Lovely

Escrito por Marcella Ribeiro - Siga a autora no Twitter
Beta-Reader: Natashia Kitamura



- ! – a dona Vilma chamou, com cara de sapeca, enquanto ela e a moça mais nova arrumavam as mesinhas do buffet infantil onde trabalhavam – Olhe só quem chegou!
, mesmo que um tiquinho irritada pela chateação que passava todo dia por causa daquilo, levantou o olhar de forma afobada, seu coração já começando a dar pulinhos.
Ela se sentia extremamente idiota por isso. Quem em seus plenos 22 anos sentia aquele friozinho bobo na barriga? , com certeza!
Mas ela deixava rapidinho de sentir-se idiota quando o via entrando apressado pela porta do buffet, um sorriso tímido no rosto, caixas de salgados nas mãos e um olhar – sempre – perdido no tempo.
era o nome dele. O avô do rapaz, Seu Abreu, era casado com uma senhora extremamente talentosa na cozinha, e ambos tinham um negócio de salgados que ia sempre muito bem e cobravam um preço justo por ele, por isso eram os fornecedores oficiais de salgados para as festas do Buffet Pura Diversão.
Mas há pouco mais de um mês, Seu Abreu quebrou o fêmur depois de cair de moto, a moto que fazia as entregas, e por isso seu neto tomara o lugar dele entregando os pedidos. Sempre apressado, sempre parecendo desconfortável, sempre meio desligado. Sempre lindo, aos olhos de .
E por mais que se achasse ridícula por conta disso, ela nunca conseguia tirar os olhos do rapaz nos dez minutos que ele permanecia no salão. Era uma coisa surreal, mas poderosa demais pra que ela negasse. Não acreditava muito no tal “amor à primeira vista”, mas aquilo que sentia por , admitia, era algo bem próximo disso.
O rapaz, porém, não parecia retribuir o interesse da moça, mas ela não podia reclamar. Afinal, nunca falara de verdade com . Nunca dera a ele a chance de notá-la, e não pretendia realmente fazer isso. Seu último namorado fora uma pedra em seu sapato, e por ser orgulhosa demais, ela vivia repetindo para si mesma que não precisava de ninguém no momento, que estava ótima sozinha.
Mas isso não a impedia de olhá-lo sempre que chegava.
- Ei, – outra moça que trabalhava no buffet chamou-lhe a atenção, com ar de riso – Limpe a baba que tá escorrendo, amiga.
Revirando os olhos de forma teatral, tentou voltar a prestar atenção ao que fazia, mas a atenção sempre era desviada para , do outro lado do salão, no balcão que dava para a cozinha.
Ele sempre fazia o mesmo. Deixava as caixas com os salgados em cima do balcão – elas pareciam caixas de pizza, e ele era um tanto atrapalhado com elas. Nos primeiros dias, quase derrubou-as pelo menos cinco vezes –, apoiava seu capacete ao lado das caixas e, do bolso do casacão preto que sempre vestia, tirava um bloquinho e uma caneta, onde todas as entregas do dia estavam marcadas.
A dona do buffet conferia tudo, assinava o bloquinho dele, pegava seu recibo e, então, dava um tchauzinho tímido para todos no recinto e ia embora.
Simples assim, todas as vezes simples desse jeito, e esperava todos os dias de trabalho por aqueles breves minutos nos quais podia vê-lo.
Era patético, mas de vez em quando, ela tinha a impressão de que ele olhava na direção dela mais vezes do que o necessário, e aquilo lhe dava esperanças.
Mas é claro que podia ser culpa dela aquilo acontecer. Ela o encarava tanto que o rapaz devia achar estranho e encavara de volta!
Quando ele foi embora, devolveu, baixinho, o “tchau” que disse e voltou a limpar as mesas que restavam, pensando consigo mesma que, um dia, ainda tomaria coragem para falar mais que isso com ele.

~*~

Era uma sexta-feira, e o salão de festas estava uma correria só. Era aniversário da filhinha da dona do buffet, e como a mesma decidira usar aquele salão para a festa, tudo tinha que sair perfeito, afinal, era a chefe de todos os funcionários dali que se tornaria a cliente, e só aquele fato já colocava todos sob uma pressão enorme.
Por volta das cinco da tarde, o “moço dos salgados” chegou, mas não teve a oportunidade de vê-lo daquela vez. Estava em um dos cantos do salão, perto da mesa do parabéns, arrumando um arco de balões junto com outros dois funcionários e, infelizmente, longe demais para que pudesse observar sua paixão platônica dali.
O que foi uma pena, pois ela não pôde ver que o rapaz parecia ainda mais perdido que o normal ao procurá-la pelo salão e não achá-la de primeira. Onde estava, aquele dia, a moça que lhe direcionava tantos olhares?
Um pouco decepcionado, entregou o recibo para a dona Vilma, pegou seu capacete e foi embora. Aquela era sua última entrega do dia, e estava feliz com isso. Era muito raro trabalhar somente até às 5h da tarde, e por mais que isso significasse seus avós ganhando menos aquele dia, ele admitia que precisava de um descanso.
Saindo do salão, rumou cantarolando para o local onde estacionara a moto.
acabou de arrumar o arco no exato momento em que saía do salão, e ver apenas as costas dele fez com que bufasse mal humorada e voltasse para onde dona Vilma estava. Trabalhar sob tanta pressão já era ruim demais, ficar sem vê-lo nos raros momentos em que podia fazer isso, era ainda pior.
Quando dona Vilma avistou-a, o olhar triste, sorriu.
- Vamos lá, . Amanhã ele volta, agora vamos focar no trabalho!
resmungou alguma coisa, mas no fundo sabia que dona Vilma era uma mãezona e só queria seu bem.
Estava prestes a levar os salgados para dentro da cozinha quando algo chamou-lhe a atenção.
Um bloquinho azul estava ao lado das caixas de salgado, aberto ainda na folha que usara para dar o recibo à dona Vilma.
Quando percebeu que aquele bloco era o mesmo que vira o moço dos salgados usar constantemente, e que ele ainda precisaria dele durante o dia quando fosse fazer suas outras entregas, olhou de maneira desesperada para dona Vilma.
Com um suspiro longo, a mulher balançou a cabeça.
- Vá logo atrás dele – disse, conformada, e quando a moça já tinha dado as costas a ela e corrido para a entrada, ela ainda gritou: – Mas não vá demorar, !
Gritou algo de volta para a mulher e continuou seu caminho para fora do local.
Ela sabia que aquele bloquinho deveria ser importante. Do jeito que parecia avoado, duvidava que ele marcasse em qualquer outro lugar os endereços de entregas, o que tornava aquele bloquinho seu único meio de fazê-las, e não se perdoaria se não devolvesse. Céus, ele ficaria louco achando que perdera aquele bem na rua!
Quando saiu do salão, olhou primeiramente para a direita, procurando por ele, mas nada viu.
Na esquerda, porém, ela conseguia ver sua silhueta contra o sol que se punha daquele lado. O casacão preto aberto esvoaçava conforme andava, e ela não teve dúvidas. Correu até o rapaz e tocou-lhe o ombro quando o alcançou.
voltou-se para ela, parecendo surpreso ao vê-la.
Ligeiramente ofegante por culpa da corrida, respirou fundo antes de dizer:
- Você esqueceu seu bloquinho!
Olhando surpreso, dessa vez para as mãos dela, ele disse:
- Obrigado! - suas mãos tocaram-se levemente quando ele recolheu o bloco de pedidos. - Puxa, obrigado mesmo. Tenho essa mania de esquecer minhas coisas por aí!
sorriu. Sabia que ele era esquecido. Sabia mais coisas do que deveria.
- Mas essa foi a minha última entrega – ele contou, guardando-o no bolso – não precisava ter corrido tanto – agora, extremamente sem graça ao ver que seus esforços para ajudá-lo foram em vão, deu de ombros.
- Bem... parecia bastante importante, você o usa o tempo todo, pensei que iria precisar dele. – tentou não parecer tão embaraçada ao falar. Quando encarou-o, tentou saber quão idiota ele achava que ela era, principalmente agora que tinha praticamente esfregado na cara dele que o observava todos os dias.
, porém, olhou-a no fundo dos olhos e, depois de um tempo sem esboçar reação, sorriu.
- Eu sabia!
- Sabia o quê? - perguntou confusa.
Foi a vez dele de dar de ombros.
- Sabia que você seria adorável!
Pega de surpresa pelo elogio, ela sorriu também e fez menção de voltar para o salão, mas o rapaz colocando entre seus dedos o bloquinho novamente confundiu-a.
- Me devolva amanhã - ele pediu, com um sorriso nada tímido no rosto. – Amanhã, depois que você colocar seu número de telefone em algum lugar por aí.
E então, virou-se e continuou sua caminhada, deixando para trás com um sorriso no rosto e a leve e refrescante sensação de que, amanhã, seria um ótimo dia.

Fim?

 

Comentários da autora



A ideia pra essa short veio quando eu estava no tumblr, e entre os posts vi uma imagem que dizia apenas “I knew you’d be lovely”, e então foi impossível parar a minha imaginação, que correu como uma doida pra formar essa história.
Sei que é bem simples, mas dizem que as coisas simples são responsáveis por muitas coisas boas, certo? Haha.
Espero que gostem!




Comente aqui