Lithium

Escrito por Sunni | Revisada por Natashia Kitamura

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Lítio
substantivo masculino
Do grego lithos (pedra) + io
  1. Elemento químico (símbolo: Li), de número .atômico 3, metal branco leve e dúctil.
2. Elemento mineral que ocorre na natureza.
3. Utilizado para certas ligas, com aplicação na medicina.

PRÓLOGUE

  Esquecer sonhos faz parte da natureza humana. O cotidiano faz com que eles não tenham relevância para nossas vidas e por ora esquecemos o pequeno momento de descanso e deleite de nossas mentes; mas há aqueles que vão além, pesquisadores científicos, filósofos e afins procuram saber sobre os mínimos detalhes do grande enigma que é sonhar, e há aquela minoria - na qual eu queria acreditar que existe - que é como eu.

  Podia recordar-se da primeira experiência quando teve a primeira visão, seja lá como você queira chamar. Era um dia frio e havia uma neblina intensa ao seu redor; havia uma estrada ao longe de onde estava parada, ao que deveria ser uma floresta, se não fosse pelos troncos derrubados, foi então que o viu pela primeira vez. Tão pequeno quanto seu próprio frágil corpo, seus cabelos estavam bagunçados pelo vento e era tão negro quanto seus olhos. Decididamente, aquela imagem era a mais linda da qual se lembrava de ver em toda sua vida, tão rápido quanto sua miragem apareceu para si, a mesma se dissipou quando fora atacada por pássaros que voavam, parecendo um trem desgovernado.
  Mas o que...?
  Não houve tempo para pedir por ajuda, os mesmos se foram em direção ao céu, seguindo a mesma linha imaginária de onde ele estava, foi fração de segundos até que percebesse o carro vindo em alta velocidade, indo aonde o garoto permanecia parado sem reação - como se sua mente estivesse em outro lugar. Tão rápido quanto percebeu, correu em sua direção, ou melhor, tentou correr, mas não obteve sucesso algum. Algo prendia sua roupa no mesmo lugar; um cheiro de enxofre misturado com o de ferro do sangue humano atingiu seu nariz, fazendo com que sentisse um bolo formar em seu estômago, junto com o som de algo farejando e rosnando. Virou-se para trás rapidamente dando tempo apenas de ver as garras indo parar em suas costas, pronta para deixá-la em carne viva. Sua mente gritava 'perigo', mas não conseguia se mover ou produzir qualquer som que fosse. Antes que apagasse por completo, uma dor agonizante a atingiu e o único barulho e imagem que fixou em sua mente, foi o som do carro freando e seus ossos e os deles sendo esmigalhados como se fossem pó, como se não significassem nada.
  O sonho acabou tão perturbador quanto começou, mas a dor, por sua vez, continuou. E talvez agora fosse mais cruciante do que o que se passou.
  Depois daquilo não conseguia se lembrar de praticamente nada. Era como um borrão, embora soubesse que ele continuava em sua mente. Aquele apagão era como se parte da sua infância tivesse sido apagada e recomeçasse de novo, no mesmo momento de quando aquilo tudo iniciou.
  Sim. Às vezes aquela mesma memória a atormentava e já haviam-se passado quatorze anos desde que tivera seu primeiro sonho. Desde então, também era atormentada com outros piores que aquele e milagrosamente, às vezes, conseguia ter uma noite normal ou apenas flashes de momentos felizes. Aquilo que era o que gostava de chamar de zona de conforto; se tudo estivesse bem, ela estaria a salvo, do contrário, estaria suscetível a lidar com seu “problema”. Bem, não sabia ao certo como aquela coisa poderia se encaixar, ou se podia ao menos ser chamada de problema. Estaria tudo normal até aí.
  É. Não haveria nada em anormal naquilo, se seus sonhos não estivessem sendo do mesmo jeito que foram quando o viu no princípio de tudo.
  Relaxou seu corpo, sentindo sua mente esvaziar-se por completo para fora das lembranças e outra vez a dor a atingiu, seu ouvido doía por dentro como se tivesse levado uma pancada forte, tentou abrir seus olhos já que não conseguiria dormir outra vez, graças ao movimento estranho ao seu redor, e logo sua visão reclamou da claridade que atingia o local da onde estava.
  A brancura das paredes chegava a deixá-la cega como a luz do sol, quando costumava sair pelas manhãs para caminhar. A visão turva pelo excesso de iluminação, logo se acostumou, fazendo com que focasse em outros objetos de outras cores, como o casaco vermelho que vestia desde a semana passada ou a figura loira da médica à sua frente, que parecia esperar pacientemente com que acordasse; ela vestia um belo vestido preto por baixo do seu jaleco e ao seu lado esquerdo um cara idoso de jeans e camisa social branca a encarava como se esperasse que a garota, que mal havia acabado de acordar, o reconhecesse.
  Sullivan.
  Sentiu uma pontada no coração assim que conseguiu enxergar melhor seu rosto.
  Ele era o homem que havia cuidado dela desde pequena, o herói que tantas vezes a salvou de seus problemas, assim como o mesmo cara que havia posto um ponto final na sua vida. Ironias à parte e com uma pitada de humor negro, a garota sorriu como nunca havia sorrido antes para qualquer um que fosse daquele lugar.
  - À que devo a honra da sua vinda, Sr. Louis?
  O silêncio prevaleceu entre os dois adultos à sua frente. Não que também não fosse, mas no seu caso, ela era a neta louca, a paciente que não podia ser tocada.
  O velho a encarou curioso e depois seu olhar se dirigiu a médica loira, como quem se perguntava se estava tudo bem. A mesma sorriu num gesto afirmativo, um incentivo a prosseguir seja lá o que estivesse acontecendo ali.
  - Dra. Cameron me contou do seu progresso, . – a garota esboçou uma gargalhada e os dois a encararam como quem queria saber o motivo dela rir.
  - Desde quando você se importa com meu avanço, vovô?
  - Eu sempre me importei com você, . Eu e sua mãe sempre quisemos o seu melhor.
  - Não foi isso que pareceu quando vocês me colocaram aqui.
  - Você sabe bem que não tivemos escolha.
  - Há sempre uma escolha melhor do que fingir que alguém não existe mais. – Por um momento seu olhar pareceu carregar alguma surpresa e tristeza. Mas sabia que não era esse seu real sentimento.
  Sua expressão de desdém dizia claramente que não se importava e ela tinha suas dúvidas se algum dia em sua vida ele havia ligado para alguma coisa. Sabia que seria inútil tentar uma discussão com qualquer um que aparece ali, porém, não esperava que fosse receber uma visita depois de tanto tempo, ou talvez só estivesse esperando pela pessoa errada...
  Uma onda de tristeza a atingiu e ela se perguntou se ficaria bem.
  Algum dia ele teria de aparecer, não é? Algum dia ele teria que dar ouvidos a ela. Pelo menos era naquilo que acreditava veemente.
  Dra. Cameron observou-a pensativa, como quem analisava cada sentimento de sua expressão, como se pudesse deduzir o que sentia ou o que pensava. Sentiu um arrepio percorrer por toda a extensão do seu corpo. Não gostava daquele lugar, não queria estar ali, mas que escolha tinha?
  - Eu não diria que foi uma evolução.
  - Mas você disse que ela estava sendo medicada e que havia melhorado.
  - Sim, Sr. Sullivan, o que significa que enquanto ela estiver sedada, ajuda a controlar a situação, porém, não quer dizer que isso esteja causando melhoras em seu estado.
  Ah, os bons e velhos sedativos. Era disso que eles falavam. Ela gostava deles, a única coisa boa daquele lugar. Com eles não podia sentir a dor, mas também não impedia de ver o que não queria e não a impedia de ser o que ela era. A parte ruim de estar sendo sedada, na maior parte do tempo, é que não podia pensar com clareza, caso contrário, se pudesse já teria saído dali a muito tempo.
  - Eu pedi resultados a vocês.
  - Nós estamos dando.
  - Não, vocês não estão fazendo nada, foi você mesma quem acabou de dizer que não estão melhorando a situação dela.
  - Isso não quer dizer que não estamos dando o nosso melhor.
  - Melhor? – a garota sussurrou em tom de deboche.
  Se aquilo era o melhor que eles estavam dando, perguntava-se o que seria, para eles, o pior.
  - Bem, acredito que agora está na hora da sua dose diária. – a loira virou para encará-la como se tivesse ouvido o que disse.
  - Ah sim, a hora que vocês tentam me matar? Deve estar. – sorriu sarcasticamente.
  - Pelo que vejo você não mudou em nada. – o velho Louis fitou-a com seus olhos azuis contrastando com seus castanhos, e a imensidão azulada dele fazia crer que podia se afogar neles. Não via nenhum pingo de misericórdia ou arrependimento. Apenas alguém que não conhecia. Alguém que negava dizer que era seu avô. – Talvez seja melhor aplicar outras medidas de tratamento, Cameron.
  O tom de voz dele fez com sentisse uma dor no íntimo do seu ser. Ela sabia bem do que ele estava falando, sabia bem qual era o tratamento alternativo que ele se referia, sabia que talvez não lhe restasse tanto tempo quanto queria que tivesse. Foi aí então que seu ego gritou dentro dela e, junto com ele, a raiva apoderou-se de si.
  O ataque de histeria que deveria ser silencioso saiu mais alto do que pensava pelas suas cordas vocais em um som alto claro e ensurdecedor. Ela queria gritar pelo seu nome, queria que ele fizesse com ela o que ninguém mais conseguia.
  Queria ser salva, queria ser salva por ele. Mas não podia, talvez estivesse enlouquecendo ou já estava louca muito antes, ou a espera estivesse a deixando assim.
  Seus braços se debateram em fúria e logo a porta branca explodiu com um ataque de três outros médicos fortes o suficiente para deixá-la saber que não conseguiria nada, mesmo se tentasse fugir, eles agarraram seus braços e suas pernas com tanta força que provavelmente deixaria marcas por longos dias.
  - Eu odeio você. – seus olhos fitavam o de seu avô.
  Se tivesse uma arma naquele momento ela gostaria de poder atirar nele.
  Em todos eles.
  A picada de agulha em sua pele fez com que uma onda de tontura a atingisse. Seu corpo amoleceu tão rápido que não foi capaz mais de sustentar o olhar daquele homem; ela sabia o que veria a seguir e talvez com sorte o encontrasse.
  Aconteceu, porém, o que viu não era aquilo que esperava.
  Antes que seus olhos e seus sentidos apagassem por completo, outro grito, dessa vez não audível, saiu por sua garganta.
  Não havia mais tempo.

1
War

  Algumas coisas na sua vida irão ser como nuvens nebulosas, como um céu lívido ou simplesmente como uma tempestade e bem, a intensidade das coisas dirá a você exatamente como o destino quer que você vá mesmo que isso signifique ir a duzentos ou a vinte por hora. Naquele momento o acaso queria que a sua história fosse um pouco mais radical do que a velocidade permitida na estrada da vida e por esse motivo sua cabeça parecia estar sendo moída por um trator que esmigalhava seus pensamentos fazendo de seus sonhos os mais cruéis pesadelos.
  Ela queria pensar que tudo estava terminado.
  O ônibus continuava em movimento.
  As pessoas conversavam entre si e, do seu lado, seu companheiro de viagem parecia entretido com um mangá de Elfen Lied¹. Uma boa escolha para se passar o tempo, ela pensava. No seu ouvido uma música qualquer tocava na rádio enquanto, em sua mente, a trilha sonora da viagem era algo diferente de tudo que já tinha ouvido na vida: um som muito mais cruel e sádico do que realmente parecia, como seus pensamentos, que emanavam uma insanidade incomum ao que quer que aquele momento estivesse passando na cabeça das pessoas ali.
  Se aquilo estava só no começo, não queria pensar no que seria o fim ou o que ele iria significar, pois duvidava que sua sanidade fosse poupada em meio ao caos.
  Uma freada inesperada fez com seu corpo caísse para frente do banco e, como em um estalo, abriu os olhos assustada igual a quando se lembrava de algo que havia se esquecido; poderia, então, ter perdido algo em casa? Sua mochila pesava em suas pernas e o cheiro de Juk² ainda subia em suas narinas, mesmo após algum tempo estando fechado em sua bolsa; esperava que quando chegasse ao hospital o mesmo estivesse tão quente e saboroso quanto parecia. Sua cabeça rodava devido à enxurrada de pensamentos. Estava exausta de estar sentada durante tanto tempo e procurava achar uma posição confortável em seu banco, quando o garoto ao seu lado pareceu perceber sua presença e o mostrou-se incomodado com sua inquietação.
  O que poderia fazer se não conseguia se sentir tão confortável quanto ele? Que culpa tinha de ter uma mente tão cheia de coisas?
  Seu estômago roncou de fome.
  Queria abrir o recipiente com Juk e tomar ali mesmo. Quem sabe se sentisse mais revigorada, porém, o cheiro de comida poderia incomodar os passageiros. Ainda que não ligasse muito para isso, sua consciência sabia que tinha que esperar um pouco mais. Faltava pouco para chegar ao seu destino e, mesmo que a vontade fosse grande, ela ainda queria ver o olhar de cuidado e carinho que esperou a semana inteira para ver.
  Tentou dissipar os pensamentos ruins da mente. Será que se repetisse um mantra interno ele ajudaria a tirar as imagens do sonho da noite anterior? Duvidava daquilo. Em sua mente as cenas iam e vinha, ela via o sangue, o carro, o grito desesperado por socorro. Era o mesmo sonho de anos atrás, mas agora numa intensidade diferente do que se lembrava, podia dizer que era quase como se estivesse ligada, fazendo-a sentir como se fosse com ela. Logo em seguida mudava o padrão e podia ver numa outra perspectiva, como se estivesse num outro lugar, as pessoas morrendo. O pior não era a visão estarrecedora, mas sim ver aquilo sendo causado pelas próprias mãos e sentir a onda de prazer inundar o seu corpo.
  Que diacho estava acontecendo com sua mente e consigo mesmo?
  Antes que pudesse pensar em alguma coisa o ônibus freou, levando-a cair novamente para frente avisando que havia chegado a seu destino. Esperou pacientemente que o cara se levantasse de seu assento ou que pelo menos parasse de ler seu mangá³ e percebesse que aquela parada era sua deixa.
  - Com licença? – Sua voz saiu num nível mais alto do que pensava e o menino parou finalmente para olhá-la. – Preciso descer.
  Não precisou de muito para que entendesse o recado.
  Finalmente, ela pensou.
  Devia comprar alguma das edições de Elfen Lied? Poderia ser tão bom assim a ponto de desligar do mundo? Fosse ou não fosse, queria tentar sair mesmo que por algumas horas do seu planeta alternativo e construir um novo.
  Suspirou fundo numa tentativa de aliviar seu desconforto.
  Encarar a realidade nunca foi tão difícil quanto era naquele momento. Estava na hora de enfrentar um dos maiores dilemas da sua vida.
  A construção do hospital St. August parecia um daqueles hospitais de primeiro mundo, moderno como se fosse uma empresa fundada pela elite, mas ao andar lá dentro, a branquidão contrastada com a cor verde água causava ânsia de vomito em si e as alas tão bem fechadas dos quartos e consultórios lembravam-na dos sanatórios de filme de terror. Ir ali era como enfrentar seu corpo inteiro se rebelando. Tinha fobia de qualquer lugar como aquele desde que se entendia por gente, mas lutava toda semana para entrar ali, mesmo que isso significasse colocar tudo para fora quando saísse.
  Ela fazia isso por ele. Pelo seu pai.
  Suas mãos começaram a suar frio e a tremer antes mesmo de entrar. Não havia como voltar trás mesmo se quisesse, hoje era um dia especial.
  Olhou para a mochila em seus braços e a jogou no chão, se sentando na entrada. Tinha que se recompor antes de entrar, odiaria mostrar sua fraqueza para o velho Young e saber que não havia superado seu problema como dissera na última vez que o viu. Deu outro longo suspiro e retirou da bolsa um comprimido, engolindo em seco e se pondo em pé, passando a fitar a entrada.
  Aquele era o momento mais difícil do dia. Ver seu pai debilitado e sem o mesmo brilho no olhar, como se lembrava na sua infância, a corroía por dentro.

***

  - Você continua linda como sempre, .
  - Não minta para mim, papai. – ela continuou a sorrir ainda fascinada com o semblante alegre de seu pai desde que entrou pela porta de seu quarto.
  Graças a isso podia esquecer os motivos de sua dor de cabeça mesmo que fosse por pouco tempo.
  - Você sabe que não.
  - E você também sabe que é a obrigação dos pais dizerem isso. – respondeu indo em sua direção.
  Estava parada em frente à janela olhando o movimento das ruas, esperando o momento certo para contar a verdade para seu pai. Deveria ser tão difícil assim falar como estava sendo para ela? Agora, de frente para ele, pode observá-lo melhor do que pelo seu reflexo no vidro: via suas expressões, seus olhos pequenos e escuros, o formato do seu rosto magro e as olheiras que formavam abaixo de seus olhos. Parecia que ele não dormia dias ou que estava cansado demais do tratamento.
  - Como você está?
  - Do mesmo jeito de sempre, minha querida. Fale-me de você. Como você está? Sua mãe tem te dado muita dor de cabeça?
  - Estou bem. – olhou-o nos olhos a fim de sustentar a mentira. – Está tudo bem.
  - E seus sonhos? Tem parado? E sua fobia, você conseguiu superar? Você está suando, .
  - Quantas perguntas de uma só vez. – riu da maneira afobada do pai. - Sim, não tenho mais nenhum problema. Não se preocupe, é só o calor.
  Mais uma mentira.
  Sentia-se mal por isso, mas era preciso. Percebeu depois de um tempo sua gafe. Lá fora estava frio demais para que sentisse calor. Com certeza ele havia percebido algo de errado. Ele podia estar doente, mas não estava com sua mente comprometida para não notar, provavelmente preferiu ignorar. Agradeceu mentalmente a ele por isso.
  Seu pai sabia sobre os seus sonhos e foi a única pessoa à quem foi capaz de contar aquilo. Ele dizia que não havia o que temer, que cedo ou tarde eles parariam e que talvez fosse apenas um bom presságio. Queria poder ter essa mesma confiança. Sr. Young também dizia que podia ser um trauma de infância, mas não se lembrava de nada parecido.
  Nunca tinha visto aquele rosto antes, ela tinha certeza.
  Quem sabe não fosse melhor deixar tudo como estava. Quem sabe fosse melhor não contar nada daquilo que acontecerá consigo mesmo naquela semana. Mas havia outra coisa que precisava falar com ele. Algo que precisava ter coragem para enfrentar e fazê-lo acreditar naquela realidade, embora ela mesma não acreditasse.
  - Tem certeza, ? – sua testa formou algumas rugas de preocupação e ela parou de encarar seus olhos escuros antes que eles denunciassem algo. Olhou para suas mãos e percebeu que elas tremiam e estavam encharcadas.
  Não podia sair dali sem dizer o que precisava falar.
  Antes que o pior acontecesse, puxou a cadeira de visitante para perto de seu pai junto com a pequena mesa apropriada para os pacientes comerem e em movimentos ágeis, tirou de sua bolsa o caldo que estava na garrafa térmica. Seu pai observava seus movimentos e parecia encarar sua mão que tremia durante o processo enquanto despejava o conteúdo do caldo na tampa da garrafa, forçando um sorriso para ele:
  - Não se preocupe comigo. Eu fiz esse caldo de Juk para você, sei que é seu favorito e vai te ajudar a recobrar as forças. A sua enfermeira ligou em casa dizendo que talvez fosse bom você comer algo de casa para fortalecer seu sistema imunológico.
  - Oh. – ele levou a tampa até sua boca provando e encarando-a como se esperasse que algo acontecesse. – Está delicioso, . Sempre soube que quando você crescesse, se tornaria uma ótima cozinheira.
  - Espero que esteja igual o da vovó.
  - Não poderia estar melhor. – o velho sorriu cansado e colocou o restante da sopa para que ele pudesse beber.
  - Sério mesmo?
  - Sim. Sua mãe não tem feito muitas comidas iguais da vovó, não é?
  - Não. – admiti.
  - Ela costumava fazer bem, não ficava tão parecido quanto o seu, mas era bom relembrar da comida do meu país.
  - Eu lembro que você me contava as histórias de lá. – segurou suas próprias mãos instaladas em suas pernas, pareciam ter parado de tremer, mas o suor ainda era um incômodo.
  Tinha pouco tempo até que o remédio perdesse o efeito e sua síndrome voltasse. Esperava que isso não acontecesse enquanto estivesse ali.
  - Você deveria visitar a capital, Seul. Talvez você gostasse da cultura de lá.
  - Quem sabe, pai...
  O silêncio prevaleceu entre os dois. Não queria quebrar ele falando de coisas desagradáveis, mas não sabia quanto mais poderia aguentar até que precisasse ir. Havia também o fato de não querer desafiar seu próprio corpo, fazendo com que sua farsa fosse revelada e por fim interrompendo suas visitas no hospital. Se ela não fosse mais ali, quem iria? Quem iria levar a sopa de Juk para ele? Duvidava muito que sua mãe fizesse algo. Duvidava que qualquer pessoa pudesse cuidar de seu pai como ela cuidava.
Passou a observá-lo mais atentamente, como se cada segundo fosse precioso, porque para si era. O bom velho parecia estar perdido em suas memórias. Talvez estivesse se lembrando do país que nasceu. Sua avó era asiática e seu pai era uma mistura dela com seu avô que havia nascido na Europa, em Londres, onde residiam atualmente. Young havia crescido na capital da Coréia, Seul, antes de se mudar permanentemente para Londres e conhecer sua mãe Sullivan.
  - Você irá embora? – ele finalmente quebrou o silêncio.
  - Não.
  - Então por que me olha como se fosse se despedir? – questionou-a.
  Não havia o que responder a não ser a realidade nua e crua, ou diria mais uma mentira?
  Suas mãos voltaram a tremer inquietas, o tempo estava se esgotando.
  - Pai, eu preciso ser clara antes que perca a coragem.
  - Seja.
  - quer que eu me mude daqui.
  - De Londres, ? – ele pareceu surpreso. Eu também fiquei. papai, ela quis dizer.
  - Ela quer que eu termine o ensino médio nos Estados Unidos.
   - Se ela optou por isso, então vá, minha filha.
  - Você sabe que não é tão fácil, pai. – reclamou sentindo o suor frio passar pelo seu pescoço.
  - Não se sinta culpada. Eu estarei bem aqui, você sabe que tenho seu tio para me ajudar.
  - Mas você, mais do ninguém, sabe que não vai ser mais a mesma coisa estando sob os cuidados do tio Phil.
  - , meu amor, eu sei disso. Seu tio não pode vir toda semana como você faz, mas é por um bom motivo. Ele está cuidado da nossa empresa e eu também apoio sua mãe.
  - Você apoia a ideia dela me levar para longe do senhor? – uma onda de indignação a atingiu. Para ela seu pai era o único que podia mudar aquela situação, se não fosse ele, então quem iria?
  - Não, . Eu apoio você se formar, cuidar da nossa empresa... Você, mais do que ninguém além do seu tio, pode cuidar dos negócios da família.
  Era agora que diria a sua realidade? Pensou.
  - Eu não sei se sou capaz.
  - Acredite, você é. Você já superou seu trauma, . – um sorriso sincero formou em seus lábios e sentiu tudo rodar ao seu redor.
  E você não sabe do que aquela mulher é capaz, pai. Você não sabe que sua esposa te trai, não sabe que estou perdendo os sentidos do controle do meu próprio corpo, não sabe que não sou capaz de ter meus próprios sonhos. O que estou tentando dizer, pai, é que não há esperanças mais para mim e que talvez eu perca minha sanidade. Quem sabe o que irei me tornar? Eu não sei, mas queria ser capaz de responder as suas perguntas sem mentir e dizer a verdade sem me preocupar com as consequências. Mas não sou.
  Não sou capaz.

  Era tudo o que ela queria dizer a ele, mas não conseguia. Naquele momento devia lutar contra tudo, queria realizar os sonhos de seu pai, mas sabia que mais dia, menos dia, esquecer-se-ia de seus próprios projetos porque era isso o que estava acontecendo. Quando foi que ficou tão distante da realidade? Quando foi que parou de lutar?
  - Vai ser bom para você, quem sabe você não encontra as respostas que você precisa, minha filha. – ele continuou a dizer como se soubesse do que se passava em sua mente, da confusão dentro de si mesma.
  Talvez ele estivesse certo. Talvez encontrasse as respostas do que precisava, embora nem mesmo conseguisse saber quais eram as perguntas e por onde deveria começar, apenas sabia que estava cansada de tudo aquilo.
  Se ele podia a atormentar, ela também poderia ignorar, já havia mudado muito a si mesma por causa de todas as suas escolhas. Agora não tinha mais como voltar atrás, mas dessa vez poderia mudar seu futuro, não deixaria mais aquilo a mercê do que quer que esteja acontecendo em sua vida. Iria mudar aquele jogo. Iria lutar pelo seu pai e por si mesma.
  - Você tem razão, pai. Talvez seja hora de buscar algumas respostas.
  - Não é mesmo? Não se esqueça do seu pai.
  - Irei voltar, eu prometo.
  - Estarei esperando.
  - Espero que o senhor mantenha a dieta e se cuide, irei falar com o tio Phil e...
  Antes que pudesse terminar de falar, as lágrimas rolaram em sua face e abraçou as mãos de seu pai ,apoiando sua cabeça na cama.
  - ...?
  - Eu... Eu não posso ir.
  - Vai ficar tudo bem, minha princesa.
  Sua cabeça rodou de novo. Sentiu suas mãos ficarem mais trêmulas e o gosto de bile parar em sua garganta. Estava acontecendo de novo. Aqui não, por favor, pedia inconscientemente. Podia sentir sua testa encharcada de suor e seu coração acelerado com nunca. Era difícil respirar e fingir que estava bem, mas naquela altura do campeonato sabia que seu pai já havia percebido a situação.
  - ...? Você está tremendo!
  Fechou os olhos numa tentativa de melhor a situação, mas o efeito foi ao contrário. Uma enxurrada de imagens da visão naquela manhã a invadiu e a sensação de colocar tudo para fora aumentou mais ainda.
  - ! – seu pai a chacoalhava esperando alguma resposta, mas não era capaz de responder qualquer coisa que fosse. Sua garganta estava começando a se fechar, precisava sair de lá antes que fosse tarde demais, mas duvidava que conseguisse andar até a porta de saída.
  Levantou seu corpo com dificuldade e apoiou-se na cadeira percebendo que sua visão estava turva. A imagem do homem que amava estava embaçada, como se fosse desmaiar a qualquer momento, e em seu rosto parecia transparecer pânico. Ele parecia gritar alguma coisa, mas não era mais capaz de compreender.
  Com uma das mãos arrastou sua mochila para perto, precisava de seu remédio. Precisava parar aquilo antes que fosse pior e quando conseguisse, diria que passou mal por causa do café da manhã.
  De novo diria mais uma mentira.
  Porém, era preciso poupar e amenizar a dor que seu pai sentia.
  Algumas vezes é preciso mentir para salvar alguém que amamos e ela, sem sombra de dúvida, faria isso quantas vezes fosse preciso para ver o sorriso que a fazia lembrar de sua infância.
  Podia quase que sentir o cheiro do bolo de cenoura que seu pai fazia, da terra molhada do parquinho e ouvir as risadas que eles mesmos soltavam quando se divertiam no balanço. Ela queria aquelas sensações de volta.
  Finalmente alcançou o bolso onde estava o remédio, mas antes mesmo que pudesse colocar na boca, um par de braços a agarrou com força e gritava alguma coisa que não podia distinguir, sua visão focou momentaneamente e quando conseguiu enxergar algo, viu os olhos da pessoa que a segurava. Um arrepio percorreu seu corpo inteiro imediatamente, uma onda estranha emanava de seu corpo e dizia alguma coisa para si, mas não conseguia entender o que era.
  E então finalmente entendeu o que estava acontecendo.
  A guerra estava começando.
  Eram os olhos dele.


Elfen Lied - Popular série de mangá criada por Lynn Okamoto e sua adaptação em anime dirigida por Mamoru Kanbe. Ambos os formatos são sobre a espécie diclonius, uma mutação do ser humano com chifres, e sua relação violenta com o resto da humanidade.

Juk¹ -  Prato coreano também conhecido como canja ou mingau de arroz, leve para o estômago, e altamente nutritivo, considerada uma comida ideal para pessoas que estão doentes ou pessoas que vivem muito ocupadas, pois é uma ótima comida é rápida.

Mangá² - palavra usada para designar história em quadrinhos feita no estilo japonês.

St. August³ – Hospital fictício criado para a história.

In My Remains

  Alguns flocos de neve caíram em suas mãos tão frias como o gelo. Na sua frente, o mar quebrantava em ondas furiosas como se pudessem alcançá-la, fazendo a lembrar por um breve momento do que era a sua vida. Em seu rosto as lágrimas desciam da mesma forma. Era como um pequeno ciclo. A escuridão da noite junto com o frio fazia com que se encolhesse, apertando os seus braços com as mãos, agindo como se fosse um pequeno caracol. Seu corpo estava deitado sob a areia sem se importar se lhe traria algum resfriado ou dores nas costas, na verdade para ela nada mais a importava mais que a sua paz interior. Estava ali para sentir isso.
  Paz.
  Era isso que realmente queria, não era?
  Despreocupada com tudo, fechou seus olhos sentindo sobre seu corpo a areia e os flocos de neve que caíam. Era uma sensação boa, quase como estar em um paraíso particular, fazia tempo que não se sentia tão bem como se sentia agora.
  Dizem que tudo o que é bom dura pouco.
  Era verdade.
  Aquela singela alegria que sentia estava prestes a acabar.
  O ruído de helicópteros a atingiu como um estalo para a realidade ao seu redor, seu estado de torpor se transformou em alerta e tão logo quanto encarou na direção da onde vinha o barulho um arrepio tomou conta de si subindo dos pés à cabeça. Exatamente como um mau presságio.
  Levantou-se encarando ainda o alto e viu uma corda pendurada como se estivesse flutuando no céu, aquele era o meio que eles estavam usando para descer. Eles eram soldados fardados e como se tivessem uma guerra: em suas mãos carregavam armas de fogo enquanto seus rostos estavam cobertos por um capacete escuro. Outros helicópteros surgiram sob o céu, talvez maiores que aquele, e deles mais homens desciam e todos caminhavam em sua direção, todos prontos para matá-la.
  O que está acontecendo? Ela se perguntava.
  Queria fugir a qualquer custo, queria gritar de desespero, mas nada saía de sua garganta, suas pernas não se moviam do lugar e em sua mente a única coisa lhe era clara: iria morrer sem a chance de conhecer o que era viver em mundo onde poderia ter controle das suas decisões, sem terceiros impedindo de ir por onde queria e fazer o que tinha vontade. Sua vida passou como um filme em sua cabeça e tinha certeza que não tinha vivido metade do que gostaria de viver. Mas, talvez, aquela era a melhor opção naquele momento e quem sabe iria impedir mais sofrimento.
  Sua mente estava conturbada com a cena à sua frente, pois sabia que não teria a menor chance de lutar contra. Não possuía armas, não possuía nada que pudesse impedir sua morte e duvidava também que dentro de si ainda houvesse o desejo de relutar contra isso.
  O barulho das armas sendo carregadas a assustou.
  Era o momento final.
  - Não atirem! – alguém gritou ao longe.
  Um dos soldados começou a andar em sua direção, o mesmo que gritara antes, e parou não muito distante de si parecendo encará-la. Em sua mente pensava se ele esperava um pedido de misericórdia de sua parte, mas tudo o que ele conseguiu arrancar dela era o medo que transparecia em seus olhos.
  Num ato paralelo ao que a garota pensava o soldado, Peter Graham se preparava para um ataque a qualquer momento; seu chefe havia dito o quanto poderia ser perigoso, mas ele não se importava com o que poderia acontecer. Queria apenas sentir o sabor de uma guerra vencida e ver com seus próprios olhos o sangue sendo derramado, esse era um dos motivos que o fizera escolher a carreira de fuzileiro.
  Estava à frente do seu pessoal apenas por inquisição do seu superior, do contrário, não seria idiota de ficar ali sujeito a ser atacado. “A Coisa”, segundo seus superiores, poderia acabar com eles a qualquer momento se estivessem perto o suficiente dela. Era óbvio que era arriscado demais, mas talvez ela não atacasse de primeira. Seu estado emocional parecia fragilizado o suficiente para que isso não acontecesse.
  Quando finalmente achou que conseguiria gritar, o que saiu foi apenas uma enxurrada de lágrimas. As mãos pesadas daquele homem se apossaram de seus braços, a empurrando. Os homens parados na sua frente diziam algo, mas ela não conseguia processar nada porque sua mente gritava pedindo socorro.
  Um pedido, uma súplica, uma oração ao desconhecido.
  Apenas dessa vez, salve-me.
  E então ele apareceu como se tivessem escutado sua petição. Seu coração pulou como se fosse sair pela boca. Seus olhos escuros tinham um brilho incomum e suas vestes eram brancas exatamente como se tivesse saído de outro mundo, um em que sofrimento e dor não existiam, onde a maldade não existia, onde provavelmente ela também não existiria. O vento do inverno bagunçava seus cabelos e seus braços se movimentavam conforme andava em sua direção, era quase como se aquela multidão não estivesse ali, era como se por um segundo realmente tivesse ido dessa para melhor.
  Questionou-se o quanto poderia ser real e o quanto poderia ser mais uma alucinação causada por sua mente. Definitivamente sua imagem era real demais para que fosse apenas uma imaginação. Ela conseguia ver seus ombros largos se movimentar, conseguia perceber algumas marcas de espinhas causadas pela puberdade e quando ele se aproximou mais de si e parou entre ela e aquele homem que encarava como se tivesse encontrado seu objeto de diversão, pode sentir sua respiração compassada e pesada sobre seu rosto.
  Estávamos tão próximos.
  Suas mãos estenderam no ar, um pedido silencioso para que a pegasse, mas não foi o que fez. Sua mente vagava longe dali. Ela andava sob os destroços do que era seu eu, procurando por uma mensagem entre o medo e a dor como se esperasse por algo que dissesse que estava viva, viva o suficiente para que não fosse um delírio.
  Se eu pegasse em suas mãos, eu ficaria bem?
  Para quem poderia ser morta a qualquer momento, talvez o mais seguro fosse arriscar. Era pegar ou largar. Não existiam mais escolhas para ela. E foi pensando nisso que as pontas dos seus dedos alcançaram as suas, podendo sentir o calor que emanava de seu corpo, tão quente que ele não poderia estar em um lugar como aquele tão frio, tão quente que podia sentir ondas de calafrio por seu corpo como um choque térmico. Um sentimento de segurança veio sobre si, mas tão rápido quanto veio se dissipou.
  Seus cabelos que iam à altura dos ombros foram puxados para baixo com uma brutalidade que parecia que aquele homem, cuja identidade desconhecia, ia arrancá-los à força; sua cabeça tombou para baixo e o grito mais uma vez entalou na sua garganta. Seu corpo foi arrastado para longe dali enquanto sentia seu corpo sendo maltratado como saco de pancadas, como se não pudesse sentir nada. Como se não fosse humana.
  A dor que invadia cada célula dela era complexa demais para que aqueles homens entendessem. As lágrimas pesadas caíam sobre sua face enquanto seus olhos procuravam seu salvador, mas ele já não estava ali, havia somente soldados que riam de sua cara.
  Mais lágrimas vieram.
  Novamente sua mente a havia enganado. Novamente havia se perdido em suas ilusões. Promessas que nunca se concretizariam e, mesmo que quebrasse o silêncio, jamais poderiam levar o pior de si.
  As mãos pesadas a seguravam com uma força que a machucava, sua pele reclamava e seu ego também. Sua alma parecia estar se separando exatamente como o Yin Yang, se despedaçando em dois. Destroços que a impedia de se concentrar no que acontecia ao seu redor.
  O seu equilíbrio já não existia mais.
  Um blackout5 tomou conta de seu corpo e do seu ser. As lembranças ruins pareciam ter se dissipado por um breve período tempo, mas tão logo quando a alma volta para seu corpo o choque da realidade a atingiu quando despertou.
  Havia sangue em suas mãos. Havia corpos para todo o canto.
  Dizem que uma mulher de coração partido ou maltratada pode ser muito mais perigosa do que uma em seu estado normal. Pela primeira vez na sua vida havia compreendido aquela frase.
  Não.
  Não!

  Seus olhos vagaram pelo lugar, parecia uma espécie de depósito cheio de caixas empilhadas espalhadas aleatoriamente. Havia uma cerca com tela de proteção que demarcava o lugar, mas essa tela estava completamente rasgada com pedaços grudados na qual preferia não deduzir o que era. Mas, o mais amedrontador era ver as fardas machadas e os pedaços de membros do corpo espalhados.
  O seu estômago se revirou completamente com aquela cena, não queria saber o que tinha acontecido, muito menos consigo mesma, mas seu corpo cheio de sangue e suas roupas rasgadas lhe acusavam, ao mesmo tempo em que se sentia violada e usada. Sua mente poderia não se lembrar do aconteceu, mas jamais esquecia tão cedo disso.
  Sufocada por tanta coisa, correu para longe dali como se sua vida dependesse disso. Porque dependia.
  Ela precisava daquilo, ela precisava se sentir livre. Se sentir em paz, mas tinha consciência de que tão cedo não a encontraria outra vez porque uma voz a acusava a cada segundo.
  Não podia ser culpada. Não poderia ter feito isso.
  Você não é um monstro.   Os pés descalços alçaram a areia, o lugar onde achava ser o seu paraíso e pela primeira vez o silêncio e o local a sufocou.
  Você não é um monstro.
  Precisava sair dali, precisava sair antes que alguém a encontrasse.
  Não! Você não é...
  - !
  Seus ouvidos ignoravam a tudo e ela também ignoraria a tudo. Porque não suportava mais.
  Não!
  - . – a voz no meio do nada pareceu mais clara.
  Com o coração descompassado pela adrenalina, seus pés pararam, ainda sentindo areia sobre os mesmos. O lugar estava vazio. Não havia soldados. Não havia porque todos estavam mortos.
  Ela havia matado todos. Havia matado sua dor. - Um sorriso irônico escapou de seus lábios.
  Queria sair dali, não queria estar a onde havia sido palco de tantas coisas ruins.
  Fechou seus olhos ainda escutando a voz chama-la. Não queria mais ouvir nada, mas cada vez seu nome pronunciado era cada vez mais claro. Quando finalmente abriu-os, um corredor branco cheio de luzes fluorescentes apareceu com o chão marcado por um rastro de sangue. Ao seu redor um grupo de enfermeiros e enfermeiras a encaravam como se soubesse de todos os seus pecados, como se estivesse apreensivos.
  Como se fosse matá-los.
  E então percebeu o que estava acontecendo, ou quase.
  Suas mãos começaram a tremer e ela podia sentir que algo escorria da mesma, estava desnorteada e assustada, mas o mais assustador depois foi ver o que seus olhos passaram a enxergar.
  Os braços e mãos estavam encharcados de sangue e sua roupa se consistia numa camisola de hospital esverdeada manchada pelo líquido vermelho, enquanto em suas mãos estava um caco afiado de vidro na qual deixara cair pelo choque.
  O que havia feito?   Mais lágrimas pesadas como uma cascata vieram sem aviso prévio e o mesmo sentimento de ser violada sobreveio novamente.
  Aquilo foi real?
  O cheiro de ferro e do lugar a deixou zonza. Seu corpo cambaleou para trás e foi amparado pelo grupo de enfermeiros que ainda a observavam.
  Fechou os olhos novamente e se deixou levar sem se importar para onde estavam conduzindo-a
  Só queria esquecer.

***

  Cansado. Triste.
  Esse era o semblante do seu pai, a primeira pessoa que viu quando acordou. Não sabia por quantas horas havia apagado por completo desde que deixou ser levada, também não sabia o que tinha acontecido no período de tempo que havia desmaiado no meio da visita para o pai até o momento que se deu conta que estava no corredor do hospital, ensanguentada e provavelmente sendo tido como uma louca pela enfermaria.
  Para ela o pior era ver o rosto da pessoa que amava naquele estado. Seus olhos pareciam estar inchados exatamente como se tivesse chorado.
  Era claro que ele havia chorado, porque ele com certeza agora haviam descoberto sua mentira e, consequentemente, graças a o que quer tivesse acontecido antes, sabia que provavelmente não era a filha normal que cuidaria da empresa da família quando fosse maior de idade, não era a filha que ele queria que ela fosse.
  - Me perdoe.
  Não houve respostas.
  - Por favor, me perdoe. – suplicou.
  Novamente sem respostas e outra vez se pôs a chorar.
  O silêncio de fato era a pior resposta que poderia lhe dar, qualquer arma que tivesse sido atirada em seu peito doeria menos que o silêncio de seu pai. Poderia aguentar tudo menos isso.
  - Eu sei que você merecesse respostas. Mas eu realmente não as tenho pai...
  - Se você não tem, eu também não posso fazer muita coisa. – sua voz era como um calmante depois de toda aquela tempestade. Ouvi-la geralmente significava que tudo estava bem outra vez, mas dessa vez a tonalidade que ele usava dizia exatamente o contrário. Queria levar um sermão, queria que ele brigasse com ela, mas sabia que ele não o faria.
  - O que... - precisava perguntar, mas não sabia se estava pronta para ouvir.
  - Diga.
  - O que aconteceu?
  - Você não se lembra?
  - Não. – admitiu.
  - Você tentou se matar, .
  - Com... - Sua voz parou no meio do caminho.
  Havia tentado se matar? Era isso mesmo?
  Sentiu vontade de rir, mas se o fizesse sabia bem que não seria bem interpretado o que de fato fazia sentido. Guardou o sorriso para si, afinal, havia sido só um pesadelo, não é mesmo?
  Era só um pesadelo.
  - Como? – perguntou se contendo.
  Por mais que isso respondesse parte de suas perguntas, ainda não era o suficiente porque agora ela precisava de muito mais para entender o que havia acontecido para chegar ao ponto de ter tentado suicídio enquanto não estava em seus sentidos normais.
  Sabia apenas uma coisa, jamais tentaria tal coisa outra vez, mesmo que não pudesse prever, faria de tudo para que não acontecesse.
  Não ali, não com seu pai naquele estado.
  - Você não se lembra? – ele pareceu preocupado.
  - Não.
  - Tudo bem. – ele deu um longo suspiro. – Você apagou no meu quarto, acredito que pela sua fobia não é mesmo?
  - Sim.
  - Eu achei que havia superado.
  - Estava sobre controle.
  - Por que... Por que fez isso?
  - Você me impediria de vir aqui. – sorriu melancólica.
  Não ouve respostas.
  - O que aconteceu depois?
  - Um enfermeiro veio aqui e a socorreu, expliquei a ele o teu caso.
  Enfermeiro?
  Um flashback de antes inundou sua mente. Os olhos negros fixos a encarando surgiu em meio às lembranças. Ela ainda podia sentir o arrepio que lhe causava.
  Ele estava ali.   Um sentimento novo surgiu em seu coração. Esperança. Teve vontade de procurar por ele, mas ainda não podia ceder aos seus impulsos porque ainda precisava de respostas. E dessa vez a do seu pai.
  - Continue. – pediu.
  - Eles transferiram você para outro quarto e pedi que me levassem lá. Você estava deitada tomando os medicamentos, não haviam colocado sedativos e não entendiam o porquê de você estar apagada por tanto tempo. Eu estava preocupado, mas também estava cansado por causa do tratamento. E então eu cochilei.
  - Você estava lá quando aconteceu? – perguntou.
  - Sim. Eu acordei com o barulho de algo se quebrando e vi que você não estava na cama, eu queria sair da cadeira de rodas e correr, procurar por você por todo canto, mas quando eu virei para trás você estava ali toda ensanguentada com um caco de vidro sujo de sangue nas mãos e eu não podia fazer absolutamente nada para te parar por causa do meu corpo debilitado. – as lágrimas caíram dos olhos de Young. – Eu não pude fazer nada ...
  Seu coração se quebrou.
  - Desculpe. – sussurrou.
  - Eu queria ter acordado antes e te impedido, mas você havia quebrado o espelho do quarto, havia pedaços deles por todo lado. Eles disseram que era perigoso ficar com você.   – riu nervosamente. – E eu tentei dizer a eles que estava tudo bem, que minha filha...
  - Desculpe.
  Sua voz não saía mais e seu pai não a ouvia, estava inerte numa cena que não queria ter presenciado. Para ele era demais para que pudesse suportar, porque não podia e não queria apensar na ideia de perder sua menininha daquela forma. era o seu bem precioso e ele a protegeria de todo mal, essa havia sido sua promessa quando viu seu rosto pela primeira vez, mas agora...
  Agora, se sentia um homem indefeso diante daquela ocasião, sentia que estava distante da filha porque não a entendia mais como achava que conhecia. Para , isto era irreparável como pai.
  Como não percebi que minha filha não estava bem?
  - Eu tentei dizer a eles que você não era assim. Que você não era uma suicida. Por que você fez isso, ? – seus olhos estavam cheio de lágrimas. – Eu não suportaria te perder assim, mas o que mais dói foi perceber, depois disso, que eu não a conheço como achei que sabia sobre você antes. Perguntaram-me se você tinha motivo para fazer aquilo e eu nem sequer soube responder, eu não sabia se você estava infeliz ou não porque reconheço que não sou mais presente na sua vida como antes. Mas por que fez isso? Eu estava lá, eu poderia...
  - Pai, eu não... Eu não tentei fazer isso, eu juro.
  - As provas estão todas lá, . As provas estão aqui. – ele segurou seu pulso enfaixado delicadamente. – Eu preciso que me diga se algo está errado. Eu posso, eu posso falar com sua mãe e...
  - Não! – tudo menos sua mãe. – Por favor, não fale com ela. Eu não sei por que aconteceu isso, eu... Está tudo bem, ok? – sorriu numa tentativa de acalmar a situação.
  - Eles foram te socorrer, mas você ameaçou um deles e correu como se fugisse de algo e gritava coisas incoerentes. Eu não posso dormir em paz sabendo do que aconteceu, porque eu vi, .
  - Aquela não era eu, por favor, esqueça isso. – pediu. – Olha, não conte para mamãe. Eu preciso recomeçar do zero, você disse que eu podia encontrar respostas não é? Pois bem, eu não tenho como explicar o que foi que aconteceu ou o porquê, mas eu prometo que irei...
  - . Você não está entendendo. Eu não posso simplesmente não falar para sua mãe. Se você não sabe o que aconteceu, como é que eu saberei? Eu preciso de alguém que possa estar com você, que possa te cuidar. Você precisa estar sendo supervisionada. Precisa ter acompanhamento médico e quem sabe teremos respostas para as coisas que você precisa.
  - Então a ideia era desde o principio me internar num hospital de loucos? – sua incredulidade se transformou em decepção.
  Era esse tipo de ajuda que ele falava desde o inicio? Então por que não tinha feito antes?
  Para ela era claro que aquela conversa só levaria àquele lugar e também tinha consciência de que nada podia explicar o que havia acontecido ali a não ser a loucura. Havia de fato perdido o controle de seu corpo aquele ponto? Agora tinha certeza também que nada que dissesse seria inconsiderado pelos médicos, pois havia tentado suicídio e ameaçado alguém, qualquer pessoa a esse ponto era um perigo que deveria ser detido e em suas cabeças era claro que não havia outra forma a não ser um purgatório, manicômio, seja, lá o que fosse.
  Porque definitivamente esse seria o seu destino se sua mãe soubesse de tudo. Aquele era o plano perfeito para se livrar da filha, separar do marido e ficar com o amante. Perfeito para provar sua vitimização e consequentemente destruir qualquer chance do seu futuro, qualquer chance de saber quais eram as respostas que procurava. De entender o porquê tinha que lidar com isso.
  Estava cansada, estava cansada de tudo.
   Young permanecia calado como se pensasse sobre o caso e o estado em que ela se encontrava, mas por longas horas não se ouviu sua voz. Ela tinha consciência de que ele estava abalado com tudo e que dificilmente se recuperaria daquele episódio porque sabia do quanto fora egoísta em ter feito tal coisa, embora não tivesse controle ou de fato a culpa.
  Quando deu por si, havia adormecido outra vez por conta dos sedativos. Lá fora o sol já estava se pondo quando acordara, no quarto não havia resquícios de que seu pai havia estado ali, nem qualquer outra pessoa.
  Era grata por tal coisa. Não queria dar mais explicações a ninguém.
  O relógio na parede à sua frente marcava pouco mais de cinco e meia da tarde, havia perdido parte do seu dia o que significava que precisava ir embora para que não houvesse questionamentos por parte de sua mãe. Foi pensando nisso que havia tomado a sua decisão, fosse qual fosse a vontade de seu pai durante aquele tempo.
  Estava quase se tornando uma adulta e apesar de entender a preocupação dele, havia coisas que eram complexas demais para que ele pudesse de fato compreender porque jamais poderia dar todas as informações que ele queria. Naquele intervalo de tempo enquanto pensava sobre sua decisão, havia percebido que tinha sido um erro contar sobre a condição que vivia em relação a seus sonhos, mais do que um erro. Havia sido uma tremenda ingênua ao fazer isso, mas naquela época não sabia das consequências de seus atos.
  Agora sabia bem que ninguém em sã consciência ouviria tudo aquilo sem antes duvidar de sua sanidade. Talvez seu pai não tivesse feito realmente isso, mas agora, mediante a tudo, podia bem ter uma ideia do que se passava em sua mente. Ela o entendia porque talvez, se tivesse uma filha na mesma condição, iria querer o melhor remédio, e quem sabe esse antidoto não fosse exatamente como ele achava que era ideal para si, porém, sabia que se entrasse numa clinica, fosse ela qual fosse, jamais poderia achar a cura.
  Sim, ele poderia ser sua cura.
  Ela pedia do fundo do seu coração em suas preces para que ele fosse sua cura, sua luz no final do túnel porque não aguentaria mais viver por muito tempo daquela forma, não sem que antes sua família a internasse.
  Sem pensar duas vezes tirou o acesso venoso, na qual levava o soro até suas veias, e arrancou de seu braço juntamente com os eletrodos que monitorava seus batimentos cardíacos, fazendo um barulho que incomodava seus ouvidos. Sua roupa estava disposta em cima de uma poltrona junto com a mochila que carregava desde que entrara ali, o que facilitou se trocar rapidamente. Quando estava saindo do quarto duas enfermeiras entravam com um semblante de preocupação, provavelmente assustadas com o monitor.
  - Aonde você vai? A senhorita não pode sair assim. – a mais velha, com cabelos grisalhos em um coque bem feito, a impediu de sair.
  - Está tudo bem, não preciso continuar aqui. Já estou bem.
  - Você precisa de autorização. – a mais velha continuou a dizer.
  - Não se preocupe, meu pai está aqui e assinará o que for preciso. – sorriu triunfante. – Estou indo para o quarto dele neste momento, se quiserem podem me acompanhar.
  A hesitação das enfermeiras durou por alguns breves segundos antes de liberar sua passagem, agora no corredor, o mesmo onde se lembrava de ter o pequeno surto, as enfermeiras a seguiam como verdadeiros guarda costas. Logo a porta branca do 401 surgiu a fazendo ficar apreensiva.
  Era tarde demais para voltar atrás e mesmo que tivesse a oportunidade de voltar, não o faria.
  - Olá, papai. – seus olhares se encontraram ao abrir a porta e ela deu um passo para dentro. – Estou de volta novamente.
  O semblante de Young, na qual estava deitado em sua cama, empalideceu surpreso, talvez porque não esperava ver tão cedo sua filha novamente e por hora, pelo mesmo fator não fora capaz de pronunciar nada.
  - Nós precisamos conversar. – Sorriu sentindo seus músculos relaxarem.
Sua decisão já estava tomada e agora era hora de colocar as cartas mesas.
  Que vença o melhor jogador.

3
Fairly Local – Primeira Parte

  Amargo, era o que sentia descer pela sua garganta.
  O gosto do café era amargo tanto quanto o sabor da vida. Seria poético se não fosse trágico. A caneca de porcelana branca, pintada com detalhes em pretos que mais pareciam rabiscos, ainda estava quente em sua mão, embora não se pudesse dizer o mesmo do líquido espesso.
  Seus olhos observavam as pessoas que transitavam no corredor da cafeteria do hospital apressadas com seus afazeres, por hora uma ou outra pessoa acabava por esbarrar em sua mesa acidentalmente e a encaravam com um sorriso estampado como desculpas. Não havia trocas de palavras, apenas algo silencioso. Na cadeira a sua frente não havia ninguém, embora a mesa fosse para duas pessoas. Quem passasse ali por mais de uma vez e a encontrasse do mesmo jeito, como já estava há algum tempo, acreditaria que de fato estivesse esperando alguém.
  Talvez sim.
  Mas esse alguém não viria, não tão cedo. Não a pessoa que de fato esperava.
  Bebeu um pouco mais do café, ainda sentindo seu amargo e suspirou pesadamente, cansada. Ainda sentia em seu corpo o efeito dos medicamentos que haviam lhe dado, consequências. Você precisa lidar com elas e era isso o que ela estava fazendo ali.
  Sim, houve alguém ao seu lado há poucos minutos atrás, conversando consigo e aparentemente “presente”. Aquilo era de fato bem relativo porque tudo depende de que tipo de presença você está se referindo. De qual ângulo você está enxergando.
  Se for em sua vida, bem, ela não sabia se podia dizer o mesmo. Pelo menos não diante da sua situação agora. Talvez, se é que algum dia houve esse alguém, essa seria a hora que todos eles dariam um passo para trás para bem longe de si. Estava ciente disso. Todos estariam longe de si se possuíssem bom senso, era o que faria também em seus lugares.
  Com o copo colocado de volta a mesa encarou seu celular, cujo papel de parede ainda permanecia o mesmo de fábrica, o relógio ali denunciava que já era tarde e a grande janela do refeitório denunciava que a noite começava a ganhar forma. Deveria ter ido embora minutos atrás, após sua conversa, mas seus pés continuavam imóveis.
  Sua mente a relembrava parte da sua conversa com seu pai que tivera ainda ali antes que ele retornasse a seu quarto, processava o fato de que sua jornada ali tomava um novo rumo. Quando as coisas saem do controle retomar as rédeas da situação nem sempre é fácil, havia consequências e teria que lidar com elas. Uma nova imagem fora criada de si mesma para o único homem que tinha sua confiança, sendo que está última em relação a ele para com ela estava totalmente fragilizada, portanto haveria um longo caminho percorrer até que conseguisse, pelo menos, amenizar as coisas.
  Era fato que perante todos ali ela era uma suicida. As marcas estavam ali, não tinha como negar ou provar o contrário.
  Não havia muito que fazer. – Suas mãos delicadas, como por extinto, tocaram seus pulsos cobertos pela blusa fina de frio como se tivesse tentando se proteger. - Logo o rosto cansado de seu pai sobreveio em sua mente. Ele havia estado ali, sentado com ela e a encarado esperando explicações, ela se lembrava de perder seu olhar em qualquer lugar apenas para que não tivesse que encarar os seus.
  Era vergonhoso.
  - Não há explicações. – Começou dizendo. – Eu sei que você quer explicações, mas não há.
  - Por que pediu que liberassem você? Ainda precisa ser feito exames, o médico disse que...
  - Não importa o que ele disse. De qualquer forma estarei indo embora e não há nada que você possa fazer por mim exceto...
  - O que você quer? – Depois de algum tempo resolveu olhar em seu rosto. Havia um misto de preocupação e medo. Ela já sabia o porquê.
  Mais uma consequência de seus atos. E agora tudo o que ela precisava fazer era controlar o que ainda tinha em suas mãos, como uma verdadeira tell6.Suas ações, suas falas, absolutamente tudo era crucial, não havia tempo a perder e embora soubesse bem o quão arriscado poderia ser dali para frente tinha que arriscar jogar uma carta em falso apenas para que pudesse conhecer com o que estava lidando e quais as reais expectativas que poderia ter.
  - Além de assinar os papeis da liberação? – Um sorriso falso surgiu em sua face.
  - Você sabe que não vou. Não posso fazer isso.
  - Você pode, você vai. Eu te imploro. – Suplicou em desespero. - Falta pouco para minha partida. Você sabe que não pode me prender aqui, nem a mim nem a mamãe. Eu sei que você quer contar a ela sobre isso, mas você sabe que essa não é a melhor opção.
  - Não estou tentando impedir. – Seus olhos a encararam, como se tentasse enxergar além de suas palavras. – Mas você sabe que também não posso deixar assim.
  - Eu sei, não estou pedindo muito, estou pedindo seu silêncio, se é o que quer saber. Vai ser pior se você contar e.... – por um momento quase falou a verdade sobre sua mãe, mas não podia. Não quando ele se encontrava em um estado debilitado como aquele e com tantas coisas passando em sua mente. Era preciso poupa-lo da dor, mesmo que soubesse que em seu inconsciente ele sabia da verdade. Apesar de tudo, era um homem apaixonado por Mellanie. – Bom, não estou tentando fugir dos meus atos. Na verdade estou disposta a fazer o acompanhamento como você pediu, se isso o tranquiliza, mas não posso ficar aqui e muito menos quero que conte a aquela mulher.
  - Apesar de tudo, aquela mulher é tua mãe .
  - Você não a conhece.
  - Talvez eu não a conheça mesmo, assim como eu achei que te conhecia, mas ainda sim vocês duas são as mulheres que eu amo e mesmo que por agora eu não conheça mais tão bem como antes ainda assim não mudou o fato de que por um tempo eu as conheci.
  - Não importa. Esse terá que ser um segredo entre nós porque se você fizer algo contrário você nunca mais irá me ver pai. Você realmente quer isso?
  - Por que diz isso? Eu não vejo nada demais, eu só quero que você tenha um acompanhamento.
  - Eu não estou me negando a fazer a sua vontade. Você tem contatos para fora, veja alguém da sua confiança e faça conforme você achar melhor. Irei frequentar as consultas, mas se for além disso, se contar a ela... Tenha certeza que será o fim. Você não a conhece mais, por mais que você ache que um dia a conheceu.
  - Você tem razão. – Ele suspirou pesadamente e tomou um gole de seu café. Sua expressão era suave, ela sabia que ele cederia naquele momento, apenas não podia ter certeza de quanto tempo aquilo poderia continuar. era um homem de palavra, mas por sua culpa havia perdido parte de sua confiança e aquilo era algo que não conquistaria de uma hora para outra. Teria que ter paciência se quisesse isso algum dia. - Eu queria poder concertar as coisas.
  - Não se pode concertar o que já está quebrado, pai.
  - Mas podemos amenizar as coisas.
  - Talvez.
  - Ok, podemos tentar. Estou tentando te dar essa chance porque eu sei que há um motivo para tudo isso e eu espero que chegue a hora que você possa me contar tudo. Você está sendo tudo o que me restou e pensar que não há conheço é assustador demais, é como se eu tivesse deixado você ou te abandonado quando eu nunca quis fazer isso.
  - Você não me deixou...
  Queria dizer a ele naquele momento que não era o culpado pela situação, queria dizer que tudo iria ficar bem, mas não era capaz porque sabia que essas palavras não seriam de todo verdade.
  Solidão.
  Foi isso o que sentiu quando voltou para seu quarto. Estava sozinha em busca do desconhecido, sozinha em busca de respostas. Sentiu falta de sua infância, de quando tinha seus pesadelos e ele ia à noite a acordar e dizer que tudo ficaria bem e realmente ficava porque eram apenas sonhos. Era só um pesadelo na qual podia ignorar.
  Deveria ter se levantado e ido para casa. Já estava liberada para fazê-lo, ele havia feito o que pedirá, apesar de não poder garantir sobre o resto. Não conseguia ainda levantar daquela cadeira e sair de dentro daquela cafeteria. Sua mente estava em loop infinito7.  Ele faria por hora o que pediu, mas por quanto tempo?
  Por quanto tempo mais poderia ocultar algo tão grande de Mellanie? Quanto tempo mais levaria para que algo como aquilo acontecesse outra vez e seu pai não tivesse outra escolha a não ser falar? Tudo era muito relativo, mas enquanto pudesse estar no controle faria de tudo para que nada saísse de seu lugar. Enquanto estivesse lutando não descansaria, não desistiria mesmo que tudo conspirasse contra.
  Ela seria a melhor jogadora, nem que para isso precisasse ser o monstro que havia sido naquele dia.
  Monstro. Outro arrepio veio dos pés à cabeça e dessa vez não era pelo frio.
   havia se lembrado do motivo de estar ali parada. A imagem dos olhos que viu naquela manhã vinha à tona como um choque. Um pequeno recado da sua outra realidade paralela. Um aviso suficientemente forte para tomasse a coragem que precisava e se levantasse indo em direção à recepção do hospital. Uma adrenalina tomava conta de si enquanto corria e em sua mente mil coisas se passavam.
  Seria esse então quem pensava ser ou tudo não passou de mais uma ilusão sua?
  Não havia respostas.
  Do outro lado do balcão uma moça pouco mais velha que si checava seus dados em seu computador pacientemente, a armação dos óculos de grau que usava caiu um pouco sobre seu nariz e começou a ficar inquieta, seu coração disparava de ansiedade. Por fim, a resposta veio.
  - O enfermeiro que atendeu você está vindo aí, ele está fazendo um pequeno intervalo agora.
  Seu coração bateu descompassadamente e uma voz grossa dizia algo para a recepcionista, não conseguiu distinguir o que porque tudo passava como em câmera lenta, quase como se tivesse parado no tempo. No momento em que se virou para ver quem estava ao seu lado todos os seus planos caíram por terra.
  - ? Você está bem? – Ele chamava-a para a realidade. – O que você queria falar comigo?
  - Ah... – Não era ele. – Me desculpe, não era nada demais. Eu preciso ir.
  Não era ele. Idiota. – Sua mente a condenava como se aquilo fosse o fim do mundo e ela sabia que não era. Na verdade pareceu muito fácil para ser verdade, deveria ter desconfiado desde o inicio. Sua mente gostava de lhe pregar peças e dessa vez não seria diferente.
  Talvez em um futuro próximo isso acontecesse de novo. Estava suscetível aquilo e simplesmente não sabia como parar. Só que tinha um pequeno detalhe: agora quem iria ditar as regras era ela.


Tell6- Do termo em inglês: dizer. É uma técnica, estratégia do jogo de pôquer, que consiste num comportamento do jogador que fornece pistas aos seus adversários sobre a força de suas cartas, podendo ou não fazer o perder dependo da forma que controlar suas ações e expressões.

Continua...

Comentários da autora


O capítulo dessa vez foi pequeno, se for levar em conta a minha demora em posta-lo. Estou em falta, eu sei. Dessa vez não foi o bloqueio criativo, mas sim a vida adulta que me sugou de vez! (Alô vida, preciso de um time) Faculdade, trabalhos, complicações na vida pessoal, está tudo um caos, mas juro que estou fazendo ao máximo para não reprovar na facul e ainda escrever para postar aqui! Férias, cadê você sua linda? HAHAHA
Em compensação a essa demora, estou terminando a segunda parte! Isso mesmo, segunda parte. Como vocês podem ver cherry’s, logo no inicio, esse capítulo foi dividido em dois por motivos: Iria ficar extenso demais, então achei melhor o dividir e trazer mais do universo de Lithium! Bom, no próximo capítulo temos personagens novos e algumas emoções fortes, portanto se preparem. Obrigada por me esperarem pacientemente.  Até logo :*

Curiosidade da vez: Os nomes utilizados nos capítulos dessa fanfic são nomes reais de músicas na qual é uma das fontes de inspiração para o processo de escrita.




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// Sobre a ideia
Ideia Nº: #103
Doada por: Letycia Oliveira (@)
Tipo de adoção: Geral / Com prazo p/ att

→ Sobre a ideia

Você tinha uma vida aparentemente normal, a não ser por algo que alguns chamavam de dons. Desde pequena, você é atormentada com visões dele. Tudo estaria normal se não fosse aquela visão. Ele acreditaria numa estranha com uma conversa de louco? Agora mais do que nunca, você precisa dos seus dons: Para salvar sua vida e a vida dele.

→ Nota

Comecei a escrever a fanfic, mas minhas ideias começaram a fugir da minha mente. Como achei a ideia principal legal, resolvi compartilhar com vocês (:

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→ Sugestão

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Adotada por: Sunni

→ Sinopse

O que você faria se encontrasse com o cara dos seus sonhos? E se esse sonhos não fosse apenas sonhos? Desde pequena você é atormentada com visões dele, e agora, mais do que nunca, precisa do que você chama de “dons” para salvar a sua vida e a dele. Acreditaria ele numa conversa de louco?

→ Contato com a Autora




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// Comentários

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