Marry Me?

Escrito por Sara Sutil - Siga a autora no Twitter
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- Ande logo, não vejo a hora de chegar nessa festa! - gritava, ele parecia animado e ansioso. Nunca pensei que algum dia na minha vida poderia fazer isso, mas as circunstâncias não me davam outras opções.
- Calma, já estou descendo. - Disse ajeitando o brinco em minha orelha esquerda. Olhei meu reflexo no espelho do quarto de , estava bonita naquela roupa. Desci as escadas encontrando as costas dele, vestidas em uma camiseta social branca que ressaltava seus músculos. Pigarreei e logo ele virou-se e sorriu abertamente. - Como estou?
- Dê uma voltinha para eu poder analisar. - Ele disse já rodando-me e vendo a roupa em meu corpo, gargalhei altamente, sendo acompanhada de sua risada contagiante. Eu e havíamos nos transformados em grandes amigos ao longo das poucas semanas em que convivemos. Foram as semanas mais turbulentas de toda minha vida, sem dúvida alguma.
- Vamos, querida esposa? - Ele perguntou sorrindo largamente e oferecendo sua mão, para que logo em seguida as nossas estivessem entrelaçadas. Entramos em seu carro e logo uma música qualquer começou a tocar na rádio. Perdi-me em pensamentos dentro do carro com aquela canção calma que me possibilitava lembrar de quando havia me feito aquela proposta estranha...

Flashback On

Estava jogada em um canto daquela festa, rodeando com o indicador o contorno do copo que havia em mãos, sem nada para fazer e nem alguém para conversar, decidi por me levantar e ir embora. Estava tentando passar pela multidão de gente enfiada naquele salão, mas senti algo rígido bater contra meu corpo fortemente. Resmunguei de dor e vi que era um garoto que havia esbarrado em mim, ele apenas ajeitou-se bufando, estava nervoso.
- Desculpe.- Grosseiramente ele se desculpou. Apenas revirei os olhos de sua frieza e voltei a tentar achar a saída da festa. Quando estava quase saindo, sinto algo puxando minha mão e virando-me, possibilitando-me de ver aquele mesmo garoto, o grosso.
- O que é? - Grosseiramente igual perguntei, puxando e retirando minha mão da sua. Ele coçou a nuca, não parecia mais tão nervoso como antes, mas não me parecia normal. Vi seu olhar ficar baixo, parecia tímido, ou algo parecido, ele até ganhou um tom mais rosado, estava corando. Ok, ele estava ficando fofo assim, nada demais.
- Posso lhe fazer uma pergunta? - Sorrindo tortamente ele me perguntou e eu não pude resistir e deixei um sorriso de canto da boca escapar, não tinha culpa do sorriso dele ser adorável! Relaxei meu corpo, que até então estava tenso com a presença dele.
- Você já fez. - Respondi tentando ser extrovertida e vi um sorriso brincalhão levantar os cantos dos lábios rosados do garoto. Assenti fracamente com a cabeça, dando a entender que ele poderia sim fazer outra pergunta.
- Casa comigo? - Ele perguntou sorrindo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Agora minhas desconfianças estavam confirmadas: esse garoto era louco. Minha situação nesse minuto deveria ser hilária, meu queixo estava escancarado e minha testa franzida. Pude escutar sua gargalhada, ele estava rindo? Claro, , você estava sendo zoada, só podia ser.
- Quase que eu caí nessa cara, mas não foi nada legal isso. - Disse com a mão no peito, aliviando-me totalmente, mas não foi nada legal ser zoada desse jeito. Vi ele negar com a cabeça e sorrir, arqueei as sobrancelhas em sinal de curiosidade.
- É verdade. Casa comigo. - Ele disse olhando-me com curiosidade e com um pequeno sorriso tímido. Não, não vou ser zoada duas vezes na mesma noite.
- Eu ao menos sei seu nome, cara. Como você quer que eu me case com você? - Perguntei sorrindo bobamente e virando-me para sair daquela balada, mas senti que ele me seguia. O que ele queria falar comigo?
- , prazer. Eu já sei o seu, , meu amigo, Brian, conhece você e me disse seu nome por acaso. Quando esbarramos, reconheci você pelas características que Brian havia me dito. Mas é sério, não é brincadeira. Pelo menos não para mim. - Ele dizia aquelas palavras com as mãos no bolso e corando cada vez mais.
- Ok, ... Não me diga que você me viu e se apaixonou perdidamente?! - Fui sarcástica e no segundo seguinte me arrependi, ele realmente falava sério. Isso não faz sentido algum, como ele poderia ficar chateado comigo?
- Não, mas eu tenho meus motivos para querer casar com você. Não que seja você, necessariamente, mas é que Brian me contou sobre você e tirei minhas próprias conclusões, de que você não seria uma má esposa, pelo pouco que ele me contou. - Brian era meu amigo há três anos, não aquele amigo que gruda em mim, mas eu confiava nele.
- E quais são seus motivos para casar-se comigo? - Perguntei colocando os braços embaixo de meus seios e arqueei as sobrancelhas, sabe, no meio da balada um cara desconhecido pedir-te em casamento não é uma das coisas mais comuns e normais não.
- Seria como usar você para causar ciúmes em minha ex namorada, Emma, Brian me disse que você não vai com a cara dela então achei que seria bom isso de rivalidade. - Ele disse sorrindo novamente, realmente, eu não gostava de Emma, só não entrava na minha cabeça que poderia gostar dela. Argh!
- E o que eu ganho com isso? - Claro que eu teria que ganhar algo, não é?!
- Eu sei que você está passando dificuldades financeiras, . Eu posso deixar você morar comigo, tudo o que você precisar eu posso lhe dar, se você conseguir fazer Emma voltar para mim, claro. - Ele disse com um sorriso maldoso nos lábios, essa não era uma ação normal para uma pessoa normal, então, considerando os fatos, não é uma pessoa normal. E seria mais anormal ainda se alguém aceitasse, então digamos que eu seria anormal á partir de agora.
- Eu aceito só com uma condição. - Proporcionei e ele ergueu as sobrancelhas, curioso. E eu prossegui: - Desde que eu não tenha que entrar em uma igreja de véu e grinalda, está tudo ótimo.
- Tudo bem, mas no papel teremos que casar. - disse com um sorriso no canto dos lábios.
- Desde que não pensem que eu não esteja grávida... - Disse e escutei sua risada baixa.
- Tudo bem, nós temos que ter um passado, certo? Pensei em dizer que você era uma namorada minha do primário, pela qual eu era tremendamente apaixonado. Que se mudou e perdemos o contato, mas que agora, ao voltar, eu me apaixonei novamente. O que acha? - Ele sugeriu erguendo a cabeça e observando minha reação tediosa.
- Como um filme, mas tudo bem. Quando começamos? - Perguntei já passando o peso de uma perna para outra, aquilo estava me cansando e aquele salto também.
- Amanhã já seremos marido e mulher. Te levo em seu apartamento agora e você já arruma todas as suas roupas para morar comigo. Vamos? - Ele perguntou dando-me o braço e eu sorri em resposta e entrelacei nossos braços como se fossemos marido e mulher, o que logo iríamos nos tornar...

Flashback Off

- , acorda! Chegamos. - disse passando as mãos na frente de meus olhos tirando-me das minhas lembranças. Isso havia ocorrido há quatro semanas, e dois dias depois nos casamos e anunciamos. Muitas pessoas estranharam, mas no final de tudo aceitaram. Emma demonstrou surpresa quando descobriu, Brian que lhe disse de propósito apenas para ver sua reação. E hoje seria a primeira vez em que eu e veríamos Emma juntos, como marido e mulher.
- Que mansão! - Exclamei enquanto observava a imensidão da casa de Emma. estava louco procurando por Emma para apresentar-me formalmente como sua esposa, o que eu achava desnecessário, mas fazia parte do acordo. De tanto procurar, logo parou em frente a uma garota loira, parecia ser mais velha do que eu, uns 27 anos no máximo, que vestia um vestido coladíssimo, cor-de-rosa extravagante e decotado, atraindo olhares masculinos para seus seios, inclusive o de . Que mulher vulgar!
- Oi Emma. Essa é , minha esposa. - apresentou-me e sorri fracamente tentando ser simpática com aquela mulher, mas parecia que ela havia um aviso em sua testa testa, algo como: "PEITOS AQUI".
- Olá, é ótimo conhecer a mulher do meu ex! - Mais simpática impossível, não?! E foi assim que Emma nos recebeu em sua festa. Apenas revirei os olhos e respirei fundo. Só mais uma hora, só mais uma hora, pensava tentando me acalmar e vi um sorriso triunfante nos lábios de . Ele pelo menos estava feliz, estava feliz em me usar para sua própria felicidade, em ver a ex - que ele tanto ama - enciumada porque ele está casado. Legal a vida.
- E você se diverte, não é?! - Disse sorrindo ironicamente e pude escutar sua risada baixa. Pelo menos ele estava pagando-me para estar ali, esse era o único motivo de estar aturando aquela idiotice. Claro, além da oportunidade de ver sem camisa todos os dias e ter que ficar metade do meu dia ao lado dele. não era uma pessoa má, pelo menos ele não mostrou ser uma nessas últimas semanas, ele estava realmente sendo legal. E eu agradeço por isso.
Por que eu aceitei isso? Eu me perguntava isso a todo momento, mas eu sabia o por quê. Três meses antes de conhecer , eu havia sido expulsa de casa por meu pai, ele não admitia que filha dele repetisse de ano. Vocês devem estar se perguntando: "E sua mãe?" Minha mãe é uma vagabunda que largou eu e meu pai para viver com um homem mais rico, há quatro anos e nunca mais voltou. Bom, eu tinha algumas economias e consegui alugar um apartamento, mas não estudava mais. Então, viver como vivo agora com , tendo tudo do bom e do melhor, era uma proposta irrecusável. Tirando-me novamente de meus pensamentos, sugeriu:
- Vamos beber alguma coisa? Minha garganta está seca. - Disse e me puxou á uma espécie de bar que havia ali. - Quer algo?
- Não, alguém terá que ficar sóbrio para dirigir. - Disse e pude ver seu sorriso alargar com minha resposta. Olhei ao redor, a mansão de Emma, A Peituda, estava praticamente lotada, mas isso não era problema.
- Acha que Emma está com ciúmes? Acha que nosso plano está dando certo? - perguntou olhando-me de relance, mas logo depois seu olhar ficou preso na peituda. Revirei os olhos antes de responder:
- É, acho que ela está estressada, então também acho que nosso plano está dando certo. - Disse mal humorada, convenhamos, não é a melhor cena ver seu "marido" quase comendo uma loira aguada pelos olhos. Pela primeira vez nessas últimas semanas, virou-se e olhou-me com carinho e preocupação, o que era estranho pois há segundos atrás ele estava comendo Emma com os olhos.
- O que você tem? - Ele perguntou com um sorriso brincalhão nos lábios. - Você está com ciúmes, ? - Como? Esse garoto endoidou, só pode. Eu? Com ciúmes dele? Muita ilusão.
- Não me faça rir, . - Disse e logo depois dei uma risada meio falsa. Ele deu um sorriso sínico e voltou a beber e olhar a peituda, digo, Emma. Minutos se passavam e a música agitada começava, mas eu não me sentia animada para fazer nada esta noite, mas pelo jeito estava animado, até demais. Desde que chegamos ele não parou de beber um minuto, já estava bêbado. Ele começou a rir e falar coisas sem nexos.
- , vamos dançar juntos, vamos lá. - Ele disse puxando-me pelo braço sem nenhuma delicadeza, ele definitivamente estava bêbado.
- , me solta, eu não quero dançar e você está bêbado demais. Vamos para casa, você está a ponto de desmaiar, garoto. - Disse tentando me soltar, mas era inútil, era três vezes mais forte que eu.
- Isso faz parte do nosso acordo, agora, dance! - Ele disse autoritário e com um olhar duro, eu era paga para fazer aquilo e ele fazia questão de me lembrar aquilo a cada ato meu. Abaixei minha cabeça e comecei a movimentar meus quadris o mínimo possível, eu não queria dançar, eu queria ir para casa, mas esse bêbado não deixava. - Dance direito! E sorria, meu amor, não quer que alguém desconfie, não é?! - Ele disse com um sorriso maldoso nos lábios.
Levantei a cabeça e deixei os movimentos surgirem conforme o ritmo da música que tocava, fechei meus olhos, não queria ver a cara de , O Bêbado. Deixei um sorriso escapar com esse "apelido" que dei a ele. Senti as mãos - grandes e quentes - de tocarem minha cintura e começarem a guiar meus movimentos. Respirei fundo e deixei que ele continuasse. Mais alguns minutos, só mais alguns minutos, eu tentava me acalmar. Sua respiração agora batia em meu pescoço, ele comentou sínico em meu ouvido:
- Não parece feliz, .
- Cale a boca e dance. - Sussurrei novamente e vi seu sorriso vitorioso murchar, o que até me deu um ânimo, que logo foi embora. Mais alguns minutos dançando com e sendo observada por Emma e a música acabou. Soltei-me de bruscamente e caminhei até o bar, peguei minha bebida e sentei-me, apenas observando o bêbado se jogando na pista de dança, mas a cena que aconteceu logo depois me pegou desprevenida. estava praticamente comendo a peituda, digo, Emma. É, ele finalmente conseguiu o que queria, mas eu estava triste. Por que eu estava triste? Eu sabia que isso iria acontecer uma hora ou outra, mas acho que eu queria que não acontecesse. No fundo eu queria que ficasse comigo, achava que ele esqueceria Emma. Achei errado.
Levantei-me e segui para fora da casa de Emma, logo em seguida estava dentro de um táxi, indo a casa de , iria pegar minhas coisas e sairia de lá, ele não precisava mais de mim, agora tinha Emma. Paguei pela corrida e entrei na casa de , já caminhando para nosso quarto e retirando do armário minhas roupas, e colocando-as em minha mala. Alguns minutos de silêncio e logo já havia guardado tudo que era meu, deixei as chaves reservas que tinha em cima da mesa e sai de sua casa, se ele quisesse falar comigo, sabia o número de meu celular.
Sentada no assento de outro táxi, estava pensando, sabe, nessas semanas que fui "casada" não beijei , ao menos fiz algum carinho, nos tratávamos como amigos. O que era realmente frustante, pelo menos para mim. Enfim, acho que nada mudaria, afinal, por que ele iria me querer se agora tinha Emma? Concorrência demais, não? É, eu perderia feio, então é melhor deixar passar, de um jeito ou de outro, passaria. Sabe aquela frase, que muitas pessoas dizem: "Corra atrás do que quer, não desista!", pois bem, ela não se aplicava A mim nesse momento. Eu não iria correr atrás de uma coisa que ao menos se importava comigo. Não, acho que eu poderia dizer que se importava, ao menos um pouco comigo. É, pode ser, mas nada fora do comum entre amigos. Uma preocupação boba... que importava para mim, de algum modo. Acho que de qualquer jeito eu saberia de , o que aconteceria com ele, se ele estaria com Emma, eu e ele temos amigos em comum e isso me dá uma certa vantagem, e certa desvantagem também. Não gostava de pensar nisso, em ficar longe ou sem notícias dele, mas era um assunto que não tinha como não pensar. É algo que eu não podia fugir, mas eu também não iria correr atrás para saber. Que tudo viesse no tempo certo, eu não iria nem apressar nem atrasar os momentos que podem envolvê-lo. Não mesmo. Já havia falado com o motorista, iria para uma pensão perto da estação de trem, amanhã cedo iria partir para uma cidade vizinha, onde uns amigos antigos moravam, eles não recusariam minha presença.
- Falta muito? - Perguntei sonolenta para o motorista que prestava atenção na estrada. Estava com sono, queria apenas deitar em uma cama e dormir, não queria ter tempo para pensar em bobagens ou o que, talvez, aconteceria.
- Não muito. - Pausou para observar melhor a estrada, já estava tarde, afinal. - Somente alguns quarteirões. - Ele disse e voltou a dirigir atenciosamente.
Bocejei e alonguei meus músculos, isso afastou um pouco da preguiça que se impregnava em meu corpo. Pelo menos aquela roupa não era tão desconfortável. A roupa não, mas os sapatos sim, logo acabei tirando-os. Encostei minha cabeça no vidro da janela, suspirando e observando a estrada escura que percorríamos. Rapidamente chegamos a pensão, paguei pela corrida e o motorista até me ajudou com as malas. Adentrei ao pequeno, mas aconchegante, saguão da pensão, onde um senhor meio idoso cochilava sentado atrás do balcão. Aproximei-me e balancei levemente seu corpo, com receio de que ele se assustasse. O senhor acordou e ficou levemente surpreso, mas logo sorriu envergonhado e bocejou, era tão adorável!
- Desculpe-me, acordei o senhor. Mas eu gostaria de ficar aqui por esta noite, quanto é? - Perguntei tentando soar o mais breve possível, ele estava cansado, e eu também.
- Não, senhorita. Você irá ficar somente esta noite, não? Não precisa pagar nada, pode passar a noite aqui, sem preocupar-se com o preço. - Fiquei envergonhada com tamanha generosidade do bom velho, mas isso não me prejudicaria não é?
- Oh, obrigada! Mas, qual seu nome, senhor? - Perguntei, afinal, eu precisava ao menos saber o nome do bom senhor.
- John e a senhorita, como se chama? - John. Era um nome comum e bonito, a partir de agora eu gostava mais de John.
- . - Disse sorrindo e dando um leve aperto de mãos com John, que sorriu fracamente, ele estava realmente cansado. - Bom, eu tenho que sair amanhã bem cedinho, o senhor pode me entregar a chave de algum quarto? É que estou realmente cansada e vejo que o senhor também.
- Oh, tudo bem. - Ele disse abrindo uma gaveta e retirando de lá uma chave com o número 07 escrito no chaveiro. - Boa noite, senhorita.
- Boa noite, John. Desculpe-me por atrapalhar seu sono. - Desculpei-me corando levemente e sorrindo envergonhada.
- Não se preocupe, vá dormir criança. - Ele disse voltando a sentar-se em sua cadeira e tomando um gole de café, assenti e subi alguns degraus da pensão, meio antiga - mas parecia confortável - e chegando ao meu quarto. Abri a porta e encontrei um quarto com paredes da cor creme, as cortinas - que algum dia já deviam ter sido brancas - estavam meio amareladas, um criado-mudo marrom madeira e uma cama de solteiro, que aparentava ser confortável. Deixei minhas malas ao lado da cama e deitei-me na mesma, tirando meus sapatos e cobrindo-me com um cobertor, que servia como colcha da cama. Dormi sem ao menos me importar com roupa ou maquiagem.

[...]

Acordei num pulo, indo para uma porta que havia dentro do quarto, era o banheiro, lavando meu rosto e escovando meus dentes com uma escova nova que havia na gaveta da pia, dei um jeito em meu cabelo e voltei para o quarto, onde guardei os saltos e calcei um par de sapatilhas mais confortáveis, permanecendo com a mesma roupa. Peguei a mala e desci rapidamente a pequena escadaria que havia na pensão e logo estava no saguão, com John atendendo A um casal de jovens, que logo subiram para algum quarto do prédio, foi quando ele me notou minha presença.
- Quer que eu ligue para um táxi? - Ele perguntou e eu assenti enquanto pegava meu celular, mandando uma mensagem para meus amigos, avisando que eu iria morar lá. Como eu sou uma pessoa que gosta de avisar as outras, não é? Olhem como sou prática, eu mando uma mensagem e não quero nem saber se eles vão aceitar ou não. Bom, eles vão aceitar de uma maneira ou de outra.
- Daqui 5 minutos um táxi estará aqui na frente para buscar-te. - John disse e se aproximou de mim, olhando-me graciosa e profundamente, ele me lembrava meu avô, que Deus o tenha.
- Obrigada pela hospedagem, John. - Disse dando-lhe um abraço, sabe aqueles abraços em que a gente se sente protegido? Então, era exatamente assim que eu me sentia com o velho John. O barulho da buzina do táxi soou em meus ouvidos, afastei-me de John e sorri agradecidamente.
- Por nada, criança. Agora vá! Vá com Deus, senhorita. - Ele disse enquanto nos dirigíamos a porta, sorri timidamente e pude ver seus olhos aderirem uma quantidade maior de rugas quando seu sorriso aumentou.
- Amém. - Disse seguramente e entrei no táxi, acenando para John enquanto o motorista ajeitava minha mala. O idoso retribuiu e logo o táxi arrancou estrada afora, levariam poucos minutos para chegar até a estação de trem e partir dessa cidade. Não acho que demoro a voltar, mas não pretendo voltar tão cedo. A única coisa que me preocupa é o casamento, mas é somente assinar alguns papéis, nem preciso ver , afinal, ele não vai discordar, pelo contrário.
Enfim, acho que não vai ser necessário encontrar , vou deixar a poeira abaixar, para depois, quando eu estiver mais preparada, aguentar as consequências do que fiz. Bom, a partir de agora, vida que segue, com ou sem . Não, eu não me arrependo do que fiz, foi até bom cair na real, ver que a vida pode puxar nosso tapete, mas que isso não é motivo para ficar no chão. Muito pelo contrário, e assim seria comigo, sem tudo seria mais simples. Tudo voltaria a ser como antes, só não sei se isso é bom ou ruim. Ele estava feliz, isso é bom, e eu vou ficar feliz, não vai demorar muito para mim esquecê-lo, não era iguais aos outros homens, mas não era tão diferente. Era apenas uma pessoa comum com quem eu casei e me iludi. Essa era a nossa breve história juntos. Uma história sem fim, porque pelo menos para mim isso não acabaria agora. Não mesmo...

Anos depois...

Sozinha. Era assim que eu me encontrava, totalmente sozinha. Não foi por falta de avisos, mas eu quis isso de algum modo. Os anos se passaram e eu continuava presa àquele casamento que só me trouxe problemas. Nunca mais precisei falar com , claro, eu e eles as vezes nos encontrávamos, eu recebia algumas notícias dele, mas nada mais que isso. Eu num canto e ele no outro. O divórcio foi feito sem eu precisar ter me encontrado com ele, um divórico amigável, mas uma coisa sempre me perseguia. Por que eu aceitei o divórcio? esse sempre foi meu pensamento, afinal, eu estava gostando muito dele, teria que lutar por ele, certo? É, seria certo para uma pessoa inteligente, o que não foi meu caso. Como havia pensado anos atrás, eu voltei há poucas semanas para minha cidade, para o mesmo apartamento de antes, parecia como um dejá vu. Estava sentada em minha cama, com os olhos pregados na parede branca de meu quarto, se alguém me visse me acharia estranha, mas para mim a parede parecia interessante. Despertei-me quando escutei o toque de meu celular. Estiquei meu braço e alcancei-o no criado ao lado de minha cama, olhei o visor, era um número desconhecido, só faltava ser trote.
- Quem é? - Comecei sendo rude, estava com sono, estava cansada, não dormia bem fazia semanas, queria dormir e quando iria conseguir esse ser me liga, mas tudo bem...
- . - Meu coração quase saiu pela boca quando escutei sua voz, tanto é que dei um pulo da cama, como ele tinha meu número?
- Como você tem meu número novo? Por que está me ligando? O que você quer comig...
- Calma, olha, eu consegui seu número com Brian, só não me pergunte como ele tem seu número. Ele me disse que você estava mal por minha causa. Eu juro que não queria fazer mal a você, nem deixá-la triste... - Como é que é? Eu triste por causa dele? está bêbado.
- Eu não estou mal por sua causa, na verdade, eu não estou mal! Brian está ficando louco. Olha, , espero que entenda, mas eu não tenho tempo para falar bobagens com você, me desculpe. Tchau. - Rapidamente desliguei e deitei-me em minha cama, perplexa. Só me faltava essa! Balancei a cabeça negativamente tentando afastar isso de minha cabeça e fechei os olhos, tentando dormir. Adormeci por poucos minutos, acordei com um ruído alto, parecia ter vindo da cozinha.
Vou ou não vou? Tá bom, eu vou logo. Calcei meus chinelos e peguei meu celular, apertando algumas teclas e logo o visor se acendeu, deixando um pequeno rastro de luz. Com certa dificuldade, cheguei a cozinha, onde consegui ver uma sombra, legal, iria morrer. Olhei para os lados e peguei a primeira coisa que vi: uma almofada. Não que isso fosse uma boa arma, mas era a única que eu tinha no momento. A sombra estava de costas para mim, então eu apenas pulei em suas costas e derrubei a pessoa no chão, logo comecei a bater na mesma com a almofada. Mas algo errado aconteceu, a pessoa, que eu já havia identificado como um homem, colocou-se em cima de mim.
- Não me mate por favor... - Eu pedia desesperada e com os olhos fechados. O homem, que segurava fortemente meus pulsos contra o chão, os soltou e deu uma risada escandalosa. Uma risada que eu conhecia e gostava de ouvir, mas nesse momento me soou horrivelmente irônica. Eu não queria ele aqui, não mais.
- Você iria me matar com uma almofada? - Não seria nada mal fazer você engoli-la, pensei.
- O que você faz aqui? Invadiu minha casa porquê? Aliás, como conseguiu entrar? - Perguntei enquanto me levantava e acendia a luz da cozinha, podendo ver a imagem de seu corpo, vestido em um jeans e uma camiseta gola ''V'' branca. Levantei rapidamente meu queixo quando percebi que o observava demais. Ele havia encorpado, sua barba por fazer o deixava mais maduro, mas eu via em seus olhos o mesmo brilho de anos atrás, de quando éramos jovens. De quando eu era otária.
- Você não trancou a porta.
- Ok, mas isso não explica você estar invadindo minha casa às - chequei as horas em meu celular antes de prosseguir: - duas horas da manhã!
- Você não me deixou falar pelo telefone, achei melhor falar pessoalmente. - Ele protestou com um sorriso idiota naqueles lábios beijáveis.
- Justo às duas da manhã, ? - Perguntei estressada e caminhei até o sofá, sentando-me e vendo-o sentar ao meu lado, mexendo em suas mãos, como se estivesse nervoso.
- Eu sei que você está mal por minha causa, sim. Não adianta mentir ou contestar, eu vejo isso em seus olhos, você está mal. Muito mal. Eu nunca quis que você sofresse, achava que você só estava comigo na época pelo dinheiro, nunca achei que você pudesse ter se apaixonado por mim. - Metido! Idiota! Mentiroso! Ele dizia as coisas sem nem pensar, elas fluíam livremente. Como ele pode?
- Pera pera pera. Que papo é esse que eu me apaixonei por você? - Perguntei incrédula.
- Não me diga que é mentira.
- Mas é! - Discordei com firmeza, mas a única coisa que ele fez foi sorrir. Do jeito mais besta que pode, o que não era muito difícil.
- Se é mentira, por que você ainda se arrepia com meu toque? - Suas mãos tocaram minha cintura, me encolhi e me arrepiei, ele não podia fazer aquilo! - Por que você cora quando eu fico te observando por muito tempo, como estou fazendo agora? - E eu reagia conforme ele falava, esse canalha estava conseguindo o que queria. - E por que você sempre desejou, durante todos esses anos, o meu beijo? - Ele perguntou com a mão em meu pescoço, encurralando-me. Meu estômago revirou com a nossa proximidade. Tentei me afastar, o que foi completamente inútil, pois ele me puxou fortemente e nossas bocas se tocaram. No começo eu resistia, batendo em seu peito, mas aos poucos fui me acalmando com a leveza da sensação de senti-lo assim tão perto. Depois de alguns segundos desconcertada com a suavidade do beijo, me separei de seu corpo, que agora parecia cada vez mais atraente. Pare com isso, concentre-se!, eu tentava mandar em meus pensamentos.
- Vai embora. - Disse com o braço estendido em direção à porta. Ele sorriu irônico e se aproximou, mas logo ficou de pé.
- Você não quer isso. - Mais um sorriso daqueles e eu matava ele, com a almofada.
- Vai embora. - Repeti encarando seus olhos, tão vazios e escuros.
- Se eu for, tenha em mente que eu não pretendo voltar. - Ele avisou começando a caminhar em direção à porta, como se eu fosse me importar.
- E é exatamente isso que eu quero. - Sorri sem mostrar os dentes e bati a porta em sua cara. Tranquei a mesma e voltei para meu quarto, deitando-me relaxadamente em minha cama. Um sorriso vitorioso não saía de meus lábios, não havia mudado, o mesmo garoto de sempre. A aparência poderia estar diferente, mas ele continuava o mesmo, assim como eu. Eu queria sim ter ficado com ele, mas pensando bem ele não valia tanto a pena. A vida é feita de escolhas, e eu escolhi ficar longe dele. O beijo que eu sempre "sonhei" em ter no final das contas não foi nada demais, não foi mágico como eu esperava ser. E pensando bem, eu sou a pessoa mais otária, idiota, besta e iludida da face da Terra. As coisas mudaram muito nesses anos, mas eu podia perceber a confusão de anos atrás. Um sentimento bobo e estranho ainda tomava conta de mim, mas logo isso passaria, afinal, tudo passa.
Amor, era o sentimento que eu considerava sentir por ele, mas na verdade era uma coisa bem parecida: a ilusão. Afinal, quem nunca foi enganado no quesito "se apaixonar"? Amor, para mim, um dos piores sentimentos que alguém pode sentir, mas não é totalmente ruim. Uma coisa que eu acabei de descobrir: todos somos escravos do amor. É, ele nos faz de gato e sapato, nos engana e nos manipula, mas ele também nos proporciona momentos bons. Enfim, todos temos milhares de "amores" na vida, poderia ser apenas mais um, não é? Bom, vou deixar o tempo dizer, mas de uma coisa eu sabia: eu não seria mais otária quando o assunto for .

FIM

 

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