Like you were never gone

Escrito por Ale Santarosa - Siga a autora no Twitter
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I wish I could still wish it was over
But even if wishing is a waste of time
Even if I never cross your mind

Sexta-feira, 14:35. Londres.

Se existia uma coisa mais paradoxal do que morar sozinha, eu ainda não havia encontrado. Muitos juram que é a melhor experiência do mundo, e outros reclamam que lavar as próprias cuecas e arrumar a própria cama é a pior tortura já encontrada em Terra. Olhei ao redor do apartamento aparentemente grande para duas pessoas, e suspirei. Não iria demorar muito para a solidão aparecer e tomar conta do ambiente se não chegasse logo. Estava muito dependente dela, certo, mas se fôssemos comparar o meu nível de dependência com o nível de dependência de todas as outras garotas da minha idade, o meu estava elevadíssimo se contássemos com o tempo que passei me virando no exterior sem ajuda de mamãe e papai como a maioria tinha. Porém, lá estava eu, com plenos vinte e um anos nas costas, eu ainda não tinha nem ingressado em uma universidade. Sim, essa era minha triste realidade. Talvez sair da adolescência não fosse algo tão mágico e emocionante como os experts – leia-se: pais – diziam que era, e essa fase de transição entre o fim do colegial e o início da graduação fosse só mais um dos pesadelos que o ser humano arriscava enfrentar durante uma vida inteira cheia de sonhos, que muitos nunca chegariam a se realizar. Caso esteja se perguntando o que eu estou falando, estou narrando o início da minha juventude marcada por indecisões e experiências que não deram certo. Meu nome era , tinha vinte e um anos e um futuro nada maravilhoso. Quer dizer, se eu tivesse seguido os planos dos meus pais de continuar nos negócios da família, talvez eu já fosse uma das mais jovens empreendedoras do país com o bolso cheio de dinheiro, mas não, resolvi “seguir meu próprio sonho” e acabei solitária, em um apartamento gigantesco sozinha que dividia com uma Dálmata e um protótipo de ser humano, depois de um ano e meio em intercâmbio procurando meu “eu interior”. Bobagem, toda essa coisa de ser quem você é, seguir seus sonhos e blá blá blá ditada pelos horóscopos sobre futuro escrito nas estrelas e destino era pura idiotice. Descobri depois que meu terceiro namorado me trocou por outra modelo antes mesmo de eu poder dizer “eu te amo”. E isso não queria dizer que eu já não estivesse apaixonada. Afinal, qual era o problema com aquelas modelos? Elas nem tinham bunda! Era tão frustrante saber que os dotes herdados da minha mãe não foram ao menos úteis na hora de conquistar um macho para mim. Segundo minha melhor amiga e colega de quarto, , os astros não me ajudariam até que eu tivesse tomado as rédeas da minha própria vida, e não, ela não estava se referindo a eu aprender a usar os termos “vai tomar no cu” para defasar minha raiva. Mamãe dizia que eu era jovem demais para pensar em tanta coisa ao mesmo tempo. Certo, eu tinha acabado de voltar da Austrália depois de um ano e meio passeando da Europa até a Oceania vivendo aventuras culturais e sexuais, e me estabilizar não era exatamente a primeira coisa que eu conseguiria fazer ao chegar em Londres, mas de qualquer forma, eu ainda me sentia atrasada em relação aos outros que já estavam no segundo ano de faculdade e alguns até casados! Porra, eu nem tinha um namorado e aqueles idiotas já estavam tendo filhos? Ao menos eu falava cinco línguas agora, conhecia mais de vinte países, dos quais eu faturei alguns deuses gregos para minha lista de aventuras, tinha um corpo esbelto e não seria estragada pela gravidez igual certas pessoas – cof, sim Georgia Windsor, eu estou falando de você, sua vadia. Mas vejamos, a melhor parte é que eu não era a única! Fiquei contente de ter arrastado comigo por todos aqueles meses em que aprendemos fotografia, literatura, cultura, trabalho voluntário e humanitário, medicina básica, kama sutra e até alguma coisinha de culinária. Eu era feliz. Eu sabia disso. Gostava da liberdade incondicional e da amizade sem fim que nunca seria acabada por causa de um curso chato e uma sala de escritório meia boca com cheiro de mofo. Só precisava me lembrar disso a cada segundo – minha geladeira parecia um livro de autoajuda –, e assim eu poderia continuar no meu ritmo incrível e ser quem eu buscava ser desde sempre.
Me joguei no sofá do apartamento enorme, e Lola, minha Dálmata, pulou no mesmo para me acompanhar no cansaço de fim do dia. Tinha colocado algumas coisas em prática e tirado o atraso de outras. Agora estava de volta para minha velha academia, já tinha visitado a nova casa da minha irmã mais velha – que tinha acabado de se casar! – e encontrado alguns velhos amigos do colegial na rua. A sensação de ser nova em um lugar já velho era estranha. Mas eu podia me acostumar com essa ideia de que eu, diferente deles, tinha feito coisas excitantes e únicas. Era incrível como alguns tinham passado de capitão do time da escola para estagiário de contador em uma empresa de classe média, enquanto eu, a patinha feia da escola inteira, tinha virado o belo cisne que eu era prestes a levantar voo. E nenhum, nenhum cachorro arrancaria as penas do meu rabo.
Me deitei no sofá espaçoso e Lola se acomodou aos meus pés. Tiraríamos um cochilo e mais tarde começaríamos a ordenar nossa vida. Começando por queimar as calorias da torta que eu tinha acabado de comer e fazer desfazer as doze malas que ela tinha trago de volta.

Sexta-feira, 18:23. Livraria.

- E o que ele falou quando te encontrou? – Camille, minha irmã mais velha, perguntou enquanto andávamos pelos infinitos corredores da maior livraria de Londres.
Ver aquela aliança dourada brilhando em sua mão esquerda era bem estranho para mim, mas nada que eu não pudesse aceitar. Seu marido, Kevin, só não era o melhor marido do mundo porque eu ainda estava à procura dele.
- Ah, aquela baboseira de sempre. Que eu estava diferente, para melhor, e que ele adoraria me encontrar um dia desses. – Rolei os olhos ao mencionar Alex, meu ex-namorado do colegial, que ao me encontrar na cafeteria não pôde conter seus olhos ao ver o que um pouco de malhação e tratamento dentário não faziam com uma pessoa. – Mandei ele se foder e fiz ele pagar minha conta. – Ergui o nariz. Camille riu alto e continuamos andando pelo corredor.
- Cam, você tem certeza que quer dar um livro de aniversário para a sua sogra multimilionária? – Perguntei, mudando de assunto e a olhando intrigada. – Você não prefere algo como... Uma obra de arte ou pelo menos alguma coisa que transpire dinheiro?
- Certo, por que não? – Ela sorriu para mim. – E então eu posso dividir a obra de arte em trinta e seis vezes no cartão e passar o resto da minha vida, além das próximas que virão, morando embaixo da ponte. – Ela rolou os olhos para mim e eu não pude evitar além de rir.
- É que ela é tão... Luxuosa. Não creio que um livro seja o bastante. – Tirei um livro qualquer de uma estante e passei suas páginas, na esperança de fazê-la ver que a Sra. Só Como Salmão Fresco a rejeitaria se aparecesse na festa de aniversário milionária dela com um... Livro. Ela apenas deu de ombros.
- Estou em dúvida entre um autoajuda ou um de contos eróticos. Qualquer um dos dois ela está precisando desesperadamente. – Ela murmurou e eu gargalhei, balançando a cabeça de um lado para o outro.
Foi quando avistei de longe um alvo. O alvo mais sexy que eu já tinha visto em Londres. Abri a boca, sem saber proferir mais nenhuma palavra, e Camille não pareceu notar ao procurar por entre tantas estantes o livro perfeito para sua sogra preferida – piadinha de praxe. Ele estava de costas, folheando alguma coisa enquanto falava ao celular com alguém. Meus olhos brilharam da mesma forma que um caçador fazia ao almejar sua próxima caça. Quem seria do outro lado da linha? Se uma mulher, a vadia não sabia o quanto era sortuda. Suas costas largas e arqueadas me diziam que a frente era uma perdição completa, e o cabelo curto, bagunçado, fez eu me remexer inquieta ao sentir um calor inexplicável vindo lá de baixo. Hormônios.
- , o que você... – Camille começou a falar quando seus olhos atingiram a mesma reta que os meus. – Oh. – Ela deixou escapar. – Wow.
- É, querida. Wow. – Murmurei, sentindo raiva de mim mesma por não ter encontrado uma roupa melhor antes de sair de casa. – Nem em meus dezoito meses de viagem com direito aos italianos eu me senti tão atraída por um corpo virado de costas. – Gaguejei.
- Aposto que é homem camarão. – Minha irmã zombou e eu a encarei, indignada.
- Está querendo acabar comigo? Não vou tirar a cabeça e comer o resto. Quero ele todo! – Rebati olhando de volta para o corpo que agora trocava o peso de uma perna para a outra, e remexia nas páginas do livro. – Certo, vou fazer o esquema de encontro número quatro. – Coloquei a mão sobre o queixo, pensativa.
- Esquemadoquê? – Camille me olhou sem entender nada, e até se esqueceu do livro que segurava em mãos.
- Da lista da ! – Respondi. – O número quatro diz para eu esbarrar nele sem querer e puxar papo. – Sorri maliciosa.
- Ok. – Ela sorriu para mim. – Boa sorte. Enquanto isso eu fico aqui, fingindo que não te conheço! – Camille acenou e saiu andando.
Abri a boca incrédula com sua falta de fraternidade, mas acabei deixando de lado, tinha algo mais importante para fazer. Caminhei lentamente como quem não queria nada pelo corredor, até que cheguei perto dele. Por uma sorte divina, o ouvi se despedindo no telefone, e se virando para o meu lado. Aquela era a hora! Apertei os passos e coloquei a mim mesma no ângulo perfeito em que meus ombros bateriam nos seus, e tudo estaria feito. Olhei para baixo, fingindo estar distraída com o meu celular. Esperava que aquilo fosse o suficiente para enganá-lo. Faltavam cinco passos. Mordi o lábio, cantando vitória por ser tão esperta. ficaria orgulhosa! Três... Dois... Então, ele esticou a perna para frente mudando de direção, eu não tive tempo de me desviar. Tropecei no seu pé e meu celular voou longe, assim como o seu livro em mãos, quando caí de quatro no chão.
De. Quatro.
Parecia uma cavala naquele momento.
Se eu fosse um pouco mais atenta aos detalhes da vida, poderia jurar que tinha ouvido Camille rir de longe, provavelmente assistindo a cena mais engraçada da vida dela. Que maravilha!
- Ai caralho, derrubei uma garota. – O gostoso falou. AH, MAS CÊ JURA, QUERIDO?
- Ouch. – Deixei escapar quando vi que um dos meus joelhos descobertos recebeu um lindo e ínfimo corte. Algumas pessoas presentes ao redor olhavam chocadas para a garota caída no chão. Aposto que esse seria o único momento de ação do resto do dia deles. De nada, reles mortais.
- Você está bem? – Ele perguntou, esticando a mão para eu segurar. Rolei os olhos, certa de que o tesão de cinco minutos já havia passado depois desse King Kong. Filho da puta, por que ele mudou de direção?!
- Eu... Eu estou. – Respondi, aceitando sua ajuda e me levantando do chão, completamente desengonçada. – Não sou muito boa com essa coisa de andar. – Improvisei, ainda ajeitando minhas roupas, e ele riu. Certo, sua risada era a coisa mais gostosa e sexy que eu já tinha ouvido.
Quando erguemos nossos olhos para nos identificarmos, não pude deixar de arregalar os meus com surpresa e quase cair no chão de quatro de novo.
O gostoso de 1,89m era .
. .
- ? – Ele perguntou, surpreso ao me ver.
- ? – Abri a boca de novo, embasbacada ao vê-lo ali na minha frente, depois de tanto tempo. Eu não estava acreditando que estava querendo seduzir em uma livraria. Depois de alguns séculos sem encontrá-lo, meu Deus, eu havia chegado ao fundo do poço.
Mais precisamente, faziam seis anos, dois meses e dezessete dias que eu não o via. Esse era o tempo que se passou desde a última vez que nos vimos. Eu costumava contar quando pensava nele – que para deixar bem claro, não era sempre.
- Não acredito que está mesmo na minha frente. – Deixei escapar.
- Bom, você não mudou muito no quesito equilíbrio, não é mesmo? A mesma de sempre. – Ele zombou e eu rolei os olhos. Ele estava certo. Quando se tratava de andar, respirar e fazer qualquer coisa mais complicada que aquilo, eu já me complicava. Mas eu não estava igual à seis anos atrás nem fodendo!
- E você o mesmo debochado de sempre. – Sorri de volta. Ele riu, me tocando nos ombros para ter certeza de que eu não era uma miragem. Fiz o mesmo com seus braços e constatei que depois daquele anos, ele tinha ganhado alguns... Músculos. A cor da minha cara devia estar mudando entre sopa de tomate para catchup. Eu tinha tentando seduzir . Eu nunca mais pararia de repetir aquilo na minha mente. Eu tinha tentando dar para ! A minha vida estava entrando em colapso, só podia ser isso.
Antes que um clima constrangedor se espalhasse, Camille resolveu brotar.
- Acho que seu celular... Voou um pouquinho para lá. – Ela me estendeu o iPhone que por sorte estava inteiro, e colocou seus olhos sobre . Sim, ela devia estar pensando a mesma coisa que eu. Nada de homem camarão! Estava mais para homem pirulito. Se é que me entendem.
- Ahn... Camille, você se lembra do ? – Virei para ela, gaguejando. – , essa é a minha irmã Camille. – Os apresentei sem querer estender muito essa relação entre os dois. Tinha mais assuntos para colocar em dia. Além da minha cara queimada.
- Eu me lembro de você. – Ele sorriu para ela e ela sorriu de volta, meio curiosa.
Tudo o que eu conseguia pensar era que ele estava gostoso demais para ser verdade.
- Mas e ai, ? A gente não se vê há anos e de repente dou de cara com você em uma livraria? Isso é meio estranho. – Puxei assunto, e Camille já percebeu que podia buscar o adubo porque ficaria plantada ali. Mas era mais esperta do que isso, pediu licença a ele e me arrastou para o canto.
- , esse não é o , aquele garoto do secundário que você gostava? – Ela cochichou.
- Shhhh! – Bati o pé a mandando ficar quieta. – Cala a boca sua anta, ele tá bem ali! – Sussurrei.
E correção, eu não gostava dele. Eu era perdidamente apaixonada por ele. foi meu primeiro amor. Ou melhor, minha primeira paixão como adolescente que durou mais tempo que uma ereção de garotos de treze anos. Passei quatro primaveras da minha vida floral apaixonada por ele. Em vão, é claro. Porque na minha vida nada é feito para dar certo, e isso incluía futuro, tamanho de roupas e romances. nunca imaginou o quanto eu fui apaixonada por ele, e provavelmente ainda não imagina, já que nunca tive coragem de contar desde que nos separamos ao entrar no colegial. Foi só uma quedinha adolescente, mas que fez minha vida mudar por completo, e agora ele estava ali, lindo, maravilhoso, inteiro, e com muito mais atributos do que antes! Vida, quando eu te pedi para ficar mais emocionante, não pedi para fantasmas do passado voltarem em forma de símbolos sexuais, ok?
- Camille, por que você não vai para casa? Eu te encontro lá, ok? – Sibilei para ela, voltando ao olhar para . Era meio impossível não olhar para ele quando ele se encontrava no recinto. O cara era simplesmente perfeito. Quer dizer, se com treze anos ele já era o chuchuzinho das meninas, imagina com vinte e um, vinte e dois? Os anos não fizeram bem só para mim. Eles fizeram maravilhas com ele! O tinha crescido (mais ainda!), encorpado, ganhado músculos (bota músculos nisso!) e senso de moda – o que admito, era seu ponto fraco há algum tempo. Agora ele estava maravilhoso! Seu suéter contrastava com os do seus olhos que desde que eu era uma garotinha, me fazia tremer as pernas.
- Certo. – Camille murmurou e se afastou indo para o caixa com 50 Tons de Cinza em mãos. Sinto que a sogra dela teria muito o que fazer nas horas vagas se fosse mesmo embarcar no romance de Christian Grey e Anastacia Steele. Só esperava que ela não achasse que aquele livro fosse algo de moda por causa da maldita gravata na capa. Eu me enganei.
Por sorte a casa de Camille era perto dali, e depois de encontrar o , andar a pé não me mataria naquele dia.
- Enfim. – Continuei, tentando invocar o assunto de volta, com um sorriso encabulado no rosto ao notar que ele analisava o meu corpo. – O que anda fazendo da vida?
Demorou alguns segundos para ele tirar os olhos das minhas pernas, passar pelos meus peitos até chegar aos meus olhos. Fingi que não tinha percebido e ele tentou disfarçar. Certo.
- Ahn... Tô na universidade agora. Segundo ano de Direito. – Ele falou e eu não me surpreendi. O pai dele era um dos mais importantes advogados da cidade, e seguir a carreira do pai era sim uma coisa sensata de se fazer. Experiência própria. – E você? O que manda? – Perguntou, com um sorriso sapeca no rosto. O céu mandou um oi, ok?
- Acabei de chegar da Austrália. Passei um ano e meio fora. – Dei de ombros, quando na verdade queria parecer uma daquelas gostosonas de reality shows que iam para a Austrália para surfar e voltavam até caçando jacarés. Como se não fosse nada demais dar a volta ao mundo.
- Soa interessante. – Ele comentou e eu saltitei no meu interior. Score!
- Mas e você, o que faz nessa redondeza? – Perguntei, querendo descobrir até qual a cor da cueca que ele estava usando naquele momento. Eu poderia muito bem fazer isso no banheiro da loja.
- Pô, agora eu moro aqui! – Ele falou.
- Mas você não morava do outro lado da cidade? – Perguntei confusa, quando na verdade eu estava sentindo meus ovários em fúria comemorando a proximidade das nossas novas casas. Aquilo só podia ser o filho da puta do destino que a tanto falava!
- Morava quando morava com meus pais, agora eu já tô crescidinho né. – Ele falou cruzando os braços e mudando o peso de uma perna para outra, e meus olhos saltaram para o tamanho daquelas maravilhas.
Como eu te amo, tempo!
- E não é um pouco longe da universidade? – Indaguei.
- Mas é perto da bagunça. – Ele riu e eu ri junto. Certo, com a quantidade de pubs por ali, ele estava definitivamente no lugar certo. – Estou morando com e , lembra deles? – Assim que ele comentou, minha boca escancarou.
- Porra, é claro que eu lembro! – Só faltava eu berrar para Deus por ele ter sido tão bom comigo. e eram uns dos melhores amigos que eu tive durante meu colegial depois que foi embora e me deixou na fossa. Ninguém nunca nem sonhou imaginar que eu passei por uma fase de depressão profunda por causa dele, e os dois garotos eram o que trazia de volta sua memória esquecida depois de meses de sofrimento. Águas passadas, é claro.
- Eles estão bem ali ó, vim me encontrar com eles. – Ele apontou para a sessão de CDs que tinha do outro lado da loja, e me fez atravessá-la com ele para encontrar os velhos amigos sentados nas poltronas do café postado estrategicamente ali. Parece que todo o trabalho humanitário que eu fiz na África serviu para alguma coisa. Cantarolei em minha cabeça e o segui. – Hey dudes, olha só quem eu achei perdida por aí. – Ele brincou e se afastou para o lado, para deixá-los me ver.
- ! – Eles gritaram ao mesmo tempo quando me viram parada ali, toda afobada e com um corte ardido pra caralho no joelho, sorrindo feito uma boba. Levantaram correndo para me abraçar e eu ri do jeito deles.
- O que você está fazendo aqui? Não estava na Indonésia? – perguntou, me oferecendo uma poltrona vaga. Sentei ao lado de , e no momento que nossas pernas se tocaram por baixo da mesa, meu ovários explodiram.
- Voltei essa semana. – Sorri. – Nem tive tempo de rever muitas pessoas. Vocês são os primeiros, na verdade. – Menti, querendo omitir o desastre da cafeteria com Alex.
- Você tá muito diferente, zinha. – apontou para mim. Só esperava que ele estivesse se referindo às minhas horas gastas na academia, ou rolaria UFC ali mesmo. – Ganhou um bronze, tá com mais cara de gente...
Mandei dedo para ele e obtive uma risada alta em resposta.
- É o que trabalho comunitário na África faz. – Dei de ombros e eles me olharam curiosos.
- E a ? Voltou com você? – perguntou. era apaixonado pela desde... Sei lá quando. Quando soube que nós iríamos viajar por um ano para fora, a vontade dele de se matar se equivaleu à minha quando perdi . A diferença é que sabia, e tinha feito sua parte desenvolvendo um pseudo-relacionamento com ele antes de ir. Espertinha!
- Sim, livre leve e solta. – Pisquei para ele e o fiz se aprumar na cadeira – Mas então, vocês estão morando juntos agora? Deve ser uma bagunça maravilhosa. – Zoei e eles reclamaram.
- Bagunça nada. A mãe do paga uma empregada pra gente. – falou e rolei os olhos de brincadeira.
Certo, continuava sendo rico de doer.
- Devia pagar duas para a destruição que eles fazem. – resmungou e eu ri. Nossos olhares se cruzaram e eu desviei na hora, do jeito que fazia quando eu tinha apenas catorze anos, e senti meu rosto corar de novo.
- Amanhã a gente vai dar uma festa lá no prédio, não tá a fim de ir? – interrompeu o momento, e olhei para ele. – Vamos chamar vários velhos amigos da escola. – Sugeriu e eu ergui minhas anteninhas na hora. Festa na casa deles? Velhos amigos? Eu precisava passar na igreja depois daquela conversa para agradecer ao Senhor. Não tinha como melhorar!
- Sério? Vai ser muito bom rever todo mundo. – Respondi. – Podem apostar que vou dar um jeito de ir e arrastar a comigo. – Pisquei para .
- Você não quer sair com a gente mais tarde hoje? Vamos a um pub aqui perto. – perguntou de repente. Olhei para ele e ele estava me fitando com aqueles olhos que pareciam me chamar para chegar mais e mais perto. Desci meus olhos e sua mão estava em minha perna.
Score!
A palavra “sim” queria sair da minha boca mais do que a saliva ao observar seu corpo curvado em minha direção, mas minha consciência gritava “Não! Você tem que jantar com sua irmã ou ela vai publicar na internet uma foto sua dormindo!”, e foi o que bastou para eu ser um pouco mais difícil do que ele se lembrava de quando tínhamos catorze anos e ao seu simples assovio eu já estava com a língua de fora feito um cachorrinho. Dessa vez eu seria mais esperta.
- Ahn, não vai dar. – Dei de ombros. - Tenho um compromisso. Mas amanhã eu vejo vocês. – Murmurei, desconcertada de novo.
Se eu conhecia bem e , eles olhavam com curiosidade para nós no momento.
- Aceita um café? – O garçom perguntou se aproximando.
- Não, obrigada. – Agradeci. – Tenho que ir para casa me arrumar ainda, mas foi bem legal ver vocês. – Levantei do banco acenando para eles, e me preparei para sair.
- A gente se vê, ! – acenou e fez o mesmo.
- Eu te levo em casa. – se ofereceu na hora. Meu Deus. Eu estava praticamente tirando a roupa ali mesmo. – Você mora perto daqui, não? – Ele perguntou.
- Sim, mas não precisa, eu vou sozinha. – Dei com a mão, bancando a difícil. Autocontrole, . Lembre-se do que os monges do Nepal te ensinaram.
- Não, eu vou. – Ele se levantou também e acenou para os caras, deixando uma nota de cinco libras em cima da mesa.
Sem graça, mas contente com os resultados se formando ao meu redor, aceitei que ele fosse comigo até meu apartamento. Conversamos o caminho todo sobre várias coisas, inclusive sobre namoradas e namorados passados, assunto pelo qual descobri que ele estava solteiro decorrente de seu último relacionamento fracassado onde sua ex o trocou por um surfista. Acredite, eu sabia como era. Ele rodeou o comentário sobre meus italianos de uma noite só, até que chegou sua repentina pergunta sobre se eu morava sozinha agora. Excluindo Lola e da relação “familiar”, confirmei querendo parecer descontraída, e senti uma tensão sexual se formar entre nós ao pensar que eu poderia levar quem quisesse quando quisesse para minha casa então. Tínhamos mais de vinte anos agora, não era como quando tínhamos treze e qualquer palavra que rimasse com pênis era estritamente apavorante e engraçadinha. Me lembro da forma como as meninas rejeitavam os garotos que tivessem boca suja, e como os garotos traficavam Playboys por debaixo das carteiras durante a aula. Como a infância era divertida.
Nos olhávamos as vezes no caminho durante as conversas, e era como se meu corpo gritasse pedindo pelo seu, enquanto ele gritava em pensamentos “por que não tirei uma casquinha antes?”. Bom, eu sabia o porquê.
- É engraçado te olhar depois de tanto tempo. – Ele comentou, com as mãos nos bolsos quando virávamos a última esquina.
- Por quê? Não imaginou que eu fosse passar dos dezoito? – Brinquei e ele riu, balançando a cabeça. Seus olhos cintilaram à luz dos postes da rua, e me senti de volta ao passado.
- Com aquela sua destreza de andar e fazer coisas como pensar ao mesmo tempo, realmente achei que não. – Ele zombou e eu o empurrei com o ombro, revoltada. – Mas não estou falando disso. – Ele continuou, e abaixei meus olhos para meus pés. – Você está extremamente diferente, .
- Espero que para melhor. – Comentei, sentindo meu rosto corar.
- Tá brincando? – Ele se virou para mim. – Quem diria que aquela garotinha de catorze anos que... – Ele começou a falar, mas parou.
- Que usava aparelho, era gordinha e passava seu tempo lendo romances antigos enfiada dentro de um moletom meio azul meio roxo com o Willy Wonka estampado na frente? – Completei e ele gargalhou. Sua risada sempre fora a mais gostosa que eu já tinha ouvido.
- Estava mais pensando naquela garota que empinava o nariz quando perguntavam sobre seu boletim e que parava de fazer tudo o que estava fazendo só para me passar cola na prova. – Ele falou, mas eu sabia que estava mentindo. Era claro que ele estava se referindo aos meus peitos terem aumentado consideravelmente e à minha cintura que resolveu aparecer depois de alguns anos, além do meu cabelo que decidiu que o frizz era coisa da década passada. – Nunca pensei que aquela garota fosse se tornar essa... Mulher que você é agora. – Seu tom de voz saiu tão baixo que eu tive que vasculhar minha mente para ter certeza que ela não tinha inventado aquela última parte. Ele estava mesmo falando aquilo de mim? Nunca pensei que ele tivesse em algum momento notado a minha mera existência durante os quatro anos que passei guardando qualquer lembrança do seu sorriso para mim, certa de que precisaria dele mais tarde para continuar vivendo quando ele partisse.
Eu estava certa de que se não estivesse em casa, o meu quarto o receberia de bom grado naquele instante. Eu estava hipnotizada. O garoto de quinze anos que nem se despediu de mim no último dia de aula e me deixou chorando no banheiro o resto do dia tinha desaparecido, e naqueles olhos maravilhosos eu só podia ver um homem, que tinha mudado tanto, que se o seu cabelo tivesse mudado de tamanho e seus olhos perdido a cor que o caracterizava, nunca o reconheceria.
Mas foi educado ao extremo, bem diferente da nossa puberdade, e nem mesmo ousou se aproximar de mim. Aquilo foi um pouco decepcionante, já que se eu não encostasse logo meu corpo no seu eu entraria em combustão. Nos despedimos com um beijo no rosto que me deixou formigando o resto da noite, e eu combinei de chegar na festa às dez no dia seguinte. Da janela do meu apartamento assisti ele voltar sozinho por onde viemos, caminhando com as mesmas mãos nos bolsos, e assim que o perdi de vista, entrei em casa e invadi o quarto de para pegá-la no sono mais profundo. Pulei em cima de sua cama, a chacoalhando com pressa, até que ela resolveu abrir metade de um olho.
- Se você me acordou por causa da sua torta que eu comi eu não me responsabilizo pela... – Ela começou a falar, mas eu nem quis ouvir. A cortei de vez.
- Não, ! Você não vai acreditar no que aconteceu! – Gritei de volta, ainda a balançando para ter certeza de que estava acordada. – Você não vai acreditar!
- Ah, tá... E o que aconteceu de tão importante para você me acordar, vadia? – Ela rosnou se sentando na cama, tentando coçar os olhos e me olhar ao mesmo tempo sem parecer vesga.
- aconteceu!

Sábado, 22:14. Prédio dos garotos.

- Não acredito que está me fazendo ir à uma festa old school. Essa é a coisa mais clichê estilo American Pie que eu já vi. – rolou os olhos para mim assim que saímos do carro dela, estacionado na rua de trás do apartamento que , e dividiam. – Eu vou ter que encontrar com o , ! – Ela resmungou, ajeitando sua jaqueta de couro roxa, típica do estilo que adquiriu durante nossa visita à Milão.
- Pensei que você gostasse dele. – Comentei curiosa, andando ao seu lado em direção ao prédio. Sentia que alguém tinha soltado duzentas borboletas em meu estômago, e que logo eu começaria a tremer feito uma vara verde de tanta ansiedade.
- Mera atração sexual. – Ela suspirou. Como podia ser tão prática?
- Mas vai ser legal... – Incentivei, com um sorriso amarelo.
não podia desistir da festa naquele ponto. Eu não tinha passado o dia inteiro sem comer para caber no meu novo jeans para ela dar para trás nos quarenta e cinco do segundo tempo. Eu estava de volta à Londres, e precisava da minha entrada triunfal com estilo, e isso envolvia fisgar , já que ele tinha aparecido de bom grado no meu caminho!
- Só se for pra você, que provavelmente vai acabar dando pro no final da noite depois de dez vidas falando dele, enquanto eu fujo do . - Nem se importou quando abri a boca indignada, apenas deu com a mão e apertou o passo para chegarmos em um minuto na entrada.
- Não sei não, . – Murmurei, parando de andar. De repente fiquei nervosa só com a ideia de entrar no mesmo ambiente que a maioria dos meus ex-colegas de classe. – Não sei se consigo fazer isso. É o ! – Protestei.
- E o que tem? – Ela virou para mim com as duas mãos na cintura. – Você não disse cinco anos atrás que tinha superado ele e que tudo foi apenas uma bobeira de adolescente? Então agora ele é só mais um cara pra você, não é mesmo? – Ela me provocou, com um sorrisinho de deboche no canto da boca.
Suspirei, sabendo que ela sabia que aquilo não era verdade. Eu ainda tinha sentimentos por aquele idiota, que foram incendiados durante o encontro do dia anterior. Como ele podia estar tão mais lindo, e eu tão mais carente?
- Eu não tenho certeza sobre isso. – Falei baixo, mordendo o lábio inferior.
- É claro que não tem. Você nunca esqueceu ele, sua idiota. O que eu não entendo já que as tão famosas correspondências dele não eram exatamente correspondentes ao tamanho do afeto que você exalava por ele. – Ela rolou os olhos. – Mas de hoje não passa, garota. Você tem que agir. Você tem que mostrar pra ele que a sua vida é sensacional e que o prêmio sexual da história agora é você! – Ela apontou o dedo para minha cara.
- Prêmio? Quem disse que eu sou um prêmio? – A olhei feio e ela riu alto. Me olhou com aquele carinho de irmã que demonstrava apenas no Natal e no meu aniversário, e brincou com meu nariz.
- Vamos logo , porque se for pra aturar o o resto da noite, eu preciso beber. E muito. – Me puxou pela mão e subimos os degraus que faltavam para entrar no térreo do prédio. Um aviso dizia que a festa seria no terraço.
Só esperava que eu não tivesse que descer tudo aquilo sozinha no final da noite. Porque eu com certeza não chegaria bem lá embaixo.

Sábado, 22:19. Festa!

A música dava para ser ouvida desde o quinto andar, porém não impediu uma conversa rápida e mal humorada com no elevador sobre quanto tempo passaríamos na festa. Acabamos decidindo que quem fosse pra casa primeiro tinha que esperar a outra – difícil seria conseguir ficar acordada. Um desconhecido que dividia o elevador com a gente nos olhava curioso, até que lançamos um olhar duplo de desprezo que só conseguiu ser disperso quando as portas se abriram revelando o terraço do prédio, sob um céu limpo e estrelado, que iluminava mais a festa do que as poucas luzes distribuídas pelos dois ambientes disponibilizados ali. Um, lotado de gente bêbada dividindo pufes e sofás, e de gente mais bêbada ainda, carregando copos e garrafas para todos os lados. O outro lado, separado pela área dos elevadores e dos banheiros, estava mais vazio porque não tinha bebida e nem a música ensurdecedora. Eu apostava o dedinho mindinho do pé de que aquele pedaço era reservado para as preliminares. Não precisava nem dizer onde os garotos estavam, certo?
- MENINAS! – e gritaram assim que pisamos no lado da bagunça. Viramos nossos olhos surpresos para os dois, que tropeçavam em si mesmos e riam feito dois idiotas tentando se manter em pé. Se aproximaram e quase se jogaram em cima da gente, tentando não deixar as garrafas de vodka em suas mãos caírem no chão.
- Vocês vieram! – piou, meio torto e com a camisa completamente fora do lugar. Nunca achei que o veria assim, era sempre o mais certinho do colegial.
- Quando o falou que você vinha eu não acreditei! – , outro amigo dos garotos, falou me abraçando de lado e me puxando para um abraço torto. – Pensei que tinha mudado de vez para o Himalaia! – Suas palavras saíam emboladas e carregadas de sotaque misturado com a língua enrolada por causa da bebida. Chegava a ser cômico.
- Que nada, quando o frio de lá cansa, venho procurar calor aqui. – Brinquei e os dois assoviaram com minha afirmação.
- É , a de dois anos atrás não é mais a mesma não! Essa garota tá fogo! – apontou para mim sem nem conseguir manter o dedo reto, e cutucou o amigo no ombro de brincadeira.
- E AI ? – gritou de repente ao ver uma parada mais de lado, meio desconcertada, e correu agarrá-la também. Definitivamente ela não estava gostando da ideia de estar na mesma festa que as quarenta pessoas que a viram antes dos seus anos de glamour, quando ela usava óculos e All Stars pintados com caneta marca-texto. – O morreu de saudades de você esse tempo todo, viu? Ele disse que... – Ele se engasgou com suas palavras e teve que ajudá-lo a ficar em pé. – Ele disse que o seu cheiro nunca mais saiu do travesseiro dele. – Terminou a frase com dificuldade e virou a garrafa na boca.
- Uhhhh! – Eu e fizemos coro juntos do mesmo jeito que fazíamos no Ensino Médio e rimos alto. Algumas coisas nunca mudam.
- Sei. – tentou esconder, mas seu rosto corou imediatamente com a afirmação.
Distraída rindo dos garotos, meus olhos vasculharam a festa lotada de jovens para finalmente encontrar do outro lado, rindo alto para alguém e com um copo na mão... E uma garota na outra. Abri a boca, chocada. Não pude acreditar. Ele estava com outra! Mas como ele pôde fazer isso? Não era possível!
- Sinto que você foi trolada, amiga. – sussurrou em meu ouvido quando percebeu para onde eu olhava, e meus olhos faiscaram o fogo vindo do inferno para qual eu o mandaria. Duas garotas se aproximaram do nosso grupo, mas continuei observando a cena rolando lá longe. Quando a garota colou seu corpo no dele e mordeu sua orelha com vontade, quase cuspi fogo. Ele sorria. O mesmo sorrisinho pervertido de seis anos atrás quando falavam da Megan Fox perto dele. Parecia que ele não tinha mudado nada, e eu menos ainda, já que tinha caído no seu papinho na noite passada. Nunca agradeci tanto por não ter chamado ele para subir. Se eu tivesse feito, talvez estaria me jogando dali de cima naquela hora.
- Mas isso não vai ficar assim. – Respondi entre dentes, e me virei de volta para o grupo, preparando uma vingança em minha cabeça.
Quando me dei conta, as garotas que tinham se aproximado eram e , duas das garotas que eu mais gostava no Ensino Médio. Abraços e elogios à parte, eles estavam combinando alguma coisa sobre a festa. Não consegui prestar atenção, estava irritada demais. Precisava de um homem, e de uma bebida. alegou que precisava de algo para beber e me deixou ali sozinha, segundos depois se aproximou da rodinha me agarrando aos berros dizendo que estava com saudades. Ok, , eu vou fingir que acredito em você. Eles conversavam animados e riam, e eu me mantive calada, sob o abraço do bêbado do que não queria me soltar. Quando o braço de envolveu a cintura de , saquei na hora que eles eram um casal. Me lembrei das paqueras que compartilhavam desde o segundo ano e suspirei. Bleh, casais. Me aproximei de e sem que ele notasse, tomei a garrafa de vodka da sua mão e virei de uma vez. Estava tão absorto nas palavras de que nem notou quando o fiz. O primeiro gole desceu queimando, e quase engasguei, desacostumada à beber sem misturar com alguma coisa. Mas depois do terceiro, eu já tinha me acostumado. Senti o calor subindo e gostei da sensação. me olhou torto, mas nem ligou. Estava tão alto quanto os outros garotos.
- Você também vem né, ? – perguntou, chamando minha atenção, minutos depois.
- Oi, o quê? – Perguntei perdida. Talvez eu tivesse passado tempo demais encarando o nada e nem sabia do que estavam falando.
- Jogar. Você não disse que queria? – respondeu por ela. Parecia até mais sóbrio. Se era possível.
- Certo, sim. – Respondi, sem nem saber do que se tratava. Mas qualquer coisa que envolvesse diversão eu estava dentro.
- DEMAIS! – gritou rindo alto e o cutucou.
- Vou buscar mais bebida, zinha! – me deu um beijo melequento no rosto e finalmente me soltou. Ri alto quando ele saiu trôpego, e brotou de volta.
- Ele nunca ia embora! – Ela respondeu baixinho quando a olhei feio, sem acreditar que estava fugindo esse tempo todo. Ela sorriu amarelo e me entregou um copo idêntico ao que ela estava bebendo. Aceitei sem pestanejar e bebi.
Vodka, groselha e suco de maracujá. Deus, como aquilo era bom.
- ! Isso! Perfeito, você também vem. Agora sim fechou. – dançou animada. Parecia ser a menos bêbada da rodinha. Como sempre fora no colegial.
- Fechou o que, caralho? – perguntou, nada delicada, sem entender o que se passava. Éramos duas, amiga.
- As duplas. – respondeu. – Eu e a , e ... Vocês duas, certo?... E o e o ! – Ele terminou de contar nos dedos, e não consegui entender como ele ainda tinha a capacidade de chegar ao número oito sem pular para o trinta e dois.
O que a gente ia jogar afinal? E por que o estava na parada se estava ocupado demais sendo lambido por aquela aprendiz de puta? E por que tinha que ser logo nós oito? ONDE EU ESTAVA?
Os quatro começaram a empurrar a gente pela festa até chegarmos do outro lado, onde poucas pessoas estavam espalhadas.
- Vai chamar o ! – ordenou e correu para a muvuca de gente enquanto elas arrumavam a mesa redonda e juntavam oito cadeiras no centro da área. Eu e nos olhávamos, sem entender o que estava acontecendo, e eu bebia mais e mais para passar o nervosismo. Algum tempo depois e chegaram, com e a sua puta de estimação pendurada nele. Ela passava as mãos pelo abdômen e pelas costas dele, sussurrando coisas em seu ouvido, e eu senti vontade de vomitar. Olhei direito para o rosto dela e não acreditei quando consegui identificar aqueles olhos verdes. Era Lyla, a ex-namorada dele do colegial, que eu só conheci por fotos. Ela estava ali. Se ela estava ali, eles estavam de volta, então... ELE MENTIU PARA MIM! Nossos olhares se cruzaram. Ele me olhou surpreso, provavelmente porque cheguei à festa e nem fui falar com ele. Abriu a boca para falar alguma coisa, mas retribui o olhar com o maior gelo que pude encontrar, e ele se calou. Virei outro gole da garrafa e me virei para a mesa que já estava sendo ocupado pelas pessoas bêbadas.
- Que porra é essa que vamos jogar? – Perguntei para as garotas. Sintetizando o álcool no meu sangue, a minha raiva e a minha curiosidade, nada de bom sairia mais da minha boca a não ser uma boa dose de palavrões e besteiras típicas de universitários – tirando o fato que eu não era universitária ainda. Eles estavam prontos para ver o lado da que eles não conheciam, o lado que atravessou oceanos. Eu estava pronta para topar tudo.
Elas sorriram maliciosas para mim e gritaram juntas:
- STRIP POKER!

Sábado, 23:35. Strip Poker.

Ok. Eu não estava pronta para jogar strip poker com meus amigos de infância. Talvez eu não fosse tão pervertida como pensei que fosse!
Mas que ideia idiota era aquela que eles tinham arranjado? Só não ganhava daquela viagem de ski que resolvemos apostar quem ficava mais tempo do lado de fora só de roupa íntima. Nunca vou esquecer os dias que pensei que ia perder o dedinho do meu pé. Por que não podíamos continuar na festa, dançando e curtindo, ao invés de ficarmos pelados durante uma partida de poker? estava prestes a chorar quando sentou de frente para ela com um sorriso contente nos lábios. Por sorte, eu tinha conseguido convencê-los que sapatos era uma parte do vestuário, depois de longos protestos vindos da parte masculina. Nojentos. Confiando nas minhas táticas de baralho aprendidas durante uma estadia em Dubai, acendi um cigarro como vários outros, e esperei.
- VAI ! – gritou, mais bêbado do que todos ali depois de inúmeros partidas, quando ela teve que tirar sua blusa depois de perder para ele. Pour Some Sugar On Me tocava alto no rádio improvisado por do nosso lado da festa, e meu cérebro precisava trabalhar em dobro para concentrar nas minhas cartas, já que eu não podia de forma alguma tirar a roupa. Os olhos de praticamente comeram viva quando a blusa dela voou na cara de e um sutiã branco de renda tomou conta da cena. Ela riu alto, envergonhada, mas logo se acostumou e esqueceu que costumava ser a garota mais tímida do grupo.
E era naquela hora que eu me perguntava por que não tinha saído com um conjunto mais decente.
Porque meus neurônios eram conservados em um potinho durante o fim de semana. Era por isso!
- POUR SOME SUGAR ON ME, IN THE NAME OF LOVE! – berrou no ritmo da música.
- POUR SOME SUGAR ON ME, C’MON FIRE ME UP! – gritou de volta e os dois balançaram a cabeça de um lado para o outro, sem se importar com o escândalo. Mas eu, eu estava mais concentrada.
Ergui meus olhos do meu baralho e encontrei os de . Ele me fitava com curiosidade, com um cigarro na boca também, e seus olhos me devorando com intensidade. Não tínhamos trocado nenhuma palavra durante toda a partida, apenas os olhares provocantes toda vez que eu batia na mesa e fazia alguém tirar a roupa, como eu o fiz tirar seus sapatos e sua camiseta, revelando o pecado que era o seu corpo novo. Além de mim, tinha me feito o favor de fazê-lo perder as calças, deixando-o apenas de boxer, perfeito para apreciar além da comissão de frente, a de trás, que Meu. Deus. Mais uma pecinha de roupa e eu poderia avaliar se eu investiria ou não nos finalmentes com ele. Eu parecia uma piriguete falando, eu sei, mas eu estava ensandecida por dentro! Agora que Lyla tinha ido embora – sabe-se lá por que diabos de motivo – ele não tirava os olhos de mim, como se quisesse me transmitir alguma mensagem telepática. Querido, eu ainda não tinha desenvolvido poderes psíquicos, se tivesse já estava casada com o Johnny Depp e amante do Harry do One Direction. Continuei o contato visual até que chutou minha perna para avisar que era a nossa vez. Acenei com a cabeça, tragando o cigarro, e peguei a carta, tentando me concentrar. Eu não podia perder. estava empatada com uma bêbada e derrotada, ultrapassadas apenas por , que também tinha mostrado seu bom gosto com lingerie exibindo um conjunto rosa pink nada chamativo. não tinha gostado da ideia, mas se ele topou jogar, não podíamos fazer nada a não ser ignorar a sua namorada só de calcinha e sutiã. Sorri maliciosa quando notei que tinha um dos jogos mais altos em mão, e isso queria dizer que eu arrancaria a última peça de roupa do , que já jogava na corda bomba usando apenas cuecas. Mostrei para e ela riu alto, tirei as cinco cartas sob os olhares atentos de todos e bati na mesa.
- Um Straigh Flash pra você. – E direcionei meu olhar ao seu peito nu, antes de subi-lo até o seu sorriso displicente. – Está pronto para mostrar o que você esconde ai debaixo dessa sua cuequinha? – Perguntei irônica. Todos na mesa assoviaram surpresos. Não tinha como me bater. Eu era a rainha do Poker naquela mesa. Eu era a única que ainda mantinha a dignidade tendo perdido apenas os sapatos e a jaqueta.
- Are you brave enough to let me see your peacock?! – cantarolou, rindo desesperadamente.
Mas não parecia irritado ao ter que ficar nu. Deu sua tragada no cigarro e o depositou no cinzeiro ao seu lado, com uma calma impassível.
O que eu tinha feito de errado?
- Boa tentativa, Lady Gaga. – se dirigiu a mim pela primeira vez no dia, com a maior cara de canalha que eu já havia visto. Ergui a sobrancelha para ele, indagando o que ele estava querendo dizer. – Mas a sua blusa é minha. – Com o maior gostinho de vitória, bateu cinco cartas na mesa e cruzou os braços, destacando seus músculos e seu abdômen admirável. Senti o suor brotar na minha testa e minha espinha gelar. Me inclinei para frente e vi o jogo. – Um Royal Flash. – Ele sorriu largamente e os garotos assoviaram alto batendo palmas. gemeu e se abaixou na mesa, querendo se matar. – Poker face para você. – Piscou para mim, tentando me intimidar.
Abri a boca, incrédula.
- SE FODEU, ! – gritou gargalhando e ergueu a mão e o copo para eles baterem.
- É... Nunca cante vitória antes da hora. – piou do seu canto e eu fechei a cara.
Sem querer acreditar que eles me fariam mesmo tirar minha blusa, bufei frustrada. Muito bem, se era assim, eu entraria no jogo, e agora eu jogaria com tudo. Levantei com tudo da cadeira e tirei minha blusa, revelando meu sutiã azul claro. Enrolei a blusa com força na mão e joguei com tudo na cara de , que riu alto e guardou para si, da mesma forma que fiz com suas roupas. Os garotos assoviaram e eu rolei os olhos, me sentando de volta.
- Se prepare, . Da próxima vez, você nem vai mais ter o que tirar. – Rosnei me ajeitando na cadeira.
- Vou adorar quando eu tiver que falar isso para você. – Ele rebateu encarando meu busto, e virando outro shot de tequila que distribuímos. Fiz o mesmo, sorrindo cinicamente e cruzei os braços.
- Se for pra ficar de provocação acho melhor a gente jogar verdade e consequência. Ai quem quiser já passa a mão e quem quiser fica bêbado de vez. – abriu a boca e falou a maior merda da história.
Todos pararam de conversar e olharam para ela. Arregalei os olhos em sua direção e a sua mão subiu do seu colo até sua boca, tampando-a em seguida. Cochichei um “cala a boca, sua idiota”, mas já era tarde. Todos já tinham adotado a ideia. ergueu a sobrancelha em minha direção, e rolei os olhos.
- Tô achando isso muito aberto. Perai, perai. Vamos escolher as regras... Por que se não acaba a amizade! – questionou, querendo defender a honra da sua namorada.
- A REGRA É NÃO TER REGRA! UHUL! – se manifestou erguendo uma garrafa de tequila e virando no gargalo, deixando escorrer pelos cantos da boca. Seu nível médio de decibéis já estava mais alto do que de todo mundo de tão bêbado que estava, apesar de que não passava muito longe. Ela me odiaria para sempre depois daquele dia, eu sabia disso.
- querido, ninguém aqui vai encostar na , ok? – ergueu as mãos na altura dos ombros em um gesto de defesa.
Era claro a meu ver que a única pessoa que queria encostar era . Assim como só olhava para o colo descoberto de e eu encarava cada mínimo detalhe de , sentindo meu corpo esquentar mais a cada segundo. E não era só por causa da bebida. Apesar de estar fula da vida com ele, eu estava mais pensando em como deveria ser desfrutar do seu corpo com as mãos, além dos olhos que já estavam até maiores depois de absorver tanta beleza. Os “casais” já estavam formados, alguns querendo ou não.
- Eu... Eu acho que eu topo... Ich. Isso se a gente não... Tiver que... Ich. Fazer strip tease... – ergueu o dedo, pronunciando sua opinião em meio a soluções. Já estava até embolando nas palavras. Os sete se entreolharam, enquanto eu permanecia com os olhos fixos no meu jogo, fingindo não estar presente. Traguei meu cigarro algumas vezes durante a discussão, mas acabei desistindo e o larguei apagado no cinzeiro. choramingava, no seu estilo bêbada melodramática, dançava sozinha em sua cadeira, tão alegre que não parecia perceber o que estava acontecendo ao seu redor. e discutiam sobre os limites do desafio, e permanecia calado, se divertindo com a situação. Não demorou muito e as cartas voaram para longe e os copos e as garrafas foram carregados para o chão frio, onde uma nova roda se formou. Só conseguia pensar que estava aliviada, não perderia as calças tão cedo para o . Peguei a garrafa que seria usada e virei de vez para esvaziá-la. Todos riram da minha iniciativa e eu me curvei esperando palmas. Entreguei a garrafa e sentei, confortavelmente, esperando.
A garrafa vazia rodou e parou em mim e em . Que destino bonzinho comigo, não? Papai do céu estava revogando minhas mordomias concedidas no dia anterior dando uma chance a ela de se vingar. me olhou, e seus lábios se ergueram em um sorriso tão perturbado que se ela não fosse minha melhor amiga eu poderia jurar que estava prestes a me matar e me pendurar em uma árvore como troféu em sinal de vingança.
- Verdade ou desafio, ? – Ela perguntou, com a voz baixa, como se seus olhos pudessem ver minha alma.
- Desafio. – Murmurei em resposta, querendo saber até onde ela poderia chegar.
- Eu te desafio a tirar as calças.

Domingo, 01:12. Verdade ou Consequência.

PALHAÇADA! ISTO É UMA PALHAÇADA! – berrou com todos, mais alterada do que nunca. Gritava, apontando o dedo cegamente para o primeiro que via na frente, querendo reivindicar a sua consequência. – Eu não vou em hipótese alguma beijar o de língua! Não quero pegar AIDS!
Balancei a cabeça no ritmo da música, Mr. Saxobeat, tentando abstrair a discussão que já durava cinco minutos. Beijar era o mínimo, se ela tivesse que fazer o que eu fui obrigada a fazer ai sim a porra ia ficar séria.
- Você que deu a ideia do jogo... Pediu consequência e agora tá ai... Re... Reclamando? – rebateu, apenas se mantendo sentada por causa do apoio oferecido por . Cambaleava feito uma mesa com uma perna quebrada. – Beija logo ai, caralho. Pelo menos você não teve que... Que deixar um chupão no pescoço da igual a ali teve! – Ela apontou para mim e eu choraminguei certa de que o trauma daquela noite permaneceria para sempre na minha vida.
No ano e meio que passei fora experimentando novas culturas, nunca me senti tão emporcalhada quanto me sentia naquele momento. Só de calcinha e sutiã, sentada no chão gelado de uma festa de reencontro de amigos de escola, a maioria em estado de PT, tendo que aturar provocações da minha ex-paixonite do secundário e ainda por cima, bancando a lésbica, fazendo chupão em pescoço de amigas e lambendo limão com sal da barriga de outra. A casa dos vinte é uma coisa do caralho mesmo.
- Ah, ! Para de bancar a santa. Até parece que você nunca deu pro e tá ai reclamando que tá com medo de pegar AIDS. – reclamou debochado e quase voou no pescoço dele, sem acreditar na vergonha que estava passando. – O é um daquelas prostitutas africanas que tem AIDS, mas não transmite, relaxa ai... – Deu com a mão, engasgando com sua própria risada.
- VAI LOGO, ! – Berrei e ela me mandou dedo. Respirando fundo, ela se aproximou do meio da roda e fez o mesmo. Se encararam por alguns segundos, e senti pena de ambos. Dela por estar tendo que fazer tudo aquilo, e dele, por ser tão rejeitado publicamente. agarrou os cabelos de e o puxou para mais perto, encostando suas bocas de uma vez. Ele arregalou os olhos, surpreso, e colocou sua mão livre atrás do pescoço dela, para mantê-la por perto. assoviou, rindo alto. O beijo que deveria durar vinte segundos ultrapassou a marca dos trinta cronometrados por desde a fase do lento até o desesperado, e não parou até que os dois perderam o fôlego e tiveram que se separar. Bati palmas me divertindo ao ver o quanto o casal ficou constrangido. Se entreolharam, com mais desejo do que antes, mas ela desviou o olhar, ainda vermelha. Pegou a garrafa e rodou.
Quando parou em mim e , senti meu estômago, já vazio, embrulhar de vez. Ao menos era eu quem perguntava.
Olhei em seus olhos e ele sorriu tranquilamente, como se nada o atingisse. Mas ainda assim, eu conseguia identificar aquele homem de ontem no fundo do seu olhar, que me penetrava de uma forma que ninguém nunca conseguiu. Gostaria de saber onde ele estava agora.
- Verdade ou consequência, ? – Perguntei, tentando manter minha respiração regular. Estava prestes a cair no chão em um ataque epilético de tanto que tremia. Mordi a língua, me concentrando em parecer séria. O álcool aquecia o meu corpo, e fazia meu cérebro virar gelatina.
- Verdade. – Ele respondeu com a voz rouca, me encarando ainda, agora sem aquele sorrisinho no rosto. Era intenso demais.
Se eu me demorasse demais nos seus diamantes que ele chamava de olhos, o mundo inteiro poderia evaporar e eu não perceberia. Seis anos se passaram, e ele teve a capacidade de multiplicar por seis a forma como conseguia me tirar do mundo real.
Verdade. O que diabos eu poderia perguntar para ele? “Por que você mentiu para mim?”, “Você e Lyla estão juntos ainda?”, “Como se sentia sobre mim na escola?”, “O que sabe sobre mim que eu nunca te contei?".
Respirei fundo, procurando as palavras perfeita para a pergunta certa. Era a minha única chance de saber qualquer coisa ao respeito daquele garoto de catorze anos, ou daquele homem de vinte, parado na minha frente. Sempre achei que sabia tudo sobre ele durante nossos anos no secundário – sua cor favorita, sua data de aniversário e o que não gostava de fazer –, mas percebi que era tudo mera ilusão. sempre fora uma caixa lacrada, e raramente deixava alguma coisa sobre ele mesmo escapar, e eu me perguntava quem era capaz de abri-la. Ora doce e simpático, ora egoísta e egocêntrico. Sua mente parecia impossível de desvendar, e esse fora o meu maior desafio. Talvez fosse por isso que ele nunca deixou de ocupar um espaço na minha cabeça e no meu coração.

Jefferson Secundary School, 2006.

Entrei na sala de aula sentindo a minha respiração irregular tomar posse dos meus pulmões mais uma vez. Tinha tropeçado no mínimo duas vezes em meus próprios pés durante o trajeto pelo extenso corredor, bati de frente com dois alunos desconhecidos e precisei parar no banheiro para secar o suor que brotava na parte de trás do meu pescoço. Aproveitei para checar meu visual, e suspirei derrotada ao ter certeza que aquele aparelho não sairia dos meus dentes instantaneamente, e eu não perderia cinco quilos em um passe de mágica. Aquela maquiagem básica era o máximo que eu conseguia chegar ao nível de perfeição, que estava longe de ser alto. Ajeitei minha mochila nas costas e corri para a última aula, rezando, com os dedos cruzados, para que a carteira ao seu lado estivesse vaga. Mais uma vez, cheguei tarde demais.
repousava tranquilamente sentado na sua carteira de sempre, como se mandasse no lugar, enquanto brincava com um lápis entre os dedos. Sua expressão de satisfação emanava uma autoconfiança invejável, que eu acreditava que nunca teria. Do seu lado direito estava Chelsea, uma das garotas mais bonitas e mais legais da turma, e do outro Rose, melhor amiga de Chelsea e chiclete oficial do garoto. Eles conversavam em um tom animado de quem comemorava o último dia de aula, provavelmente fazendo planos para o verão perfeito que passariam na praia, enquanto eu, a rejeitada, iria para a casa da minha avó no interior. Encaminhei-me para uma carteira bem longe deles, e me sentei do outro lado da meia-lua que as mesas formavam. A professora de Inglês gostava da “interação entre os alunos” para deixar a aula mais “divertida”. Certo. O meu papel nessas aulas era ficar calada, rindo de qualquer piada e respondendo as perguntas perfeitamente.
- Hey . – sorriu para mim quando me joguei ao seu lado, derrotada. Aquela era a minha última chance possível de conversar com antes que o ano acabasse e ele saísse de uma vez por todas da escola e se mudasse para a que seus pais o obrigaram a ir. E mais uma vez, deixei a chance passar por ser a pessoa mais covarde e boba daquela escola inteira. Ele sairia da minha vida sem saber que eu existia de fato.
- Hey. – Murmurei de volta, perdendo toda a vontade de me comunicar com a turma e desejar um bom verão. Agora não podia esperar para aquela aula acabar e eu correr para casa e chorar pelos próximos três meses. Talvez fosse o destino me forçando a ver que nunca poderíamos ficar juntos. diria isso.
A aula passou tão rápido quanto uma velhinha atravessando a rodovia de andador. A cada risada que e as duas garotas deixava escapar, mais eu me afundava na cadeira, desejando desaparecer para sempre dali. Algumas duas vezes encontrei seu olhar e ele sorriu para mim, descontraído. Foi o bastante para manter a chama acesa dentro do meu peito, aquela que me levaria de volta para casa no fim do dia. A aula finalmente terminou e a professora se despediu de nós com um poema encantador de F. Scott Fitzgerald. Apeguei-me naquelas palavras com um fio invisível de esperança, e me levantei para arrumar minhas coisas. me deu tchau e saiu da sala para encontrar e do lado de fora. Eu estava sozinha.
Estava prestes a sair da sala quando deixei um livro cair no chão. Um solitário apareceu e se abaixou para pegá-lo antes de mim.
- Ahn, obrigada. – Murmurei, deixando meu rosto corar de uma forma involuntária. Era sempre assim.
- Como consegue ser tão estabanada, ? – Ele perguntou, enfiando as mãos nos bolsos.
Soltei uma risada, como sempre fazia com qualquer coisa que ele falasse. Odiava ser chamada pelo meu nome inteiro, mas só o fato dele saber meu nome já era como chocolate quente em um dia frio. Naquele momento, meu coração parecia querer sair pela boca, mas eu tinha que me manter firme. Eu nunca era boa com palavras perto dele. Poderia ensaiar uma conversa em minha cabeça durante a noite toda, mas quando falasse com ele no dia seguinte, nem ao menos metade dela era dita.
- É um dom. – Respondi. Ele acenou com a cabeça, achando engraçado.
- É um dom tropeçar em tudo o que vê? – Ele brincou, e eu sorri tímida. Fechei a boca na mesma hora me lembrando que meu sorriso não era bonito. Ele me olhou de lado, parecendo intrigado.
Aquela era a minha chance. Mordi o lábio e perguntei.
– Então... O que vai fazer no verão, ? – Me postei na sua frente, ignorando que meu material precisava ser guardado.
- Algo que não é da sua conta. – Seu tom, sempre debochado, saiu como quem queria me humilhar e brincar comigo ao mesmo tempo. Para ele parecia normal. Para mim, sufocante.
- Eu não queria mesmo saber. – Rebati, tentando parecer indiferente com sua grosseria. Ele não fazia por mal, eu gostava de acreditar.
- Hey ! – Chelsea gritou da porta. – Você não vem? – Ela perguntou com aquele sorriso lindo estampado no seu rosto.
Como eu gostaria de ter um sorriso daquele, que o faria sorrir de volta como ele sempre fazia.
- Estou indo. – Respondeu para ela, me olhando de relance como se eu fosse apenas um caderno esquecido sobre uma carteira.
Achei que fosse ao menos me dar um digno adeus, mas o máximo que ele conseguiu fazer foi sair pisando na minha mochila jogada no chão, e deu de ombros ao chegar na porta. Cercado pelos amigos, me deixou ali.
- Adeus . – Não deixei de dizer. Mas ele não me respondeu.

Domingo, 01:16. Verdade ou Consequência.

Todos nos olhavam curiosos, mas apenas conseguiria entender o que se passava nos meus pensamentos. Se bem que ela estava ocupada demais anestesiada pela sua consequência com , e agora cantava Save The World pelas metades, com os olhos fechados, como se tivesse sido retrograda para os anos 60 e dividisse palco com o próprio John Lennon. Talvez fosse melhor deixá-la no canto dela. me fitou, e ver o seu peito nu subindo e descendo no ritmo da respiração me incentivou a continuar. Se ele não foi capaz de gostar da garota que mais o amou durante sua adolescência, duvidei que poderia responder aquela pergunta agora que era apenas um universitário galinha. Me ergui para ficar mais alta que todos sentados na roda, e seus olhos caíram sobre os meus peitos semi-descobertos. Talvez Strip Poker não tivesse sido uma ideia tão ruim. Agora ele podia ver o que tinha perdido.
Me ajeitando sobre minhas pernas, o encarei.
- Você já amou alguém de verdade, ? – Minha voz saiu baixa, como veludo. Eu podia sentir o rancor na minha pergunta, a raiva de ter desperdiçado a minha adolescência fixada em um garoto estúpido que nunca se importou de verdade com qualquer coisa que acontecesse comigo. Se pudesse eu voltaria no tempo e arrancaria meu próprio coração no dia em que meus olhos pousaram nele pela primeira vez. A saudade que doía no meu peito não deveria incomodar mais, mas eu sabia que estava longe de se curar. – Além da sua mãe e de você mesmo, já foi capaz de realmente se importar com alguém? – Cuspi as palavras.
Achei que ele fosse me olhar surpreso, mas mais uma vez me surpreendeu. Permaneceu imutável. Impenetrável era o seu olhar, e eu o sustentei. me olhou confusa e assoviou baixinho. talvez fosse o único que tivesse entendido a indireta na pergunta, ele era bom em desvendar mistérios.
- Pensava que não. – respondeu. Sua voz manteve o tom da minha, deixando a brincadeira cada vez com menos cara de brincadeira. Somente parecia se divertir. Me mexi inquieta, sem conseguir desviar o olhar. – Mas agora nem sei mais. – Ele completou.
Minhas mãos se moviam sem meu consentimento, em uma vibração constante. Um soco atingiu meu estômago e a ânsia de vômito se manifestou. Milhares de borboletas voavam sem sentido dentro de mim, e acho que engoli em seco três vezes para não deixar um suspiro escapar por entre meus lábios.
- Eu preciso de mais bebida. – quebrou o clima na mesma hora, assustada com a intensidade dos olhares. Pegou uma garrafa do lado da roda e despejou no seu copo, o que se seguiu por todos da roda, até o meu. Desviei o olhar, sentindo minha cabeça dar uma cambalhota de tão confusa, sem entender o que aquela resposta queria dizer. Virei o copo de uma vez, e não olhei para frente de novo.
rodou a garrafa quando Party Rock Anthem começou a tocar, e se deixou levar, dançando de um lado para outro. e se beijavam desesperadamente, e quase não notaram a garrafa parando em e .
- Por favor, não me peça para lamber nenhum cara. – Ele pediu e eu gargalhei, tentando descontrair, esquecendo a presença de .
- Verdade ou consequência, zinho? – perguntou, tentando se livrar das cócegas oferecidas por um malicioso.
- Consequência! – Ele pediu e fizemos um coro. -
Ok. – Ela sorriu pervertida e assoviou. Ela sussurrou alguma coisa no ouvido dele e ele concordou, animado. – Te desafio a tirar a calça da . – Ela deu com a cabeça na direção da garota tímida, que bebericava seu quinto copo de batidinha, distraída. – Com. A. Boca. – Terminou.
- O QUÊ? – berrou, e sua boca caiu tanto que parecia que não voltaria para o lugar.
- AGORA A PORRA FICOU SÉRIA! – gritou batendo palmas e eu gargalhei de novo. Até entrou no ritmo e começou a rir junto, sem conseguir parar. parecia que tinha levado uma chinelada na cara de tão vermelha.
- A não ser que queira a segunda opção. – sugeriu. Todos olharam para ela, e ela incentivou a responder.
- Tirar a cueca do com a boca. - Ele deu de ombros e arqueou as sobrancelhas para o amigo. se manifestou aos berros, implorando para deixar pegar a primeira oferta, e eu ria alto. suspirou, deu de ombros, e se deitou parcialmente para se aproximar dela. Nunca quando eu estava com meus quinze anos imaginava ver aquilo acontecer.
- PARTY ROCK IS IN THE HOUSE TONIGHT, EVERYBODY JUST HAVE A GOOD TIME! – gritou no ouvido de erguendo os braços e os balançando. O único problema é que parecia que ela estava ouvindo alguma música do Elton John no ritmo em que se balançava e não do LMFAO.
Observei de camarote a cena provocante dele tentando abrir o botão com os dentes, e apoiada nos seus cotovelos rindo envergonhada. Ela o ajudou a passar pelo botão depois de cinco minutos insistentes, e ele conseguiu fazer o resto com os dentes. Ele aproveitou a chance para roçar sua língua e seus lábios pela barriga e os quadris dela, descendo pelas pernas conforme as calças eram tiradas com a boca. escandalizou aumentando o som, e quando elas chegaram aos pés de , ele não aguentou e as arrancou com as mãos. “EEEEE AI NÃO VALE!”, gritou indignada. Ignorando-a, lançou um olhar devorador na direção de uma só de calcinha e sutiã, e sem conseguir se conter, a puxou para perto para beijá-la na boca. Sem pestanejar, ela se jogou no colo dele e o beijou de volta, liberando aquele desejo implícito durante a noite toda.
- PARA, PARA! NÃO FOI ESSE O COMBINADO! – gritava, e os dois ignoravam, correndo suas mãos por todas as partes do corpo possíveis.
- Rodando a garrafa! – sorriu amarelo e rodou mais uma vez, deixando os dois de lado. Quando ela parou em mim e nela, começamos a rir alto.
- Vai me fazer tirar mais alguma coisa agora, sua vadia? – Perguntei e ela mandou dedo.
- É marmelada isso, hein! – protestou. – É chuchu! As duas de novo?! NÃO VALE!
- VERDADE OU CONSEQUÊNCIA? – elevou sua voz para passar por cima dos protestos dele.
- Verdade. Suas consequências não me atraem! – Reclamei e ela riu, me olhando com aquele olhar demoníaco, dessa vez vesgo.
- ... – Ela começou, tamborilando os dedos no chão, e um sorriso maléfico brotou em seus lábios umedecidos pela sua língua. – É verdade que você era apaixonada pelo na oitava série?
Ela jogou a bomba de uma vez só. Foi tão rápido que mesmo que eu quisesse, não poderia ter evitado das palavras saírem da sua boca. tinha feito a única pergunta do mundo que ela não poderia ter perguntando. Podia ter me perguntando sobre cães abandonados, aquecimento global ou compras de supermercado. Mas putaqueopariu, ela tinha mesmo que ter perguntando do ? estava bêbada. Essa seria a frase que eu teria que obrigar meu cérebro a decorar toda vez que eu olhasse para ela a partir daquele momento.
- Hã? – saiu do colo de .
- Quê? – tirou a garrafa número três da boca.
- Coméquié? – desgrudou seus lábios dos de .
Todos os olhares se voltaram para mim. Tentei não engolir em seco. Tentei não piscar demais. Tentei não tremer. Tentei não chorar. Tentei não gritar. Tentei não respirar fundo. Tentei não respirar. Permaneci imóvel, e só movimentei meus olhos, desde os meus amigos, passando por uma divertida... Até . Eu poderia jurar com toda a minha devoção ao meu Santo Expedito, santo das encalhadas, que sua expressão estaria da mesma forma que esteve na maior parte daquela noite: Impenetrável. Mas parecia que ele gostava de me surpreender. Quando viu que olhei para ele, suas sobrancelhas se arquearam, demonstrando surpresa, e seus lábios nem ao menos se mexeram.
Filho da puta! Como ele me vinha com essa de surpresa a aquela altura do campeonato? Não custava bancar o incrédulo como todas as vezes que se dirigiu a mim? Aquilo provavelmente era a cena mais constrangedora da minha vida. Sendo encurralada assim pela minha melhor amiga na frente de todos os meus amigos de infância. Eu tinha que encontrar uma forma de responder sem parecer incomodada. Respirei fundo e olhei ao redor antes de responder.
- Sim. – Deixei a palavra sair da minha boca com a mesma suavidade que uma pena pousa em uma superfície. – Eu era apaixonada pelo . – Repeti a frase, e por mais estranho que fosse dizer algo daquele naipe em voz alta, forcei ao máximo para deixar o desprezo tomar conta do meu rosto e das minhas palavras.
Todos soltaram um assovio, pasmados, e em cada extremo da minha visão pude ver se surpreender mais ainda, e dar um sorriso maléfico. Eu só esperava que ela soubesse que tinha arruinado tudo, inclusive qualquer chance que eu poderia ter tido com ele. Se dois minutos atrás ele estava me achando incrivelmente mudada e sexy, agora sua mente deveria estar cheia de conclusões maldosas sobre aquela garotinha de doze anos que não deixou de ser estúpida em nenhum segundo sequer. Talvez não fosse o pica das galáxias em questão de sentimentos, mas ele devia saber que é na pré-adolescência que se constrói o primeiro amor, e primeiro amor nunca se esquece. Ou seja, todo esse tempo que gastei tentando impressioná-lo foi por água abaixo a partir do momento em que ele soube que nunca tinha deixado minha cabeça. E de repente todas as cenas constrangedoras que tive durante minha vida toda foram deixadas para trás para dar lugar àquela. E era por isso que eu precisava sair dali o mais rápido possível.
- ? Que história é essa? – perguntou chocada.
- Eu tinha uma super paixão platônica pelo durante minha adolescência escrota e que nunca contei para ninguém. Felizes? – Soei seca e irritada. Aproveitei minha raiva e me virei para . – Obrigada, . Muito obrigada. – Sorri cínica para ela e não esperei mais nenhum minuto.
Levantei do chão frio e fui até a pilha que minhas roupas estavam. Eu sabia que todos me observavam, mas não me importei. Eu não queria pensar no que cada um deles estava pensando. Sair daquele jeito só daria mais o que pensar a eles, mas eu não queria mais ficar ali. Talvez Londres nunca tivesse sido meu lugar e reviver aquelas lembranças só tivesse sido uma perda do tempo que eu teria que recuperar longe dali. Peguei minhas coisas como pude e saí da área reservada para a bagunça que existia ainda do outro lado apenas de calcinha e sutiã

Domingo, 01:57. Terraço.

Fiquei bons quarenta minutos apreciando um drink preparado por um barman vesgo, sentada à beira da grade que cercava o terraço. Já estava dentro das minhas roupas de novo e ignorava o resto do mundo que dançava We Found Love ao meu redor. Estava me sentindo envergonhada e humilhada, mas ainda assim tinha ficado. Talvez minha intuição feminina estivesse me avisando que ficar era a minha única opção, ou talvez eu não estivesse corajosa o bastante para ir embora. Algo precisava ser terminado, eu sabia. E se eu fosse, ficaria não resolvido para sempre.
- . – Sua voz era como música para meus ouvidos, e eu lutei contra os espasmos do meu corpo para não me arrepiar. Fechei os olhos antes que ele se encaixasse no meu campo de visão e atrapalhasse meu raciocínio que já não era dos melhores.
- . . – Falei em alto e bom som, erguendo meu nariz para a lua e apertando meus olhos mais ainda. Eu parecia tão debochada quando a Nana Gouvêa nos desastres do furacão Sandy.
- A esse ponto achei que tivesse ido embora. – Ele comentou e eu soube que estava se aproximando.
- Suposições podem ser revisadas. – Dei de ombros abrindo os olhos, mas me virando para o outro lado ao mesmo tempo. Ainda precisava me preparar psicologicamente para conversar com ele cara a cara.
- Estou tentando entender porque parece ser tão embaraçoso para você admitir que tinha uma paixonite por mim no secundário. Várias garotas também tiveram. – Ele foi tão direto que me pareceu que uma faca atravessava meu estômago e me fazia quase golfar. Esse seu dom de ser egocêntrico costumava me incomodar. Mas agora se nem e namorando ou e se pegando me incomodava, o seu egocentrismo podia ser deixado de lado.
- Você simplesmente não entende. – Ri, me sentindo amarga. – As coisas nunca foram tão fáceis como você pensa, . – Admiti.
Se ele queria tanto saber a verdade, talvez fosse mesmo a hora certa de contar tudo de uma vez.
- Eu gostaria de saber por quê. – Ele insistiu. Respirei fundo e me virei para ele, encontrando um belo par de olhos me fitando com a maior tranquilidade do mundo. Ele estava usando suas roupas de novo, mas ainda assim o calor que ele possuía emanava de seus poros e me atingia através da respiração e da visão. Era tão difícil não hiperventilar com sua presença.
- Não foi uma simples paixonite que eu tive por você, ok ? Eu passei anos obcecada por você. - Me postei na sua frente e comecei a falar. Dessa vez eu falaria tudo, e ele teria que me ouvir. - Eu perdia horas e horas de sono só configurando em minha cabeça uma conversa entre nós dois que nunca aconteceria. Uma conversa que não acabasse em uma patada sua ou em uma besteira que eu era camisa 10 em cometer. Você não tem ideia do quanto era difícil assistir você xavecar todas as garotas da escola, menos a mim, a única garota que era única e exclusivamente apaixonada por você. E isso só acontecia porque eu não sabia me comportar perto de você, e é claro, porque eu não era bonitinha igual todas as outras. Pode parecer patético, mas eu nutri um grande sentimento por você que até hoje não sei explicar. Uma espécie de amor incondicional que demorou anos para sair da minha cabeça por completo, mas que ainda assombrava meus sonhos à noite, me perturbando porque sempre deixei não resolvido. Uma paixão platônica boba e sem resultados que me fez quem eu sou agora. Se de alguma forma eu cresci e me tornei a pessoa que você acha que admira agora, é por sua causa. É porque a cada mudança que eu fazia, eu percebia que estava fazendo para suprir todas as falhas que você apontava em mim quando eu tinha só treze anos. Te reencontrar depois de tanto tempo, depois de eu ter me convencido que nunca mais te veria, foi mais do que um baque para mim. Foi uma forma de me fazer ver que eu podia acreditar o quanto quisesse que estava recomeçando a minha vida, mas eu nunca poderia iniciar um novo livro sem concluir o último capítulo do anterior, que era você.
- , eu... – Ele gaguejou, tentando absorver tantas palavras que eu cuspi com tanta facilidade que nunca imaginei que poderia. Aquelas palavras estavam entaladas por tanto tempo na minha garganta que a primeira oportunidade que tive elas quase pularam para fora sozinhas. Eu estava o assustando, definitivamente. Mas eu não ligava mais.
- Eu sei que não era e nem é recíproco agora. Eu não sinto o mesmo que naquela época, só para deixar claro. Eu sei que estou te assustando com essa avalanche de sentimentos agora, a essa hora da noite em uma festa que tem mais gente vomitando no banheiro do que em Woodstock, mas eu estou tentando resolver isso de uma vez por todas. Não foi para isso que eu vim aqui, eu admito. Eu vim aqui com as piores intenções porque achei que poderia resolver tudo isso de uma vez com você entre quatro paredes. Uma maneira presunçosa de pensar, eu sei, mas desde ontem eu não consigo parar de pensar no quanto nós dois mudamos e no quanto nossos corpos se atraem de uma forma espetacular. Mas já que as coisas tomaram esse rumo, é melhor eu falar de uma vez tudo o que estava na minha cabeça há mais de seis anos. A forma como você mexeu comigo não acontece com qualquer um, e eu ainda estou tentando descobrir se valeu a pena ou se te reencontrar foi só a prova viva de que eu sempre fui uma tonta e que você nunca vai mudar.
Eu soava desesperada e patética, e carente, mas em minha cabeça eu arquitetava um plano em que eu voltaria para as Filipinas e nunca mais o veria. Era só deletar ele e todos os amigos dele do Facebook e ninguém nunca mais saberia de mim. Eu só precisava acabar de uma vez com aquilo tudo para poder seguir em frente.
- , por favor, cala a boca. – Ele pediu. Arqueei as sobrancelhas, surpresa. – Cala a boca porque desde que você tropeçou em mim ontem naquela livraria e caiu de quatro na minha frente eu só consigo pensar que eu sou o homem mais cagão do mundo por te reencontrar solteira depois do que o tempo fez com você. – Ele continuou. - E eu estou me segurando para não rir porque você pode ter mudado por fora, mas continua a mesma garota que não sabe parar de falar e que vive intensamente até a vida de um peixe de aquário.
Abri a boca, tentando raciocinar e ver se era aquilo mesmo que eu estava ouvindo e entendendo. Eu estava expondo meus sentimentos de adolescente e ele estava falando que me achava gostosa e que eu era emocional demais? Seu lado antigo e o lado novo oscilavam em minha cabeça e eu não sabia mais em qual acreditar. Num garoto que não mudou nada e que tinha o emocional de uma pedra ou no homem que ele aparentava ter se tornado? Por que ele não poderia ter só um lado como todas as pessoas normais? Oh, porque se ele tivesse, eu nunca teria me apaixonado por ele.
- E agora ouvindo tudo isso vindo da sua boca, eu tenho certeza que essa porra de destino existe mesmo e ele decidiu que estivéssemos aqui esta noite colocando todas as cartas na mesa, e esclarecendo o que quer que esteja errado para você, porque para mim nada nunca esteve errado. Eu não sei como fui o tapado o suficiente para nunca te notar naquela época, mas eu só sei que eu quero te beijar logo e resolver tudo isso depois. – Ele concluiu parecendo embasbacado com suas próprias palavras, mas isso não o impediu de se aproximar de mim e me puxar pela cintura para grudar seus lábios aos meus, me trazendo ao nível extremo de surpresa.
Foi como um choque de eletricidade, o encontro entre o fogo e o gelo, entre lados opostos de um ímã. Eu tinha sonhado tantas noites com aquele beijo, e de longe minhas expectativas alcançaram a realidade. Aquilo estava acontecendo. Em uma festa de universitários bêbados, eu estava realizando meu sonho de adolescente, envolvida nos braços de , o pitelzinho da minha oitava série que eu achei que nunca mais veria.
Ficamos algum tempo com as bocas coladas, respirando fundo, até eu criar coragem o bastante para permiti-lo avançar com sua língua para dentro da minha boca. Eu acreditava com todas as minhas forças que poderia desmaiar a qualquer momento, ou que eu acordaria de mais um sonho sem fundamento. Mas tudo continuou indo e indo, e eu só pude ir me assegurando que não perderia nenhum momento. O contato da sua língua quente com a minha, explorando cada centímetro da minha boca era inexplicável. Eu sempre soubera que o filho da puta do era experiente no que ele quisesse ser, mas poder desfrutar de qualquer uma de suas habilidades era mais excitante do que vê-lo tirar a roupa para mim no Strip Poker. Me agarrei aos seus músculos e ele me puxou para mais perto, correspondendo a atração. Enrolei meus braços em seu pescoço e embrenhei meus dedos em seu cabelo curto e suado. Suas mãos passeavam pelas minhas costas e alcançaram meus glúteos. Saber que ele estava apreciando cada um dos meus atributos me dava uma sensação de poder inigualável. Eu continuava me lembrando de que estávamos em público, mas ninguém parecia reparar em mais um das dezenas de casais que se pegavam sob a luz da lua. Continuamos nos explorando com as mãos e com os lábios até que a respiração faltou e nos separamos por alguns segundos para respirar.
- Chega a ser engraçado isso tudo estar acontecendo depois de tanto tempo. – Comentei, ainda com a testa colada a sua. Nossos sorrisos se encontravam e nossos olhares se misturavam, aumentando o fogo que eu já estava acostumada a sentir em sua presença. Ele concordou com a cabeça antes de me beijar mais uma vez, dessa vez distribuindo mordidas desde o meu lábio inferior até o pé da minha orelha.
Estar ali com ele, sentindo o seu cheiro de perfume importado que eu reconhecia como o mesmo de seis anos atrás, era surreal. Me trazia de volta lembranças boas e ruins de quando éramos jovens e sem experiência alguma. Uma garota boba e iludida e um garoto arrogante e pra frente que não sabia o que era ser amado. Aquela cena... Fazia parecer que ele nunca tinha ido embora, e eu nunca estive com o coração partido. Eu sabia que aquilo afloraria dúvidas na minha cabeça, maiores do que as que eu já tinha, mas eu só queria deixar as complicações para o dia seguinte. Eu só precisava tê-lo comigo pelo resto daquela noite e esquecer que ele nunca poderia retribuir tudo o que eu já tinha sentido por ele.
- . – Ele murmurou, respirando perto do meu pescoço. Respondi com um resmungo, absorta demais naquela imagem de nós dois que se formava em minha cabeça. Eu não queria conversar, só queria desfrutar daquele momento. – Eu preciso te mostrar uma coisa.

Domingo, 02:15. Apartamento dos garotos.

Entrei na frente dele no apartamento claro e espaçoso e me espantei com a bagunça que tomava o lugar. Eles estavam falando sério sobre a desordem. Antes que eu pudesse continuar raciocinando, me agarrou por trás e começou a distribuir beijos pela minha mandíbula. Gemi, deliciada com a sensação enquanto ele me guiava pela sala de estar.
- Queria mesmo me mostrar uma coisa ou foi só uma armadilha para me trazer até aqui, espertinho? – Perguntei, tentando controlar meus batimentos cardíacos ao mesmo tempo que tomava notas dos detalhes do apartamento. Era a cara dos três juntos, e mesmo com toda aquela zona, eu poderia passar o dia ali de tão confortável que era.
- Eu tenho mesmo algo para te mostrar. – Ele riu com a voz rouca, e me puxou então até o que deveria ser seu quarto. Era grande, e cheio de coisas que só um homem como ele poderia ter ainda. Desde uma prancha de surfe até um amplificador do outro lado, todos limpos e arrumados pela famosa empregada. Me sentou na cama e se virou para buscar algo dentro de um armário. Esperei pacientemente até que se virou de novo para mim, ficando de joelhos no chão e tirando dois pedaços de papel de dentro de uma caixa. Olhei curiosa e ele me entregou o primeiro.
Minha respiração falhou quando reconheci a única conversa em papel que tivemos, durante uma aula de Inglês. Era algo sem sentido e boba, mas quando cheguei em casa não pude deixar de suspirar por dias. Ele tinha perdido seu tempo trocando bilhetes comigo, e agora eu sabia que tinha guardado para si! Eu não podia acreditar que tantos anos se passaram, e um papel que achei que estava perdido no lixo estava repousado dentro de uma caixa de memórias dele. Soltei o ar surpresa e ele deu de ombros, rindo envergonhado. Depois me entregou o segundo papel, e quando achei que não poderia mais suportar tantas surpresas, notei que era uma foto onde eu, ele e aparecíamos. A foto tinha sido tirada por alguém que eu não me lembrava o nome, e eu nunca tive a oportunidade de vê-la. Eu parecia uma bagunça, como sempre fora, mas os dois amigos, tantos anos mais novos, eram bonitos e confiantes. Eu ri alto, horrorizada com a forma como o passado pode nos condenar.
- Por que você guardou essas coisas? – Perguntei depois de um tempão, intercalando minha visão de um papel para outro e para o seu rosto iluminado.
- Não sei. Queria ter uma lembrança da garota que me ensinou que o Grand Canyon não fica na Argentina. – Ele disse e eu ri de novo, porque ele se lembrou daquela aula de Geografia.
- Você não tem ideia do quanto estou tocada. – Zombei, do fundo do meu coração, e ele riu me puxando para outro beijo. Correspondi o arrastando para a cama comigo, onde me encaixei em seu colo e fizemos os papéis voarem para longe. De repente uma luz se acendeu em minha cabeça e eu separei nossas bocas. – E quanto a Lyla? A garota de hoje? – Perguntei, me lembrando daquela vadia pendurada no pescoço dele no começo da festa.
- Nada além de uma fossa porque o namorado dela foi para os Estados Unidos. Eu não tenho mais nada com ela há tempos. – Respondeu firmemente. Concordei e desviei o seu olhar para encarar a parede do quarto.
- , podemos só aproveitar o momento e resolver toda a nossa bagagem amanhã? – Ele pediu e eu concordei quase rindo do nosso raciocínio mútuo. Eu não queria pensar no tanto de problemas que teríamos que desviar para entender tudo o que estava acontecendo. – Ahn... Eu sei que esse é tecnicamente o nosso primeiro encontro, mas... – Ele começou a falar, sem jeito, e eu já entendi aonde queria chegar.
Mesmo já quase idosa e com muitas histórias para contar, eu corei. Depois dei uma risada.
- Pelo amor de Deus, cara. Faz o que você quiser comigo. – Implorei e ele entendeu aquilo como o estopim para continuar. Eu só sabia que o toque das suas mãos pelo meu corpo deixava uma trilha de arrepios enlouquecedores que me levavam à beira do abismo. O seu cheiro se impregnava em minha pele da mesma forma que o meu fazia na dele, e eu quis deixar isso se concretizar assim que estiquei meus dedos até a barra da sua camiseta e a puxei para cima. O calor que ele exalava me deixava entorpecida, e os gemidos que eu deixava escapar por entre meus lábios a cada mordida que ele me fornecia eram como combustível para o seu fogo incontrolável. Antes que eu pudesse perceber, estávamos nus e suas mãos já tinham explorado cada milímetro do meu corpo, tomando meus seios entre seus dedos e seus lábios. Eu nem mesmo me preocupava com a vergonha que poderia estar sentindo ao estar ali, vulnerável ao cara que destruiu meu coração há tantos anos. E o queria, ele me queria, e era o bastante para apagar qualquer vestígio do nosso passado conturbado. Seus dedos eram ágeis e espertos, e meu corpo se contorcia a cada investida. As entradas dos nossos corpos se encaixavam ridiculamente, e senti-lo dentro de mim me fez perceber que do passado adiante, nada mais estava incompleto. Ele investia contra o meu corpo sem se importar com a minha reação, e em troca eu fincava minhas unhas contra a pele macia das suas costas torneadas e prendia minhas pernas ao redor da sua cintura com força. Nossos lábios não conseguiam parar quietos um sobre o outro, então eu tratava de prender meus dentes em seu ombro e ele mordia sua própria boca para não deixar gemidos mais altos que os meus escaparem. Enquanto no último andar daquele prédio nossos amigos não faziam ideia da onde estávamos, me levava ao clímax da melhor forma que podia, e em meio a risadas, ele tampava minha boca para evitar que eu não gritasse alto o bastante para os vizinhos se incomodarem. Eu mal podia respirar, e tinha tanto suor entre nossos corpos e no meu cabelo que de repente a primavera do lado de fora parecia ter se tornado um verão de quarenta graus. Permanecemos naquela posição por muito tempo, repetindo o que quer que estivéssemos fazendo. Eu não sei se poderia chamar de sexo algo feito com tanta destreza por ambas as partes tão intensamente. Nos conhecemos centímetro a centímetro até que o cansaço nos abateu e eu me apertei contra seu corpo, fechando os olhos e respirando fundo diversas vezes. Encaixamo-nos embaixo do seu edredom e agora não importava quem estava por baixo ou por cima, éramos um casal mal feito em forma de conchinha. Ele brincou com meu cabelo e com o meu nariz, correndo seus dedos pela minha cintura. O silêncio se esticou por um tempo indeterminado até que sua voz me despertou de um devaneio bom e saudável.
- Você ainda me ama? – Perguntou de repente, me desnorteando. – Do jeito que... Você falou. – Demorei para entender que aquilo era mesmo uma pergunta.
Como podia fazer uma pergunta daquela depois de tanta coisa ter acontecido? Como eu poderia responder claramente sem pensar antes?
- Não. Não como antes. – Eu consegui responder. Era uma resposta sincera. Talvez eu ainda o amasse um pouquinho que fosse porque ele sempre seria meu primeiro amor, mas nunca como fora aquela paixão infantil e doente que agora era curada pelo tempo. Anos tinham se passado e nada seria como era antes. O que estavam se formando ali eram novas histórias, e eu não queria reviver o passado.
- Acha que pode recuperar aquele sentimento? – Ele perguntou, me surpreendendo de novo.
O que queria dizer com aquilo? Queria que eu o amasse? Por quê? Ele me amava? Por que importava tanto para ele de repente? Eram tantas perguntas e eu estava tão cansada para pensar em tudo aquilo. Só queria dormir e então no dia seguinte decidir que aquilo tudo tinha valido a pena. Eu tinha voltado e cumprido a minha meta? Teria feito a coisa certa naquela noite ou ela só seria mais uma das milhares de coisas que eu tinha na minha lista de arrependimentos?
- ? – Ele me chamou. Eu devia ter quase apagado e demorado para responder.
- Se você puder trabalhar nisso comigo, eu posso tentar. – Murmurei, me divertindo com minha resposta antes de cair no sono.
- Com você eu acho que posso tentar tudo o que nunca tive a coragem de tentar, garota. – Ele sussurrou contra meus cabelos. Mas eu já não podia ouvir mais, estava presa no mundo dos sonhos que ele tanto frequentara, mas que agora podia se libertar porque fazia parte da realidade. Pelo menos era o que eu gostava de achar.

Fim

 

Comentários da autora



Quem quer um reencontro desse com a primeira paixão da escola levanta a mão o/ hahahaha. Oi gente, como vão vocês? Eu vou bem. Like You Were Never Gone (nome inspirado na minha música favorita do The Script, If You Ever Come Back) é a minha segunda shortfic publicada, e acho que a melhor rs. Eu vou contar um segredo para vocês: Eu tive um sonho, e a partir desse sonho eu escrevi ela. Vocês devem estar pensando: ?nossa, mas que sonho foi esse hein, alê!?, POIS EU nem comento :x Mas enfim, eu espero que gostem, comentem muito, e claro, indiquem para os amigos. Confiram também minhas outras fanfics já publicadas aqui no site: One Drink Away (McFLY/Shortfic) e Here Comes The Baby (Outros/Em Andamento)! Espero que gostem também. Um beijinho e até a próxima <3