O Sorriso de uma Desconhecida

Escrito por Martins | Revisado por Mariana

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  Em relato, em papéis, em palavras busco minha sanidade. Não sei se ela ainda existe, espero que sim. Direi como eu a perdi. Eu realmente a perdi? Não sei. Posso dizer que a perdi só porque aceitei o irreal? Na verdade, o que é o real? Noto agora que todos temos nosso mundo real, mas será que o de todo mundo é igual? Eu pensava que sim. Mas foi uma garota, uma linda garota que me ensinou que não. Hoje eu a busco nos meus pesadelos, busco nos trilhos, nas ruas e, principalmente, nas janelas, pois eu sei que quando eu a vir será meu fim.
  Tudo começou na volta pra casa. Sempre cansado, um pouco depois da hora do rush eu volto de metro, voltava. Como muitos, diariamente eu me sentava em um banco. Muitos estavam em minha volta, sempre estão, cada um com sua própria historia. Mas nesse dia parecia haver menos pessoas. Como de costume, sentei em um banco e peguei meu celular. Na tela as imagens iam se passando e o mundo em minha volta ia se apagando.
  Eu tinha o costume de sempre guarda o celular duas estações antes da minha. Então nesse dia eu fiz. Na primeira estação eu via as pessoas descendo e poucas subindo. Gostava de ver a roupa delas e imaginar as histórias que passavam por mim. Cada um com suas felicidades e tristezas, um mundo em cada mente.
  Foi antes da ultima estação, foi entre as estações que aconteceu. Algo que mudaria meu mundo, um sorriso. Entre as terras do túnel, entre as pedras e o vidro ele veio. Uma mulher, um reflexo, uma perdição, uma bela perdição. De longos cabelos pretos e casaco verde, olhos negros na face branca me olharam e sorriram para mim. Não só para mim o seu sorriso foi para o fundo de minha alma. Em que nunca mais seria a mesma.
  Eu procurei por ela outros dias, mas ela não apareceu mais. Fiquei em busca dela. Eu sei que foi só um sorriso. Mas eu tinha que saber quem era a garota. Uma mais linda que já vi. E foram duas semanas, duas semanas que eu a procurei. Linda e misteriosa, o que ela era. Fui em busca na internet e não achei. Logo tentei aplicativos de encontros, grupos em redes sociais e até a humilhação de sair perguntando por ela, tudo em vão.
  Foi uma semana depois, quando já estava pronto para desistir de minha busca que eu a vi novamente. Porém, dessa vez, eu vi em uma estação. Sim, ela estava em uma estação, uma em que meu trem não anunciou a parada. Mas meu vagão abriu as portas e pensei em chama-la. Mas não tive coragem, então apenas fiquei a observando. Ela estava com mesmo casaco verde, porém não tinha o mesmo olhar. Em sua bela face pálida ela olhava de um lado para o outro, parecia estar perdida. Eu tive o impulso de ir ajuda-la, mas as portas se fecharam. E antes do vagão começar a andar ela me olhou. Nossos olhos se cruzaram, sem graça respondi com um sorriso e ela me retornou com o mesmo.
  Passamos uma semana nos olhando, sempre com um sorriso no final. Eu, por mais estranho que pareça, me senti próximo dela, com uma certa intimidade. Como dizem os olhos são as janelas da alma, logo todo os dias eu via a alma dela e ela a minha, era isso que eu pensava. Com essa semana os sorrisos sem graça do início se transformou em largos sorrisos acolhedores, mas o dela, que sempre foi radiante, se tornou mais radiante ainda. Os sorrisos dela se tornaram a alegria dos meus dias.
  Mas com o tempo, notei que nem tudo era sol. Depois de uma semana eu a esperei com o sorriso já aberto na janela, mas infelizmente eu a vi chorando no mesmo lugar, na mesma estação. A mulher que antes me trouxe alegria, nessa hora me trouxe o remorso. Em meu peito senti meu coração se despedaçando. Eu senti a necessidade de ajuda-la, mas não tive coragem de sair do meu vagão. Logo a sua imagem se despediu no meu movimento. Ela ficou para trás junto com minha alegria naquele dia.
  No dia seguinte esperei de volta o sorriso, rezei para que ela estivesse bem, mas foi tudo em vão. Na janela eu a vi chorando no mesmo lugar de sempre, na mesma posição. Aquelas lágrimas de partir o coração me deram forças. Com coragem sai do vagão na direção dela. O meu maior erro.
  Ao sair do vagão foi então que eu notei. Notei que nunca alguém entrava ou saia daquela estação. E a mesma estava totalmente vazia. Ao olhar para os lados notei que só tinha eu e minha “amiga”. Por algum motivo o vazio me trouxe um calafrio, mas não era apenas isso, pois o ar também era diferente na estação. O ar era pesado como se carregasse consigo toda culpa de uma vida. Na estação a luz também era diferente, pois ela era negra como o céu noturno. Algumas lâmpadas estavam queimadas, mas não era só isso. Não sei explicar, tudo era horrível naquele lugar. Me arrependi no momento em que vi meu trem partindo.
  Sem trem, sem pessoas, sem luz ou alegria, na estação só estava eu e a mulher, em que chorava. Ela estava parada do mesmo jeito que vi antes, parecia não se importa com minha presença. Eu me lembro que tive receio de chegar perto, mas eu não podia fazer mais nada. Logo eu me aproximei, com medo, porém com esperança, a que morreu nesse dia.
  Sem dizer nada botei minhas mãos sobre o ombro dela. A mulher largou as mãos do rosto e olhou para mim. Me lembro bem daquele olhar, foi como um sorriso de desespero. Seu rosto estava branco como sempre, mas algo estava diferente. Ela não estava chorando, seus olhos não estavam vermelhos ou molhados, na verdade estavam secos, sem vida. Quando notei meu impulso foi de me afastar, o que na hora me arrependi. De longe eu perguntei para ela se ela bem. Com seu olhar assustador ela me perguntou; “por que você fez isso comigo?”
  “Por que você fez isso comigo?” Essas palavras me atingiram como um raio. Eu não entendi na hora, eu nunca tinha feito nada com ela. Eu a questionei de volta, perguntando o que eu a fiz. Foi então que ela em seu silencio sorriu. Seu sorriso chegou ao máximo de seus lábios, mas não parou. A sua boca foi criando espaços sobre sua bochecha até suas orelhas. A carne foi se desprendendo lentamente, com o sangue caindo da parte superior e os vasos sanguíneos tentando segurar o rasgo feito, porém eles não resistam e expirava o sangue nos ombros dela. Eu fui me afastando conforme seus lábios se abriam mais. Foi a coisa mais grotesca que já vi. Mas não parou aí, com um movimento de enxugar as lágrimas, ela arrancou a pela debaixo de seus olhos. E como a velha pela de uma cobra, a dela foi saindo dando lugar a uma carne preta queimada. Da cor do manto da morte, a carne não tinha forma e era totalmente desfigurada. A mulher continuou ate arrancar toda a pela da parte superior de seu rosto.
  Eu, assustado, me afastei. No chão, pele e cabelos mortos serviam de tapete para a figura grotesca na minha frente. Procurei em vão uma saída, mas a estação não tinha escada e nem lugar para sair. Só existia eu e ela. Com a coragem de que medo me deu, perguntei a o que ela queria. Mas em sua resposta ela me questionou novamente por que eu fiz aquilo com ela. Gritei para a mulher, ou ser, não sei, que nunca fiz nada com ela. Mas ela não aceitou minha resposta e veio mancando até mim.
  Com o aproximar dela eu cai no chão e continuei a engatinhar para trás. A mulher continuou vindo até mim. Em cada difícil passo que ela dava, a mesma me questionava a mesma coisa. Foi em poucos metros que a minha salvação veio. Um trem apareceu rápido como uma bala e abriu suas portas. Sem esperar corri para dentro para fugir daquela criatura.
  Num piscar de olhos me vi dentro do trem em movimento. Na minha volta as mesmas pessoas que abandonei para entrar na estação. Era como se eu nunca tivesse os abandonado. Mas lembro de ser real, pois eu estava deitado no chão perto da porta. Na janela apenas a terra passava correndo, como se a mulher tivesse sumido. Eu olhei em volta a procura do meu pesadelo, mas nada tinha.
  Então fiquei duas semanas sem ir de metrô. Voltei de ônibus para casa, que era mais demorado. Nessas duas semanas eu a via em todo lugar, mas logo depois eu voltava a mim e notava que era apenas meu medo. Eu a procurei para fugir dela. Sempre assustado, andava nas ruas e no trabalho. Passei noites e dias em alerta para caso ela vir. Felizmente foram em vão. Mas foi na terceira semana que a vi novamente.
  Andava na rua, em frente do meu trabalho, quando ouvi um chamado. Ao virar para trás a mulher com um sorriso no rosto e o braço esticado me chamou. Ela gritou meu nome com minha carteira na mão. Ao cruzar meu olhar ela sorriu e correu levemente até mim, me chamando de senhor. Nesse momento meu coração tomou meu corpo. Num impulso corri na direção oposta dela, mas ela veio atrás de mim. Empurre pessoas e taquei algumas no chão, tudo para fugir da mulher. Ela continuou atrás de mim, não importou o quanto eu corria. Foi então que eu me taquei entre os carros de uma rua movimentada.
  Sem olhar para trás entrei no meios do carros. Mas fui impedido de continuar, pois um carro parou na minha frente. Antes deu desviar ela a mulher segurou meu ombro e me virou. Com um sorriso no rosto ela me deu minha carteira. Porém na hora eu estava assustado e simplesmente a empurrei contra um carro.
  O barulho da freada tomo o meu corpo. Um carro passou e prendeu o braço da mulher. Ele a carregou por trinta metros antes dela se desprender. Eu corri até o local, em que era o fim de um caminho de sangue. Chegando lá eu vi o monstro de novo. O arrastar no asfalto queimou a pele dela. O ferro deformado do carro rasgou o belo rosto dela, formando um irônico “sorriso” de dor. E no ultimo suspiro ela fixou seus olhos em mim. Por um segundo ela sorriu.



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