Little Gumball

Escrito por Maraíza Santos - Siga a autora no Twitter
Beta-Reader: Natashia Kitamura



Parte do Projeto Sorteio Surpresa - 12ª Temporada // Tema: Gato Preto

Encostei minhas costas na cadeira tentando me acomodar melhor. Aquele escritório ia acabar me matando algum dia. Lembro de ouvi dizer uma vez que se você faz o que gosta o trabalho nunca vai ser enfadonho. Foi a mentira mais descarada que me disseram por toda a minha vida. Eu trabalhava como designer gráfico na Maker Studios, o emprego que eu almejei por toda a minha vida e nem por isso eu deixo de estar cansada em trabalhar aqui. Olhei pra meu lado e vi Levy com as pernas esticadas em sua mesa jogando uma bola de papel no lixeiro.
— Wow! — Falei animada. — Levy salva o time de uma desclassificação. Inacreditável! — Fingi o sotaque do narrador de basquete.
Levy levantou as mãos e comemorou silenciosamente com as mãos para cima. Nós duas rimos enquanto rodávamos nas cadeiras que estávamos sentadas. Levy esticou um pouco o pescoço para ver o que eu fazia no notebook e bufou ao ver o InDesign aberto.
— Você ainda está fazendo isso? — Ela revirou os olhos.
— Eu acho que não está bom...
— Como é? Faltam menos de 3 minutos pra podermos sair do trabalho e você tenta mudar algo que está perfeitamente do jeito que está? — ela falou. — Você quer ficar até mais tarde em pleno Halloween?
Senti meu corpo gelar como em um fio e meu coração começou a bater mais rápido. Arregalei os olhos desacreditada que eu havia esquecido que hoje era 31 de outubro.
— Hoje é dia das bruxas? — Perguntei letamente.
— Se 31 de outubro é considerado dia das bruxas, sim, hoje é dia das bruxas. — Ela falou sarcasticamente.
Levantei-me subitamente e fui colocando tudo que era meu de cima da mesa para minha mochila e joguei a mesma nas minhas costas. Ainda em pé, salvei a arte que eu havia feito e desliguei o PC. Quando virei-me para ir embora, fitei uma Levy com o cenho franzido esperando que lhe explicasse o motivo da pressa. Olhei para o relógio no meu pulso e faltavam poucos minutos para as seis horas da tarde. Eu não tinha tempo para explicar, então, apenas falei a palavra que a faria ter alguma ideia do meu alvoroço.
— Gumball. — Ela assentiu e eu fui correndo até o elevador.
Quando entrei no meu carro usado, joguei a mochila no banco do passageiro e sai do estacionamento rapidamente, torcendo que eu chegasse antes das seis e meia em casa. Apertei o volante em frustração quando tive que parar em um sinal vermelho. Não acredito que esqueci que hoje era Halloween, eu sempre lembrava quando era essa data e afins, como sextas-feiras 13. Que inferno! Eu precisava prender o Gumball antes que as pestinhas da minha rua o visse desfilando pelas calçadas. Gumball — um gato de raça bumbaim, pelo negro e olhos verdes — era meu gato de estimação há cinco anos. Eu o ganhara da minha mãe ainda filhote, pois ela achava que eu estava muito sozinha naquela casa. Desde então, Gumball era meu melhor amigo e companheiro.
Quando eu era criança, ouvia histórias de que gatos pretos são mutações de bruxas, ou algo do tipo, que traziam má sorte, e que eles eram queimados e condenados a morte junto com as pessoas que eram acusadas de bruxaria durante a Idade Média. Lembro de sempre me perguntar o porquê de bichinhos tão fofos e inofensivos serem tratados dessa maneira! Por mais que essas superstições praticamente serem extintas hoje em dia, as crianças da minha rua caçavam — como ritual — em todo dia das bruxas gatos pretos e os maltratavam, chegavam até a matar. Era um absurdo e todo o bairro sabia que disso, mas nos fazíamos de cegos para o que estava realmente acontecendo; e é por isso que eu prendo o Gumball nesses dias, por mais que ele me arranhe toda e fique choramingando, eu estava fazendo para seu próprio bem.
Assim que eu cheguei à frente da minha casa, estacionei o carro e sai correndo, deixando cai minhas chaves no chão com as mãos tremendo. Eu temia que Gumball não tivesse em casa, mesmo ele sempre está fora a essa hora. Abri a porta já com os dedos cruzados para que só dessa vez ele não tenha saído para caçar ratos ou qualquer coisa que gatos fazem fora de casa e liguei a lâmpada.
— Gumball? — Chamei-o. — Por favor, Gumball, você tá aí?
Andei pela casa ligando todas as luzes que eu achei enquanto gritava pelo meu gato. As lágrimas já davam sinais que desceriam toda vez que eu olhava para os lugares que ele costumava ficar e não o via. Eu só conseguia pensar no pior, pensar que ele tinha sido pego pelos garotos da rua. Passei a mão nos cabelos puxando os para trás sentindo as lágrimas caírem em meu rosto. Respirei fundo tentando me acalmar. Talvez ele não tivesse sido pego pelos garotos.
— Sai daí, velho chato! — Ouvi um grito e virei meu rosto alarmada.
— Vocês estão ficando malucos? Onde estão seus pais? — Uma voz raivosa e masculina gritou do lado de fora.
Apressei o passo e sai de casa encontrando crianças entre 10 à 12 anos, vestidas com fantasias, segurando pedras e facas dentro de sacos para pegar doces e eles gritavam com um homem alto que segurava um animal nos braços com força tentado o proteger. Cerrei os olhos e percebi que o homem era o novo vizinho da direita que havia se mudado há quatro meses, isso explicava o fato dele não saber do que acontecia no bairro durante os dias das bruxas. Ele tinha um nariz engraçado e era grande, tanto em sua altura como nos músculos – certeza que ele fazia academia. O gato que ele segurava saiu de seus braços em um pulo e correu em minha direção com dificuldade, vi a coleira verde tão conhecida por mim e corri para pegá-lo em meus braços, abracei Gumball sentindo as lágrimas descerem mais uma vez, a sensação de quase o perdê-lo era horrível. O felino em meus braços miou frustrado e eu percebi que havia o abraçado forte demais o machucando, sua pata traseira esquerda estava quebrada. Fiz uma carranca e vi que as crianças e o meu vizinho me olhavam espantados.
Ainda com Gumball em meus braços, fui marchando até as crianças com uma cara nada boa. Isso não ia ficar assim.
— Qual é o problema de vocês, hã? — Perguntei para elas que arregalaram os olhos. — Acham isso bonito? Maltratar animais inofensivos que não fizeram NADA contra vocês? — Gritei. — É dia das bruxas! Vocês só têm que pedi doce, apenas isso! Parem de dá um de João e Maria, aquilo é só um filme! Ah, — Apontei meu dedo nos rostos deles, gravando na minha memória a feição de cada um. — se eu souber que estão fazendo isso de novo, juro que ninguém vai precisar pagar multa ou ser preso pela proteção de animais, e sim, eu serei presa por matar crianças nojentinhas como vocês!
O mais velho do grupo deu um passo pra trás e os outros acompanharam. O garoto vestia uma fantasia de arqueiro e segurava algumas pedrinhas em sua mão esquerda. Um dos menores, que estava vestido de cowboy, correu para longe sendo acompanhado pelos seus amigos e, logo, não havia mais nenhuma criança na minha frente. Percebi que alguns vizinhos tinham saído de casa para ver a movimentação da rua e senti meu sangue ir todo para minhas bochechas. Olhei para trás e meu novo vizinho me fitava com a testa franzida, mas parecia aliviado.
— Obrigada, vizinho do nariz engraçado. — Agradeci, tentando tirar a tensão do ar. — Eu e o Gumball agradecemos. — Olhei para o gato em meus braços.
— Por nada. — Ele sorriu e aproximou-se para fazer carinho em Gumball.
— Qual é o seu nome mesmo? Sabe, não dá pra ficar referindo a você como “o vizinho de nariz engraçado”. — Ele riu e coçou a nuca.
. . — Ele respondeu. — E você é?
. Me chame de , por favor... — Sorri tentando ser simpática e ouvi Gumball choramingar em meus braços. — Eu vou fazer um curativo na pata dele.
— Posso ajudá-la? — Ele ofereceu-se.
— Ah, claro. — Respondi incerta. Não era como eu convidasse qualquer estranho que eu só sabia o nome para dentro da minha casa, mas ele parecia não querer fazer nada de mais, qualquer coisa eu poderia ligar para a polícia ou gritar, então... Enquanto andávamos em direção a minha casa, o silêncio se estalou enquanto eu observava as decorações para o dia das bruxas que havia pela rua. Nossa! Nunca tinha visto tanta abóbora em minha vida!
— Eu também tenho um animal de estimação. — Falou . — É um cachorro, pra ser sincero, um poddle.
— Wow, é mesmo? — Abri a porta num chute.
As luzes ainda estavam ligadas e Gumball se remexia em meus braços incomodado. Eu andava em direção a cozinha para pegar minha caixa de remédios e sentia no meu encalço. Olhei de relance para ele e o vi meio perdido pisando no chão como se fosse quebrar a qualquer momento. Ri do seu desconforto.
— Então, onde está o seu cachorro? — Perguntei colocando Gumball nos braços de .
— Está na casa... — ele hesitou. — Na casa da minha ex namorada.
— Vocês adotaram juntos? — Perguntei apontando para a mesa para que colocasse Gumball nela. Eu teria que tirar um monte de pêlo da minha cozinha depois e já me dava preguiça só de pensar em fazê-lo.
— Sim. A gente colocou o nome dele de Rigby. — Ele comentou.
— Bom saber que não é só eu que é viciada em desenhos da Cartoon Network. —Ele riu.
— Acredite, quando você chamou ele de Gumball eu pensei a mesma coisa. — Falou descontraído. Tentei tirar a gaze do pacotinho e ele pegou das minhas mãos para fazê-lo. — Eu faço isso.
Cruzei os braços olhando fazer o curativo na pata do meu gato enquanto ele se remexia angustiado com a dor.
— Eu ouvi os garotos gritarem e vi eles encurralarem Gumball no beco da minha casa. Eu logo fui socorrê-lo, odeio que maltrate os animais e é estranho pensar que isso sempre acontece por aqui, principalmente por crianças! — Ela falava.
— Alguém que me entende! Obrigada Jesus! — levantei as mãos para os céus.
— Pronto amigão! — Ele pegou Gumball nos braços e o colocou delicadamente no chão. O gato agradeceu com um miado e foi andando ainda com dificuldade até a sala.
— Você trabalha? — Perguntei encostando-me no balcão.
— Eu abri uma padaria por aqui perto. Sempre quis ter meu próprio negócio. — Ele falou limpando as mãos na calça jeans. — E você?
— Sou designer gráfico. — Respondi.
— Olha, eu vou ter que voltar para casa. — Ele foi andando em direção para a porta. — A gente poderia sair qualquer dia desses, ou sei lá. — falou.
— Estou livre no domingo. — Sorri enquanto o acompanhava até a porta. A ideia de ter um encontro depois de tanto tempo era algo bom para mim. Preciso mesmo sair mais dessa casa.
— Te pego às nove?
— Pode ser.
— Até mais, . — ele acenou e eu retribui.
Fechei a porta com um sorriso nos lábios. Talvez ele não fosse se tornar nada além de um amigo ou só uma ficada. Talvez ele fosse se tornar um dos poucos caras que agüentaria ser meu namorado.
Olhei para frente e vi Gumball miar enquanto eu fitava sua pata machucada.
— Além de amigo para todas as horas, é cupido também? — Perguntei para ele enquanto me aproximava e abaixava a sua altura, pegando-o no colo. — Eu te amo, Gumball.
Meu gato respondeu com um miado e eu entendi aquilo como um “eu te amo também”.

 

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