Marshmallow

Escrito por Fee Lemos - Siga a autora no Twitter
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Prólogo

segurava a sacola plástica com as duas mãos, prendendo-a com força como se ela fosse escapar a qualquer instante. Nesse momento, sentiu as mãos tremerem ligeiramente, mesmo cobertas pelas luvas, mas não saberia dizer se era por culpa do frio ou do nervosismo. Preferia não pensar muito porque se o fizesse provavelmente sairia correndo dali. Pela milésima vez, olhou para a fachada que se estendia à sua frente. Era alta, em cor vibrante, e podia até enxergar um sótão. A casa tinha seu ar nobre e certo estilo vitoriano que lhe conferia autenticidade diante as outras moradias da rua. nunca estivera naquela rua antes, mas seguiu as instruções de e pressentia que aquele era o lugar. Era bem o estilo de .

Andando em círculos, voltou sua atenção para a sacola que segurava. Não tinha nenhuma marca impressa, mas dentro ela guardava uma caixa em tamanho médio. Fora tudo obra de sua criatividade. Na manhã anterior, depois de muito pensar e não chegar a nenhuma conclusão, resolveu compartilhar com , sua melhor amiga, a intenção de dar chocolates para no dia dos namorados. Obviamente, a apoiou. Sempre a apoiava. Há mais de dois meses, havia se mudado para Seul, Coreia do Sul, a fim de terminar os estudos com um intercâmbio. As duas se conheceram no novo colégio de e se transformaram em uma espécie de melhores amigas siamesas. fazia parte do círculo de amigos de então o processo de aproximação foi bastante natural. O único problema: aquela era mais uma das muitas paixões platônicas que tivera durante toda a adolescência.

Estava perdida em pensamentos, começando a achar a situação diferente demais de tudo que já vivera. Já se deslocava para a direita a fim de pegar um atalho que a tiraria daquela rua quando escutou risos abafados. Assim que identificou uma das risadas como sendo a de , seus pés congelaram naquela posição e ela não ousou se virar. Enquanto comprava os ingredientes e as embalagens no dia anterior, e até mesmo enquanto fazia os chocolates e marshmallows, nem por um momento se permitiu imaginar como seria quando encontrasse com no dia dos namorados para lhe entregar seu presente. E agora ele estava ali, bem próximo... Todas as palavras que ensaiara ficaram presas em sua garganta assim como os pés teimosos que não ousavam se mexer. Só conseguiu perceber que ele já estava perto da porta pela proximidade dele e de quem o acompanhava.

- ? - Havia incerteza na voz de .

Não podia ficar agindo como uma criança boba justo naquele momento. Sempre se falavam durante as aulas e intervalos, seria deselegante sair correndo pela calçada sem dar um "oi" antes. Decidiu que era hora de espantar as borboletas do estômago, rezar para que o rosto estivesse levemente rosado por causa do frio (e não absurdamente vermelho por causa da vergonha) e encará-lo.

- Oi, . - Virou-se sorrindo e ajeitando uma mecha de sua franja para trás da orelha. - Eu...
A frase morreu assim que os acompanhantes de entraram em seu campo de visão. Na verdade, eram "as" acompanhantes. Duas garotas não muito mais velhas do que ambos, mas extremamente femininas, rodeavam o garoto, que a observava esperando uma resposta. Tirando a incerteza que ela percebera na voz dele, agora tinha a impressão de que ele estava desconfortável e irritado somente pelo seu olhar.
- O que faz aqui? - Ele precisou reformular a pergunta para não parecer grosseiro demais. - Quero dizer, por que não entrou? A temperatura baixou demais agora à noite. Tem gente em casa.
- Eu não queria incomodar. Vi as luzes apagadas e imaginei que estavam descansando. me disse que você não demoraria do treino.
- Quer entrar para tomar uma xícara de chá e se esquentar um pouco? - Ela notou que ele continuava constrangido com a situação, seria mais uma obrigação chamá-la para dentro do que um convite sincero.
- Não precisa. Eu já estava de saída.
Por mais que odiasse admitir, magoava-lhe vê-lo com duas garotas altas e estonteantes, uma loira e outra ruiva. Não era nada para ele, nem podia cobrá-lo, ele sequer sabia sobre seus sentimentos, mas sempre que o via com outra garota percebia o abismo que existia entre ambos. As garotas com quem ele saía pareciam fúteis demais, sem conteúdo, apenas beleza exterior. nunca as apresentava para os amigos e não passava mais do que dois dias com a mesma. Ele não era nenhum cafajeste. Através de , sabia que ele não prometia mundos e fundos para ninguém, gostava de ser um espírito livre e aventureiro, acompanhava-o quem entendesse isso.
- Não seja assim! - Uma das garotas, a loira, aproximou-se, notando a sacola na mão de . - Você veio lhe entregar um presente? Chocolates, eu acertei?
"E marshmallows", ela quis acrescentar, mas estava envergonhada demais para isso. Não era daquela forma que havia imaginado a entrega dos chocolates para . Pensou que ele a encontraria na sua porta, ofereceria seu casaco e a convidaria para entrar com um sorriso estampado no rosto.
- Venha! Seu nariz está vermelho, você deve ter esperado por muitas horas aqui no frio. - Foi a vez de a ruiva enlaçar seu braço, em uma clara demonstração de intimidade a qual não havia permitido, e puxá-la para a entrada da casa.
Não tinha alternativa a não ser segui-los. foi à frente e sorriu de um jeito que o gesto não chegou aos seus olhos. Assim que abriu a porta e todos entraram, ele acendeu as luzes e as convidou para a sala. Ao chegar lá, achou que seus olhos estavam lhe pregando algum tipo de peça: a mesa central da imensa sala de estava recheada de embalagens de chocolates de diversas marcas e sabores. Era realmente uma pilha de caixas, uma mais bonita e chamativa que as outras. As duas acompanhantes de deram uma risadinha e ele apenas soltou o ar pela boca, rindo também. Não parecia nenhum pouco constrangido. sabia que ele era bonito e cobiçado, mas seus chocolates e marshmallows caseiros jamais poderiam competir de igual para igual com as melhores marcas nacionais e internacionais. Se antes ela sentia vergonha de estar na presença dele para lhe entregar um presente no dia dos namorados mesmo sem ser sua namorada, agora se sentia incrivelmente embaraçada por ter que lhe entregar algo tão modesto.
- Vocês querem alguma coisa além do chá? - As duas garotas negaram, mas ainda estava absorta em pensamentos; e antes que ele se ficasse longe do seu campo de visão ela engoliria o orgulho.
- , eu preciso ir. De qualquer forma, obrigada por oferecer o chá, mas fica para a próxima.
Ele não se virou nem a interrompeu até que escutou a porta da entrada fechando praticamente sem fazer barulho algum. As garotas que conhecia e com quem se relacionava, no lugar de , teriam armado um pequeno barraco ou, no mínimo, feito algo que merecesse sua desaprovação. No entanto, tudo o que aquela garota que ele conhecia há poucos meses fizera fora deixá-lo acanhado e sem saber como agir. Nunca a imaginaria batendo na sua porta altas horas da noite para lhe entregar doces no dia dos namorados. Não a garota brasileira que ele conhecia.
ignorou a rua e a procura por táxis enquanto pôde. Saiu pisando fundo na calçada, chateada com a sua própria maneira de reagir diante a realidade. Ninguém dá presente no dia dos namorados sem realmente ter um relacionamento. Não sabia o que tinha pensado, não devia ter aceitado os conselhos de . não era nenhuma mestre em relacionamentos e provavelmente comemoraria o Black Day dali a dois meses. Enquanto se acalmava e esperava que seu rosto estivesse voltando à cor normal, escutou passos se aproximando na retaguarda. Pensou em correr, mas era tarde demais. Só conhecia o endereço que lhe ensinara, se entrasse em qualquer viela provavelmente se encontraria perdida durante toda a madrugada após o assalto. agarrou a sacola de chocolates e fechou os olhos com força no momento em que uma mão segurou seu braço, forçando-a a virar.
- Calma, sou eu. - A voz suave de a tranqüilizou e ela soltou o ar pela boca. - Não queria assustá-la.
- Tudo bem, sem problemas. - Olhou para os lados, procurando por algum ponto de referência a fim de evitar os olhos dele, até que ele soltou seu braço e se afastou um pouco.
- Quer dizer então que você me trouxe chocolates?
- E marshmallows! - Ela deixou escapar a correção e depois mordeu o lábio inferior, fazendo-o sorrir.
- . - Ele disse seu nome de tal forma que quase fez parecer um sussurro, mas ainda assim ela não o encarou. - !
soltou o ar pesadamente pela boca e levou a mão até o queixo da garota, virando o rosto dela com a ponta dos dedos. Eram raros os momentos em que se tocavam ou se esbarravam, mas toda vez, sem exceção, sentia um choque elétrico, desde quando os apresentou no final de dezembro.
- Por que esses chocolates?
- E marshmallows.
- Por que esses chocolates E marshmallows? - Rolou os olhos, impaciente. Ninguém mais do que ele queria saber o motivo de receber um presente em uma data como aquela de uma garota com quem nunca saíra. Talvez ela...
- Eu sei o que você está pensando. - Sussurrou, visivelmente nervosa. - Mas não é isso. Eu só achei que você estaria sozinho hoje, já que não tem uma namorada. E a estava muito ocupada esses dias, e como ainda não sou próxima das outras garotas... Eu não ia pedir para que me fizessem um favor.
- E você?
- Eu o quê? - Elevou um pouco o rosto ao perceber o tom chateado na voz de .
- Está me fazendo um favor?
- Não!
- Então por que os chocolates E marshmallows?
- Quero dizer, eu não queria que você passasse a data sozinho, só isso.
- Só isso mesmo? - Ele inclinou a cabeça para o lado, tentando entendê-la. - Você sabe que nos anos anteriores eu posso muito bem ter passado o dia dos namorados sozinho, não seria um problema.
- Mas dessa vez, se você estivesse sozinho, sentaria para assistir televisão comendo os meus marshmallows.
achou tão fofa a forma como ela disse aquilo, quase fazendo bico e ainda parecendo chateada com toda a situação, que não conseguiu evitar um sorriso de canto. percebeu que dessa vez o sorriso chegara aos olhos dele, iluminando-os. Afinal, ainda tinha uma última esperança. Quem sabe ele não aceitaria seus chocolates e marshmallows e a convidaria para comê-los com ele? Era tudo o que queria pedir, mas faltava a coragem que sempre falta em um amor platônico. era bonito demais, conhecido demais, rico demais, inteligente demais. Com uma loira e uma ruiva esperando por ele na sua sala, quem sabe até no seu quarto, o que significaria para ele uma garota simples do colegial que se sentava na frente da sala e era amiga dos amigos dele, pessoas às quais ele não apresentava nenhuma pretendente?
, por sua vez, queria entender por que ela não falava de uma vez sua verdadeira intenção ao lhe levar chocolates no dia dos namorados. Não era bobo. Conhecia um olhar e sorriso apaixonados. E lhe doía mais ainda ter que desfazê-los.
- Vou ficar com isso... - E puxou a sacola das mãos de . - Até que você encontre o cara que merece seus marshmallows. - Ela ergueu o olhar para ele, pedindo uma explicação. - Eu não me relaciono com as amigas dos meus amigos, é mais difícil cortar os laços depois. Eu também não fico com garotas inocentes, é mais fácil machucá-las e não sou o tipo de cara que gosta de fazer isso deliberadamente.
- Mas eu não...
Antes que pudesse completar a frase, se aproximou por milésimos de segundo, fazendo-a sentir seu forte perfume, e beijou-lhe a testa em sinal de respeito, pois era isso que um beijo na testa significava. Não que fosse pouco, mas para ela era o mesmo que nada considerando toda a situação que a levara a fazer chocolates e marshmallows e ir até a porta dele entregá-los. E assim, sem mais uma palavra, se virou de volta para sua casa, de volta para suas acompanhantes, de volta para seu fim de dia dos namorados, carregando a sacola de doces caseiros de .

Capítulo 1

Cerca de duas semanas depois e ainda mal falava com . Não estava com raiva dele, ao contrário. Contara tudo, nos mínimos detalhes, para , e depois de muito analisarem os fatos, viram que em momento algum deixou de ser verdadeiro. O problema é que ela levara um fora de seu amigo e agora tinha que conviver com ele durante toda a parte da manhã, pois tinham aulas juntos em quase todos os horários. Era constrangedor demais, e para piorar, ele agia como se nada tivesse acontecido. Nos momentos em que ficava irritada, tinha vontade de pedir de volta os chocolates e os marshmallows, mas aí se lembrava que àquela hora sua sacola já devia estar no lixo junto de todas as outras que estavam na sua mesa. Aquilo só a deixava com menos vontade de encarar .
- . - Levou um susto ao percebê-lo atrás dela, no corredor do colégio, enquanto mudavam de turma para a próxima aula.
- Ah, oi, . - Agarrou com força os cadernos e continuou andando.
- Posso falar com você?
- Agora? Eu já estou atrasada. - Arriscou um olhar rápido por cima do ombro, na direção dele, mas ao percebê-lo tão lindo como em todas as outras manhãs, virou-se novamente.
- Mais tarde então?
parecia um pouco ansioso, mas ela não queria adivinhar o que ele estava pensando. Com ele por perto sempre, seria mais difícil esquecer que lhe dera presente no dia dos namorados. Como ela nada respondeu, ele continuou falando.
- Depois da aula de Química. Você é minha parceira no laboratório, não esquece do último horário.
- Ah, claro. Tudo bem.
Sorriu para ele, que retribuiu o sorriso e fez um sinal de positivo. Em um movimento rápido ele ficou quase de frente para , passou a mão por cima do ombro da garota e aproximou seu rosto. Ela quase congelou, mas logo percebeu que aquele era o gesto que ele sempre fazia quando se encontravam ou se despediam. E então beijou sua testa. Suspirou. Era tudo que lhe restava fazer enquanto ele se afastava.
Mais tarde, andava pelos corredores, incerta do caminho a seguir. Se fosse para a aula de Química, teria que conversar com . Só a possibilidade de conversarem sobre o que acontecera duas semanas atrás já a deixava nervosa. Consciente e inconscientemente, sabia que estava evitando-o sempre que possível. Durante o horário do lanche, inventava de ir a secretaria para resolver algum problema, à sala dos professores para tirar alguma dúvida e até mesmo à enfermaria para tomar algum remédio. Tudo para evitar o momento em que todos os amigos se reuniam em uma, exatamente quando parecia mais à vontade e confortável para tirar graça ou conversar com ela. Então optou por não ir à aula. Era uma aluna exemplar e com boas notas. A professora provavelmente passaria alguma informação a e ele anotaria e lhe entregaria outra hora.
Foi difícil driblar o inspetor e o porteiro que ficavam no corredor e na frente do colégio, respectivamente, mas afinal conseguiu e mandou uma mensagem para .

"Saí mais cedo do colégio. Por favor, se alguém perguntar, diga que eu estava com cólicas e precisei ir para casa. Mais tarde eu te ligo e explico tudo."

"Por "alguém" você quer dizer ""? Porque ele acabou de perguntar por você, já estamos no laboratório, e eu disse que não sabia."

"Droga! Bem, então diz agora que eu te mandei uma SMS falando sobre a cólica. E depois apaga minhas mensagens. Fico te devendo essa, amiga."

"Ok, mas você está muito estranha. Tudo mundo que não é bobo está achando isso. E sabe o porquê de você estar assim. Conversa com ele logo e explica tudo, sei que vai dar certo! Beijos, a professora chegou."

"A sua ideia de dar chocolates para ele não deu certo antes, então nada garante que agora uma conversa resolva tudo... Vê se presta atenção na aula. E manda o anotar tudo. Beijos."

Capítulo 2

sabia o quanto era reservado sobre seus assuntos pessoais, mas não chegou a pensar que fosse tanto assim. Depois que ela deliberadamente o enganou e não assistiu à aula de química, as tentativas do garoto de conversar com ela se extinguiram. Qualquer que fosse o assunto que tinham para resolver ficaria sem solução porque agora nenhum dos dois fazia esforço para conversar. Ele estava lhe dando o tempo que ela silenciosamente pedira.
Só que agora a garota sentia falta dos esbarrões premeditados por ele no corredor. Ele não mais a parava para pedir que conversasse com ele. Sequer tentara outra vez ligar para seu celular, o que acontecera durante uma noite. Já haviam se passado três semanas desde que pegara a sacola de chocolates de sua mão e agora parecia que finalmente as coisas voltariam ao normal... Por "normal" as pessoas deviam entender as conversas que ambos tinham em grupo, quase sempre no colégio ou quando raramente decidiam se reunir em outro local.
Estava deitada em sua cama, olhando para teto, de onde pendiam várias estrelas de plástico que mudavam de cor conforme elas eram iluminadas. Esticou a mão para um interruptor que ficava próximo ao criado-mudo e apagou as luzes, para que as estrelas de plástico brilhassem em neon na escuridão. A única luz vinha da sua janela, entreaberta. Seu quarto não era grande, comportando apenas a cama, um armário, uma bancada e uma cadeira de leitura, mas ficava no segundo andar e a imensa janela fora a coisa que mais lhe atraíra nele. De repente, seu celular começou a vibrar. Esticou-se um pouco, acompanhando a claridade que vinha do display do aparelho e o apanhou no chão, identificando o número de .
- Alô.
- E aí, sumida. Estamos aqui na casa de , viemos em bando. Só falta você.
- Ah, não, eu já estou de pijamas, deitada na minha cama quentinha. - Voltou a se deitar, observando suas estrelas.
- imaginou isso. - deu uma risadinha. A simples menção ao nome do garoto fez o coração de bater mais forte.
- O que ele disse? - Não queria parecer muito ansiosa, mas afinal falava com a sua melhor amiga.
- Que eu podia convidá-la, apesar de já saber que você não viria. - deu de ombros, mesmo sabendo que não veria isso. - Engraçado como vocês são duas pessoas completamente ansiosas pela presença um do outro, mas que quando estão diante de si só falam de assuntos genéricos e sem graça.
- Não é assim. Pelo menos não para ele. - Sua voz era murcha. era positiva demais e sempre via coisas onde elas não existiam.
- Ok. Você quem sabe. Só te digo que estamos todos em pares e é o único que sobra. Alugamos vários filmes e compramos pipoca também. Você devia tentar conversar com ele, .
- Eu já tentei.
- Não, você levou chocolates na casa dele e disse que era só para ele não ficar sem presente e se sentindo sozinho no dia dos namorados.
- Não. Nas entrelinhas tudo o que eu disse foi que eu mesma havia me dado o trabalho de fazer aqueles chocolates pra ele porque não queria que passássemos o dia dos namorados afastados.
- O nunca se envolve com garotas do grupo. E acredite, elas tentaram.
- Eu sei. Descobri isso daquela péssima forma, dando com a cara na porta e encontrando-o com duas mulheres lindas, uma de cada lado.
- Falta menos de uma semana pro White Day. Não quer conversar com ele e quem sabe, depois disso vocês não possam pelo menos passar esse dia juntos e...
- Para, ! Não coloca mais minhocas na minha cabeça. Ele não queria antes, ele não quer agora. Sou simples demais, inocente demais, boba demais por pensar que ele mudaria sua forma de viver para ficar com alguém como eu. - Ficaram em silêncio durante vários segundos. - Ainda está aí?
- Estou. - Pausa. - Mas estão me chamando, a pipoca ficou pronta. Só não se desmereça, por favor, . Você é linda, tem um bom coração e se importa com os outros. Isso é mais medo de machucá-la no futuro do que achá-la inferior a qualquer outra com quem ele já saiu. Eu sei disso, eu sinto isso. Eu conheço o . - Foi a vez de ficar em silêncio. - Amanhã nos falamos.
- Se cuida, bom programa.
- Você também se cuida, e juízo.

Capítulo 3

O dia 14 de março chegara rápido demais. Caiu bem no meio da semana, em uma quarta-feira, o que fez com que algumas garotas da turma reclamassem. Em Seul, dificilmente os pais deixavam as filhas na rua até tarde da noite, e as comprometidas teriam que se contentar com um programa feito à tarde com seus namorados. Naquele dia, todos os rapazes que receberam presentes um mês antes retribuiriam a gentileza. Ou quase todos fariam isso. sabia que seus chocolates e marshmallows foram em vão.
Assim que o sinal tocou, se aproximou por trás e pulou quase em cima de , segurando seu braço e assustando a garota.
- Ai, caramba! Você não é normal. - arriscou uma cara chateada, mas logo voltou ao normal. - Por que está tão serelepe e saltitante? - mostrou-lhe uma caixa florida com chocolates e um cordão de ouro bastante delicado no centro. - Ah, isso.
- Isso. me deu durante o intervalo. - A amiga ostentava um sorriso de orelha a orelha, mas nem a felicidade alheia animou . - Talvez meus pais me deixem sair à noite, disse que quer conversar comigo. Dá pra acreditar? Só ficamos duas vezes, e mesmo eu lhe dando os chocolates no mês passado, jamais imaginaria que ele ia querer c-o-n-v-e-r-s-a-r comigo. Até me deu um CORDÃO DE OURO!
soletrava e falava alto, tudo ao mesmo tempo, quase sem respirar. Ela não era conhecida pela experiência em relacionamentos, mas dessa vez com certeza havia se dado bem. Bem no fundo, estava com inveja dela. Queria receber um cordão de ouro também. Queria receber qualquer coisa de . Vendo-a tão calada, continuou a puxar assunto.
- Já falou com hoje?
- Sim, nos falamos no intervalo para o lanche. Depois disso eu não o vi mais e nem temos mais aulas por hoje. - Deu de ombros. - Talvez seja melhor assim. Menos depressão nesse dia onde todos parecem estar recebendo presentes.
- Ah, não fica assim, . - abraçou-a de lado enquanto caminhavam e apoiou a cabeça em seu ombro. - Quer ir lá para casa? Eu nem sei se vou sair hoje, e se meu pai deixar será à noite.
- Pode ser. Qualquer coisa vai ser melhor do que ficar assistindo dramas na televisão sozinha em casa.
E assim seguiram a pé para a casa de , que ficava a dois quarteirões do colégio. A tarde passou rápida demais. Assistiram televisão, pintaram as unhas, até mesmo cedeu e deixou fazer uma massagem em seus cabelos. O pai de fez vista grossa, como era de se esperar, mas a mãe da garota conseguiu fazê-lo mudar de ideia, e enfim sua amiga teria um encontro com . Demoraram muito até escolher o modelo certo para vestir e em cima da hora saíram de casa, com já a espera delas na porta. Como nenhum dos três tinha carro ainda, foram a pé para a casa de a duas quadras de distância, onde o trio se separaria e o novo casal seguiria para uma lanchonete.
Ao chegarem diante a fachada da modesta casa onde morava, ela quase teve um enfarto. estava parado ao lado da entrada, apoiado em uma árvore, girando a chave do seu carro, estacionado do outro lado da rua. Ao ver o trio, ele sorriu de canto, um sorriso tímido sem mostrar os dentes, e acenou com a cabeça. e seguiram, mas ficou parada no mesmo lugar, observando-o. então voltou alguns passos e deu um cutucão nas costelas da amiga.
- Se você for virar um poste me avisa que eu mando o garoto embora. - Cochichou. - Anda, ele está te esperando. Vai logo.
- Você... Sabia disso? - Finalmente virou-se para , cochichando também. - Por que não me falou nada?
- Você surtaria. Que é o que você está fazendo nesse exato momento. - Ambas olharam para , que agora cumprimentava . - Seja o que for, escuta o que ele tem pra falar. Se ele veio até aqui, não deve ser tão ruim. - assentiu, voltando a olhar para no exato momento em que ele também se virava para ela. Ele acenou, chamando-a com a cabeça.
As duas se aproximaram da árvore onde os garotos conversaram, e logo estendeu a mão para , que timidamente deu a mão para ele. sorriu com a atitude, sabia que eles formavam um casal bonitinho e apesar de invejá-los naquele momento cute, torcia para que o encontro deles desse mais do que certo. Os dois se despediram e esperou até que eles já estivessem longe de vista para se virar para , que a observava com olhos indecifráveis.
- , o que faz aqui?
- Não sei dizer exatamente. - Ele riu de um jeito, coçando a nuca, aparentemente sem graça. - Passei a semana toda pensando no que deveria fazer, até que decidi por vir até aqui.
- Simples assim? - Seu coração batia tão descompassado que pensou ser possível que o escutasse.
- Simples assim.
Ficaram se encarando por vários segundos. Ela tinha muitas outras perguntas a fazer, mas não queria estragar um raro momento mágico entre ambos.
- Não vai me convidar para entrar?
- Não posso. Você sabe, faço intercâmbio, estou na casa de uma família e eles são muito tradicionais...
- Ah, é verdade. Tinha esquecido desse pequeno detalhe.
finalmente percebeu que além da chave do carro, segurava outra coisa. Uma sacola. De repente, teve esperanças.
- O que é isso?
- Pensei que não ia perguntar. - Desencostou-se da árvore, chegando mais perto dela. - São os seus marshmallows.
- Os que eu fiz? - Parecia desapontada. - Não estragaram?
- Ah, aqueles? Eu os comi na mesma noite. Exatamente como você queria que eu fizesse. Comi todos eles assistindo televisão. Confesso que estavam mais gostosos do que os chocolates.
- Então esses você comprou? - Esticou as mãos para pegar a sacola. - Para me dar?
- Na verdade, eu mesmo os fiz.
continuou com as mãos esticadas, parada, encarando-o como se ele fosse algum bicho estranho. realmente parecia se gabar de ter feito marshmallows, pois estava com um sorriso imenso ao entregar a sacola para ela. voltou a si e abriu a sacola, onde encontrou uma linda caixinha rosa, sem adornos nem nada, somente com a palavra "marshmallows" escrita em hangul.
- Obrigada, . De verdade. Mas... Não precisava. - Sua voz era mais baixa do que esperava. - Não precisava se sentir obrigado a me dar um presente justo hoje. Você sabe que é o White Day, não é?
- Claro que sei, senão não teria sentido eu ficar todo atrapalhado tentando fazer algo tão simples quanto marshmallows.
- Eles realmente são simples de se fazer. - Voltou a encarar a caixinha rosa.
- Tão simples quanto você, . Sei que demorei um pouco para entender, mas depois de não conseguir falar com você, dia após dia, achei que tinha desistido de mim. Então além de tentar conversar com você ou lhe telefonar, eu tinha que chamar sua atenção de outra forma. Eu adorei os seus marshmallows. Eram doces demais. Exatamente como você.
- Então quer dizer que...
- Sei que é quebrar uma das minhas regras, eu não me relaciono com garotas ligadas aos meus amigos, é mais difícil depois se der errado, mas decidi arriscar. Não quero passar mais tempo longe de você, sei que a qualquer momento você volta para o Brasil e...
- Mas eu estou aqui. E até o final do ano letivo não pretendo ir para lugar nenhum. - Ele sorriu, aproximando-se mais dela.
- Eu sei. E eu também estou aqui. - Ele tocou o rosto de com delicadeza, e ao sentir seu toque e sua respiração tão próxima, ela fechou os olhos. - E acho que pretendo ficar por aqui mesmo.
- Acha? - Sussurrou.
- Eu vou ficar aqui. - Ele lhe deu um selinho, depois completou, ainda com seus lábios tocando os dela. - Contanto que ainda tenha marshmallows.
- Sempre terá meus marshmallows. - Ambos sorriram, já de olhos fechados, e finalmente se beijarem.
Na imaginação da garota, era um beijo extremamente doce, doce como os marshmallows que ela fizera para ele e tão doce quanto achava que eram aqueles que ainda estavam na sacola em sua mão.

 

Comentários da autora

 Antes abrir mão do perfeccionismo do que me arrepender por não ter participado de um especial tão asiático. Foi com esse pensamento que finalizei "Marshmallow" aos 45 do segundo tempo sem relê-la, ou não daria mais tempo de enviá-la. Até mesmo hoje, dias depois de já ter enviado a fanfic para o site e estar apenas escrevendo a nota da autora, continuo sem abrir o documento do Word. Espero que ao ler você não encontre tantos erros assim. Boa leitura!