.
O som ficou parcialmente mais alto, entretanto não o bastante para ser considerado um ruído irritante; tinha a vaga impressão que ele vinha de cima. Com passos de gato me direcionei ao segundo andar. Assim que cheguei no corredor o som do saxofone ficou mais nítido. Não lembrava o nome, mas tinha certeza que era a mesma música que tocava no elevador da Louis+Litt. A melodia vinha do único cômodo de porta aberta e fui até lá curiosa; mas o que eu vi quase me fez soltar um grito de empolgação.
Ai meu Jesus Cristinho.
Socorro, vou gritar.

Se estivéssemos em um desenho animado uns coraçõezinhos sairiam da minha cabeça ao ver tocando saxofone de olhos fechados. Ele estava com uma das pernas apoiada no braço de uma das poltronas e com os olhos fechados. Os dedos não se enrolavam em tocar o instrumento musical dourado — era claro que ele tinha muita habilidade no que fazia.
O cômodo que estávamos tinha paredes estofadas e logo deduzi que só escutei o som do sax pois a porta estava aberta. Havia uma coleção de violões, guitarras, um aparelho de vinil e de som, teclado, pedestais para partituras e uma coleção de cds e disco de vinil.
Será que havia alguma coisa dentro daquela casa que não gritasse SOU BILIONÁRIO?
Em contrapartida não me detive na decoração da sala de música e sim no dono dela. usava meias, calça moletom e um casaco branco de malha — o cabelo bagunçado lhe deu um charme a mais.
Quando ele terminou a música abriu os olhos devagar e virou-se para mim com o descuido de quem esperava estar sozinho. Embora eu quisesse romantizar a cena, o que aconteceu de verdade foi que saltou de susto para trás e disse algo em alemão (tenho noventa e nove por cento de certeza que era um palavrão).
Sheisse! Você quase me matou de susto! — Ele pôs a mão no peito exasperado.
— Perdão. — Falei apesar de parecer animada demais para alguém que estava se desculpando.
respirou fundo.
— Lhe acordei? Nem fazia ideia que deixei a porta aberta. Supostamente essa sala deveria ser à prova de som.
Balancei a cabeça negando.
— Eu só não conseguia dormir.
— Parece que estamos no mesmo barco.
Entrei sentando em um sofá vintage com uma colcha branca, embaixo de alguns pôsteres de bandas antigas. The Smiths e Radiohead foram as que me chamaram mais atenção.
— Não sabia que tocava sax. — Comentei tentando conter minha animação. — Eu acho lindo.
Ele levantou a sobrancelha interessado.
— Acha é?
— Toca uma pra mim? Por favor! — Implorei com a minha melhor cara pidona.
Ele riu.
— Tudo bem. Vou tocar uma chamada Found Love. É um indie que descobri ser ótimo na versão instrumental.
Enrolei-me na colcha deixada no sofá e fiquei com os olhos vidrados em . Enquanto tocava era claro que estava fora do mundo e da sua órbita natural. As notas saíam com graça e benevolência — ele fechou os olhos, mas eu fiquei atenta a todos seus movimentos. Mesmo que sempre envolvesse o saxofone a algo calmo, Found Love tinha uma melancolia que deixava você com a dorzinha no peito. Talvez eu tenha derramado uma ou duas lágrimas, entretanto se ninguém viu, não aconteceu.
— Uau. — Falei assim que terminou — Isso foi… incrível.
— Obrigado. — Respondeu ele tentando disfarçar o embaraço e as bochechas vermelhas.
— Meus pais diziam que sempre gostei de jazz desde criança. — Puxei assunto — Eles colocavam Donald Stark e eu ficava calminha…
— Espera. — Disse ele sentando-se ao meu lado — Você conhece Donald Stark?
— O saxofonista vampiro que parece que envelhece nunca? Com toda certeza! Você gosta dele?
— Ele só é o músico que deixa Kenny G chupando dedo. — Constatou ele em um puro ato de fanboy.
— Exatamente! — Respondi animada — Qual é a sua favorita do último álbum?
All I Want in This Moment e Snow Day são as melhores.
Jump Up é muito mais divertida — Repliquei.
— Sempre preferi as mais emocionais. — Ele deu os ombros — E tem todo o poema da música que acho excepcional.
Franzi o cenho.
— Poema? — Perguntei me enrolando na colcha esquecida. — Que poema?
me explicou que cada música composta por Stark era repleta de significados, embora fosse só um instrumental. Na versão deluxe de vinil do último volume vinha cópias de poesias que ele escrevia ao compor, mesmo suas músicas sendo apenas os arranjos. Depois ele me contou que aprendeu tocar saxofone aos dez anos e que também tocava violão e piano.
— O piano fica na sala de visitas mais de decoração. — Explicou — Venho aqui quando tenho minhas período noites de insônia.
— Você não costuma dormir bem? — Indaguei enquanto tocava com o maior cuidado do mundo a cartela de poemas do último álbum do Donald.
Ele balançou a cabeça negando e começou a procurar alguma partitura em uma de suas pastas.
A essa altura eu já estava sonolenta. Deitei no sofá e comecei a passar as páginas sem lê-las realmente.
— Eu tenho muita dificuldade de entender poesia. Acho que minha cabeça está programada a praticidade. — Comentou .
— Eu gostei dessa — falei ao encontrar a de All I Want In The Moment.

“Minha inércia unilateral desfaz-se quando sob mim vem o teu olhar Imagino-me em seus abraços em qualquer que seja o lugar
Nossas mãos dadas e entrelaçadas como qualquer alma acalantada a outra Como se estivesse se apresentando ao cais com a certeza de um amor seguro Como um muro derrubado entre nós
Anseio no agora teu corpo suado encontrando paz nos meus lábios Tua pele fazendo delibar-me com o olhar E teu toque firme e delicado que dilata meus poros
Enquanto teu cheiro irradia meus dias E tua voz sussurrada fala-me de amor
E tudo poderia ser possível se tu quiseras Tu és o tudo que eu quero no momento.”

Após recitar o poema, como se estivesse programado nosso sarau particular às duas horas da madrugada, começou a tocar a dita cuja.
Desta vez fechei os olhos com a desculpa mental que estava apenas descansando a visão e deixei-me levar pela canção. Um calor gostoso irradiava por ela quando mergulhei na música e quase pude apalpar os Dós que faziam parte da melodia. Ela era um tanto sensual, mas ao mesmo tempo nostálgica transformando-a diferente das baladas românticas do Jazz.
sendo o músico que tocava a música era um a mais para mim.
Quando All I Want In The Moment foi finalizada eu já estava a beira do sono profundo. O silêncio que se seguiu possuía uma tensão estranha, um clima que pedia para eu ou meu destinado falasse alguma coisa, mas nós preferimos ficar calados com medo de dizer alguma besteira.
Escutei o barulhinho do estofado e o calor humano que perto do meu abdômen me fez teorizar que sentara ali no tapete.
— O que seria tudo que você mais quer no momento, ?
A pergunta pareceu mais séria do que pretendia — e pela entonação da voz confirmei que ele estava sentado perto de mim. Pensei um pouco e, com o resto de forças que me sobrava antes de cair no sono, sussurrei:
— Queria que a vida me desse um tempo. É tudo que eu queria nesse momento. — murmurei — e você?
O tempo que se passou depois da pergunta me fez acreditar que talvez tenha pensado e não dito isso realmente. Não tinha força para repeti-la.
Estava exausta. Meu corpo e minha mente estavam desligando aos poucos e já estava entrando no primeiro sono.
— O que eu mais quero neste momento é te beijar. — Sussurrou quase inaudível.
Assim que ele disse, porém, eu já havia mergulhado no mundo do sonhos e não faço ideia se aquela frase era real ou não.

Capítulo 15

“Quando você está na meia luz não é você que eu vejo. (...) E você pode se livrar disso? Você pode se livrar disso por mim? Quando você está na meia luz eu não gosto da metade que vejo.” - Half Light by BANNERS.

Por causa da rotina acordei às quatro da manhã sentindo meu corpo mole de cansaço; descobri que tinha duas horas para dormir foi uma benção, porém ainda assim não estava descansada o suficiente. Evitei não pensar no que aconteceu na noite anterior, mas o fato de estar debaixo do mesmo teto de não me ajudou muito.
A razão dizia que existia aquela possibilidade de que o desejo de nunca tenha sido dito e a cena que acontecera tenha sido fruto da minha fantasiosa mente.
Não havia certeza de nada, no entanto.
O nervosismo me contornava quando saí do meu quarto arrumada para mais um dia. Eu tinha que gravar um depoimento e mesmo assim a ansiedade não vinha da expectativa de expor os abusos de Adolf, mas sim de olhar para .
Abotoando o único casaco fuleiro que possuía desci as escadas com passos lentos. Eu saberia se o que foi dito era real ou não de acordo com o comportamento de .
— Faz 14 graus lá fora com a sensação térmica de 12. Não pensei que o inverno fosse chegar tão rigoroso.
Foi o comentário de Rose naquela manhã. A mesma usava um suéter verde e sorriu me cumprimentando assim que entrei na cozinha. e mais um par de seguranças — que eu não conhecia — responderam “bom dia” em uníssono. Meu destinado apenas me deu um aceno enquanto bebericava o seu café.
— Você parece nervosa. — Comentou ele segurando seu caneco entre as duas mãos.
— E estou. — repliquei — Isso tudo de depoimento me assusta.
Mentirosa.
Quer dizer, não é como se eu desse depoimentos em que denuncio empreiteiras toda semana, mas meu nervosismo não era por causa disso.
Me dê um sinal que aquilo aconteceu mesmo, por favor.
— Ah, vai dar tudo certo. Só seja firme no que falar e escute as instruções de Harvey. — Me tranquilizou. — Diga a verdade. Toda ela.
Assenti e me sentei ao seu lado para comer o café da manhã.
— Dormiu bem? — Indaguei tentando arrancar alguma informação que me desse ideia se nossa conversa tenha existido ou não.
— Não tanto quanto gostaria, mas você parece que sim. — Respondeu ele com um sorriso. — Antes de terminar de tocar a música já estava babando no sofá.
O mirei indignada.
— Calúnia!
— Foi sim! Na metade do refrão de All I Want In This Moment você já dormia.
— Espera, a gente não conversou depois da música?
Ele olhou para mim com o cenho franzido e negou com a cabeça.
Aquela frase que me perturbava era um sonho. Um sonho!
Com a conclusão do que aconteceu, beirando entre alívio e desapontamento, fui me alimentar.
Rose começou a falar algo sobre fazer compras e acabei pegando seu número para mandar coisas que precisaria que ela comprasse no mercado. A ideia de ter alguém para fazer isso para mim, no entanto, era um pouco desconfortável.
E ainda tinha a estranheza de que minha roupa ia para uma lavanderia chique em vez de ser lavada com sabão em pó de uma marca barata em casa mesmo.
Escutei alguns comentários sobre as notícias da manhã vindas do que assistia ao noticiário atentamente. Ele falava para ninguém em particular do cômodo, entretanto seus seguranças soltavam resmungos de concordância totalmente desleixados. nem parecia querer uma segunda opinião na verdade.
Me levantei ainda com a boca cheia quando fez menção de sair, como por hábito.
— Me espera, quero pegar carona. — Falei inocentemente.
Vi um dos seguranças soltar uma risadinha que foi repreendida por um olhar duro de .
— É só chamar o Bälmer e ele lhe levará à Specter+Litt. — Explicou — Você não precisa de carona para ir a qualquer lugar, . Todos desta casa estão a sua disposição, inclusive os carros e motorista.
— Eu posso dirigir? — Perguntei com os olhos brilhantes.
A perspectiva de pegar no volante outra vez me animava. Fazia tanto tempo que eu tinha a maravilhosa sensação de estar em controle de algo que era provável que eu ficasse andando em círculos em um automóvel apenas para ter certeza que eu o controlava.
— Você dirige? — Ele arqueou a sobrancelha cético.
— Sim e sou uma ótima motorista se quer saber. — Respondi orgulhosa.
— E é? — Falou ainda desacreditado — Você conhece os bairros daqui? Acha que pode ir até à advocacia sem problemas?
— Precisaria do GPS. — repliquei com os ombros encolhidos.
— Tudo bem. — Titubeou um pouco com os dedos nervosos batendo em seus lábios. — Hoje à noite iremos fazer um teste. Apesar de confiar em você, quero ter certeza que não terei prejuízo com nenhum dos meus carros. Agora o Bälmer vai lhe levar, OK?
— Justo. — Disse sem delongas.
— Ótimo. — Ele sorriu como quem faz um bom negócio. — Te vejo mais tarde então?
Balancei a cabeça em concordância e peguei minha bolsa que me acompanhava para cima e para baixo. Ela era preta e não tinha muitos detalhes, entretanto era enorme. Embora fosse cara, foi um investimento que valeu a pena. Mesmo estando meio acabadinha, durou seis longos anos de muito pivô.
— Oh, senhorita — disse Bämler entrando pedindo licença ao em um sotaque carregadíssimo — Está indo agora? Quer que eu pegue seu casaco?
— Não, eu vou com esse daqui mesmo.
Rose, que se mantera calada aquele tempo todo, virou para mim horrorizada.
— Como assim? Criança, está congelando lá fora! Quer pegar uma hipotermia? — Falou indignada.
— Meus casacos não existem mais, vamos dizer assim. Esse é para vida e para morte. — justifiquei tentando não pensar nas roupas banhadas de tinta que deixei para trás na Ala O.
Eu apenas percebi que retirou seu sobretudo quando ele se aproximou por trás de mim e pediu para que eu abrisse os braços. Eu era relativamente alta e de salto batia na linha da sobrancelha de , mesmo assim o agasalho ficou grande em mim.
— Mas… — tentei protestar, contudo ele me interrompeu.
— Não quero ver você passando frio quando eu posso facilmente resolver isso. — explicou sorrindo — Iremos comprar algumas roupas de frio mais tarde e insisto em pagar. Sem objeções.
Eu replicaria alguma coisa se o cheiro que exala-se no casaco não fosse tão . Minha intuição dizia para que eu mergulhasse o nariz na gola como uma adolescente apaixonada, mas não ia fazer aquilo pois era ridículo.
Ao menos era ridículo fazer isso na frente dos outros.
— Obrigada, Excelência. — murmurei com um sorriso e beijei sua bochecha sentindo um comichão quente no peito de alegria.
Mal rocei os lábios em sua pele, quase não sentindo seu aroma, porém isso não impediu que ficasse paralisado e extremamente vermelho. Seria a coisa mais fofa do mundo se não estivéssemos em público, o que contribuiu para seu embaraço.
— Eu… Hm… Vou pegar outro casaco. — Enrolou-se a dizer e saiu como um relâmpago para fora do cômodo.
Quando olhei ao redor percebi que os empregados de fingiam fazer alguma coisa e não ter visto aquela cena peculiar de nós dois.
E, então, foi minha vez de ficar vermelha.
Ainda na garagem vi que Rose estava certa em me alertar sobre o frio; Carlos olhava alguma coisa no capô da BMW e sua respiração fazia uma fumacinha que para mim era melhor marcador de temperatura que muitos termômetros.
Me enrolei no casaco como se fosse um manto e andei com passos apressados até o automóvel. Apenas quando já estávamos saindo do bairro luxuoso da Ala A mergulhei o nariz no colarinho do casaco e fechei os olhos para me concentrar no cheiro. Ele era levemente amadeirado, mas tinha uma predominância mais exótica. Parecia baunilha, mas não tinha certeza; só sabia que era excepcional.
Constatei o olhar estranho para o casaco que a secretária de Harvey direcionou, mas a mesma não comentou nada. Passei alguns minutos conversando com Mike e ele me deu as últimas orientações para o depoimento. Quando entrei na sala de reuniões senti o ar mais pesado e um olhar superior vindo de um trio de advogados da empreiteira que eu estava processando; havia uma loira, um gordinho e um cara que parecia um personagem de Gotham, o Charada.
Uma pena para eles que aquele olhar arrogante não me abalasse. Já recebi tantos tratamentos hostis por vir de onde vim que no mínimo sentia desprezo por pessoas que tinham um pensamento tão antiquado.
Recebi um assentimento de coragem de Harvey e respirei fundo quando eles ligaram a câmera e o microfone. Do outro lado da mesa havia uma mulher digitando tudo que era falado por os advogados da empresa e os meus.
As primeiras frases e perguntas eram padrão para identificação do processo e serviram para me fazer relaxar. Respirei fundo antes de dizer calmamente meu nome completo.
Taya .
— Então, senhorita — chamou me uma mulher loira, a advogada do Trio Satanás — é verdade que a senhora passou três meses sem pagar o aluguel em diversos períodos nos últimos seis anos?
— Sim. — respondi evasiva — Mas todas elas foram pagas com juros adicionais. Não devo mais nada.
— Hm, e por que tal procedimento foi constante na sua vida? — indagou o Charada — Se não podia pagar a conta, por que não mudou de Ala?
— A minha cliente está na Ala em que deveria estar. — Interviu Harvey — Com a média de um salário mínimo por mês em uma casa com 2 ou 3 pessoas é destinada a Ala O, como vocês devem saber.
— A minha pergunta não foi respondida, Specter. — Falou mordaz.
— Havia meses em que minha mãe precisava de remédio extra para sua doença. Ela tinha Mal de Alzheimer. — Falei tentando não senti um bolo na garganta.
— Você falou “tinha”? A doença é curável agora? — Perguntou o gordinho.
Olhei para ele com a certeza que ele era um palerma.
— Ela morreu. — Expliquei.
— Não vejo como isso possa ser importante para o caso, senhores. — Falou Mike olhando os seus ‘inimigos’ com desafio.
O Charada pôs os cotovelos na mesa e me olhou como se eu fosse um ratinho de esgoto.
— Você é destinada de ?
Apesar de todos me reconhecerem como tal, não pude evitar sentir meu corpo gelar. Peter, Havey e Mike, ou até mesmo os empregados de , tinham essa informação, mas aquilo não era público para qualquer um. Como isso chegou ao ouvidos deles?
Ross e Specter se olharam com um ar conturbado e balançou a cabeça para que eu respondesse.
— É… sim. Eu sou.
— Você é consciente que um dos tios do seu destinado, Jacob , é dono de uma das empresas que concorre ao trabalho de cuidar dos lares das Alas M-P e que a mesma nunca conseguiu aprovação do Estado para isso?
Os mirei com confusão.
— Não sei do que você está falando.
— Ah, não sabe? — perguntou cinicamente a mulher — Se eu lembrar que parte do dinheiro que vem do seu destinado, um desembargador bilionário, vem dessa empresa? E que o tipo de acusação que você está fomentando pode acabar com a reputação dos nossos clientes apenas para que a de acabe com a concorrência?
— Protesto. — Interviu Harvey antes que ela falasse mais alguma coisa — O que destinado da minha cliente faz com o dinheiro dele não tem nada a ver com o caso. São os abusos que sua empresa tem com ela durante os últimos anos que está em pauta aqui.
— E o que não nos garante que a senhorita inventou toda história para favorecer a empresa do destinado? — Investigou a mulher loira. — Sabe que calúnia e difamação é contra lei e que você pode se dar muito mal por isso, não é?
Eu quis pular em cima daquela mulher e esmurra-la por insinuar que eu estava mentindo. Se não tivesse um pingo de autocontrole meus dedos já estariam marcados naquela cara coberta de reboco.
— Isso é uma ameaça? — Indagou Harvey com puro deboche.
— Não, estamos apenas falando sobre uma lei aleatória. É um aviso. — inquiriu o Charada.
— Têm poucos dias desde que descobri que estive pagando mais do que um cidadão da Ala O deveria. — Falei com firmeza — Tenho a cópia de todas as contas que paguei e posso provar isso, apesar de ter perdido quase tudo da minha casa por uns vândalos. — pus o cotovelo na mesa e os encarei — Acredita que eles usaram as cores do brasão da sua empresa? Muito conveniente.
— Isso é uma acusação? — Indagou o gordinho — Sabe que…
— Oh, céus, pare de ficar lembrando as leis — reclamou Mike.
— Não é uma acusação, senhor. — Harvey respondeu por mim com o ar de deboche que ele carregava naturalmente — É um aviso.
Apertei os lábios tentando não sorri vitoriosa quando Specter disse aquilo. A admiração que eu tinha por ele cresceu quase vinte por cento.
— Alguma pergunta a mais para fazer a minha cliente? — Indagou Mike olhando diretamente para Trio a nossa frente.
— Tenho sim. — Disse a mulher parecendo pronta para mostrar a sua última carta na manga. — A quanto tempo está casada com seu destinado?
Deixei minha cabeça cair para o lado sem entender.
— Eu não sou casada, muito menos com meu destinado. — respondi obviamente.
— Então por que moram juntos? — abri a boca para responder, mas ela continuou — Como funcionária de uma multinacional como você ganha só um salário mínimo por ser secretária de um CEO? Não faz sentido você continuar pagando impostos como se fosse da Ala O. Você desconhece a multa para quem comete esse crime de fraude, senhorita ? Roubar os direitos dos pobres é amoral e crime.
Com o sangue fervendo e com os palavrões tão bem aprendidos por mim na Ala O fazendo minha língua coçar.
— Escuta aqui, sua…
— Chega. — Interrompeu Harvey com uma calmaria calculada. — Esse depoimento não está chegando a lugar algum.
Ele se levantou e abotoou o terno cirurgicamente.
— Espero que não se sintam constrangidos quando forem dar a notícia que o acordo foi duplicado. — Falou enquanto assentia para que desligassem o microfone e a câmera. — Em contrapartida se insistirem em ir a julgamento com argumentos de calouros de direito, espero que estejam preparados para falir seu cliente.
Quando saímos da sala de reuniões e com uma conversa franca com Harvey resolvi estender um pouco mais o prazo para conseguir um acordo. Havia a remota possibilidade de não ganhar um bom retorno se o caso fosse a julgamento e era claro que a oposição queria nos levar até lá para apelar para o juiz. A secretária de Specter avisou a sobre nossa decisão de segurar mais um pouco e, embora não gostasse muito da ideia, ela era bastante sensata. Além disso, ele estava para jogar a notícia no jornal para o dia seguinte — porém ele ocultaria o seu nome enquanto eu estava disposta a arriscar-me ao me expor. Não pensei muito quando o fiz, mas ao ir ao trabalho percebi que não parecia preocupado na minha privacidade, a não ser a parte em que ele se envolvia.
E eu, como de costume, fiquei bastante desconfiada.
Ao passar no RH para entregar o ofício que justificava minha falta, mesmo depois de falar com Carter eu havia esquecido de levar aquilo no dia anterior, descobri que um estagiário ia encaminhar-se para ser meu assistente. Achei estranho, pois nunca precisei de ajuda extra para fazer meu trabalho, entretanto assim que li o sobrenome do chefe entendi o que se tratava.
Bryan Carter tinha a cara de adolescente rebelde sem causa, mesmo já estando com seus vinte e um anos. Fiquei um pouco mais aliviada em saber que a semana seria de treinamento para os novos funcionários e que eu não ia precisar lidar com ele no momento.
Depois que acomodei-me na mesa de sempre, foquei em cumprir minhas tarefas anotadas em post-its com a letra apressada do chefe. Aos poucos meu rendimento começou a voltar ao normal e pude me concentrar no trabalho.
Era quase fim do horário de almoço quando Daisy apareceu segurando uma sacola artesanal e uma fruta enrolada em papel alumínio. Quanto mais ela se aproximava um cheiro delicioso de coco, lavanda e outras especiarias dominava o andar.
— Alguém está com fome? — ela ofereceu a fruta para mim — Por que não desceu para o refeitório?
— Trabalho acumulado — respondi — Aliás, obrigada.
— A mesa fica tão chata sem você e Mary — comentou — Sabia que agora ela começou a fumar?
Franzi o cenho.
— Como ela nos faz um discurso inspirador sobre quanto negligenciamos nossa saúde e começa a fumar? — indaguei confusa.
Daisy deu os ombros e sentou-se em cima da minha mesa.
— Só sei que ela anda muito estranha ultimamente. — disse — Mas, mudando de assunto, estou fazendo sabonetes artesanais e queria que você testa-se. As meninas são muito frescurentas e estão com medo de ter uma reação alérgica — Bardot revirou os olhos.
Cerrei os olhos para ela desconfiada.
— Caraca, é cheiroso demais! — comentei quando abri a bolsa que ela ofereceu — Chega a ser enjooso.
Peguei três pacotes e fiquei encantada com os que escolhi. Eles eram um pouco maiores que os comprado em supermercado; os de coco e melancia davam vontade de comê-los. Daisy me explicou que ela estava pensando em abrir uma saboaria.
— Minha vida toda trabalhei para alguém e estou pensando seriamente em ser empreendedora — Disse ela — Como Mark, sabe? Claro que metade da fama dele vem dos meus contatinhos…
Soltei uma risada.
— Se ele escuta isso…— falei antes de dar uma mordida na pêra em minhas mãos.
Ela deu os ombros como de quem não liga.
— Falando nele, acredita que o idiota não quer pagar um plano de saúde? — reclamou — Acha que vai viver pra sempre.
— Homens… — falei balançando a cabeça.
Aquela situação me lembrava um pouco e como gatilho lembrei da nota fiscal que achei no dia anterior.
— Daisy? — A chamei hesitante.
— Sim, ?
— Você conhece o Hospital Lenox Hill?
— O hospital de tratamento de câncer?
Não se desespera.
Calma.
Isso não significa nada.
? Tudo bem? — Indagou Daisy. — Você ficou pálida de repente.
— Tudo sim. Só uma náusea. — Repliquei.
Desviei do assunto e falei que deveria voltar ao trabalho. Quando percebi que estava sozinha me permiti desabar na cadeira.
OK, apenas esteve em um hospital especializado em câncer. Ele podia estar visitando alguém, certo?
Respirei fundo tentando pôr esta justificativa em mente, mas logo me lembrei da sua constante falta de apetite e diversos comportamentos estranhos — inclusive ele falou que tomava remédio controlado. Não pude evitar lembrar das vezes que percebi seu olhar cansado e só pensei no pior.
Fechei os olhos com força para não chorar. Eu ainda não tinha certeza se era aquilo, mas a remota ideia de que estaria morrendo aos poucos me dava calafrios. Cheguei a procurar seu número no celular para tirar minha dúvida, mas não sabia como abordar aquele assunto.
“Ei, eu estava fuçando o bolso dos seus casacos e vi que você esteve em um hospital de câncer. Devo me preocupar?”
Como um lembrete de onde eu estava e do que deveria estar fazendo, Carter apareceu junto com Daniel saindo sua sala. Eles estavam enclausurados no escritório fazia horas e ainda sim saíram conversando sobre algo aparentemente muito importante. Jones comentou sobre o cheiro bom que estava no lado de fora do escritório e falei que era um dos sabonetes artesanais de uma amiga que eu guardei na bolsa. Assim que ele saiu do meu campo de visão, Albert pediu para que um email urgente deveria ser enviado aos quatro diretores da empresa para uma reunião emergencial para o dia seguinte; e, claro, ele refrescou minha memória sobre a viagem ao México que tivemos e minha responsabilidade de entregar um projeto para ele.
Embora mais concentrada no trabalho, não pude deixar de sentir um comichão no peito. Sempre que eu me distraía, minha mente teimava em pensar nisso.
Voltar para a Ala A nunca foi tão desejado por mim.
Assim que cheguei em casa mal cumprimentei Rose e perguntei sobre . Ela deu os ombros e disse que ele chegava em meia hora mais ou menos. Resolvi, então, ir tomar um banho e fingir estar esperando pacientemente.
Vi que estava com um problema quando percebi que eu havia apenas mais uma combinação de roupa limpa pra vida e a morte — e pra piorar, era o último vestido de verão que Ivanna tinha feito para mim. Definitivamente teria que ir às compras.
Escondida dentro do casaco que me deu para não tremer de frio, comecei a andar pela casa a fim de conhecê-la melhor. No terceiro andar havia a sala de música, como eu soube no dia anterior, e mais três quartos para hóspedes. Descobri uma sala de pintura e fiquei encarando quadros bem medianos, no mínimo. Havia um quarto enorme para jogos, com três tipos diferentes de aparelhos de vídeo games e uma estante repleta de DVDs deles.
Como conseguia ter tantos hobbies era uma questão que eu desconhecia a resposta.
Para passar o tempo, voltei a pesquisar mais sobre na internet. Não me sentia nem um pouco confortável em ter que fazer minha própria investigação para conhecer meu destinado, mas ele não cooperava.
Hesitante joguei no search “ e namorada”.
A principio achei uma foto antiga dele com uma moça de cabelo verde, mas duvidava muito que fosse essa com quem ele se casou; além de não parecer com a que vi meses atrás em minha pesquisa, a foto não indicava nada romântico — para ser sincera, eu diria que ela foi cortada e havia mais mais amigos na imagem.
As imagens interessantes só vinheram mais embaixo onde e uma mulher loira desciam do carro basicamente em todas elas. Os dois sempre usavam boné e óculos claramente tentando se esconder — sem muito sucesso. Não dava para reconhecê-la, no entanto. Mesmo em uma foto em que está com o rosto a mostra dentro do carro, saindo de um hotel na Califórnia, ela cobre o rosto com um casaco verde.
Seja lá quem era essa mulher, ela era ótima em se esconder.
Encontrei um artigo em que cogitava a possibilidade dele estar noivo, pois em um julgamento, na época que ele atuava como advogado, era possível ver uma aliança na mão direita. No entanto não houve mais nenhum “incidente” como esse e ele não se pronunciou sobre isso.
Depois de um tempo enrolando finalmente desci para ir até a cozinha. Encontrei sozinho comendo um pretzel encostado no balcão. Por causa da minha teoria de que ele estivesse doente, esperei vê-lo com o ar cansado e abatido, mas o que me deparei era totalmente diferente: ele parecia uma criança que acabou de ganhar um doce, com direito a farelo e açúcar sujando o terno.
— Tudo certo para irmos? — Indagou limpando a boca com o pulso.
— Tudo sim, mas e você? Como vai? — Perguntei tentando soar casual.
Ele cerrou os olhos para mim não comprando minha interpretação de amiga despreocupada.
— Eu vou bem, obrigado. Aconteceu alguma coisa?
— Tem certeza que está bem? — me aproximei dele visivelmente perturbada — Digo: não se sente mal, algum problema de saúde..?
me olhou como se eu fosse louca.
— Do que você está falando? Minha saúde é ótima! — explicou-se — Não escute o que Rose fala, ela ama exagerar.
— Mas...
— Estou bem, . — reafirmou — Se lhe faz se sentir melhor: eu visito um médico regularmente.
— E não deu em nada?
Era claro que minha tentativa de ser discreta falhou miseravelmente.
— Nada. — respondeu — Sou o homem mais saudável que você conhece.
Relaxei os ombros aliviada sentindo um fardo enorme saindo de minhas costas. Mordi minha língua quando me vi quase perguntando quem ele visitara na noite anterior e para que era o remédio que tomava regulamente.
— Vamos antes que o motorista congele lá fora. — Chamou-me estendendo a mão em minha direção.
Segurei sua mão morna com firmeza e o deixei me puxar para frente.

🌏🌍

— Primeiro que advogado nem é gente. — Falei para assim que entramos no carro para voltar para casa.
Expor toda sua indignação de modo divertido foi a forma que encontrei de contar o episódio do depoimento sem sentir vontade de mergulhar na miséria emocional que andava vivendo nas últimas semanas.
Ele deu uma risada.
— Diga-me, então, senhorita , como deixei de ser um Homo Sapiens na sua lógica. — brincou ele ao colocar o cinto.
— Ah, Vossa Excelência conseguiu burlar a evolução dos advogados. — Garanti tentando soar intelectual — Quase foi canonizado pelas minhas amigas.
— E você fala sobre mim para suas amigas?
— Não, mas elas comentam sobre você toda vez que você dá uma passadinha na empresa — respondi. — Posso dirigir daqui?
trocou um olhar pensativo com o motorista.
— É, vamos aproveitar que a rua está deserta e o máximo que pode atropelar é um poste.
Dei-lhe um tapa no ombro.
— Você vai morrer pela boca. — Ameacei trocando de lugar com o motorista que para variar não decorei o nome.
A ida até uma loja de artigos de inverno não foi tão difícil como pensei. Havia pouquíssimas pessoas no estabelecimento e os que estavam lá pareciam apressados para voltar a suas casas. Era um lugar aconchegante, moderno e não parecia o tipo de loja que imaginei que pessoas da Ala A fazem compras. No caso, não havia paparazzis e fãs loucas do — algo que inconscientemente imaginei acontecer, mas lembrei que, apesar de famoso, ele era um desembargador e não um astro do rock.
Durante todo tempo bati papo com a atendente universitária enquanto esperava sentando e ria de algo em seu celular. Distraído, meu destinado não percebeu quando passei o cartão em seu lugar e parcelei seis vezes sem juros (depois de pechinchar um descontozinho, claro). Apesar desse ato amaciar meu ego, tinha dor de cabeça só em pensar nas contas mirabolantes que teria que fazer para pagar. Fazia tanto tempo que não comprava roupas que era estranho vestir ao que não fosse Made In Ivanna’s.
— Do que você tanto ri aí? — Indaguei curiosa carregando as sacolas que havia comprado.
— Hã? — Respondeu atônito — Disse alguma coisa?
— O celular. — Expliquei — O que é engraçado?
— Ah, não é nada. Só estou falando com a Sarah. — Disse se levantando.
Quem é Sarah?, Pensei em perguntar, mas segurei minha língua. A chance da frase soar como namorada ciumenta era enorme e não estava a fim de prestar a esse papel.
— Aqui está a notinha. — ofereceu a atendente com um sorriso — Volte sempre!
— Ah, obrigada. — Sorri para ela em agradecimento.
olhou para nós duas não entendendo o que estava acontecendo.
— Espera, já pagou os casacos?
Me virei para ela balançando a cabeça em negação.
— Homens. — revirei os olhos.
Então, se sentindo contrariado e enganado por mim, fez questão de comprar um cachecol horroroso apenas para não dizer que não pagou nada.
Homens.
E daí que chegar nossa conversa no carro. Assim que sentei no banco do motorista ajustei-o a minha altura. sentou no passageiro e fiquei pensando em quão estranho era estar com um segurança no banco traseiro do carro.
— Então, sabe como dar partida no carro?
Olhei para ele desgostosa.
— Eu tenho carteira, gênio. É claro que sei.
Ele deu os ombros.
— Vai que você estivesse mentindo?
Como resposta ao seu comentário, dei a partida do carro e devagarinho tirei do estacionamento. Embora aparentasse muito concentrada na estrada, prestei bem a atenção nos olhares zombeteiros de meu destinado ao nosso guarda-costas.
Assim que entrei na avenida quase deserta troquei de marcha e pisei no acelerador.
— Caso você não saiba, não estamos em um filme de Velozes e Furiosos. — Falou ele apertando o cinto. — Pode diminuir a velocidade por gentileza?
O ignorei e mantive a mesma aceleração. Liguei o rádio e fiquei feliz em saber que tocava um blues que eu conhecia bem.
Fiz algumas perguntas diretamente ao motorista sobre a direção em que deveria ir. Ignorei durante todo o trajeto até a garagem de casa.
— Pode me dar um segundinho com seu chefe? — Pedi ao motorista e ele saiu prontamente.
Virei-me para frente e dei o suspiro.
— O que eu fiz agora? — perguntou ele.
Neguei com a cabeça.
— Nada. Apenas… — respirei fundo — Não gosto que me subestimem.
— Tudo bem, foi mal.
Dei os ombros e ficamos em silêncio.
— Eu não dirigo bem se isso a alivia. — Confessou ele.
— Ah, é? Então por que estava me zoando?
abriu um sorriso.
— Gosto de irritá-la. — Replicou — Você parece tão racional às vezes…
— Excelência, acho que você deve procurar outro passatempo. Irritar mulheres não me parece sábio.
Meu destinado bagunçou o cabelo deixando-o voltar para os cachos loiros ainda com o sorriso na face.
— Mas algo está lhe incomodando. — afirmou ele depois de um tempo.
— OK, Professor Xavier. — brinquei apesar dele estar certo.
— Por que perguntou sobre minha saúde mais cedo?
E eu, iludida, pensando que isso era passado. Pressioná-lo a responder as perguntas que rondavam minha mente nos últimos dias era tudo que eu queria fazer, mas não era o momento certo.
— Nada.
— Eu sei que não é “nada”, . — rebateu. — Você sabe que pode dizer qualquer coisa para mim.
— Estou pensando no que os advogados da P.A.F.E.R. disseram, só isso. — respondi — Não sei como eles descobriram que somos destinados. Pensei que essas informações eram confidenciais.
— E são. — afirmou — Irei conversar com Harvey e vamos tentar descobrir, apesar de não ter muito que fazer.
— Obrigada. — Murmurei.
virou a cabeça de lado me avaliando.
— Ainda acho que não é exatamente isso que lhe preocupa. Você sabe que não precisa ficar com medo de…
Não querendo escutar um sermão chato sobre confiança, deixei uma das minhas inúmeras perguntas escapar.
— Quem é seu irmão?
— Não quero falar sobre isso.
Revirei os olhos.
— O que descarta a ideia de que ele existe. — Concluir — Você sabe que não precisa mentir para mim, não é? Estar no México com uma ou dezenas de mulheres não influencia muita coisa. Agora eu vejo que foi infantil da minha parte ter bloqueado seu celular, afinal, você não tem nenhum compromisso comigo. Ter sido você ou não naquele dia não muda nada.
— Eu. Não. Estava. No. México — repetiu impaciente.
— E sua ex mulher? Quem era ela?
olhou para mim como se eu fosse um alien.
— Definitivamente não vou falar dela para você.
— Isso não foi um empecilho quando estávamos no parque.
— O que falei foi para ajudá-la e nesse momento não vejo como isso vá ajudar em alguma coisa.
Deixei meus ombros caírem em cansaço.
— Sabe, , o tempo todo você me pede para confiar ou seguir seus conselhos. Você deve saber até o horário do meu nascimento e não posso saber quem diabos é o seu irmão gêmeo?
— Você fala as coisas para mim porque quer. Eu não tenho nenhum dever de dizer tudo sobre meu passado. — retorquiu impaciente.
Olhei para ele por longos segundos sentindo que ele havia acabado de me dar uma facada e me empurrado para longe de qualquer que fosse a aproximação que eu estava querendo ter com ele.
— Verdade. — murmurei — Você não tem nenhuma obrigação de dizer as coisas para mim. Me desculpe por isso. Não vai acontecer de novo.
Saí do carro me sentindo estúpida. Por que eu tive que abrir a minha boca grande? Eu era errada da história, afinal. Não tinha o direito de pressioná-lo a contar seus segredos daquela forma. Ao mesmo tempo não queria ser invasiva nem nada; apenas desejava conhecer o homem que o destino disse que era perfeito para mim. Em nenhum momento quis entrar sem permissão em sua privacidade.
Eu sabia que o destino errava às vezes. Os divórcios pós-casamentos com destinados estavam ali para provar, mas não esperava que quando isso acontecesse me sentiria tão vazia. Seja lá o tipo de relacionamento que eu e estávamos construindo foi interrompido, sem previsão de volta, assim que deixei seu casaco no sofá e tranquei-me no quarto.

Capítulo 16

“Diga-me o que quer ouvir; algo que agradará os seus ouvidos. Estou cansado de toda esta insinceridade, então abrirei mão de todos os meus segredos dessa vez” - Secrets by OneRepublic.

Eu estava chateada pelo que havia dito e depois de uma noite de sono o sentimento havia se misturado com uma tristeza que deixou meu humor muito para baixo. Odiava pensar que estava tão ligada ao que ele facilmente poderia atingir meu emocional.
Atrasei-me para não encarar meu destinado naquela manhã da forma mais corajosa que você pode imaginar. Apenas apareci na cozinha quando tinha quase certeza que não iria encontrá-lo.
Tudo era uma grande confusão na minha cabeça e comecei a perceber o porquê sempre quis ficar longe daquela história de destinado. Como forma de lutar contra toda aquela desgraça mental, decidi focar no trabalho.
Só quando sentei junto com as meninas no refeitório da empresa no almoço vi o quanto sentia falta delas. Havia um prazer inexorável em jogar conversa fora sobre um programa de TV, músicas ou uma moda sem noção lançada por uma famosa marca de sapatos. Ouvir a risada singular e engraçada de Stella e Daisy narrando uma história qualquer com seu jeito pomposo era tudo que eu precisava para relaxar.
Escutei-as comentar sobre seus maridos e seus planos para o dia de Ações e Graças. Muitas iam visitar os pais ou os sogros e aquilo me deixou bastante para baixo. Eu não tinha uma verdadeira tradição de um jantar recheado nesse dia, mas minha mãe estava lá, apesar de sua doença.
Então, eu lembrei que aquele seria meu primeiro ano sozinha.
Sempre senti que traía meus pais de alguma forma quando pensava nisso, mas queria saber mais sobre os meus avós maternos e de onde eu vinha. Meu pai trocou de família diversas vezes e nunca teve a oportunidade de ter alguém para chamar de pai ou mãe, então, não conheci meus avós paternos também.
A família era só eu, Steve e Letícia e mais ninguém. Éramos suficientes até agora.
Cogitei me oferecer a ir com para o jantar de sua família, mas, além de ser muito inconveniente, se fosse um tipo de jantar em que juntava todos os Hoyers e antigos (como Carol Carter), eu não estava preparada para encarar Albert fora do campo de trabalho e ser apresentada como “a destinada que não quer ser destinada”.
Isso soava péssimo.
Sem contar que, bem, eu não estava nem um pouco a fim de sair junto com . Engraçado ele ter pedido para manter uma amizade entre nós quando não se predispôs a me contar sobre sua vida. Claro que tinha seu direito de não querer me dizer nada, mas não faria o seu comentário menos desagradável e contraditório.
Se meu destinado não queria falar, tão pouco eu iria fazê-lo. Me sentia desapontada; idealizei tanto como um homem gentil demais para ser real que me esqueci que, assim como eu, ele também cometia erros.
— Parece pensativa — disse Franz com os olhos atentos ao seu iogurte.
— Tenho passado por uns probleminhas, mas nada que se resolva com o tempo. — Respondi — E você? Como anda?
Ela deu um sorriso doce.
— Vai indo. — Franz suspirou — Tem sido difícil abrir mão do meu destinado, sabe? Você estava certa, mas deixar alguém que você gosta ir é doloroso.
Segurei sua mão livre e apertei-a dando lhe apoio.
— Você pode aproveitar esse tempo para conhecer mais sobre você mesma. — Sugeri — Há algo que sempre quis fazer, mas nunca fez?
Franz parou para pensar um pouco.
— Aulas de dança talvez? — Incentivei quando a vi passar os segundos em silêncio.
— Eu gosto de tango. — replicou — Acho bonito.
Sorri para ela.
— Então é isso que você deve começar.
Algum engravatado aumentou o som da TV no refeitório e vi boa parte da empresa prestar bem atenção no que era dito. Não consegui controlar a ansiedade quando vi que era justamente a matéria sobre o processo contra P.A.F.E.R, representado pela L&James e fiquei aliviada em saber que meu nome fora preservado.
Os comentários que vieram após isso foram mistos, mas em sua maioria ouvi boa parte dos trabalhadores — incluindo minhas amigas — que concordavam comigo (a vítima misteriosa). Boa parte das pessoas que desfrutavam do almoço no refeitório eram no máximo da Ala J e continham suas revoltas contra a forma poliearizada que o sistema das Alas funcionavam.
Alguma coisa estava nos eixos naquele dia, afinal.
A viagem para casa foi mais uma vez melancólica. Embora tivesse ignorado os problemas desde que saí da Specter+Litt, eles voltaram com toda força no caminho de volta para Ala A. Esperava com toda a minha força não ser necessário ter que fazer outro depoimento ou mesmo ir a julgamento. Ser mais uma vez intimidada pelos Irmãos Metralha estava fora de cogitação. Existia, também, o projeto pedido por Carter e minha total inexperiência. Observar os outros fazendo era uma coisa, fazer era outra.
E, então, havia .
Me sentia esgotada quando na mansão. Sendo um dia escuro e frio nada parecia melhorar meu humor. Após Rose falar que estava em seu escritório e que veio para casa mais cedo, fui direto para o quarto.
Tomei um banho demorado com o sabonete artesanal da Daisy — um dos cosméticos mais cheirosos que eu havia usado, era como vestir um mar de flores — vesti meu pijama quente, comprado no dia anterior, enrolei-me no cobertor e liguei a TV para assistir “The Young and the Restless”.
Era a forma mais confortável de se acabar um dia ruim.
Foi no meado do episódio que ouvi as batidas na porta.
?
Fui traída pelo meu corpo ao ouvir sua voz familiar. Antes de pensar muito respondi com um hesitante “sim?”.
— Posso entrar?
Não o respondi, mas abri a porta. Segurei um suspiro e tentei acalmar meu coração que acabava com a falsa frieza que queria demonstrar. usava camisa e calça social preta, mas toda dose de segurança parecia ter se esvaído dele. Parecia um cachorro que caiu do caminhão de mudança apoiado na parede. Não cairia naquela postura, no entanto. Cruzei os braços e me encostei na porta.
— Olá. — Falei tentando passar naturalidade e desdém.
— Você ainda está chateada comigo? — Indagou sem delongas.
Direto.
— Acredita que tivemos uma conversa parecida ainda essa semana? — Comentei sarcástica — Parece que foi há anos.
… — Ele fechou os olhos cansado.
— Eu mesma.
— O que você quer de mim? — Perguntou transtornado.
— Quero que você seja sincero comigo. — Repliquei — Quero que pare de esconder as coisas de mim como seu eu fosse sua inimiga. Eu confio em você, . Por que você não confia em mim?
A última frase saiu como um sussurro velado por uma angústia que evitei sentir durante todo o dia. Me perturbava saber que enquanto eu depositava minha crença em , ele se recusava a me contar coisas básicas sobre sua vida.
Meu destinado ficou calado por um bom tempo. Estávamos próximo fisicamente, mas havia um espaço colossal entre nós no aspecto emocional. Um mar de segredos que ele não me permitia acesso.
— Isso é tão difícil pra mim, . — Confessou em um murmúrio — O tempo todo tenho que evitar que algo pessoal caía nas mãos erradas que me esqueço que nem todos querem me ver falhar. — Explicou — Ao mesmo tempo não quero envolvê-la no meu mundo.
Não contenho o sentimento de surpresa quando concluí o óbvio: tinha inimigos. Constantemente ele parecia estar com tudo sob controle, porque não podia demonstrar fraqueza. Ele era rico, trabalhava no sistema judiciário e era filho de um político famoso — um pacote cheio para ser odiado por muita gente.
Seguro seu rosto delicadamente para que olhe para mim. Sua pele era macia e esbranquiçada. Ele se aproxima mais um pouco e nossos cheiros se entrelaçam no ar, um contraste magnético com o clima da conversa.
— Não quero conhecer apenas o seu lado bom, Excelência. Quero conhecer você e seu mundo por inteiro.
Seus olhos, apesar de escuros, abrem a janela de sua alma. A frase proferida por mim foi o “abre-te, Sesámo” para que ele baixasse a guarda. O sorriso que ele tentou conter, sem sucesso, também evidenciava isso.
Lambi os lábios esperando que dissesse alguma coisa, embora eu meio que entendi a mensagem por sua linguagem corporal.
— Tudo bem. Eu… — Soltou a respiração — Eu direi o que você quer saber.
Sorri para ele.
— Obrigada. — Respondi — Mais alguma coisa?
retribuiu o sorriso em sua forma sedutora e ao mesmo tempo envergonhada.
— Desculpa por ter sido um insensível com você ontem. — Ele coçou a cabeça constrangido — A verdade é que não sei lidar conosco às vezes. Você é totalmente diferente do que eu esperava.
Levanto uma sobrancelha.
— O que exatamente está se referindo?
— Não sei. Apenas diferente. — Resmungou — Meus primos tiveram destinados superficiais em sua maioria, mas o destino resolveu me surpreender.
Me mexi desconfortável com aquela conversa de destino mais uma vez. Ainda não gostava da ideia que algo controlova o mundo e que minhas escolhas não eram realmente minhas.
Fiquei de lado para que ele entrasse no cômodo.
— Pode começar a contar. — Incentivei.
suspirou e caminhou até minha cama como se estivesse no corredor da morte. Ele deitou-se na cama deixando as pernas fora. Imitei-o e quase pude ver a briga que travava internamente.
— Não sei por onde começar. — murmurou.
— Comece pelo começo — respondi simplesmente.
virou seu rosto para mim com o olhar distante lembrando de coisas que tentava constantemente esquecer.
— Você já recebeu alguma mensagem ou recado estranho para repassar a Carter? Vindo de um banco desconhecido ou empresa que não existia? — Perguntou de súbito — Algo que parecia… errado?
Franzi o cenho tentando pensar naquilo. Relembrei, então, de um email de dois anos atrás. Vinha de um remetente desconhecido durante as férias de Albert; quando repassei a mensagem automática, o recado voltou, pois o email era inexistente.
Ao perguntar sobre, Albert disse que não era para se preocupar com isso.
— Talvez. Era algo sobre “uma transação de suma importância”, mas não vinha de banco algum. Acho que foi engano. — Repliquei depois de um tempo. — Por quê?
soltou um bufo de quem estava decepcionado.
— Não sei porque estou impressionado. São todos iguais.
— Pare de falar em código. Seja mais coerente. — Resmunguei apoiando-me pelos cotovelos.
— Na ala A não se sobrevive sendo honesto. — Ele iniciou — A partir do momento que você é passado para a mais alta ala consegue inimigos automaticamente; inimigos geralmente vindo da concorrência. Às vezes eles chegam antes que cresça seu negócio na verdade. Até mesmo a Coral teve seus momentos de tensão.
Continuei em silêncio interessada naquela conversa.
— Há um grupo que organiza os pequenos furtos, as pequenas propinas e transações estranhas que podem ser consideradas “aceitáveis”. Mas esse grupo também é responsável por coisas muito ruins.
Segurei sua mão e apertei o incentivando a continuação daquela explicação. Seus olhos escuros estavam assombrados.
— Eles são constantemente chamados para limpar a sujeira e cobram caro para isso. Assassinatos, tráfico de drogas, repartição de propinas… São conhecidos como a Shadow e eles trabalham apenas para Ala A.
“Não há uma alma viva ou morta que é da Ala superior que nunca contratou os seus serviços. Se você não o fizer, corre o risco de morrer e perder toda a sua família. Se acha a Ala O perigosa, não sabe o que é ser um rico que sabe que pode morrer a qualquer momento mesmo tendo o seu próprio exército à disposição. Ter inimigos é ruim, mas quando eles são da Ala A tudo se torna pior.”
Se aquela história que ele contava era para me assustar, tinha conseguido com sucesso. Pensei nos seus guardas-costas que lhe rodeiam e que mesmo eles não o deixavam seguro. O que era segurança, afinal?
— E é aí… — sua voz me quebrou no meio.
Aquilo tudo o afetava tanto que quis protegê-lo do mundo. Embora se mostrasse sempre bem, imparcial e até distante, era influenciado pelo ambiente que vivia.
Pigarreando, meu destinado recomeçou a sentença.
— E aí que entra meu irmão.
Arregalei os olhos.
— Seu irmão foi dado como morto? A Shadow está atrás dele? — desatei em indagar ansiosa.
— Não, . — Sua voz saiu sofrida e sentir meu coração encolher no peito.
A perturbação de me fazia pensar no pior. A demora para dar a informação que eu queria também foi agonizante; segundos que me pareceram mil anos.
— Ele é da Shadow. — Disse ele finalmente. — Meu irmão é um criminoso, . E Tobias gosta disso. Não, não: ele ama o que faz.
Um arrepio passou pela minha espinha ao pensar que estive tão perto de alguém assim. Me sentei na cama tentando digerir toda as informações que tinha me dado. O que mais me deixava agoniada era imaginar que pessoas como Carter não eram honestas como eu pensava e que as falsidades das alas altas não se limitavam a ignorância de ser elitistas.
Ninguém era santo.
Pigarreei nervosa.
— E você? Já se envolveu com isso?
se levantou tão subitamente que quase caiu com o pé enrolado no lençol, embora ele estava mais preocupado em mostrar sua raiva. Vi que escolhi mal as palavras quando apresentou-se vermelho e ultrajado. Aliás, ultrajado era eufemismo. Ele estava puto.
— Como você pode sugerir que eu possa ser desonesto a esse ponto?
Com cuidado me aproximei dele.
— Você falou que ninguém na Ala A é inocente.
Entendendo que se perdeu em suas próprias palavras, desviou o olhar.
Sempre vi meu destinado como um poço de racionalidade, maturidade e paciência. Aquela foi a primeira vez que o vi frágil daquele jeito.
Toquei seu ombro devagar e apertei sem muita força.
— Não estou aqui para julgá-lo, . — eu disse.
Talvez não fosse saudável pressioná-lo a dizer, mas além de estar super curiosa, aqueles segredos estavam destruindo-o por dentro. Havia um peso que incomodava meu peito ao pensar no tempo em que esteve guardando tantas informações.
Seus olhos escuros se mostravam estranhamente pálidos, puxando para o prata de um oceano profundo convidando-me a mergulhar. Antes de dizer qualquer coisa, me convidou a jogar-me em seu mundo.
E eu me lancei sem hesitar.
— Eu não sou o Pequeno .
Encarei-o como se ele estivesse maluco. O que diabos ele estava falando?
— Quando saí da Alemanha vim fazer o ensino médio — explicou — Ninguém, além da família, sabia da minha existência. Pedido da minha avó, ela odiava holofotes tanto quanto eu. — acrescentou com um gosto amargo na boca — Meu irmão estava iniciando, entrando na Shadow e precisava de algo que provasse que ele era bom no que fazia. Meu pai apoiava aquela loucura; ter um filho na Shadow era uma vantagem que pouquíssimos tinham. A ideia de Tobias era bastante… Como eu posso dizer?... Era pretensiosa. Sumir do mapa com um novo nome quando até pessoas desconhecidas o conhecem é impossível. Eles precisavam de alguém que ficasse no lugar do filho do futuro governador do estado e facilitasse o trabalho de Tobias. Eu era perfeito para isso. Ele soltou uma risada seca, sem humor.
— Com quatorze anos tive que escolher entre aceitar o acordo deles ou não haveria ninguém para pagar minha faculdade. Hoje percebo que era besteira e eu poderia me virar, porém quem eu quero enganar? Se eu o fizesse teria poucas chances de estar vivo.
— Meu Deus. — Falei, pois foi a única coisa que me veio em mente.
Eu me sentia enojada e machucada no lugar de . Fazer aquele tipo de terrorismo mental para um garoto de quatorze anos era tão errado quanto um pai alimentando a psicopatia do filho por puro egoísmo e pensamentos calculistas. Estava totalmente decepcionada com o ótimo governador, mas péssimo pai que Aitofel foi.
O que mais me intrigava era pensar que um jovem de apenas quatorze anos pensava de forma tão horrível como Tobias e lembro de Jack, que tem a mesma idade.
Meu destinado passou as mãos pelo rosto tentando clarear as ideias e eu sentei mais uma vez na cama atônita.
— Você tinha medo que eu mudasse o que penso sobre você se soubesse isso?
Eu tinha consciência que era uma pergunta um tanto estúpida, mas aquela pulga atrás da orelha incomodava.
— Não, porque você nunca quis ver-me através dos olhos dos outros. — disse com um sorriso cansado — Isso é uma das coisas que mais gosto em você.
Ele sentou mais uma vez ao meu lado e ficamos um bom tempo em silêncio. Eu tentava digerir tudo aquilo que descobri e as coisas começaram a se encaixar em minha mente, enquanto outras perguntas se afloraram.
— É difícil de acreditar nisso, não é? — Comentou — Parece teoria da conspiração de blog apocalíptico.
Sorri concordando com a cabeça.
— A sua indicação para ser desembargador tão novo foi obra da Shadow? Para acobertar Tobias?
— Felizmente não. — Respondeu — Minha indicação vem de uma crise do judiciário e descrédito da população nos mesmos. Eles precisavam de um bode expiatório, alguém jovem que demonstrasse um caráter perfeito na mídia. Alguém para manipular e que pense que sabe alguma coisa.
Não gostava do tom que usava; aquilo tirava todo crédito que ele tinha em sua profissão.
— Não seja tolo, você é bom no que faz. — Elogiei, embora não soubesse muito do seu trabalho.
— Obrigado. — Agradeceu soltando um sorriso genuíno.
Abracei-o de lado e apoiei meu queixo no seu ombro. Apreciei aqueles segundos de silêncio e fechei os olhos para me concentrar naquele estranho momento de paz; o corpo de quente perto do meu e seu cheiro eram embriagantes.
— Sinto que só agora estou começando a conhecê-lo de verdade — falei.
— Não gosto muito dessa parte de mim. — Resmungou ele enlaçando seu braço ao meu redor.
Me aconcheguei em seus braços e uma boa sensação de segurança me dominou. Ao contrário do que ele disse, eu estava começando a simpatizar com aquela parte ”suja” do . Ali ele se mostrava um ser humano vulnerável e não o super herói indestrutível que sempre quis parecer ser. Ainda havia tanto para aprender sobre meu destinado e aquele covil de cobras que era a Ala A…
beijou meus cabelos cuidadosamente e o peito aqueceu com familiaridade.
Mein Gott, você está muito cheirosa. — Elogiou ele descendo o nariz até meu pescoço. — Mal consigo me concentrar na nossa conversa.
O corpo tremeu com o seu hálito contra a minha pele e fico feliz em ter usado os sabonetes artesanais naquele dia.
Daysi, te amo.
Infelizmente ele se afasta de repente quando sua barriga ronca de fome.
Nunca o vi tão vermelho como naquela vez. Eu apertei os lábios um contra o outro tentando conter o riso quando ele me chamou para jantar lá embaixo desconfortável. Era uma pausa definitiva naquele pequeno interrogatório e tive mais tempo para refletir.
Confusa, parei de andar de repente quando vi um buquê de flores e uma caixa de bombons em cima do balcão na cozinha. Estavam ali antes?
Sheisse, eu esqueci! — Reclamou colocando a mão no rosto.
Ele os pegou e constrangido me entregou devagar.
— São para você, .
Aceitei apesar de não entender o porquê de me dar só agora. Percebendo minha cara confusa, desatou em falar.
— Tecnicamente eu deveria ter lhe dado no almoço enquanto eu implorava por desculpas, mas tive uma videoconferência de emergência para fazer essa tarde e acabou complicando tudo. — falou um pouco rápido demais que o normal — Minha memória é uma merda, então acabei esquecendo de mandar.
Deus, como ele era fofo!
Abracei as flores com um sorriso e as depositei em cima do balcão novamente. Abri a caixa de bombons ansiosa, pois devo ter comido um daqueles apenas uma vez na vida. Eles eram caros demais para a maioria dos mortais, inclusive eu.
— Se você tivesse me dado só o chocolate nem precisaria pedir desculpas. — Comentei ao comer aquele doce feito pelos deuses.
— Vou anotar para futuros problemas — Ele disse enquanto procurava algo na geladeira — Tem frango frito aqui, você quer? É só esquentar.
Assenti e sentei na ilha para comer, esperando o microondas deixar a comida no ponto.
Provavelmente aquela era a primeira vez que vi comendo voracidamente. Parecia que não se alimentava há dias — nem tive oportunidade de puxar conversa. Eu não estava com muita fome, mas me forcei a comer alguma coisa.
Prestei um pouco mais de atenção em meu destinado e vi um pequeno desleixo em sua aparência. Seus cabelos não estavam penteados com gel e os cachos grossos o deixavam com ar de um anjo. Havia alguns pelos loiros em seu rosto, demonstrando que ele não se barbeou naquele dia.
deve ter tido um dia tão ruim quanto eu afinal.
Depois de terminar de comer e colocar os pratos na lavadora, tive aquela sensação de precisar puxar algum assunto; o silêncio se tornou algo bastante desconfortável.
— Sempre quis ter uma dessa. — Falei me referindo a máquina de lavar pratos.
— Acredita que minha avó odiava esse tipo de tecnologia? — Comentou com um sorriso nostálgico — Ela dizia que por causa disso nos tornamos uma geração de preguiçosos.
— ‘Tá aí uma preguiça que eu gostaria na minha vida. — Repliquei sorrindo — Sempre quis saber como é ter uma avó. Pelos seus relatos ela devia ser uma mulher interessante.
— E ela era. — Disse com satisfação — Se não fosse Chaia eu não teria uma infância tão boa e saudável, longe da Ala A.
Franzi o cenho.
— O nome dela era Chaia? Que nome esquisito! — Comentei, mas logo me arrependi. Estou falando do nome da avó de alguém, pelo amor de Cristo!
Todavia, agindo diferente do que imaginei, soltou uma gargalhada.
— Ela odiava o nome também! Embora sua mãe tenha colocado o nome por causa do primeiro livro que leu aos trinta e cinco anos, quando aprendeu a ler. — me lançou um olhar cheio de significado — Chaia significa vida.
Sorri com o coração descompassado. O olhar que me dava aquecia por dentro e por fora e não consegui evitar ficar fascinada com meu destinado.
— Venha, tem uma coisa que quero lhe mostrar — falou de repente e segurou minha mão.
Com entrelaçando nossos dedos me senti avoada e ele aproveitou para roubar um bombom que estava em cima da ilha dando sopa.
Ele soltou um suspiro parecido com o meu minutos antes ao comer o primeiro chocolate.
— Eu tenho muito bom gosto. — Se gabou e eu o empurrei para o lado, rindo.
me levou até o andar onde havia o seu quarto de música, a sala de jogos e um lugar em que achei algumas pinturas; no final do corredor havia uma imensa janela que dava para ver o jardim parcialmente. Eu gostei da familiaridade que ele segurava a minha mão; sua pele era macia, bem cuidada — uma mão que nunca fez trabalho pesados.
Paramos na última porta do corredor a esquerda, a única do andar que mantinha um sistema de segurança parecido com o escritório. Depois de colocar a senha e sua digital, a porta abriu com um clique e fiquei deslumbrada com o quarto de luz vermelha.
Parei na entrada de súbito um pouco apreensiva e saiu procurando o interruptor ligou a luz branca. Minha boca se formou em um grande ‘o’ quando eu vi um grande mural de fotos, organizado como uma linha do tempo. Me aproximei lentamente percebendo nas imagens o rosto conhecido do meu destinado e de pessoas semelhantes a ele, ou seja, sua família.
— Vovó gostava de organizar tudo. Era um TOC na verdade. Ela começou a fazer o mural e eu terminei — disse ele. — Gosto de tirar fotos também como hobby.
No canto da sala havia uma mesa com notebook e impressora e outra com duas câmeras profissionais, uma Polaroid e algo parecido como uma câmera da Idade da Pedra.
— Não sei se fico mais impressionada com isso — apontei para o painel de fotos — ou com o fato de que você mantém hobbies demais para um adulto normal.
Ele soltou uma gargalhada.
— Estou falando sério — repliquei um pouco ressentida, mas ainda curiosa — Você é músico, tem videogame de última geração e até encontrei uma sala com algumas telas de pintura. — apontei — Agora, você também é metido a fotógrafo. — adicionei — Como você consegue manter todos esses hobbies?
sorriu sedutor.
— Sendo ruim em todos. — respondeu simplesmente — Menos como músico; nisso eu sou bom sim.— Ri de seu comentário e ele continuou — Não costumo fazer tudo ao mesmo tempo, a verdade é que enjoo fácil demais de qualquer atividade. Era assim também na escola, sempre estava fazendo uma coisa diferente.
Eu nunca participei de nenhum clube ou atividade extra curricular na escola. Na época apenas cheguei a participar no grupo de líderes de torcida por dois meses, mas não consegui organizar o tempo para isso e os cuidados que devia a minha mãe.
O mural era datado com letras miúdas em baixo; havia fotos de desde que era um bebê. Na primeira imagem da linha do tempo sua mãe segurava duas crianças idênticas, apesar de que, para mim todos os nenéns têm cara de joelho. No começo as fotos eram sempre com os dois irmãos juntos, no entanto, já se mostravam diferentes de alguma forma. Podia apostar que o menino sempre acuado era o .
— Quem é quem aqui? — Perguntei tentando provar meu ponto.
— Esse aqui. — Apontou para a criança mais extrovertida.
Encarei-o surpresa.
— Sério?
Ele concordou com a cabeça.
— Eu era um pestinha, não parava quieto. — Comentou com um sorriso ladino.
As fotos depois dos três primeiros anos passaram a ser mais dele com a vó. Chaia era Carol Carter mais velha e com o rosto mais severo; nas fotos sempre usava roupas de montaria em uma fazenda, uma propriedade digna de filmes. As imagens passaram a ser mais da paisagem do que de a partir de seus dez anos. Eu me vi sorrindo abobalhada quando cheguei aos seus dezesseis anos onde ele tocava saxofone com um chapéu de Papai Noel. Meu destinado era muito encantador quando mais novo e tinha certeza que se eu estudasse na mesma escola que ele, me apaixonaria facilmente.
Em algum momento avisou que ia em seu quarto e que eu poderia checar alguns vídeos da família no notebook. Não me surpreendi ao descobrir que a senha do seu PC era Berlim assim como a do celular.
estava claro como água para mim. Cada vez que via suas fotos e conhecia parte de sua história, mais me encantava com quem ele era. Não consegui evitar achar um pouco estranho saber que ele me deixara sozinha dentro de um quarto cheio de memória suas, mas me senti muito feliz em saber que confiava em mim o suficiente para isso.
Abri uma pasta com vídeos de anos anteriores no Natal. Havia diversos com crianças correndo, pessoas montando a árvore natalina e adultos cantando algo em alemão — muitos estavam claramente bêbados. O que mais gostei foi um vídeo em que tocava All I Want For Christmas da Mariah Carey. Tudo começa escuro e reconheci o toque da música em um instante. Congelei quando aparece em uma posição um tanto feminina e dublava como se fosse a própria artista. Em cada frase aparecia uma mulher diferente, fazendo então um grupo de quatro; a dança me lembrava Meninas Malvadas e soltei uma gargalhada ao ver , meu destinado, exalando mais femilidade que aquelas mulheres juntas.
Minha barriga doía de tanto rir e coloquei o video para repetir. fazia um rebolado meio estranho, mas mostrava estar se divertindo muito, até mais do que todo grupo. No final, eles se juntava para mais próximo da câmera e diziam juntos: “Feliz Natal, nós amamos vocês!”.
— O que está vendo aí? — Indagou ao voltar no cômodo de repente.
Ele vestia um pijama xadrez azul e aparentava ter saído do banho. Não consegui prender a risada quando, escutando o barulho da música, mudou de expressão como se tivesse visto um fantasma.
— Meu bom Deus.
Ele fechou a tela do notebook em alarde, como se aquilo apagasse o que vi de alguma maneira.
— Você precisa me ensinar essa dança! — Falei assim que controlei minha crise de risos — Espera, deixa eu ver se aprendi.
Apontei para ele e cantarolei a música imitando sua performance que deixava a própria Mariah Carey no chinelo.
cobriu o rosto vermelho com as mãos e falava frases um pouco desconexas. Entendi algo como “o que eu fiz para merecer isso?” “nunca confiar” e “criei um monstro”.
— Oras, não fique assim, Excelência. — Disse me aproximando dele — Aquele show foi digno de uma diva.
— Odeio você.
Ele me olhou raivoso.
— Odeia nada! Vai até me ensinar a rebolar desse jeito. — Respondi tirando suas mãos do rosto. — Quem diria! O desembargador discreto tem seus momentos de Drag Queen.
— Ah, pelo amor de Deus. — Reclamou ele se afastando fingindo que sairia da sala.
Aquilo só me atiçava mais, só meu destinado que não tinha percebido.
— Ei, espera! — Chamei tentando parecer séria.
recuou e olhou para trás em uma carranca.
— O que é?
Joguei o cabelo para trás e apontei para frente.
— Era assim que você fazia?
Como um simples mortal, não aguentou a pressão e riu. Eu amava o jeito que ele desviava o olhar toda vez que o gargalhava, como se não quisesse que eu o visse.
— Você precisa de um pouco mais de molejo. — Comentou com o sorriso no rosto fazendo exatamente como o vídeo.
Imitei-o e nós caímos na risada.
— Não é fácil para principiantes. — Ele deu os ombros se aproximando mais uma vez.
— Um dia serei tão boa quanto você. — Repliquei pousando minhas mãos em seu peito.
— Não sonhe muito alto, criança. — Ele piscou.
Com um sorriso, abracei-o pela cintura.
— Obrigada por confiar em mim me mostrando tudo isso. — Sussurrei.
me enlaçou e apertou-me com força contra seu corpo. Seu calor me dava uma sensação reconfortante e deixei-me soltar um suspiro.
— Quero que você me conheça por inteiro, . — Disse enquanto afagava meus cabelos.
Levantei a cabeça e pude ver seu olhar recair sobre meus lábios. O abraço mudou de significado quando o imitei. Observei com atenção como sua boca era rosada e aparentava ser um grande marshmallow. Ela implorava para ser beijada.
posicionou suas mãos até minha cintura, os dedos desenhando minha pele. Os nossos sentidos estavam aflorados, o ar estava carregado repleto de um mistério novo. O coração palpitava no peito pedindo para que eu avançasse e fizesse alguma coisa.
Eu iria beijá-lo. Eu necessitava beijá-lo.
Quando o vi lamber os lábios, arfei por antecedência.
Quando o vi abaixar um pouco a cabeça, fechei os olhos.
Quando seus lábios tocaram os meus, o mundo se tornou um grande silêncio.
Algo em mim desacordado por muito tempo se levantou com um estrondo.
Meu sangue corria quente em meu corpo gelado pelo inverno; uma adrenalina louca possuiu todo meu ser e quase entro em pane. Entreabro os lábios e desliza sua língua em minha boca. Seu gosto é predominado pelo chocolate devorado mais cedo e deixei um pequeno gemido sair.
Era bom. Era maravilhoso. Era inebriante.
Derreti-me, as pernas já perderam toda a força que tinham. Apesar de ser extremamente delicado com o beijo, os dedos de encravados em minha cintura sugerem algo diferente. Posso sentir quase todo seu corpo indo a loucura e minhas mãos nervosas encontram seus cabelos ainda úmidos do banho. Puxei-os com menos força que previa e arranhei sua nuca. Meu destinado arfou e apertou-me contra ele quase fundindo-os a ponto de sermos um.
Se a mansão caísse sobre minha cabeça, eu não sentiria.
O chão poderia se abrir debaixo dos meus pés e eu não me importaria.
Ali, nos braços de , eu estava segura.
Eu era uma sem teto, mas naquele momento eu estava em casa.
Os lábios de estavam inchados quando nos afastamos e deduzi que devia estar no mesmo estado. Nossas respirações estavam descompassadas, mas ele ainda mantinha os braços em volta de mim com firmeza.
Ele temia que eu saísse, que fugisse dele.
Olhei-o nos olhos e pude ver uma chama prateada em sua íris escura e meu íntimo estremeceu. Estava zonza, atônita, sem saber o que fazer ou como reagir.
Ficamos em silêncio, pois nada era preciso dizer.
Main Gott.
Eu estava perdida.

Capítulo 17

“Amigos não deveriam me beijar como você me beija.” Friends, Ed Sheeran.

!
Dei um pulo de susto ao ouvir Carter gritar meu sobrenome. O meu chefe me olhava com um olhar irritado e eu engoli o seco já pensando na bronca que levaria.
ㅡ Estou lhe chamando há quase… ㅡ ele checou o relógio ㅡ … dois minutos e você não me atendeu. O que anda acontecendo com a senhorita? Nunca foi de ser distraída.
ㅡ Não vai acontecer de novo. ㅡ Falei, apesar de achar difícil de cumprir a promessa ㅡ O que o senhor deseja?
— Há algum recado para mim?
Mexi o mouse do notebook e abri a área de trabalho.
— Sim, sua esposa o aguarda às 14 horas para o acompanhamento do exame, porém o senhor tem que estar na fábrica às 15 horas. — Expliquei — Quer que eu deixe para o outro dia?
— Não, alguém tem que ir à fábrica. — Disse ele ponderando — Ligue para Daniel e peça-o para ir até lá em meu lugar.
Assenti digitando rapidamente as informações necessárias para que lembrasse o que fazer.
— Seus advogados estão disponíveis para conversar às 17 horas. — Ele balançou a cabeça concordando — Cassandra deseja vê-lo ainda essa manhã.
Ele fez uma careta.
— O que essa mulher quer agora? — Indagou.
— É algo sobre as canetas vermelhas que ficaram rosa no mês passado. — Resumi.
Albert balançou a cabeça mais uma vez concordando.
— Chame Garry Fordnelly para nossa conversa. — Pediu e eu assenti já antecipando a dor de cabeça que teria para conseguir contatá-lo.
Ainda não entendia porque ele vivia naquela bolha e era considerado um bom profissional. Eu nunca o vi trabalhando, então não podia dizer muita coisa. Por que a Coral o mantinha em seu time? Só Deus sabe.
— Vai precisar que o acompanhe nesses compromissos? — Indaguei.
Ele negou com a cabeça e sem se despedir do meu campo de visão.
Observei meu chefe sair com uma pulga atrás da orelha. Depois das revelações que me ofereceu no dia anterior, não consegui parar de pensar na Shadow e como toda a Ala A estava envolvida com isso.
Foi quando abri o arquivo com o projeto pedido por Carter que recebi uma mensagem de . Mordi os lábios tentando conter em vão o sorriso que toma
va meu rosto. Aconcheguei-me na cadeira e li a mensagem de meu destinado. : “Acabei de descobri que sou um meme. Isso é bom ou ruim?”
E, junto com seu recado, havia três imagens em que tinha o recorte de com uma expressão de desagrado com a bata de juiz em plena audiência judicial. Não pude evitar rir de cada uma das piadas e mandar risadas exageradas para ele.
: “Não se preocupe, isso é bom!”
Ponderei um pouco antes de mandar outra resposta. Eu me sentia nervosa em falar com ele, já que não fazia ideia do que éramos um do outro. Nunca tive certeza na verdade, mas agora a insegurança parecia maior.
: “Que tal a gente almoçar juntos hoje? Tem um restaurante legal aqui perto...”
demorou um pouco para responder e fingi ler algo que tinha escrito como base para o produto que tinha feito. Minutos depois meu celular vibrou e fiquei desapontada com sua resposta.
: “Não vou poder :( Tenho um almoço importante hoje. Te vejo à noite?”
Mandei uma mensagem positiva, embora estivesse com uma dorzinha no peito.
Após nos beijarmos na noite anterior passamos a trocar olhadelas e risos típicos de casal de quarta série. Ele parecia mais bonito, sedutor e principalmente encantador. Não lembro o teor da conversa, mas sei que antes de nos despedirmos, ele me beijou tirando me o fôlego — uma ótima forma de desejar boa noite.
Demorei para conseguir dormir. Meu cérebro teve bastante dificuldade de digerir tudo que tinha dito, pois ainda tinha uma desconfiança no fundo dizendo que ele não me contou tudo. Apesar disso adormeci suspirando, almejando sentir mais uma vez o gosto dos lábios do meu destinado.
De manhã apenas trocamos um bom dia, pois ele parecia estar super atrasado, embora fosse o mesmo horário de sempre.
No almoço mal pude prestar atenção no que minhas amigas falavam. Fiquei rabiscando um caça-palavras antigo, sem muita pretensão em terminá-lo, quando aumentaram mais uma vez o som da TV no refeitório. Muitos grupos pararam de conversar para assistir enquanto outros aumentavam o som das vozes para serem ouvidos; todavia a cacofonia não impediu que eu escutasse com clareza a repórter comentar sobre o Escândalo das Casas Mais Baixas.
Um nome horrível, tenho que admitir, mas fazia jus ao caso. Ela dava mais informações sobre o processo e divulgava a nota para imprensa feito pelos advogados da P.A.F.E.R.
— Pra mim essa história está muito estranha. — disse Mary olhando para a televisão. — Vocês viram que o advogado da “vítima” é o Specter? Ele não é muito caro para alguém da Ala baixa? Nem eu poderia pagá-lo.
— Pode ser um caso pró-bono. — argumentou Stella.
— Acho muito difícil. — continuou ela — Na época que eu era da Ala P, nunca tive problemas com essa empresa.
Levantei a sobrancelha, mas mordi minha língua para não puxar briga.
— Só porque eles foram honestos com você, não significa que serão com os outros. — disse Daisy como se fosse óbvio.
Mary deu os ombros.
— Eu só acho estranho. — resmungou voltando-se para sua comida intocada.
Durante a conversa percebi que Mary estava mais quieta, algo totalmente atípico. Até mesmo Franz, que costumava ser um túmulo, comentou alguma coisa quando o assunto mudou para celulares. Ao voltar para o trabalho, interceptei minha amiga perguntando se estava tudo bem e ela me deu uma resposta afirmativa. Mesmo querendo insistir, deixei que Mary voltasse para recepção, deixando claro que estava disponível para ouvi-la.
A tarde passou devagar e soltei um suspiro aliviada quando vi que meu expediente tinha acabado. Fiquei surpresa quando percebi que Carlos veio me buscar, ao invés do Bälmer.
— Senhor pediu para que eu a buscasse hoje, pois a mulher de seu motorista está em trabalho de parto. — justificou ele misturando o inglês com espanhol.
— Oh, muito bem. — respondi em espanhol — Há quanto tempo mora aqui no país, Carlos?
— Oito anos. — disse em sua língua materna — Não sabia que falava espanhol.
Dei os ombros e pelo retrovisor o vi sorrir.
— Trabalho para os Hoyers desde os trinta. — disse ele — Chaia me contratou assim que se mudou para o país e passei a trabalhar para quando ela morreu.
Enquanto conversávamos, descobri que a matriarca veio a falecer há cinco anos de uma parada cardíaca. Embora fosse de bom coração, tinha problemas com ele, disse Carlos. Rose estudava engenharia civil quando a conheceu e os pais dela não aceitaram muito a ideia de ter um genro dez anos mais velho que sua filha, motorista e mexicano, porém aqueles “defeitos” eram indiferentes para Rose.
Não demorou muito para que ela saísse do curso e começasse a fazer gastronomia. Seus pais ficaram loucos quando perceberam que não podiam a controlar, mas aceitaram suas mudanças com o passar do tempo. Apesar de Rose ser uma ótima cozinheira, ela não se encaixava em um restaurante, de acordo com seu marido. Trabalhar quase como chefe da casa de era muito mais gratificante para ela.
ㅡ Temos um menino de 7 anos, Jorge é o nome dele. ㅡ Comentou ele assim que chegamos em casa ㅡ Ele passa as tardes aqui com Rose, mas nesse horário está fazendo judô com o tio.
Sorri para ele.
ㅡ Espero poder conhecê-lo qualquer dia desse.
Ao entrar na cozinha, deparei-me com Rose perguntando o que eu queria para jantar, no entanto pedi para cozinhar naquele dia, pois sentia falta de fazê-lo. Ela me olhou desconfiada em resposta, com um sorrisinho de lado que sugeria segundas intenções.
ㅡ Tá querendo conquistar o chefinho pela barriga, hein? Muito inteligente da sua parte.
Neguei veemente mesmo com meu rosto esquentando e denunciando minha façanha.
Depois de me ensinar onde estava cada coisa, comecei a pegar os ingredientes para fazer um Risotto. Rose avisou-me que estava trancado há três horas em seu escritório trabalhando e provavelmente ia estar morto de fome quando saísse.
Quando fui até seu escritório já se passara uma hora e meia em que tinha chegado em casa; tinha me banhado e vestido um casaco e calça jeans.
Abri a porta devagar e ela não fez ruído algum. Por um minuto analisei com um olhar perdido, sentado em sua cadeira estofada.
Seu escritório tinha uma decoração amadeirada e escura, com coleções de livros suficientes para uma biblioteca privada. Atrás de sua mesa havia uma grande janela de vidro que dava para o jardim.
mexia as mãos cautelosamente e falava algo em alemão, como se tentasse entrar em consenso com sua mente. Ele puxou os cabelos para trás e começou a batucar os dedos em sua testa, como tentasse lembrar de alguma coisa. Suas roupas estavam amassadas e a gravata já se encontrava jogada em cima de uma das cadeiras da frente.
Bati levemente a porta para chamar sua atenção e ele ergueu a cabeça alarmado e com os olhos esbugalhados.
— Desculpa, não quis lhe assustar.
— Não há nenhum problema, eu que estou distraído demais. — Disse voltando a pilha que estava sobre a mesa.
Fitei a bandeja em cima de uma cadeira cheia de biscoitos basicamente intocada.
— Está com fome?
Ele balançou a cabeça negando sem me olhar.
Cruzei os braços não entendendo sua atitude tão distante. Meu estômago se embrulhou em ver minhas expectativas por aquela noite murchar aos poucos. O que eu esperava, afinal?
Abri a boca para pedir — quase ordenar — que ele descesse e comesse algo quando soltou um suspiro de frustração.
— Qual é o problema? — indaguei me aproximando.
— Faz quatro malditas horas que tento ler isso e não consigo entender absolutamente nada.
— Talvez você devesse dar uma pausa — sugeri gentilmente — Fiz risotto e tá com uma cara tão boa…
Ele franziu o cenho.
— Você fez? Não a Rose?
Dei os ombros.
— Gosto de cozinhar.
Meu destinado olhou mais uma vez para sua mesa em dúvida.
— Quero terminar isso hoje.
Me posicionei atrás de sua cadeira e massageie seus ombros. Senti seus músculos tensos relaxarem devagar.
— O que há de errado em fazer uma pausa? — perguntei beijando sua bochecha.
agarrou minha mão direita e beijou a palma lentamente. Estremeci no íntimo quando ele roçou o nariz na minha pele e fiquei feliz por saber que o outro sabonete artesanal de Daisy também surtia efeito.
— Vem, você come e depois volta pra o trabalho — falei dando tapinhas encorajadoras em seu ombro.
— Estou meio enjoado. — Disse ao se levantar de supetão.
Como para confirmar seu pensamento, desequilibrou-se por alguns segundos e se segurou na mesa.
Meu sangue gelou quando o vi arregalar os olhos e balançar a cabeça tentando voltar a órbita. Pus a mão em sua cintura com o coração na mão.
, está tudo bem?
— Só uma tontura. — Comentou ele piscando repetidamente.
— Quando foi a última vez que você comeu? — perguntei com tom acusatório.
— Sei lá. — Respondeu — No almoço? Hm… É, foi no almoço.
— Não me surpreende que você esteja sem conseguir se concentrar. — resmunguei — Você precisa cuidar de sua saúde, . É a primeira vez que sente tontura?
Ele balança a cabeça negando.
— Não precisa se preocupar, vou comer o Risotto e estarei novinho em folha. — disse com um sorriso encantador.
me colocou em sua frente e aproximou-se para beijar-me. Mesmo o desejando — e muito — não cairia naquele jogo. Cruzei os braços e dei um passo para trás.
— Sabe o que eu acho? Acho que você deveria ir ao médico — afirmei sem cerimônia.
— Eu vou amanhã — falou dando um passo para frente e segurando meus braços devagar até que eles ficassem livres ao lado do meu corpo.
— De verdade? Mesmo sendo um sábado?
concorda com a cabeça.
— Tenho consulta marcada. — disse ele concentrado em mirar meus lábios — Você vai ver que estou perfeitamente saudável.
Bufei.
— Espero que sim. — eu disse descontente.
— Provavelmente meu mal estar vem da minha má alimentação, só isso. — garantiu ele — Eu vou me cuidar, prometo.
Mirei-o desconfiada por um tempo e fez questão de fazer sua melhor cara de inocência.
ㅡ Tudo bem. ㅡ eu falei por fim deixando meus ombros caírem ㅡ Você sabe que só falo isso porque me preocupo, não é?
Ele me dá um sorriso genuíno, aquele que faz meu estômago congelar. toca em meu queixo e inclina-o em sua direção. Apoio-me em seu peito, segurando-o pela camisa que usava.
ㅡ Eu sei que sim. ㅡ falou em um sussurro. ㅡ Obrigado por se preocupar comigo.
ㅡ É um trabalho pesado, Excelência. Mereço um salário. ㅡ respondi sorrindo para ele e com o olhar recaído em sua boca.
O calor da novidade de beijar era deslumbrante. Grudei-me em seu corpo e ele mordeu meu lábio inferior com avidez. Suas mãos abraçavam meu corpo delicadamente antes de roçar a boca em meu queixo, provocando-me. Ao ver minha pele arrepiada, meu destinado riu e se afastou.
ㅡ Vamos comer! ㅡ exclamou ele me arrastando para fora do escritório.
Porém a essa altura minha fome era de outra coisa.
Enquanto comíamos eu e o projeto para Coral se tornou o foco da conversa. se mostrava bastante interessado no meu trabalho, mesmo eu percebendo que aquele número de perguntas era apenas para disfarçar o fato de que ele mal tocou na comida.
Apesar de saber que ele não comia por causa de seu mal estar, me senti um pouco mal em não vê-lo desfrutar da minha comida. Eu gostava de cozinhar e até mesmo inventei pratos com os poucos ingredientes que possuía em casa e sempre recebi vários elogios. Aquilo era uma das poucas coisas que fazia questão de ser pomposa sobre.
ㅡ Está muito bom. ㅡ elogiou ele ao terminar de comer suas quatro garfadas.
Sustentei o olhar para ele por alguns segundos e me virei para a lavadora de pratos e guardei a louça suja.
ㅡ Obrigada. ㅡ murmurei sentindo uma inquietação estranha.
foi até a mim e pôs as mãos nos meus ombros.
ㅡ O que foi? ㅡ Indagou.
ㅡ Nada, eu só… ㅡ suspirei e virei-me de frente a ele ㅡ Você nunca me falou o motivo de usar remédio controlado ㅡ lembrei repentinamente.
Ele apertou os lábios e me analisou por um tempo. Aquela atitude era parecida com a que tinha no dia anterior ㅡ uma luta interna para não se fechar em seu casulo e me deixar na escuridão. Podia até vê-lo se afastar de mim.
ㅡ “Quero que você me conheça por inteiro” ㅡ repeti a sua frase com mágoa e levantei a sobrancelha.
Demorou alguns segundos até que ele soltou a respiração cansada e desviou o olhar ao dizer:
ㅡ São antidepressivos.
Fiquei em silêncio, sem saber exatamente o que dizer. De todas as coisas que se passaram em minha cabeça, nenhuma delas envolvia depressão. era um homem bem de vida, bonito, divertido e cheio de energia ㅡ não que isso evitasse a total existência da doença, mas me fazia questionar se eu prestava atenção o bastante nele.
ㅡ Eu troquei de remédios há três semanas atrás e eles são mais pesados, por isso tenho falta de apetite e diversos efeitos colaterais. ㅡ explicou ele.
Abracei-o forte meio arrependida por ter pressionado daquela forma, mas ao mesmo tempo feliz por finalmente saber o que diabos acontecia com ele.
ㅡ Desculpe ter sido tão insensível com você. Eu não fazia ideia.
ㅡ Você não foi. ㅡ ele disse com um sorriso cansado ㅡ Só não sei como lidar com isso direito, . Mesmo esses problemas psicológicos sendo antigos, eles estão sempre ali, uma sombra que nunca me deixa ir embora.
ㅡ O que você quer dizer com problemas? No plural?
Ele engoliu o seco. Sua respiração pesou e consegui ver um sofrimento aterrorizante por seus olhos escuros. Meu peito doeu, pois minha intuição diz que há marcas e cicatrizes profundas em lugares que nunca teria acesso. Qual seria a causa da sua depressão?
ㅡ Eu confio em você, . Juro que confio. ㅡ falou com um tom de súplica ㅡ Mas posso deixar isso para outro momento? Por favor.
ㅡ Sim, meu amor. Sim. ㅡ As palavras escorregam pela minha boca antes que eu pense e o beijo desesperadamente.
Queria aplacar qual seja a dor que sente com o carinho que possuía por ele. Minhas mãos tremeram ao acariciar seu pescoço e gritei no meu interior as palavras que não tinha coragem de dizer em voz alta.
Eu estou aqui, . As coisas vão ficar bem, você vai ver.
Meu destinado descansou sua cabeça em meu ombro, uma cena engraçada para quem olhasse de fora, pois ele era mais alto que eu. fungou meu pescoço e soltou uma risadinha.
ㅡ Mein Gott, amo seu cheiro.
E meu coração se encheu de ternura que só aquele homem podia me proporcionar.

Na manhã de sábado acordei mais cedo do que pretendia. Não havia ninguém pela casa, nem mesmo os empregados; lá fora pude ver todo o jardim coberto de neve. Fiquei na sala vendo um programa qualquer de culinária enquanto checava pelo celular as ruas que estavam fechadas por causa da tempestade que houve de madrugada.
Eu havia conversado com Jean antes de ir à Ala A e marcado para encontrá-la na Clínica ainda antes do almoço. Mal podia esperar para contar para ela e Ivanna o que aconteceu naquela semana, embora tivesse que ir carregando a notícia de que boa parte das roupas que Ivanna fez com tanto carinho foram destruídas.
Quando ouvi um barulho vindo da cozinha deduzi que era Rose e fui em sua direção, no entanto o som da campainha, alto o suficiente para acordar todo o primeiro andar, me fez hesitar.
Não havia TV alguma no corredor em que estava, por isso não fazia ideia quem era. Demorou alguns segundos para que um estrondo das grandes portas principais fosse ouvido e passos ligeiros chamaram minha atenção.
Assim que cheguei na cozinha, fui atropelada por trás por duas crianças. Desequilibrada, agarrei-me na parede para não cair de vez.
, hora de trabalhar! — uma voz masculina gritou — Pirralhos, parem de correr! Tem comida para… oh!
Se interrompeu ao me ver agarrada à parede com uma expressão confusa e eufórica.
— Olá! Desculpe o transtorno, só estamos à procura do Senhor . Sabe onde ele está? — Perguntou educadamente.
O rapaz aparentava estar na faixa etária de 19-22 anos e era muito alto. Continha alguns traços parecido com , mas nada muito gritante. Os cabelos, por exemplo, eram escuros enquanto os olhos eram azuis como o céu.
— Acho que ele está dormindo ainda. Quer que eu suba e o chame? — Me ofereci solícita.
— Senhorita ?
Virei-me para trás e só então observei que as duas crianças que me atropelaram eram as filhas de meu chefe. As duas tinham cabelos loiros, olhos claros e um nariz meio arrebitado de Carol Carter. A mais nova, que se chamava Rowe, no entanto, tinha um ar mais inocente e confuso que a irmã.
— Oi, meninas. — Falei nervosa.
— A senhora é secretária do também? Assim como do papai? ㅡ Indagou Presley Carter, a mais velha.
Olhei para os lados procurando uma resposta para aquilo sem que me comprometesse. Felizmente não tive tempo para dizer alguma coisa, pois uma adolescente morena, com a idade de Jack, apareceu de repente. A mesma segurava um menino com a capa de um trompete na mão.
está lá em cima dormindo. ㅡ disse ela cheia de segundas intenções.
Os visitantes se entre olharam compartilhando um sorriso maléfico e um plano que ia além da minha imaginação. Esquecendo-se de mim, o grupo saiu em passos apressados. Olhei para o fogão e encontrei Rose com uma expressão tão confusa que eu.
Fui cuidadosamente ao andar de cima e cheguei a tempo de vê-los entrar no quarto de com risinhos graduais. Quando alcancei a porta, vi o rapaz mais velho segurando um trompete no ouvido de meu destinado e as três crianças prontas para pular em cima da cama de casal. Deitado, sem saber o que lhe aguardava, dormia como um bebê.
A adolescente contou em alemão.
Eins, zwei, drei.
O som do instrumento soou com o despertador mais insuportável de todos os tempos; para piorar, as crianças subiram na cama e começaram a pular na cama como se fosse um pula-pula recém montado. A cena se completou com levantando-se em um solavanco assustado e desesperado; um grito de terror enterrado na garganta. Pus a mão na boca para segurar a risada, contudo o grupo não teve o mesmo pudor e caiu em gargalhadas.
Sai do caminho quando vi meu destinado ficar vermelho de raiva e trincar os dentes. Os gritos em alemão vieram depois e o grupo correu entre gritos histéricos e risos afetados; bateu a porta com fúria e por um segundo acreditei que a mesma seria destroçada pela sua força.
ㅡ Eu avisei, Prince. ㅡ afirmou a morena com um ar de riso. ㅡ Sou Luna -Smith, prazer. ㅡ falou ao perceber-me ao seu lado assistindo toda a cena.
ㅡ Sou e uau acho que vocês acordaram uma fera que eu não conhecia. ㅡ comentei assistindo-os voltarem à escada, provavelmente em direção à cozinha.
Minutos mais tarde enquanto atacavam um bolo feito no dia anterior por Rose, descobri que os visitantes não eram estranhos naquela casa, na verdade, eles eram os primos que costumavam visitar ao periodicamente. O rapaz mais velho era Spencer , estudante de teatro e música na Universidade de Columbia e meio irmão de Luna, que ia entrar na faculdade de música no próximo semestre; o menino mais novo era Jason Ruthford, também primo deles.
De acordo com o que me falaram, meu destinado havia marcado para ensaiar as apresentações de Natal aquele final de semana e prometeu acordar cedo. Sabendo que seu primo nunca o fazia, Spencer e Luna ameaçaram acordá-lo com muito barulho se ele não cumprisse o horário.
Dito e feito.
Em meio a piadas e histórias de reuniões de família, acabei não vendo o tempo passar e quase me esquecia que ainda ia para Clínica. Foi só quando Nelson Balmër, meu motorista e guarda-costas, apareceu dizendo que não podia me autorizar sair sozinha sem o aval de que Luna fez uma pergunta sobre mim.
ㅡ Você e são só amigos?
Eu percebi onde ela queria chegar apenas pelo tom da sua voz. Até mesmo as meninas que discutiam sobre qual princesa era mais legal pararam um segundo para ouvir minha resposta.
Além de não saber como responder essa pergunta, não podia dizer simplesmente que èramos destinados, pois sei que corria o risco de uma das meninas falar alguma coisa para os pais e a última coisa que eu queria no momento era que Albert Carter soubesse pela suas duas filhas pequenas.
ㅡ Eu e ele somos só amigos.
ㅡ Só amigos? ㅡ Indagou mais uma vez Spencer sem acreditar.
ㅡ Só ㅡ reafirmei.
Mas assim que falei percebi que foi um erro.
havia acabado de entrar na cozinha apressado e parou rapidamente ao ouvir o teor da conversa. Ainda carregava uma cara amassada de quem acordou há pouco tempo e vestia um casaco pesado de inverno e segurava um par de luvas, touca e um cachecol verde.
Sua expressão era de decepcionado, mas logo se transformou em uma carranca fofa e meu estômago embrulhou de antecipação. Ele era lindo sorrindo, sério ou mesmo desconcentrado, mas com raiva ele era simplesmente…
Engoli um suspiro.
ㅡ Vejo que já conheceu os pirralhos. ㅡ disse ele tentando soar brando e falhando miseravelmente.
ㅡ Eles são uns amores. ㅡ respondi em contrapartida.
ㅡ Não hoje ㅡ resmungou lançando um olhar severo para eles.
As crianças deram um sorriso inocente e quase pude ver as auréolas em cima de suas cabeças.
ㅡ Posso pegar um dos seus carros? Marquei de encontrar Jean na Clínica agora de manhã. ㅡ pedi ㅡ Quero ir só dessa vez.
Ele abriu a boca para responder, mas hesitou. Tirou a chave que estava dentro do bolso da calça jeans e jogou em minha direção.
ㅡ Diga ao Balmër que você não precisa de escolta ㅡ avisou enquanto atravessava a cozinha até a porta para o estacionamento ㅡ Afinal, eu não mando guarda-costas para cada um dos meus amigos, não é verdade?
Aí.
Ok, eu mereci isso.
ㅡ Onde você vai? ㅡ indagou Luna a ele.
ㅡ Tenho uma consulta agora de manhã. Volto mais tarde.ㅡ Respondeu e sumiu do nosso campo de visão.
Presley virou para Spencer parecendo desolada.
ㅡ Prince ficou muito chateado, eu não queria que ele ficasse assim ㅡ disse ela com um bico.
ㅡ Não se preocupe, ele vai ficar bem ㅡ falou Luna fazendo carinho em seus cabelos ㅡ Ele vai voltar melhor, você vai ver.
ㅡ Por que Prince? ㅡ perguntei curiosa.
ㅡ Teve uma vez que ele cantou duas músicas de Prince nas apresentações de Natal e o apelido acabou ficando. ㅡ Spencer disse me com um dar de ombros.
Ao entrar no estacionamento mexi no controle do alarme do carro para saber de qual automóvel era a chave. Passei cinco minutos babando a moto de , mas o porsche que ele me emprestara era bom demais para ser deixado de lado.
O carro tinha cheirinho de novo e estava com o tanque cheio. Saí em uma velocidade pequena, já que as ruas estavam escorregadias. Cheguei na Clínica perto da hora do almoço arrependida de não ter trazido as luvas comigo.
Encontrei Jean tremendo de frio e com os lábios brancos esperando-me do lado de fora. Depois de lhe dar uma bronca por correr o risco de ter hipotermia, entramos no prédio onde Ivanna vivia.
Por ser das Alas mais privilegiadas, minha amiga desfrutava de um lugar maior do que a maioria dos pacientes. Havia espaço para sua máquina de costura, um banheiro e um quarto; além do mais, seu quarto era perto do refeitório, onde ficamos a maior parte do tempo do nosso encontro.
Foi difícil contar a Ivanna sobre o que aconteceu com as roupas que ela um dia fez para mim. Com o coração pequeno no peito, vi seu rotiniro sorriso de deboche murchar quando dei a notícia. Percebendo o que acontecia, Jean contou um mico que tivera no seu primeiro dia de estágio para mudar o clima.
ㅡ Eu paquerei meu chefe, ㅡ disse cobrindo o rosto com as mãos ㅡ Que vergonha!
ㅡ Normal, criança. ㅡ falou Ivanna empurrando um copo de chocolate quente para ela ㅡ Isso acontece o tempo todo nos filmes.
Soltei uma risada com a cara de “sério?” que Grey fez para a mais velha.
ㅡ Que saia justa! ㅡ comentei a fitando tomar um gole de sua bebida. ㅡ Mas nada comparado ao banho de suco que dei em quando nos conhecemos.
Jean engasgou e ficou entre tosses e risadas. Dei tapinhas nas costas dela enquanto Ivanna ria da situação.
ㅡ Se o fato dele ainda ir atrás de você depois dessa amorosa recepção não é uma prova de amor, não sei o que é ㅡ falou Ivanna. ㅡ Aliás, você ainda está se fazendo de difícil para ele? Mesmo morando juntos?
ㅡ Já beijou ele? ㅡ Indagou Jean interessada.
ㅡ Ah, minha filha. ㅡ Respondeu Ivanna ㅡ A essa altura eles com certeza fizeram algo além de beijar…
Senti todo meu corpo esquentar de vergonha e soltei um grito para que ela parasse.
ㅡ E eu falei alguma mentira?
Jean soltou um gritinho animado.
ㅡ Quero saber todos os detalhes ㅡ disse Grey.
ㅡ Nós apenas nos beijamos, apenas isso! ㅡ repliquei.
ㅡ Ele beija bem?
ㅡ Você tem quantos anos, Jean? Doze? Que tipo de pergunta é essa? ㅡ Resmungou Ivanna.
Sentindo uma vergonha enorme, contei que estava conhecendo melhor meu destinado e cada vez mais via que ele era uma pessoa muito interessante. Escolhi as palavras com cuidado, tentando parecer mais racional possível e enganando a mim mesma falando que não estava levando para o lado emocional.
Ainda não conseguia organizar meus sentimentos.
Já havia me apaixonado antes. Quando estive com fui impulsiva e passei por cima até da promessa que um dia fiz a minha mãe e apesar de sair machucada no final, foi algo que eu precisava fazer.
No entanto me despertava um paradoxo de sentimentos intensos e ao mesmo tempo simples. Não tinha como ser prática com ele.
ㅡ OK, já entendi a parte técnica da coisa. ㅡ interrompeu Ivanna ㅡ Agora quero saber se você gosta dele.
Parei um segundo para pensar e captei a imagem de na última semana. O sorriso desenhou-se em meus lábios de forma involuntária.
ㅡ Eu gosto dele sim. Seria maluca se não gostasse.
Ainda pensava nisso enquanto voltava para casa no final da tarde. Jean estava estranhamente quieta ao meu lado enquanto íamos à Ala O. Fiz menção de ligar o rádio quando ela resolveu dizer o que a incomodava.
ㅡ Sei que não quer saber de , mas me preocupo muito com ele ㅡ desembuchou ㅡ Nos últimos dias percebi que ele tem andado alarmado e se assustando com facilidade. Será que seu destinado tem a ver com isso?
ㅡ Claro que não. ㅡ parti em sua defesa ㅡ tem mais coisas para se ocupar do que meu ex-namorado.
Ela levantou as mãos em rendição.
ㅡ OK, não está mais aqui quem falou.
Soltei um suspiro.
ㅡ Jean, com certeza seu irmão está bem. Ele é um homem adulto e embora seja levemente perturbado, é esperto. ㅡ Afirmei fazendo-a rir. ㅡ Além disso já disse o que queria dizer naquele dia, não tem porque fazer algo contra ele. Duvido que se lembre ainda da existência de .
ㅡ Tem razão ㅡ ela confirmou ㅡ Até porque qualquer um pode ver que você está caidinha por ele.
ㅡ Não é bem assim. ㅡ repliquei.
Minha amiga não disse nada, mas manteve um sorriso que dizia muito mais do que qualquer resposta.
Depois de me despedir dela, demorei alguns segundos olhando para porta de casa interditada pela polícia no começo da semana. Minha casa na Ala O continha minha infância, adolescência e parte da vida adulta; carregava lembranças de uma família simples e feliz e como ela foi reduzida com o tempo.
Eu estava ali na frente de casa quando a notícia de que meu pai tinha morrido chegou aos nossos ouvidos.
De repente me senti muito sozinha.
A cozinha da casa de estava repleta de bandejas com quitutes para os visitantes. Ofereci minha ajuda e junto com mais duas empregadas ㅡ que eu não conhecia ㅡ subi até o salão de música do segundo andar.
Eles estavam no final de uma cantiga natalina em alemão quando chegamos com a comida; Luna era quem cantava soprano belíssimo, Presley tocava seu violino desajeitadamente, Spencer usava seu trompete, Jason e Rowe, por ser os menores, tocavam tambores; e, claro, havia meu destinado com seu saxofone. Ao terminar a música, as crianças deixaram seus instrumentos de lado vorazmente; Spencer os acompanhou, mas Luna pediu para tocar no violão a canção que haviam ensaiado mais cedo.
Sentei-me no sofá mirando meu destinado com cuidado. Ele aparentava estar mais calmo, embora tivesse seu rosto claramente cansado. trocou o saxofone pelo violão e começou a tocar uma melodia lenta e romântica; me surpreendendo, meu destinado cantou a primeira parte da letra.
Sua voz era um tenor morno, afável e doce para meus ouvidos. Era como estar rodeada de conforto e de calor apenas pelo som da suas palavras. O eu-lírico da composição fazia promessas para pessoa amada, dizia que iria amá-la como nunca ninguém o fizera. Dizia que não importava onde eles estivessem, ele só precisava estar com ela.
A voz de Luna era a que mais se destacava; ela tinha uma técnica vocal esplêndida e rara em mocinhas tão jovens como ela. Se fosse em um programa de talentos ela seria aquela artista promissora que todos se perguntavam o motivo de não ser mais famosa.
Ainda assim minha atenção estava em . Ele parecia mais acanhado do que quando tocava saxofone. Todos olhavam para Luna, mas eu apenas via meu destinado.
A música se tornou cada vez mais romântica e sensual. A harmonia entre as vozes era instável, mas me ajudou a fitar com mais afinco. Sentia estar sozinha naquele cômodo com ele, como na noite em que curtimos jazz; havia mais intimidade no entanto.
Então ele olhou para mim e algo dentro de mim derreteu. Quase podia escutar o som dos meus batimentos ao perceber que um brilho prateado que cruzava seu olhar era direcionado a mim.
Sua expressão não mudou, embora Luna tenha alcançado uma nota alta e surpreendido todos que assistiam o show particular.
Mesmo encantada com o talento de sua prima, não tive muito tempo para pensar nela. Como se clamasse pela minha atenção, cantou uma estrofe em francês. Minhas pernas ficaram bambas e fiquei feliz em ter sentado antecipadamente. Já havia ouvido meu destinado falar em alemão e espanhol, mas nada se comparava ao seu jeito convidativo de sussurrar na língua francesa. Seus lábios pareceram mais vermelhos e experimentei uma sensação arrebatadora que me consumia por inteira.
Eu deveria estar babando descaradamente, pois ao terminar a música ele me deu um sorriso que dizia “eu sei o que você está pensando e sim, eu faço de propósito”.

Apesar de não ter passado a maior parte do tempo com eles, os primos de foram bastante simpáticos ao se despedir. Parabenizei-os pelo trabalho, principalmente Luna, que se mostrou muito tímida com meus elogios. Com eles indo embora e os empregados também, a casa parecia exageradamente vazia.
Estranhei quando vi sair da cozinha à passos apressados e devorando macarrão instantâneo como se fosse um manjar. Acompanhei-o com o olhar e gritei:
ㅡ Como foi a consulta?
Ele parou de súbito na escada e virou-se para mim. Com a boca cheia disse-me:
ㅡ Foi bem, inclusive tenho uma consulta com um nutricionista na terça. ㅡ respondeu e engoliu a comida ㅡ Se precisar de mim estarei no escritório.
ㅡ Hm, posso pegar um livro na sua biblioteca? ㅡ indaguei acompanhando seu passo.
ㅡ Não sei ㅡ disse levantando as sobrancelhas ㅡ Somos amigos suficientes para isso?
E ali estava: o ponto que deveríamos discutir. Ao contrário do que ele pensava, sorri dócil para ele.
ㅡ Sim, nós somos. ㅡ Respondi ㅡ Inclusive tivemos uma longa conversa para estabelecer que dois beijos roubados me faz querer dizer a todo mundo, inclusive as filhas do meu chefe, que sou sua destinada, não é?
Ele ficou calado e deduzi que sabia que eu tinha razão.
ㅡ Foi o que eu pensei.
Entrei em seu escritório que já estava aberto e fui em direção a parte em que eu imaginava ser o lugar dos livros de ficção.
, ainda assim acho que não… ㅡ disparou em falar mostrando-se impaciente atrás de mim.
ㅡ Amanhã nós conversamos com mais calma, . ㅡ falei sem olhá-lo ㅡ Você está estressado e eu entendo o porquê, mas não sou obrigada a ser bode expiatório.
Puxei um livro rosa quando eu vi o nome Natashia e Evie na capa. A capa era bonita; tinha detalhes lilás e o desenho mostrava uma menina acima do peso. O nome era “O Corpo Que Pedi A Deus”. Franzi o cenho e virei-me para meu destinado.
ㅡ Nunca imaginaria que você gostasse de chicklit.
ㅡ É um dos livros da minha mãe com tia Evie. ㅡ Respondeu. ㅡ Não gosto desse gênero, mas Natashia ainda é a minha progenitora.
ㅡ Ela tem algum livro que dedicou a você?
esticou o braço e pegou um de capa verde chamado “A Lei do Sr. Cohrigam” com o design parecido com o outro e o desenho de um advogado loiro. Nas primeiras páginas havia a dedicatória: Para meu filho .
ㅡ Vai me dizer que ela inspirou-se em você para fazer o Cohrigam. ㅡ Comentei com um ar de riso.
ㅡ Eu não sou tão arrogante assim. ㅡ Reclamou ㅡ Nem ambicioso.
Guardei o primeiro livro e fiquei com o que Natashia dedicou para meu destinado. estava atrás de mim e quando virei para partir esbarrei nele.
ㅡ Vamos ver se minha sogrinha é uma boa escritora mesmo. ㅡ Fiz graça e dei um beijo em sua bochecha ㅡ Boa noite.
Mas antes de sair, agarrou meu braço e puxou-me contra seu corpo. Senti os músculos do seu tronco rígidos e embora não estivesse mais carrancudo, eu sabia que seu mal humor não tinha morrido de vez.
E eu o entendia completamente. O dia foi longo e se eu tivesse sido acordada da mesma maneira que ele, era bem provável que uma das crianças morreria estrangulada.
ㅡ Mereço um beijo de verdade antes de dormir.
Olhei para ele cética, apesar de manter-me tentada a fazê-lo. Apertei os lábios um contra o outro analisando-o.
ㅡ Hoje você vai ter que beijar seu trabalho.
Escapei de seus braços e corri para meu quarto. Felizmente ele não me seguiu, já que dificilmente conseguiria resistir mais uma vez. precisava de um tempo à sós e eu precisava confessar a mim mesma que queria tentar um relacionamento com ele.

Acordei mais tarde do que pretendi no domingo por causa do livro A Lei de Sr. Cohrigam. Bruce Cohrigam era uma advogado bem sucedido que defendia os piores tipos de criminosos e costumava sempre ganhar os casos ㅡ mesmo que a vitória fosse a redução da pena. Ele pegou um caso particularmente fácil: o chefe de uma empresa de bebidas estava assediando uma das suas executivas e ele precisava defendê-lo. Tudo mudou quando ele descobriu que aquela executiva era sua ex-noiva, a única mulher que um dia tinha balançado seu coração.
A escrita era gostosa e fluia com facilidade. Mesmo não sendo uma leitora voraz e ter lido no máximo seis livros de ficção na minha vida, me vi tentada a passar a madrugada lendo aquela história.
Havia uma mulher diferente na cozinha de manhã e descobri que Rose tinha um dia de folga escolhido por ela toda semana. A cozinheira se chamava Clarie era bem mais calada e parecia temerosa quando me viu procurando algo para comer nos armários.
Depois de desfrutar algumas torradas feita pela cozinheira substituta, fui de elevador até o terceiro andar da mansão de , pois ela me avisou que o mesmo estava lá. Eu ainda não conhecia aquela parte da propriedade e me peguei pensando o porquê de tanto espaço para uma casa que vivia apena suma pessoa.
O terceiro andar se constituía praticamente em um salão de festas para churrascos ou qualquer reunião de família. A parede lateral era feita de vidro e podia se ver todo o terreno coberto de neve; o aquecedor, no entanto, não tinha tanta força naquele andar.
estava deitado com uma coberta em uma das espreguiçadeiras com um notebook no colo e segurando uma maçã mordida. Ele olhava para fruta como se fosse uma espécie de alien e não pude evitar sorrir com isso.
ㅡ Ela não está envenenada, Branca de Neve. ㅡ Brinquei ao chegar no seu lado.
ㅡ Saiba que só estou comendo isso porque você me pediu para cuidar da saúde. ㅡ replicou ele ㅡ Não estou com fome.
Olhei para uma mesinha cinza perto dele e vi uma bandeja com o café da manhã intocado.
ㅡ Me sinto honrada de saber que me escutou finalmente.
Deixando a fruta de lado, fechou o notebook e o deixou no chão com displicência.
ㅡ Vem aqui ㅡ pediu ele abrindo espaço em seu cobertor.
Ao ver que a esbreguiçadeira era forte o suficiente para nós dois e que meu corpo perdeu o calor habitual, me meti nos lençois abrançando-o com firmeza.
Com a cabeça apoiada em seu peito, senti uma pulsação diferente ao ter o corpo de tão colado ao meu. Estremeci, mas não de frio, e sim de desejo quando seus lábios beijaram minha orelha.
ㅡ Vejo que acordou com bom humor hoje. ㅡ eu disse.
ㅡ Sobre ontem, peço desculpas. ㅡ Sussurrou ele incapaz de falar alto quando estava tão perto de mim ㅡ Você tinha razão, é muito melhor conversar agora que estou com a cabeça fria.
Levantei os olhos para ele e me defendi:
ㅡ Não fiz nada de errado quando falei que éramos só amigos.
não pareceu me ouvi e afundou seus dedos em meu cabelo macio fazendo um pequeno cafuné. Meu corpo se arrepiou quando ele inclinou-se e beijou-me invadindo minha boca com o desespero de quem não me via há dias. Sua língua experimentava minha boca como se fosse o doce que ele mais desejava no mundo e uma névoa se apoderou da minha mente. Só Deus sabia o quanto o quis naquele momento. Não consegui pensar direito e demorei alguns segundos a mais quando subitamente se afastou e sussurrou:
ㅡ Nós não somos só amigos.
Perdi o raciocínio quando vi seu olhar intenso fazendo-me formigar, mas formulei a frase:
ㅡ Então eu estava errada em não querer que Presley saísse correndo para contar sobre nós a Carter?
Ele balançou a cabeça negando.
ㅡ Você estava certa, quero que ele saiba por nós e não por terceiros. ㅡ ele sorriu ㅡ Só desejo que se lembre desse momento toda vez que disser que somos apenas amigos.
Como se em algum momento eu fosse capaz de esquecer, quis replicar, porém apenas assenti.
Estava adorando conhecer aquela nova faceta do .
ㅡ Se não somos só amigos, o que somos? ㅡ indaguei curiosa.
ㅡ Somos destinados, oras. ㅡ Respondeu com seu sorriso “eu sei de tudo, bobinha”.
Abri a boca para replicar alguma coisa, mas seu celular começou a vibrar entre os lençóis. Ele ficou sério ao ler quem era e se levantou para atender.
falando.
Cada vez mais que os segundos se passavam mais seu rosto ficava duro como mármore e o nosso momento de diversão parecia nunca ter acontecido.
, o que houve? Aconteceu alguma…
Parei de falar assim que ele ligou a telvisão esquecida no canto e colocou no canal de notícias. Mais uma vez meu corpo ficou todo gelado e uma sensação de pânico me invadiu quando li o assunto daquela manhã de domingo na CNN e vi uma foto minha na TV:

“Escândalo das Casas Mais Baixas:
Destinada do Desembargador é quem processa a P.A.F.E.R, colocando o verdadeiro motivo em xeque.”

Continua...

Comentários da autora


Alguém esperava por essa? Com certeza sim!
O que acham que vai acontecer agora que pp foi exposta? E como pp vai lidar com isso?
E a saúde do pp? Por essa eu sei que ninguém esperava (risos)
Até a próxima, meus amores. Obrigada pelo apoio e as mensagens.