Loosen Up

Escrito por Daniele Andrade - Siga a autora no Twitter
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Projeto Songfic - I need your love - Ellie Goulding ft. Calvin Harris .

“Em um mundo com bilhões de pessoas, existem aquelas que voce acaba de conhecer e parecem amigos de infância...”.

Um hospital não é o melhor lugar para se passar a noite, na verdade é bem deprimente. Você vê vidas lutando por um pouco mais de tempo em um mundo onde morrer é lucro, você vê pessoas chorando suas perdas e suas vitórias. No meu caso comemoro a incerteza. Incerteza porque meus exames não vão sair hoje e os médicos querem que eu fique a noite para observar o meu caso, tudo isso é culpa do câncer, que, pelas palavras de John Green, é parte de mim também.
Cheguei ao quarto onde eu ficaria, cerca de oito horas da noite. Um garoto observava a janela, não bem a janela, mas o que estava do outro lado. Melhor que um doente é um lunático não? Essa poderia ser a noite mais longa da minha vida. Quando ele virou os seus olhos, pude perceber que ele chorava ou lacrimejava, não importa, um sorriso tenro se abriu muito tímido para se comemorar, mas... seus olhos verdes eram lindos, seu cabelo loiro e a pele branquinha tão diferente de mim, que tenho o cabelo anelado e castanho acompanhado de pele oliva e olhos escuros. Estávamos sozinhos, talvez assim como eu, ele não ache justo as pessoas ficarem entupindo os hospitais com seus dramas. A única coisa que pode se ter certeza na vida é que vamos morrer, devíamos nascer preparados para isso. Ele se levantou e veio na minha direção, secando os olhos com a manga da blusa preta que vestia, além de loiro, do olho verde e branco, ele era uns dez centímetros mais alto que eu.
- Oi, eu sou , é um prazer te conhecer. - Ele estendeu a mão para me cumprimentar e eu automaticamente peguei em sua mão balançando levemente.
- . O prazer é meu. - Respondi sorrindo enquanto ele voltava para a ponta da sua cama.
-Então, , por que está aqui? – Ele perguntou sorrindo. Sua voz era aveludada, deixava tudo tão intenso que o raciocínio chegava a demorar.
- Esperando exames, um problema na coluna. Alguns médicos acham que é uma coisa, outros acham que é outra e aqui estou eu, esperando. E você? Por que está aqui, ? – Me sentei de frente para ele.
- Vou operar os olhos amanhã à tarde. - Ele disse baixando o tom de voz.
- Por que está triste?
- Gosto de ver o mundo, senhorita . Ele é estranho, mas gosto de observa-lo quando nasce. – Ele riu fraco.
- Sinto muito. - Disse percebendo a grosseria. – Como você gostaria de passar sua última noite enxergando o mundo, ? – Perguntei depois de um tempo de silêncio causado pela minha insolente falta de educação.
- Queria passear pela cidade, passar a noite acordado visitando lugares importantes para mim, depois ver o sol nascer de um telhado alto. – Ele parou por um instante e começou a mexer com a mão. – Eu me sentiria livre, me sentiria o dono do mundo.
- Talvez seja possível. - Eu disse mordendo a ponta dos lábios. – Digo, eu tenho um carro no estacionamento, e meus pais só vão chegar amanhã de manhã. Se conseguirmos despistar os médicos, podemos aproveitar a noite por ai. – Olhei para ele que tinha um sorriso sincero e um brilho nos olhos. Ele raciocinava, talvez estivesse pesando prós e contras de fugir de um hospital com uma garota nada normal que acabou de conhecer.
- Vamos. - Ele disse levantando e ajeitando o cabelo e pegando uma blusa de frio. Eu peguei minha bolsa com os documentos. Andamos até a porta, a abrimos com cuidado, “Limpo” eu sussurrei e nós saímos do quarto, andamos até o outro corredor, dois médicos conversavam com uma mulher que chorava, seguimos normalmente até o elevador, quando abriu um médico residente nos olhou e perguntou se entraríamos, após nos entreolharmos entramos no elevador, “Ele vai ficar bem” eu disse fingindo conversar com que riu normal e disse “Claro que vai, foi só uma torção...”, com o canto do olho pude observar o médico me encarar, mas antes de qualquer coisa o elevador abriu e nos estávamos na entrada. Andamos por ela e saímos no estacionamento. Eu nem acreditava que tínhamos mesmo saído de um hospital sem sermos pegos.
- Aonde vamos primeiro? – Perguntei abrindo meu carro e me ajeitando dentro dele. sentou-se no passageiro colocando o cinto de segurança.
- Para qualquer lugar. – Ele respirou fundo quando eu comecei a dirigir pela cidade, o vidro estava aberto e ele ficava observando todas as luzes e rindo sozinho me fazendo lembrar que eu não ria há muito tempo. Dirigi até a Times Square, e foi quando pude vê-lo saltar dentro de si mesmo. Ele olhava pra mim e eu ria junto com ele, e então eu finalmente tinha encontrado alguém que realmente me alegrasse sem que eu tivesse que pedir...
Estacionei o carro perto do Central Park, era perigoso estar ali de noite, mas não me importei com isso. Entramos no parque enquanto ainda admirava cada pedacinho do mundo, me fazendo rir com sua alegria de criança quando ganha um sorvete. Sentamos no meio da grama, onde podíamos ver as luzes da cidade.
- Quantos anos você tem, ? – Ele perguntou pegando seu celular no bolso.
- Dezoito e você? – Perguntei educada.
- Dezenove. – Ele disse e respirou fundo sentindo a brisa da noite. – Sabe o que falta para completar nossa noite?
- Hm, Donuts? – Perguntei rindo sozinha...
- Eu ia falar música, mas se você quer Donuts. – Ele disse e rimos juntos.
- Que música? - Perguntei fingindo mistério...
- Essa, já ouviu? – Ele deu play na única música no mundo que eu não queria ouvir.
(Dê play na música – Link).
Minha expressão passou de alegria a dor nesse mesmo instante.
- Algum problema, ? – Ele me perguntou sincero, mas eu não sabia como explicar minha aversão a essa música.
- Eu gostaria de deixar isso pra lá, . – Eu disse suplicante, mas algo me dizia que ele não deixaria isso de lado.
- Eu posso ajudar, . Se você deixar, é claro. Eu sei que contar para alguém as nossas dores é complicado. Mas é bem pior carregar esse fardo sozinho. – Ele disse acariciando meu ombro.
- Eu tinha um namorado, há uns meses atrás. Costumávamos discutir sobre músicas o tempo todo. Eu simplesmente amava essa música. - Eu parei de falar por um instante, é um problema quando você se esquece de como se abrir com as pessoas.
- Pode contar, , sou um bom ouvido.
- Eu não quero falar, . E eu não entendo o motivo de você querer saber isso. É uma história de alguém que destrói um outro alguém. – Minha voz saiu alterada o fazendo semicerrar os olhos para mim. – Eu não entendo o porquê de você quer saber isso hoje. Pra quê estragar a noite?
- Sabe, . Hoje eu estava no hospital, e eu conversava com meu pai. Eu disse que seria difícil realizar os dois únicos desejos que eu tinha. Primeiro eu queria ver as luzes da cidade sabe, e o segundo era ajudar alguém. Então você apareceu e me concedeu um desejo. E agora vejo que posso ajudar você. – Ele pausou. – Confie em mim, .
- Outro dia. Parece que ainda vamos estar no hospital amanhã. Eu posso contar depois.
- Mas eu quero olhar nos seus olhos enquanto você fala. Quero sentir sua dor. Quero te ajudar. – Ele disse por fim. Eu me deitei na grama observando a noite estrelada acima de nós.
- Essa foi a última música que discutimos, ele disse que não concordava mais comigo, que eu não era mais a mesma pessoa. “Tem cabimento terminarmos por causa de uma música?” eu perguntei, e ele disse: “Terminamos porque você se tornou uma completa estranha pra mim, .”
- Oh, isso é mesmo doloroso. Eu sei que ainda dói dentro de você, porque ainda gosta dele. Ou dos momentos que passou com ele. Eu te entendo, a dor deixa a gente fora de órbita, não é mesmo? No final a gente só quer alguém por quem continuar lutando... – Ele disse e pausou. Ele me observava enquanto algumas lágrimas desciam impiedosas do meu rosto. Ninguém nunca havia me decifrado assim, e meus problemas pareciam tão idiotas. - Quer saber, ? – Ele disse se levantando e olhando pra mim com sua mão estendida. – Seu Ex-namorado é um perfeito idiota. Porque se ele te largou por falta de compatibilidade eu te aceito pelo mesmo motivo. - Ele disse resoluto. – E sabe o que mais? Eu sempre amei essa música, e agora, eu quero que voce venha aqui, dançar comigo. - Ele disse sério, e com um sorriso bobo eu fiquei. Como era possível se sentir bem com alguém que está prestes a ficar cego?
- , - Eu disse e pausei dramaticamente. – Você é o melhor do mundo... – Eu disse rindo e me levantando enquanto ele dava risos para o céu.
- “C’mon, let's go dance, baby” – Ele gritou e começou a dançar me puxando junto com ele. – Sabe, essa música fala sobre ser livre, , e você pode ser livre agora, pode ser livre essa noite. Pode ser livre do fardo da decepção, da dor e do ex-namorado idiota.
- Isso é uma péssima avaliação crítica, . – Eu disse enquanto ele me olhava alegre.
- Desculpe, sou péssimo nisso. A verdade é que não gosto de ligar pessoas à músicas. Eu apenas guardo o que mais me chama a atenção, . – Ele explicou sorridente.
- Mas a música fala sobre várias coisas, não só sobre ser livre. Ela fala sobre uma pessoa dependente, que se tornou estranha depois de acabar com um relacionamento ela mesma. Fala sobre o medo e sobre as lágrimas e o tempo perdido. – Eu expliquei, mas ele não deu importância.
- Você vê o lado ruim das coisas, , não que a música seja ruim, longe disso. Acontece que você dá importância demais para coisas que não tem toda essa importância. Toda dependência, toda dor, toda lágrima perde a validez quando se trata de liberdade. E essa é verdadeira análise crítica sobre qualquer música. Você tem que pesar as coisas na balança, e então decidir sobre o quê a música retrata. E, nesse caso, a música diz: “Seja livre! Seja livre!”. – Ele finalizou agitando os braços me fazendo rir. Talvez ele estivesse certo, talvez eu tenha passado a maior parte da minha vida dando importância a coisas inúteis. É como dizem, “ninguém pode fazer um novo começo, mas todo mundo pode fazer um novo final”.
Então dançamos, nos olhávamos por longos instantes, a pele dele reluzia contra a lua. E ficamos lá, rindo da vida, da desgraça dos dias que viriam, pensando no que fazer quando não mais enxergássemos as belezas do mundo. “Pelo menos seremos livres, .” Ele disse cruzando os braços enquanto olhava para o horizonte. “Livres”, eu repeti colocando minha cabeça apoiada nos seus braços. “Livres”, ele disse olhando diretamente para mim com seu sorriso que outrora não havia aparecido.
Não era como o “Okay” de Hazel Grace e Augustus Waters, ou como o “Sempre” de Isaac e Mônica, “Livres” não era o nosso Eu Te Amo disfarçado, “Livres” era o nosso estado de espírito, que significava que nós estaríamos ali, para o que der e para o que vier. Naquele momento éramos fugitivos de um hospital e invasores de um parque, mas também, naquele momento, éramos de fato, LIVRES.

I need your love
I need your time
When everything's wrong
You make it right
I feel so high
I come alive
I need to be free...

FIM

 

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